Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

segunda-feira, 7 de julho de 2025

Muddy Waters


Muddy Waters
' as águas lamacentas do mississippi '

McKinley Morganfield nasceu provavelmente em 4 de abril de 1913, no condado de Issaquena, estado do Mississipi, EUA. A data é incerta devido ao apagamento histórico e da negligência institucional dos registros da população negra devido às leis (jim crown) de segregação racial.

Resgatando esse gigante da música, pode-se dizer que a cena pós-guerra blueseira de Chicago, sem a magnífica contribuição de Muddy Waters, é absolutamente inimaginável. Dos anos 40 em frente, ele eloquentemente definiu um estilo agressivo, arrogante, calcado na música do Delta, com seus vocais declamatórios e penetrante ataque de "slide guitar". De fato, Waters foi um produto do fértil Delta do rio Mississippi. Nascido McKinley Morganfield, em Rolling Fork, ele cresceu perto de Clarksdale, na fazenda Stovall.
Seu ídolo era o poderoso Son House, um patriarca do Delta cujo trabalho golpeado de slide e intensidade intimidante Waters iria emular no futuro, ao seu próprio estilo. O pesquisador Alan Lomax viajou por aquela região em agosto de 1941 a trabalho pela Biblioteca do Congresso Americano, em busca de novos talentos e na tentativa de realizar gravações de campo. Ao descobrir Morganfield, Lomax deve ter percebido imediatamente que havia esbarrado em alguém muito especial. 

Com seu equipamento portátil, Lomax capturou para a posteridade uma hipnotizante versão de "I be's Troubled" (que se tornaria um grande sucesso quando regravada, anos depois, para a Chess, renomeada para "I Can't Be Satisfield"). Lomax retornaria, no verão seguinte, para registrar também sua perícia no "bottleneck" e gravar faixas com os "Son Simms Four" (uma banda de cordas a qual Waters pertencia). O apelido vinha de sua bravura em tocar pelo Delta, mas ele só ganharia destaque em 1943 ao migrar para as luzes de Chicago.
O produtor Lester Melrose acompanharia Waters num registro para a Columbia, mas as melodias urbanas daquelas faixas não impressionariam ninguém na hierarquia do selo e ficariam arquivadas por décadas. O pianista Sunnyland Slim teria um papel importante na decolagem da carreira de Waters. Ele convidaria-o para participar de uma sessão de gravação em 1947 que registraria a faixa "Johnson Machine Gun". Waters, que trabalhava de dia numa firma de persianas, teria que mentir ao seu chefe, alegando a morte de um primo, para só assim participar desta oportunidade de ouro. Ao final da sessão, Waters havia cantado 2 faixas ("Little Anna Mae" e "Gypsy Woman", esta se tornaria sua estreia no selo Aristocrat, em 78 rotações).
Logo depois, ele reuniria uma banda tão coesa e viciante no palco que passaria a ser conhecido como "The Headhunters": Little Walter (que revolucionaria o papel da harmônica dentro do blues de Chicago), Jimmy Rogers (um guitarrista-base sensacional) e "Baby Face" Leroy Foster (capaz de tocar bateria e guitarra). Além disto, todos sabiam cantar poderosamente. Em 1951, Waters começou a aparecer nas paradas de R&B ("Louisiana Blues", "Long Distance Call", "Honey Bee", 'Still A Fool"). "Rollin' Stone", outra faixa desta época, não alcançaria sucesso, mas forneceria nome a uma nascente banda do rock inglês. Em 1952, viria o sucesso com "She Moves Me". Em 1953, "Mad Love" traria o piano de Otis Spann, que ancoraria a banda de Waters pelos 16 anos seguintes.
Só havia um problema em se ter uma banda tão boa: a marca registrada de Waters, o slide, ficaria ausente em muitas destas gravações para a Chess. Willie Dixon, o grande baixista, passou a tocar com Waters e a lhe fornecer composições especialmente escritas para ele: "I'm Your Hoochie Coochie Man", "Just Make Love To Me" e "I'm Ready", todas grandes sucessos em 1954. Quando seu colega de gravadora Bo Diddley pegou emprestado a batida de Waters para a sua "I'm A Man", em 1955, ele devolveu na mesma moeda e fez "Mannish Boy" outro grande sucesso. "Sugar Sweet" seria outro destaque daquele ano.
Em 1956, novos hits: "Trouble No More", "Forty Days & Forty Nights" e "Don't Go No Farther", entretanto o crescimento do Rock & Roll rapidamente ofuscava o brilho das estrelas do blues. A Chess passou a se dedicar aos modernos sons de Chuck Berry, Bo Diddley, The Moonglows e The Flamingos. Ironicamente, havia sido Waters quem trouxera Berry para a Chess. E assim, só haveria mais uma faixa a escalar as paradas: "Close To You", em 1958, ainda que a qualidade da produção de Waters para a Chess permanecesse sensacional em pérolas como "Walking Thru The Park" (numa linha bem próxima do estilo rock) e "She's Nineteen Years Old". Este, ainda, seria o ano em que Waters faria sua primeira visita à Inglaterra onde sua guitarra eletrificada deixaria sedados os britânicos acostumados à música folk caseira de Big Bill Broonzy. Talvez, para amenizar, Waters tenha pago tributo num sólido LP com material de Broonzy, em 1959. "Got My Mojo Working" originalmente havia sido gravada em 1956 sem qualquer sucesso.
Mas quando a banda pisou no palco do Newport Jazz Festival, em 1960, e detonou uma versão eletricamente supercarregada, com James Cotton (harmônica) e Spann colocando um ritmo totalmente novo, ela tornar-se-ia instantaneamente um clássico. À medida que a década de 60 evoluia, os discos de Waters para a Chess passariam a soar algo cansados. Em 1962, colocando vocais numa faixa instrumental de Earl Hooker, "You Shook Me", Waters acertaria a direção, tanto que o Led Zeppelin, anos depois, ficaria tão fascinado que a recriaria.
Durante o renascimento do "Folk Blues", Waters voltaria ao estilo no LP "Folk Singer", no qual receberia o soberbo apoio do jovem guitarrista Buddy Guy, com Dixon no baixo e Clifton James na bateria. Ao longo desta década, sua banda mudaria muito mas sempre mantendo a qualidade. Em 1964, Waters gravaria suas 2 últimas joias para a Chess: "The Same Thing" e "You Can't Lose What You Never Had". Infelizmente, quase tudo que registraria depois seria esquecível, com destaque negativo para a horrível aventura pela psicodelia, em "Electric Mud", de 1968. Parcialmente salvando este período de baixa, há o projeto "Fathers And Sons" (de 1969), também para a Chess, junto com Spann, Paul Butterfield e Mike Bloomfield numa espécie de celebração do legítimo blues de Chicago.

Então, após um período de muitas turnês mundiais, mas de gravações de pequeno destaque, Waters ressuscitou-se em estúdio pela ajuda de um de seus discípulos, o guitarrista Johnny Winter. "Hard Again", gravado pela Blue Sky (uma subsidiária da Columbia) é um reencontro do grande Waters rugindo como um leão, assessorado por Pinetop Perkins (piano), Willie Smith (bateria), Bob Margolin (guitarras), os 3 de sua banda de turnês, mais James Cotton e Winter (guitarras incendiárias). Os 3 álbuns seguintes manteriam o ótimo nível. Por ocasião de sua morte, em 1983, o lugar de Muddy Waters na história do Blues (e da música popular do século 20) já estava eternamente assegurado. Mas o gênero que ele carregou ao longo dos anos, o blues de Chicago, nunca se recuperaria de tamanha perda.

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