Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

domingo, 31 de maio de 2026

Ella Fitzgerald: Dica de Álbuns


Seis discos primorosos:

Ella Fitzgerald

Quando o músico tem uma carreira tão extensa como a de Ella Fitzgerald – foram 59 anos em cima dos palcos -, pode ser difícil começar a ouvir seu trabalho.
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Chick Webb with Ella Fitzgerald – Princess of the Savey (1936 – 1939).

“São as primeiras gravações de Ella e seus primeiros sucessos, que de cara arrebataram o público e a crítica. O engraçado é que, nesse começo, ela tentava imitar o estilo de outra cantora, Connee Boswel, de quem era fã desde pequena. Mas é claro que, mesmo sem querer, ela acabou desenvolvendo seu estilo próprio e marcante. Outro fato importante sobre o disco é que, certa vez, a jovem Ella, então com 17 anos, estava caminhando pela rua e ouviu suas músicas tocando em uma loja de discos. Emocionada, ela foi tentar entrar, mas acabou barrada por ser negra”, diz Marques.

Ella sings Gershwin (1950).

“É um disco lindo: Ella cantando as composições do pianista George Gershwin. O disco inteiro é só a voz de Ella acompanhada do piano do Ellis Larkins, um pianista incrível de jazz que faz algo muito difícil: harmoniza-se com a voz da cantora e jamais se sobrepõe a ela. Como este álbum é um dos primeiros, dá para perceber como a voz dela era mais encorpada na juventude do que mais tarde, na velhice, quando se tornou mais fina. Com a maioria das cantoras acontece justamente o contrário, a voz vai engrossando durante a vida”.

Ella and Louis (1956).

“Os dois grandes irmãos do jazz se encontram. Dois gênios do improviso. Na capa, vemos Ella muito verdadeira, tímida e reservada como sempre foi. Ao mesmo tempo, Armstrong está do jeito que o conhecemos: risonho e brincalhão. O LP, além de ter sessões de scat incríveis, é muito divertido, porque os dois são muito eles mesmos durante as canções – então acaba sendo um verdadeiro clássico. É incrível como tanto Armstrong quanto Ella, que sofreram tanto com o problema racial, conseguiam emitir tanta força, beleza e amor em suas músicas”.

Ella in Hollywood (1961).

“Foi gravado ao vivo em Hollywood, com umas 200 pessoas assistindo. Aqui, Ella canta acompanhada de um trio de jazz liderado por Lou Lev, e estava no auge da carreira e da voz. É um desbunde de improvisação: algumas das faixas têm nove minutos de puro improviso dos instrumentos e, claro, de scat [técnica de canto criada por Louis Armstrong]”.

The Complete Ella Fitzgerald Songbooks (1956 -1964).

“Não é exatamente um disco, são oito. Mas não dá para falar de Ella Fitzgerald sem falar de seus songbooks, que eram as coletâneas da cantora interpretando grandes composições de artistas americanos. Os songbooks são verdadeiras lendas, nas quais Ella faz algo bem diferente do bebop, que vinha cantando até então”.

Ella at Duke’s Place (1965).

“Outro encontro de gigantes: a maior voz do jazz e o maior band lider, da maior orquestra de jazz, na minha opinião e de muitos outros. Tem uma energia maravilhosa, memorável, até porque o lado um é romântico e traz músicas mais lentas, e o dois é mais dançante, o que dá um equilíbrio bem legal ao disco, e mostra que Ella era capaz de cantar o que quer que fosse sem colocar a perder sua qualidade vocal”.
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À pedido da Cult, o pesquisador Euclides Marques selecionou os discos que, em sua opinião, são essenciais para compreender a trajetória musical de Ella, nascida há 100 anos. Marques é curador do Vinilcultura, projeto que realiza eventos com o objetivo de popularizar a música em vinil.



Ella Fitzgerald


Ella Fitzgerald
' A Dama da Canção '

Apelidada de "A Primeira Dama da Canção", Ella Fitzgerald foi a cantora de jazz mais popular dos Estados Unidos por mais de meio século. Ao longo de sua vida, ela ganhou 13 prêmios Grammy e vendeu mais de 40 milhões de álbuns.

Sua voz era flexível, de grande alcance, precisa e atemporal. Ela conseguia cantar baladas sensuais, jazz suave e imitar todos os instrumentos de uma orquestra. Trabalhou com todos os grandes nomes do jazz, de Duke Ellington, Count Basie e Nat King Cole a Frank Sinatra, Dizzy Gillespie e Benny Goodman.

Ela se apresentou nos melhores locais do mundo todo, sempre lotando. Seu público era tão diverso quanto sua extensão vocal. Era composto por pessoas ricas e pobres, de todas as raças, religiões e nacionalidades. Aliás, muitas delas tinham apenas um fator em comum: todas a amavam.

Humilde, mas feliz começo.

Ella Jane Fitzgerald nasceu em Newport News, Virgínia, em 25 de abril de 1917. Seu pai, William, e sua mãe, Temperance (Tempie), se separaram logo após seu nascimento. Juntos, Tempie e Ella foram para Yonkers, Nova York, onde eventualmente foram morar com Joseph Da Silva, namorado de longa data de Tempie. A meia-irmã de Ella, Frances, nasceu em 1923 e logo começou a se referir a Joe como seu padrasto.

Teatro Apollo, a casa dos artistas negros diante da segregação.

Para sustentar a família, Joe cavava valas e trabalhava como motorista em tempo parcial, enquanto Tempie trabalhava em uma lavanderia e fazia alguns serviços de bufê. Ocasionalmente, Ella também aceitava pequenos trabalhos para contribuir com dinheiro. Talvez ingênua em relação às circunstâncias, Ella trabalhava como mensageira para apostadores locais, recolhendo suas apostas e entregando o dinheiro.

O apartamento delas ficava em um bairro misto, onde Ella fazia amigos facilmente. Ela se considerava mais moleca e frequentemente participava dos jogos de beisebol da vizinhança. Além dos esportes, ela gostava de dançar e cantar com as amigas, e em algumas noites elas pegavam o trem para o Harlem e assistiam a apresentações no Teatro Apollo.

Uma fase difícil.

Em 1932, Tempie morreu devido aos ferimentos graves sofridos em um acidente de carro. Ella ficou muito abalada com a perda. Depois de ficar um curto período com Joe, a irmã de Tempie, Virginia, levou Ella para casa. Pouco tempo depois, Joe sofreu um ataque cardíaco e morreu, e sua irmãzinha, Frances, se juntou a eles.

Incapaz de se adaptar às novas circunstâncias, Ella tornou-se cada vez mais infeliz e entrou em um período difícil de sua vida. Suas notas caíram drasticamente e ela faltava às aulas com frequência. Depois de se envolver com a polícia, foi detida e enviada para um reformatório. Viver lá era ainda mais insuportável, pois sofria espancamentos nas mãos de seus cuidadores.

Por fim, Ella escapou do reformatório. Aos 15 anos, se viu sem dinheiro e sozinha durante a Grande Depressão e lutou para sobreviver.

Nunca de reclamar, Ella refletiu mais tarde sobre seus anos mais difíceis com gratidão por como eles a ajudaram a amadurecer. Ela usou as lembranças desses tempos para ajudar a reunir emoções para as apresentações e sentiu-se mais grata por seu sucesso porque sabia o que era lutar na vida.

Em 1934, o nome de Ella foi sorteado semanalmente no Apollo e ela ganhou a oportunidade de competir na Noite dos Amadores. Ella foi ao teatro naquela noite com a intenção de dançar, mas quando as frenéticas Irmãs Edwards encerraram o espetáculo principal, Ella mudou de ideia. "Elas eram as irmãs que mais dançavam", disse Ella, e sentiu que sua apresentação não se compararia à delas.

Já no palco, sob vaias e murmúrios de "O que ela vai fazer?" da plateia barulhenta, uma Ella assustada e desgrenhada tomou a decisão de última hora de cantar. Ela pediu à banda que tocasse "Judy", de Hoagy Carmichael, uma música que conhecia bem, pois a interpretação de Connee Boswell era uma das favoritas de Tempie. Ella rapidamente acalmou a plateia, e ao final da música, eles pediam um bis. Ela atendeu ao pedido e cantou o lado B do disco das Boswell Sisters, "The Object of My Affections".

Fora do palco e longe das pessoas que conhecia bem, Ella era tímida e reservada. Ela se sentia insegura com sua aparência e, por um tempo, chegou a duvidar de suas habilidades. No palco, porém, Ella se surpreendeu ao descobrir que não sentia medo algum. Ela se sentia em casa sob os holofotes.

“Assim que subi ao palco, senti a aceitação e o carinho do meu público”, disse Ella. “Eu sabia que queria cantar para as pessoas pelo resto da minha vida.”

Naquela noite, a banda contava com o saxofonista e arranjador Benny Carter. Impressionado com o talento natural dela, ele começou a apresentar Ella a pessoas que poderiam ajudá-la a lançar sua carreira. Nesse processo, ele e Ella se tornaram amigos para a vida toda, trabalhando juntos com frequência.

Incentivada por fãs entusiasmados, Ella começou a participar — e a vencer — todos os concursos de talentos que encontrava. Em janeiro de 1935, ganhou a oportunidade de se apresentar por uma semana com a banda de Tiny Bradshaw no Harlem Opera House. Foi lá que Ella conheceu o baterista e líder da banda, Chick Webb. Embora sua voz o tenha impressionado, Chick já havia contratado o cantor Charlie Linton para a banda. Ele ofereceu a Ella a oportunidade de fazer um teste com a banda quando eles tocassem em um baile na Universidade de Yale.


"Se as crianças gostarem dela", disse Chick, "ela fica". Apesar do público exigente, Ella fez um enorme sucesso e Chick a contratou para viajar com a banda por US$ 12,50 por semana.

Em meados de 1936, Ella fez sua primeira gravação. "Love and Kisses" foi lançada pela gravadora Decca, com sucesso moderado. Nessa época, ela já se apresentava com a banda de Chick no prestigiado Savoy Ballroom do Harlem, muitas vezes chamado de "O Salão de Baile Mais Famoso do Mundo".

Pouco depois, Ella começou a cantar uma versão da música "(If You Can't Sing It) You Have to Swing It". Nessa época, a era das grandes bandas de swing estava mudando, e o foco se voltava mais para o bebop. Ella explorou o novo estilo, muitas vezes usando sua voz para assumir o papel de mais um instrumento de sopro na banda. "You Have to Swing It" foi uma das primeiras vezes em que ela começou a experimentar o scat singing, e sua improvisação e vocalização encantaram os fãs. Ao longo de sua carreira, Ella dominaria o scat singing, transformando-o em uma forma de arte.

Em 1938, aos 21 anos, Ella gravou uma versão divertida da cantiga infantil "A-Tisket, A-Tasket". O álbum vendeu 1 milhão de cópias, alcançou o primeiro lugar e permaneceu nas paradas de sucesso por 17 semanas. De repente, Ella Fitzgerald estava famosa.

Encontrando seu próprio caminho.

Em 16 de junho de 1939, Ella lamentou a perda de seu mentor, Chick Webb. Na ausência dele, a banda foi renomeada para "Ella Fitzgerald and Her Famous Band" e ela assumiu a árdua tarefa de líder da banda.

Talvez em busca de estabilidade e proteção, Ella casou-se com Benny Kornegay, um estivador local que a cortejava. Ao descobrir que Kornegay tinha antecedentes criminais, Ella percebeu que o relacionamento fora um erro e anulou o casamento.

Durante uma turnê com a banda de Dizzy Gillespie em 1946, Ella se apaixonou pelo baixista Ray Brown. Os dois se casaram e, eventualmente, adotaram um filho, a quem deram o nome de Ray Jr.

Na época, Ray trabalhava para o produtor e empresário Norman Granz na turnê "Jazz at the Philharmonic". Norman percebeu que Ella tinha o que era preciso para se tornar uma estrela internacional e a convenceu a assinar contrato com ele. Foi o início de uma relação profissional e de amizade que duraria a vida toda.

Sob a gestão de Norman, Ella juntou-se à turnê da Filarmônica, trabalhou com Louis Armstrong em vários álbuns e começou a produzir sua famosa série de songbooks. De 1956 a 1964, ela gravou covers de álbuns de outros músicos, incluindo Cole Porter, Duke Ellington, os irmãos Gershwin, Johnny Mercer, Irving Berlin e Rodgers e Hart. A série foi um enorme sucesso, tanto entre os fãs de Ella quanto entre os artistas que ela homenageou.

"Eu nunca soube o quão boas eram nossas músicas até ouvir Ella Fitzgerald cantá-las", comentou Ira Gershwin certa vez.

Ella também começou a aparecer em programas de variedades na televisão. Ela rapidamente se tornou uma das favoritas e convidada frequente em diversos programas, incluindo “The Bing Crosby Show”, “The Dinah Shore Show”, “The Frank Sinatra Show”, “The Ed Sullivan Show”, “The Tonight Show”, “The Nat King Cole Show”, “The Andy Williams Show” e “The Dean Martin Show”.

Devido à agenda de turnês intensa, Ella e Ray ficavam frequentemente longe de casa, o que tensionava o vínculo com o filho. No fim, Ray Jr. e Ella se reconectaram e reconstruíram seu relacionamento.

"Tudo o que posso dizer é que ela me deu tudo o que pôde", disse Ray Jr. mais tarde, "e me amou o máximo que pôde."

Infelizmente, as agendas de trabalho atribuladas também prejudicaram o casamento de Ray e Ella. Os dois se divorciaram em 1952, mas permaneceram bons amigos pelo resto de suas vidas.

Superando a discriminação.

Durante as turnês, era notório que o empresário de Ella tinha uma forte convicção sobre os direitos civis e exigia tratamento igualitário para seus músicos, independentemente da cor da pele. Norman se recusava a aceitar qualquer tipo de discriminação em hotéis, restaurantes ou casas de shows, mesmo quando viajavam para o sul profundo dos Estados Unidos.

Certa vez, durante uma turnê em Dallas com a Orquestra Filarmônica, um esquadrão da polícia, irritado com os princípios de Norman, invadiu os bastidores para importunar os artistas. Eles entraram no camarim de Ella, onde os membros da banda Dizzy Gillespie e Illinois Jacquet estavam jogando dados, e prenderam todos.

"Eles nos levaram para baixo", Ella lembrou mais tarde, "e quando chegamos lá, tiveram a audácia de pedir um autógrafo."

Norman não foi o único disposto a defender Ella. Ela recebeu apoio de inúmeros fãs famosos, incluindo uma fervorosa Marilyn Monroe.

“Devo muito a Marilyn Monroe”, disse Ella mais tarde. “Foi por causa dela que toquei no Mocambo, uma boate muito popular nos anos 50. Ela ligou pessoalmente para o dono do Mocambo e disse que queria que eu fosse contratada imediatamente e que, se ele aceitasse, ela reservaria uma mesa na primeira fila todas as noites. Ela disse a ele – e era verdade, devido ao status de superestrela de Marilyn – que a imprensa ficaria alvoroçada. O dono concordou, e Marilyn estava lá, na primeira fila, todas as noites. A imprensa foi à loucura. Depois disso, nunca mais precisei tocar em um pequeno clube de jazz. Ela era uma mulher incomum – um pouco à frente de seu tempo. E ela não sabia disso.”

Reconhecimento mundial

Apesar dos efeitos negativos em sua saúde, Ella continuou a trabalhar com a mesma intensidade do início de sua carreira. Ela fez turnês pelo mundo todo, às vezes apresentando-se em dois shows por dia em cidades a centenas de quilômetros de distância. Em 1974, Ella passou duas semanas memoráveis ​​se apresentando em Nova York com Frank Sinatra e Count Basie. Cinco anos depois, ainda em plena atividade, ela foi incluída no Hall da Fama da revista Down Beat e recebeu a homenagem do Kennedy Center por suas contínuas contribuições para as artes.

Fora do mundo das artes, Ella tinha uma profunda preocupação com o bem-estar infantil. Embora esse aspecto de sua vida raramente fosse divulgado, ela frequentemente fazia doações generosas para organizações que atendiam jovens carentes, e a continuidade dessas contribuições era parte da força motriz que a impedia de diminuir o ritmo. Além disso, quando Frances faleceu, Ella sentiu que tinha a responsabilidade adicional de cuidar da família de sua irmã.

Em 1987, o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, concedeu a Ella a Medalha Nacional das Artes. Foi um dos momentos mais preciosos para ela. A França seguiu o exemplo alguns anos depois, concedendo-lhe a Comendadora das Artes e das Letras, enquanto Yale, Dartmouth e diversas outras universidades lhe conferiram doutorados honorários.

Fim de uma era.

Em setembro de 1986, Ella foi submetida a uma cirurgia de ponte de safena quíntupla. Os médicos também substituíram uma válvula cardíaca e diagnosticaram diabetes, atribuindo a ela a perda de visão. A imprensa espalhou rumores de que ela nunca mais conseguiria cantar, mas Ella provou que estavam errados. Apesar dos protestos de familiares e amigos, incluindo Norman, Ella retornou aos palcos e seguiu com uma agenda exaustiva.

Na década de 1990, Ella já havia gravado mais de 200 álbuns. Em 1991, ela fez seu último show no renomado Carnegie Hall, em Nova York. Foi a 26ª vez que ela se apresentou lá.

Com o agravamento dos efeitos da diabetes, Ella, de 76 anos, passou a ter graves problemas circulatórios e foi obrigada a amputar ambas as pernas abaixo dos joelhos. Ela nunca se recuperou totalmente da cirurgia e, depois disso, raramente conseguia se apresentar. Durante esse período, Ella gostava de sentar-se no quintal de casa e passar tempo com Ray Jr. e sua neta Alice.


"Só quero sentir o cheiro do ar, ouvir os pássaros e ouvir a risada da Alice", disse ela.

Em 15 de junho de 1996, Ella Fitzgerald faleceu em sua casa em Beverly Hills. Horas depois, homenagens começaram a surgir em todo o mundo. Uma coroa de flores brancas foi colocada ao lado de sua estrela na Calçada da Fama de Hollywood, e um letreiro do lado de fora do teatro Hollywood Bowl anunciava: "Ella, sentiremos sua falta".

Após uma cerimônia memorial privada, o trânsito na rodovia foi interrompido para permitir a passagem do cortejo fúnebre. Ela foi sepultada na seção "Santuário dos Sinos" do Mausoléu da Missão Sunset, no Cemitério Inglewood Park, em Inglewood, Califórnia.




sábado, 30 de maio de 2026

Eric Clapton


Eric 'Slowhand' Clapton

Eric Patrick Clapton nasceu em 30 de março de 1945 na casa de seus avós, em One The Green, Ripley, Surrey, Inglaterra. Ele era filho de Patricia Molly Clapton, de 16 anos, e de Edward Walter Fryer, de 24 anos, que estava em serviço militar na Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial. Era extremamente difícil para uma jovem solteira de 16 anos criar um filho sozinha em meados da década de 1940. Os pais de Pat, Rose e Jack Clapp, assumiram o papel de pais substitutos e criaram Eric como se fosse seu próprio filho. Assim, ele cresceu acreditando que sua mãe era sua irmã. Seus avós nunca o adotaram legalmente, mas permaneceram seus tutores legais até 1963. O sobrenome de Eric vem do primeiro marido de Rose e pai de Pat, Reginald Cecil Clapton (falecido em 1933).

Eric cresceu em um lar musical. Sua avó tocava piano e seu tio e sua mãe gostavam de ouvir o som das big bands. Mais tarde, Pat contou ao biógrafo oficial de Eric, Ray Coleman, que seu pai era um músico talentoso, tocando piano em várias bandas de baile na região de Surrey.

Quieto e educado, ele era considerado um aluno acima da média, com aptidão para a arte. Mas, desde os primeiros anos na escola, percebeu que algo estava errado quando escrevia seu nome como "Eric Clapton" e o nome de seus pais como "Sr. e Sra. Clapp". Aos nove anos, descobriu a verdade sobre sua origem quando Pat retornou à Inglaterra com seu meio-irmão de seis anos para uma visita. Esse evento singular o afetou profundamente e foi um momento decisivo em sua vida. Ele se tornou melancólico e distante, e parou de se dedicar aos estudos. Marcado emocionalmente por esse acontecimento, Eric foi reprovado nos importantíssimos exames de admissão ao ensino secundário. Foi então transferido para a St. Bede's Secondary Modern School e, dois anos depois, ingressou no curso de artes da Holyfield Road School.

Em 1958, o rock and roll explodiu no mundo. No seu aniversário de 13 anos, Eric pediu uma guitarra. Achando a guitarra Hoyer, barata e fabricada na Alemanha, difícil de tocar — ela tinha cordas de aço —, ele a deixou de lado. Em 1961, aos 16 anos, Eric começou a estudar no Kingston College of Art em regime de estágio probatório de um ano. Ele foi expulso ao final desse período por falta de progresso, já que não havia entregado trabalhos suficientes. O motivo? Tocar guitarra e ouvir blues dominavam seus momentos de vigília.

“Eric olhou além da superfície e explorou as raízes do rock no blues"

O blues também combinava perfeitamente com a sua autoimagem de ser um forasteiro e de ser "diferente" das outras pessoas. Em algum momento de 1962, ele pediu ajuda aos avós para comprar uma guitarra elétrica Kay de corpo duplo (uma réplica da Gibson ES-335) por 100 libras, depois de ouvir o blues elétrico de Freddie King, BB King, Muddy Waters, Buddy Guy e outros.
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A história artística de Eric Clapton por dez álbuns preferidos.

O começo com os The Yardbirds, 1964.

Eric passou seus primeiros anos na música tocando nas ruas de Richmond e Kingston, e também começou a frequentar Londres e o West End. No início de 1963, aos 17 anos, Eric entrou para sua primeira banda, The Roosters. Após o fim da banda em agosto de 1963, ele passou um mês na banda pop Casey Jones and The Engineers. Antes de se dedicar à música em tempo integral, ele se sustentou como operário em canteiros de obras, trabalhando ao lado de seu avô, um mestre pedreiro e gesseiro.

Em outubro de 1963, Keith Relf e Paul Samwell-Smith o recrutaram para integrar os Yardbirds, pois Clapton era o guitarrista mais comentado no circuito de pubs de R&B. Durante seus 18 meses com os Yardbirds, ele ganhou o apelido de Slowhand (Mão Lenta) e gravou seus primeiros álbuns: Five Live Yardbirds & Sonny Boy Williamson e For Your Love. A banda também gravou o single "Good Morning Little Schoolgirl". Mas Eric não havia abandonado sua profunda pesquisa sobre o blues. Quando os Yardbirds começaram a se direcionar para um som mais comercial com o single "For Your Love", ele saiu da banda. Seu interesse na música era o blues.

Em abril de 1965, John Mayall convidou Eric para se juntar à sua banda, John Mayall's Bluesbreakers. Com esse grupo, Clapton consolidou sua reputação como guitarrista e ganhou uma homenagem escrito num muro de Londres: "Clapton Is God". O apelido surgiu de um grafite de um admirador na parede da estação de metrô Islington, em Londres, que proclamava ousadamente: "Clapton é Deus". A passagem de Eric pela banda foi turbulenta e ele chegou a sair por um tempo para fazer uma turnê pela Grécia com outros amigos músicos. Ao retornar, Eric voltou para os Bluesbreakers. Foi durante esse período que o clássico álbum: "Blues Breakers With Eric Clapton" foi gravado. Enquanto estava com os Bluesbreakers, Eric também gravou uma sessão única de quatro canais com uma banda chamada "The Powerhouse", músicos de estúdio que incluía o futuro multi-instrumentista do Led Zeppelin, John Paul Jones, mais o tecladista Steve Winwood e o baixista Jack Bruce.

Após deixar os Bluesbreakers pela segunda e última vez em julho de 1966, Eric Clapton juntou-se ao próprio Jack Bruce, que também era compositor e vocalista, junto ao baterista Ginger Baker para formarem o famoso power trio de blues-rock: CREAM. Extensas turnês pelos EUA e três álbuns de sucesso — Fresh Cream, Disraeli Gears e Wheels of Fire — trouxeram à banda aclamação mundial. Enquanto membro do Cream, ele consolidou sua reputação como o principal guitarrista do rock e alcançou o status de superestrela. Jimi Hendrix só aceitou a proposta do seu empresário de ir montar sua banda na inglaterra com a condição de poder conhecer seu preferido e admirado guitarrista, 'Eric Clapton'.

Embora o Cream tenha existido por apenas dois anos, é considerado um dos grupos de rock mais influentes da era moderna. Clapton era único porque não se limitava a replicar os riffs de blues que ouvia em gravações. Ele incorporava a emoção das performances originais ao seu próprio estilo, expandindo assim o vocabulário da guitarra blues. O Cream se desfez sob o peso dos egos dos membros e das constantes brigas. A banda se separou após duas apresentações finais no Royal Albert Hall, em Londres, em 26 de novembro de 1968.

Após o fim do Cream, Clapton e Ginger Baker convidam o compositor e tecladista, Steve Winwood, que estava com enorme reputação com a banda Traffic, e o baixista Rick Grech, do Family, para formarem o Blind Faith – o primeiro chamado “supergrupo” do rock. 

A ideia do projeto surgiu em 1969, quando Eric Clapton e Steve Winwood começaram a fazer jams informais. Clapton queria emular na inglaterra a sonoridade da banda canadense, The Band, que havia tocado junto a Bob Dylan. Para isso, ele achava que seria preciso uma "fé cega" por parte de todos para que o projeto desse certo, o que acabou batizando o nome do grupo. A primeira apresentação pública do grupo ocorreu em 7 de junho de 1969, no Hyde Park, em Londres. O show foi um marco, atraindo cerca de 100.000 pessoas. No entanto, a banda sentiu que estava despreparada e que faltavam ensaios, gerando tensões internas desde o início.

O projeto Blind Faith se dissolveu logo após a gravação do aguardadíssimo álbum de estréia, que trouxe faixas históricas e tocadas até hoje como: Can't Find My Way Home e Presence of the Lord. A desastrosa turnê estadunidense, fez com que Eric tentasse se esconder de uma crescente "fama desgovernada", fazendo turnês como mero músico de apoio de uma dupla de compositores chamada: Delaney & Bonnie and Friends. Nessa banda, Eric foi incentivado por Delaney Bramlett a cantar e a compor mais. Um álbum ao vivo dessa turnê com Delaney & Bonnie foi lançado em 1970.

Acompanhado pelos músicos da Delaney & Bonnie, Eric grava o seu álbum solo de estreia autointitulado: 'Clapton', que foi lançado no início do mesmo ano. Principalmente trazendo elementos de blues e rock, as camadas de gospel, r&b, country e pop estavam por todo o disco, e o elemento pop do álbum está bem presente. O álbum alcançou o 13º lugar na Billboard.

No verão de 1970, Eric forma a banda 'Derek and the Dominos' com Jim Gordon (baterista), Carl Radle (baixista) e Bobby Whitlock (teclados), que faziam parte da banda de Delaney & Bonnie. Os Dominos gravaram o álbum seminal do rock, Layla and Other Assorted Love Songs. Um álbum conceitual, seu tema girava em torno do amor não correspondido de Clapton pela esposa de George Harrison, Patti Boyd. O álbum contou ainda com uma parceria fantástica de guitarristas entre Clapton e o guitarista da banda The Allman Brothers Band, Duane Allman, que tocou a maioria dos slide-guitar no disco, principalmente na icônica faixa "Layla". A banda se separaria após uma turnê estadunidense em uma tentativa fracassada de gravar um segundo álbum. 

Duramente abalado pelo fim do The Dominos, pelo fracasso comercial do álbum Layla e por um amor não correspondido, Eric mergulhou em três anos de vício em heroína. Embora raramente saísse de sua propriedade em Surrey, ele enchia caixa após caixa com fitas cassete de músicas. Ele se livrou do vício e relançou sua carreira em janeiro de 1973 com dois shows no Rainbow Theatre de Londres, organizados por seu amigo, Pete Townshend (The Who). Os shows representaram a gravação de um álbum ao vivo e um ponto de virada em sua carreira. 
Eric havia se tornado um vocalista e compositor seguro de si, além de um virtuoso da guitarra.

“Eric havia se tornado um vocalista e compositor seguro de si, além de uma referência na guitarra"

Em 1974, ele ressurgiu com um novo estilo e sonoridade lançando o álbum '461 Ocean Boulevard', um álbum muito influenciado pela filosofia e sonoridade Reggae. Uma das músicas de maior sucesso da carreira de Clapton, I Shot The Sheriff, era uma reeleitura da canção de Bob Marley. Nessa época, vieram excelentes álbuns experimentais como: There's One In Every Crowd (1975), No Reason To Cry (1976), o incrível Slowhand (1977), que trouxe as primeiras parcerias com o compositor JJ Cale, e Backless (1978). Músicas consagradas saíram desses discos como: Swing Low Sweet Chariot, Lay Down Sally, Wonderful Tonight, Cocaine, Tulsa Time e Promisses.

Just One Night é um álbum duplo ao vivo lançado em 1980, que captura a energia vibrante de Eric Clapton e demonstra todo seu repertório dos álbuns lançados durante a década de setenta. Gravado no lendário Budokan Theatre em Tóquio, Japão, o disco celebra o auge da fase serena, blueseira e virtuosa do músico, destacando a parceria lendária com o guitarrista Albert Lee. O álbum foi registrado durante duas noites históricas: 3 e 4 de dezembro de 1979. Naquela época, Clapton estava excursionando para promover seu disco de estúdio Backless (1978) e encontrou no Japão uma recepção calorosa e um público que o adorava. Para esta turnê, Clapton montou uma banda muito afiada e versátil, que deu uma nova roupagem a sucessos antigos e tocou o seu repertório recente com muita fluidez e mostrou todo seu amadurecimento no Blues. A formação incluía Albert Lee na guitarra, teclado e vocais, que serviu como uma "segunda voz" instrumental perfeita para o estilo de Clapton, e Chris Stainton nos teclados, Henry Spinetti na bateria e Dave Markee no baixo.

A cada álbum após 461 Ocean Boulevard, Eric se reinventou musicalmente. Ao longo dos anos 70 e início dos anos 80, álbuns e turnês se sucederam ano após ano. Em 1985, Clapton conquistou um novo público após sua apresentação no concerto beneficente mundial Live Aid. Apresentações anuais no Royal Albert Hall e álbuns de sucesso como August, Journeyman e a caixa Crossroads o mantiveram em evidência. No final dos anos 80, ele iniciou uma segunda carreira como compositor de trilhas sonoras para filmes.

Sua carreira decolou e atingiu novos patamares com o lançamento do álbum Unplugged e o single vencedor do Grammy, "Tears In Heaven". Gravado em 16 de janeiro de 1992 no Bray Studios, o MTV Unplugged de Eric Clapton tornou-se o álbum ao vivo mais vendido da história (mais de 26 milhões de cópias). O show foi marcado por arranjos intimistas e pela emoção crua, em especial devido ao luto do cantor pela trágica morte de seu filho, Conor, o que inspirou a canção "Tears in Heaven".

A gravação consolidou o formato acústico como um fenômeno cultural global e rendeu três prêmios Grammy em 1993, incluindo Álbum do Ano. A apresentação ocorreu diante de uma pequena plateia em Windsor, Inglaterra. Ao invés de uma produção grandiosa, a ideia foi priorizar a vulnerabilidade e a crueza dos arranjos, que transformaram a sonoridade habitual do guitarrista. O repertório mesclou grandes sucessos da carreira do artista (como uma roupagem totalmente nova e acústica para "Layla"), porém muito arranjado nos clássicos do blues que o influenciaram sempre na carreira musical.

Em 1994, Eric retornou às suas raízes no blues com o lançamento de From The Cradle. Apesar de ter construído sua fama tocando blues e rock desde os anos 60 (com bandas como The Yardbirds, Cream e Derek and the Dominos), Clapton nunca havia gravado um álbum dedicado exclusivamente ao gênero. O disco foi gravado ao vivo em estúdio ao longo de apenas duas semanas, sem edições pesadas, para manter uma sonoridade crua e autêntica. São 16 faixas, o disco é composto inteiramente por covers e regravações. Clapton prestou tributo a lendas do blues que moldaram seu estilo de tocar guitarra, incluindo músicas de: Muddy Waters, Willie Dixon, Freddie King, Howlin' Wolf e Robert Johnson.

O álbum alcançou um feito histórico: foi o primeiro trabalho de Clapton a atingir o 1º lugar nas paradas de sucesso do Reino Unido. Nos Estados Unidos, o disco também chegou ao topo da Billboard 200, consolidando ainda mais o status de "Slowhand" como uma lenda viva da guitarra. O sucesso do projeto abriu portas para que Clapton gravasse outros álbuns de blues aclamados posteriormente, como o clássico Riding with the King (com B.B. King) em 2000.

Em 1997, com a incursão da música eletrônica e o lançamento de Retail Therapy, do TDF, Eric se apresentou como X-Sample na "banda" de estúdio TDF. Em 1998, ele lançou mais um álbum: Pilgrim, com influências de soul, seu primeiro álbum com material inédito em nove anos. Em 2000, ele continuou sua paixão pelo blues ao gravar um álbum com a lenda americana do blues, B.B. King. Riding With The King foi lançado em junho e, em apenas três semanas, recebendo o certificado de ouro.

One More Car, One More Rider, foi lançado em novembro de 2002, sendo mais um álbum duplo ao vivo. O álbum contém músicas apresentadas durante a turnê mundial de Clapton em 2001. As gravações deste álbum são de duas noites no Staples Center em Los Angeles, 18 e 19 de agosto de 2001. Acompanhando Clapton neste álbum estão o guitarrista Andy Fairweather-Low, o baterista Steve Gadd, o baixista Nathan East e os tecladistas Billy Preston, Greg Phillinganes e David Sancious (que também toca guitarra e ritmica). Alguns desses músicos já acompanham Clapton por décadas.

Clapton afirmou que esta seria sua última turnê mundial, tornando este álbum inicialmente mais valioso. No entanto, ele já fez várias turnês mundiais desde então. Uma versão deste álbum inclui a música "Will It Go Round in Circles", interpretada por Billy Preston, que interangiu fantasticamente dançando e trazendo o público ao delírio. Infelizmente, Preston faleceu poucos anos depois em 2006.

Logo após o lançamento de Riding With The King , Clapton voltou ao estúdio para gravar seu próximo projeto solo. Reptile foi lançado em março de 2001. No final de 2002, ele começou a gravar um novo álbum de estúdio. O trabalho continuou durante o verão de 2003 e material suficiente foi gravado para dois álbuns. Além do novo material solo, Eric gravou covers de músicas de Robert Johnson durante essas sessões. As músicas de Johnson foram compiladas e, em março de 2004, o álbum tributo de Eric, Me and Mr. Johnson, foi lançado. O material solo gravado durante essas sessões foi lançado em 2005 no álbum Back Home.

Cream: Bruce, Baker e Clapton, reunião em 2005.

Em 2005, Eric, Ginger Baker e Jack Bruce revisitaram o passado ao reformarem o Cream para quatro shows de reunião em maio no Royal Albert Hall, em Londres. Seus shows de despedida haviam acontecido no mesmo local 37 anos antes, em novembro de 1968. Em outubro, o Cream realizou mais três shows no Madison Square Garden, em Nova York. Os shows de Londres foram lançados em CD e DVD, e posteriormente em Blu-ray e formatos digitais.

O próximo projeto de estúdio de Eric seria produzido por um dos arquitetos do "Som de Tulsa", JJ Cale. Eric admirava o trabalho de Cale há muito tempo, tendo gravado versões de "After Midnight", "Cocaine" e "Travelin' Light". O álbum logo se transformou em um trabalho colaborativo. The Road To Escondido foi lançado com aclamação da crítica em novembro de 2007. Em fevereiro do ano seguinte, ganhou o Grammy de Melhor Álbum de Blues Contemporâneo (Vocal ou Instrumental) na 50ª cerimônia anual de premiação em Los Angeles.

Em setembro de 2009, Eric lançou seu 19º álbum de estúdio, Clapton. "Run Back To Your Side", uma das faixas do álbum, recebeu uma indicação ao Grammy de Melhor Performance Vocal Solo de Rock. Nos anos seguintes, lançou os álbuns solo Old Sock (2013), I Still Do (2016) e Happy Xmas (2018), uma colaboração ao vivo gravada com o grande jazzista Wynton Marsalis e o álbum "Eric Clapton and Friends", uma coletânea de canções em homenagem ao legado de J.J. Cale.

O álbum I Still Do, cujo título é uma homenagem a uma tia de Clapton que morreu há alguns anos – ela dizia para o artista que gostava dele como um menino. “And I still do” (“E eu ainda o faço”, em tradução livre), completou ela. Essa pequena história já demonstra o quão íntimo e pessoal é este trabalho para o guitarrista e é exatamente esse clima de descompromisso que as músicas passam para o ouvinte. Na lista das faixas ao longo do álbum, que traz covers de Robert Johnson, Bob Dylan, Skip James e Leroy Carr, J.J. Cale também é presença obrigatória. 

O resultando em uma sorte de gêneros diferentes de estilos e vertentes que andam de mãos dadas, desde o blues texano até o country, passando pelo blues elétrico, pelo blues tradicional do Mississipi e pelo folk. Tudo aqui soa genuíno e sincero, tanto nas palavras quanto na guitarra. Nada é “inventado” no álbum, apenas o bom e velho blues pode ser ouvido e sentido aqui. Uma das composições próprias para esse disco, a impactante Spiral, tem esse clima das antigas por sua letra ter sido totalmente improvisada no momento da gravação, assim como os grandes blueseiros do início do século XX compunham.

A balada I Will Be There, conta com a participação de um músico que Clapton creditou como “Angelo Misterioso” – alcunha que George Harrison usou quando gravou como convidado com o Cream, na música Badge, nos anos 70. Ao contrário das especulações, Eric já declarou que George Harrison não participou do álbum e não revela (e nem nunca vai revelar) quem é o novo “Angelo Misterioso”.

Blind Faith: Steve Winwood e Eric Clapton -
Live From Madison Square Garden, 2009.

Além disso, Eric participou de mais de 200 gravações e shows ao vivo com artistas que vão de Aretha Franklin a Zucchero. Sua primeira participação em uma gravação foi com Otis Spann, em maio de 1964. Sem dúvida, sua contribuição mais famosa é a participação na música "While My Guitar Gently Weeps", de George Harrison, em setembro de 1968. Mais recentemente, ele participou de "The Watcher", faixa do álbum Road To Utopia (2018) do Hawkwind. Eric também pode ser ouvido em gravações de Gary Brooker, Bob Dylan, Bob Geldof, Elton John, Carole King, Plastic Ono Band (com John Lennon e Yoko Ono), Stephen Stills, Sting, Roger Waters e muitos outros. Ele já foi convidado surpresa para shows de artistas como B.B. King, The Rolling Stones, Jimmie Vaughan, Prince, Tina Turner, Carlos Santana, Sheryl Crow, Willie Nelson, Luciano Pavarotti e Allman Brothers Band, entre outros.

Com mais de 50 anos de carreira, Eric já realizou mais de 3.000 concertos. Apresentou-se em 58 países, em seis continentes, para um público de mais de 2 bilhões de pessoas. Desde 1964, já se apresentou mais de 200 vezes no Royal Albert Hall, em Londres. Entre 1987 e 1996, manteve residências anuais no local, que atingiram o auge em 1991, com 24 noites apresentando cinco formações de banda diferentes, incluindo uma orquestra completa. Do outro lado do Atlântico, já subiu ao palco do Madison Square Garden mais de 50 vezes desde 1968.

Nos anos 2000, ele também colaborou no palco com os velhos amigos Steve Winwood e Jeff Beck em apresentações ao vivo limitadas. Ao completar 70 anos em 2015, Eric anunciou sua "aposentadoria" das longas turnês mundiais, mas enfatizou que continuaria gravando novas músicas e se apresentando em menor escala, pois seu amor por tocar não havia diminuído.

Show comemorativo de setetenta anos, 2015.

Eric comemorou seu 70º aniversário com uma série de shows no Madison Square Garden e no Royal Albert Hall. Um dos shows em Londres foi lançado em formatos de áudio e vídeo como Slowhand at 70. Em 2016, ele se apresentou em algumas datas no Nippon Budokan, em Tóquio, lançadas em DVD/Blu-ray como Planes, Trains and Eric . Em 2017, ele realizou uma série de shows em Nova York, Los Angeles e Londres. A agenda de Eric para 2018 inclui shows na Alemanha, no Hyde Park, em Londres, para um público de 65.000 pessoas, e um retorno ao Madison Square Garden em outubro.

Ao longo de sua carreira, Eric recebeu inúmeros prêmios e reconhecimentos. O primeiro foi o de "Melhor Músico Internacional" na votação pop da Melody Maker. Ele ganhou 18 prêmios Grammy e um BAFTA por seu trabalho na trilha sonora de Edge of Darkness . É o único artista a ser incluído três vezes no Hall da Fama do Rock and Roll: como membro do The Yardbirds, do Cream e como artista solo. Eric também foi incluído no Hall da Fama dos Compositores. Em setembro de 2018, Eric foi homenageado com uma das primeiras estrelas na Calçada da Fama do Royal Albert Hall. Em 1994, a Rainha Elizabeth II nomeou Eric Oficial da Ordem do Império Britânico (OBE) em sua Lista de Honras de Ano Novo por sua "contribuição à vida britânica". Em 2004, ela o homenageou ainda mais, nomeando-o Comandante da Ordem do Império Britânico (CBE).

Vida pessoal e algumas curiosidades.

Após vencer o vício em heroína no início dos anos 70, Eric o substituiu pelo alcoolismo. Durante o restante da década e até os anos 80, sua vida pessoal e profissional sofreram por causa do alcoolismo. Em janeiro de 1982, Eric ingressou no Centro de Tratamento de Dependência Química Hazelden. Ele teve uma recaída, mas entrou em reabilitação pela segunda vez alguns anos depois. Eric está sóbrio desde 1987, graças aos 12 passos dos Alcoólicos Anônimos. Por mais de trinta anos, Eric tem se dedicado a trabalhar com pessoas que sofrem de dependência química.

Em fevereiro de 1998, Eric anunciou a inauguração do Crossroads Centre, um centro de tratamento para dependentes químicos em Antígua, seguindo o modelo dos 12 passos. Um de seus princípios é oferecer tratamento subsidiado para algumas das pessoas mais pobres do Caribe, que não têm condições de arcar com os custos do tratamento por conta própria. Uma fundação foi criada para conceder bolsas de estudo a esses indivíduos. Para arrecadar fundos para a Crossroads Centre Foundation, Eric Clapton realizou uma série de festivais e leilões de guitarras. Em 24 de junho de 1999, Clapton leiloou 100 de suas guitarras, incluindo "Brownie" (a guitarra com a qual gravou "Layla"), na Christie's, em Nova York.

Em outubro de 2007, a autobiografia de Eric foi publicada. "Clapton - A Autobiografia" foi traduzida para doze idiomas e figurou nas listas de mais vendidos em todo o mundo. Um documentário impactante sobre sua vida, " Eric Clapton: Vida em 12 Bars", estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto em setembro de 2017. Está disponível em DVD e Blu-ray, juntamente com uma trilha sonora.

Eric casou-se com Melia McEnery em 1º de janeiro de 2002. O casal tem três filhas: Julie Rose (nascida em junho de 2001), Ella Mae (nascida em janeiro de 2003) e Sophie (nascida em fevereiro de 2005). Ele também tem uma filha mais velha com Yvonne Kelly. Ruth (nascida em janeiro de 1985) é casada e tem dois filhos pequenos.

O filho de Eric, Conor (nascido em agosto de 1986), morreu em 20 de março de 1991, após cair acidentalmente da janela do apartamento de sua mãe, em Nova York. A mãe de Conor é Lori del Santo.

Eric casou-se com sua primeira esposa, Pattie Boyd Harrison, em 27 de março de 1979. Eles não tiveram filhos e se divorciaram em 1989.

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sexta-feira, 29 de maio de 2026

Peter Frampton


Peter Frampton

Peter Kenneth Frampton é um cantor, compositor e guitarrista britânico nascido a 22 de abril de 1950 em Beckenham, Kent, Inglaterra. Ele é mais conhecido por seu virtuosismo na guitarra e pelo seu icónico álbum ao vivo Frampton Comes Alive!, que se tornou um dos álbuns ao vivo mais vendidos de todos os tempos. Ao longo da sua carreira, Frampton destacou-se tanto como um músico solo quanto como membro de várias bandas influentes, deixando uma marca indelével na história do rock.

Frampton começou a tocar guitarra ainda jovem, e já na adolescência integrava várias bandas. Ele ganhou notoriedade pela primeira vez como membro das bandas The Herd e Humble Pie. Com apenas 18 anos, Frampton já era considerado um dos jovens guitarristas mais talentosos do Reino Unido. A sua passagem por Humble Pie, uma banda de hard rock e blues, ajudou a consolidar a sua reputação como um músico versátil e inovador.

Em 1971, Frampton deixou Humble Pie para seguir uma carreira a solo. Ele lançou vários álbuns ao longo dos primeiros anos da década de 1970, incluindo Wind of Change (1972) e Frampton's Camel (1973). Embora esses álbuns tivessem recebido elogios da crítica, foi com o lançamento do álbum ao vivo Frampton Comes Alive! em 1976 que ele alcançou um sucesso verdadeiramente massivo.

Frampton Comes Alive! foi gravado durante várias atuações ao vivo em 1975 e capturou Frampton no auge das suas habilidades como guitarrista e performer. O álbum inclui sucessos como "Show Me the Way", "Baby, I Love Your Way" e "Do You Feel Like We Do", que se tornaram clássicos do rock. O uso inovador do talk box por Frampton na guitarra, particularmente em "Show Me the Way", tornou-se uma das suas marcas registadas e ajudou a diferenciar o seu som.

O sucesso de Frampton Comes Alive! foi fenomenal, vendendo mais de 8 milhões de cópias apenas nos Estados Unidos e tornando Frampton uma superestrela internacional. O álbum foi um dos responsáveis por definir o som e a experiência dos concertos ao vivo na década de 1970 e continua a ser um dos álbuns ao vivo mais icónicos da história do rock.

Após o sucesso explosivo de Frampton Comes Alive!, Peter Frampton lançou o álbum I'm in You (1977), que também foi bem recebido e incluiu o sucesso homónimo. No entanto, o impacto de Frampton Comes Alive! foi tão grande que Frampton lutou para repetir esse sucesso nos anos seguintes, e a sua carreira sofreu um revés, exacerbado por problemas pessoais e um grave acidente de carro em 1978 que quase lhe tirou a vida.

Nos anos 80, Frampton continuou a lançar álbuns e a fazer digressões, embora nunca tenha alcançado o mesmo nível de sucesso que experimentou na década anterior. No entanto, ele permaneceu uma figura respeitada na música, conhecido pelo seu talento inquestionável na guitarra.


Frampton também teve um papel importante no álbum Breakout (1984) de David Bowie, onde tocou guitarra em várias faixas. A sua amizade com Bowie, que remontava aos seus dias de escola, foi um dos pontos altos da sua carreira durante este período.

A partir dos anos 90 e 2000, Frampton experimentou um renascimento na sua carreira, continuando a lançar novos álbuns e a fazer digressões internacionais. Em 2006, ele ganhou um Grammy pelo álbum instrumental Fingerprints, que foi elogiado pela crítica pela sua habilidade e inovação musical.

Em 2019, Frampton anunciou que estava a sofrer de miosite por corpos de inclusão, uma condição muscular rara que o levou a fazer uma digressão de despedida. Apesar da doença, Frampton continuou a tocar e a gravar música, lançando o álbum All Blues em 2019, uma coleção de covers de blues que foi bem recebida.

Peter Frampton é amplamente considerado um dos grandes guitarristas da sua geração, e o seu legado como músico é marcado tanto pelo seu sucesso comercial quanto pela sua habilidade técnica e inovação. Frampton Comes Alive! permanece um dos álbuns mais icónicos do rock, e a sua influência continua a ser sentida na música até hoje. Mesmo enfrentando desafios de saúde, Frampton mantém um espírito resiliente e continua a inspirar músicos e fãs em todo o mundo com a sua música.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

DiScOs InCrÍvEiS: Peter Frampton


Peter Frampton Band
' All Blues '

O álbum 'All Blues' representa uma espécie de retorno às raízes para Peter Frampton. No início de sua carreira, ele era um virtuoso da guitarra, conquistando seu espaço tocando solos altos e distorcidos no Humble Pie, banda que Steve Marriott formou após deixar o The Small Faces. Frampton nunca perdeu sua reputação como um grande guitarrista e o blues nunca esteve longe de seus dedos, mas ele também nunca havia se dedicado a um álbum de blues da maneira como faz neste trabalho lançado em 2019.

É possível que Frampton tenha planejado que o álbum fosse parte de uma despedida que fecha um ciclo: quando anunciou o lançamento do álbum e a turnê que o acompanha, ele também anunciou que sofria de miosite, uma doença autoimune degenerativa que enfraquece os músculos. O conhecimento da doença de Frampton confere a All Blues um toque de melancolia; Não se trata de seu álbum final — na época do lançamento, ele tinha uma coleção de material original em produção —, mas é difícil não pensar que ele talvez não existisse se Frampton não acreditasse que deveria aproveitar a oportunidade. 

E é exatamente isso que ele faz em All Blues, um álbum que leva o nome da composição de Miles Davis que abre o seminal álbum do trompetista de 1959, Kind of Blue. A escolha de Frampton de fazer um cover de Davis sugere sua disposição em explorar os limites deste álbum, adicionando toques de jazz e swing. Nessa faixa a banda é acompanhada pelo guitarrista virtuoso Larry Carlton.

Principalmente, porém, ele está interessado em apresentar versões vibrantes de clássicos do blues, ocasionalmente com a participação de um amigo: Sonny Landreth aparece em "The Thrill Is Gone", Steve Morse em "Going Down Slow", enquanto Kim Wilson toca em "I Just Want to Make Love to You". Embora Frampton não arrisque muito com as músicas ou os arranjos — este é um blues britânico clássico e direto, com forte influência da escola de Chicago — ainda assim há uma palpável sensação de paixão e alegria em All Blues, e esse coração pulsante e evidente faz com que valha a pena ouvi-lo.

Frampton, o guitarrista 'rocker', gravou o álbum com sua banda de longa data, composta por Adam Lester (guitarra/vocal), Rob Arthur (teclados/guitarra/vocal) e Dan Wojciechowski na bateria. 

O álbum foi gravado no Studio Phenix de propriedade do próprio guitarrista, localizado em Nashville, e conta com a participação do vocalista Kim Wilson, além dos três outros ilustres guitarristas: Larry Carlton, Sonny Landreth e Steve Morse.

“Sempre adorei tocar blues”, diz Frampton. “Quando formamos o Humble Pie, o primeiro repertório que tocamos juntos foi justamente esse. Nos últimos dois verões, eu vinha tocando algumas músicas de blues todas as noites no palco com a Steve Miller Band.”

“Gostei imensamente disso e me deu a ideia de fazer um álbum de blues ao vivo em estúdio com a minha banda. Começamos as sessões nove dias depois de voltarmos da turnê no ano passado. Ao longo de duas semanas, gravamos 23 faixas, todas ao vivo em estúdio. A energia dessas faixas é completamente diferente de construir uma faixa instrumento por instrumento.”

“Com esta gravação, prestamos homenagem a todos os artistas originais que inventaram esta música incrível. Espero que vocês possam ouvir e sentir a nossa alegria. Não sei se dá para dizer que nos divertimos tocando blues. Mas, com certeza, nos divertimos.”
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Faixas:

1. I Just Want To Make Love To You (com Kim Wilson)
2. She Caught The Katy
3. Georgia On My Mind
4. Can't Judge A Book By The Cover
5. Me And My Guitar
6. All Blues (com Larry Carlton)
7. The Thrill Is Gone (com Sonny Landreth)
8. Going Down Slow (com Steve Morse)
9. I'm A King Bee
10. Same Old Blues