O paradoxo Brasil
Como é possível que ainda não se tenha discutido a fundo divergência tão flagrante?
(Conteúdo da Revista Liberta)
REVISTA LIBERTA
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| Abaporu, Tarsila do Amaral (1928) |
As edições de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, apresentam mudanças intrigantes. Na primeira edição, publicada em 1936, o livro principia com um otimismo que, certamente, surpreenderá o leitor contemporâneo:
Todo estudo compreensivo da sociedade brasileira há de destacar o fato verdadeiramente fundamental de constituirmos o único esforço bem-sucedido em larga escala de transplantação da cultura europeia para uma zona de clima tropical e subtropical. Sobre território que, povoado com a mesma densidade da Bélgica, chegaria a comportar um número de habitantes igual ao da população atual do globo, vivemos uma experiência sem símile.
A experiência histórica brasileira é sem igual porque exitosa: não pode haver dúvidas na leitura da passagem. E o sucesso parece necessariamente sugerir que a aclimatação da cultura europeia ocorreu da melhor maneira possível. O parágrafo de abertura da primeira edição pareceria a própria metonímia do título. O intérprete poderia encontrar os fundamentos da formação social, já que, desde seus primórdios, o processo civilizatório brasileiro exemplificaria uma feliz e rara coincidência entre intenção e gesto. As raízes do Brasil poderiam ser reveladas, inclusive vistas a olhos, pois constituímos o único esforço bem-sucedido de transplantação cultural; afinal, falamos de raízes.
Não é verdade que se escuta no trecho de 1936 um tom vizinho ao do parágrafo de abertura de Casa-Grande & Senzala?
Quando em 1532 se organizou econômica e civilmente a sociedade brasileira, já foi depois de um século inteiro de contatos dos portugueses com os trópicos; de demonstrada na Índia e na África sua aptidão para a vida tropical. Mudado em São Vicente e em Pernambuco o rumo da colonização portuguesa do fácil, mercantil, para o agrícola: organizada a sociedade colonial sobre base mais sólida e em condições mais estáveis que na Índia ou nas feitorias africanas, no Brasil é que se realizaria a prova definitiva daquela aptidão.
As duas passagens celebram a vocação colonizadora portuguesa. No vocabulário de Gilberto Freyre, a plasticidade do português favoreceu o contato produtivo entre culturas, assim como sua assimilação num composto híbrido. A abertura da primeira edição de Raízes do Brasil corroborava o otimismo do sociólogo pernambucano: dicções diferentes, porém afinadas no mesmo tom fundamentalmente positivo. Entretanto, na edição definitiva, enriquecida com importante introdução de Antonio Candido, “O significado de Raízes do Brasil”, o parágrafo de abertura sofreu uma mudança radical:
A tentativa de implantação da cultura europeia em extenso território, dotado de condições naturais, se não adversas, largamente estranhas à sua tradição milenar, é, nas origens da sociedade brasileira, o fato dominante e mais rico em consequências.
A modificação não poderia ser maior: agora, a experiência histórica brasileira parece condenada ao descompasso entre as ideias e seu lugar. Destaque-se o fator decisivo: não se trata de correção estilística, que vise aprimorar a expressão ou torná-la mais clara, tampouco do acréscimo de novos dados, que aprimorem o argumento, mas da supressão completa de ideia-chave, simplesmente substituída pelo seu contrário.
Os fatores da formação social brasileira que surgiam caracterizados como o único esforço bem-sucedido de transplantação cultural em larga escala surgem como definitivamente estrangeiros às condições tropicais. O trânsito do próprio ao alheio realiza-se sem mediações, como se entre as duas passagens não residisse um paradoxo de difícil entendimento. Contudo, apesar da notável mudança, tanto nas primeiras edições quanto na definitiva, segue o célebre trecho (com pequenas modificações):
Trazendo de países distantes nossas formas de vida, nossas instituições, nossa visão de mundo, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda uns desterrados em nossa terra.
Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas ideias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra.
Nas primeiras duas edições, somente faltava o “hoje”, o resto da frase é praticamente o mesmo – destaque-se ainda a sutil mudança conceitual de “formas de vida” para “formas de convívio” e de “visão de mundo” para “ideias”. De imediato, porém, quero propor uma pergunta: como é possível que ainda não se tenha discutido a fundo divergência tão flagrante? Os brasileiros tiveram uma experiência única porque bem-sucedida, mas, ao mesmo tempo, como resultado, vivem desenraizados em seu próprio país. Esse paradoxo não tem sido devidamente avaliado. Como ser ao mesmo tempo bem-sucedido e desterrado?
Pergunta-chave que condensa o dilema Brasil.
Conto com a sua leitura na próxima semana?
[1] Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1936, p. 3, destaques meus.
[2] Gilberto Freyre. Casa-Grande & Senzala. Formação da família brasileira sob o regime de economia patriarcal. Rio de Janeiro: José Olympio, 1943 [1933]. p. 77.
[3] Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989 [1967], p. 3, destaques meus.
[4] Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1948 [1936], p. 15, destaques meus.
[5] Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1967 [1936], p. 3, destaques meus.
João Cezar de Castro Rocha
Professor Titular de Literatura Comparada (UERJ) e Cientista do Nosso Estado (FAPERJ). Autor de 14 livros; seu trabalho já foi traduzido para o espanhol, mandarim, italiano, francês, alemão e inglês.