Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
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quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Romance: O Que Podemos Saber (Ian McEwan)


O Que Podemos Saber

Qual futuro prever a partir dos escombros do presente?

Autor: IAN MCEWAN
Editora: ‎Companhia das Letras
Data da publicação: 12 maio 2026
Edição: ‎1ª

Em 2119, no que restou do mundo após uma catástrofe climática, um professor de literatura parte em busca de um poema perdido de 2014. Sua obsessão não é compreendida pelos jovens: qual é a importância da literatura numa terra devastada? É um questionamento que o mestre britânico Ian McEwan nos provoca em um romance de ideias ousadas.

Como a história da literatura é escrita? Em 2014, em um jantar de intelectuais, um poema supostamente brilhante é lido por Francis Blundy em homenagem à sua esposa. No entanto, nenhuma cópia do texto é encontrada, apesar de tudo no século xxi ser registrado digitalmente, de e-mails a mensagens instantâneas privadas ― um vasto material que apenas cem anos depois poderá ser acessado.

Em 2119, em um mundo alagado e em vias de reconstrução sob um novo modelo, o professor Thomas Metcalfe segue obcecado por encontrar o poema. A jornada de Metcalfe nos leva a reconstruir a vida antes da tragédia global até a descoberta de segredos inconfessáveis. O deslocamento temporal de ficção científica encenado por McEwan, mesclado ao seu estilo realista, perturba pela coragem e o arrojo de suas ideias. Afinal, o que pode a literatura e as artes diante do apocalipse iminente?
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Romance futurista de Ian McEwan projeta a distopia como realidade no século 22

( Reflexão: Adriana Ferreira Silva )

Estamos em 2119. Após décadas de alterações no clima, o nível do mar subiu, reduzindo países como o Reino Unido a ilhotas, enquanto cidades como Nova York, Amsterdã e Londres estão completamente submersas.

Com o colapso da União Europeia, nações como a Alemanha foram anexadas à Rússia Maior. Isolado e sob o comando de milícias, os Estados Unidos se tornaram um dos lugares do planeta a se evitar. No continente africano, a Nigéria se consolidou como superpotência global, tendo a naira utilizada como principal moeda nas negociações internacionais.

Devido a guerras, catástrofes naturais e pandemias, de cerca de 8 bilhões em 2026, a população mundial está reduzida à metade. Espalhadas por ilhas e nas terras altas que restaram após a Grande Inundação, as pessoas se deslocam de barco, bicicleta e a pé. Sem as imensas extensões de terra dedicadas à agricultura e à criação de animais para o abate, a alimentação foi substituída por bolos de proteínas sintéticas. Produtos como café, chocolate e bebidas alcoólicas são raridades caríssimas para poucos.

O mundo imaginado pelo autor britânico Ian McEwan em O Que Podemos Saber (Cia. das Letras) ensejou uma série de discussões sobre a sociedade contemporânea desde seu lançamento no primeiro semestre. Um dos livros mais elogiados deste ano, o romance futurista tem como protagonista o professor e crítico literário Tom Metcalfe, cujo foco de estudos é a produção literária dos anos 1990/2000, em especial a criação do poeta Francis Blundy, cuja obra-prima, um poema inspirado em sua mulher, Vivien, está desaparecida há décadas.

Em sua investigação, Metcalfe explora mensagens instantâneas de texto, e-mails, reminiscências de perfis de redes sociais há muito desativadas, que revelam um modo de vida marcado pela abundância e o desperdício. Um jeito de existir incompreensível para seus jovens estudantes de literatura, a quem o mestre tenta sensibilizar para as qualidades e fraquezas de seus antepassados.

“Nesse estágio, os alunos ainda não estão convencidos. Não conseguem acreditar que as pessoas da era pré-Inundação, que viveram há apenas um século, eram parecidas com eles. Aquela gente antiga compunha-se de imbecis ignorantes, miseráveis e destrutivos. Como mencionou um dos alunos mais inteligentes, sem dúvida, eles poderiam ter feito algo mais do que expandir suas economias e guerrear.”

As mesmas proposições que nos levam a tentar compreender nosso passado mais recente pautam as reflexões de McEwan sobre como imaginar um futuro a partir dos escombros do presente.

Sob essa perspectiva, tenho pensado sobre como as próximas gerações irão se referir a nós, desde a divulgação dos resultados do primeiro turno das eleições presidenciais no último domingo. Na impossibilidade de evitar as notícias ou ceder à paralisia e à depressão, a arte é alento, mas também alerta.

Estirpe das servas.

Para quem, como eu, nasceu na década de 1970, os anos 2000 pareciam ser a materialização da utopia. A internet encurtou distâncias, expandiu fronteiras, promoveu acessos. As democracias vingavam. No Brasil, em especial, a vida prometia ser cada vez melhor. Mas, em menos de duas décadas, a elite capitalista deixou bem claro a quem serve todas as supostas facilidades da nova era: única e exclusivamente a ela própria.

A distopia se impôs como realidade. Não à toa, a obra que mais inspira comparações com a ascensão da extrema direita ao redor do mundo, O Conto da Aia (Ed. Rocco), de Margaret Atwood, baseia-se em extensa pesquisa da best-seller canadense sobre regimes totalitários (o livro inspirou uma série para a televisão lançada em 2017).

Para quem não leu ou assistiu à série, no romance, uma junta autoritária chega ao poder dos Estados Unidos, que passam a se chamar Gilead. Dividida em castas, a sociedade funciona sob estritas regras religiosas e patriarcais, na qual mulheres – mesmo as de classes dominantes – têm seus direitos cassados e são submetidas a todo tipo de violência, do estupro ao trabalho forçado e à mutilação como forma de castigo.

As aias do título integram a estirpe das servas, destinadas a procriar. Submetidas a estupros diários, são separadas das crianças assim que dão à luz. Exatamente o mesmo que ocorria às africanas escravizadas. Ou o que ocorre hoje às afegãs. E quem sabe pode vir a ocorrer novamente às brasileiras pobres.

Caso Ian McEwan tomasse o Brasil de 2026 como ponto de partida para pensar o século 22, poderia incluir a total extinção dos povos indígenas, cujas terras serão transformadas em pastos e plantações, bem como a floresta e outras áreas de proteção ambiental. Considerado um rio morto, no Amazonas só restarão as estruturas utilizadas na exploração de petróleo, lixo abandonado por empresas estadunidenses.

Ocupado por cassinos e resorts, o litoral brasileiro será dividido entre facções milicianas, conhecidas por promover festas de arromba, onde drogas sintéticas serão consumidas por “novinhas” e pela fina-flor da elite. Na Baía da Guanabara, uma base do Exército estadunidense terá canhões apontados para o que restou dos morros. Pobres e pretos que sobreviverem vão lotar gigantescos complexos penitenciários, geridos por conglomerados religiosos trilionários.

Parafraseando McEwan, tudo isso, porque aquela gente antiga, composta de uma maioria de imbecis ignorantes, miseráveis e destrutivos preferiu ignorar o fato de que estava escolhendo um homem acusado por diversas falcatruas para governar o país. Sem dúvida, eles poderiam ter feito algo melhor. Ainda dá tempo.

@REVISTA_LIBERTA

Matéria: 10 out 2026
Adriana Ferreira Silva é jornalista, escritora e curadora, com enfoque em temáticas interseccionais de gênero e raciais. Coautora do livro "Democracia Para Quem? – Ensaios de Resistência" (ed. Boitempo), colabora com veículos como o canal ICL Notícias, jornal Nexo e as revistas Liberta, Numéro Brasil e Quatro Cinco Um. Como moderadora, atuou em eventos nacionais e internacionais como a Commission on the Status of Women (ONU/NYC). É curadora de eventos culturais e de jornalismo como a série "Conversas sobre branquitude", o edital Rumos Itaú Cultural 2023-2024 e a Jornada Galápagos de Jornalismo. Participou de coberturas como a dos atentados de 11 de Setembro em Nova York (2001), foi correspondente em Paris, trabalhou nas redações de Marie Claire, Vogue, Veja SP, Folha de S. Paulo e como colunista da rádio CBN.

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Fim da Espécie ??


Uma Leitura Filosofante da Crise Atual

Estamos sob a energia destrutiva do caos, mas nele está germinando uma nova ordem.

Estão se fazendo as mais variadas análises das eleições brasileiras com a ascensão surpreendente da extrema direita, geralmente com categorias de uma sociologia integral. Elas são necessárias. Entretanto, a gravidade da crise brasileira, que é também planetária, é de tal envergadura que nos faltam categorias adequadas para entendê-la. Estimo que precisamos de uma ótica filosofante, pois se trata de ir às raízes para encontrar alguma luz esperançadora.

Parto da percepção generalizada de que o mundo assim como está não pode continuar. Há demasiadas e graves ameaças ao futuro da vida. A continuar, advertia Zygmunt Bauman, “vamos engrossar o cortejo dos que estão rumando na direção da vala comum”. Já antes, em 1930, escreveu Freud O Mal Estar da Cultura, concluindo, na última página, com esta frase sombria: ”Agora os homens avançaram tanto no domínio das forças da natureza que, com sua ajuda, será fácil exterminar uns aos outro até o último indivíduo” (Edição Vozes, 2026, p.129). Atualmente, com o arsenal destrutivo existente, acrescido pela IA autônoma, pode se tornar uma realidade. Há, pois, um mal estar coletivo no mundo, que encontra na ascensão trepidante do fascismo e da extrema direita no Brasil, especialmente nos EUA e alhures, sua inegável comprovação.

De minha parte, diria, como hipótese, que esta atmosfera inimiga da vida e da convivência fraterna entre os humanos e com a natureza deriva de uma radical decepção, que degenerou numa profunda depressão.

A decepção residiria no fracasso de todas as promessas feitas pelas grandes narrativas nos últimos séculos: o iluminismo, o capitalismo, o socialismo, as democracias, as tecnociências da comunicação (internet, Twitter, Facebook etc.) e a IA. As promessas não foram cumpridas.

A decepção generalizada redundou numa grande depressão coletiva: uma onda terrível de ódio, de raiva, de fake news e de violência está cobrindo o planeta e, em particular, o Brasil. A depressão nos rouba a alegria de viver.

Crises sempre houve e haverá em todas as culturas. A nossa é singular, por ser planetária. Haverá alguma luz na imensa obra de 12 tomos do historiador inglês Arnold Toynbee, A Study of History? Nela, ele mostra como as culturas surgem, se desenvolvem, chegam a seu ápice e morrem, substituídas por outras.

Maneja duas categorias básicas: desafio (challange) e resposta (response).Quando o desafio é de pouca monta, a civilização responde a ela e floresce. Quando o desafio é maior do que a sua capacidade de resposta, a civilização entra em crise, pode prolongar sua agonia, mas, no fim, desaparece. Essa é uma exposição simplificada de uma obra complexa e extremamente erudita. Talvez seu limite consista em não ter considerado a luta de classes, que, queiramos ou não, sempre ocorre em sociedades complexas. Agora, estamos sob a regência da incapacidade de resposta, pois o desafio ultrapassa esta nossa capacidade . Irrompe, então, a depressão.

Novo rumo, nova esperança.

Há alguma saída para esta enroscada? Ou chegou a nossa vez de encerrarmos o nosso ciclo dentro da cosmogênese e vamos desparecer? É notório que todos os seres que, depois de terem vivido por milhões de anos sobre este planeta, chegaram ao seu clímax e desapareceram. Também nós teríamos o mesmo destino? Deixo a questão em aberto, pois não nos parece improvável nem impossível, uma vez que já nos demos os meios de nos autodestruir.

Meu sentimento do mundo me diz que, quando desfalecem as utopias, mesmo as mínimas, de melhoria dentro do sistema imperante, só nos resta voltarmo-nos sobre nós mesmos. Somos uma fonte inesgotável de virtualidades e de uma capacidade ilimitada de relações e de criatividade. Apesar de sermos contraditórios, feitos de luz e de sombras (C. G. Jung), sapientes e dementes (E. Morin), (eros: vida) e (thánatos: morte, Freud) podemos potenciar de tal forma nossa positividade, capaz de definir um novo rumo e uma nova esperança.

Nesse sentido, é inspiradora a teoria do caos, formulada pelo russo-belga Ilya Prigogine (1917-2003), prêmio Nobel de Química em 1977 (Order Out of Chaos, 1948) e de Lorenz/Gleick. O universo se originou de um fantástico caos inicial (Big Bang). A evolução se fez e se faz para colocar ordem neste caos originário,criando ordens cada vez mais altas e complexas até irromperem no ser humano com inteligência, sentimento, amor e cuidado.

A natureza do caos é de ser destrutivo e generativo. Ele destrói uma ordem vigente que esgotou suas virtualidades, mas guarda dentro de si seminalmente uma nova ordem. Concluído o processo de destruição, irrompe a nova ordem. Ela inaugura uma outra história até que ela mesma se extenuar e mostrar-se caótica/destrutiva. Mas guarda dentro de si o novo a irromper.

Na atual fase histórica global, estamos sob a energia destrutiva do caos, mas dentro dele está germinando uma nova ordem, um novo mundo, que cremos será amigo da vida, da irmandade universal também com os seres na natureza, justo e terno, que permitirá melhor conviver e amar. Superaremos o caos destrutivo bolsonarista-fascista, expresso pela eleição no primeiro turno, pelo caos generativo de Luiz Inácio Lula da Silva , que, esperamos, triunfará para levar avante o projeto de inclusão dos pobres.

Então, não desesperemos. Esta leitura, que se propõe filosofante, pode nos infundir um renovado esperançar.

@REVISTA LIBERTA

Matéria: 10 de outubro de 2026
Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.



quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Heroínas do Brasil: Antonieta de Barros


Antonieta de Barros
' mil faces de uma liderança histórica pioneira '

Em memória dos 125 anos de nascimento de Antonieta de Barros, saiba mais detalhes sobre a trajetória, as lições e o legado da professora e jornalista, que foi a primeira parlamentar negra eleita em Santa Catarina

Mais do que uma pessoa à frente de seu tempo, uma liderança que apontava horizontes para a estruturar e construir o futuro do Brasil. Esta descrição sobre Antonieta de Barros (1901-1952) ajuda a compreender a magnitude de sua trajetória, mas passa longe de fazê-lo de modo pleno.

Dizer que Antonieta de Barros foi professora, oradora, parlamentar, militante da área educacional e ensaísta não dá a dimensão do quão grande foram a sua vida e obra. Falar que ela entrou para a história brasileira por ser considerada a primeira mulher negra de Santa Catarina eleita deputada em 1934, nas eleições realizadas imediatamente após as mulheres terem conquistado o direito ao voto no Brasil, em 1932, induz ao risco de limitá-la a um determinado período histórico.

Constatar que ela foi isso tudo e muito mais ainda está aquém do seu tamanho real. Podemos dizer, sem dúvida, que a liderança foi - e continua a ser - uma daquelas figuras maiores do que a vida. Isso sem contar que conhecer a sua trajetória ajuda apresentar contrapontos importantes contra tentativas de apagamento e de revisionismo histórico sobre a presença negra em Santa Catarina.

“Sua trajetória nos ensina a olhar a sociedade brasileira sobre vários aspectos que fogem ao senso comum: mostra que, apesar da autoimagem e da imagem que a região Sul construiu, não há apenas brancos e eurodescendentes na região”, explica Surya Aaronovich Pombo de Barros, professora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), pós-doutoranda no Instituto Caro y Cuervo (Bogotá, Colômbia) e bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

A docente destaca também que a sua trajetória ensina também que, “a despeito de uma ideia recorrente de que ‘pessoas negras’ estiveram apartados do universo letrado e escolar, as pesquisas das duas últimas décadas demonstram que uma parte da resistência negra foi feita pela via da educação formal.”

Superação de barreiras históricas e sociais

“Não havia processos que levassem as pessoas a ter mobilidade social. Havia privilégios: fazer parte de determinado grupo, classe social ou etnia. Então, quando ela chega à Escola Normal, ela já está rompendo com algumas barreiras. Não [significa] que não houvesse pessoas negras antes: por meio da biografia dela e dos estudos sobre ela e a irmã conhecer as outras pessoas negras.”

Esta fala de Jeruse Romão, professora escritora, militante do movimento negro e biógrafa de Antonieta de Barros e da irmã, Leonor de Barros (1904-1974), ajuda a perceber a dimensão das diversas barreiras presentes nas trajetórias de pessoas negras à época. Outro ponto diz respeito ao apagamento histórico que, por meio de dinâmicas diversas, permearam a época em que a intelectual atuou e encontram ecos nos dias atuais.

A análise que Jeruse Romão faz sobre a liderança educacional e política, que reverberou nas obras de sua autoria ‘Antonieta de Barros: Professora, escritora, jornalista, primeira deputada catarinense e negra no Brasil’ (2021) e ‘Antonieta de Barros: Discursos, entrevistas e outros textos’ (2023) mostra que o caminho trilhado por ela teve participações definitivas dos passos que sua mãe, Catarina de Barros, e sua irmã, Leonor de Barros, deram.

Aqui entra, mais uma vez, a resistência à tendência ao apagamento histórico: enquanto Catarina, a mãe, trabalhou como lavadeira para possibilitar o desenvolvimento educacional das filhas - nas primeiras décadas após a abolição da escravatura, em 1888, vale dizer -, o trabalho de Leonor, que também cursou a Escola Normal e se tornou professora, foi fundamental para Antonieta de Barros prosseguir com o propósito de democratizar e universalizar o acesso à educação.

Nesse contexto, para manter-se em Florianópolis, as duas irmãs abrem, em 1921, a escola Curso Particular Antonieta de Barros, que funcionou até a década de 1960.

Pela democratização no acesso a espaços educacionais e decisórios

A carreira parlamentar de Antonieta de Barros teve como marca incontestável a defesa da valorização e do acesso à educação. Basta dizer que a instituição de 15 de outubro como o Dia do Professor em Santa Catarina, em 1948 - e que se tornaria uma data nacional em 1963 -, foi uma pequena parte do trabalho que ela realizou dentro dessa pauta.

Temas que hoje são recorrentes no debate sobre Educação e sociedade já estavam presentes na atuação legislativa dela há quase um século. “É admirável e ao mesmo tempo perturbador notar que na primeira metade do século XX ela já defendia temas ainda urgentes como concurso público para magistério e o cargo de direção de escolas. Idem a importância da igualdade de salário entre professores e professoras; a relevância da educação de adultos; a necessidade de organização da categoria docente; a importância da aproximação entre crianças pobres e livros”, destaca Surya Aaronovich Pombo de Barros.

Nesse sentido, a atuação de Antonieta de Barros em defesa tem caráter interseccional com pautas como gênero, raça, infância, entre outros. Outros pontos passam pela valorização da docência e dos saberes prévios de estudantes, dentro da chave da democratização do acesso ao ensino.

“Antonieta foi da Comissão da Educação e da comissão que tratou do plano de carreira do funcionário público. O que vi [obra de] escrevendo, estudando e biografando foi uma mulher que está no grupo de protagonistas brasileiros e brasileiras, que entendiam a educação como um instrumento de transformação social. Algumas vezes ela me lembra muito Paulo Freire. Quer dizer: ele me lembra, pois ela veio antes”, reforça Jeruse Romão.

Ao considerar-se que a História pode rimar, os debates atuais sobre temas como permanência no Ensino Superior encontram correspondência com o acesso a estágios em nível básico para populações de grupos vulnerabilizados - de prevalência negra e periférica. Assim, Antonieta de Barros foi autora de requerimento para estabelecer o funcionamento de aulas noturnas para jovens e filhas e filhos de pessoas trabalhadoras.

Outros tópicos passaram também pela concessão de bolsas de estudos e pela oferta de merenda escolar:

“Percebe-se que ela [Antonieta de Barros] tinha uma ótica muito fina sobre a estrutura e o funcionamento da educação pública. Não era apenas sobre a sala de aula, mas também políticas educacionais, estrutura e funcionamento da escola.” (Jeruse Romão)

O poder da palavra e a vida pública como sacerdócio

Outra faceta da polivalente trajetória de Antonieta de Barros passou pelo jornalismo, uma vez que ela começou a escrever aos 23 anos textos publicados em veículos de Santa Catarina e assinando-os sob o pseudônimo Maria da Ilha, por meio do qual publicou o livro ‘Farrapos da Ilha’, em 1937.

“O nome dela não foi de resistência pela trajetória, mas sim pela ala conservadora masculina e feminina de Florianópolis que não concordava de jeito nenhum com a participação das mulheres na política, com uma ala machista que não concordava e com outra racista também, que não concordava com que as pessoas negras tivessem visibilidade. Ela enfrentou todas essas camadas pela educação e não recuou”, narra a biógrafa da intelectual.

Ao mesmo tempo em que ela usava sua coluna como canal pontual para a abordagem veemente da pauta racial, a sua atuação jornalística teve abordagem mais ampla. “Tendo a chamá-la de uma negra na imprensa”, ressalta Jeruse Romão, ao destacar o estilo de escrita da intelectual que flerta também com a verve literária. “Antonieta de Barros criou, junto com outros negros que tiveram a ideia, e compõe o Centro Catarinense de Letras, movimento de quem foi rejeitado pela Academia Catarinense de Letras, que não aceitava negros e mulheres.”

Como consequência, o afinco ao qual se dedicava a todas as áreas profissionais de sua vida a fez assumir o trabalho como se fosse sacerdócio. Isso refletia-se no fato de nem ela, tampouco Leonor de Barros, participarem de eventos comemorativos. “Elas não gostavam de exposição social e não iam a eventos públicos - apenas iam a eventos cívicos e eventos profissionais. Elas eram dadas a retirarem-se da cidade em época de férias para ir a internatos, internatos de freira e lugares isolados”, comenta a biógrafa.

Preservação da memória

Apesar da história de Antonieta de Barros ser digna da primeira prateleira de ícones da história do Brasil, o seu nome foi inserido no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria somente em 2023. Esse fato demonstra, por si só, que a sua trajetória não recebeu o devido reconhecimento por quase um século.

Pode-se considerar, então, que o reconhecimento à vida e obra da intelectual faz parte de um movimento de reparação histórica. Para se ter uma ideia, em 2024 o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), do Ministério da Educação (MEC), lançou a plataforma Antonieta de Barros, espaço que tem como objetivo reunir dados sobre investimentos, execução e monitoramento de programas e ações desenvolvidos pelo departamento.

Todavia, o legado e a memória de Antonieta de Barros estão sob constante disputa. Sua trajetória mostra, independentemente de forças políticas que tentem instrumentalizar ou cooptar a sua imagem, que o seu legado estará ligado às lutas pela universalização do acesso à educação, em especial para populações em situação de vulnerabilidade e com histórico de exclusão sociorracial. “Tenho certeza absoluta de que ela teria se colocado a favor do direito das pessoas de estarem na escola”, relata Jeruse Romão.

A memória da intelectual tem endereço reservado para a sua preservação. A saber, o prédio da antiga Escola Antonieta de Barros, situada em Florianópolis, será a sede de um museu dedicado à sua trajetória, assim como do Centro de Cultura, Memória e Arte Negra Catarinense local. Todavia, essa articulação veio acompanhada de muita luta. “Queremos consolidar o Museu Antonieta de Barros e entregá-lo para a cidade, pois ela é uma das mais importantes filhas de Florianópolis”, detalha a biógrafa da intelectual.

Combate ao revisionismo e respeito ao legado

Em tempos nos quais segmentos reacionários tentam normalizar pautas que visam eliminar ações afirmativas e retirar direitos voltados à promoção da equidade racial, como as cotas étnico-raciais, assim como o descalabro em forma do debate sobre mulheres poderem ou não votar, as histórias de ícones como Antonieta de Barros revelam-se fundamentais.

Episódios com esse teor são lembretes de que conquistas estarão sob permanente disputa e, diante disso, precisam ser defendidas, preservadas e protegidas também quando se trata de leis. Isso vale também para tópicos como a preservação mecanismos com foco na promoção da paridade numérica e de forças para candidaturas de parlamentares mulheres e negros.

“Estes são temas que pareciam já resolvidos, mas cujo retrocesso parece estar no horizonte próximo”, reforça Surya Aaronovich Pombo de Barros. Desse modo, é fundamental haver organização política para barrar proposições com esse teor. E os faróis históricos já estão no nosso horizonte. “Conhecer a trajetória de pessoas como Antonieta de Barros pode ser parte do antídoto para esse tipo de projeto.”

Assim, a sua vida e obra é fundamental para estudantes e pessoas pesquisadoras, assim como para qualquer pessoa que se interesse em aprofundar em discussões e reflexões sobre história, educação, gênero e raça no Brasil. “Seu legado está em sua própria trajetória pessoal e nas pautas que defendeu como intelectual pública, política e educadora, que ainda são urgentes e objetos de disputa sobre que sociedade desejamos ser”, pondera a professora da UFPB.

Por fim, outra lição que Antonieta de Barros deixa é sobre a sua trajetória não ser um fato isolado, por mais extraordinária e inspiradora que tenha sido. Sua mãe, Catarina, e sua irmã, Leonor, foram as suas bases e caminharam ao seu lado. Figuras históricas, como Almerinda Silva Gama (1899-1992), Coema Hemetério dos Santos (1888-?), Izolina Machado (1889-1931), Adelia de França (1904-1981), Laudelina de Campos Melo (1904-1991), Conceição Soares Lopes (1905-1990), Virgínia Bicudo (1910-2003), entre muitas outras, mostraram que a luta por direitos raciais e de gênero apenas obteve êxito graças a sonhos e esforços coletivos.

“Não é apenas sobre Antonieta de Barros, [o poeta] Cruz e Sousa ou Gustavo Lacerda, um dos fundadores da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), que é um homem negro de Santa Catarina. Ao puxar-se a história de Antonieta, ela não vem sozinha: vêm ela e uma legião de pretos e pretas que construíram e estruturaram a história de Santa Catarina”, completa Jeruse Romão. E a construção e a estruturação nesse contexto podem ser estendidas também para a história do Brasil.

Escrito por:
Amauri Eugênio Jr.
31 de Julho de 2026

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Livros para conhecer o Brasil: Banzeiro Òkòtó

Banzeiro Òkòtó: 
Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo

Editora:‎ Companhia das Letras.
Data da publicação:‎ 29 outubro 2021.
Autora: Eliane Brum.

A autora mescla relato pessoal e investigação jornalística para escrever um livro urgente de denúncia e em defesa da Amazônia, lugar que adotou como casa e de cuja luta pela sobrevivência participa ativamente.

Escritora, jornalista e documentarista, Eliane Brum faz um mergulho profundo nas múltiplas realidades da maior floresta tropical do planeta. Com quase 35 anos de experiência como repórter, há mais de vinte ela percorre diferentes Amazônias. Em 2017, adotou a floresta como casa ao se mudar de São Paulo para Altamira, epicentro de destruição e uma das mais violentas cidades do Brasil desde que a hidrelétrica de Belo Monte foi implantada.

A partir de rigorosa pesquisa, Brum denuncia a escalada de devastação que leva a floresta aceleradamente ao ponto de não retorno. E vai mais além ao refletir sobre o impacto das ações da minoria dominante que levaram o mundo ao colapso climático e à sexta extinção em massa de espécies. Neste percurso às vezes fascinante, às vezes aterrador, a autora cruza com vários seres da floresta e mostra como raça, classe e gênero estão implicados no destino da Amazônia e da Terra.

Um livro imprescindível para quem tem a coragem de buscar respostas para o tempo de urgência que vivemos, escrito por quem não teme se arriscar para buscá-las.


Eliane Brum
 nasceu em Ijuí, Rio Grande do Sul, em 1966. Escritora, jornalista e documentarista, publicou oito livros no Brasil e no exterior. Reconhecida em 2020 como a repórter mais premiada da história do país, em 2021 sua obra jornalística foi contemplada com o prêmio Maria Moors Cabot, o mais importante das Américas e o mais antigo do mundo. Colunista do espanhol El País, é colaboradora de diversos jornais e revistas da Europa e dos Estados Unidos.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Cultura do Amor: Pensem nas feridas como Rosas Cálidas


Pensem nas feridas como rosas cálidas ...

Tragédias humanitárias não podem ser esquecidas.

Tragédias humanitárias precisam ser registradas para que não caiam no esquecimento.

Foi assim com a devastação de Hiroshima por uma bomba de urânio (apelidada de Little Boy) jogada de um avião americano em 6 de agosto de 1945. Morreram, de imediato, pelo menos 140 mil pessoas. Dois dias depois, outra bomba – essa de plutônio, batizada de Fat Man – caiu em Nagasaki, causando a morte de outros 40 mil japoneses. Milhares morreram nos anos seguintes devido aos efeitos da radiação.

Entre 25 de maio e 12 de junho de 1946 (portanto, quase um ano após a tragédia), o jornalista John Hersey se deslocou até Hiroshima para acompanhar a trajetória de seis sobreviventes. O relato saiu, inicialmente, na revista The New Yorker. Para se ter ideia da repercussão, os 300 mil exemplares da edição rapidamente se esgotaram nas bancas e cópias clandestinas passaram a ser vendidas por um valor 10 vezes maior do que o preço de capa. Emissoras de rádio como a ABC, nos Estados Unidos, e a britânica BBC produziram versões dramatizadas do texto de Harsey, que, a seguir, foi publicado no livro Hiroshima, precursor do New Journalism – gênero que confere impacto e profundidade à reportagem através de uma abordagem literária.

No Brasil, o horror e a estupidez do ataque à cidade japonesa foram registrados por Vinícius de Moraes no poema Rosa de Hiroshima, escrito em 1946 e publicado, pela primeira vez, em 1957, em sua Antologia Poética. Em 1973, os versos foram musicados por Gerson Conrad e ganharam a voz de Ney Matogrosso com a banda Secos & Molhados, ampliando o alcance da indignação do poeta.

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas

Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas

Igualmente, os horrores da Guerra Civil Espanhola – que matou meio milhão de pessoas, entre 1936 e 1939 – foram para sempre inscritos na memória coletiva por Pablo Picasso em Guernica (imagem no alto da página), uma das obras mais conhecidas do pintor espanhol, referência à cidade basca bombardeada por aviões nazistas e fascistas em 26 de abril de 1937.

No caso de Gaza, porém, ainda não temos nem de perto a dimensão da tragédia humana que se abateu sobre o enclave palestino asfixiado pelas forças militares de Israel – desde outubro de 2023, foram exterminadas no mínimo 85 mil pessoas (incluindo 23 mil crianças e 13 mil mulheres) –, como mostram os artigos de Heloísa Villela e Ualid Rabah publicados nesta edição da Liberta. Não apenas os textos, mas também a magnífica arte de capa produzida por Aroeira, inspirada em Portinari, soam como um grito de alerta: não vamos esquecer de Gaza!

Porque tragédias humanitárias precisam ser registradas para que não se eternizem à mercê do ódio ou da omissão.

Matéria:
Paulo César Teixeira
25 jul 2026


quarta-feira, 15 de julho de 2026

Escravidão: "Empregados" domésticos

Viola Davis no filme: Histórias Cruzadas.
Os ricos de condomínio e seus ‘escravos’

Mais do que um passado vergonhoso, a escravidão é parte inegável do presente.

O Brasil é o país com mais empregados domésticos do mundo. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), são 5,9 milhões de pessoas, uma massa de trabalhadores formada por 91% de mulheres.

Isso é resultado da desigualdade do país, é fato. O de cima sobe/o de baixo desce, cantava o amigo Chico Science. E, claro, somos os donos desse recorde triste por causa da nossa herança escravocrata. Em alguns países, a escravidão faz parte de um passado vergonhoso. No Brasil, é parte inegável do nosso presente.

Na semana passada, tivemos mais uma prova dessa realidade amarga e inaceitável, quando foi divulgado que uma mulher de 62 anos havia sido resgatada de um imóvel num condomínio de luxo, na região de Fortaleza, o Terras Alphaville – Residencial 2, no bairro Cidade Alpha. A vítima servia à mesma família desde os sete anos de idade sem salário mensal, o que configura trabalho em condições análogas à escravidão.

Bem, se uma mulher foi escravizada por mais de 50 anos no meio de um condomínio de luxo, isso significa que toda a família sabia do que se passava, assim como agregados e amigos. Será que os outros vizinhos ricos ignoravam o caso?

As histórias de escravidão doméstica moderna lembram as dos abusos sexuais perpetrados por poderosos por anos impunemente, como Saul e Samuel Klein, das Casas Bahia. É necessária uma rede gigante de pessoas que se calam para que esse tipo de crime ocorra por tanto tempo. Isso mostra o quanto a escravidão é naturalizada e banalizada no Brasil.

Essas mulheres, muitas vezes, são tratadas como parte da estrutura familiar, mas não como “alguém da família”, como diz o clichê. Na verdade, são como propriedades e bens mesmo, igualzinho nos tempos da escravidão que vigorou no país até o século 19. Elas são da família tão quanto uma cristaleira antiga herdada de uma avó.

A mulher de Fortaleza não é um episódio isolado. De vez em quando, um crime parecido vem à tona.

O caso Jorge Luiz de Borba
Em 2023, Sônia Maria de Jesus foi resgatada da casa do desembargador do Tribunal de Justiça de Santa Catarina Jorge Luiz de Borba. No ano passado, sua esposa, Ana Cristina Gayotto de Borba, teve seu nome incluído na lista suja do trabalho escravo do governo federal. Isso aconteceu depois que uma investigação concluiu que Ana Cristina manteve Sônia Maria em regime de trabalho escravo doméstico por quase 40 anos na residência da família Borba, em Florianópolis.

O caso de Sônia é emblemático. Ela voltou para a casa da família Borba por vontade própria, depois de três meses do seu resgate, o que é perfeitamente entendível, já que essa era a única vida que ela conhecia. A família Borba afirma que ela sempre foi tratada como “filha”. E o desembargador nunca perdeu o seu emprego. Revoltante.

O caso Isis Valverde
Alguns exemplos de exploração doméstica moderna não são tão iguais ao do escravagista clássico, mas não deixam de ser escancaradamente escravocratas.

Recentemente, um caso envolvendo a atriz Isis Valverde causou revolta nacional. A atriz é acusada de explorar uma empregada doméstica, que a processou. A funcionária afirma que cumpria jornadas de aproximadamente 12 horas por dia, geralmente das 8h30 às 20h ou 20h30, e que tinha apenas cerca de 20 minutos para o almoço (!). Ela entrou na Justiça pedindo o pagamento de horas extras, diferenças de Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), multa rescisória e indenização por danos morais. O valor pedido por ela era de R$ 385.233,56. Em junho, as duas partes chegaram a um acordo de R$ 30 mil.

O valor baixo causou espanto, assim como a forma encontrada pela atriz para pagar o acordo. Isis é uma pessoa muito bem sucedida, casada com um empresário rico, mas decidiu pagar o acordo em seis parcelas mensais de R$ 5 mil. Um escárnio. A atriz nega as acusações e o seu advogado já ameaçou quem a acusasse com processo, usando uma tática de silenciamento.

Se, realmente, Isis explorou a funcionária desse jeito, ela está muito longe de ser a única. Nos prédios e condomínios de luxo, explorar trabalhadoras domésticas e tratá-las de forma escravocrata é comum.

As babás vestidas de branco, que lotam praças de bairros de bacanas e espaços de convivência dos condomínios de luxo são mais uma prova desse presente escravocrata. E, não, não é normal. Só acontece em países onde a herança da escravidão faz parte do presente.

Enquanto isso, os escravocratas modernos, sejam eles criminosos que vão parar na lista suja do trabalho escravo do país ou apenas ricos descolados que não percebem (como pode?) que é indecente submeter funcionárias a salários baixos e humilhações, não sentem vergonha nenhuma. Está na hora de passarem a ter.

Matéria:
@Revista Liberta
11 jul - 2026

Nina Lemos: é jornalista, escritora e mora em Berlin. É uma das criadoras do trio 02 Neurônio, com quem lançou cinco livros. Foi repórter especial da revista Tpm e colunista da Folha de S. Paulo, do UOL e da DW Brasil.


sábado, 17 de janeiro de 2026

LiTeRaTuRa: Guesa Errante

"Um brasileiro entendeu nossas questões como "latinos" americanos bem antes de inúmeros outros autores, Joaquim de Sousa Andrade, o Sousândrade, um brasileiro que se preocupou e escreveu sobre a América explorada, numa época em que os contatos entre Brasil e a América Hispânica eram muito raros e voláteis. Sousândrade com sua obra incrível precoce de precursora ideia, de que a América se definia pelas diferenças internas, pela mutabilidade, pela capacidade de dialogar e enxergar o outro. Portanto, era uma américa que deveria ter sido batizada de, Transamérica"

Texto: Prof. Dr. Júlio Pimentel
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Livro: Guesa Errante

Autor: Joaquim de Sousa Andrade (Sousândrade)

Editora: Valer

Sinopse: Guesa Errante é um poema narrativo em que o autor resgata uma lenda quíchua que narra o sacrifício de um adolescente, no qual utiliza recursos expressivos, como a criação de neologismos e metáforas vertiginosas. É proprietário de uma das mais originais e instigantes obras do Romantismo brasileiro.

Reflexão: Quem lê o futuro se condena ao esquecimento. Joaquim de Sousa Andrade (1833-1902), ou Sousândrade, dizia-se decepcionado por saber que seria lido 50 anos depois. Ele se referia à sua obra maior, O Guesa, poema épico de 13 cantos e 176 estrofes, cujo protagonista é um ser errante, em travessia pelo continente americano - seu destino é ser sacrificado por especuladores em Nova York. Apesar da importância, o livro só foi editado em edição fac-similar, de pequena tiragem. Esta é a primeira, desde o fim do século 19, edição integral, com a tipologia da época e sem a reprodução em fac-símile, com prefácio do poeta Augusto de Campos, com o seu irmão, Haroldo de Campos, escreveu Re-Visão de Sousândrade, e resgataram a obra do poeta maranhense nos anos 1960. 

Os grandes méritos de O Guesa residem, em grande parte, nas inovações estéticas do poema, especialmente nos episódios epigramáticos que Haroldo e eu denominamos Tatuturema e O Inferno de Wall Street. Uma das primeiras edições parciais do poema, publicada em 1877, em Nova York, onde o poeta residiu por vários anos, já traz essas sequências, nas quais ele usa recursos inusitados. 

Colagens de eventos colhidos nos jornais The New York Herald e The Sun, neologismos como 'sobre-rum-nadam' ou 'fossilpetrifique' e a diversidade tipográfica dão um aspecto incomum a esses epigramas dialogados. Mas não são apenas essas inovações, presentes em outros versos, que lhe conferem particular interesse. Trata-se de um poema épico com uma visão transamericana atípica: o personagem principal, o 'guesa', sem-lar ou errante, extraído da mitologia dos antigos músicas, índios colombianos, era um menino sacrificado em homenagem a Bochica, o Deus do Sol. Assumindo alegoricamente a sua persona, Sousândrade percorre vários países sul e centroamericanos e termina sacrificado pelos especuladores da Bolsa de Nova York.


LiTeRaTuRa: As Veias Abertas da América Latina

"A américa (latina) é marcada pelo signo do maravilhoso, e maravilhoso na base etimológica, da palavra maravilha, que vem de mirabilia, ou seja, a ideia de mirar, olhar com intensidade, é olhar através de nós, o inabitual, o inesperado e o que contraria as leis limites, as convenções que você supõe gerais e que olha o mundo ao contrário do desejo e o anseio"

Alejo Carpentier, do romance 'O Reino deste mundo'.
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Livro: As veias abertas da América Latina

Autor: Eduardo Galeano

Editora L&PM

Lançamento: 1970

Remontando a 1970, sua primeira edição, atualizada em 1977, quando a maioria dos países do continente padecia facinorosas ditaduras, este livro tornou-se um 'clássico libertário', um inventário da dependência e da vassalagem de que a América Latina tem sido vítima, desde que nela aportaram os europeus no final do século XV.

No começo, espanhóis e portugueses. Depois vieram ingleses, holandeses, franceses, modernamente os norte-americanos, e o ancestral cenário permanece - a mesma submissão, a mesma miséria, a mesma espoliação.


quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Série Heroínas do Brasil: Conceição Evaristo

Conceição Evaristo

Toda mulher negra brasileira é uma heroína, mas, neste caso, Conceição Evaristo se torna um ícone, pois sua imagem e trajetória de vida formam um exemplo para todas as mulheres negras neste país.

Maria da Conceição Evaristo de Brito nasceu em Belo Horizonte, em 1946. De origem humilde, migrou para o Rio de Janeiro na década de 1970. Graduada em Letras pela UFRJ, trabalhou como professora da rede pública de ensino da capital fluminense. É Mestre em Literatura Brasileira pela PUC do Rio de Janeiro, com a dissertação Literatura Negra: uma poética de nossa afro-brasilidade (1996), e Doutora em Literatura Comparada na Universidade Federal Fluminense, com a tese Poemas malungos, cânticos irmãos (2011), na qual estuda as obras poéticas dos afro-brasileiros Nei Lopes e Edimilson de Almeida Pereira em confronto com a do angolano Agostinho Neto.

Participante ativa dos movimentos de valorização da cultura negra em nosso país, estreou na literatura em 1990, quando passou a publicar seus contos e poemas na série Cadernos Negros. Escritora versátil, cultiva a poesia, a ficção e o ensaio. Desde então, seus textos vêm angariando cada vez mais leitores. A escritora participa de publicações na Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos. Seus contos vêm sendo estudados em universidades brasileiras e do exterior, tendo, inclusive, sido objeto da tese de doutorado de Maria Aparecida Andrade Salgueiro, publicada em livro em 2004, que faz um estudo comparativo da autora com a americana Alice Walker. Em 2003, publicou o romance Ponciá Vicêncio, pela Editora Mazza, de Belo Horizonte.

“Minha mãe leu e se identificou tanto com o Quarto de Despejo, de Carolina, que igualmente escreveu um diário, anos mais tarde. Guardo comigo esses escritos e tenho como provar em alguma pesquisa futura que a favelada do Canindé criou uma tradição literária. Outra favelada de Belo Horizonte seguiu o caminho de uma escrita inaugurada por Carolina e escreveu também sob a forma de diário, a miséria do cotidiano enfrentada por ela.”— Conceição Evaristo

A carreira

Seus primeiros textos foram lançados na série Cadernos Negros, publicações idealizadas por um grupo de escritores e escritoras negras em São Paulo. Posteriormente essas publicações foram receberam o nome de Quilombhoje.

Algumas das suas obras já foram traduzidas para o francês. Em 2018 venceu o Prêmio de Literatura do Governo de Minas Gerais.

Temas recorrentes em suas obras são a força feminina, principalmente da mulher negra, a investigação familiar e ancestral, a memória, desigualdades sociais e opressões contra a mulher e a conta a população negra.

Principais Obras

- Ponciá Vicêncio, 2003 (romance)

- Becos da Memória, 2006 (romance)

- Poemas da recordação e outros movimentos, 2008 (poesia)

- Insubmissas lágrimas de mulheres, 2011 (contos)

- Olhos d’água, 2014 (contos)

- Histórias de leves enganos e parecenças, 2016 (contos e novela)

- Canção para ninar menino grande, 2018 (romance)

Prêmios

Prêmio Jabuti de Literatura, 2015

Faz a Diferença - Categoria Prosa, 2017

Prêmio Cláudia - Categoria Cultura, 2017

Prêmio de Literatura do Governo do Estado de Minas Gerais, 2017

Prêmio Bravo (revista) com Destaque, 2017.

Após não ser eleita no pleito que concorreu em 2018, Conceição fala sobre a ABL:

“Não sei se me candidataria de novo. Pela maneira que ocorreu e pela relação com a Academia, talvez queiram que eu seja a última pessoa a se candidatar. Não estou negando, mas não vejo uma possibilidade nisso. E falo sem modéstia alguma: quem perdeu não fui eu. A minha candidatura, de certa forma, escancarou que alguma coisa precisa ser revista na Academia. Talvez o próprio processo de eleição. Talvez a Academia precise acompanhar mais esse espírito do tempo, pensar mais nessa amplitude e nessa diversidade da literatura brasileira. Então, eu não perdi. E talvez a Academia tenha perdido um grande momento de ser democrática, assim como perdeu esse momento quando o Daniel Munduruku não foi eleito.”

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Literatura: Extracampo, na ótica do cárcere

Livro

Extracampo, na ótica do cárcere.

A história do empresário Angelo Canuto

O Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e China. O cotidiano do cárcere é uma realidade de quase um milhão de brasileiros e pouco sabemos a respeito desses excluídos do Brasil. Homens e mulheres que carregam o estigma de presidiário e, mesmo após o cumprimento da pena, irão conviver com uma marca daqueles que não acreditam na recuperação do ser humano.

Extracampo: na ótica do cárcere é um livro que revela, a partir da trajetória de Angelo Canuto, os caminhos da ressocialização, os passos do ser humano que errou, pagou, mas não desiste de lutar por aqueles que precisam de uma chance para voltar à sociedade.

Em cada uma de suas reflexões é possível projetar perspectivas em situações tão complexas, superar os desafios em momentos tão conturbados e seguir adiante.

Seu livro é uma parada obrigatória para conhecer uma face do Brasil ainda desconhecida, mas cheia de sonhos, guerreiros e possibilidades.

Vagner Aparecido Marques, Doutor em História Social pela PUC-SP e autor do livro Fé & Crime: Evangélicos e PCC nas periferias de São Paulo.

Literatura: Arte Moderna

O paradoxo Brasil

Como é possível que ainda não se tenha discutido a fundo divergência tão flagrante?

(Conteúdo da Revista Liberta)

REVISTA LIBERTA

Abaporu, Tarsila do Amaral (1928)

As edições de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, apresentam mudanças intrigantes. Na primeira edição, publicada em 1936, o livro principia com um otimismo que, certamente, surpreenderá o leitor contemporâneo:

Todo estudo compreensivo da sociedade brasileira há de destacar o fato verdadeiramente fundamental de constituirmos o único esforço bem-sucedido em larga escala de transplantação da cultura europeia para uma zona de clima tropical e subtropical. Sobre território que, povoado com a mesma densidade da Bélgica, chegaria a comportar um número de habitantes igual ao da população atual do globo, vivemos uma experiência sem símile.

A experiência histórica brasileira é sem igual porque exitosa: não pode haver dúvidas na leitura da passagem. E o sucesso parece necessariamente sugerir que a aclimatação da cultura europeia ocorreu da melhor maneira possível. O parágrafo de abertura da primeira edição pareceria a própria metonímia do título. O intérprete poderia encontrar os fundamentos da formação social, já que, desde seus primórdios, o processo civilizatório brasileiro exemplificaria uma feliz e rara coincidência entre intenção e gesto. As raízes do Brasil poderiam ser reveladas, inclusive vistas a olhos, pois constituímos o único esforço bem-sucedido de transplantação cultural; afinal, falamos de raízes.

Não é verdade que se escuta no trecho de 1936 um tom vizinho ao do parágrafo de abertura de Casa-Grande & Senzala?

Quando em 1532 se organizou econômica e civilmente a sociedade brasileira, já foi depois de um século inteiro de contatos dos portugueses com os trópicos; de demonstrada na Índia e na África sua aptidão para a vida tropical. Mudado em São Vicente e em Pernambuco o rumo da colonização portuguesa do fácil, mercantil, para o agrícola: organizada a sociedade colonial sobre base mais sólida e em condições mais estáveis que na Índia ou nas feitorias africanas, no Brasil é que se realizaria a prova definitiva daquela aptidão.

As duas passagens celebram a vocação colonizadora portuguesa. No vocabulário de Gilberto Freyre, a plasticidade do português favoreceu o contato produtivo entre culturas, assim como sua assimilação num composto híbrido. A abertura da primeira edição de Raízes do Brasil corroborava o otimismo do sociólogo pernambucano: dicções diferentes, porém afinadas no mesmo tom fundamentalmente positivo. Entretanto, na edição definitiva, enriquecida com importante introdução de Antonio Candido, “O significado de Raízes do Brasil”, o parágrafo de abertura sofreu uma mudança radical:

A tentativa de implantação da cultura europeia em extenso território, dotado de condições naturais, se não adversas, largamente estranhas à sua tradição milenar, é, nas origens da sociedade brasileira, o fato dominante e mais rico em consequências.

A modificação não poderia ser maior: agora, a experiência histórica brasileira parece condenada ao descompasso entre as ideias e seu lugar. Destaque-se o fator decisivo: não se trata de correção estilística, que vise aprimorar a expressão ou torná-la mais clara, tampouco do acréscimo de novos dados, que aprimorem o argumento, mas da supressão completa de ideia-chave, simplesmente substituída pelo seu contrário.

Os fatores da formação social brasileira que surgiam caracterizados como o único esforço bem-sucedido de transplantação cultural em larga escala surgem como definitivamente estrangeiros às condições tropicais. O trânsito do próprio ao alheio realiza-se sem mediações, como se entre as duas passagens não residisse um paradoxo de difícil entendimento. Contudo, apesar da notável mudança, tanto nas primeiras edições quanto na definitiva, segue o célebre trecho (com pequenas modificações):

Trazendo de países distantes nossas formas de vida, nossas instituições, nossa visão de mundo, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda uns desterrados em nossa terra.

Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas ideias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra.


Nas primeiras duas edições, somente faltava o “hoje”, o resto da frase é praticamente o mesmo – destaque-se ainda a sutil mudança conceitual de “formas de vida” para “formas de convívio” e de “visão de mundo” para “ideias”. De imediato, porém, quero propor uma pergunta: como é possível que ainda não se tenha discutido a fundo divergência tão flagrante? Os brasileiros tiveram uma experiência única porque bem-sucedida, mas, ao mesmo tempo, como resultado, vivem desenraizados em seu próprio país. Esse paradoxo não tem sido devidamente avaliado. Como ser ao mesmo tempo bem-sucedido e desterrado?

Pergunta-chave que condensa o dilema Brasil.

Conto com a sua leitura na próxima semana?

[1] Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1936, p. 3, destaques meus.
[2] Gilberto Freyre. Casa-Grande & Senzala. Formação da família brasileira sob o regime de economia patriarcal. Rio de Janeiro: José Olympio, 1943 [1933]. p. 77.
[3] Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989 [1967], p. 3, destaques meus.
[4] Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1948 [1936], p. 15, destaques meus.
[5] Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1967 [1936], p. 3, destaques meus.

João Cezar de Castro Rocha
Professor Titular de Literatura Comparada (UERJ) e Cientista do Nosso Estado (FAPERJ). Autor de 14 livros; seu trabalho já foi traduzido para o espanhol, mandarim, italiano, francês, alemão e inglês.


quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Ideias Anti-Racismo: Lília Guerra

Literatura Anti-Racismo

Texto de Eliana Alves Cruz: É guerra o tempo todo.


A escritora Lília Guerra e o racismo nosso de cada dia.

O líder, intelectual e imortal indígena da Academia Brasileira de Letras Aílton Krenak, há alguns anos, no primeiro episódio do ótimo documentário Guerras do Brasil, dirigido por Luiz Bolognesi, falou algo perturbador e antológico: “Nós estamos em guerra. Eu não sei por que você está me olhando com essa cara tão simpática. O seu mundo e o meu mundo estão em guerra. Os nossos mundos estão todos em guerra. A falsificação ideológica que sugere que nós temos paz, é pra gente continuar mantendo a coisa funcionando. Não tem paz em lugar nenhum. É guerra, em todos os lugares, o tempo todo”.

Como esse “tempo todo” é algo que não passa no Brasil e os fatos parecem se entrelaçar de maneira irônica, uma escritora que tem “guerra” no sobrenome, participante da programação principal da Flip em 2025, foi a prova da verdade proferida por Krenak.

Lília Guerra, autora dos excelentes livros “O céu para os bastardos” e “Perifobia” subiu no palco principal da Festa Literária de Paraty, a FLIP, a mais famosa do país, aquela que deu origem a todas as outras neste formato. Finalizado o evento, já em casa, ela recebe um contato da organização, informando que pousada deu falta de um lençol e uma manta no quarto em que ela estivera.

Lília estava sendo alvo da suspeita de um furto.

Em suas palavras, no texto que escreveu para desaguar todo o caos interior que se instala quando algo assim acontece: “Pelo que entendi, a pousada solicitava reembolso do valor correspondente aos itens apontados como ausentes no quarto onde estive, após a checagem padrão. A produção da Festa foi contatada porque era responsável pela minha estadia e me colocou a par da situação. Me disseram que duvidavam muito que isso houvesse realmente ocorrido. Porém, que se tivesse sido assim, eu só precisava confirmar e eles providenciariam o ressarcimento”.

São tantas camadas de erro que é até difícil começar a enumerar, mas vamos aprofundar aqui na conjunção adversativa “porém”. A dúvida é um tapa na cara. Não apenas de Lília, mas de todos e todas nós que crescemos apontados como possíveis cometedores de delitos, contravenções, atos fora da lei, violências. A dúvida é a certeza da dureza que é escapar da lógica colonial que fixou cada pedra do chão da cidade de Paraty, parte do Caminho do Ouro e um dos epicentros da riqueza colonial brasileira.

Lília entrou pela porta da frente, como resultado da projeção que conquistou com sua escrita importante, necessária, bonita. Sentou-se na cadeira do centro do palco com a imagem de Carolina Maria de Jesus, uma inspiração e um incentivo, estampada no peito. Realizou um desejo de muitos escritores e escritoras em todo o país, para alegria de quem a ama, considera e admira. Para contentamento de todos nós, escritores e escritoras negros e negras, que por décadas sem conta estivemos alijados destes espaços dados à intelectualidade brasileira. Um evento que nos últimos nove anos vêm buscando dar voz e espelhar a produção literária tão diversa do país. Aí, como diz o pema do Drummond, no “meio do caminho tinha uma pedra”, no meio da fala tinha um “porém”.

Lília prosseguiu em seu desabafo.

“(…) Suponho que deva ser uma ocorrência corriqueira, dada a naturalidade com que me foi comunicada. Para mim? Um piano de cauda descendo uma ladeira de patins. Inacreditável.

(…) Recebi pedidos de desculpas, sim. Pelo equívoco, pela condução desacertada, pelo incômodo, pela comunicação falha. Pela falta de assertividade, pelo desencontro de informações, pela demora no retorno. Pelo desconforto, pela gravidade. Acreditei na sinceridade de todos esses pedidos e os aceitei. Tanto que, em determinado momento, me flagrei elaborando como agir, de modo a não parecer julgadora, intolerante, injusta, transgressora do Pai Nosso, inflexível ou incompreensiva. Não deixei de pensar que somos todos passíveis de erros e procurei administrar o tempo para ouvir quem achou por bem se manifestar. Eu mesma não tenho muito mais a dizer.

Livro: O Céu para os Bastardos, Lília Guerra.

Decidi compartilhar a experiência porque as Festas e Festivais, Feiras e acontecimentos literários seguirão ocorrendo e isso é muito bom! Desejo que se expandam! Que se realizem em todos os cantos do Brasil. Que alcancem o povo! E acredito que haverá mais pessoas como eu transitando por esses eventos. Nas curadorias, mediações. Nas mesas e, sobretudo, nas plateias. (…) É preciso aprender a conviver com a gente nesses meios. Estamos aí!”

Sim, querida Lília, estamos aí, mas é bom nunca esquecer aquelas pedras que pavimentam Paraty e todos os espaços neste país. Ouçamos Drumond:

“Nunca me esquecerei desse acontecimento

Na vida de minhas retinas tão fatigadas

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

Tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra”

E levemos a sério o alerta de Krenak: “É guerra, em todo lugar, o tempo todo”.

Eliana Alves Cruz é carioca, escritora, roteirista e jornalista. Foi a ganhadora do Prêmio Jabuti 2022 na categoria Contos, pelo livro “A vestida”. É autora dos também premiados romances Água de barrela, O crime do cais do Valongo; Nada digo de ti, que em ti não veja; e Solitária. Tem ainda dois livros infantis e está em cerca de 20 antologias. Foi colunista do The Intercept Brasil, UOL e atuou como chefe de imprensa da Confederação Brasileira de Natação.

Plataforma ICL de Comunicação.
https://iclnoticias.com.br/e-guerra-o-tempo-todo-lilia/


quinta-feira, 14 de agosto de 2025

O Livro

 O Livro

"o Livro é um lugar de encontro, onde as pessoas se reconhecem"

"o sagrado é quem lê"

"o Livro nos deixa à salvo do alienador"

"o Livro deve estar ao centro da política"

"todos devemos fazer a defesa do Livro e da leitura"


Se quisermos mesmo sair de uma mentalidade tacana de que pessoas não gostam de ler livros, é necessário entender que o livro não é um objeto para comécio ou algum item para enfeitar prateleiras. Livro é a solução de todas as questões humanas, pois ele é o maior poder em nossas mãos para o conhecimento, criação e emancipação individual e coletiva de todas as pessoas. Só o livro nos liberta!