Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
Mostrando postagens com marcador Revista Liberta. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Revista Liberta. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Romance: O Que Podemos Saber (Ian McEwan)


O Que Podemos Saber

Qual futuro prever a partir dos escombros do presente?

Autor: IAN MCEWAN
Editora: ‎Companhia das Letras
Data da publicação: 12 maio 2026
Edição: ‎1ª

Em 2119, no que restou do mundo após uma catástrofe climática, um professor de literatura parte em busca de um poema perdido de 2014. Sua obsessão não é compreendida pelos jovens: qual é a importância da literatura numa terra devastada? É um questionamento que o mestre britânico Ian McEwan nos provoca em um romance de ideias ousadas.

Como a história da literatura é escrita? Em 2014, em um jantar de intelectuais, um poema supostamente brilhante é lido por Francis Blundy em homenagem à sua esposa. No entanto, nenhuma cópia do texto é encontrada, apesar de tudo no século xxi ser registrado digitalmente, de e-mails a mensagens instantâneas privadas ― um vasto material que apenas cem anos depois poderá ser acessado.

Em 2119, em um mundo alagado e em vias de reconstrução sob um novo modelo, o professor Thomas Metcalfe segue obcecado por encontrar o poema. A jornada de Metcalfe nos leva a reconstruir a vida antes da tragédia global até a descoberta de segredos inconfessáveis. O deslocamento temporal de ficção científica encenado por McEwan, mesclado ao seu estilo realista, perturba pela coragem e o arrojo de suas ideias. Afinal, o que pode a literatura e as artes diante do apocalipse iminente?
____________________________________________

Romance futurista de Ian McEwan projeta a distopia como realidade no século 22

( Reflexão: Adriana Ferreira Silva )

Estamos em 2119. Após décadas de alterações no clima, o nível do mar subiu, reduzindo países como o Reino Unido a ilhotas, enquanto cidades como Nova York, Amsterdã e Londres estão completamente submersas.

Com o colapso da União Europeia, nações como a Alemanha foram anexadas à Rússia Maior. Isolado e sob o comando de milícias, os Estados Unidos se tornaram um dos lugares do planeta a se evitar. No continente africano, a Nigéria se consolidou como superpotência global, tendo a naira utilizada como principal moeda nas negociações internacionais.

Devido a guerras, catástrofes naturais e pandemias, de cerca de 8 bilhões em 2026, a população mundial está reduzida à metade. Espalhadas por ilhas e nas terras altas que restaram após a Grande Inundação, as pessoas se deslocam de barco, bicicleta e a pé. Sem as imensas extensões de terra dedicadas à agricultura e à criação de animais para o abate, a alimentação foi substituída por bolos de proteínas sintéticas. Produtos como café, chocolate e bebidas alcoólicas são raridades caríssimas para poucos.

O mundo imaginado pelo autor britânico Ian McEwan em O Que Podemos Saber (Cia. das Letras) ensejou uma série de discussões sobre a sociedade contemporânea desde seu lançamento no primeiro semestre. Um dos livros mais elogiados deste ano, o romance futurista tem como protagonista o professor e crítico literário Tom Metcalfe, cujo foco de estudos é a produção literária dos anos 1990/2000, em especial a criação do poeta Francis Blundy, cuja obra-prima, um poema inspirado em sua mulher, Vivien, está desaparecida há décadas.

Em sua investigação, Metcalfe explora mensagens instantâneas de texto, e-mails, reminiscências de perfis de redes sociais há muito desativadas, que revelam um modo de vida marcado pela abundância e o desperdício. Um jeito de existir incompreensível para seus jovens estudantes de literatura, a quem o mestre tenta sensibilizar para as qualidades e fraquezas de seus antepassados.

“Nesse estágio, os alunos ainda não estão convencidos. Não conseguem acreditar que as pessoas da era pré-Inundação, que viveram há apenas um século, eram parecidas com eles. Aquela gente antiga compunha-se de imbecis ignorantes, miseráveis e destrutivos. Como mencionou um dos alunos mais inteligentes, sem dúvida, eles poderiam ter feito algo mais do que expandir suas economias e guerrear.”

As mesmas proposições que nos levam a tentar compreender nosso passado mais recente pautam as reflexões de McEwan sobre como imaginar um futuro a partir dos escombros do presente.

Sob essa perspectiva, tenho pensado sobre como as próximas gerações irão se referir a nós, desde a divulgação dos resultados do primeiro turno das eleições presidenciais no último domingo. Na impossibilidade de evitar as notícias ou ceder à paralisia e à depressão, a arte é alento, mas também alerta.

Estirpe das servas.

Para quem, como eu, nasceu na década de 1970, os anos 2000 pareciam ser a materialização da utopia. A internet encurtou distâncias, expandiu fronteiras, promoveu acessos. As democracias vingavam. No Brasil, em especial, a vida prometia ser cada vez melhor. Mas, em menos de duas décadas, a elite capitalista deixou bem claro a quem serve todas as supostas facilidades da nova era: única e exclusivamente a ela própria.

A distopia se impôs como realidade. Não à toa, a obra que mais inspira comparações com a ascensão da extrema direita ao redor do mundo, O Conto da Aia (Ed. Rocco), de Margaret Atwood, baseia-se em extensa pesquisa da best-seller canadense sobre regimes totalitários (o livro inspirou uma série para a televisão lançada em 2017).

Para quem não leu ou assistiu à série, no romance, uma junta autoritária chega ao poder dos Estados Unidos, que passam a se chamar Gilead. Dividida em castas, a sociedade funciona sob estritas regras religiosas e patriarcais, na qual mulheres – mesmo as de classes dominantes – têm seus direitos cassados e são submetidas a todo tipo de violência, do estupro ao trabalho forçado e à mutilação como forma de castigo.

As aias do título integram a estirpe das servas, destinadas a procriar. Submetidas a estupros diários, são separadas das crianças assim que dão à luz. Exatamente o mesmo que ocorria às africanas escravizadas. Ou o que ocorre hoje às afegãs. E quem sabe pode vir a ocorrer novamente às brasileiras pobres.

Caso Ian McEwan tomasse o Brasil de 2026 como ponto de partida para pensar o século 22, poderia incluir a total extinção dos povos indígenas, cujas terras serão transformadas em pastos e plantações, bem como a floresta e outras áreas de proteção ambiental. Considerado um rio morto, no Amazonas só restarão as estruturas utilizadas na exploração de petróleo, lixo abandonado por empresas estadunidenses.

Ocupado por cassinos e resorts, o litoral brasileiro será dividido entre facções milicianas, conhecidas por promover festas de arromba, onde drogas sintéticas serão consumidas por “novinhas” e pela fina-flor da elite. Na Baía da Guanabara, uma base do Exército estadunidense terá canhões apontados para o que restou dos morros. Pobres e pretos que sobreviverem vão lotar gigantescos complexos penitenciários, geridos por conglomerados religiosos trilionários.

Parafraseando McEwan, tudo isso, porque aquela gente antiga, composta de uma maioria de imbecis ignorantes, miseráveis e destrutivos preferiu ignorar o fato de que estava escolhendo um homem acusado por diversas falcatruas para governar o país. Sem dúvida, eles poderiam ter feito algo melhor. Ainda dá tempo.

@REVISTA_LIBERTA

Matéria: 10 out 2026
Adriana Ferreira Silva é jornalista, escritora e curadora, com enfoque em temáticas interseccionais de gênero e raciais. Coautora do livro "Democracia Para Quem? – Ensaios de Resistência" (ed. Boitempo), colabora com veículos como o canal ICL Notícias, jornal Nexo e as revistas Liberta, Numéro Brasil e Quatro Cinco Um. Como moderadora, atuou em eventos nacionais e internacionais como a Commission on the Status of Women (ONU/NYC). É curadora de eventos culturais e de jornalismo como a série "Conversas sobre branquitude", o edital Rumos Itaú Cultural 2023-2024 e a Jornada Galápagos de Jornalismo. Participou de coberturas como a dos atentados de 11 de Setembro em Nova York (2001), foi correspondente em Paris, trabalhou nas redações de Marie Claire, Vogue, Veja SP, Folha de S. Paulo e como colunista da rádio CBN.

________________________________________________________________


Fim da Espécie ??


Uma Leitura Filosofante da Crise Atual

Estamos sob a energia destrutiva do caos, mas nele está germinando uma nova ordem.

Estão se fazendo as mais variadas análises das eleições brasileiras com a ascensão surpreendente da extrema direita, geralmente com categorias de uma sociologia integral. Elas são necessárias. Entretanto, a gravidade da crise brasileira, que é também planetária, é de tal envergadura que nos faltam categorias adequadas para entendê-la. Estimo que precisamos de uma ótica filosofante, pois se trata de ir às raízes para encontrar alguma luz esperançadora.

Parto da percepção generalizada de que o mundo assim como está não pode continuar. Há demasiadas e graves ameaças ao futuro da vida. A continuar, advertia Zygmunt Bauman, “vamos engrossar o cortejo dos que estão rumando na direção da vala comum”. Já antes, em 1930, escreveu Freud O Mal Estar da Cultura, concluindo, na última página, com esta frase sombria: ”Agora os homens avançaram tanto no domínio das forças da natureza que, com sua ajuda, será fácil exterminar uns aos outro até o último indivíduo” (Edição Vozes, 2026, p.129). Atualmente, com o arsenal destrutivo existente, acrescido pela IA autônoma, pode se tornar uma realidade. Há, pois, um mal estar coletivo no mundo, que encontra na ascensão trepidante do fascismo e da extrema direita no Brasil, especialmente nos EUA e alhures, sua inegável comprovação.

De minha parte, diria, como hipótese, que esta atmosfera inimiga da vida e da convivência fraterna entre os humanos e com a natureza deriva de uma radical decepção, que degenerou numa profunda depressão.

A decepção residiria no fracasso de todas as promessas feitas pelas grandes narrativas nos últimos séculos: o iluminismo, o capitalismo, o socialismo, as democracias, as tecnociências da comunicação (internet, Twitter, Facebook etc.) e a IA. As promessas não foram cumpridas.

A decepção generalizada redundou numa grande depressão coletiva: uma onda terrível de ódio, de raiva, de fake news e de violência está cobrindo o planeta e, em particular, o Brasil. A depressão nos rouba a alegria de viver.

Crises sempre houve e haverá em todas as culturas. A nossa é singular, por ser planetária. Haverá alguma luz na imensa obra de 12 tomos do historiador inglês Arnold Toynbee, A Study of History? Nela, ele mostra como as culturas surgem, se desenvolvem, chegam a seu ápice e morrem, substituídas por outras.

Maneja duas categorias básicas: desafio (challange) e resposta (response).Quando o desafio é de pouca monta, a civilização responde a ela e floresce. Quando o desafio é maior do que a sua capacidade de resposta, a civilização entra em crise, pode prolongar sua agonia, mas, no fim, desaparece. Essa é uma exposição simplificada de uma obra complexa e extremamente erudita. Talvez seu limite consista em não ter considerado a luta de classes, que, queiramos ou não, sempre ocorre em sociedades complexas. Agora, estamos sob a regência da incapacidade de resposta, pois o desafio ultrapassa esta nossa capacidade . Irrompe, então, a depressão.

Novo rumo, nova esperança.

Há alguma saída para esta enroscada? Ou chegou a nossa vez de encerrarmos o nosso ciclo dentro da cosmogênese e vamos desparecer? É notório que todos os seres que, depois de terem vivido por milhões de anos sobre este planeta, chegaram ao seu clímax e desapareceram. Também nós teríamos o mesmo destino? Deixo a questão em aberto, pois não nos parece improvável nem impossível, uma vez que já nos demos os meios de nos autodestruir.

Meu sentimento do mundo me diz que, quando desfalecem as utopias, mesmo as mínimas, de melhoria dentro do sistema imperante, só nos resta voltarmo-nos sobre nós mesmos. Somos uma fonte inesgotável de virtualidades e de uma capacidade ilimitada de relações e de criatividade. Apesar de sermos contraditórios, feitos de luz e de sombras (C. G. Jung), sapientes e dementes (E. Morin), (eros: vida) e (thánatos: morte, Freud) podemos potenciar de tal forma nossa positividade, capaz de definir um novo rumo e uma nova esperança.

Nesse sentido, é inspiradora a teoria do caos, formulada pelo russo-belga Ilya Prigogine (1917-2003), prêmio Nobel de Química em 1977 (Order Out of Chaos, 1948) e de Lorenz/Gleick. O universo se originou de um fantástico caos inicial (Big Bang). A evolução se fez e se faz para colocar ordem neste caos originário,criando ordens cada vez mais altas e complexas até irromperem no ser humano com inteligência, sentimento, amor e cuidado.

A natureza do caos é de ser destrutivo e generativo. Ele destrói uma ordem vigente que esgotou suas virtualidades, mas guarda dentro de si seminalmente uma nova ordem. Concluído o processo de destruição, irrompe a nova ordem. Ela inaugura uma outra história até que ela mesma se extenuar e mostrar-se caótica/destrutiva. Mas guarda dentro de si o novo a irromper.

Na atual fase histórica global, estamos sob a energia destrutiva do caos, mas dentro dele está germinando uma nova ordem, um novo mundo, que cremos será amigo da vida, da irmandade universal também com os seres na natureza, justo e terno, que permitirá melhor conviver e amar. Superaremos o caos destrutivo bolsonarista-fascista, expresso pela eleição no primeiro turno, pelo caos generativo de Luiz Inácio Lula da Silva , que, esperamos, triunfará para levar avante o projeto de inclusão dos pobres.

Então, não desesperemos. Esta leitura, que se propõe filosofante, pode nos infundir um renovado esperançar.

@REVISTA LIBERTA

Matéria: 10 de outubro de 2026
Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.



sábado, 29 de agosto de 2026

Pensamento: Democracia Socioecológica

Homenagem: José Lutzenberger, RS. 
Uma democracia socioecológica ou o ecossocialismo.

"É o que se impõe diante da responsabilidade pelo futuro comum da Terra e da Humanidade"

Com a crise geral das democracias e face aos ataques do fascismo e da extrema direita à la Donald Trump, estamos em busca de uma democracia enriquecida que atenda às mudanças ecológicas e geopolíticas que estão em curso. Especialmente a monetarização da política e a uberização da vida. Vale sempre o pressuposto básico de qualquer tipo de democracia: o que interessa a todos deve poder ser decidido por todos, seja diretamente, seja por representantes. Estamos em busca de um novo tipo de democracia.

Hoje está se impondo o projeto de uma democracia ecológico-social ou, na formulação de Michael Löwy (Ecossocialismo: Um Projeto de Civilização, 2025) e seu grupo, de um ecossocialismo. Essa compreensão nos obriga a superar um limite interno ao discurso clássico da democracia: o fato de ser ainda antropocêntrica e sociocêntrica, vale dizer, centrada apenas nos cidadãos e na sociedade. Eles são reducionistas, pois o ser humano não é um centro exclusivo, nem mesmo a sociedade, como se todos os demais seres somente ganhassem sentido enquanto ordenados a ele e à sociedade.

Ser humano e sociedade constituem um elo, entre outros, da corrente da vida. Sem as relações com a biosfera, com o meio ambiente e com as precondições físico-químicas, não existem nem subsistem. Elementos tão importantes devem ser incluídos em nossa compreensão de democracia contemporânea na era da conscientização ecológica e planetária segundo a qual natureza, ser humano e sociedade estão indissoluvelmente unidos de sorte que possuem um mesmo destino comum.

A perspectiva ecológico-social ou ecossocialista tem, ademais, o condão de inserir a democracia na lógica geral das coisas. Sabemos hoje pelas ciências da Terra e da vida que a lei básica que continua atuando na constituição do universo e de todos os ecossistemas é a cooperação, a sinergia, a simbiose e a relação de todos com todos em todos os momentos e circunstâncias. Mesmo a sobrevivência do mais apto pela seleção natural de Darwin, em parte válida no reino dos vivos, se inscreve dentro desta lei universal. Por ela se garante a diversidade e se inclui também o mais fraco, que, no jogo das inter-retro-relações, tem chances e direito de estar sobre a Terra.

A singularidade do ser humano consiste no fato de comparecer como ser de socialidade, de cooperação e de convivialidade, como bem viram os chilenos Maturana e Varela. Tal singularidade aparece melhor quando o comparamos com os símios superiores dos quais nos diferenciamos em apenas 1,6% da carga genética. Estes também possuem vida societária. Mas se orientam pela lógica da dominação e da hierarquização. Ao surgir o ser humano, há alguns milhões de anos, ao invés da competitividade e da subjugação, entra a funcionar a cooperação.

Esse 1,6% de ácidos nucléicos e de bases fosfatadas que nos diferenciam funda o humano enquanto humano, como ser de cooperação.

Ora, a social-democracia é o valor e o regime de convivência que melhor se adequa à ordem geral das coisas e da natureza humana cooperativa e societária. Aquilo que vem inscrito em sua natureza é transformado em projeto político-social consciente, fundamento da democracia: a cooperação e a solidariedade sem restrições. Realizar a democracia, da melhor forma que pudermos, significa avançar mais e mais para o reino do especificamente humano. Significa re-ligar-se também mais profundamente ao Todo e à Terra.

Gaia e Pacha Mama

Cosmólogos vêm afirmando com insistência que há de se entender a vida como um momento da história evolutiva do universo, quando a matéria, colocada longe de seu equilíbrio (caos generativo), se complexifica e se auto-organiza. A vida humana é um capítulo da história da vida. Como humanos, consoante o mito antigo do cuidado (que é da essência do humano), viemos do húmus (humus = homo); por isso, somos fundamentalmente Terra, que, em seu evoluir, chegou ao momento de sentir, de pensar, de amar e de venerar. Não vivemos apenas sobre a Terra. Somos a própria Terra que sente, pensa, ama e venera.

Em razão disso, notáveis astrofísicos e biólogos como Lovelock, Margullis, Sathouri, Swimme e Berry, juristas como Zaffaroni e ecologistas como o nosso José Lutzenberger, entre outros, sustentam que a Terra é um superorganismo vivo. Mostra tal equilíbrio em todos os seus elementos físico-químicos que somente um ser vivo pode revelar. Chamam-na de Gaia, nome mitológico dos gregos para sinalizar a Terra como vivente, ou Pacha Mama dos povos originários.

Se assim é, então, a Terra é portadora de subjetividade, de direitos e de relativa autonomia, tanto ela quanto os ecossistemas que a compõem. Há a dignitas Terrae, a dignidade da Terra que reclama respeito e cuidado.

Impõe-se uma ampliação da personalidade jurídica à Terra, às aguas e às florestas. Bem disse o pensador Michel Serres: “A Declaração dos Direitos do Homem teve o mérito de dizer ‘todos os homens têm direitos’ e o defeito de pensar ‘só os homens”. Os indígenas, os escravos e as mulheres tiveram que lutar para serem incluídos em ‘todos os homens”. E, hoje, esta luta inclui a inteira natureza com seus subsistemas, também sujeitos de direitos e, por isso, novos membros da sociedade ampliada.

Pelo fato de termos criado a ameaça de destruição da Terra-Gaia, com o antropoceno, necroceno e, ultimamente, pelo piroceno (queimadas em todo o planeta), não podemos mais excluí-la do novo pacto social planetário, base da sociedade mundial que queremos sócio-democrática ou ecossocialista.

Hobbes, Locke, Rouseau e Kant, em seu contrato social, davam por descontado o futuro da Terra, garantido pelas forças diretivas do universo. Hoje não é mais assim. Sem a Gaia, não há mais base para nenhum tipo de cidadania e de democracia. Se quisermos sobreviver juntos, a democracia tem de ser também biocracia, numa palavra, democracia ecológico-social ou ecossocial, que assume a preservação da Terra, incluindo-a no pacto social.

Foi em razão desta consciência que os movimentos do MST e da agroecologia estão desenvolvendo semelhante compreensão da social-democracia. Aí se trata de uma nova relação interativa do ser humano com a natureza na qual ambos se veem incluídos.

Uma cidade não vive apenas de cidadãos, instituições e serviços sociais. Nela vivem também paisagens, árvores, pássaros, animais, montanhas, pedras, águas, rios, lagos, mares, atmosfera, ar, estrelas no firmamento, o sol e a lua.

Sem tais realidades, morreríamos de solidão, como disse o sábio indígena Seattle, em 1854. São os novos cidadãos com os quais devemos aprender a conviver em harmonia. Faz-se mister uma educação ecológica para que os humanos aprendam a acolher todos os seres como concidadãos, no respeito, na justa relação e na irmandade universal. Eis o surgir da democracia ecológico-social e do ecossocialismo, enriquecimento necessário da democracia clássica em tempos de nova consciência ecológica, dos riscos da IA autônoma e de responsabilidade pelo futuro comum da Terra e da Humanidade.

Matéria:
29 Agosto 2026
REVISTALIBERTA

por: Leonardo Boff
Escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.


quarta-feira, 22 de julho de 2026

Cultura do Cuidado: IA para Harmonia Cósmica


Duas antropologias em oposição pressupostas na IA
O paradigma do cuidado emerge como mais adequado à proposta de um mundo caracterizado pelo amor e a amizade.

O Papa Francisco, na Laudato Si’: Sobre o Cuidado da Casa Comum (2015), submeteu uma rigorosa crítica à tecnociência por ser uma entre outras causas da degradação da natureza. Trata-se da vigência do paradigma do dominus (ser o dono), imperante em toda a modernidade sem o ser humano sentir-se parte da natureza. A este paradigma, o Papa – na Fratelli Tutti (2020) – contrapõe o paradigma do frater (irmão e irmã). Todos os seres são nossos irmãos e irmãs, porque todos viemos do mesmo pó da Terra.

Ademais, todos, dos mais ancestrais, passando pelos dinossauros, pelos pássaros e chegando a nós, possuímos o mesmo código genético de base, os 20 aminoácidos e as quatro bases fosfatadas. Daí se deriva uma fraternidade universal entre os humanos e estes com todos os demais seres da natureza. Um laço de amor e de amizade, enfatiza a encíclica, deveria envolver a todos.

Essa fraternidade universal projeta outro tipo de mundo, de política, de economia, começando desde baixo, da região, sempre a serviço da comunidade de vida, seja da natureza, seja dos humanos, particularmente dos mais vulneráveis. Daqui nasce uma nova ética de solidariedade e de cooperação, que possui na parábola do bom samaritano, detalhadamente analisada pela Fratelli Tutti, o seu ponto de referência exemplar.

1. A antropologia da vigilância.

Subjacente à encíclica Magnifica Humanitas, vigoram duas antropologias por ele criticadas: a da vigilância e a do cuidado. Na metáfora do Papa, há Babilônia e Jerusalém. A primeira, a da vigilância, foi primeiramente formulado pela filósofa e psicóloga estadunidense Shoshanna Zuboff, em 2021. Depois foi assumida pelo fundador da Palantir, Peter Thiel. Não tem em vista o processo econômico, mas o controle e a vigilância das pessoas. Peter Thiel parte de uma antropologia extremamente reducionista: ”O homem é um ser perigoso, marcado por paixões, naturalmente inclinado ao conflito, necessitando de contenção”.

A estratégia é vigiá-lo, subtraindo-lhe espaços de liberdade de tal forma que possa ser contido dentro do sistema imperante, capitalista neoliberal especulativo. Este encontra nomes mais suaves para serem melhor absorvidos, sem mudar sua lógica: “democracia de mercado” ou “capitalismo democrático”.

Essa antropologia levou o pensador Garrett Hardi a afirmar: ”Tendo eliminado todos os outros inimigos, o homem é, agora, o seu pior inimigo; ao terminar com todos os seus predadores, o homem é o predador de si mesmo”.

Essa estratégia de controle e de vigilância devido à crise climática enfrentará grandes distúrbios sociais. Pretendendo salvar a humanidade de sua perversidade natural, a subjuga totalmente.

É nesse sentido que a Magnifica Humanitas submete à rigorosa crítica, mesmo reconhecendo-lhe alguns méritos, o transumanismo e o pós-humanismo. O transumanismo visa explorar ao máximo as habilidades humanas mediante expedientes técnicos e biológicos visando maior eficiência em função da acumulação. O pós-humanismo é mais radical, pois visa a acoplar de tal forma o ser humano à máquina e à natureza que inovaria a história e fundaria uma nova era geológica à semelhança do Antropoceno.

Toda estas propostas são derivações do paradigma da modernidade, do dominus, o ser humano se apropriando de tudo e colocando-se fora e acima da natureza. Por mais severa que seja a observação, importa reconhecer que este projeto que exclui a transcendência e se apoia apenas nas ações humanas realiza a construção da Babilônia denunciada pelo Pontífice. Ele não aponta para uma maior humanização e para relações sociais mais amigáveis. Dada sua lógica interna de competição, sem solidariedade, tal projeto pode nos levar à autodestruição. Isso já fora anteriormente advertido pelo cosmólogo Carl Sagan ao considerar o risco da difusão de armas letais. Ele cunhou a expressão o “princípio da autodestruição”.

2. A antropologia do cuidado e da prevenção.

A esta antropologia da vigilância e do controle se opõe a antropologia do cuidado e da prevenção, a reconstrução da Jerusalém, que, junto ao esforço humano, inclui uma referência ao transcendente, a Deus. A vantagem desta categoria do cuidado é que ela pertence à essência do ser humano, como foi visto desde a fábula 220 de Higino na antiguidade romana e aprofundada por Martin Heidegger em Ser e Tempo e a enfermeira inglesa Florence Nightingale. A Carta da Terra e a encíclica do Papa Francisco têm como subtítulo: Sobre o Cuidado da Casa Comum.

O cuidado representa uma relação não agressiva e amigável diante de tudo o que existe e vive. Se as big techs e a IA fossem imbuídas de cuidado e do princípio da prevenção de males possíveis, jamais poriam em risco a vida humana e o futuro do planeta com toda a sua biodiversidade.

Este paradigma do cuidado emerge como o mais adequado à proposta do Papa Francisco e do Papa Leão XIV e do melhor da reflexão ecológica, de um mundo caracterizado pelo amor e pela amizade. Ele está dentro das possibilidades humanas. A visão antropológica de Peter Thiel esquece que o ser humano é, por essência, um ser de amor, como foi demonstrado pelos biólogos James Whatson, Humberto Maturana e Francisco Varela.

Igualmente é um ser de solidariedade, pela qual ele deu o salto da animalidade para a humanidade. A new science atual afirma ser a espiritualidade um dado objetivo da natureza humana, como são a razão e a vontade. Revela-se pelo amor, pela cooperação, pela abertura ao mistério do mundo, na linguagem de cosmólogos chamado de All-nourishing Abyss (Abismo gerador de tudo).

A sociedade da vigilância e do controle treina as pessoas, a sociedade do cuidado as educa. Essa educação é urgente se quisermos continuar sobre este planeta vivo, nossa pátria e mátria comuns. Então, não se realizará a advertência do Papa Francisco na Fratelli Tutti: “Estamos todos no mesmo barco. Ninguém se salva sozinho. Ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”. O Papa Leão XIV, com sua Magnfica Humanitas, nos oferece orientações viáveis para garantirmos um futuro bom para a humanidade, a Casa Comum e a natureza.

Vale a esperançosa sentença de um estudioso da cultura patriarcal, o brasileiro Antônio Sales Rios Neto, que seguramente vai na linha positiva da Magnifica Humanitas e da nova ecologia: “Iniciativas emergirão a ponto de tornarem possível uma democracia planetária, que abraça o pluralismo de modos de viver e uma economia que reencontre o seu sentido original – a preservação da vida e o cuidado da nossa única Casa Comum –, a tempo de evitar a interrupção prematura da experiência humana. Não custa muito imaginar e tentar!” Assim o queira Deus.

Revista Liberta
18 jul 2026

Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.


terça-feira, 5 de maio de 2026

Feminismo: Educação sobre Misoginia.

Precisamos de uma educação que 
esfarinhe a misoginia.


‘Listas de estupráveis’: uma tendência macabra entre estudantes.
Casos foram registrados em março e abril em diferentes instituições de ensino

Quando eu estava na escola, lá nos distantes anos 1980, era comum que os meninos da turma fizessem anualmente uma lista das meninas “mais bonitas da sala”. Olhando agora, essa brincadeira machista soa inocente e boba. Parece que muitas coisas pioraram nesses 40 anos.

Agora, uma nova tendência macabra aparece em escolas e universidades: a “modinha” (com mil aspas, já que se trata de um crime) é fazer listas de “garotas estupráveis” entre as colegas. Não me atrevo a tentar entender o que esse conceito significa. O que sei, com certeza, é que estamos diante de um crime.

Estupro é uma coisa horrível, o maior terror das mulheres. E isso não pode se transformar em “brincadeira de estudantes”.

Não é exagero falar que é uma tendência. Numa pesquisa rápida, achei três denúncias de casos do tipo (isso dos que chegaram à imprensa) em pouco mais de um mês: na Universidade Federal do Paraná, em Curitiba; na IFsul, de Pelotas, no Rio Grande do Sul; e no colégio São Domingos, em São Paulo.

Isso é assustador em todos os níveis. Os homens e os meninos parecem ter perdido a vergonha de assumir seus lados mais misóginos e perversos. Ou será que ser estuprador virou uma coisa cool entre alguns homens? Praticar crimes sexuais parece ser prova de macheza em círculos dos mais variados.

Em março, o caso do colégio São Domingos causou choque pelo horror da lista em si e por tratar-se de meninos do 9º ano, ou seja, adolescentes menores de idade, de uma escola progressista da capital paulista.

Prêmio para criminosos sexuais.

Mas o que aconteceu em São Paulo não foi um caso isolado. Esse tipo de lista pode ser ainda mais perverso.

Na semana passada, o diretório acadêmico da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Paraná denunciou a existência de um grupo, dentro da escola, que faria listas de “meninas estupráveis” e ofereceria dinheiro, como uma espécie de premiação, para aqueles que “conseguissem” executar os crimes, como se mulheres fossem animais numa temporada de caça.

Foram compartilhados também detalhes sobre as vítimas, como seus horários, percursos, ou seja, esse “grupo” funcionaria como uma célula de criminosos sexuais organizados.

Uma estudante teria recebido uma mensagem com prints do grupo, chamado “Ghost”, onde homens faziam planos para estuprá-la. O valor do prêmio para quem conseguisse praticar o crime seria de cerca de R$ 400. O material foi enviado para a polícia civil, que investiga o caso.

Em nota institucional, a universidade informou que “tomou conhecimento das mensagens que circulam em grupos de estudantes, a partir de uma denúncia grave envolvendo ameaça de violência sexual”. As estudantes foram avisadas pelo diretório acadêmico a “tomarem cuidado, não andarem sozinhas e evitarem sair à noite”. Imaginem o terror que estão sofrendo.

Tudo indica que os autores das ameaças seriam alunos do curso de Medicina, o que torna tudo ainda mais perigoso. Futuros médicos deveriam ser pessoas com um mínimo de decência, não criminosos. Mulheres não podem se sentir seguras nem em um consultório médico? Se você for vítima de um crime sexual, corre o risco de, no hospital, ser atendida por um criminoso do mesmo tipo? Como esses homens vão tratar mulheres se, quando olham para seus corpos, enxergam bichos a serem abatidos?

Uma lista parecida circulou no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-Rio-Grandense (IFSul), em Pelotas, no fim de março. Um grupo de alunos criou um “ranking sexual” com fotos de 30 colegas e adjetivos misóginos. Oito deles foram suspensos e o caso também passou a ser investigado pela polícia civil.

Espero que todos os alunos envolvidos nesses casos sejam expulsos, claro. Mas isso ainda é pouco. Eles precisam responder por seus crimes de verdade.

Normalização do estupro.

O que mais assusta é a normalização de algo tão abominável como o estupro. Desde quando os jovens passaram a falar disso sem vergonha?

Pelo jeito, o momento atual, de ascensão da extrema direita, que trata mulheres como “coisas” e fala claramente absurdos como “você não merece ser estuprada”, como disse o então deputado federal Jair Bolsonaro para a também deputada Maria do Rosário (e depois foi eleito presidente!), o ódio a feministas que “precisam de um corretivo” e outros horrores fizeram com que potenciais estupradores saíssem do armário.

O aumento da misoginia, representada por grupos de red pills e incels, obviamente, também contribui para esse horror. Mulheres e meninas passaram a ser vistas (mais ainda) como ameaças, pessoas perigosas, manipuladoras, que precisam “aprender com os homens a se comportar”.

É terrível que a gente esteja em um momento desses. O que não podemos, de forma alguma, é culpar todos os avanços feministas e o empoderamento das meninas por essa suposta “fraqueza dos meninos”. Quem faz lista de colegas “estupráveis” não está “confuso” e “assustado”. Está praticando um crime, algo que não pode ser relativizado. Que as meninas sejam cada vez mais educadas a reagir e a se defender juntas.

É o que tem acontecido. Enquanto alguns jovens fazem listas de quais colegas “são mais estupráveis”, elas se unem para se proteger deles. Temos que a apoiá-las a ser cada vez mais fortes em seus “nãos”. E, obviamente, a PL contra a misoginia precisa ser aprovada, urgentemente. Parar esse horror, caros deputados, precisamos ter prioridade máxima.

Nina Lemos - 2 maio 2026


quarta-feira, 29 de abril de 2026

Educação: Sexualidade e a Plena Comunhão

Sexualidade: caminho para a não-dualidade e a plena comunhão.

Com ela e através dela, busca-se a união suprema entre os parceiros e o universo.

REVISTA LIBERTA
Leonardo Boff
25 abr 2026 - 05h00

Num artigo anterior, mostramos como o feminino é a fonte-matriz do masculino. É o caminho ocidental que usa a antropologia e a psicologia. Mas, com referência à mulher, Freud diz que ela é um ser inferior e Lacan acrescenta que ela não existe porque não pode ser definida. Esqueçamos estes laivos de machismo cultural atávico. Vamos ao olhar oriental, que é mais fecundo e menos preconceituoso.

A visão oriental da sexualidade segue outro caminho, diverso daquele ocidental. Desenvolve uma antropologia extremamente refinada. Exemplo: para a tradição do Yoga e do Tao, a sexualidade não é vista como algo em si mesmo. Ela é integrada num todo maior. Com ela e através dela, busca-se alcançar a experiência de não-dualidade, quer dizer, propiciar uma união suprema entre os parceiros e o universo.

A antropologia yoga trabalha com a realidade na kundalini, que se expressa pelos sete chacras (centros energéticos). Kundalini, em sânscrito, significa a energia da serpente cósmica: é aquela energia universal, que enche o universo todo, representada pelo dragão e pela serpente alada. Os cosmólogos modernos falam da energia de fundo ou o abismo gerador de todos os seres.
Energia vital

A kundalini, qual serpente, estaria enrolada dentro de cada um de nós, na parte inferior do corpo (no cóccix), com a cabeça erguida, pronta para fazer a sua trajetória. Na kundalini se concentra a energia vital da sexualidade.

Uma vez despertada, ela passa pelos muitos centros vitais, no sacro enrolada em si mesma na forma fogo; após, pelo chacra dos órgãos genitais e reprodutivos; passa ao chacra solar (umbigo), pelo qual entra a energia de todo o universo; daí vem o chacra do coração, que propicia a experiência do amor e da empatia; o chacra do pulmão, com o qual inspiramos e expiramos energia; depois, emerge o chacra frontal, entre os dois olhos, chamado também de terceiro olho, o qual nos permite ver a terceira margem da realidade, portanto, uma visão de totalidade; e, finalmente, o chacra da glândula pineal, no alto da cabeça, que nos concede uma experiência de totalidade e de comunhão com o Todo universal.

Na nossa cultura, entretanto, a kundalini ficou preferentemente fixada no chacra dos órgãos genitais, ligada àquela excitação erótica que desperta os sentidos, ejacula, realiza a descarga e relaxa. Se ficar nisso, se não passar pelos vários chacras, ela perde uma experiência da totalidade plenificadora e do amor profundo, fruto de uma entrega.

Afirma-se que o homem possui imensa dificuldade de uma entrega total, pois trata-se de uma experiência de morte. Ele a interrompe no meio. Ao não entregar-se, se priva da experiência mais completa. Em geral o homem se satisfaz, relaxa e dorme. A mulher se vira e chora, frustrada, porque não aconteceu a entrega total, não se fez o percurso pelos chacras, não se sentiu o amor real, não se deu o alargamento da consciência até chegar à superação da dualidade, pela qual ele e ela mergulham numa unidade profunda. Ela tem outro ritmo, que deve ser conhecido pelo parceiro: saber esperar e ajudá-la pela carícia essencial a chegar ao seu clímax. Então, relaxa.

Realizando-se esta compreensão mais integradora e holística, revela-se melhor o mistério que a sexualidade esconde, aquela dimensão ligada à reprodução da vida e, ao mesmo tempo, a que permite uma comunhão entre os dois com o todo que transcende a ambos.
Fluir natural

Outro é o caminho do Tantra, seja no hinduísmo ou no taoísmo. Tantra, em sânscrito, possui muitas definições. A mais significativa é a da urdidura, como se fossem fios fazendo a unidade do tecido. Diríamos, é o total entrosamento sexual do homem e da mulher, uma entrega sem freios, de forma que supera a dualidade homem-mulher e forma um todo. O homem se une tanto à mulher que se torna mulher, e a mulher se torna homem.

Normalmente, se entende mal o Tantra, como se fosse uma técnica de prolongamento da relação sexual. O sentido do Tantra é totalmente outro. Afirma a sexualidade que é inata e vulcânica. Mas ela não se basta a si mesma. Ela é o caminho daquilo que, talvez, seja o mais difícil para os humanos: a total entrega e uma radical experiência de sua bioenergia em seu fluir natural.

Em primeiro lugar, exige-se um relaxamento completo, sem visar a um fim a ser alcançado. Em seguida. homem e mulher se relacionam sexualmente não buscando a ejaculação ou o clímax. Ao contrário, supõe em ambos completo autocontrole da capacidade sexual.

Cada um, totalmente relaxado, esquecendo-se de tudo e de todos, se concentra totalmente no outro ao fluir da energia sexual. Vai irrompendo, lentamente, tal unidade entre eles, que se tornam um, vale dizer, superam a tão ansiada não-dualidade. É um êxtase, a suprema realização humana. O abraço profundo pode durar horas e horas, sem ejacular ou chegar ao clímax. O resultado final é um radical relaxamento e a experiência de uma unidade total entre ambos, incluindo todas as coisas. Vive-se um arrebatamento que perdura vários dias, tal é a radicalidade desta uni-fic-ação (cf. Bhagawan Shree Rajneesh,Tantra: Sexo e Espiritualidade, Agora, São Paulo 1977).

Como se depreende, a sexualidade, seja no Yoga ou no Tantra, possui seu lado instintivo e, ao mesmo tempo, ao nível da consciência, torna-se um caminho da mais alta comunhão, isto é, alcançando a não-dualidade. Não sem razão, da sexualidade se origina o bem maior, a vida humana em suas várias expressões. Ela é a natural e sagrada fonte de espiritualidade e experiência do Divino.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Feminismo: Dissonância Cognitiva Coletiva

Violência vicária e misoginia

A culpabilização da mulher é gêmea da desinformação que sustenta o patriarcado.


Matéria Revista Liberta
21/Fev - 2026

Pesquisas recentes demostram aumento da violência contra mulheres, enquanto outras formas de violência diminuem. No Brasil e no mundo, fala-se em “epidemia” de feminicídio, sem contar as habituais formas de violência doméstica e os casos de estupro (cerca de nove estupros por hora no Brasil).

O aumento da violência contra mulheres implica que a violência não é neutra, algo que a expressão “violência doméstica” acaba por camuflar.

Estamos falando de violência de homens contra mulheres. Para deixar bem claro, a violência domestica é uma prática, principalmente masculina, que tem a ver com monopólio da violência, mas também com a violência como um privilégio, ou seja, com a simples autorização para praticá-la.

Essa autorização é cultural. A violência é a própria matriz de subjetivação masculina, ou seja, dos valores e hábitos de produção da masculinidade na cultura. Enquanto homens são formados e educados pela violência, as mulheres são educadas para o cuidado. Ainda que haja exceções, essa é uma regra.
Argumento falacioso

Contra o argumento falacioso de que homens também matam homens e praticam muita violência contra homens, como se a naturalidade com que se aceita a cultura da violência masculina endógena tivesse força de verdade, podemos sempre lembrar que, de fato, homens matam homens, mas matam também mulheres e crianças.

Mulheres, por sua vez, matam, mas em parâmetros estatísticos muito inferiores e até mesmo excepcionais em relação à regra masculina. Lembrando sempre que é a exceção que estabelece a regra.

Nesse cenário, um tipo um pouco diferente de violência chamou atenção nos últimos dias. Foi a chamada “violência vicária”, que veio à tona com o caso de Thiago Machado, assassino de seus dois filhos – depois do crime, ele tirou a própria vida na cidade de Itumbiara, em Goiás.

A violência vicária é praticada para atingir a mãe cometendo violência contra seus filhos ou pessoas a ela ligadas. Trata-se de uma violência que tem algo de indireto, pois não atinge o corpo da vítima, mas atinge o corpo e a vida de pessoas amadas pela pessoa que se quer atingir.

A violência praticada por Thiago Machado não é incomum. Há inúmeros casos de homens que matam os filhos para atingir a mãe. Vicária é a destruição da vida simbólica de uma mãe, que permanecerá viva sob um eterno sofrimento calculado pelo perpetrador do crime.

Que haja pessoas que tenham condenado Thales por não ter matado a ex-mulher, e sim os filhos, sugere a naturalização da matança de mulheres e uma culpabilização que também é naturalizada. Os meninos poderiam ser poupados, a mulher não.

A culpabilização da mulher é gêmea da desinformação machista que sustenta o patriarcado. Em palavras muito simples, poucos se ocupam em ver a versão da mulher, enquanto a palavra de um homem vale apenas por ter sido dita ou escrita, como é o caso da carta divulgada do assassino-suicida.

A carta valeu como prova da verdade para muita gente, apenas porque veio a público. A presunção de verdade e inocência do homem – mesmo ele sendo explicitamente culpado de seu crime – gerou uma culpabilização da mulher, cuja condição de vítima não foi questionada pelos odiadores misóginos das redes. É a inversão do sentido, a vítima tratada como culpada, o que está em cena.
Delírio machista

O acontecimento produziu diversos atos de misoginia contra a mãe dos meninos assassinados e ex-esposa do pai-assassino. A partir da carta do assassino-suicida, a mãe foi julgada nas redes e culpabilizada por pessoas que sequer sabiam o que estava acontecendo e aceitavam, previamente, a verdade da narrativa do assassino-suicida.

Quando veio à tona que o pai-assassino é que teria traído a sua esposa, motivo pelo qual ela se separou dele, sendo, portanto, sua ex-esposa, a mesma população não veio pedir desculpas pelo erro.

De um lado, todos sabem que a desinformação é muito difícil de desfazer, ou seja, ela é sistêmica, ela cria um imaginário da verdade pelo qual a verdade significa que “uma mulher é culpada”. Esse é o núcleo da misoginia desde Eva e Pandora.

Uma mulher é a inimiga porque é a culpada de todos os males na vida dos homens. Não se imputa ao homem a loucura, a maldade e nem mesmo a responsabilidade pelos próprios crimes. Ele mata com suas próprias mãos e armas, mas no delírio machista é uma mulher que o levou a isso. Esse é o tipo de imaginário covarde promovido pelo patriarcado.

Se, de um lado, as pessoas não conseguem acessar a informação verdadeira depois de uma onda de mentiras, de fake news, de outro lado, é o julgamento prévio, é a prática da misoginia que move a turba de modo a desresponsabilizar o homem.

Assim, a população virtual realizou um verdadeiro linchamento da mãe nas redes sociais. No enterro dos próprios filhos, ela teve que ser escoltada pela polícia como uma criminosa sujeita ao justiçamento público.

Por que essa sociedade precisa culpar as mulheres para liberar os homens de suas responsabilidades se explica pelo fato de que a sociedade que odeia as mulheres é a mesma que ama e cultua os homens.

@RevistaLiberta

Marcia Tiburi
Formada em filosofia e artes. Lecionou em universidades brasileiras e estrangeiras. Publicou 7 romances, entre eles Com os sapatos aniquilados, Helena avança na neve (Nós, 2023) e diversos ensaios, entre eles “Como conversar com um fascista”, “Complexo de vira-lata: análise da humilhação brasileira” (Civilização Brasileira, 2021) entre outros.


terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Políticas públicas: Assassinos da Cultura

A gloriosa vingança contra os assassinos da cultura.

A arte brasileira sobreviveu às trevas que porta-vozes das políticas extremistas desejam retomar.

Protesto contra o cancelamento da exposição, 'Queermuseu'.

Revisra Liberta

O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro. O título do faroeste nacional dirigido pelo baiano Glauber Rocha – de Vitória da Conquista para o mundo, com sua ópera em cordel – encaixa direitinho no episódio de blasfêmia do pastor Silas Malafaia contra Wagner Moura.

Depois do triunfo do filme brasileiro O Agente Secreto no Globo de Ouro, no domingo passado, o agitador político da extrema direita xingou o artista de cretino. O líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo desafinou, no seu falsete característico, em defesa de Jair Bolsonaro, definido pelo ator como um ex-presidente fascista.

Malafaia puxou o coro dos descontentes com a premiação de O Agente Secreto nos EUA. O exército bolsonarista seguiu, nas redes sociais, nos rastros do ódio do pregador. Vivemos Dias de Ira – agora, citando outro filmaço das antigas, o “western spaghetti” com Lee Van Cleef e Giuliano Gemma.

Leitor da Bíblia, o pastor sabe que a ira, nesse caso, repousa no íntimo dos tolos, como registra o livro do Eclesiastes. A desesperada pregação, porém, revela o inconformismo dos fascistas tropicais – religiosos ou não-praticantes – com a evidência de que não assassinaram a cultura brasileira como premeditaram.

A cultura, aqui tratamos no sentido das produções artísticas, foi alvejada no período de 2018 a 2022, mas seguiu viva (e se bolindo), mesmo sob ataque permanente dos clubes de tiro.
Safra vingadora

O cinema, por causa do cartaz internacional do momento, é o alvo principal dos representantes da extrema direita. O ódio, porém, alcança a literatura (nas censuras e proibições a livros como O Avesso da Pele, de Jéferson Tenório), a música, o teatro e as artes plásticas. Nada escapa.

De forma mais organizada, esse tipo de ataque começou ainda na pré-campanha eleitoral de Jair Bolsonaro, em 2017, quando o MBL, ala juvenil extremista, atacou a exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, no Santander Cultural, em Porto Alegre. As autoridades gaúchas referendaram o vandalismo praticado pelo movimento de jovens fascistas contra obras relevantes de Adriana Varejão, Cândido Portinari, Lygia Clark e Leonilson, entre outros.

No governo bolsonarista, a assombração ganhou ares de nazismo. Na época, o secretário nacional de Cultura, Roberto Alvim, copiou, em pronunciamento, trechos de um discurso do ministro da Propaganda de Adolf Hitler, Joseph Goebbels.

Por ter sobrevivido a toda essa má sorte, a arte brasileira do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho pratica sua dourada vingança com O Agente Secreto, em nome dos sufocados do período de trevas, que Malafaia & Cia. desejam retomar.

Os prêmios para o ator baiano Wagner Moura e o de melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro são apenas os troféus mais reluzentes de uma safra vingadora, que larga com o fenômeno Ainda Estou Aqui e conta, agora, com mais dois cineastas recifenses de sucesso: Gabriel Mascaro e Marianna Brennand.

Mascaro dirigiu O Último Azul (com Rodrigo Santoro) e ganhou o Urso de Prata, o grande prêmio do Festival de Berlim, em 2025. Marianna foi premiada em Cannes, Veneza e concorre ao Goya da Espanha, em fevereiro.

O pastor Silas Malafaia, porta-voz da extrema direita, ainda terá muitos motivos para seus espetaculares falsetes do ódio e do ressentimento. Que venha o Oscar.

Xico Sá
Escritor e jornalista, faz parte da equipe de apresentadores do ICL Notícias. Com passagem por diversas redações e emissoras de tv, ganhou os prêmios Esso, Folha, Abril e Comunique-se. Participou de programas como Notícias MTV, Cartão Verde (Cultura), Redação Sportv, Papo de Segunda (GNT) e Amor & Sexo (Globo). É autor de Big Jato (Companhia das Letras) e A Falta (Planeta), entre outros livros. O colunista nasceu no Crato, na região do Cariri cearense, e iniciou sua trajetória profissional no Recife.


sábado, 27 de dezembro de 2025

Meio Ambiente: Leonardo Boff

O Natal e a ecologia profunda.
A tradição cristã viu o nascimento do Filho de Deus cercado de elementos ecológicos.


27 dez 2025

A ecologia é mais do que uma técnica de gerenciamento de bens e serviços naturais cada vez mais escassos. Tão escassos que a Mãe Terra se sente extenuada, pois o consumo humano mais aquele da natureza estão exigindo uma Terra e meia para atender a todas as demandas. Por isso, nós, humanos, devemos nos preparar para reinventar um outro caminho, se quisermos garantir um futuro para o nosso tipo de civilização.

Nem por isso deixaremos de fazer uma referência entre o Natal e a ecologia. Esta é mais do que o meio ambiente a ser urgentemente preservado. Ela possui uma dimensão do Profundo em nós.

A tradição cristã viu o nascimento do Filho de Deus, Jesus de Nazaré, cercado de elementos ecológicos: nasceu numa estrebaria, colocado sobre palhinhas e junto a um boi e um jumento (que, segundo certos relatos, aqueciam o Menino com seu bafo), com ovelhas distribuídas no campo. Há ainda uma estrela que iluminou a noite dos pastores e guiou os sábios vindos do Oriente.

Há um texto de grande beleza, que é cantado na liturgia de Natal, o qual mostra uma comoção cósmica, significando a entrada do Filho de Deus em nosso mundo. Quando tudo estava em profundo silêncio e a noite no meio de seu curso, eis o que aconteceu:

Então, as folhas que farfalhavam pararam como mortas.

Então, o vento que sussurrava ficou parado no ar.

Então, o galo que cantava parou no meio de seu canto.

Então, as águas do riacho que corriam se estancaram.

Então, as ovelhas que pastavam ficaram imóveis.

Então, o pastor que erguia o cajado ficou petrificado.

Então, nesse momento, tudo parou, tudo silenciou, tudo se suspendeu:

Nasceu Jesus, o salvador do mundo e do universo.

Como se depreende, as coisas não ficaram indiferentes à inserção do Divino em nossa história. Elas se prepararam, silentes, para recebê-lo.

Flor de Natal

Contam-se também histórias comoventes, como esta que surgiu entre os cristãos do México, pois lá existe uma flor chamada de Bico de Papagaio ou Espírito Santo. Ela possui folhas menores verdes e outras maiores vermelhas. Ela é associada ao Natal por causa da história que contarei a seguir, que possui seu lado ecológico.

Uma senhora pobre queria dar um presente ao Menino Jesus. Mas era tão pobre que não tinha nada para oferecer. Em sua simplicidade, colheu uma plantinha junto à estrada e levou-a até ele. Colheu a plantinha e foi, alegre, oferecê-la ao Menino Jesus no presépio. As pessoas que estavam perto começaram a rir da pobre senhora. Ela ficou tão envergonhada que começou a chorar.

As lágrimas cairam sobre as folhas verdes, que se transformaram em vermelhas. Por isso, esta planta é chamada Flor de Natal. E, de fato, assim é: quando exposta ao sol, fica verde; na sombra, torna-se vermelha, de um vermelho irradiante, que, em muitos lugares, cerca todo o presépio.

É comum que o grande aeroporto da cidade do México, na época de Natal, seja totalmente ornamentado com esta flor vermelha.

O Menino Jesus no presépio nos recorda ainda que todos nós, um dia, fomos crianças e que carregamos esta criança dentro de nós pela vida afora. A criança simboliza a vida nova, a inocência, a transparência, um novo começo. Sempre estamos às voltas com essas coisas: queremos ter uma vida saudável, podermos sempre de novo recomeçar e viver criativos e livres, como livres e criativas são as crianças. Não esqueçamos esta criança (dives puer) que ainda vive dentro de nós.

O Poeta Fernando Pessoa (Foto: Reprodução)

Mas a verdade mais profunda que o Natal nos quer transmitir, talvez, seja esta: Deus não veio para divinizar o ser humano, mas veio para humanizar o Deus que ninguém jamais viu, como atestam todas as Escrituras. Agora, Ele se manifestou em nossa carne frágil, mortal e quente. Se Jesus é o Deus que se humanizou, isto significa que há uma porção de Deus dentro de cada um de nós. Jesus é nosso irmão. E, como irmãos, somos também filhos e filhas de Deus. Poderia haver dignidade maior do que ser filho e filha de Deus e pertencer à família divina?

Neste contexto, cabe citar um tópico do poeta português Fernando Pessoa, que escreveu, talvez, um dos mais belos poemas sobre o Natal na literatura universal:

Ele é a Eterna Criança, o Deus que faltava.

Ele é o humano que é natural,

Ele é o divino que sorri e que brinca.

É por isso que eu sei com toda a certeza

Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

É a criança tão humana que é divina.

……..

Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro de tua casa.

Despe meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.

Depois destes tocantes versos, não cabem mais palavras. Apenas reafirmarmos que, depois que Deus se fez um de nós, não temos mais motivos de viver tristes. Não estamos mais sós. Ele caminha conosco em nosso próprio caminhar.

Leonardo Boff
Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.



domingo, 16 de novembro de 2025

Meio Ambiente: Salvar A Casa Comum

Salvar a Casa Comum

Cuidar da humanidade e garantir um futuro para a vida.

Se faz urgente uma ética do cuidado, da compaixão e da solidariedade.


A COP30 se propõe a diminuir a emissão de gazes de efeito estufa, sustar o desmatamento e reflorestar as áreas degradadas, além de buscar energias alternativas. As grandes pressões exercidas por um número crescente de lobbies do petróleo, do carvão, do gás e do agronegócio – como de outras vezes – impedem o consenso necessário e freiam decisões transformadoras.

Ademais, a questão séria mesmo é verificar se o aquecimento mundial firmou-se acima 1,5ºC – em 2024, chegou a 1,7ºC e, em alguns lugares, a 2ºC. Se isso se confirmar, estaríamos num caminho sem retorno, segundo vários especialistas. O aquecimento cresceria mais e mais. Foi constatado que o limite estabelecido de 1,5ºC até 2030 pelo Acordo de Paris de 2015 já foi antecipado e, assim, ultrapassado. As consequências na natureza e na humanidade podem ser altamente desastrosas.

Crise ecológica

Já em 2003, a Carta da Terra assumida pela ONU (um dos documentos mais fundamentais sobre o estado da Terra) advertia: “A escolha é nossa: ou formar uma aliança global para cuidar da Terra e cuidar uns dos outros ou arriscar a nossa destruição e a destruição da diversidade da vida”. E o Papa Francisco, na Carta Encíclica Fratelli tutti (2020), igualmente, admoestava: ”Estamos no mesmo barco: ou nos salvamos todos ou ninguém se salva” (nº 34).

Portanto, esse tema fundamental não consta na agenda da COP30: salvar a Casa Comum, cuidar da humanidade e garantir um futuro para a vida. Esta é a questão stantis et cadentis: inescapável.

No entanto, apesar de poderosos negacionistas como Donald Trump, cresce a consciência de que só temos uma única Casa Comum, o planeta Terra. Formamos, como espécie, uma única humanidade. Temos um destino comum, Terra, humanidade. Precisamos incorporar a visão que os astronautas nos legaram: vista da Lua ou das naves espaciais, não há diferença entre Terra e humanidade. Formamos uma única entidade complexa. Como humanos, somos aquela porção da Terra que sente, pensa, ama, cuida e venera.

Como sair dessa crise estrutural, planetária e paradigmática?

Uma coisa, para muitos, é indubitável: dentro do sistema capitalista e da cultura de consumo que ele criou, não há solução para a crise ecológica. Ou mudamos de paradigma e de rumo ou, como asseverou Zygmunt Bauman: “Vamos engrossar o cortejo dos que caminham na direção da vala comum”.
Equilíbrio perdido

Em primeiro lugar, devemos abandonar o paradigma da modernidade que afirmava o ser humano fora e acima da natureza, sentindo-se “dono e senhor” (dominus), em direção ao paradigma que sustenta o ser humano como parte da natureza e irmão (frater) de todos os demais seres, especialmente, de seus semelhantes humanos.

Em seguida, importa resgatar a importância do cérebro límbico, surgido com os mamíferos há mais de 100 milhões de anos. Nele, reside o afeto, o amor, a empatia, a cooperação. Nós, seres humanos, somos mamíferos racionais de afetividade, que amam e cuidam dos seres que geram. O cérebro neocortical, da razão instrumental-analítica, irrompeu há cerca de 8-9 milhões de anos.

Ocorre que, na cultura vigente, se recalcou a afetividade e a empatia em favor da dominação quase absoluta da razão intelectual-analítica, operando uma espécie de lobotomia em nós. Importa enriquecer esta razão (neocortex) com a inteligência cordial (cérebro límbico) para refazer o equilíbrio perdido. E estabelecer um laço de amor à Terra.

Depois, importa dar centralidade à vida em função da qual estão a política, a economia e a cultura. Nosso sistema produz morte da natureza e de milhões de seres humanos. Por isso, é imperioso denunciar todos os sistemas que dizimam ecossistemas e produzem miséria.

Insistir no fato de que a paz só será possível se for superada a injustiça social mundial, o que só será possível se houver mais equidade em todas as relações. A paz, além de fruto da justiça socioambiental, resulta do cuidado que a humanidade cultiva de uns para com os outros e com a natureza.

Face à falta de sustentabilidade da sociedade mundial e da natureza, se faz urgente uma ética do cuidado, da compaixão, da responsabilidade e da solidariedade. O cuidado pertence à essência da vida e do humano. Ele é a precondição para que emerja a vida. É o norteador antecipado de todo o comportamento para que seja benfazejo para a vida e para os outros, e não destrutivo. É uma atitude amorosa que dá segurança e proteção à Casa Comum.

Dimensão espiritual

Uma ética sozinha não dá conta dos problemas mundiais. Assim como uma estrela não brilha sem uma aura, assim uma ética não será assumida se não estiver imbuída de espiritualidade.

A espiritualidade não é monopólio das religiões. Como se impõe mais e mais pela new science (cosmogênesis, neurociências, biologia genética), a espiritualidade é natural e pertence à essência de nossa humanidade. Dela nascem as religiões, mas não se identifica com elas. Manifesta-se pelos valores intangíveis, como o amor, a empatia, compaixão e o contentamento.

Esses valores e motivações vão além dos interesses pessoais e coletivos e se ancoram no caráter precioso da realidade, na gratuidade do bem e na abertura ao Todo. Pela espiritualidade se capta aquela energia poderosa e amorosa (Energia de Fundo), que subjaz e sustenta todos os seres. Não a dominamos, mas podemos abrir-nos a ela e tornar nossa existência mais apetecida, feliz e amiga da vida.

A dimensão espiritual é despertada quando resgatamos o princípio feminino, presente no homem e na mulher. Durante séculos, foi recalcado ou tornado invisível socialmente. O princípio feminino é aquela energia que nos faz sensíveis aos valores da interioridade, da gratuidade, do cuidado, da vida e da comunhão, e que nos faz captar as mensagens vindas da realidade, que nos permite entender os símbolos e nos abre para o mistério da vida e do sagrado.

Durante séculos, temos vivido sob a dominação do masculino (presente no homem e na mulher), que responde pela razão analítica, pelo uso do poder e pela conquista do mundo exterior. Hoje, ambos os princípios devem ser integrados, mas a partir do polo que a nossa cultura menos cultivou, que é o feminino. Então, teremos uma experiência mais completa e integral do ser humano, homem e mulher.

Por fim, devemos ser, na bela expressão do ecologista Roberto Malvezzi, “como os peixes da piracema, que só desovam nadando contra a corrente (o atual sistema) e assim reproduzindo a vida”.

Leonardo Boff
Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.



sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Meio Ambiente: COP 30 BELÉM

COP 30 BELÉM

Pará, Amazônia 
- 2025 -

Adaptação sem prevenção: risco de capitulação?

Temos que considerar outro paradigma, que evite os desastres ambientais

Escreveu o franco-brasileiro Michael Löwy, pesquisador na Sorbonne: “Se a COP30 privilegiar a adaptação, em detrimento da prevenção, ficará na memória das pessoas como a COP da capitulação” (artigo publicado no portal A Terra é Redonda, em 26/10/25).

Esta afirmação, que nos parece estranha, está, na verdade, bem fundamentada.

A COP30 tratará, fundamentalmente, do aquecimento global e da busca de energias alternativas que não produzam efeito estufa. O grande pano de fundo em Belém é a presença da floresta amazônica, fator básico para o equilíbrio dos climas terrestres. André Corrêa do Lago, presidente da COP30, declarou: “Gostaria muito que as pessoas se lembrassem da COP30 como uma COP da adaptação”.

Seguramente, todas as sociedades devem adaptar-se às mudanças climáticas. Por mais que rejeitem o aquecimento global, os negacionistas não podem negar os fatos: secas severas, nevascas nunca antes vistas, inundações desastrosas (como as ocorridas no Rio Grande do Sul), crescente desertificação, diminuição drástica de água potável, incêndios florestais apavorantes na Amazônia, no Pantanal, na Califórnia e em outros tantos lugares no mundo, sem falar dos frequentes tornados e na erupção dos vulcões.

Tais fatos trágicos confirmam que já estamos dentro do aquecimento global. Cientistas reconhecem que a ciência não pode reverter este fenômeno; ela pode apenas advertir a chegada de eventos extremos e mitigar seus efeitos danosos.
Ponto da virada

Sabemos, hoje, que os seres humanos lançaram na atmosfera 2.390 bilhões de toneladas de CO2 entre1850 a 2019. Dados recentes do observatório europeu Copernicus indicam que a temperatura média global, em 2025, chegou a 1,49°C acima dos níveis pré-industriais, ultrapassando os tipping points (pontos de inflexão ou pontos de virada) traçados pelo Acordo de Paris, em 2015, que seriam os de não ultrapassar a marca de 1,5°C até 2030. Em outras palavras, antecipamos os dados.

Em função disso, todas as sociedades situadas em montanhas, como Petrópolis e Teresópolis (no Rio de Janeiro) e outras, devem adaptar-se aos possíveis grandes deslizamentos de terra, que implicam o risco de destruição de inúmeras casas com registro de vítimas fatais. Mas resignar-se apenas a essa estratégia de adaptação representa uma capitulação, achando que pouco nos resta a fazer exceto aceitar o aquecimento e adaptar-se a ele. Temos que considerar outro paradigma, que tenha um aquecimento amigável à vida e suportável por todos os humanos.

Não basta que cidades do Vale do Taquari e mesmo Porto Alegre, às bordas do Guaíba, realizem apenas adaptações, o que o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, órgão das Nações Unidas criado em 1988) chama de estabelecer “a trajetória da resiliência climática”, mantendo os mesmos lugares afetados, com meras adaptações. O que ocorreu é apenas o começo. Tudo indica que o aquecimento vai aumentar, podendo chegar a 2°C ou mais até 2030. Muitos não conseguirão adaptar-se na natureza e na humanidade.

Não à resignação

Devemos partir do fato de que a Terra não é mais a mesma. Estamos numa nova era, a do antropoceno/necroceno/piroceno, que exige mais do que adaptações.

É urgente, dentro ainda do sistema imperante, a prevenção, vale dizer, criar infraestruturas que prevejam o que virá e evitem os desastres e a proliferação de vírus e bactérias para salvar a vida humana, em especial, dos mais frágeis. Caso contrário, os danos serão fatais. Como se depreende, exige-se um outro paradigma de habitar a Casa Comum, que vá além da adaptação e da prevenção.

Em termos planetários, poderemos estar diante da extinção das espécies, não excluída a humana. Por esta razão, a COP30 pode ser decisiva: ir além da adaptação proposta, pensar num outro paradigma e forjar, dentro da atual situação, formas de prevenção que protejam a integridade do planeta, a continuidade dos países insulares, a preservação maior possível da biodiversidade e que também forneçam a garantia de um futuro possível e melhor para a espécie humana.

Ficar apenas nas adaptações, sem as prevenções nos lugares atingidos pelos desastres ecológicos, tendo, talvez, que trocar de lugar ou criar fortes estruturas preventivas, seria realizar o que Michel Löwy advertiu: uma capitulação. Não à resignação, mas realizar a prevenção e a busca de um novo paradigma. Caso contrário, vale o que Bertold Brecht disse: “Quem luta pode perder. Quem não luta já perdeu”. Então, há que lutar para chegarmos a um outro paradigma, que seja benigno para Terra e para a vida.

Leonardo Boff
Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.