terça-feira, 13 de outubro de 2026
A Natureza nos (re)Conectando: Indígenas Isolados da Civilização.
quinta-feira, 24 de setembro de 2026
A Natureza nos (re)Conectando: A Luta das Etnias no Brasil
terça-feira, 15 de setembro de 2026
A Natureza nos (re)Conectando: Kamukuwaká
A Natureza nos (re)Conectando: (Robert Plant)
A interpretação de “Two Coats” — clássico da música tradicional americana eternizado na voz do lendário Ralph Stanley e adotado com paixão por Robert Plant ao lado de seu projeto Saving Grace — revela muito sobre a fase atual da carreira do ex-vocalista do Led Zeppelin. Longe dos palcos grandiosos e dos amplificadores ensurdecedores do rock arenas, Plant tem fincado suas raízes na essência pura da folk music, do bluegrass e da Americana, e “Two Coats” brilha como um dos momentos mais orgânicos dessa jornada.
A Raiz e a Tradição “Two Coats” é uma canção gospel-folk tradicional de profundas raízes nos Apalaches, frequentemente associada ao lendário patriarca do bluegrass Ralph Stanley. A letra emprega uma metáfora cristã e moral muito comum na música folclórica do sul dos Estados Unidos: a dualidade entre o “velho homem” (terreno, falível, desgastado pelo mundo) e o “novo homem” (renovado pela graça e pela salvação).
“Two coats were before me, an old and a new / I asked my sweet Master, ‘What must I do?’” A narrativa evoca a escolha de abandonar velhos fardos e vestir uma “nova veste” de aconchego e proteção contra as tempestades da vida.
A Leitura de Robert Plant com o Saving Grace Robert Plant incorporou “Two Coats” de forma fixa aos repertórios ao vivo do Saving Grace — banda que conta com a voz marcante de Suzi Dian, Tony Kelsey, Matt Worley e Oli Jefferson. A sonoridade construída pelo grupo foge de qualquer artifício comercial: é minimalista, acústica, guiada por violões, banjos e vocais harmoniosos que remetem diretamente às cantorias de varanda do interior norte-americano e britânico.
Para consolidar essa fase, a faixa ganhou um registro de estúdio oficial ao integrar o EP All That Glitters…, lançado pelo Saving Grace. A escolha da música reflete o próprio momento artístico de Plant: um músico lendário que, em vez de inflar o peito para revisitar o passado estrondoso do rock pesado, prefere despir suas canções até a alma, demonstrando respeito reverente pelas tradições que moldaram a música popular moderna.
O Significado Artístico Ouvir Robert Plant cantar “Two Coats” é testemunhar um artista em plena comunhão com suas influências primordiais. Não há pozinho mágico de estúdio ou grandiloquência; é apenas o timbre envelhecido e rico em experiência de Plant fundindo-se a texturas acústicas rústicas. A música soa quase como uma confissão pessoal sobre escolhas, passagens de tempo, renovação espiritual e artística — o som de quem trocou o peso do mundo por uma calmaria reconfortante.
segunda-feira, 11 de maio de 2026
Cultura do Amor: Mãe Natureza
Daniel Munduruku
Pensamento para um futuro saudável e provedor.
A gente ainda está de certa maneira, muito viciado num modo de sociedade de produção, de extração e exploração. A sociedade indígena trabalha como um modo de colaboração, que difere exatamente dessa sociedade da disputa, da permanete disputa por lugares, por "poder" e por "cargos" e tudo mais, pra poder justificar que uns são melhores do que outros. E essa sociedade, por tanto, vai nos viciando da ideia de consumir, e pra consumir nós precisamos explorar, e o consumo é sempre um pretexto individualista pra gente provar competência.
Nas sociedades indígenas, o consumo ele é coletivo, as coisas são coletivas. A preservação da natureza é o mais impostante, não porque não sabemos explorar, mas sim, por uma questão de sobrevivência, a natureza é o nosso supermercado, não podemos destruir quem nos alimenta. É o lugar onde a gente extrai os meios de sobrevivência, portanto temos que manter o meio ambiente produzindo, vivo e saudável.
Ao mesmo tempo em que a natureza produz pra nós, nós também temos que produzir pra ela, de modo que vire uma cooperação. Costumo lembrar que os humanos são os seres mais frágeis na natureza, pois somos os únicos que necessitamos constituir cultura, precisamos produzir coisas. A natureza ela trabalha em conjunto, ela trabalha de forma sistêmica, portanto todas as coisas são interdependentes entre si. Os indígenas olham para a natureza como parte de si, como parentes. Nós não chamamos a terra de mãe só porque é poético, mas porque a gente acredita nessa cosmovisão, pois a gente acredita que de fato ela é uma "Grande Mãe". Um filho que se prese cuida da mãe, e vai fazer de tudo para proteger essa "Mãe".
sexta-feira, 17 de abril de 2026
Cultura Indígena: O Rio Fala com o Homem
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Considerada educação ambiental como parte inseparável da educação, devendo estar inserida de forma permanente em todos os níveis e modalidades do processo educativo, seja formal - desenvolvida no âmbito dos currículos das instituições públicas e privadas, ou não-formal - ações práticas educativas voltadas à sensibilização da coletividade sobre as questões ambientais e à sua organização e participação na defesa da qualidade do meio ambiente.
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A Política Nacional de Educação Ambiental, fornecendo as linhas de ação e as formas de executá-las, tendo o mérito de reconhecer, na esfera legislativa, a importância de inserir a questão ambiental dentro da educação como estratégia de promoção do desenvolvimento sustentável no Brasil.
Um dos principais objetivos da Educação Ambiental consiste em permitir que o ser humano compreenda a natureza complexa do meio ambiente resultante de suas interações, levando-o a promover uma ação reflexiva e prudente dos recursos naturais, satisfazendo as necessidades da humanidade. A Educação Ambiental deve, assim, favorecer uma participação responsável nas decisões da melhoria da qualidade do meio natural, social e cultural.
sábado, 28 de março de 2026
Meio Ambiente: Só depende de Nós!
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| Noite Estrelada - Van Gogh (1889). |
São muitos , atualmente, que perderam a esperança de que, no quadro atual sinistro, tenhamos ainda algum futuro. Há demasiada maldade, genocídio a céu aberto e vergonhosamente feito por aqueles que o praticam, Israel e os Estados Unidos da América, ainda escandalosamente apoiados por alguns países europeus, nomeadamente pela Alemanha, esquecida do holocausto nazista.
Assistimos, estarrecidos, a uma grande nação, aquela que dispõe de mais meios de destruição em massa e até de aniquilação da vida sobre a Terra, a Rússia, arrasar uma nação vizinha com grandes tradições culturais e os famosos e sábios contos rabínicos, a Ucrânia. Terrível está sendo a guerra dos USA e Israel contra o Irã, destruindo uma das civilizações mais antigas, com uma ferocidade que não escolhe seus alvos, tudo é atacado, incluindo escolas de meninas.
Acresce ainda a absurda acumulação de fortunas em pouquíssimas mãos, pois, oito pessoas possuem, individualmente, a riqueza equivalente ao que possuem 4,7 bilhões de pessoas. Nestes, não se nota nenhuma sensibilidade humana face a seus semelhantes, tratando-os como zeros econômicos, descartáveis e considerados sub-humanos: os milhões que vivem nas periferias das grandes cidades do Norte Global (só nos EUA, vivem 30 milhões de pobres) e enchem, aos milhões, as metrópoles do Sul Global.
Abstenho-me de referir à grave ameaça da Sobrecarga da Terra, com severos limites da produção de bens e serviços que sustentam a vida (precisamos hoje já de 1,7 Terras). Nem mesmo do crescente aquecimento global do planeta que, se até 2030-2035, não for detido no máximo de crescimento de 1,5ºC, com referência à era industrial (1850-1900), causará uma inexorável dizimação de vidas na natureza e na humanidade.
Como ainda ter esperança num drama destas proporções? Entendemos as preocupações de analistas do curso do mundo que dizem: não é impossível que tenha chegado a nossa vez de desaparecer do processo da evolução, como centenas e centenas de espécies já desapareceram.
Por isso, sou pessimista, porque a realidade é péssima. No entanto, me declaro um pessimista esperançoso. Esperançoso porque, se somos Terra que sente, pensa, ama e venera, temos a resiliência que a Terra mostrou nas 15 dizimações de vidas que sofreu ao longo de sua história de 4,5 bilhões de anos. A vida nunca sucumbiu. Depois de cada dizimação, atestam vários historiadores da vida Terra, como Christian de Duve (Poeira Cósmica: A Vida como Imperativo Cósmico, 1995), ela, como que se vingando, produziu uma biodiversidade maior do que aquela que foi ceifada.
Como dizia o poeta alemão Friedrich Hölderin: “Lá onde há perigo, cresce também o que salva” (“wo aber Gefahr ist, wächst auch das Rettende”). O nosso perigo é inegável. Mas, considerando que o ser humano é um projeto infinito, dotado de mil virtualidades, ele saberá face ao grande perigo forjar chances de salvação.
Sabidamente, a história da vida não é linear. Ela dá saltos. O improvável pode se fazer provável. E o inesperado pode acontecer. Era seguramente improvável que um negro, Barack Obama, dada a discriminação que sempre sofreu pelos supremacistas brancos, chegasse à presidência dos EUA. E chegou. Quem poderia imaginar que, numa sociedade machista como a brasileira, uma mulher se tornasse presidenta do Brasil, Dilma Rousseff? E chegou.
Seres cooperativos e sensíveis
Tenho a convicção que animava o paleontólogo e místico Pierre Teilhard de Chardin de que a humanidade, num momento grave de sua história, especialmente sabendo que poderá se autodestruir, cairia em si e se daria conta de seu lugar no conjunto dos seres e de sua responsabilidade pelo futuro da vida. Daria um salto quântico em sua consciência e definiria um outro rumo à sua história. Far-se-ia a guardiã e a cuidadora de sua sagrada herança, a Terra, e de todos os seus ecossistemas com os seres que neles habitam. Perceberia que é parte e parcela da natureza, confraternizada com os demais irmãos e irmãs nela presentes. Amaria e ornaria a Casa Comum na qual todos caberiam com suas diferenças, mas numa profunda unidade.
Isso está dentro das possibilidades humanas. Somos seres naturalmente cooperativos e sensíveis face aos mais vulneráveis. Em nosso profundo, como dado objetivo, atestado pela new science, somos seres espirituais, capazes de identificar aquela Energia de Fundo (Aquele Ser que faz ser todos os seres) que tudo penetra e sustenta. James Watson comprovou que, em nosso DNA, está o amor, a força maior do universo (DNA: O Segredo da Vida, 2005). Com todas estas positividades, vamos ainda fazer uma dolorosa travessia até chegarmos a uma forma amorosa e fraterna de convivência.
Não estamos diante de uma tragédia anunciada, mas no coração de uma crise de nossos fundamentos, que vai nos acrisolar, purificar e permitir um salto, habitando um mundo que, juntos, podemos fazer existir sustentavelmente. Depende de nós impedir que as atuais crises virem tragédias.
Por isso, não tememos a noite sombria de nosso tempo, porque amamos as estrelas, nossas irmãs. Esperamos a aurora que se anuncia.
@Revista Liberta
Escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.
quinta-feira, 26 de março de 2026
Meio Ambiente: Como adiar o fim dos seres humanos?




sábado, 28 de fevereiro de 2026
Meio Ambiente: Vitalogy Foundation - Pearl Jam
Vitalogy Foundation: Pearl Jam
A Vitalogy Foundation é uma organização sem fins lucrativos (501c3) fundada pelo Pearl Jam para traduzir o espírito de sua música em impactos positivos tangíveis.
Para maximizar seu efeito, a Vitalogy atua tanto como defensora quanto como doadora.
Meio Ambiente:Existe um motivo pelo qual o Pearl Jam tem se envolvido ativamente em causas ambientais durante a maior parte de seus 30 anos de existência: temos um planeta lindo e queremos fazer a nossa parte para protegê-lo.
Mitigação de Carbono
Desde 2003, o Pearl Jam calcula as toneladas métricas de dióxido de carbono emitidas pelas turnês mundiais da banda. Esses cálculos são baseados em passagens aéreas e estadias em hotéis da banda e da equipe, quilometragem de caminhões e ônibus, peso do transporte (quilômetros/modalidade de transporte) e o número de fãs presentes em cada show. Com base nesse cálculo, a banda destina uma parte dos lucros das turnês para investir em projetos ambientais que visam compensar ou mitigar o dióxido de carbono liberado na atmosfera durante as turnês.
Pessoas sem-teto:A empatia transformada em ação define o trabalho da banda no combate à falta de moradia, um problema que a Vitalogy acredita poder ser resolvido por meio do trabalho conjunto e de um maior engajamento cívico.
sábado, 27 de dezembro de 2025
Meio Ambiente: Leonardo Boff
A ecologia é mais do que uma técnica de gerenciamento de bens e serviços naturais cada vez mais escassos. Tão escassos que a Mãe Terra se sente extenuada, pois o consumo humano mais aquele da natureza estão exigindo uma Terra e meia para atender a todas as demandas. Por isso, nós, humanos, devemos nos preparar para reinventar um outro caminho, se quisermos garantir um futuro para o nosso tipo de civilização.
Nem por isso deixaremos de fazer uma referência entre o Natal e a ecologia. Esta é mais do que o meio ambiente a ser urgentemente preservado. Ela possui uma dimensão do Profundo em nós.
A tradição cristã viu o nascimento do Filho de Deus, Jesus de Nazaré, cercado de elementos ecológicos: nasceu numa estrebaria, colocado sobre palhinhas e junto a um boi e um jumento (que, segundo certos relatos, aqueciam o Menino com seu bafo), com ovelhas distribuídas no campo. Há ainda uma estrela que iluminou a noite dos pastores e guiou os sábios vindos do Oriente.
Há um texto de grande beleza, que é cantado na liturgia de Natal, o qual mostra uma comoção cósmica, significando a entrada do Filho de Deus em nosso mundo. Quando tudo estava em profundo silêncio e a noite no meio de seu curso, eis o que aconteceu:
Então, as folhas que farfalhavam pararam como mortas.
Então, o vento que sussurrava ficou parado no ar.
Então, o galo que cantava parou no meio de seu canto.
Então, as águas do riacho que corriam se estancaram.
Então, as ovelhas que pastavam ficaram imóveis.
Então, o pastor que erguia o cajado ficou petrificado.
Então, nesse momento, tudo parou, tudo silenciou, tudo se suspendeu:
Nasceu Jesus, o salvador do mundo e do universo.
Como se depreende, as coisas não ficaram indiferentes à inserção do Divino em nossa história. Elas se prepararam, silentes, para recebê-lo.
Contam-se também histórias comoventes, como esta que surgiu entre os cristãos do México, pois lá existe uma flor chamada de Bico de Papagaio ou Espírito Santo. Ela possui folhas menores verdes e outras maiores vermelhas. Ela é associada ao Natal por causa da história que contarei a seguir, que possui seu lado ecológico.
Uma senhora pobre queria dar um presente ao Menino Jesus. Mas era tão pobre que não tinha nada para oferecer. Em sua simplicidade, colheu uma plantinha junto à estrada e levou-a até ele. Colheu a plantinha e foi, alegre, oferecê-la ao Menino Jesus no presépio. As pessoas que estavam perto começaram a rir da pobre senhora. Ela ficou tão envergonhada que começou a chorar.
As lágrimas cairam sobre as folhas verdes, que se transformaram em vermelhas. Por isso, esta planta é chamada Flor de Natal. E, de fato, assim é: quando exposta ao sol, fica verde; na sombra, torna-se vermelha, de um vermelho irradiante, que, em muitos lugares, cerca todo o presépio.
É comum que o grande aeroporto da cidade do México, na época de Natal, seja totalmente ornamentado com esta flor vermelha.
O Menino Jesus no presépio nos recorda ainda que todos nós, um dia, fomos crianças e que carregamos esta criança dentro de nós pela vida afora. A criança simboliza a vida nova, a inocência, a transparência, um novo começo. Sempre estamos às voltas com essas coisas: queremos ter uma vida saudável, podermos sempre de novo recomeçar e viver criativos e livres, como livres e criativas são as crianças. Não esqueçamos esta criança (dives puer) que ainda vive dentro de nós.
O Poeta Fernando Pessoa (Foto: Reprodução)Mas a verdade mais profunda que o Natal nos quer transmitir, talvez, seja esta: Deus não veio para divinizar o ser humano, mas veio para humanizar o Deus que ninguém jamais viu, como atestam todas as Escrituras. Agora, Ele se manifestou em nossa carne frágil, mortal e quente. Se Jesus é o Deus que se humanizou, isto significa que há uma porção de Deus dentro de cada um de nós. Jesus é nosso irmão. E, como irmãos, somos também filhos e filhas de Deus. Poderia haver dignidade maior do que ser filho e filha de Deus e pertencer à família divina?
Neste contexto, cabe citar um tópico do poeta português Fernando Pessoa, que escreveu, talvez, um dos mais belos poemas sobre o Natal na literatura universal:
Ele é a Eterna Criança, o Deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
É por isso que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
É a criança tão humana que é divina.
……..
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro de tua casa.
Despe meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
Depois destes tocantes versos, não cabem mais palavras. Apenas reafirmarmos que, depois que Deus se fez um de nós, não temos mais motivos de viver tristes. Não estamos mais sós. Ele caminha conosco em nosso próprio caminhar.
Leonardo Boff
Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.
domingo, 16 de novembro de 2025
Meio Ambiente: A Farsa do Carbono
O governo federal publicou durante a COP30, em Belém, o edital da licitação para privatizar uma floresta na Amazônia por meio do mercado de carbono.
Em março de 2026, será realizado um leilão na Bolsa de Valores de São Paulo, e a empresa vencedora terá 40 anos para reflorestar 100 mil hectares da degradada Floresta Nacional do Bom Futuro em Rondônia. Em troca, poderá vender créditos de carbono para outras empresas poluidoras. Com esses créditos, elas podem continuar poluindo o planeta em paz.
Esse é mais um capítulo do teatro do absurdo montado pelo que se convencionou chamar de capitalismo verde, o novo figurino vestido por velhos atores, justamente os principais responsáveis pela catástrofe climática, ecológica e social que estamos vivendo.
Um teatro que tem suas sessões mais concorridas durante as Conferências do Clima da ONU, quando Estados e megacorporações internacionais atuam harmonicamente para construir e regulamentar falsas soluções para a crise. Uma das falsidades mais populares é a do mercado de carbono.
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Corporações globais
Criado em 1997 na COP3, em Kyoto, o mercado de carbono nasceu de uma teoria que parece boa – transferir recursos de países ricos para que países pobres possam preservar suas áreas verdes –, mas, na prática, tem servido apenas para empurrar a humanidade em direção à sua própria destruição.
A lógica é a seguinte: precisamos reduzir a emissão de gases do efeito estufa, que são os responsáveis pelo aquecimento global. Esses gases são de vários tipos, mas, convencionalmente, nós o chamamos de “gases equivalentes ao dióxido de carbono”. Para simplificar ainda mais, chamamos tudo de carbono.
Diante da necessidade de reduzir as emissões de carbono, as corporações globais concordaram em criar alternativas para abandonar, aos poucos, a queima de combustíveis fósseis, ocasião em que o carbono chega à atmosfera e esquenta o planeta.
Mas reduzir a queima de fósseis causa impacto na produtividade e na margem de lucro das corporações, duas coisas que, como sabemos, são mais preciosas para elas do que as próprias condições de vida na Terra. Então, para as empresas que não querem mudar seu padrão poluidor, a ONU ofereceu uma alternativa: comprar créditos para “compensar” sua emissões.
Esses créditos são moedas criadas a partir de projetos que dizem manter ou recuperar florestas e áreas verdes, sob o argumento de que uma árvore na Malásia seria capaz de absorver ou “compensar” as emissões de um avião na Noruega, por exemplo.
Hoje, sabemos que não é assim que a natureza funciona, já que a própria emissão de gases do efeito estufa torna mais difícil e até inviável a sobrevivência das florestas. Mas, pela lógica torta do mercado de carbono, uma petroleira como a ExxonMobil, que acabou de ganhar um leilão para extrair petróleo da Foz do Amazonas, pode continuar queimando até a última gota de óleo e lucrando com essa poluição. Basta que ela reverta uma parte desse lucro sujo para a compra de créditos de algum projeto de carbono, como o do governo federal para recuperar a floresta de Rondônia.
Ou como o “Projeto Maísa”, na região de Moju, no Pará. Durante anos, empresas como Uber, Audi, Nike e iFood compraram créditos desse projeto para compensar suas emissões cotidianas, já que o “Maísa” prometia aplicar esses recursos na preservação de 26 mil hectares de floresta amazônica. Mas uma reportagem de Isabel Harari e Poliana Dallabrida, no “Repórter Brasil”, revelou que os empresários brasileiros que receberam esse dinheiro estavam fazendo outra coisa com ele.
Em vez de preservar a floresta, esses empresários contrataram trabalhadores para desmatá-la. E, pior ainda, submeteram 16 deles a condições análogas à escravidão. Ou seja, não é exagero dizer que a verba da sustentabilidade dessas grandes corporações financiou a destruição da Amazônia e a escravização do seu povo. E esse não foi um caso isolado.
Letras miúdas
Com o avanço do mercado de carbono pela Amazônia, populações que sempre viveram em harmonia com a floresta agora precisam lidar com a chegada de empresários oferecendo dinheiro fácil para “manter a floresta em pé”, promessas, aliás, que, muitas vezes, não são cumpridas. Os contratos, escritos em linguagem cifrada e letras miúdas, costumam restringir o uso tradicional que povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos sempre fizeram da terra, como no caso dos indígenas submetidos a vigilância por drones para não criarem roçados na aldeia.
Na prática, esse mercado tem funcionado como uma licença pras grandes poluidoras continuarem poluindo, às custas dos modos de vida dos povos do Sul Global. Se você gostar de números, talvez goste (e se irrite) de saber que, mesmo com todo o oba-oba em torno do mercado de carbono, ele tem se mostrado absolutamente incapaz de reduzir significativamente o nosso padrão de emissões de gases maléficos.
Uma revisão de dados de 39 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) constatou que a introdução de mecanismos de precificação de carbono para que ele pudesse ser negociado reduziu o crescimento das emissões em apenas 0,6% a 1,5% de 1990 a 2016, em relação ao que teria acontecido sem esses mecanismos.
Mesmo assim, nós tivemos em 2024 o ano mais quente da nossa história. E não existe nenhum sinal de que seremos capazes de limitar o aumento do aquecimento, apesar do ilusionismo que empresas e governos submetidos a elas continuam encenando em eventos como a COP.
A nossa única chance seria abandonar toda e qualquer falsa solução criada para satisfazer apenas as demandas do capitalismo, que, tendo causado a crise, nunca estará de fato interessado em resolvê-la. Mas, para isso, seria preciso ter um governo de fato comprometido com a preservação do bem-estar e do futuro da sua população – e não com a expansão ilimitada do capital.
REVISTA LIBERTA
Adriano Wilkson
Repórter, roteirista e apresentador de podcast. Atuou nas redações da Folha de S. Paulo e do UOL, onde cobriu edições das Olimpíadas e da Copa do Mundo. Produziu, roteirizou e apresentou o podcast “Os Grampos de Robinho” e trabalhou no documentário sobre o mesmo tema do Globoplay. Hoje, produz o podcast independente “Carrapato”.
Meio Ambiente: Salvar A Casa Comum
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Ademais, a questão séria mesmo é verificar se o aquecimento mundial firmou-se acima 1,5ºC – em 2024, chegou a 1,7ºC e, em alguns lugares, a 2ºC. Se isso se confirmar, estaríamos num caminho sem retorno, segundo vários especialistas. O aquecimento cresceria mais e mais. Foi constatado que o limite estabelecido de 1,5ºC até 2030 pelo Acordo de Paris de 2015 já foi antecipado e, assim, ultrapassado. As consequências na natureza e na humanidade podem ser altamente desastrosas.
Já em 2003, a Carta da Terra assumida pela ONU (um dos documentos mais fundamentais sobre o estado da Terra) advertia: “A escolha é nossa: ou formar uma aliança global para cuidar da Terra e cuidar uns dos outros ou arriscar a nossa destruição e a destruição da diversidade da vida”. E o Papa Francisco, na Carta Encíclica Fratelli tutti (2020), igualmente, admoestava: ”Estamos no mesmo barco: ou nos salvamos todos ou ninguém se salva” (nº 34).
Portanto, esse tema fundamental não consta na agenda da COP30: salvar a Casa Comum, cuidar da humanidade e garantir um futuro para a vida. Esta é a questão stantis et cadentis: inescapável.
No entanto, apesar de poderosos negacionistas como Donald Trump, cresce a consciência de que só temos uma única Casa Comum, o planeta Terra. Formamos, como espécie, uma única humanidade. Temos um destino comum, Terra, humanidade. Precisamos incorporar a visão que os astronautas nos legaram: vista da Lua ou das naves espaciais, não há diferença entre Terra e humanidade. Formamos uma única entidade complexa. Como humanos, somos aquela porção da Terra que sente, pensa, ama, cuida e venera.
Como sair dessa crise estrutural, planetária e paradigmática?
Uma coisa, para muitos, é indubitável: dentro do sistema capitalista e da cultura de consumo que ele criou, não há solução para a crise ecológica. Ou mudamos de paradigma e de rumo ou, como asseverou Zygmunt Bauman: “Vamos engrossar o cortejo dos que caminham na direção da vala comum”.
Equilíbrio perdido
Em primeiro lugar, devemos abandonar o paradigma da modernidade que afirmava o ser humano fora e acima da natureza, sentindo-se “dono e senhor” (dominus), em direção ao paradigma que sustenta o ser humano como parte da natureza e irmão (frater) de todos os demais seres, especialmente, de seus semelhantes humanos.
Em seguida, importa resgatar a importância do cérebro límbico, surgido com os mamíferos há mais de 100 milhões de anos. Nele, reside o afeto, o amor, a empatia, a cooperação. Nós, seres humanos, somos mamíferos racionais de afetividade, que amam e cuidam dos seres que geram. O cérebro neocortical, da razão instrumental-analítica, irrompeu há cerca de 8-9 milhões de anos.
Ocorre que, na cultura vigente, se recalcou a afetividade e a empatia em favor da dominação quase absoluta da razão intelectual-analítica, operando uma espécie de lobotomia em nós. Importa enriquecer esta razão (neocortex) com a inteligência cordial (cérebro límbico) para refazer o equilíbrio perdido. E estabelecer um laço de amor à Terra.
Depois, importa dar centralidade à vida em função da qual estão a política, a economia e a cultura. Nosso sistema produz morte da natureza e de milhões de seres humanos. Por isso, é imperioso denunciar todos os sistemas que dizimam ecossistemas e produzem miséria.
Insistir no fato de que a paz só será possível se for superada a injustiça social mundial, o que só será possível se houver mais equidade em todas as relações. A paz, além de fruto da justiça socioambiental, resulta do cuidado que a humanidade cultiva de uns para com os outros e com a natureza.
Face à falta de sustentabilidade da sociedade mundial e da natureza, se faz urgente uma ética do cuidado, da compaixão, da responsabilidade e da solidariedade. O cuidado pertence à essência da vida e do humano. Ele é a precondição para que emerja a vida. É o norteador antecipado de todo o comportamento para que seja benfazejo para a vida e para os outros, e não destrutivo. É uma atitude amorosa que dá segurança e proteção à Casa Comum.
Uma ética sozinha não dá conta dos problemas mundiais. Assim como uma estrela não brilha sem uma aura, assim uma ética não será assumida se não estiver imbuída de espiritualidade.
A espiritualidade não é monopólio das religiões. Como se impõe mais e mais pela new science (cosmogênesis, neurociências, biologia genética), a espiritualidade é natural e pertence à essência de nossa humanidade. Dela nascem as religiões, mas não se identifica com elas. Manifesta-se pelos valores intangíveis, como o amor, a empatia, compaixão e o contentamento.
Esses valores e motivações vão além dos interesses pessoais e coletivos e se ancoram no caráter precioso da realidade, na gratuidade do bem e na abertura ao Todo. Pela espiritualidade se capta aquela energia poderosa e amorosa (Energia de Fundo), que subjaz e sustenta todos os seres. Não a dominamos, mas podemos abrir-nos a ela e tornar nossa existência mais apetecida, feliz e amiga da vida.
A dimensão espiritual é despertada quando resgatamos o princípio feminino, presente no homem e na mulher. Durante séculos, foi recalcado ou tornado invisível socialmente. O princípio feminino é aquela energia que nos faz sensíveis aos valores da interioridade, da gratuidade, do cuidado, da vida e da comunhão, e que nos faz captar as mensagens vindas da realidade, que nos permite entender os símbolos e nos abre para o mistério da vida e do sagrado.
Durante séculos, temos vivido sob a dominação do masculino (presente no homem e na mulher), que responde pela razão analítica, pelo uso do poder e pela conquista do mundo exterior. Hoje, ambos os princípios devem ser integrados, mas a partir do polo que a nossa cultura menos cultivou, que é o feminino. Então, teremos uma experiência mais completa e integral do ser humano, homem e mulher.
Por fim, devemos ser, na bela expressão do ecologista Roberto Malvezzi, “como os peixes da piracema, que só desovam nadando contra a corrente (o atual sistema) e assim reproduzindo a vida”.
Leonardo Boff
Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.
sexta-feira, 14 de novembro de 2025
Meio Ambiente: COP 30 BELÉM
Esta afirmação, que nos parece estranha, está, na verdade, bem fundamentada.
A COP30 tratará, fundamentalmente, do aquecimento global e da busca de energias alternativas que não produzam efeito estufa. O grande pano de fundo em Belém é a presença da floresta amazônica, fator básico para o equilíbrio dos climas terrestres. André Corrêa do Lago, presidente da COP30, declarou: “Gostaria muito que as pessoas se lembrassem da COP30 como uma COP da adaptação”.
Seguramente, todas as sociedades devem adaptar-se às mudanças climáticas. Por mais que rejeitem o aquecimento global, os negacionistas não podem negar os fatos: secas severas, nevascas nunca antes vistas, inundações desastrosas (como as ocorridas no Rio Grande do Sul), crescente desertificação, diminuição drástica de água potável, incêndios florestais apavorantes na Amazônia, no Pantanal, na Califórnia e em outros tantos lugares no mundo, sem falar dos frequentes tornados e na erupção dos vulcões.
Tais fatos trágicos confirmam que já estamos dentro do aquecimento global. Cientistas reconhecem que a ciência não pode reverter este fenômeno; ela pode apenas advertir a chegada de eventos extremos e mitigar seus efeitos danosos.
Ponto da virada
Sabemos, hoje, que os seres humanos lançaram na atmosfera 2.390 bilhões de toneladas de CO2 entre1850 a 2019. Dados recentes do observatório europeu Copernicus indicam que a temperatura média global, em 2025, chegou a 1,49°C acima dos níveis pré-industriais, ultrapassando os tipping points (pontos de inflexão ou pontos de virada) traçados pelo Acordo de Paris, em 2015, que seriam os de não ultrapassar a marca de 1,5°C até 2030. Em outras palavras, antecipamos os dados.
Em função disso, todas as sociedades situadas em montanhas, como Petrópolis e Teresópolis (no Rio de Janeiro) e outras, devem adaptar-se aos possíveis grandes deslizamentos de terra, que implicam o risco de destruição de inúmeras casas com registro de vítimas fatais. Mas resignar-se apenas a essa estratégia de adaptação representa uma capitulação, achando que pouco nos resta a fazer exceto aceitar o aquecimento e adaptar-se a ele. Temos que considerar outro paradigma, que tenha um aquecimento amigável à vida e suportável por todos os humanos.
Não basta que cidades do Vale do Taquari e mesmo Porto Alegre, às bordas do Guaíba, realizem apenas adaptações, o que o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, órgão das Nações Unidas criado em 1988) chama de estabelecer “a trajetória da resiliência climática”, mantendo os mesmos lugares afetados, com meras adaptações. O que ocorreu é apenas o começo. Tudo indica que o aquecimento vai aumentar, podendo chegar a 2°C ou mais até 2030. Muitos não conseguirão adaptar-se na natureza e na humanidade.
Devemos partir do fato de que a Terra não é mais a mesma. Estamos numa nova era, a do antropoceno/necroceno/piroceno, que exige mais do que adaptações.
É urgente, dentro ainda do sistema imperante, a prevenção, vale dizer, criar infraestruturas que prevejam o que virá e evitem os desastres e a proliferação de vírus e bactérias para salvar a vida humana, em especial, dos mais frágeis. Caso contrário, os danos serão fatais. Como se depreende, exige-se um outro paradigma de habitar a Casa Comum, que vá além da adaptação e da prevenção.
Em termos planetários, poderemos estar diante da extinção das espécies, não excluída a humana. Por esta razão, a COP30 pode ser decisiva: ir além da adaptação proposta, pensar num outro paradigma e forjar, dentro da atual situação, formas de prevenção que protejam a integridade do planeta, a continuidade dos países insulares, a preservação maior possível da biodiversidade e que também forneçam a garantia de um futuro possível e melhor para a espécie humana.
Ficar apenas nas adaptações, sem as prevenções nos lugares atingidos pelos desastres ecológicos, tendo, talvez, que trocar de lugar ou criar fortes estruturas preventivas, seria realizar o que Michel Löwy advertiu: uma capitulação. Não à resignação, mas realizar a prevenção e a busca de um novo paradigma. Caso contrário, vale o que Bertold Brecht disse: “Quem luta pode perder. Quem não luta já perdeu”. Então, há que lutar para chegarmos a um outro paradigma, que seja benigno para Terra e para a vida.
Leonardo Boff
Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.
sexta-feira, 31 de outubro de 2025
Exposição: HÊMBA!
As imagens estabelecem conexões entre o humano e o não humano, o visível e o invisível, a política e a poética. A curadoria da mostra é conduzida por Fabiana Bruno e Eder Chiodetto.
Hêmba - Edgar Kanaykõ Xakriabá
Data: abertura ao público geral, 26 de outubro a 14 de dezembro de 2025
De terça a domingo, das 10h às 18h
Entrada gratuita.
Local: Solar Fábio Prado - Avenida Brigadeiro Faria Lima, 2705, Jardim Paulistano - São Paulo, SP.
Venha, vai ser uma alegria poder compartilhar esse momento especial com vocês.
Ariãtã! 🌿😻
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HÊMBA
Edgar Kanaykõ Xakriabá
Curadoria
@ederchiodetto e @brunofaby










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