Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Livros para conhecer o Brasil: O Genocídio do Negro Brasileiro


O Genocídio do Negro brasileiro
' Abdias Nascimento '

Qual o fundamento da denominação: "Genocídio"?

"O uso de medidas deliberadas e sistemáticas como morte, injúria corporal e mental, impossíveis condições de vida e prevenção de nascimentos, calculadas para o extermínio de um grupo racial, político ou cultural, ou para destruir a língua, a religião ou a cultura de um grupo."

"Genocídio é um neologismo, ou seja, a recusa do direito de existência a grupos humanos inteiros pela exterminação de seus indivíduos, desintegração de suas instituições políticas, sociais culturais e linguísticas e os seus sentimentos nacionais e religiosos."

"O genocídio não é somente pela ação direta de violência, é também quando determinado líder produz políticas para deixar determinado grupo de pessoas em situação de morte."

Prefácio:
Ao longo do século passado, prevaleceu a visão de que os descendentes dos africanos se encontravam, no Brasil, numa condição muito mais favorável do que a vivida pelos negros no sul dos Estados Unidos ou na África do Sul do apartheid. Mais do que estabelecida, essa era uma visão oficial: o Brasil seria uma democracia racial, um lugar em que o grande problema do negro era a pobreza e não o preconceito de cor. Foi contra essa falácia que Abdias Nascimento se insurgiu ao apresentar, no Segundo Festival de Artes e Culturas Negras, em Lagos (Nigéria, 1977), em plena vigência da ditadura militar, um texto combativo, a começar pelo título, demonstrando que a condição dos negros no Brasil não era realmente como aquela nos EUA ou na África, era pior, vítimas que são de um racismo insidioso, de uma política que conduz a um genocídio, para usar o termo do autor, que, ausente das leis e dos discursos políticos, se revela cotidianamente. 

Assim, a reedição de O Genocídio do Negro Brasileiro pela editora Perspectiva não é apenas uma homenagem histórica, mas a constatação de um fato: a despeito do trabalho dos ativistas e da mudança de mentalidade na academia, a situação continua inalterada. Segundo a ONU, atualmente no Brasil ocorre, a cada 23 minutos, a morte de um jovem negro. Em geral, do sexo masculino; em geral, pela ação, ou omissão, do Estado, da polícia a instituição de escolha para se lidar com qualquer questão social no país. É preciso dizer mais?

Crítica e pensamento:
O transcorrer do mês de maio no Brasil, nos impele enquanto sujeitos negros e negras, a refletir criticamente acerca de nossas trajetórias, no contexto denominado de pós-abolição, segundo o qual, afirma um dos autores clássicos da sociologia brasileira, “o negro permaneceu sempre condenado a um mundo que não se organizou para tratá-lo como ser humano e como “igual” (FERNANDES, 1972 p.15). 

Diante desta questão, bem como no contexto da crise pandêmica (COVID-19), escancara-se mais uma vez, as referidas condições de reprodução da existência e sujeição da população negra no país, diante de sua posição de ser um objeto visto por um olhar tortuoso, conforme problematizou o geógrafo negro baiano Milton Santos (1926-2011). Tais elementos, nos instigam a uma (re)leitura – no sentido de produzir uma interpretação e de indicar uma leitura, sobretudo às gerações mais jovens, que vivem desde a formação territorial brasileira – no âmbito de um trabalho de grande relevância. Trata-se da obra O Genocídio do Negro Brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado do intelectual, artista, político negro e pan-africanista Abdias Nascimento (1914-2011), sob a premissa de sua atualidade.

O referido trabalho de Abdias Nascimento, reúne XV capítulos em tons ensaísticos e propositivos. Sob o título original Racial Democracy in Brazil: Myth or Reality, o texto foi escrito em seu momento de exílio na Nigéria, como uma contribuição ao Colóquio do II Festival Mundial de Artes e Culturas Negras e Africanas (Festac) realizado em Lagos, entre janeiro e fevereiro de 1977. Porém, o mesmo foi rejeitado pelas autoridades oficiais da Nigéria e do Brasil representadas no Festac’77. Ainda assim, o trabalho fora editado pelo Departamento de Línguas e Literatura Africanas da Universidade de Ifé, onde Abdias atuava como professor convidado. O trabalho foi mimeografado e distribuído aos membros do Colóquio-Festac’77. Abdias nunca obteve uma resposta formal das autoridades acerca da rejeição de seu texto, entretanto a repressão não foi suficiente para impedir a discussão do mesmo e para o reconhecimento de sua relevância. 

No Brasil, sua primeira edição data de 1978 pela Editora Paz & Terra, com prefácios do sociólogo Florestan Fernandes (1920-1995) e de Wole Soynka dramaturgo-intelectual nigeriano, Prêmio Nobel em Literatura (1986). Nesta breve reflexão utilizamos a versão mais recente, publicada no Brasil pela Editora Perspectiva.

Nossa reflexão sobre a obra O Genocídio deseja enfatizar três aspectos, sem deixar de reconhecer sua profundidade e diversidade. São eles: a) a construção de uma matriz epistêmica crítica que tem no seu enlace a desconstrução de mitos; b) a interpretação da formação social brasileira e o estilo racista que impacta de maneira singular o ser negro; c) os horizontes de sentido que Abdias Nascimento recupera do papel da resistência político-cultural afro-brasileira e desdobra na reconstrução de um pensamento em ação, o qual em primeira e última instância, reivindica uma nova sociedade, multirracial e multicultural no Brasil. Como preambulo para adentrar nestes aspectos, é mister colocar em pauta a noção de genocídio enfatizada pelo autor. Nesse quesito, uma primeira associação no contexto dos debates contemporâneos, permite-nos associar genocídio e necropolítica conforme a perspectiva do filósofo camaronês Achille Mbembe (2006).

Mbembe (2006), desenvolve seu raciocínio, através da crítica aos dispositivos de poder analisados por Michel Foucault (1926-1984), sobretudo no que concerne as noções de soberania e biopoder, relações que governam o “direito de vida e de morte” dos indivíduos às populações no âmbito do Estado moderno. Para Mbembe (2006), no mundo pós-colonial, na modernidade tardia e até mesmo para setores da população subalternizada no primeiro mundo, vigora algo além dos dispositivos de controle e reprodução da população enquanto espécie (o biopoder). Impõe-se nesses espaços-tempos, uma política da morte, de extermínio da população, através do uso deliberado da violência e sujeição dos governados, esta necrose do poder – necropolítica, se funda desde a escravidão e a racialização-racismo das populações nos espaços-tempos citados, ela cria mundos de morte. Portanto, tal compreensão tem se tornado fundamental para entender e denunciar o genocídio da população negra no Brasil contemporâneo, sobretudo, a juventude periférica, as vítimas do feminicídio e transfobia, as comunidades quilombolas.

Cabe destacar, que elementos como: a denúncia da perversidade da escravidão no Brasil, nas Américas e em África; bem como o caráter sistemático da exploração/violação da mulher negra, dentre outros aspectos, permitem identificar uma convergência entre linha interpretativa da necropolítica e a noção de genocídio conforme Nascimento (2016[1977]). Por outro lado, necropoder também diz respeito, a coisificação do ser humano no capitalismo, traduzida na sua mercantilização descartável, o que conduz as populações ao estado de extrema precarização, invisibilidade e não reconhecimento de sua existência, o que Mbembe (2006) arroga como um mundo de mortos-viventes. 

Essa segunda linha de raciocínio acerca da necropolítica, encontra novamente relação com a concepção de genocídio de Abdias Nascimento, a qual abrange um indicioso, sistemático e silencioso processo de sujeição sociocultural, no qual a população negra do Brasil “pós-abolição” foi forçada a subalternizar-se. Como consequência, tem-se o seu embranquecimento como a única possibilidade de reprodução de sua existência nos quadros da sociedade. Deste modo, o ser negro é impelido a negar a si próprio, lhe é negada a sua autodefinição, pois impõe-se a perversidade do embranquecer, sendo este o caráter fundamental do genocídio a que o autor se refere. Trata-se de um extermínio sociocultural que se coaduna com a violência física e material que abate os seres negros do país.

a) A matriz epistêmica de desconstrução de Mitos.

Para chegar à conclusão mencionada, Abdias Nascimento em O Genocídio do Negro Brasileiro, opera, em nosso olhar, uma matriz epistêmica de desconstrução de Mitos, pois o propósito central de sua obra, volta-se para a desconstrução do conceito de democracia racial, que por diferentes caminhos perpetrou-se na sociedade brasileira, refletindo-se em uma suposta relação concreta de convivência harmoniosa entre negros e brancos no país. Subjacente a essa ideia central, busca interrogar e desconstruir mitos que lhe estão atrelados, tais como: certa benevolência dos senhores e humanidade existente na escravidão latino-americana, sob a influência cristã (católica e protestante); as tendências ao intercasamento entre negros e brancos como suposição de relações horizontais entre ambos; a influência da cultura africana e de seus descendentes como sinônimo de ausência de preconceito racial no Brasil. Todos esses elementos, se revelam para o autor, conforme a lógica da desconstrução como: “uma extremamente perigosa mística racista, cujo objetivo é o desaparecimento inapelável do descendente africano, tanto física, quanto espiritualmente, através do malicioso processo do embranquecer a pele negra e a cultura do negro” (NASCIMENTO, 2016 [1977] p.49-50 [grifos do autor]).

Sabemos que no âmbito filosófico, destaca-se a noção epistemológica de desconstrução à perspectiva pós-estruturalista do filósofo franco-argelino Jacques Derrida (1930-2004), que opera sobre os discursos e expressões dos sistemas de pensamento ocidental, uma constante interrogação de seus problemas, a qual não necessariamente se joga frontalmente a um conceito vulgar, mas com as repetidas questões, interroga-o aos seus limites, pondo a prova sua gênese. Essa desconstrução gera abertas, margens diante das quais os problemas postos podem ser recolocados ou reconstruídos. Deste modo, vemos a lógica de pensamento presente em O Genocídio do Negro Brasileiro, desenvolver-se em sentido semelhante, ponto a prova os Mitos intocáveis, para chegar a aberturas transformadoras. Estabelecer tal paralelo, significa que o pensamento e a ação negra, podem estar em consonância com as propostas críticas de origens distintas, desde que as mesmas sejam operacionais e contribuam com os propósitos de nossa revolução, como bem enuncia Abdias Nascimento, já nas conclusões deste trabalho.

Assim, diante desta lógica epistêmica, o autor compreende que a tese da democracia racial exalta um certo ser negro, mas para embranquecê-lo, não para reconhecê-lo, pois é parte de uma estratégia, via miscigenação e termos correlatos, que visa aproximar a nação-brasileira dos padrões culturais e estéticos brancos e europeus, sem tocar na noção de inferioridade da raça negra elaborada pelos eugenistas. Logo, o mito revela-se em tragédia – o genocídio – que permeia os crimes de violação e subjugação da mulher negra pelo homem branco, do passado ao presente, na busca por estabelecer os novos tipos sociais [o(a) mulato(a)], que caminham na estratificação sistemática de embranquecimento do povo brasileiro; a falsa democracia que incorporou políticas de imigração no período colonial e pós-colonial, com vistas a privilegiar os ingresso das populações europeias, para suprir supostas demandas do país; também, afirmou-se a presunção de que as pessoas de origem indígena e africana preferiam ser rotuladas de brancas, em benefício de sua inserção na estrutura social, uma imposição que levou inclusive ao extermínio de dados sobre a escravidão no Brasil e retirada das categorias – negros e indígenas dos censos oficiais, por muito tempo.

Ainda, Abdias Nascimento destaca como a influência da cultura africana no Brasil, foi abordada de acordo com os destacados ideólogos da democracia racial, tais como Gilberto Freyre (1900-1987) e Pierre F. Verger (1902-1996), segundo sua visão. Tais autores se utilizam de expressões como “sobrevivência” dos traços culturais africanos e “infiltrações” africanas, na religião, na culinária, na música, na escultura e pintura de origem europeia, como demonstração da essência não racista e harmoniosa da civilização brasileira. Em realidade, segundo Abdias, as expressões “sobrevivência” e “infiltração” evidenciam a natureza subterrânea e a condição marginal da cultura africana e de seus descendentes no Brasil, do contrário a civilização brasileira que diz respeito à sua fração branca, nunca aceitaria a contribuição negra, caso ela não se apresentasse como disfarçada e clandestina.

Não obstante, o autor destaca que a formação cultural afro-brasileira se constituiu pelas forças da rejeição e resistência do povo africano em sua diáspora. Assim, situa o papel do banzo, também conhecido como “a doença da saudade” da terra e da vida livre em África, que acometeu e retirou as forças vitais de uma ampla população negra escravizada. Somente diante dessa alta taxa de mortalidade negra escrava, é que se forçou aos senhores permitir ao povo negro entoar suas manifestações culturais, muito restritamente em domingos e dias santos. Outro instituto da democracia racial e da consequente presença cultural negra no país, residiria sobre a teoria da saudável interação sexual entre as raças e a tendência ao intercasamento, a prova dessas relações seria o surgimento da mulata brasileira, símbolo de identidade e produto nacional. Em realidade, uma coisificação, produto da exploração sexual da mulher negra, violada em sua condição de ser. Por seu turno, apoiado em diversas pesquisas, também se revela o contraditório do intercasmento, visto que as mesmas demonstram como o branco excluiu o negro de seu círculo de convivência íntima – a família, contexto no qual o homem negro e a mulher negra só poderiam adentrar, pela porta dos fundos, como criminoso e como prostituta.

b) A formação social brasileira e seu estilo racista de ser.

Do movimento epistêmico de desconstrução emerge na obra em tela, uma concepção fundamental acerca da formação social brasileira e seu estilo racista. Assim, o autor de O Genocídio postula:

“Tudo era de origem europeia, como agora quase tudo vem dos Estados Unidos. O país obtivera em 1822 uma independência apenas formal, permanecendo sua economia, sua mentalidade e cultura, dependentes e colonizadas” (NASCIMENTO, 2016[1977] p.82 [grifos do autor]).

Essa concepção nos remete a uma interpretação da formação social brasileira que leva em consideração o que contemporaneamente denomina-se de colonialidade latino-americana, conceito que segundo o sociólogo peruano Aníbal Quijano (1928-2018), extrapola a noção de colonialismo pois, abrange um sistema de relações de poder que permanece e se aprofunda, mesmo diante das independências formais. Logo, a colonialidade se funda na imposição de uma classificação racial/étnica da população e cujas relações de poder operam nos diversos planos, âmbitos e dimensões, tanto materiais quanto subjetivas da existência social. Nesse processo, as relações sujeitam-se aos capitais no âmbito econômico; à família burguesa, ao patriarcalismo no que concerne as relações de gênero e sexualidade; ao euro-“norte”-centrismo, tomado como regime de produção da subjetividade e das formas de conhecimento; ao Estado-nação e suas articulações internacionais tornadas referencias no que tange aos regimes de autoridade.

As referidas relações não são vistas como formas isoladas, mas amalgamados constituem a colonialidade que Abdias Nascimento enuncia em sua concepção e luta por sua libertação, desde a perspectiva Afro, tanto quanto a questão se põe nas lutas Indígeno-Americanas e Caribenhas. Neste âmbito, também é mister situar a contribuição do intelectual negro revolucionário, oriundo da ilha Martinica, Frantz Fanon (1925-1961), que ressaltou as relações entre o colonialismo, o racismo e a subjetivação negra, como modos de ver e viver o mundo. Portanto, mais do que a subordinação material de um povo, a colonização e o racismo, fornecem as formas como as pessoas são capazes de se expressar e se entender. Logo, descolonizar significa também a necessidade de descolonização das mentes.

Nesta medida, das especificidades da formação social colonizada-capitalista-racista, o autor de O Genocídio compreende que a democracia racial significa a metáfora que designa o estilo do racismo brasileiro. O qual não se confunde com um sistema jurídico de segregação racial conforme ocorrera nos Estados Unidos e na África do Sul, mas é um sistema tão perverso quanto, visto que,

“[…]institucionalizado de forma eficaz nos níveis oficiais de governo, assim como difuso e profundamente penetrante no tecido social, psicológico, econômico, político e cultural da sociedade do país. Da classificação grosseira dos negros como selvagens inferiores, ao enaltecimento das virtudes da mistura de sangue como tentativa de erradicação da “mancha negra” (NACISMENTO, 2016[1977] p.111 [grifos do autor]).

Para assegurar esse sistema de poder, as classes dominantes brancas não dispõem apenas dos governos, das leis, do capital, das forças armadas e da polícia, mas também de amplos instrumentos de controle social e cultural, tais como: o sistema educacional, as formas de comunicação de massa – a imprensa, o rádio, a televisão, bem como a produção literária e as formas de linguagem. Considero neste aspecto, haver um diálogo implícito entre o intelectual quilombista e o intelectual subalterno da região Sardenha – Antônio Gramsci (1891-937), pois as formas de exercício do poder branco, remetem a uma concepção de um Estado ampliado no Brasil, que recorre a não apenas à coerção, mas também ao consentimento subalternizador para sustentar a hegemonia da branquitude que nas palavras de Nascimento (2016[1977]), formam um imperialismo da brancura e do capitalismo que lhe é inerente, na formação social em questão.

Como resultado desses dispositivos, temos destruição do ser negro como pessoa, como ser criador e condutor de sua própria cultura, na medida em que é invadido em sua intimidade, em seu modo de autoanalisar-se, consequentemente em sua própria autoestima. Neste aspecto, estamos diante do que Fanon (2008 [1952]), definiu como complexo psicoexistencial do ser negro frente ao racismo, no qual o ser sofre não apenas pela inferiorização econômica, mas pela epidermização dessa inferioridade. O que aliena o ser negro de sua condição de ser humano, transforma-o em uma zona de não existência, perdida em seu niilismo e aviltado pelos elementos brancos. Porém, no desfecho da obra O Genocídio do Negro Brasileiro, revela-se a luta pela saída desse complexo, a luta pelo reconhecimento do ser negro em si e na sua relação com outro. Desta forma, Abdias Nascimento demonstra como nos transformamos naquele ser de ação, reivindicado por Fanon (2008 [1952]), através das diversas formas de resistência, revoltas, movimentos sociopolíticos e manifestações culturais construídas ao longo da trajetória afro-diaspórica pela negritude brasileira.

Nesse sentido, o seu texto aborda, dentre outros processos, o papel do banzo, das revoltas escravas, das lutas e de intelectuais abolicionistas, tanto quanto destaca o legado quilombola da República de Palmares; também os movimentos como a Frente Negra Brasileira na década de 1930, na qual Abdias atuou, o Teatro Experimental do Negro fundado em 1944, fruto de seu próprio protagonismo, os primeiros Centros de Estudos e Pesquisas Afros, formados na Bahia, em São Paulo e Rio de Janeiro – a exemplo do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (IPEAFRO), já na década 1970. Também, destaca o papel do movimento de mulheres negras, as manifestações culturais afro-brasileiras que emergem neste período e o amplo processo de formação do Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial em 1978 (atualmente MNU).

c) Novos horizontes de sentido como resposta ao genocídio.

Portanto, de sua epistemologia crítica, desconstrutora dos Mitos, tanto quanto da construção e reivindicação dos movimentos e manifestações afro-diaspóricas no Brasil e no mundo, emergem novos horizontes de sentido – expressão que retomamos de Quijano (2007) e que designa os novos imaginários sociais, a recuperação das memórias históricas e saberes frente a descolonização, sintetizados pelo intelectual quilombista na proposição de um novo país, uma nova formação social multirracial e multicultural, que pressupõe um pensamento em ação, um saber crítico e revolucionário que atualize os valores negros e africanos, somados aos valores de outros espaços-tempo, desde que possam contribuir para as necessidades da Revolução Africana. Trata-se, portanto, do delineamento de um projeto civilizatório para além das fronteiras territoriais e epistêmicas do Brasil, a ser protagonizado pelos africanos e seus descendentes na diáspora.

“Devemos nós, africanos e seus descendentes, enfatizar nossa capacidade de agir no projeto deste mundo atual, o de modelar a civilização futura, aberta a todos os eventos e expressões da existência humana, livre de exploradores e explorados, o que resulta na impossibilidade de haver opressores e oprimidos de qualquer raça ou cor epidérmica” (NASCIMENTO, 2016 [1977] p.171 [grifos do autor]).

Porém, ciente da inviabilidade imediata desta revolução popular e democrática, em seu país, o fundador do Teatro Experimental do Negro, dirige-se as autoridades brasileiras através do Colóquio-Festac’77, elaborando um conjunto medidas concretas, segundo os objetivos do evento, que apontaria recomendações a ser implementadas nos países representados. São 17 pontos enfatizados no capítulo XV (conclusão do livro, que equivale as proposições de Abdias ao relatório final do Colóquio-Festac’77), os quais constituem um verdadeiro programa de ações afirmativas, abrangendo a valorização, a reparação sociocultural e a construção de políticas de equidade, que se estendem desde a educação, a habitação e o trabalho, até a preparação da população negra para assumir o exercício de liderança política do seu país e sua inserção nos quadros dirigentes. Sugere inclusive novas relações internacionais, onde propõe a adoção de políticas multilaterais entre o Brasil e os países africanos. A leitura dos pontos muito instigante!

Porém, infelizmente, o reconhecimento das questões propostas, só foi “formalizado” tardiamente e em partes pelo Estado-Brasileiro, após as diversas lutas que confluíram para a postura signatária do país com as resoluções da III Conferência Interacional Contra o Racismo realizada em Durban (2001) na África do Sul. Deste modo, ainda estamos longe da implementação das propostas levantadas neste livro, tanto quanto, de tantas outras suscitadas pelos diversos movimentos e manifestações negras no país, ao passo que as diversas organizações e movimentos que compõem a Coalizão Negra Por Direitos atualizam tais reivindicações e horizontes de sentido, sobretudo no contexto dos necro-efeitos da crise pandêmica que a assola a população negra do país, na medida em que esta se defronta numa formação colonial-patriarcal-racista e capitalista, tão bem elucidada em O Genocídio do Negro Brasileiro.

Descansa em Orum Abdias Nascimento, sempre presente em nosso Ser-pensamento!

@GELEDÉS
Matéria por - Anderson Luiz Machado dos Santos
(*) Professo Afro-Gaúcho, Dr. em Geografia pela Universidade Federal Fluminense.

ABDIAS NASCIMENTO

"Foi um importante ativista da causa negra, poeta, ator, escritor, dramaturgo e crítico brasileiro. Organizou o Congresso Afro-Campineiro em 1938 e fundou o Teatro Experimental do Negro- TEN – ainda em atividade –, que patrocinou a Convenção Nacional do Negro e organizou o 1o Congresso do Negro Brasileiro. Exilado pelos militares na década de 1960, participou da criação do PDT e, em 1981, liderou a fundação da Secretaria do Movimento Negro do PDT. Como parlamentar, apresentou projetos de lei de criminalização do racismo e criação de mecanismos de ação compensatória, idealizando uma sociedade brasileira de fato igualitária."


domingo, 30 de agosto de 2026

Crystal Thomas

Crystal Thomas 
' A música de verdade '

O blues sempre foi um instrumento de cura. Para a cultura afro-americana, a música tem sido a única constante sólida em nossas vidas. Nós nos expressamos naturalmente através da música, seja lutando por liberdade ou celebrando o amor e a vida, a música sempre teve um grande impacto em nossas vidas e desempenhou um papel fundamental na nossa comunicação."

Crystal Thomas usa sua voz como uma influência positiva e um incentivo. Ela gosta de inspirar as pessoas a serem melhores, amarem melhor e viverem melhor. Crystal Thomas é forte, tem um talento nato para o blues e é autêntica. Ela consegue alcançar notas altas e usá-las como quiser. Afinal, ela cresceu ouvindo Muddy Waters, Jimmy Reed e Johnnie Taylor, e também fazia rap. A música visceral está em seu sangue. Ela cantava antes mesmo de falar. Ela solta a voz na igreja, em bares, impressionando o público em Hong Kong, Japão e Europa. 

Essa mulher canta com uma emoção tão crua que te faz sentir feliz por estar vivo – mesmo que a vida seja difícil. Crystal é genuína. Ela pode te contar sobre sua infância em Mansfield, Louisiana, no interior profundo. Ela se lembra de ser a DJ enquanto sua família jogava cartas e de ter começado a tocar trombone na quinta série porque seu irmão tinha um e sua mãe não queria comprar outro instrumento.

Crystal Thomas se considera uma garota do interior. Ela se viu gravando ao vivo e em vídeo com o grande Bobby Rush. As gravações não param de chegar – incluindo um LP lançado nos EUA e no Japão. Ela até gravou um compacto de 45 rotações. Há alguns anos, ela cantava com toda a sua alma no Japão e em Hong Kong à frente do Bloodest Saxophone, uma banda japonesa de metais. E ela tem um show anual no popular festival Eastside Kings, em Austin, que não seria o mesmo sem Crystal Thomas.


Crystal ganhou destaque na cena soul do sul dos Estados Unidos, fazendo turnês com Jeter Jones e apresentando-se com maestria em um dueto com o popular rapper e cantor de soul de Houston, Big Pokey Bear, participando de um de seus álbuns. Em 2017, ela se apresentou em Austin no famoso festival South by Southwest.

São suas habilidades vocais que a colocam em evidência. Não faz muito tempo, era seu trombone. Uma banda com a qual ela trabalhou no início da carreira a pedia para ler a reação do público para que eles soubessem qual música tocar em seguida. Independentemente de como isso aconteça, ela entende de música, está se divertindo muito e seus fãs também. Crystal desenvolveu uma presença de palco descontraída, fruto de sua carreira musical iniciada aos dois anos de idade.

Sua personalidade calorosa e acolhedora é um alívio em comparação com as dezenas de cantoras mimadas e com vozes sobrepostas que chegam às rádios hoje em dia. Crystal é divertida de ouvir e sua música é contagiante.

"Eu sou aquela mulher cantando a plenos pulmões no semáforo vermelho"

O pai de Crystal tocava guitarra, seus avós ouviam Muddy Waters e Jimmy Reed, e sua mãe tinha pilhas de discos para Crystal escolher. Então, a música sempre esteve presente na vida dela. Crystal ganhou uma bolsa de estudos com seu trombone na Jackson State, onde aprendeu a ler e escrever partituras, o que, segundo ela, a ajuda até hoje. Ela teve uma breve passagem pela banda de seu ídolo, Johnny Taylor. Ela tocava trombone na banda dele e ele finalmente a ouviu cantar, mas faleceu cedo demais para ajudá-la.

Seu álbum “Now Dig This” de 2021, lançado pela Dialtone Records, reúne Crystal com uma banda de estrelas, incluindo Lucky Peterson nos teclados, permitindo que ela se entregue ao microfone e cante com toda a sua potência. Lucky já tocou com todos os grandes nomes – Otis Rush, Etta James e Bobby Bland. Johnny Moeller e Jason Moeller contribuem com guitarra e bateria respectivamente – Johnny encontrando tempo entre as turnês com os Thunderbirds e Jason com a credibilidade que vem de acompanhar artistas como os Thunderbirds, Jewel Brown e Little Joe Washington. O respeitado e experiente baixista Chuck Rainey, com seu som encorpado e potente – lembre dele em inúmeras canções de Aretha Franklin, Fats Domino, Barbra Streisand e centenas de outros músicos e artistas. A reação de Chuck após a sessão foi: "Cara, essa gravação incendiou minha alma". Esse viciante álbum apresenta algumas músicas difíceis de interpretar, que vão do blues pesado de Can't You See What You're Doing to Me, de Albert King, ao rock contagiante de I'm a Fool for You Baby. Mas Crystal foi sem problemas para trazer essas joias de volta à vida.

Talvez para se exibir um pouco, Crystal toca trombone no disco. Ela não está brincando quando diz: "Sinto que este mundo e os amantes da música estariam perdidos sem mim".

As canções de Crystal Thomas são arranjos sinceros e cheios de alma que aguçam o apetite por mais. Como um bom gumbo, Crystal Thomas tem todos os ingredientes certos para alimentar sua alma. Nascida na Louisiana, Crystal "Country Girl" Thomas viaja o mundo todo para se apresentar em diversos locais. Ela se conecta facilmente com outras culturas e sua música é universalmente acolhida.

"Estou conseguindo shows. Já passei pela fase de música faminta. Conhecimento, talento e garra me permitem fazer acontecer. Meus discos são de soul ou soul blues. Mas eu sou rapper. Sou cantora. Tudo está aberto agora. Canto principalmente na Louisiana, Texas, Geórgia e Mississippi. Estou pronta."


sábado, 29 de agosto de 2026

Ronnie James Dio


Ronnie James Dio
' O baixinho gigante do rock'n roll '

Dio foi um cantor, compositor e músico estadunidense, mais conhecido por liderar diversas bandas lendárias ao longo dos anos, incluindo Elf, Rainbow, Black Sabbath, Heaven and Hell e sua própria banda, DIO.
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Trajetória e carreira artística.

Embora seus pais fossem de Cortland, Nova York, Ronald James Padavona nasceu em Portsmouth, New Hampshire, onde sua família residiu devido ao serviço de seu pai no Exército dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial. Logo retornaram a Cortland. A carreira musical de Ronnie começou em 1957 como parte da banda Vegas Kings (mais tarde Ronnie and The Rumblers). Em 1967, ele formou a banda Elf, que se tornou uma presença constante como banda de abertura do Deep Purple. 

Em 1975, o guitarrista do Deep Purple, Ritchie Blackmore, fundou a banda Rainbow e convidou Ronnie como vocalista. Durante sua passagem pela banda, foram lançados três álbuns de estúdio que se tornaram lendários. Dio rapidamente se consolidou como um dos vocalistas mais importantes do heavy rock. Em 1979, Dio substituiu Ozzy Osbourne como vocalista do Black Sabbath e participou de três álbuns de estúdio de sucesso. Em 1982, Ronnie deixou o Black Sabbath para formar sua própria banda, Dio, que vendeu mais de 20 milhões de discos em todo o mundo.

Ronnie é considerado um dos maiores e mais influentes artistas de heavy metal de todos os tempos, e é conhecido por popularizar o gesto de mão "Chifres do Metal", usado mundialmente na cultura do metal e do rock. Ronnie disse que adotou o gesto de sua avó italiana, que frequentemente o usava para afastar o mau-olhado (conhecido na Itália como Maloik).


Em 1985, Ronnie organizou o projeto Hear 'n Aid, a resposta do mundo do metal a outras iniciativas de caridade, como o Band Aid e o USA for Africa. O projeto Hear 'n Aid e o álbum beneficente arrecadaram mais de 2 milhões de dólares em um ano para o combate à fome na África.

A carreira de Ronnie abrangeu mais de 50 anos, com mais de 50 milhões de discos vendidos. Durante esse período, ele recebeu inúmeras distinções e prêmios. Foi incluído no Hall da Fama da cidade de Cortland em 2004 e uma rua foi nomeada em sua homenagem, chamada "Dio Way". A revista Classic Rock concedeu a Ronnie o "Prêmio Guru do Metal" em sua cerimônia anual de premiação Roll of Honour em 2006. 

Em 2007, Ronnie foi incluído na Calçada da Fama do Rock de Hollywood, onde suas impressões digitais foram imortalizadas no cimento em frente à Guitar Center na Sunset Boulevard, em Hollywood, Califórnia. Ronnie foi nomeado o "Melhor Vocalista de Metal" no Revolver Golden Gods Awards de 2010 por seu trabalho no álbum The Devil You Know, da banda Heaven and Hell. Ronnie aceitou o prêmio pessoalmente naquela que seria sua última aparição pública, apenas um mês antes de seu falecimento.


Após a banda Heaven and Hell ter que cancelar sua apresentação no Bloodstock Open Air Festival, no Reino Unido, devido à morte de Ronnie, o festival decidiu homenageá-lo nomeando seu palco principal. O Masters of Rock Festival também leva o nome de Ronnie desde 2010.

Em 23 de outubro de 2010, a cidade de Kavarna, na Bulgária, inaugurou uma enorme estátua de bronze de Ronnie no coração do parque central. Construída em bronze e pedra, a estátua serve como ponto de encontro para muitos fãs, que se reúnem no local no aniversário de Ronnie para celebrar sua música e seu legado.

Em 2010, a Câmara Municipal declarou o dia 30 de maio como o “Dia de Ronnie James Dio” em Los Angeles.

Duas semanas após a morte de Ronnie, uma cerimônia pública em sua memória foi realizada no Hall da Liberdade, em Forest Lawn Hollywood Hills, Los Angeles. O salão estava lotado, com muitos outros fãs assistindo à homenagem do lado de fora, em vários telões instalados nas laterais leste e oeste.

Quando a voz de Ronnie foi silenciada em 2010, vítima de câncer gástrico, seus inúmeros fãs ao redor do mundo canalizaram sua dor em milhares de dólares em doações em sua memória. O resultado foi a criação do Fundo de Combate ao Câncer Ronnie James Dio Stand Up and Shout. Até o momento, o fundo arrecadou mais de US$ 2.000.000 e destinou recursos para pesquisas sobre câncer realizadas pela Fundação TJ Martell e pelo MD Anderson Cancer Center em Houston, Texas, onde Ronnie foi tratado durante os últimos seis meses de sua vida. Mais recentemente, o Fundo de Combate ao Câncer Dio destinou verbas para um projeto de pesquisa na Faculdade de Odontologia da UCLA, com o objetivo de desenvolver um teste de saliva inovador e não invasivo para a detecção precoce do câncer, e continuará apoiando organizações comprometidas com a pesquisa e a educação sobre o câncer.

A autobiografia, 2021.
O Dio Cancer Fund continua a organizar eventos de caridade anuais para angariar fundos para a pesquisa do câncer, como um torneio de boliche com celebridades chamado Bowl for Ronnie e o Ride For Ronnie, onde centenas de motociclistas percorrem Los Angeles em prol da caridade até um parque onde milhares de fãs se reúnem para uma tarde de música ao vivo para celebrar o legado de Ronnie.

A autobiografia de Ronnie James Dio se chama: Rainbow in the Dark: A Autobiografia. O vocalista começou a escrever a obra antes de falecer em 2010, porém o escritor musical Mick Wall finalizou o projeto. A viúva e empresária Wendy Dio ajudou com memórias e escreveu o prefácio. O livro conta a infância de Ronnie em Nova York. Mostra o início tocando baixo e a mudança para o microfone. Detalha passagens por bandas famosas como Rainbow, Black Sabbath e a banda solo Dio.

“Não foram apenas suas vozes poderosas que o tornaram Ronnie James Dio – foi seu fervor moral... o que sempre se destacou foi a profunda compaixão de Dio pelas crianças perdidas do rock and roll em sua plateia. Dio nunca fingiu ser uma dessas crianças – ele cantava como um adulto, assegurando-nos que não estávamos sozinhos em nosso sofrimento e que um dia poderíamos até nos orgulhar de superá-lo”.

Eu poderia ter sido um sonhador,

Eu poderia ter sido aquele que voou.

Eu poderia ter sido um sonhador,

Porque os sonhadores nunca morrem.

– Ronnie James Dio


Pensamento: Democracia Socioecológica

Homenagem: José Lutzenberger, RS. 
Uma democracia socioecológica ou o ecossocialismo.

"É o que se impõe diante da responsabilidade pelo futuro comum da Terra e da Humanidade"

Com a crise geral das democracias e face aos ataques do fascismo e da extrema direita à la Donald Trump, estamos em busca de uma democracia enriquecida que atenda às mudanças ecológicas e geopolíticas que estão em curso. Especialmente a monetarização da política e a uberização da vida. Vale sempre o pressuposto básico de qualquer tipo de democracia: o que interessa a todos deve poder ser decidido por todos, seja diretamente, seja por representantes. Estamos em busca de um novo tipo de democracia.

Hoje está se impondo o projeto de uma democracia ecológico-social ou, na formulação de Michael Löwy (Ecossocialismo: Um Projeto de Civilização, 2025) e seu grupo, de um ecossocialismo. Essa compreensão nos obriga a superar um limite interno ao discurso clássico da democracia: o fato de ser ainda antropocêntrica e sociocêntrica, vale dizer, centrada apenas nos cidadãos e na sociedade. Eles são reducionistas, pois o ser humano não é um centro exclusivo, nem mesmo a sociedade, como se todos os demais seres somente ganhassem sentido enquanto ordenados a ele e à sociedade.

Ser humano e sociedade constituem um elo, entre outros, da corrente da vida. Sem as relações com a biosfera, com o meio ambiente e com as precondições físico-químicas, não existem nem subsistem. Elementos tão importantes devem ser incluídos em nossa compreensão de democracia contemporânea na era da conscientização ecológica e planetária segundo a qual natureza, ser humano e sociedade estão indissoluvelmente unidos de sorte que possuem um mesmo destino comum.

A perspectiva ecológico-social ou ecossocialista tem, ademais, o condão de inserir a democracia na lógica geral das coisas. Sabemos hoje pelas ciências da Terra e da vida que a lei básica que continua atuando na constituição do universo e de todos os ecossistemas é a cooperação, a sinergia, a simbiose e a relação de todos com todos em todos os momentos e circunstâncias. Mesmo a sobrevivência do mais apto pela seleção natural de Darwin, em parte válida no reino dos vivos, se inscreve dentro desta lei universal. Por ela se garante a diversidade e se inclui também o mais fraco, que, no jogo das inter-retro-relações, tem chances e direito de estar sobre a Terra.

A singularidade do ser humano consiste no fato de comparecer como ser de socialidade, de cooperação e de convivialidade, como bem viram os chilenos Maturana e Varela. Tal singularidade aparece melhor quando o comparamos com os símios superiores dos quais nos diferenciamos em apenas 1,6% da carga genética. Estes também possuem vida societária. Mas se orientam pela lógica da dominação e da hierarquização. Ao surgir o ser humano, há alguns milhões de anos, ao invés da competitividade e da subjugação, entra a funcionar a cooperação.

Esse 1,6% de ácidos nucléicos e de bases fosfatadas que nos diferenciam funda o humano enquanto humano, como ser de cooperação.

Ora, a social-democracia é o valor e o regime de convivência que melhor se adequa à ordem geral das coisas e da natureza humana cooperativa e societária. Aquilo que vem inscrito em sua natureza é transformado em projeto político-social consciente, fundamento da democracia: a cooperação e a solidariedade sem restrições. Realizar a democracia, da melhor forma que pudermos, significa avançar mais e mais para o reino do especificamente humano. Significa re-ligar-se também mais profundamente ao Todo e à Terra.

Gaia e Pacha Mama

Cosmólogos vêm afirmando com insistência que há de se entender a vida como um momento da história evolutiva do universo, quando a matéria, colocada longe de seu equilíbrio (caos generativo), se complexifica e se auto-organiza. A vida humana é um capítulo da história da vida. Como humanos, consoante o mito antigo do cuidado (que é da essência do humano), viemos do húmus (humus = homo); por isso, somos fundamentalmente Terra, que, em seu evoluir, chegou ao momento de sentir, de pensar, de amar e de venerar. Não vivemos apenas sobre a Terra. Somos a própria Terra que sente, pensa, ama e venera.

Em razão disso, notáveis astrofísicos e biólogos como Lovelock, Margullis, Sathouri, Swimme e Berry, juristas como Zaffaroni e ecologistas como o nosso José Lutzenberger, entre outros, sustentam que a Terra é um superorganismo vivo. Mostra tal equilíbrio em todos os seus elementos físico-químicos que somente um ser vivo pode revelar. Chamam-na de Gaia, nome mitológico dos gregos para sinalizar a Terra como vivente, ou Pacha Mama dos povos originários.

Se assim é, então, a Terra é portadora de subjetividade, de direitos e de relativa autonomia, tanto ela quanto os ecossistemas que a compõem. Há a dignitas Terrae, a dignidade da Terra que reclama respeito e cuidado.

Impõe-se uma ampliação da personalidade jurídica à Terra, às aguas e às florestas. Bem disse o pensador Michel Serres: “A Declaração dos Direitos do Homem teve o mérito de dizer ‘todos os homens têm direitos’ e o defeito de pensar ‘só os homens”. Os indígenas, os escravos e as mulheres tiveram que lutar para serem incluídos em ‘todos os homens”. E, hoje, esta luta inclui a inteira natureza com seus subsistemas, também sujeitos de direitos e, por isso, novos membros da sociedade ampliada.

Pelo fato de termos criado a ameaça de destruição da Terra-Gaia, com o antropoceno, necroceno e, ultimamente, pelo piroceno (queimadas em todo o planeta), não podemos mais excluí-la do novo pacto social planetário, base da sociedade mundial que queremos sócio-democrática ou ecossocialista.

Hobbes, Locke, Rouseau e Kant, em seu contrato social, davam por descontado o futuro da Terra, garantido pelas forças diretivas do universo. Hoje não é mais assim. Sem a Gaia, não há mais base para nenhum tipo de cidadania e de democracia. Se quisermos sobreviver juntos, a democracia tem de ser também biocracia, numa palavra, democracia ecológico-social ou ecossocial, que assume a preservação da Terra, incluindo-a no pacto social.

Foi em razão desta consciência que os movimentos do MST e da agroecologia estão desenvolvendo semelhante compreensão da social-democracia. Aí se trata de uma nova relação interativa do ser humano com a natureza na qual ambos se veem incluídos.

Uma cidade não vive apenas de cidadãos, instituições e serviços sociais. Nela vivem também paisagens, árvores, pássaros, animais, montanhas, pedras, águas, rios, lagos, mares, atmosfera, ar, estrelas no firmamento, o sol e a lua.

Sem tais realidades, morreríamos de solidão, como disse o sábio indígena Seattle, em 1854. São os novos cidadãos com os quais devemos aprender a conviver em harmonia. Faz-se mister uma educação ecológica para que os humanos aprendam a acolher todos os seres como concidadãos, no respeito, na justa relação e na irmandade universal. Eis o surgir da democracia ecológico-social e do ecossocialismo, enriquecimento necessário da democracia clássica em tempos de nova consciência ecológica, dos riscos da IA autônoma e de responsabilidade pelo futuro comum da Terra e da Humanidade.

Matéria:
29 Agosto 2026
REVISTALIBERTA

por: Leonardo Boff
Escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.


Violência Psicológica - Por que esperar a Agressão?


A Lei existe para antecipar a violência!

Por que é preciso ver mulheres acorrentadas e desfiguradas para acreditar na violência?

"Num país que registra uma epidemia de feminicídios, a pior notícia é sempre a próxima"

Há imagens que não abrem margem para dúvida.

Uma mulher acorrentada, amordaçada, mantida durante cinco dias num cativeiro pelo ex-companheiro, em Águas Lindas de Goiás. O vídeo que circulou nas redes sociais mostrava a vítima em estado de choque ao ser encontrada por policiais. O sequestrador, Ailton Rodrigues, foi preso em flagrante.

Poucos dias antes, uma dentista apareceu com o rosto desfigurado pelo marido. Imagens de câmeras de segurança registraram a violência – e, também, que ela pediu por ajuda. Dois seguranças que estavam no local são investigados por não terem interferido nas agressões. O caso aconteceu na zona oeste de São Paulo e o empresário Ivo Vel Kos, de 48 anos, também foi preso em flagrante.

Os dois casos são de uma barbárie que ninguém precisa explicar.

Quando uma mulher aparece acorrentada, ninguém ousa perguntar “se ela entendeu errado”. Quando aparece com o rosto machucado, fica difícil dizer que foi “só” uma briga de casal. Quando há registros que chocam pela brutalidade, a palavra da mulher, finalmente, ganha um certificado de autenticidade: a prova.

Ainda existe um estágio anterior que não é suficientemente violento para nós, como sociedade. O homem que controla o celular da companheira pode ser chamado de “ciumento”. O que decide com quem ela pode sair é, muitas vezes, rotulado como “protetor”. Aquele que ameaça e que humilha pode ter um comportamento… “explosivo”. Até que ele bate. E, quando bate, (quase) todo o mundo enxerga o problema.

A Lei Maria da Penha, que completa 20 anos neste mês de agosto, não exige marcas físicas para reconhecer as agressões. Pelo contrário. É uma lei que reconhece também as violências psicológica, sexual, patrimonial e moral. E a psicológica inclui justamente comportamentos como ameaça, perseguição, chantagem e controle.

O que parece faltar é o reconhecimento da sociedade. Alguns sofrimentos são mais reconhecíveis do que outros, segundo a filósofa estadunidense Judith Butler.

Uma pesquisa recente mostra o tamanho dessa contradição. A violência psicológica aparece como a forma mais prevalente entre as denunciadas no canal Ligue 180, entre janeiro e julho deste ano. Ela responde por 35% num universo de mais de um milhão de atendimentos. Apesar disso, aparece muito pouco nos registros oficiais. Quer dizer: a violência que mais acontece é aquela que mais temos dificuldade de enxergar. E uma das mais graves, porque antecede à violência física.

A vítima. que ficou cinco dias no cativeiro em Águas Lindas de Goiás, Emiliane Tamara Nunes Carvalho, de 24 anos, já tinha procurado ajuda diversas vezes antes. Chegou a registrar mais de dez (!) boletins de ocorrência contra Ailton Rodrigues. Um pedido de medida protetiva feito a partir de denúncias registradas entre dezembro de 2025 e março deste ano foi negado. Segundo o Ministério Público de Goiás, a decisão levou em conta a “incerteza da autoria e ausência de elementos concretos”.

A dentista Giulia Kos, de 27 anos, que pediu socorro em vão enquanto sofria agressões no meio da rua, também já tinha denunciado o marido no passado. Contou ter prestado queixa contra o empresário Ivo Kos por estupro durante o casamento. O caso está sendo investigado.

As duas, corajosamente, foram às redes sociais depois de terem sido brutalmente violentadas. Concederam entrevistas. Expuseram seus agressores.

Decidiram – ou a vida decidiu por elas – que aquelas imagens precisavam circular como forma de denúncia. Uma espécie de motor na busca por justiça e para servir como alerta a outras mulheres.

A banalidade do mal

Essas histórias levantam uma questão particularmente importante para nós, jornalistas. Mesmo quando se pretende denunciar, corremos o risco de reproduzir uma escala perversa. Quanto mais brutal a violência, a mesma imagem que nos faz acreditar que aquele horror é palpável também pode transformar a mulher num objeto da violência que ela mesma sofreu.

Talvez um dos casos mais emblemáticos da nossa história seja o de Eloá Pimentel, que foi assassinada aos 15 anos pelo ex-namorado, em 2008. Em algum momento, a imprensa deixou de noticiar e passou a fazer parte da dinâmica violenta – e transformou tudo num espetáculo. Emissoras chegaram a entrevistar Lindemberg Alves ao vivo, que mantinha a adolescente em cárcere dentro da casa dela.

O que acontece é um processo de dupla violência. É impossível assistir ao resgate de Emiliane, em Águas Lindas de Goiás, com indiferença. As imagens mostram o estado em que ela foi encontrada. É difícil não pensar na dimensão do que aquela jovem viveu. E, poucas horas depois, aquela voz apareceu nas redes sociais, num ato de coragem, para denunciar o que havia sofrido. Um nome e um rosto que davam contornos a uma história.

A advogada Letícia Campos Vale, que atua na defesa de mulheres e vítimas de violência, aprofunda a discussão: “Ela pode sobreviver e passar anos sendo lembrada pela pior imagem da própria vida. O homem que fez aquilo, muitas vezes, não carrega a mesma marca. Por isso, a pergunta não pode ser só ‘ela deixou mostrar?’. Essa imagem ajuda esta mulher? Ajuda a buscar justiça? Ou estamos usando o pior momento da vida dela porque o caso está dando audiência?”.

A imagem de Emiliane está mobilizando a sociedade. De Giulia, também. Indignadas, as pessoas cobram por justiça e que os crimes não passem impune. Sem contar a conscientização: não vou minimizar, de forma alguma, o potencial desse alerta em romper ciclos de violência.

Mas quando o interesse pela manchete passa, quem continuará convivendo com aquela imagem? E, acredite, ele vai passar. O interesse público se desloca para o próximo horror, numa maré incessante de notícias ruins. O choque inicial diminui, outra manchete ocupa a tela do nosso celular, outra tragédia exige nossa atenção.

Ao escrever sobre a banalidade do mal, a filósofa alemã Hannah Arendt investigou como crimes de proporções inimagináveis podiam ser praticados por pessoas aparentemente comuns, dentro de estruturas em que a capacidade de pensamento e julgamento era substituída pela normalização. Não vou comparar a violência doméstica aos crimes que estavam no centro da análise de Arendt. Mas há algo na ideia de banalização que nos ajuda a pensar o que fazemos com as mulheres: a capacidade de nos acostumarmos com aquilo que deveria continuar nos escandalizando.

O jornalismo faz suas escolhas. De título, fotografia, trecho da entrevista. E, agora, numa dinâmica com consequências ainda mais graves do que na época do assassinato de Eloá Pimentel. A imagem não permanece no telejornal ou no programa da tarde. O trecho do vídeo pode ser replicado milhares de vezes.

Num país que registra uma epidemia de feminicídios, a pior notícia é sempre a próxima. E o que acontece com quem ficou dentro daquela imagem?

Antes disso, por que precisamos ver uma mulher acorrentada ou desfigurada para acreditar que ela foi violentada?

Dar credibilidade à palavra da vítima não significa abandonar a apuração jornalística, o contraditório ou a presunção de inocência numa investigação. Significa não exigir que uma mulher seja quase destruída, que chegue ao seu limite, para que, só então, a sua palavra pareça verdadeira.

Essa talvez seja uma das maiores perversidades: exigimos que a mulher sobreviva para que possamos enxergá-la como vítima.

Se só conseguirmos reconhecer a violência quando ela se torna bárbara demais para ser negada, teremos chegado tarde demais outra vez.

Matéria:
29 Agosto 2026
por: Gabriela Varella
Jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero. É apresentadora no ICL Notícias. Também foi apresentadora e colaborou com reportagens no portal UOL, além de produtora e coordenadora de projetos na Rádio Novelo. Antes, esteve na Rádio CBN, O Globo e Revista Época.


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

The Congos


THE CONGOS
' A alma do Congo no coração da Jamaica '

O grupo é famoso por suas vozes marcantes, que unem o falsete de Cedric Myton, o tenor de Ashanti Roy e o barítono de Watty Burnett. Sua mensagem Rastafári nas letras trazem forte conteúdo espiritual, consciência social e pregação rastafári. O som clássico deles foi moldado nos anos 1970 pelo famoso produtor Lee "Scratch" Perry no estúdio Black Ark, misturando batidas profundas, ecos e uma atmosfera mística.

Cedric Myton nasceu na pequena ilha da Jamaica. Desde muito cedo, já sabia o caminho que iria seguir na vida - a música. Aos dezesseis anos de idade gravou a primeira canção com o grupo The Tartans, "Dance All Night" onde chegou ao número um nas paradas da música Jamaicana.

Em 1975 Cedric e Lincoln Thompson formaram o mediático grupo Royal Rasses, o som "Humanity" e o consequente single com o mesmo nome, ainda é relembrado como uma das mais consagradas canções da história da música. Um ano depois formou um dos grupos Roots mais aclamados de todos os tempos - The Congos.

Eram constituídos na formação original por, Cedric Myton, Watty Burnett Lindberg "Preps" Lewis e Roydel Johnson. Em colaboração com o gênio, Lee "Scratch" Perry que saiu em 1977 o LP "Heart Of The Congos", um disco simplesmente brilhante a todos os níveis e um dos discos mais bem conceituados da história da música. Um ano depois, Roydell Johnson deixou o grupo. "Congo Ashanti", segundo disco do grupo, foi promovido extensivamente na Europa pela gravadora CBS (Francesa).

The Congos e Toots & The Maytals surgiram juntos no filme "Image Of Àfrica". Nesse mesmo ano sairia o terceiro registo do grupo, alusivo ao filme. "Face The Music" saiu em 1981, o projeto mais sólido do grupo depois de "Heart Of The Congos", bem harmonizado, solenememte tocado, mais um clássico.

Ao longo da segunda metade da década de oitenta e ainda hoje, este grupo reside e atua regularmente nos Estados Unidos. "Natty Dread Rise Again" pela RAS Records, marcou o regresso do grupo depois de quinze anos afastados dos estúdios. Nesse mesmo ano a gravadora britânica, Blood & Fire, brindou os fãs do The Congos de todo o mundo, com o relançamento em dois compact disc, de "Heart Of The Congos", para além da excelente qualidade de som, ainda lhe acrescentou quatro bônus, "Row Fisherman Row" e "Congoman", versões 12’ single, cedidas pela Island Records e duas versões Dub.

Dois anos depois surgiu "Reggae Revival" para a VP Records, um projeto que marcou uma nova etapa na longa história da banda. Foram (re)lançados em compact disc pelo mesmo selo a maior parte do catálogo do grupo. Logo depois foi lançado o primeiro registro ao vivo com a A-Team band, e este ano "Lion Treasure", uma retrospectiva da exímia longa jornada deste grupo musical jamaicano. Paralelamente, Cedric Myton trabalhou ao longo destes anos com os grupos English Beat, General Public e os bem conhecidos Fine Young Cannibals.


A formação atual do grupo conta hoje com os membros lendários Cedric Myton, Roy Ashanti Johnson, Watty Burnett e Kenroy "Tallash" Fyffe. Eles continuam sendo mundialmente famosos pelo clássico álbum Heart of the Congos (1977), e a banda segue realizando turnês internacionais e participando de festivais de reggae pelo mundo, além de manter suas características harmonias vocais marcantes.

VIVA A FILOSOFIA RASTAFÁRI, E BOA VIBE!

Para acompanhar a agenda de apresentações da banda:


quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Roberto Fonseca


Roberto Fonseca 
' A genialidade de um pianista cubano '

Considerado como um dos melhores pinaistas da atualidade, Roberto Fonseca (nascido em 1975, em Havana) é um pianista de jazz cubano. Desde cedo, Fonseca foi cercado pela música: seu pai era um baterista, a mãe, Mercedes Cortes Alfaro, uma cantora profissional (ela canta no mais recente álbum solo de seu filho, Zamazu), e seus dois mais meio-irmãos, Emilio Valdés (bateria) e Jesús “Chuchito” Valdés Jr. (piano) também são dois jovens músicos de grande prestígio internacional.

Depois de um interesse precoce em bateria, Fonseca resolveu trocar e estudar piano com oito anos, e aos quatorze estava experimentando com os desafiadores estilos jazz-fusion e ritmos cubanos tradicionais; ele apareceu no Festival Jazz Plaza em Havana, em 1991, quando ele tinha apenas quinze anos.

Fonseca estudou na prestigiada escola Cuba Instituto Superior de Arte, onde obteve um mestrado em composição, embora muitas vezes ele diz que ele era um estudante muito ruim. Depois de ganhar seu diploma, ele deixou Cuba para encontrar o seu som.

Seu primeiro álbum, En El Comienzo, que ele gravou com Javier Zalba e o grupo Temperamento, foi premiado como Melhor Álbum de Jazz de Cuba em 1999. Este sucesso encorajou-o a trabalhar em dois álbuns solo: Tiene Que Ver e Elengo, combinando jazz latino, drum and bass, hip-hop, música urbana e os ritmos afro-cubanos.

Em 2001, Fonseca foi ao Japão gravar No Limit: Afro Cuban Jazz. Também excursionou com o Buena Vista Social Club no mesmo ano e trabalhou com Rubén González, Ibrahim Ferrer, Cachaito, Guajiro Mirabal e Manuel Galbán. A turnê do Buena Vista Social Club percorreu o mundo, com mais de 400 concertos, promovendo os discos de Ibrahim Ferrer ao lado de músicos como Cachaíto López, Manuel Guajiro Mirabal e Manuel Galbán, entre outros, e apresentando-se em locais como a Alte Oper de Frankfurt, o Palais des Congrès (Paris), o Albert Hall (Londres), o Beacon Theatre (Nova Iorque) e a Ópera de Sydney (Austrália).

Esse período de trabalho intenso, em turnê pelo mundo, levou Fonseca a perceber que sua música estava pronta para a criação de um projeto próprio. Ele mergulhou fundo na composição de cada uma das canções que formam Zamazu, resultado da integração de todas as suas influências: música afro-cubana, jazz, música clássica e música tradicional cubana.

Com seu álbum de 2009, Akokan, Fonseca quis trazer a magia, a força e a improvisação de um show ao vivo para o estúdio. Com uma formação de quarteto e acompanhado por sua banda, com a qual tocava há 12 anos, Fonseca, como produtor do disco, incentivou a criatividade e a química entre os músicos. Há também duas colaborações com artistas que Fonseca admira, artistas com estilos bem diferentes: Mayra Andrade, a cantora cabo-verdiana que escreveu a letra e canta em "Siete Potencias", e Raul Midón, o guitarrista americano, que escreveu "Everyone Deserves A Second Chance". Nesta faixa, Fonseca fez os arranjos e Midón o acompanhou no violão.

Em 2013, o sétimo álbum de estúdio de Fonseca, Yo, foi indicado ao Grammy. O álbum, que explorou as raízes africanas da música cubana, apresenta colaborações com músicos africanos como Fatoumata Diawara.


Para o nono álbum de estúdio de Fonseca, intitulado Yeshun, Fonseca inspirou-se nos nomes de duas divindades aquáticas de religiões de origem iorubá. Yeshun, nome criado pelo próprio Fonseca, é uma combinação de Yemoja, a deusa dos mares, e Oshun, a deusa dos rios. Através do título do seu álbum, que conta com colaborações de outros artistas cubanos como Danay Suárez, Fonseca quis comparar a vitalidade e a fluidez da água com as da música. 

Em 2010 e 2016, Fonseca foi o diretor musical da banda de abertura da turnê de Omara Portuondo pelos EUA. O álbum de Fonseca de 2010, Roberto Fonseca Live in Marciac, inclui um DVD bônus com imagens do show do festival de 2009. Fonseca costuma visitar e fazer apresentações espontâneas no La Zorra Y el Cuervo Jazz Club em Havana.

O aclamado pianista cubano divide seu tempo entre apresentações globais — frequentemente em turnê com o violoncelista Vincent Segal — e a direção do Festival Jazz Plaza de Havana. Seu trabalho mais recente mistura jazz latino, ritmos afro-cubanos tradicionais e sonoridades urbanas, destacando álbuns como La Gran Diversión.