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sábado, 29 de agosto de 2026

Violência Psicológica - Por que esperar a Agressão?


A Lei existe para antecipar a violência!

Por que é preciso ver mulheres acorrentadas e desfiguradas para acreditar na violência?

"Num país que registra uma epidemia de feminicídios, a pior notícia é sempre a próxima"

Há imagens que não abrem margem para dúvida.

Uma mulher acorrentada, amordaçada, mantida durante cinco dias num cativeiro pelo ex-companheiro, em Águas Lindas de Goiás. O vídeo que circulou nas redes sociais mostrava a vítima em estado de choque ao ser encontrada por policiais. O sequestrador, Ailton Rodrigues, foi preso em flagrante.

Poucos dias antes, uma dentista apareceu com o rosto desfigurado pelo marido. Imagens de câmeras de segurança registraram a violência – e, também, que ela pediu por ajuda. Dois seguranças que estavam no local são investigados por não terem interferido nas agressões. O caso aconteceu na zona oeste de São Paulo e o empresário Ivo Vel Kos, de 48 anos, também foi preso em flagrante.

Os dois casos são de uma barbárie que ninguém precisa explicar.

Quando uma mulher aparece acorrentada, ninguém ousa perguntar “se ela entendeu errado”. Quando aparece com o rosto machucado, fica difícil dizer que foi “só” uma briga de casal. Quando há registros que chocam pela brutalidade, a palavra da mulher, finalmente, ganha um certificado de autenticidade: a prova.

Ainda existe um estágio anterior que não é suficientemente violento para nós, como sociedade. O homem que controla o celular da companheira pode ser chamado de “ciumento”. O que decide com quem ela pode sair é, muitas vezes, rotulado como “protetor”. Aquele que ameaça e que humilha pode ter um comportamento… “explosivo”. Até que ele bate. E, quando bate, (quase) todo o mundo enxerga o problema.

A Lei Maria da Penha, que completa 20 anos neste mês de agosto, não exige marcas físicas para reconhecer as agressões. Pelo contrário. É uma lei que reconhece também as violências psicológica, sexual, patrimonial e moral. E a psicológica inclui justamente comportamentos como ameaça, perseguição, chantagem e controle.

O que parece faltar é o reconhecimento da sociedade. Alguns sofrimentos são mais reconhecíveis do que outros, segundo a filósofa estadunidense Judith Butler.

Uma pesquisa recente mostra o tamanho dessa contradição. A violência psicológica aparece como a forma mais prevalente entre as denunciadas no canal Ligue 180, entre janeiro e julho deste ano. Ela responde por 35% num universo de mais de um milhão de atendimentos. Apesar disso, aparece muito pouco nos registros oficiais. Quer dizer: a violência que mais acontece é aquela que mais temos dificuldade de enxergar. E uma das mais graves, porque antecede à violência física.

A vítima. que ficou cinco dias no cativeiro em Águas Lindas de Goiás, Emiliane Tamara Nunes Carvalho, de 24 anos, já tinha procurado ajuda diversas vezes antes. Chegou a registrar mais de dez (!) boletins de ocorrência contra Ailton Rodrigues. Um pedido de medida protetiva feito a partir de denúncias registradas entre dezembro de 2025 e março deste ano foi negado. Segundo o Ministério Público de Goiás, a decisão levou em conta a “incerteza da autoria e ausência de elementos concretos”.

A dentista Giulia Kos, de 27 anos, que pediu socorro em vão enquanto sofria agressões no meio da rua, também já tinha denunciado o marido no passado. Contou ter prestado queixa contra o empresário Ivo Kos por estupro durante o casamento. O caso está sendo investigado.

As duas, corajosamente, foram às redes sociais depois de terem sido brutalmente violentadas. Concederam entrevistas. Expuseram seus agressores.

Decidiram – ou a vida decidiu por elas – que aquelas imagens precisavam circular como forma de denúncia. Uma espécie de motor na busca por justiça e para servir como alerta a outras mulheres.

A banalidade do mal

Essas histórias levantam uma questão particularmente importante para nós, jornalistas. Mesmo quando se pretende denunciar, corremos o risco de reproduzir uma escala perversa. Quanto mais brutal a violência, a mesma imagem que nos faz acreditar que aquele horror é palpável também pode transformar a mulher num objeto da violência que ela mesma sofreu.

Talvez um dos casos mais emblemáticos da nossa história seja o de Eloá Pimentel, que foi assassinada aos 15 anos pelo ex-namorado, em 2008. Em algum momento, a imprensa deixou de noticiar e passou a fazer parte da dinâmica violenta – e transformou tudo num espetáculo. Emissoras chegaram a entrevistar Lindemberg Alves ao vivo, que mantinha a adolescente em cárcere dentro da casa dela.

O que acontece é um processo de dupla violência. É impossível assistir ao resgate de Emiliane, em Águas Lindas de Goiás, com indiferença. As imagens mostram o estado em que ela foi encontrada. É difícil não pensar na dimensão do que aquela jovem viveu. E, poucas horas depois, aquela voz apareceu nas redes sociais, num ato de coragem, para denunciar o que havia sofrido. Um nome e um rosto que davam contornos a uma história.

A advogada Letícia Campos Vale, que atua na defesa de mulheres e vítimas de violência, aprofunda a discussão: “Ela pode sobreviver e passar anos sendo lembrada pela pior imagem da própria vida. O homem que fez aquilo, muitas vezes, não carrega a mesma marca. Por isso, a pergunta não pode ser só ‘ela deixou mostrar?’. Essa imagem ajuda esta mulher? Ajuda a buscar justiça? Ou estamos usando o pior momento da vida dela porque o caso está dando audiência?”.

A imagem de Emiliane está mobilizando a sociedade. De Giulia, também. Indignadas, as pessoas cobram por justiça e que os crimes não passem impune. Sem contar a conscientização: não vou minimizar, de forma alguma, o potencial desse alerta em romper ciclos de violência.

Mas quando o interesse pela manchete passa, quem continuará convivendo com aquela imagem? E, acredite, ele vai passar. O interesse público se desloca para o próximo horror, numa maré incessante de notícias ruins. O choque inicial diminui, outra manchete ocupa a tela do nosso celular, outra tragédia exige nossa atenção.

Ao escrever sobre a banalidade do mal, a filósofa alemã Hannah Arendt investigou como crimes de proporções inimagináveis podiam ser praticados por pessoas aparentemente comuns, dentro de estruturas em que a capacidade de pensamento e julgamento era substituída pela normalização. Não vou comparar a violência doméstica aos crimes que estavam no centro da análise de Arendt. Mas há algo na ideia de banalização que nos ajuda a pensar o que fazemos com as mulheres: a capacidade de nos acostumarmos com aquilo que deveria continuar nos escandalizando.

O jornalismo faz suas escolhas. De título, fotografia, trecho da entrevista. E, agora, numa dinâmica com consequências ainda mais graves do que na época do assassinato de Eloá Pimentel. A imagem não permanece no telejornal ou no programa da tarde. O trecho do vídeo pode ser replicado milhares de vezes.

Num país que registra uma epidemia de feminicídios, a pior notícia é sempre a próxima. E o que acontece com quem ficou dentro daquela imagem?

Antes disso, por que precisamos ver uma mulher acorrentada ou desfigurada para acreditar que ela foi violentada?

Dar credibilidade à palavra da vítima não significa abandonar a apuração jornalística, o contraditório ou a presunção de inocência numa investigação. Significa não exigir que uma mulher seja quase destruída, que chegue ao seu limite, para que, só então, a sua palavra pareça verdadeira.

Essa talvez seja uma das maiores perversidades: exigimos que a mulher sobreviva para que possamos enxergá-la como vítima.

Se só conseguirmos reconhecer a violência quando ela se torna bárbara demais para ser negada, teremos chegado tarde demais outra vez.

Matéria:
29 Agosto 2026
por: Gabriela Varella
Jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero. É apresentadora no ICL Notícias. Também foi apresentadora e colaborou com reportagens no portal UOL, além de produtora e coordenadora de projetos na Rádio Novelo. Antes, esteve na Rádio CBN, O Globo e Revista Época.