Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Hollywood Vampires


HOLLYWOOD VAMPIRES
O clube da bebedeira: amizade, risadas e rock!

Acho que Charles Dickens expressou isso da melhor forma. E embora a evocação de seu nome pareça uma estranha associação com uma irmandade boêmia que continuou a festejar mais de um século depois, pode-se dizer que ele tinha os vampiros de Hollywood firmemente na mira de seus versos imortais. Pois, em uma era de excessos em todos os níveis, era de fato "O melhor dos tempos, era o pior dos tempos, era a era da sabedoria (bem, talvez não essa parte), era a era da insensatez".

Não tenho certeza se é importante citar nomes; eram obviamente homens de talentos variados e com uma união coletiva que se baseava na segurança da união, além de uma predileção por evocar os fantasmas dos hedonistas do passado. Embora seja presunçoso compará-los aos clássicos literários da decadência masculina (estou falando de Rimbaud e Verlaine, e Shelley e Byron), eles são, na verdade, aqueles delinquentes da Londres dos anos 60 (Burton, O'Toole, Ollie Reed e Richard Harris) que têm maior probabilidade de se apresentarem como a quintessência teatral dos vampiros de Hollywood.

A zona de conforto de um clube de bebedeira comunitário é tão antiga quanto o tempo, e de seu pedestal elevado, agora gravado em uma placa de bronze em algum lugar nas entranhas da Sunset Strip, esse grupo heterogêneo de roqueiros americanos e ingleses expatriados se reunia todas as noites em uma série sempre rotativa de cadeiras musicais de celebridades.

Você pode balançar a cabeça e imaginar que não havia muito o que dizer, e em retrospectiva, talvez você tenha razão. Sim, os participantes eram excêntricos e extremamente bem-sucedidos, mas, além das quantidades generosas de álcool consumidas, por que tanto alarde? Qual o problema? Bem, é exatamente isso. Ninguém ali se considerava importante ou buscava causar alvoroço. Bajuladores e acólitos não faziam parte dos critérios de admissão. Era um grupo despretensioso que gravitava em direção a uma zona de conforto onde nada era esperado deles. Quando os Vampiros estavam presentes, o jogo se igualava.

Não estou aqui para defender seus vícios. Exageros de qualquer tipo não contribuem para uma mente e um corpo saudáveis. E embora, à margem da vida desses envolvidos, esposas possam ter ido e vindo, escolhas de carreira possam ter sido consideradas, no mínimo, duvidosas, e decepções amorosas, em alguns casos, tenham assombrado um corredor escuro da minha memória, admito, falha, no covil dos Vampiros de Hollywood, reinavam apenas alegria e risos.

Não tenho certeza absoluta do que constituía mau comportamento naquela época, mas naquele covil ele existia numa bolha, uma cúpula hermeticamente fechada de diversão. Talvez não fosse a mesa redonda do Algonquin, mas aqueles eram caras espirituosos e inteligentes que frequentemente ficavam barulhentos e desordeiros, mas podem ter certeza de que não houve espectadores ou animais feridos durante a produção dos Hollywood Vampires.

Se for preciso recorrer a uma anedota para desvencilhar a imagem deles dos clubes enfumaçados e bares escuros, reflita, incrédulo, sobre a decisão que tomaram de tentar um esporte coletivo. O que levou o Bat Pack a imaginar que conseguiriam organizar um time de softball é um mistério para mim. As lembranças são vagas, mas me lembro que as camisetas eram incríveis e, no fim das contas, inúteis, porque nosso time era dividido entre aqueles que (A) não estariam acordados em nenhum horário de jogo; (B) se estivessem acordados, seu nível de toxicidade certamente prejudicaria o desempenho deles; e (C) tenho quase certeza de que vários membros nem sabiam o que era softball!

Tudo que é bom chega ao fim, e enquanto alguns conseguiram subir na vida e escapar de um inferno alcoólico, outros pagaram o preço e sucumbiram. Há uma tristeza profunda que, a longo prazo, revela muito sobre o talento desperdiçado e as vidas ceifadas precocemente, mas em vez de nos concentrarmos nos aspectos negativos, não seria melhor lembrar o que os mortos nos deram e o que os vivos ainda podem contribuir?

Talvez tenha sido "a era da sabedoria", porque, no fim das contas, foi isso que os sobreviventes herdaram.

Bernie Taupin,
Santa Ynez, Califórnia, julho de 2015

I Got A Line On You

O Hollywood Vampires lançou o vídeo oficial de “I Got A Line On You”, registrado durante sua apresentação no Montreux Jazz Festival, em 2018. A gravação faz parte do álbum ao vivo At Montreux Jazz Festival, que reúne a performance da banda em um dos festivais mais tradicionais da música internacional.


Conhecido pela presença de palco teatral, pela energia explosiva e pelas homenagens a artistas que marcaram a história do rock, o grupo formado por Alice Cooper, Joe Perry, Johnny Depp, Tommy Henriksen, Robert DeLeo, Matt Sorum e Bruce Witkin, apresenta no registro uma combinação de clássicos, irreverência e celebração do legado musical de gerações anteriores.

O nome Hollywood Vampires é uma referência a um círculo de músicos que se reunia em Hollywood, unidos pela amizade, pela diversão e pela paixão pelo rock. A formação atual mantém esse espírito, equilibrando a atitude despojada do gênero com tributos a artistas que influenciaram a trajetória da música.

A banda lançou seu álbum de estreia autointitulado em 2015, reunindo participações especiais e versões de clássicos do rock. Em 2019, com Rise, o grupo ampliou seu repertório com composições próprias.

Com apresentações marcadas pela intensidade e por homenagens a nomes fundamentais do gênero, o Hollywood Vampires conquistou público internacional e mantém viva a tradição do 
rock ‘n’ roll !!


quinta-feira, 15 de outubro de 2026

70's (de)Novo: Terreno Baldio


TERRENO BALDIO
breve, mas intenso!

Banda que nos traz as inspirações e influências de bandas inglesas do rock progressivo como Genesis, Van Der Graaf Generator e Gentle Giant. Banda de extrema personalidade e sonoridade própria trazendo as características da música brasileira.
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Breve mas intenso...

Em 1973, João Carlos "Fusa" Kurk (vocais e flauta), Roberto Lazzarini (teclados) e Joaquim Correia (bateria), ex-companheiros da banda de baile Islanders, convidam Mozart Mello (guitarras) e João Ascenção (baixo) para formarem o Terreno Baldio. 

O trio conheceu Mello e Ascenção durante uma turnê e gravações para o álbum do cantor e compositor, Pete Dunaway. Todos vinham de experiências com o rock progressivo, e assim surgiu a ideia de montar um grupo voltado para o estilo.

A primeira apresentação ocorreu em 1974, num palco metálico montado no Parque do Ibirapuera, especialmente para o evento "Festival do Cometa", que reuniu várias bandas de rock da época. O nome da banda veio de uma lenda de um ser místico chamado Aqueloo, que limpa o terreno dos rios e mares durante as noites com rituais de danças mágicas e que todos nós teríamos nossos próprios terrenos baldios, local de auto depuração.

Em 1975, o grupo entrou em estúdio para gravar o álbum de estreia, Terreno Baldio, lançado pelo selo Pirata Gravações Musicais Ltda., com prensagem de apenas 3 mil unidades. A produção ficou a cargo de Cesare Benvenuti, um nome muito ligado ao repertório internacional para gravadoras e rádios nacionais. 
A arte da capa foi feita pelo artista Beny Tchaicovsky, traduzindo toda a essência e loucura do disco. O álbum se tornaria lendário, uma referência no estilo prog-rock. 

Tomando influências de Camel e Genesis no lado melódico, de Gentle Giant no uso de contrapontos estilosos e até o jazz-fusion num viés mais jazzístico, o Terreno Baldio criou algo diferenciado intimamente relacionado às raízes do nosso folclore. Havia a típica exibição de virtuosismo técnico, e as ideias musicais eram inteligentes e criativas, em arranjos sofisticados e complexos, toques sonhadores, grande intensidade, sem permitir que as influências transformem-se em meras imitação.

A banda realmente tinha uma qualidade técnica e sonora à cima da média, e o resultado do álbum foi excelente. Músicas tecnicamente desafiadoras, ritmos inquietos, vocais poéticos e letras que alternavam reflexões conceituais sobre um pássaro azul e um homem em busca de algo na vida, onde ambos encontravam um terreno baldio ao final - claro que todos estes elementos poéticos remetiam à falta de liberdade e à oposição ao regime militar que assombrava a arte/cultura e os artistas brasileiros. Um trabalho imprevisível, eclético, com elementos bem peculiares, direções engenhosas e de alta qualidade.

Ainda em 75, a banda participou do Festival Banana Progressiva, ocorrido no Teatro da FGV, em São Paulo. O evento apresentou parte do que havia de Prog-Rock na música brasileira como os grupos Vímana, A Bolha, Som Nosso de Cada Dia e A Barca do Sol entremeados de outros grupos instrumentais e de vanguarda como Hermeto Paschoal e Jazco, e inclusive contando com a presença de Erasmo Carlos & Cia. Paulista de Rock. 

O ecletismo sonoro da banda funde elementos eruditos aos jazzísticos e a ritmos e harmonias extraídos da música popular e regionais brasileira; tais como o Xaxado e o Baião, incluindo instrumentos de percussão típicos do nosso folclore. Os elementos poéticos remetem-se a temas daquele período e citam a liberdade, em oposição à ditadura, a solidão e o meio ambiente citando a poluição em alusão à vida em grandes cidades, como São Paulo. 

No próximo registro, Além das Lendas Brasileiras - 1978, o tema conceitual do álbum foi encomendado pela gravadora (Continental/Warner) ao fechar contrato com o grupo. Naquele momento, Ascenção já havia sido substituído po Rodolfo Braga (ex-Joelho de Porco) no contrabaixo (início de 76). O novo repertório incluiu, além de temas do folclore nacional, a canção Passaredo, de Francis Hime e Chico Buarque, num arranjo original - temas que ficavam cada vez mais vinculados à preservação da natureza. Ao final de 1979, o grupo dissolve-se em função do declínio do progressivo junto às mídias e em função de um novo panorâma que se delineava junto ao universo pop.


Em 1993, o grupo reuniria-se parcialmente (Kurk, Lazzarini, Mello) - incluindo Renato Muniz no baixo e Ricardo Brasa na bateria - para um novo registro do álbum de 76, versão em inglês junto ao selo Progressive Rock Worldwide, visando o mercado europeu. O álbum inclui faixas extras e constutiu-se, portanto, no terceiro trabalho a ser gravado. Logo em seguida, a gravadora Rock Synphony, sediada em Niteroi, após longa pesquisa e sofisticada produção, relança o primeiro trabalho em versão cd, remasterizado na Itália pelo seu produtor original - Cesare Benvenuti. 

No corrente ano de 2008, o grupo reuniu-se novamente para participar da VIrada Cultural, em São Paulo. Apresentou-se na Praça da República com a seguinte formação: Mozart Mello (guitarra), Lazzarini (teclados), Kurk (vocal), Cassio Poleto (violino) Renato Muniz (baixo) e Edson Guilard (bateria) - basicacemente, executou o repertório do primeiro LP - destacando-se “Este é o Lugar” e “Grite”. Com novas apresentações marcadas, essa nova formação seguiu carreira lastreada nos trabalhos da década de 70, de forma esporádica e sazonal.

A Banda ficou em 1° lugar em Melhor Relançamento, do site Rock Progressivo Brasil.
 
Uma banda histórica !!
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Romance: O Que Podemos Saber (Ian McEwan)


O Que Podemos Saber

Qual futuro prever a partir dos escombros do presente?

Autor: IAN MCEWAN
Editora: ‎Companhia das Letras
Data da publicação: 12 maio 2026
Edição: ‎1ª

Em 2119, no que restou do mundo após uma catástrofe climática, um professor de literatura parte em busca de um poema perdido de 2014. Sua obsessão não é compreendida pelos jovens: qual é a importância da literatura numa terra devastada? É um questionamento que o mestre britânico Ian McEwan nos provoca em um romance de ideias ousadas.

Como a história da literatura é escrita? Em 2014, em um jantar de intelectuais, um poema supostamente brilhante é lido por Francis Blundy em homenagem à sua esposa. No entanto, nenhuma cópia do texto é encontrada, apesar de tudo no século xxi ser registrado digitalmente, de e-mails a mensagens instantâneas privadas ― um vasto material que apenas cem anos depois poderá ser acessado.

Em 2119, em um mundo alagado e em vias de reconstrução sob um novo modelo, o professor Thomas Metcalfe segue obcecado por encontrar o poema. A jornada de Metcalfe nos leva a reconstruir a vida antes da tragédia global até a descoberta de segredos inconfessáveis. O deslocamento temporal de ficção científica encenado por McEwan, mesclado ao seu estilo realista, perturba pela coragem e o arrojo de suas ideias. Afinal, o que pode a literatura e as artes diante do apocalipse iminente?
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Romance futurista de Ian McEwan projeta a distopia como realidade no século 22

( Reflexão: Adriana Ferreira Silva )

Estamos em 2119. Após décadas de alterações no clima, o nível do mar subiu, reduzindo países como o Reino Unido a ilhotas, enquanto cidades como Nova York, Amsterdã e Londres estão completamente submersas.

Com o colapso da União Europeia, nações como a Alemanha foram anexadas à Rússia Maior. Isolado e sob o comando de milícias, os Estados Unidos se tornaram um dos lugares do planeta a se evitar. No continente africano, a Nigéria se consolidou como superpotência global, tendo a naira utilizada como principal moeda nas negociações internacionais.

Devido a guerras, catástrofes naturais e pandemias, de cerca de 8 bilhões em 2026, a população mundial está reduzida à metade. Espalhadas por ilhas e nas terras altas que restaram após a Grande Inundação, as pessoas se deslocam de barco, bicicleta e a pé. Sem as imensas extensões de terra dedicadas à agricultura e à criação de animais para o abate, a alimentação foi substituída por bolos de proteínas sintéticas. Produtos como café, chocolate e bebidas alcoólicas são raridades caríssimas para poucos.

O mundo imaginado pelo autor britânico Ian McEwan em O Que Podemos Saber (Cia. das Letras) ensejou uma série de discussões sobre a sociedade contemporânea desde seu lançamento no primeiro semestre. Um dos livros mais elogiados deste ano, o romance futurista tem como protagonista o professor e crítico literário Tom Metcalfe, cujo foco de estudos é a produção literária dos anos 1990/2000, em especial a criação do poeta Francis Blundy, cuja obra-prima, um poema inspirado em sua mulher, Vivien, está desaparecida há décadas.

Em sua investigação, Metcalfe explora mensagens instantâneas de texto, e-mails, reminiscências de perfis de redes sociais há muito desativadas, que revelam um modo de vida marcado pela abundância e o desperdício. Um jeito de existir incompreensível para seus jovens estudantes de literatura, a quem o mestre tenta sensibilizar para as qualidades e fraquezas de seus antepassados.

“Nesse estágio, os alunos ainda não estão convencidos. Não conseguem acreditar que as pessoas da era pré-Inundação, que viveram há apenas um século, eram parecidas com eles. Aquela gente antiga compunha-se de imbecis ignorantes, miseráveis e destrutivos. Como mencionou um dos alunos mais inteligentes, sem dúvida, eles poderiam ter feito algo mais do que expandir suas economias e guerrear.”

As mesmas proposições que nos levam a tentar compreender nosso passado mais recente pautam as reflexões de McEwan sobre como imaginar um futuro a partir dos escombros do presente.

Sob essa perspectiva, tenho pensado sobre como as próximas gerações irão se referir a nós, desde a divulgação dos resultados do primeiro turno das eleições presidenciais no último domingo. Na impossibilidade de evitar as notícias ou ceder à paralisia e à depressão, a arte é alento, mas também alerta.

Estirpe das servas.

Para quem, como eu, nasceu na década de 1970, os anos 2000 pareciam ser a materialização da utopia. A internet encurtou distâncias, expandiu fronteiras, promoveu acessos. As democracias vingavam. No Brasil, em especial, a vida prometia ser cada vez melhor. Mas, em menos de duas décadas, a elite capitalista deixou bem claro a quem serve todas as supostas facilidades da nova era: única e exclusivamente a ela própria.

A distopia se impôs como realidade. Não à toa, a obra que mais inspira comparações com a ascensão da extrema direita ao redor do mundo, O Conto da Aia (Ed. Rocco), de Margaret Atwood, baseia-se em extensa pesquisa da best-seller canadense sobre regimes totalitários (o livro inspirou uma série para a televisão lançada em 2017).

Para quem não leu ou assistiu à série, no romance, uma junta autoritária chega ao poder dos Estados Unidos, que passam a se chamar Gilead. Dividida em castas, a sociedade funciona sob estritas regras religiosas e patriarcais, na qual mulheres – mesmo as de classes dominantes – têm seus direitos cassados e são submetidas a todo tipo de violência, do estupro ao trabalho forçado e à mutilação como forma de castigo.

As aias do título integram a estirpe das servas, destinadas a procriar. Submetidas a estupros diários, são separadas das crianças assim que dão à luz. Exatamente o mesmo que ocorria às africanas escravizadas. Ou o que ocorre hoje às afegãs. E quem sabe pode vir a ocorrer novamente às brasileiras pobres.

Caso Ian McEwan tomasse o Brasil de 2026 como ponto de partida para pensar o século 22, poderia incluir a total extinção dos povos indígenas, cujas terras serão transformadas em pastos e plantações, bem como a floresta e outras áreas de proteção ambiental. Considerado um rio morto, no Amazonas só restarão as estruturas utilizadas na exploração de petróleo, lixo abandonado por empresas estadunidenses.

Ocupado por cassinos e resorts, o litoral brasileiro será dividido entre facções milicianas, conhecidas por promover festas de arromba, onde drogas sintéticas serão consumidas por “novinhas” e pela fina-flor da elite. Na Baía da Guanabara, uma base do Exército estadunidense terá canhões apontados para o que restou dos morros. Pobres e pretos que sobreviverem vão lotar gigantescos complexos penitenciários, geridos por conglomerados religiosos trilionários.

Parafraseando McEwan, tudo isso, porque aquela gente antiga, composta de uma maioria de imbecis ignorantes, miseráveis e destrutivos preferiu ignorar o fato de que estava escolhendo um homem acusado por diversas falcatruas para governar o país. Sem dúvida, eles poderiam ter feito algo melhor. Ainda dá tempo.

@REVISTA_LIBERTA

Matéria: 10 out 2026
Adriana Ferreira Silva é jornalista, escritora e curadora, com enfoque em temáticas interseccionais de gênero e raciais. Coautora do livro "Democracia Para Quem? – Ensaios de Resistência" (ed. Boitempo), colabora com veículos como o canal ICL Notícias, jornal Nexo e as revistas Liberta, Numéro Brasil e Quatro Cinco Um. Como moderadora, atuou em eventos nacionais e internacionais como a Commission on the Status of Women (ONU/NYC). É curadora de eventos culturais e de jornalismo como a série "Conversas sobre branquitude", o edital Rumos Itaú Cultural 2023-2024 e a Jornada Galápagos de Jornalismo. Participou de coberturas como a dos atentados de 11 de Setembro em Nova York (2001), foi correspondente em Paris, trabalhou nas redações de Marie Claire, Vogue, Veja SP, Folha de S. Paulo e como colunista da rádio CBN.

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Fim da Espécie ??


Uma Leitura Filosofante da Crise Atual

Estamos sob a energia destrutiva do caos, mas nele está germinando uma nova ordem.

Estão se fazendo as mais variadas análises das eleições brasileiras com a ascensão surpreendente da extrema direita, geralmente com categorias de uma sociologia integral. Elas são necessárias. Entretanto, a gravidade da crise brasileira, que é também planetária, é de tal envergadura que nos faltam categorias adequadas para entendê-la. Estimo que precisamos de uma ótica filosofante, pois se trata de ir às raízes para encontrar alguma luz esperançadora.

Parto da percepção generalizada de que o mundo assim como está não pode continuar. Há demasiadas e graves ameaças ao futuro da vida. A continuar, advertia Zygmunt Bauman, “vamos engrossar o cortejo dos que estão rumando na direção da vala comum”. Já antes, em 1930, escreveu Freud O Mal Estar da Cultura, concluindo, na última página, com esta frase sombria: ”Agora os homens avançaram tanto no domínio das forças da natureza que, com sua ajuda, será fácil exterminar uns aos outro até o último indivíduo” (Edição Vozes, 2026, p.129). Atualmente, com o arsenal destrutivo existente, acrescido pela IA autônoma, pode se tornar uma realidade. Há, pois, um mal estar coletivo no mundo, que encontra na ascensão trepidante do fascismo e da extrema direita no Brasil, especialmente nos EUA e alhures, sua inegável comprovação.

De minha parte, diria, como hipótese, que esta atmosfera inimiga da vida e da convivência fraterna entre os humanos e com a natureza deriva de uma radical decepção, que degenerou numa profunda depressão.

A decepção residiria no fracasso de todas as promessas feitas pelas grandes narrativas nos últimos séculos: o iluminismo, o capitalismo, o socialismo, as democracias, as tecnociências da comunicação (internet, Twitter, Facebook etc.) e a IA. As promessas não foram cumpridas.

A decepção generalizada redundou numa grande depressão coletiva: uma onda terrível de ódio, de raiva, de fake news e de violência está cobrindo o planeta e, em particular, o Brasil. A depressão nos rouba a alegria de viver.

Crises sempre houve e haverá em todas as culturas. A nossa é singular, por ser planetária. Haverá alguma luz na imensa obra de 12 tomos do historiador inglês Arnold Toynbee, A Study of History? Nela, ele mostra como as culturas surgem, se desenvolvem, chegam a seu ápice e morrem, substituídas por outras.

Maneja duas categorias básicas: desafio (challange) e resposta (response).Quando o desafio é de pouca monta, a civilização responde a ela e floresce. Quando o desafio é maior do que a sua capacidade de resposta, a civilização entra em crise, pode prolongar sua agonia, mas, no fim, desaparece. Essa é uma exposição simplificada de uma obra complexa e extremamente erudita. Talvez seu limite consista em não ter considerado a luta de classes, que, queiramos ou não, sempre ocorre em sociedades complexas. Agora, estamos sob a regência da incapacidade de resposta, pois o desafio ultrapassa esta nossa capacidade . Irrompe, então, a depressão.

Novo rumo, nova esperança.

Há alguma saída para esta enroscada? Ou chegou a nossa vez de encerrarmos o nosso ciclo dentro da cosmogênese e vamos desparecer? É notório que todos os seres que, depois de terem vivido por milhões de anos sobre este planeta, chegaram ao seu clímax e desapareceram. Também nós teríamos o mesmo destino? Deixo a questão em aberto, pois não nos parece improvável nem impossível, uma vez que já nos demos os meios de nos autodestruir.

Meu sentimento do mundo me diz que, quando desfalecem as utopias, mesmo as mínimas, de melhoria dentro do sistema imperante, só nos resta voltarmo-nos sobre nós mesmos. Somos uma fonte inesgotável de virtualidades e de uma capacidade ilimitada de relações e de criatividade. Apesar de sermos contraditórios, feitos de luz e de sombras (C. G. Jung), sapientes e dementes (E. Morin), (eros: vida) e (thánatos: morte, Freud) podemos potenciar de tal forma nossa positividade, capaz de definir um novo rumo e uma nova esperança.

Nesse sentido, é inspiradora a teoria do caos, formulada pelo russo-belga Ilya Prigogine (1917-2003), prêmio Nobel de Química em 1977 (Order Out of Chaos, 1948) e de Lorenz/Gleick. O universo se originou de um fantástico caos inicial (Big Bang). A evolução se fez e se faz para colocar ordem neste caos originário,criando ordens cada vez mais altas e complexas até irromperem no ser humano com inteligência, sentimento, amor e cuidado.

A natureza do caos é de ser destrutivo e generativo. Ele destrói uma ordem vigente que esgotou suas virtualidades, mas guarda dentro de si seminalmente uma nova ordem. Concluído o processo de destruição, irrompe a nova ordem. Ela inaugura uma outra história até que ela mesma se extenuar e mostrar-se caótica/destrutiva. Mas guarda dentro de si o novo a irromper.

Na atual fase histórica global, estamos sob a energia destrutiva do caos, mas dentro dele está germinando uma nova ordem, um novo mundo, que cremos será amigo da vida, da irmandade universal também com os seres na natureza, justo e terno, que permitirá melhor conviver e amar. Superaremos o caos destrutivo bolsonarista-fascista, expresso pela eleição no primeiro turno, pelo caos generativo de Luiz Inácio Lula da Silva , que, esperamos, triunfará para levar avante o projeto de inclusão dos pobres.

Então, não desesperemos. Esta leitura, que se propõe filosofante, pode nos infundir um renovado esperançar.

@REVISTA LIBERTA

Matéria: 10 de outubro de 2026
Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.



quarta-feira, 14 de outubro de 2026

The Power of 3: Orianthi, Cindy Blackman e Rhonda Smith


The Power of 3
' power trio inspirado na Band of Gypsys '

O novo supergrupo da guitarrista Orianthi, The Power of 3, anuncia seu álbum de estreia com o produtor de Jimi Hendrix, Eddie Kramer. O trio conta com as excepcionais Cindy Blackman Santana na bateria e a baixista Rhonda Smith.
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O power trio 'The Power of 3', liderado por Orianthi, com a aclamada baterista Cindy Blackman Santana e a baixista Rhonda Smith, anunciou seu álbum de estreia homônimo e o lançamento do primeiro single duplo, " War in the Streets" e "Treat Me Like a Lady". O álbum foi produzido por Eddie Kramer, colaborador lendário de Jimi Hendrix e David Bowie, e conta com a participação especial de Carlos Santana.

Gravado inteiramente em formato analógico, o disco promete capturar “a química pura de três musicistas de classe mundial cujas carreiras coletivas incluem colaborações com Michael Jackson, Prince, Jeff Beck, Alice Cooper, Beyoncé, Lenny Kravitz, Santana e Pharoah Sanders”.

A história de origem do Power of 3 remonta a uma sugestão de Mark Davis, proprietário do Las Vegas Raiders, que incentivou Orianthi a montar um power trio inspirado na banda Band of Gypsys: Jimi Hendrix, Buddy Miles e Billy Cox.

Orianthi entrou em contato com Blackman Santana, conhecida por seu trabalho com Lenny Kravitz e Carlos Santana. As duas então recrutaram Smith, que era o baixista de Prince, Jeff Beck e Beyoncé.

Ao falar sobre o novo grupo, Orianthi diz: “Sei que pessoas do mundo todo querem nos ver, e mal podemos esperar. Vai ser muito divertido sair em turnê. Tocar junto com Cindy e Rhonda é como ter uma força poderosa. Não sou só eu... é uma banda de verdade.”

Em uma entrevista recente à Guitar World, a guitarrista também falou sobre trabalhar com um produtor que tem em seu currículo diversas lendas, incluindo Jimi Hendrix: “Ele definitivamente conseguiu trazer à tona algo que outros produtores não conseguiram apenas com sua energia”, disse ela.

“O Eddie se concentra em posicionar o microfone corretamente e faz a sua mágica... É um método bem tradicional e interessante. Adoro observar o Eddie no estúdio quando ele está fazendo panorâmicas e outras coisas malucas. Fizemos uma jam de 25 minutos, que estará no disco, e ele teve que mixar tudo. Ele estava suando depois!”

Ela continuou: “Como sou uma grande fã do Hendrix, o respeito muito. Ele sugere coisas como: 'Por que você não experimenta este amplificador, esta configuração, este pedal ou esta guitarra?' Eu experimento tudo o que ele sugere, sabe? Meu coração está aberto. Estar no estúdio com Eddie Kramer e Kevin é uma honra.”

O trio já fez sua estreia ao vivo, tendo se apresentado duas vezes no Allegiant Stadium de Las Vegas, e Orianthi confirma que agora estão se preparando para levar o projeto ao público mundial.


Rhonda também falou sobre o projeto: “Sabe, tudo de bom começa com bons amigos e boa música, e este projeto tem tudo isso. Já lançamos dois singles e nosso álbum homônimo. Estamos nos divertindo muito".

“Para mim, tocar em trio sempre foi uma experiência poderosa, porque você precisa prestar atenção no que está tocando e ter consciência do que está fazendo, mas também é bom ter esse espaço. Você tem mais espaço, mas também mais responsabilidade".

"Gravamos tudo ao vivo – nós três juntas – e fizemos o mínimo de overdubs possível. Basicamente, foi assim que fizemos o disco. A Orianthi também cantava os vocais principais ao mesmo tempo, então tudo acontecia com foco total. Íamos resolvendo as coisas até estarmos prontos para gravar as bases".

"Foi mais ou menos isso que fizemos, com a ajuda de Eddie Kramer, que produziu o disco. Ele trouxe muitos sons vintage, equipamentos vintage, equalizadores vintage e todas essas coisas maravilhosas que existem hoje em dia".

"Acho que muitos de nós nos acostumamos com o som digital, principalmente com o streaming. Mas quem curte a velha guarda sabe a diferença. Tem algo especial no som. É mais encorpado, mais profundo e mais
agressivo. Está se tornando uma raridade hoje em dia". 

Som impactante, inspirador para novos músicos. Esse trabalho traz bons exemplos para as mulheres mais jovens, sempre existiram mulheres na música, mas não há ainda muitos grupos como este. Com a experiência que elas possuem em trio, e a energia que demonstram no palco, bora tocar rock 'n' roll!

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