Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
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sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Hollywood Vampires


HOLLYWOOD VAMPIRES
O clube da bebedeira: amizade, risadas e rock!

Acho que Charles Dickens expressou isso da melhor forma. E embora a evocação de seu nome pareça uma estranha associação com uma irmandade boêmia que continuou a festejar mais de um século depois, pode-se dizer que ele tinha os vampiros de Hollywood firmemente na mira de seus versos imortais. Pois, em uma era de excessos em todos os níveis, era de fato "O melhor dos tempos, era o pior dos tempos, era a era da sabedoria (bem, talvez não essa parte), era a era da insensatez".

Não tenho certeza se é importante citar nomes; eram obviamente homens de talentos variados e com uma união coletiva que se baseava na segurança da união, além de uma predileção por evocar os fantasmas dos hedonistas do passado. Embora seja presunçoso compará-los aos clássicos literários da decadência masculina (estou falando de Rimbaud e Verlaine, e Shelley e Byron), eles são, na verdade, aqueles delinquentes da Londres dos anos 60 (Burton, O'Toole, Ollie Reed e Richard Harris) que têm maior probabilidade de se apresentarem como a quintessência teatral dos vampiros de Hollywood.

A zona de conforto de um clube de bebedeira comunitário é tão antiga quanto o tempo, e de seu pedestal elevado, agora gravado em uma placa de bronze em algum lugar nas entranhas da Sunset Strip, esse grupo heterogêneo de roqueiros americanos e ingleses expatriados se reunia todas as noites em uma série sempre rotativa de cadeiras musicais de celebridades.

Você pode balançar a cabeça e imaginar que não havia muito o que dizer, e em retrospectiva, talvez você tenha razão. Sim, os participantes eram excêntricos e extremamente bem-sucedidos, mas, além das quantidades generosas de álcool consumidas, por que tanto alarde? Qual o problema? Bem, é exatamente isso. Ninguém ali se considerava importante ou buscava causar alvoroço. Bajuladores e acólitos não faziam parte dos critérios de admissão. Era um grupo despretensioso que gravitava em direção a uma zona de conforto onde nada era esperado deles. Quando os Vampiros estavam presentes, o jogo se igualava.

Não estou aqui para defender seus vícios. Exageros de qualquer tipo não contribuem para uma mente e um corpo saudáveis. E embora, à margem da vida desses envolvidos, esposas possam ter ido e vindo, escolhas de carreira possam ter sido consideradas, no mínimo, duvidosas, e decepções amorosas, em alguns casos, tenham assombrado um corredor escuro da minha memória, admito, falha, no covil dos Vampiros de Hollywood, reinavam apenas alegria e risos.

Não tenho certeza absoluta do que constituía mau comportamento naquela época, mas naquele covil ele existia numa bolha, uma cúpula hermeticamente fechada de diversão. Talvez não fosse a mesa redonda do Algonquin, mas aqueles eram caras espirituosos e inteligentes que frequentemente ficavam barulhentos e desordeiros, mas podem ter certeza de que não houve espectadores ou animais feridos durante a produção dos Hollywood Vampires.

Se for preciso recorrer a uma anedota para desvencilhar a imagem deles dos clubes enfumaçados e bares escuros, reflita, incrédulo, sobre a decisão que tomaram de tentar um esporte coletivo. O que levou o Bat Pack a imaginar que conseguiriam organizar um time de softball é um mistério para mim. As lembranças são vagas, mas me lembro que as camisetas eram incríveis e, no fim das contas, inúteis, porque nosso time era dividido entre aqueles que (A) não estariam acordados em nenhum horário de jogo; (B) se estivessem acordados, seu nível de toxicidade certamente prejudicaria o desempenho deles; e (C) tenho quase certeza de que vários membros nem sabiam o que era softball!

Tudo que é bom chega ao fim, e enquanto alguns conseguiram subir na vida e escapar de um inferno alcoólico, outros pagaram o preço e sucumbiram. Há uma tristeza profunda que, a longo prazo, revela muito sobre o talento desperdiçado e as vidas ceifadas precocemente, mas em vez de nos concentrarmos nos aspectos negativos, não seria melhor lembrar o que os mortos nos deram e o que os vivos ainda podem contribuir?

Talvez tenha sido "a era da sabedoria", porque, no fim das contas, foi isso que os sobreviventes herdaram.

Bernie Taupin,
Santa Ynez, Califórnia, julho de 2015

I Got A Line On You

O Hollywood Vampires lançou o vídeo oficial de “I Got A Line On You”, registrado durante sua apresentação no Montreux Jazz Festival, em 2018. A gravação faz parte do álbum ao vivo At Montreux Jazz Festival, que reúne a performance da banda em um dos festivais mais tradicionais da música internacional.


Conhecido pela presença de palco teatral, pela energia explosiva e pelas homenagens a artistas que marcaram a história do rock, o grupo formado por Alice Cooper, Joe Perry, Johnny Depp, Tommy Henriksen, Robert DeLeo, Matt Sorum e Bruce Witkin, apresenta no registro uma combinação de clássicos, irreverência e celebração do legado musical de gerações anteriores.

O nome Hollywood Vampires é uma referência a um círculo de músicos que se reunia em Hollywood, unidos pela amizade, pela diversão e pela paixão pelo rock. A formação atual mantém esse espírito, equilibrando a atitude despojada do gênero com tributos a artistas que influenciaram a trajetória da música.

A banda lançou seu álbum de estreia autointitulado em 2015, reunindo participações especiais e versões de clássicos do rock. Em 2019, com Rise, o grupo ampliou seu repertório com composições próprias.

Com apresentações marcadas pela intensidade e por homenagens a nomes fundamentais do gênero, o Hollywood Vampires conquistou público internacional e mantém viva a tradição do 
rock ‘n’ roll !!


quinta-feira, 15 de outubro de 2026

70's (de)Novo: Terreno Baldio


TERRENO BALDIO
breve, mas intenso!

Banda que nos traz as inspirações e influências de bandas inglesas do rock progressivo como Genesis, Van Der Graaf Generator e Gentle Giant. Banda de extrema personalidade e sonoridade própria trazendo as características da música brasileira.
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Breve mas intenso...

Em 1973, João Carlos "Fusa" Kurk (vocais e flauta), Roberto Lazzarini (teclados) e Joaquim Correia (bateria), ex-companheiros da banda de baile Islanders, convidam Mozart Mello (guitarras) e João Ascenção (baixo) para formarem o Terreno Baldio. 

O trio conheceu Mello e Ascenção durante uma turnê e gravações para o álbum do cantor e compositor, Pete Dunaway. Todos vinham de experiências com o rock progressivo, e assim surgiu a ideia de montar um grupo voltado para o estilo.

A primeira apresentação ocorreu em 1974, num palco metálico montado no Parque do Ibirapuera, especialmente para o evento "Festival do Cometa", que reuniu várias bandas de rock da época. O nome da banda veio de uma lenda de um ser místico chamado Aqueloo, que limpa o terreno dos rios e mares durante as noites com rituais de danças mágicas e que todos nós teríamos nossos próprios terrenos baldios, local de auto depuração.

Em 1975, o grupo entrou em estúdio para gravar o álbum de estreia, Terreno Baldio, lançado pelo selo Pirata Gravações Musicais Ltda., com prensagem de apenas 3 mil unidades. A produção ficou a cargo de Cesare Benvenuti, um nome muito ligado ao repertório internacional para gravadoras e rádios nacionais. 
A arte da capa foi feita pelo artista Beny Tchaicovsky, traduzindo toda a essência e loucura do disco. O álbum se tornaria lendário, uma referência no estilo prog-rock. 

Tomando influências de Camel e Genesis no lado melódico, de Gentle Giant no uso de contrapontos estilosos e até o jazz-fusion num viés mais jazzístico, o Terreno Baldio criou algo diferenciado intimamente relacionado às raízes do nosso folclore. Havia a típica exibição de virtuosismo técnico, e as ideias musicais eram inteligentes e criativas, em arranjos sofisticados e complexos, toques sonhadores, grande intensidade, sem permitir que as influências transformem-se em meras imitação.

A banda realmente tinha uma qualidade técnica e sonora à cima da média, e o resultado do álbum foi excelente. Músicas tecnicamente desafiadoras, ritmos inquietos, vocais poéticos e letras que alternavam reflexões conceituais sobre um pássaro azul e um homem em busca de algo na vida, onde ambos encontravam um terreno baldio ao final - claro que todos estes elementos poéticos remetiam à falta de liberdade e à oposição ao regime militar que assombrava a arte/cultura e os artistas brasileiros. Um trabalho imprevisível, eclético, com elementos bem peculiares, direções engenhosas e de alta qualidade.

Ainda em 75, a banda participou do Festival Banana Progressiva, ocorrido no Teatro da FGV, em São Paulo. O evento apresentou parte do que havia de Prog-Rock na música brasileira como os grupos Vímana, A Bolha, Som Nosso de Cada Dia e A Barca do Sol entremeados de outros grupos instrumentais e de vanguarda como Hermeto Paschoal e Jazco, e inclusive contando com a presença de Erasmo Carlos & Cia. Paulista de Rock. 

O ecletismo sonoro da banda funde elementos eruditos aos jazzísticos e a ritmos e harmonias extraídos da música popular e regionais brasileira; tais como o Xaxado e o Baião, incluindo instrumentos de percussão típicos do nosso folclore. Os elementos poéticos remetem-se a temas daquele período e citam a liberdade, em oposição à ditadura, a solidão e o meio ambiente citando a poluição em alusão à vida em grandes cidades, como São Paulo. 

No próximo registro, Além das Lendas Brasileiras - 1978, o tema conceitual do álbum foi encomendado pela gravadora (Continental/Warner) ao fechar contrato com o grupo. Naquele momento, Ascenção já havia sido substituído po Rodolfo Braga (ex-Joelho de Porco) no contrabaixo (início de 76). O novo repertório incluiu, além de temas do folclore nacional, a canção Passaredo, de Francis Hime e Chico Buarque, num arranjo original - temas que ficavam cada vez mais vinculados à preservação da natureza. Ao final de 1979, o grupo dissolve-se em função do declínio do progressivo junto às mídias e em função de um novo panorâma que se delineava junto ao universo pop.


Em 1993, o grupo reuniria-se parcialmente (Kurk, Lazzarini, Mello) - incluindo Renato Muniz no baixo e Ricardo Brasa na bateria - para um novo registro do álbum de 76, versão em inglês junto ao selo Progressive Rock Worldwide, visando o mercado europeu. O álbum inclui faixas extras e constutiu-se, portanto, no terceiro trabalho a ser gravado. Logo em seguida, a gravadora Rock Synphony, sediada em Niteroi, após longa pesquisa e sofisticada produção, relança o primeiro trabalho em versão cd, remasterizado na Itália pelo seu produtor original - Cesare Benvenuti. 

No corrente ano de 2008, o grupo reuniu-se novamente para participar da VIrada Cultural, em São Paulo. Apresentou-se na Praça da República com a seguinte formação: Mozart Mello (guitarra), Lazzarini (teclados), Kurk (vocal), Cassio Poleto (violino) Renato Muniz (baixo) e Edson Guilard (bateria) - basicacemente, executou o repertório do primeiro LP - destacando-se “Este é o Lugar” e “Grite”. Com novas apresentações marcadas, essa nova formação seguiu carreira lastreada nos trabalhos da década de 70, de forma esporádica e sazonal.

A Banda ficou em 1° lugar em Melhor Relançamento, do site Rock Progressivo Brasil.
 
Uma banda histórica !!
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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

The Power of 3: Orianthi, Cindy Blackman e Rhonda Smith


The Power of 3
' power trio inspirado na Band of Gypsys '

O novo supergrupo da guitarrista Orianthi, The Power of 3, anuncia seu álbum de estreia com o produtor de Jimi Hendrix, Eddie Kramer. O trio conta com as excepcionais Cindy Blackman Santana na bateria e a baixista Rhonda Smith.
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O power trio 'The Power of 3', liderado por Orianthi, com a aclamada baterista Cindy Blackman Santana e a baixista Rhonda Smith, anunciou seu álbum de estreia homônimo e o lançamento do primeiro single duplo, " War in the Streets" e "Treat Me Like a Lady". O álbum foi produzido por Eddie Kramer, colaborador lendário de Jimi Hendrix e David Bowie, e conta com a participação especial de Carlos Santana.

Gravado inteiramente em formato analógico, o disco promete capturar “a química pura de três musicistas de classe mundial cujas carreiras coletivas incluem colaborações com Michael Jackson, Prince, Jeff Beck, Alice Cooper, Beyoncé, Lenny Kravitz, Santana e Pharoah Sanders”.

A história de origem do Power of 3 remonta a uma sugestão de Mark Davis, proprietário do Las Vegas Raiders, que incentivou Orianthi a montar um power trio inspirado na banda Band of Gypsys: Jimi Hendrix, Buddy Miles e Billy Cox.

Orianthi entrou em contato com Blackman Santana, conhecida por seu trabalho com Lenny Kravitz e Carlos Santana. As duas então recrutaram Smith, que era o baixista de Prince, Jeff Beck e Beyoncé.

Ao falar sobre o novo grupo, Orianthi diz: “Sei que pessoas do mundo todo querem nos ver, e mal podemos esperar. Vai ser muito divertido sair em turnê. Tocar junto com Cindy e Rhonda é como ter uma força poderosa. Não sou só eu... é uma banda de verdade.”

Em uma entrevista recente à Guitar World, a guitarrista também falou sobre trabalhar com um produtor que tem em seu currículo diversas lendas, incluindo Jimi Hendrix: “Ele definitivamente conseguiu trazer à tona algo que outros produtores não conseguiram apenas com sua energia”, disse ela.

“O Eddie se concentra em posicionar o microfone corretamente e faz a sua mágica... É um método bem tradicional e interessante. Adoro observar o Eddie no estúdio quando ele está fazendo panorâmicas e outras coisas malucas. Fizemos uma jam de 25 minutos, que estará no disco, e ele teve que mixar tudo. Ele estava suando depois!”

Ela continuou: “Como sou uma grande fã do Hendrix, o respeito muito. Ele sugere coisas como: 'Por que você não experimenta este amplificador, esta configuração, este pedal ou esta guitarra?' Eu experimento tudo o que ele sugere, sabe? Meu coração está aberto. Estar no estúdio com Eddie Kramer e Kevin é uma honra.”

O trio já fez sua estreia ao vivo, tendo se apresentado duas vezes no Allegiant Stadium de Las Vegas, e Orianthi confirma que agora estão se preparando para levar o projeto ao público mundial.


Rhonda também falou sobre o projeto: “Sabe, tudo de bom começa com bons amigos e boa música, e este projeto tem tudo isso. Já lançamos dois singles e nosso álbum homônimo. Estamos nos divertindo muito".

“Para mim, tocar em trio sempre foi uma experiência poderosa, porque você precisa prestar atenção no que está tocando e ter consciência do que está fazendo, mas também é bom ter esse espaço. Você tem mais espaço, mas também mais responsabilidade".

"Gravamos tudo ao vivo – nós três juntas – e fizemos o mínimo de overdubs possível. Basicamente, foi assim que fizemos o disco. A Orianthi também cantava os vocais principais ao mesmo tempo, então tudo acontecia com foco total. Íamos resolvendo as coisas até estarmos prontos para gravar as bases".

"Foi mais ou menos isso que fizemos, com a ajuda de Eddie Kramer, que produziu o disco. Ele trouxe muitos sons vintage, equipamentos vintage, equalizadores vintage e todas essas coisas maravilhosas que existem hoje em dia".

"Acho que muitos de nós nos acostumamos com o som digital, principalmente com o streaming. Mas quem curte a velha guarda sabe a diferença. Tem algo especial no som. É mais encorpado, mais profundo e mais
agressivo. Está se tornando uma raridade hoje em dia". 

Som impactante, inspirador para novos músicos. Esse trabalho traz bons exemplos para as mulheres mais jovens, sempre existiram mulheres na música, mas não há ainda muitos grupos como este. Com a experiência que elas possuem em trio, e a energia que demonstram no palco, bora tocar rock 'n' roll!

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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Jimmy Burns


Jimmy Burns 
' sotaque do Mississippi com o pulso de Chicago ' 

Burns é um guitarrista, cantor e compositor estadunidense de R&B e blues elétrico. Embora tenha nascido no Delta do Mississippi, Burns passou quase toda a sua vida em Chicago. Ele é irmão mais novo de Eddie "Guitar" Burns, outro músico de blues de Detroit.
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Biografia

James Olin Burns nasceu em 27 de fevereiro de 1943, em Dublin, Mississippi, e cresceu na plantação de algodão Hilliard, onde aprendeu a tocar violão de uma e doze cordas. Ele era o caçula de onze irmãos. Cantava no coral da igreja quando ainda morava no Delta e foi influenciado pelo blues que ouvia nas ruas. Seu músico de blues favorito era Lightnin' Hopkins. O pai de Burns era meeiro e se apresentava como cantor em shows itinerantes. 

Ainda criança, Jimmy começou a aprender guitarra. A mudança da família para Chicago, em meados dos anos 1950, colocou o jovem músico diante de um universo sonoro diferente. Na cidade, entrou em contato com grupos vocais e participou dos Medallionaires, que gravou algumas faixas de doo-wop, enquanto o soul e o R&B ganhavam cada vez mais espaço entre os jovens artistas negros de Chicago.

Essa passagem pelo soul é fundamental para compreender o estilo de Burns. Embora seja frequentemente identificado como um bluesman de Chicago, sua música nunca ficou limitada a uma única escola. O Delta que conheceu no Mississippi encontrou em Chicago o peso da guitarra elétrica, enquanto o soul e o R&B acrescentaram ao seu canto uma dimensão mais melódica e sofisticada.

Gravando principalmente solo na década de 1960, Burns lançou singles pelos selos USA, Minit, Tip Top e Erica. Ele fez turnês pelo Meio-Oeste com seu grupo de apoio, o Fantastic Epics, e com outro grupo chamado Jimmy Burns and the Gas Company até o início da década de 1970. O single de Burns de 1972, "I Really Love You", foi nomeado entre os 500 melhores singles de Northern Soul em 2000, e é procurado por colecionadores. Burns fez uma longa pausa na indústria musical após o início dos anos 1970 para criar sua família e administrar uma churrascaria.

Ele se apresentou esporadicamente até o início da década de 1990, quando iniciou uma longa residência no Smokedaddy Club de Chicago. Foi lá que o chefe da Delmark Records, Bob Koester, ouviu Burns se apresentar pela primeira vez e concordou em gravá-lo depois de ouvir apenas uma apresentação.

Leaving Here Walking: o reencontro com o mundo.

O retorno ganhou uma dimensão definitiva em 1996, quando a Delmark Records lançou Leaving Here Walking. Aos 53 anos, Burns finalmente apresentava um álbum completo que reunia sua identidade como cantor, guitarrista e compositor.

O disco é importante não apenas por marcar sua estreia em longa duração, mas porque sintetiza a amplitude de seu universo musical. A faixa-título convive com canções como “Twelve Year Old Boy”, “Miss Annie Lou”, “Whiskey Headed Woman”, “One Room Country Shack”, “Rollin’ and Tumblin’” e “Catfish Blues”.

O resultado é um blues que não tenta escolher entre Mississippi e Chicago. Burns faz justamente o contrário: aproxima as duas tradições. Seu canto tem a força narrativa do Delta, enquanto sua guitarra e seus arranjos revelam a experiência adquirida durante décadas de convivência com o soul e o R&B.

Leaving Here Walking tornou-se, assim, a porta de entrada para uma nova fase de sua carreira. O álbum foi seguido por trabalhos como Night Time Again, Back to the Delta, Live at B.L.U.E.S., Stuck in the Middle e, mais tarde, The Chicago Sessions.

Jimmy Burns tocou guitarra no álbum Snake Eyes de seu irmão Eddie, lançado em 2002. A esposa de Burns, Dorothy, morreu em 12 de fevereiro de 2010. Eles tiveram seis filhos.

A relação de Jimmy Burns com o Brasil é de muita proximidade. O bluesman já esteve se apresentado no país participando do Dipanas Blues em 2015 e retornou ao festival para sua 14ª edição, realizada em 15 de agosto de 2026, em Pará de Minas (MG), novamente acompanhado pela Bruno Marques Band. A conexão com Bruno Marques é parte importante dessa história. Guitarrista, produtor cultural e responsável pelo projeto Rota do Blues, Marques vem trabalhando há anos na aproximação entre músicos norte-americanos e a cena brasileira.

A força de Jimmy Burns está justamente nessa capacidade de transitar entre diferentes territórios do blues. Sua música carrega o sotaque do Mississippi, mas também o pulso urbano de Chicago. O soul aparece no fraseado vocal; o R&B surge na construção das canções; e a guitarra mantém viva a tradição dos bluesmen que vieram antes dele.

Álbuns de estúdio:

- Leaving Here Walking (1996) – Delmark / P-Vine
- Night Time Again (1999) – Delmark
- Back to the Delta (2003) – Delmark
- Stuck In The Middle (2011) – Velrone
- It Ain't Right (2015) – Delmark
- Full Circle (2025) – Delmark

Álbum ao vivo:

- Live at B.L.U.E.S. (2007) – Delmark

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sábado, 10 de outubro de 2026

Elis Regina


ELIS REGINA
' nada será como antes '

Considerada por muitos como a melhor cantora brasileira de todos os tempos. Diversas canções foram eternizadas na sua voz, entre elas: Águas de Março, Casa no Campo e Como Nossos Pais. Elis criou os gestos que se tornaram sua marca registrada, pois era uma artista muito performática no palco. Sua capacidade de transmitir os sentimentos dos inúmeros compositores que a escolhiam para interpretar suas canções era impressionante. 
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Trajetória Artística

Elis Regina de Carvalho Costa nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, no dia 17 de março de 1945. Começou a cantar com onze anos de idade no programa "No Clube do Guri" na Rádio Farroupilha apresentado por Ari Rego.

Em 1960 foi contratada pela Rádio Gaúcha. Nesse mesmo ano, foi eleita a “Melhor Cantora do Rádio”. Em 1961, com 16 anos, viajou para o Rio de Janeiro onde lançou seu primeiro disco "Viva a Brotolândia". Em 1964 já se apresentava no eixo Rio São Paulo. Assinou contrato com a TV Rio para se apresentar no programa "Noite de Gala", sob a direção de Luís Carlos Miele e Ronaldo Bôscoli.  Também se apresentava no "Beco das Garrafas", reduto da Bossa Nova.

Ainda em 1964, Elis mudou-se para São Paulo. Em 1965 fez a sua estreia no festival da Record com a música “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes. Elis recebeu o Prêmio Berimbau de Ouro e o Troféu Roquette Pinto. Foi eleita a melhor cantora do ano.

Entre 1965 e 1967, ao lado de Jair Rodrigues e do Zimbo Trio, Elis apresentou o programa "O Fino da Bossa" na TV Record em São Paulo. O programa gerou três discos: Dois na Bossa I, II e III. O primeiro "Dois na Bossa" vendeu um milhão de cópias. Elis Regina era conhecida não apenas pela sua grande extensão vocal como também pela versatilidade de sua voz e interpretação marcante.

Elis Regina nos anos setenta e sua relação com a política.

O posicionamento político de Elis Regina também era uma de suas marcas registradas. A cantora era uma forte crítica ao regime militar que assolou o Brasil entre 1964 a 1985.

Politizada, a cantora se pronunciava em entrevistas, televisão e, claro, na música. Entre as grandes interpretações de Elis que denunciavam a ditadura militar, estão as canções “Como nossos pais” (1976) e “O bêbado e o equilibrista” (1979).


Nos bastidores, era sabido que ela não gostava das guitarras e do som produzido pelos Mutantes e por Rita Lee. Entretanto, em 1976, quando Rita Lee foi presa enquanto estava grávida, Elis Regina foi a primeira pessoa a se pronunciar e visitar a cantora. Além disso, exigiu melhor tratamento para Rita, assim como comida e sua libertação. Após isso, ambas se tornaram amigas pessoais e de palco. Na música, elas colaboraram na canção “Doce de pimenta” e em “Alô, alô marciano”, composição de Rita Lee e Roberto de Carvalho. Na vida privada, Elis Regina deu o nome de sua filha, Maria Rita, em homenagem à Rita Lee.

Elis Regina se relacionou principalmente com pessoas envolvidas com o mundo música, como é comum dos artistas, devido ao estilo de vida em comum, e teve três filhos. Ela namorou o artista Edu Lobo, com quem colaborou em diversas canções. Em 1964, começou seu relacionamento com o produtor musical Solano Ribeiro, de quem ficou noiva, porém a relação conturbada chegou ao fim.

Em 1967, casou-se com o compositor Ronaldo Bôscoli, de quem se separou em 1972. Com Bôscoli, Elis teve seu primeiro filho, João Marcelo Bôscoli. Entre 1973 e 1981, Elis viveu com o pianista e arranjador musical César Camargo Mariano. Juntos, além da parceria musical, eles tiveram dois filhos: Pedro Camargo Mariano (1975) e Maria Rita (1977).

Em 1968, Elis embarcou em uma promissora carreira internacional. No Olympia de Paris, foi ovacionada e voltou ao palco seis vezes depois do final do show. O apelido de Pimentinha foi dado por Vinícius de Moraes. A palavra exprimia a miudeza física e a personalidade explosiva da cantora, que mudava de comportamento em segundos. Era capaz de brigar aos gritos e no minuto seguinte conversar normalmente como se nada tivesse acontecido.

Elis Regina era uma artista eclética, interpretava canções de vários estilos, como MPB, jazz, rock, bossa nova e samba. Levou à fama cantores importantes como Milton Nascimento, João Bosco, Belchior e Ivan Lins. Fez dueto com Tom Jobim, Jair Rodrigues, Gilberto Gil, Chico Buarque entre outros. 

Todos os álbuns dessa década são maravilhosos, dificíl até destacar algum: Ela (1971), Elis (1972), Elis (1973), Elis (1974), Elis e Tom (1974), Falso Brilhante (1976), Elis (1977), Transversal do Tempo (1978), Essa Mulher (1979), Saudade do Brasil (1980) e Elis (1980).

Cesar Camargo Mariano assumiu a direção musical, piano e arranjos da banda de Elis, unindo a força vocal da cantora a uma sofisticada mistura de samba / jazz. O músico reuniu um time de primeiríssima linha, para acompanhar Elis Regina nessa fase. Além de Cesar Camargo Mariano, no piano e teclados estão: Helio Delmiro, na guitarra; Luizão Maia, no baixo; Paulo Braga, na bateria; e Chico Batera, na percussão. Com Luizão Maia emulando no baixo o som do bumbo, que faz parecer que tem uma escola de samba inteira dentro do estúdio. O primeiro trabalho que Elis Regina realizou sob a direção de Cesar Camargo Mariano foi o álbum chamado simplesmente Elis, editado em 1972.

Fazendo um recorte da artista sob a perspectiva do feminino, ela se destacava como uma mulher à frente de seu tempo. Elis era inspiradora, expressando seus pensamentos sem hesitação, contestadora, ousada e corajosa. Uma artista que desafiava o status quo, sempre em busca de novos desafios, deixando sua marca em tudo o que realizava e rompendo com os padrões da época, consolidando-se como um ícone da música brasileira. Elis foi, e continua sendo, uma referência e inspiração para artistas de todas as gerações.

Elis Regina foi encontrada desacordada em seu apartamento no bairro dos Jardins, por seu namorado Samuel MacDowell, que arrombou a porta e tentou socorrê-la, mas ela já chegou sem vida ao hospital. Ela faleceu com apenas 36 anos, em São Paulo, no dia 19 de janeiro de 1982, vítima de overdose.

Foi lançado uma nova reedição da biografia de Elis Regina com uma nova capa – Nada Será Como Antes, escrita pelo jornalista Julio Maria e lançada originalmente em 2015. Com título que suprime o “Regina” do sobrenome da cantora na capa, o livro volta ao mercado com texto revisto e ampliado, acrescido de histórias inéditas, apuradas em novas entrevistas feitas pelo autor.

Seu legado apresenta artistas contemporâneas que sempre revisitam seu repertório como Ana Canãs e Assucena, além de depoimentos e várias entrevistas e vídoes com bate papo sobre a amizade e admiração que compartilhava com o mundo. Falas potentes de Elis, onde ela se posicionava sobre temas que ainda são considerados tabus no Brasil, como o aborto, por exmplo. 

Sues filhos João Marcelo, Pedro Mariano e Maria Rita estão sempre promovendo curadorias e nos trazendo materiais e histórias novas dessa gigante artista da música brasileira!!

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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Rita Lee


RITA LEE
' a referência das mulheres do rock brasileiro '

Cantora e compositora conhecida como a “rainha do rock brasileiro”. Defensora dos direitos das mulheres, ela foi uma das primeiras a tocar guitarra em um palco. Dona de cabelos lisos, com franja e pintados de vermelho, a artista participou dos grupos Os Mutantes, Cilibrinas do Éden e Tutti Frutti entre as décadas de 1960 e 1970, tornando-se famosa mundialmente.
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O Mundo de Rita Lee Jones

Rita Lee Jones de Carvalho nasceu no dia 31 de dezembro de 1947, na cidade de São Paulo (SP). Vinda de uma família de classe média, na sua infância e adolescência morou no bairro paulistano Vila Mariana, onde ela afirmou já ter vivido grandes momentos. A artista estudou em um dos tradicionais colégios paulistas, o Liceu Pasteur. 

Quando era criança, Rita Lee teve aulas de piano, mas foi na adolescência que realmente passou a ter interesse na música. Também nessa época começou a compor suas primeiras canções. Assim como vários jovens da década de 1960, Rita Lee gostava de bandas de rock internacionais como The Beatles e Rolling Stones. Também admirava cantores brasileiros como Cauby Peixoto e João Gilberto, um dos criadores do estilo musical bossa nova. A cantora chegou a ingressar no curso de Comunicação Social, na Universidade de São Paulo (USP), mas abandonou a instituição para se dedicar à música.

A importância de Rita Lee como figura central na consolidação do gênero no país e como voz ativa na representação das mulheres na música, desempenhando um papel fundamental não apenas na inovação estética e sonora do rock nacional, mas também na ampliação das possibilidades de representação feminina na música. 

Sua atuação desafiou padrões e abriu caminhos para outras mulheres no cenário musical, ao mesmo tempo em que expressava, com irreverência e profundidade, as inquietações e aspirações de sua geração. Assim, sua obra permanece como referência essencial para compreender os diálogos entre música, sociedade e gênero no Brasil contemporâneo.

Rita Lee foi uma mulher de fibra, rebelde com uma causa. Ela entendeu desde cedo que as regras estabelecidas pela sociedade nem sempre são justas e que, às vezes, é preciso desafiá-las para encontrar o próprio espaço.

Ao analisar as letras de suas músicas, é possível perceber que Rita sabia da importância da igualdade de gênero, da luta pelo reconhecimento das mulheres e da necessidade de quebrar tabus. Suas canções, repletas de mensagens feministas, falam da importância da autoafirmação e da resistência feminina diante dos desafios da vida.

Sua música sempre foi um espelho de sua vida: contestadora, original, verdadeira. Rita Lee foi, e sempre será, um símbolo de força e resistência, uma inspiração para todas as mulheres que buscam afirmar-se em um mundo ainda tão desigual. Suas letras sempre foram contestadoras e livres, dizendo o que muitas mulheres achavam não poder cantar. Desafiava "os padrôes"!

Rita Lee iniciou sua carreira artística no final dos anos 60, como integrante da  banda Os Mutantes, que combinava elementos do rock psicodélico com a música popular brasileira. Junto a Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, o grupo tornou-se um dos pilares do movimento Tropicalista, movimento que contava com artistas como Gilberto Gil, Gal Costa, Caetano Veloso, Tom Zé e etc etc.... Porém, a relação de Rita com a banda, principalmente com Arnaldo Baptista, começou a se deteriorar no início da década de 1970.

O primeiro marido de Rita Lee foi Arnaldo Baptista, eles se casaram em 1971 e se separam alguns anos depois. Em 1976, Rita Lee passou a morar com o guitarrista e futuro parceiro musical Roberto de Carvalho. Eles somente se casaram no civil em 1996 e seguiram juntos até a morte dela, em maio de 2023. Rita Lee teve três filhos com Roberto de Carvalho: João, Antônio e Beto Lee. Este último também é guitarrista. A cantora também teve dois netos: Izabella e Arthur.

Rita, além de se sentir sufocada pela relação pessoal com os irmãos Baptista, também enfrentava a discriminação de gênero na indústria da música, problema ainda mais acentuado naquela época. Ela vivenciou o machismo dentro do próprio grupo, onde era constantemente subestimada e tinha suas opiniões desconsideradas por ser mulher. Como resultado, Rita passou a buscar seu próprio espaço para expressar-se artisticamente.

Em 1972, após muitos conflitos internos e desgastes pessoais, Rita Lee saiu d'Os Mutantes, dando início a uma carreira solo que se tornaria extremamente bem sucedida. Foi um período de intensa renovação e autodescoberta. Ela se reinventou como cantora, compositora e como ativista, assumindo sua voz na luta pelos direitos das mulheres e por uma sociedade mais igualitária.

Contudo, os anos de história como artista conta com um “álbum perdido” de uma banda que ela estava montando junto a outra mulher revolucionária, Lucinha Turnbull, o álbum era Cilibrinas do Éden. 

Em 1972, Rita Lee já havia gravado paralelamente aos Mutantes dois álbuns solos, Build Up, de 1970, e Hoje É o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida, de 1972, porém ambos contavam com os integrantes da banda. Após a saída definitiva dos Mutantes, Rita Lee se juntou a Lucinha Turnbull para criar a banda Cilibrinas do Éden, uma banda puramente rock com ares de folk e psicodelia. Lucinha, outra mulher emancipada, foi importantíssima para Rita nessa fase dificíl de sua carreira, além ter sido muito importante na história da música nacional, pois Turnbull é "oficialmente" considerada a primeira guitarrista brasileira.

Apesar da curta duração das Cilibrinas do Éden, as gravações do projeto serviram como ponto de partida para a banda Tutti Frutti, inicialmente chamada de Lisergia, que era formada por Luís Sérgio Carlini, Lee Marcucci e o baterista Emilson Colantonio. Contudo, Lucinha Turnbull acabou não fazendo parte do novo grupo. Na música “Menino Bonito”, que tinha um tom totalmente à lá Cilibrinas, com duas vozes e violões, a produção decidiu apagar a voz de Turnbull, deixando apenas a de Rita. Mesmo com a saída da guitarrista, a banda Tutti Frutti obteve bastante sucesso, e as músicas do projeto não lançadas da dupla cilibrinas foram reaproveitadas por ambas em seus trabalhos posteriores. O álbum ganhou uma reedição em vinil em 2023 (com tiragens e prensagens independentes/não-oficiais de colecionador), marcando os 50 anos do projeto.

A "Ovelha Negra" da MPB

Seu auge na carreira solo ocorreu durante os anos 70 e 80, quando lançou sucessos incontestáveis como "Ovelha Negra", "Mania de Você", "Lança Perfume" e "Baila Comigo". Essas músicas, além de se destacarem por sua originalidade e qualidade musical, eram repletas de mensagens de empoderamento feminino, incentivando as mulheres a serem donas de suas próprias vidas.

Em sua carreira solo, Rita Lee consolidou-se como uma das maiores artistas da música brasileira, conquistando um público fiel e marcando várias gerações com suas letras provocativas e performances vibrantes. Ela abriu caminho para que outras artistas pudessem afirmar-se em uma indústria historicamente dominada por homens.

A trajetória de Rita Lee, desde a saída d'Os Mutantes até o auge de sua carreira solo, é uma história de resistência, resiliência e transformação. Ela enfrentou o machismo, buscou seu próprio espaço e tornou-se uma das maiores vozes feministas da música brasileira, deixando um legado que transcende a arte e toca as esferas da luta pela igualdade de gênero.

Em sua extensa e prolífica carreira, Rita Lee apresentou ao Brasil – e ao mundo – uma mulher irreverente, talentosa e autêntica, cuja arte questionava normas e estereótipos. Ela foi uma pioneira, desafiando os padrões de uma indústria dominada por homens e se tornando uma das principais referências do rock nacional.

Na música "Todas as Mulheres do Mundo", desvendou a diversidade feminina. Com um ritmo cativante e versos diretos, a canção é um hino de empoderamento e aceitação. Rita convida todas as mulheres a celebrarem sua essência, suas singularidades, suas lutas e suas vitórias. Ela nos fala que ser mulher é ser múltipla, é ser única, é ser todas as mulheres do mundo.

Já em "Pagu", uma poderosa colaboração com Zélia Duncan, Rita prestou uma homenagem à notória feminista brasileira  Patrícia Rehder Galvão, conhecida como Pagu. A música reflete a irreverência e a coragem dessa mulher, que desafiou a sociedade machista do século XX, justamente como Rita fez através de sua música.

Rita Lee carregou a bandeira do feminismo não só através das suas letras, mas também por meio de sua postura diante do mundo. Com o seu talento e irreverência, ela fez história ao se tornar a primeira mulher com protagonismo numa banda de rock no Brasil, Os Mutantes, desafiando as normas de gênero de sua época.

Além disso, ela foi uma das pioneiras ao introduzir letras de teor social e político no universo do rock nacional, rompendo com os estereótipos de que o gênero musical era essencialmente masculino e de que a mulher em uma banda de rock deveria estar relegada a uma posição secundária.

Rita Lee desafiou estereótipos, abriu caminhos e celebrou a liberdade e a autenticidade feminina. Com sua voz potente, suas melodias inesquecíveis e seu espírito indomável, ela fez história na música brasileira. Agora, mesmo após sua morte, a voz de Rita Lee continua ecoando, inspirando novas gerações e perpetuando a luta feminista.

A história da música brasileira não pode ser contada sem mencionar Rita Lee. E a luta feminista também não. Afinal, ela usou sua voz, sua música e sua presença de palco para defender uma causa maior: a igualdade de gênero.

Rita Lee, a eterna Rainha do Rock brasileiro, a mulher que ousou, inovou e quebrou barreiras, será para sempre lembrada. Não só por suas músicas, mas também pela mulher que foi: forte, corajosa, rebelde e, acima de tudo, autêntica.

Rita Lee participou ativamente do movimento das 'Diretas Já' em 1984, subindo ao palco de grandes comícios ao lado de lideranças políticas e de figuras do esporte como os jogadores da chamada Democracia Corinthiana (Sócrates, Wladimir e Casagrande).

A cantora esteve presente em um dos maiores atos públicos da campanha pelas eleições diretas para presidente no Brasil, reforçando o coro popular pela redemocratização do país. Durante esse período, Rita Lee também protagonizou momentos históricos com o time do Corinthians, vestindo a camisa do clube em apresentações e unindo a música ao grito por liberdade política. 

Mesmo com o avanço da campanha das 'Diretas Já', a artista continuou enfrentando resquícios de censura do regime militar em seus trabalhos, como o álbum Bombom (1983). No ano de 1976, Rita Lee já havia passado por momentos marcantes e turbulentos em sua vida, pois virou uma prisioneira política tendo desafiando o sistema com o lançamento do álbum Entradas e Bandeiras, com a famosa música "Arrombou a Festa".

Rita Lee foi presa em 24 de agosto de 1976, durante a ditadura militar, após a polícia invadir sua casa na Vila Mariana, em São Paulo. A polícia alegou ter encontrado 300 gramas de maconha na residência da cantora, uma acusação que ela e sua defesa apontaram como forjada pelo regime. Ela estava grávida de 3 meses de seu primeiro filho, Beto Lee. Ficou detida por dois dias no Departamento de Investigações Criminais (DEIC) e depois foi transferida para o Presídio Feminino do Hipódromo, onde passou mais oito dias. A cantora Elis Regina foi ao local cobrar atendimento médico para Rita e pressionar as autoridades e a imprensa.

Embora tenha sido alvo da repressão e da censura (com diversas músicas e álbuns proibidos), Rita Lee costumava se definir de forma irônica como uma "hiponga comunista com um pé no imperialismo", preferindo o deboche e a contracultura à militância partidária tradicional da época.


Que sua voz continue a ecoar pelos quatro cantos do Brasil, inspirando novas gerações de mulheres a lutarem por seus direitos e a fazerem história, assim como ela fez. Rita Lee, eternamente em nossos corações, será sempre um símbolo de força e resistência, uma eterna referência em nossa música e nossa luta.

A artista resolveu aposentar-se dos palcos em 2012, anunciando que estava com problemas de saúde. Na época, a cantora chegou a afirmar em uma rede social: “me aposento dos shows, mas da música nunca”. Entretanto, um ano depois, chegou a participar de shows, como o que foi realizado em comemoração aos 459 anos da cidade de São Paulo.

Em 2021, a cantora revelou que estava com câncer de pulmão. Fez o tratamento e, no ano seguinte, anunciou estar curada. Desde o início de 2023, a cantora sentia-se debilitada e chegou a ser internada no final de fevereiro. Saiu do hospital no início de março. Na noite do dia 8 de maio de 2023, Rita Lee morreu em sua casa, em São Paulo capital, ao lado de sua família.

A cantora era adepta do veganismo. Teve opiniões contundentes e costumava expressá-las sempre que podia em suas entrevistas. Foi defensora dos animais e dos direitos das mulheres. Ela também gostava de se expressar por meio de suas redes sociais, o que garantirá sua arte registrada por muito e muito tempo !!
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terça-feira, 6 de outubro de 2026

DiScOs InCrÍvEiS: Zélia Duncan


ZÉLIA DUNCAN
' Pelespírito - 2021 '

Em casa, na causa, longe de tudo – mas sem tirar os olhos do mundo. É assim que Zélia Duncan se apresenta na primeira faixa que dá nome ao álbum. Fazendo referência ao termo “perispírito”, cunhado por Allan Kardec para definir o envoltório semimaterial que une corpo e alma, Pelespírito é um sentimento que ”significa solidão, medo e, ao mesmo tempo, vontade de alguma leveza que a gente não estava encontrando. A pele repuxada de tantas perguntas, e o espírito procurando por alguma elevação no meio do caos. Pelespírito é o sentimento de que algo te puxa para baixo e, ao mesmo tempo, para cima. É a morte e a vida”, reflete Zélia.

O álbum é resultante do trabalho entre a cantora e os compositores Juliano Holanda e o baiano Webster Santos, que assinam a produção. “Trabalhamos juntos, mas separados, cada um na sua casa. Foi uma troca incrível, o álbum é bem literal”, conta. “Onde é Que Isso Vai Dar é um diálogo entre eu e Juliano. Ele disse: ‘A nossa parceria tá me salvando, tá sendo tão bom pra mim’, e aí eu disse pra ele: ‘Te digo o mesmo. Você me provoca, e eu adoro um desafio’”, relata.

As 15 canções, que passeiam entre folk, country, rock ‘n’ roll, blues e sertanejo nordestino, foram gravadas a distância, e foi a primeira oportunidade em que Zélia se auto dirigiu durante a gravação. “Foi tão louco. Eu sou uma pessoa alegre, tento ser engraçadinha, faço meus amigos rirem, mas eu cultivo (muito bem cultivada) certa melancolia. Um lugar onde eu me sinto inspirada, onde eu acho que enxergo melhor as coisas”, reflete. “Eu, sozinha, me gravando, me emociono”, diz.

Pandemia, ignorância e criatividade.

Zélia conta que se lembra do que passava na sua cabeça enquanto gravava, em plena solitude, Pelespírito: “Me lembro da hora em que estava cantando... Estava com uma pena da gente, sabe? Estava pensando: ‘Pô, cara, a gente precisa conseguir ir pra um lugar, dentro de nós, onde a gente possa esperar alguma coisa do Brasil’”, e, em consonância com sua alma ativista, critica: “O Brasil nunca foi justo, nunca foi um lugar amistoso pra todos nós. Apesar disso, é a primeira vez que eu estou sentindo uma ode à ignorância. A impressão que eu tenho é a de que o Brasil, que a gente ama, tá cercado. Quando eu fui cantar Pelespírito, fiquei sentindo essas coisas. ‘Caramba, a gente tá tão pequenininho, a gente tá reduzido a isso aqui: uma pelezinha, um espíritozinho’. Eu fiquei nessa, e foi assim que eu gravei o disco todo: com a alegria de estar fazendo, e com uma certa tristeza cultivada, também”.


Para Duncan, o álbum contempla uma boa dose de solidão. Criar, produzir e lançar neste período oferece percalços inéditos, e, sobre estes, conta: “Eu aprendi a gravar minha própria voz – coisa que não fiz em 40 anos de carreira –, num computadorzinho pequenininho... Foi uma experiência muito nova pra mim, e solitária. Acho que o disco tem esses questionamentos de quem está ali, sozinho, perguntando alguma uma coisa – e este alguém, na verdade, somos todos nós, eu acredito”. Todo desafio exige uma força motriz, que, para a cantora, é o amor pelo seu ofício: “O meu ofício não me abandonou. Tantos colegas ficaram paralisados no meio disso tudo, sem conseguir produzir muito, e eu fui na contramão, fazendo milhares de coisas”.

Sua perspectiva é que existe uma solidão boa, “que é quando você se faz companhia sem dor. Eu tenho vida interna, tenho coisas que povoam a minha cabeça. Um repertório que me faz companhia quando estou sozinha – e este repertório é a arte. Esta é a importância da arte neste período de isolamento social: ela nos faz companhia”.

Zélia afirma sentir muita falta do contato próximo, cara a cara, com o público: e é a partir deste sentimento que surge a música Eu e Vocês, onde exprime sua “saudade apertada” e fala diretamente com a plateia em versos como: “Vontade de cantar / Num coro essa canção / Com voz de coração / Eu e vocês”. A cantora, emocionada, afirma que “nada substitui eu e vocês. Vocês e eu, juntinhos”.

Além de expressar sua nostalgia referente aos tempos em que aglomerações ofereciam bons momentos, o álbum transita por outros assuntos delicados, como em Você Rainha, que promete ser um local seguro para as mulheres presas com seus algozes durante o isolamento social. “É para que essas mulheres saibam que não estão sozinhas e que sempre terão uma saída. Juntas somos mais fortes e podemos nos ajudar”. O disco é finalizado com a canção Vai Melhorar, que conta com a participação de Ézio Filho no contrabaixo e percussão e oferece um momento para acalentar os corações aflitos com um voto de esperança.

Zélia pós-‘Pelespírito’

Sob a perspectiva de que toda obra lançada representa um parto, existem mudanças de comportamento e pensamento geradas a partir deste “nascimento”. Quando perguntada “Quem é Zélia depois de Pelespírito”, ela responde: “Junto com este lançamento, eu estou comemorando 40 anos de carreira. Acho que eu sou total uma sobrevivente da minha história, por vir de onde venho, por ser dessa comunidade LGBTQIA+, por ser mulher, cantora, não ter um artista na família pra me ajudar. 

Com a idade chegando, a gente vai tendo uma noção de tudo a que sobrevivemos. ‘Nossa, aquilo ali foi tão feio’, ‘nossa, ali foi por um triz, também’. Então agora, aos 56 anos, eu canto ‘tô por um fio dessa minha blusa’, e sei quantas vezes eu já estive por um fio. Zélia pós-Pelespírito é uma sobrevivente”.

Sobre as sequelas sociais da pandemia, Zélia diz com pesar que “todos mereciam ser sobreviventes desta situação. O meu disco entra neste contexto com a intenção de ser um espaço nosso: de compartilhar angústias, questionamentos, dúvidas, mas acima de tudo compartilharmos amor e o alívio de termos um ao outro”.