Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Rita Lee


RITA LEE
' a referência das mulheres do rock brasileiro '

Cantora e compositora conhecida como a “rainha do rock brasileiro”. Defensora dos direitos das mulheres, ela foi uma das primeiras a tocar guitarra em um palco. Dona de cabelos lisos, com franja e pintados de vermelho, a artista participou dos grupos Os Mutantes, Cilibrinas do Éden e Tutti Frutti entre as décadas de 1960 e 1970, tornando-se famosa mundialmente.
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O Mundo de Rita Lee Jones

Rita Lee Jones de Carvalho nasceu no dia 31 de dezembro de 1947, na cidade de São Paulo (SP). Vinda de uma família de classe média, na sua infância e adolescência morou no bairro paulistano Vila Mariana, onde ela afirmou já ter vivido grandes momentos. A artista estudou em um dos tradicionais colégios paulistas, o Liceu Pasteur. 

Quando era criança, Rita Lee teve aulas de piano, mas foi na adolescência que realmente passou a ter interesse na música. Também nessa época começou a compor suas primeiras canções. Assim como vários jovens da década de 1960, Rita Lee gostava de bandas de rock internacionais como The Beatles e Rolling Stones. Também admirava cantores brasileiros como Cauby Peixoto e João Gilberto, um dos criadores do estilo musical bossa nova. A cantora chegou a ingressar no curso de Comunicação Social, na Universidade de São Paulo (USP), mas abandonou a instituição para se dedicar à música.

A importância de Rita Lee como figura central na consolidação do gênero no país e como voz ativa na representação das mulheres na música, desempenhando um papel fundamental não apenas na inovação estética e sonora do rock nacional, mas também na ampliação das possibilidades de representação feminina na música. 

Sua atuação desafiou padrões e abriu caminhos para outras mulheres no cenário musical, ao mesmo tempo em que expressava, com irreverência e profundidade, as inquietações e aspirações de sua geração. Assim, sua obra permanece como referência essencial para compreender os diálogos entre música, sociedade e gênero no Brasil contemporâneo.

Rita Lee foi uma mulher de fibra, rebelde com uma causa. Ela entendeu desde cedo que as regras estabelecidas pela sociedade nem sempre são justas e que, às vezes, é preciso desafiá-las para encontrar o próprio espaço.

Ao analisar as letras de suas músicas, é possível perceber que Rita sabia da importância da igualdade de gênero, da luta pelo reconhecimento das mulheres e da necessidade de quebrar tabus. Suas canções, repletas de mensagens feministas, falam da importância da autoafirmação e da resistência feminina diante dos desafios da vida.

Sua música sempre foi um espelho de sua vida: contestadora, original, verdadeira. Rita Lee foi, e sempre será, um símbolo de força e resistência, uma inspiração para todas as mulheres que buscam afirmar-se em um mundo ainda tão desigual. Suas letras sempre foram contestadoras e livres, dizendo o que muitas mulheres achavam não poder cantar. Desafiava "os padrôes"!

Rita Lee iniciou sua carreira artística no final dos anos 60, como integrante da  banda Os Mutantes, que combinava elementos do rock psicodélico com a música popular brasileira. Junto a Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, o grupo tornou-se um dos pilares do movimento Tropicalista, movimento que contava com artistas como Gilberto Gil, Gal Costa, Caetano Veloso, Tom Zé e etc etc.... Porém, a relação de Rita com a banda, principalmente com Arnaldo Baptista, começou a se deteriorar no início da década de 1970.

O primeiro marido de Rita Lee foi Arnaldo Baptista, eles se casaram em 1971 e se separam alguns anos depois. Em 1976, Rita Lee passou a morar com o guitarrista e futuro parceiro musical Roberto de Carvalho. Eles somente se casaram no civil em 1996 e seguiram juntos até a morte dela, em maio de 2023. Rita Lee teve três filhos com Roberto de Carvalho: João, Antônio e Beto Lee. Este último também é guitarrista. A cantora também teve dois netos: Izabella e Arthur.

Rita, além de se sentir sufocada pela relação pessoal com os irmãos Baptista, também enfrentava a discriminação de gênero na indústria da música, problema ainda mais acentuado naquela época. Ela vivenciou o machismo dentro do próprio grupo, onde era constantemente subestimada e tinha suas opiniões desconsideradas por ser mulher. Como resultado, Rita passou a buscar seu próprio espaço para expressar-se artisticamente.

Em 1972, após muitos conflitos internos e desgastes pessoais, Rita Lee saiu d'Os Mutantes, dando início a uma carreira solo que se tornaria extremamente bem sucedida. Foi um período de intensa renovação e autodescoberta. Ela se reinventou como cantora, compositora e como ativista, assumindo sua voz na luta pelos direitos das mulheres e por uma sociedade mais igualitária.

Contudo, os anos de história como artista conta com um “álbum perdido” de uma banda que ela estava montando junto a outra mulher revolucionária, Lucinha Turnbull, o álbum era Cilibrinas do Éden. 

Em 1972, Rita Lee já havia gravado paralelamente aos Mutantes dois álbuns solos, Build Up, de 1970, e Hoje É o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida, de 1972, porém ambos contavam com os integrantes da banda. Após a saída definitiva dos Mutantes, Rita Lee se juntou a Lucinha Turnbull para criar a banda Cilibrinas do Éden, uma banda puramente rock com ares de folk e psicodelia. Lucinha, outra mulher emancipada, foi importantíssima para Rita nessa fase dificíl de sua carreira, além ter sido muito importante na história da música nacional, pois Turnbull é "oficialmente" considerada a primeira guitarrista brasileira.

Apesar da curta duração das Cilibrinas do Éden, as gravações do projeto serviram como ponto de partida para a banda Tutti Frutti, inicialmente chamada de Lisergia, que era formada por Luís Sérgio Carlini, Lee Marcucci e o baterista Emilson Colantonio. Contudo, Lucinha Turnbull acabou não fazendo parte do novo grupo. Na música “Menino Bonito”, que tinha um tom totalmente à lá Cilibrinas, com duas vozes e violões, a produção decidiu apagar a voz de Turnbull, deixando apenas a de Rita. Mesmo com a saída da guitarrista, a banda Tutti Frutti obteve bastante sucesso, e as músicas do projeto não lançadas da dupla cilibrinas foram reaproveitadas por ambas em seus trabalhos posteriores. O álbum ganhou uma reedição em vinil em 2023 (com tiragens e prensagens independentes/não-oficiais de colecionador), marcando os 50 anos do projeto.

A "Ovelha Negra" da MPB

Seu auge na carreira solo ocorreu durante os anos 70 e 80, quando lançou sucessos incontestáveis como "Ovelha Negra", "Mania de Você", "Lança Perfume" e "Baila Comigo". Essas músicas, além de se destacarem por sua originalidade e qualidade musical, eram repletas de mensagens de empoderamento feminino, incentivando as mulheres a serem donas de suas próprias vidas.

Em sua carreira solo, Rita Lee consolidou-se como uma das maiores artistas da música brasileira, conquistando um público fiel e marcando várias gerações com suas letras provocativas e performances vibrantes. Ela abriu caminho para que outras artistas pudessem afirmar-se em uma indústria historicamente dominada por homens.

A trajetória de Rita Lee, desde a saída d'Os Mutantes até o auge de sua carreira solo, é uma história de resistência, resiliência e transformação. Ela enfrentou o machismo, buscou seu próprio espaço e tornou-se uma das maiores vozes feministas da música brasileira, deixando um legado que transcende a arte e toca as esferas da luta pela igualdade de gênero.

Em sua extensa e prolífica carreira, Rita Lee apresentou ao Brasil – e ao mundo – uma mulher irreverente, talentosa e autêntica, cuja arte questionava normas e estereótipos. Ela foi uma pioneira, desafiando os padrões de uma indústria dominada por homens e se tornando uma das principais referências do rock nacional.

Na música "Todas as Mulheres do Mundo", desvendou a diversidade feminina. Com um ritmo cativante e versos diretos, a canção é um hino de empoderamento e aceitação. Rita convida todas as mulheres a celebrarem sua essência, suas singularidades, suas lutas e suas vitórias. Ela nos fala que ser mulher é ser múltipla, é ser única, é ser todas as mulheres do mundo.

Já em "Pagu", uma poderosa colaboração com Zélia Duncan, Rita prestou uma homenagem à notória feminista brasileira  Patrícia Rehder Galvão, conhecida como Pagu. A música reflete a irreverência e a coragem dessa mulher, que desafiou a sociedade machista do século XX, justamente como Rita fez através de sua música.

Rita Lee carregou a bandeira do feminismo não só através das suas letras, mas também por meio de sua postura diante do mundo. Com o seu talento e irreverência, ela fez história ao se tornar a primeira mulher com protagonismo numa banda de rock no Brasil, Os Mutantes, desafiando as normas de gênero de sua época.

Além disso, ela foi uma das pioneiras ao introduzir letras de teor social e político no universo do rock nacional, rompendo com os estereótipos de que o gênero musical era essencialmente masculino e de que a mulher em uma banda de rock deveria estar relegada a uma posição secundária.

Rita Lee desafiou estereótipos, abriu caminhos e celebrou a liberdade e a autenticidade feminina. Com sua voz potente, suas melodias inesquecíveis e seu espírito indomável, ela fez história na música brasileira. Agora, mesmo após sua morte, a voz de Rita Lee continua ecoando, inspirando novas gerações e perpetuando a luta feminista.

A história da música brasileira não pode ser contada sem mencionar Rita Lee. E a luta feminista também não. Afinal, ela usou sua voz, sua música e sua presença de palco para defender uma causa maior: a igualdade de gênero.

Rita Lee, a eterna Rainha do Rock brasileiro, a mulher que ousou, inovou e quebrou barreiras, será para sempre lembrada. Não só por suas músicas, mas também pela mulher que foi: forte, corajosa, rebelde e, acima de tudo, autêntica.

Rita Lee participou ativamente do movimento das 'Diretas Já' em 1984, subindo ao palco de grandes comícios ao lado de lideranças políticas e de figuras do esporte como os jogadores da chamada Democracia Corinthiana (Sócrates, Wladimir e Casagrande).

A cantora esteve presente em um dos maiores atos públicos da campanha pelas eleições diretas para presidente no Brasil, reforçando o coro popular pela redemocratização do país. Durante esse período, Rita Lee também protagonizou momentos históricos com o time do Corinthians, vestindo a camisa do clube em apresentações e unindo a música ao grito por liberdade política. 

Mesmo com o avanço da campanha das 'Diretas Já', a artista continuou enfrentando resquícios de censura do regime militar em seus trabalhos, como o álbum Bombom (1983). No ano de 1976, Rita Lee já havia passado por momentos marcantes e turbulentos em sua vida, pois virou uma prisioneira política tendo desafiando o sistema com o lançamento do álbum Entradas e Bandeiras, com a famosa música "Arrombou a Festa".

Rita Lee foi presa em 24 de agosto de 1976, durante a ditadura militar, após a polícia invadir sua casa na Vila Mariana, em São Paulo. A polícia alegou ter encontrado 300 gramas de maconha na residência da cantora, uma acusação que ela e sua defesa apontaram como forjada pelo regime. Ela estava grávida de 3 meses de seu primeiro filho, Beto Lee. Ficou detida por dois dias no Departamento de Investigações Criminais (DEIC) e depois foi transferida para o Presídio Feminino do Hipódromo, onde passou mais oito dias. A cantora Elis Regina foi ao local cobrar atendimento médico para Rita e pressionar as autoridades e a imprensa.

Embora tenha sido alvo da repressão e da censura (com diversas músicas e álbuns proibidos), Rita Lee costumava se definir de forma irônica como uma "hiponga comunista com um pé no imperialismo", preferindo o deboche e a contracultura à militância partidária tradicional da época.


Que sua voz continue a ecoar pelos quatro cantos do Brasil, inspirando novas gerações de mulheres a lutarem por seus direitos e a fazerem história, assim como ela fez. Rita Lee, eternamente em nossos corações, será sempre um símbolo de força e resistência, uma eterna referência em nossa música e nossa luta.

A artista resolveu aposentar-se dos palcos em 2012, anunciando que estava com problemas de saúde. Na época, a cantora chegou a afirmar em uma rede social: “me aposento dos shows, mas da música nunca”. Entretanto, um ano depois, chegou a participar de shows, como o que foi realizado em comemoração aos 459 anos da cidade de São Paulo.

Em 2021, a cantora revelou que estava com câncer de pulmão. Fez o tratamento e, no ano seguinte, anunciou estar curada. Desde o início de 2023, a cantora sentia-se debilitada e chegou a ser internada no final de fevereiro. Saiu do hospital no início de março. Na noite do dia 8 de maio de 2023, Rita Lee morreu em sua casa, em São Paulo capital, ao lado de sua família.

A cantora era adepta do veganismo. Teve opiniões contundentes e costumava expressá-las sempre que podia em suas entrevistas. Foi defensora dos animais e dos direitos das mulheres. Ela também gostava de se expressar por meio de suas redes sociais, o que garantirá sua arte registrada por muito e muito tempo !!
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segunda-feira, 15 de setembro de 2025

FEMINISMO: 🔥Marisa Monte

Marisa Monte
Discurso emocionante de respeito e empoderamento das Mulheres.


Biografia e página da Artista 

Marisa Monte,
Nascida no Rio de Janeiro, no dia 1º de julho de 1967, Marisa Monte desde cedo demonstrou interesse por música e, ainda criança, fez aulas de piano e bateria. Amava Maria Callas e Billie Holiday assim como Carmen Miranda e a música brasileira.

Com 18 anos, foi morar em Roma disposta a aprofundar os estudos de canto lírico. Antes de voltar para o Brasil, fez um show em Veneza, onde se reencontrou com o produtor Nelson Motta, que dirigiu seus primeiros shows profissionais no seu retorno, produzidos por Lula Buarque de Hollanda.

Logo na sua primeira apresentação no Jazzmania, no Rio de Janeiro, em setembro de 1987, a repercussão foi enorme: a nova sensação na cena musical brasileira. Rapidamente se tornou conhecida tanto pelo público jovem de rock como pelo público mais adulto de jazz e de MPB.

Marisa se apresentava no Teatro Villa Lobos e gravava ao vivo um especial de TV, exibido pela TV Manchete no final do ano, antes mesmo de seu primeiro disco ser lançado. “MM” (1989) trazia samba, jazz, black music, blues, soul, bossa nova e rock. Na turnê nacional e internacional emplacou seu primeiro grande sucesso, “Bem Que Se Quis” (“E Po’ Che Fa’”), versão de Nelson Motta para a canção do italiano Pino Daniele.

O lançamento de seu segundo disco “Mais” (1991) – com as primeiras parcerias com Nando Reis e Arnaldo Antunes – revelou Marisa Monte como compositora e com um estilo próprio, que refletia suas múltiplas influências musicais. Marisa emplacou outro grande sucesso popular com “Beija Eu”, parceria com Arnaldo Antunes e Arto Lindsay, e mais uma turnê consagradora.

O terceiro álbum “Verde, Anil, Amarelo, Cor de Rosa e Carvão” (1994) foi gravado em Nova York e no Rio de Janeiro e produzido por Marisa e Arto Lindsay. Com participações especiais de Gilberto Gil, Laurie Anderson, Philip Glass, Velha Guarda da Portela e conjunto Época de Ouro, marcou o início de sua parceria com Carlinhos Brown.


“Barulhinho Bom, Uma Viagem Musical” (1996) foi produzido por Marisa e Arto Lindsay e com capa do quadrinista Carlos Zéfiro, pseudônimo de Alcides Caminha. É um álbum híbrido, parte ao vivo com registros do show “Verde, Anil, Amarelo, Cor de Rosa e Carvão”, no Rio de Janeiro, e parte em estúdio, com sete canções inéditas na voz de Marisa, como “Magamalabares” de Carlinhos Brown e “Tempos Modernos” de Lulu Santos.

Marisa Monte se consolidou como produtora com os elogiados “Omelete Man” de Carlinhos Brown e, no ano seguinte, “Tudo Azul” da Velha Guarda da Portela.

O disco “Memórias, Crônicas e Declarações de Amor” (2000), foi lançado pelo Phonomotor, o próprio Selo Musical da cantora. Apresentou ao público grandes sucessos como “Amor I Love You”, “Não Vá Embora” e “Não É Fácil”.

Marisa, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes lançaram o disco Tribalistas (2002) após inúmeras parcerias. O sucesso do CD foi nacional e internacional com uma coleção de hits, “Já Sei Namorar”, “Velha Infância” e “Passe em Casa”. Nesse mesmo ano, a paixão pela Portela, Escola de Samba do coração da cantora, resultou em mais dois discos produzidos por ela no Phonomotor: “Argemiro Patrocínio” e “Seu Jair do Cavaquinho

Marisa produziu e lançou dois projetos simultâneos e muito diferentes: “Universo Ao Meu Redor” que trazia uma profunda pesquisa do samba carioca e “Infinito Particular“ com músicas com Carlinhos Brown, Arnaldo Antunes, Nando Reis, Adriana Calcanhotto, Marcelo Yuka e Seu Jorge, que resultou na sua volta aos palcos após o nascimento do primeiro filho.

“O Que Você Quer Saber de Verdade” foi produzido por Marisa e co-produzido pelo grande amigo e instrumentista Dadi. O disco aprofundou a relação de criação de Marisa com Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown. Trouxe novidades como a primeira parceria com Rodrigo Amarante na canção “O Que Se Quer” e convidados como o produtor e multi instrumentista Gustavo Santaolalla, do grupo Café de Los Maestros e Miguel Atwood-Ferguson nos arranjos.

15 anos após o sucesso mundial do primeiro álbum, Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown voltaram a se reunir em um disco autoral dos Tribalistas, lançado com uma transmissão ao vivo de grande impacto no Facebook dos artistas. A live foi vista simultaneamente, durante uma hora, por 6 milhões de fãs em 52 países. No repertório, mais sucessos, como “Aliança”, “Fora da Memória” e “Diáspora”. O grupo realizou uma turnê nacional e internacional no ano seguinte, lançando também o álbum “Tribalistas Ao Vivo” em 2018.

Durante mais de 30 anos, Marisa produziu e acumulou uma grande quantidade de arquivos de áudio, audiovisual, fotografias, partituras, áudios de canções sendo compostas, dentre outros, o que foi fundamental para dar vida ao projeto Cinephonia. São 30 canções que fizeram parte de trilhas sonoras dos registros audiovisuais de Marisa, mas que não estavam disponíveis em áudio streaming até junho de 2020.

“Portas” é o mais recente álbum solo de Marisa Monte, gravado durante a pandemia, com bases feitas em estúdio no Rio de Janeiro. Posteriormente, aconteceram sessões remotas em Lisboa, Los Angeles, Madri, Barcelona e Nova York. O trabalho conta ainda com arranjos de Arthur Verocai, Antonio Neves e Marcelo Camelo e participações especiais de Seu Jorge e Flor. O disco foi mixado entre Rio de Janeiro, Los Angeles e Nova York e a masterização também foi feita à distancia em Nova York.

quinta-feira, 12 de junho de 2025

FEMINISMO: SOF

👩 SOF 👩
Sempreviva Organização Feminista

Resenha do Artigo: 
“Normas de gênero, práticas e saberes agrícolas femininos no Camarões: uma abordagem histórica” de Chantal Ndami.

No artigo “Normas de gênero, práticas e saberes agrícolas femininos no Camarões: uma abordagem histórica”, Chantal Ndami relata as normas de gênero e modalidades de produção agrícola no século XIX na região oeste do Camarões, habitada pelas etnias bamileke e nso. A agricultura era praticada em uma região montanhosa, de campos de altitude, com declividade em alguns casos de 30%, solos vulcânicos e fortes chuvas.

As mulheres se dedicavam à agricultura de subsistência e os homens à pecuária. As mulheres eram consideradas como quem alimenta o mundo, com a responsabilidade de assegurar a alimentação da família e produzir um excedente a ser comercializado. A agricultura era de domínio feminino e associada à feminilidade. Esta foi uma das agriculturas mais produtivas da África subsaariana, região do continente africano situada ao sul do deserto do Saara.

As mulheres detinham conhecimentos empíricos sobre as plantas, ciclo vegetativo, associações entre elas, quais cuidados necessitavam, quais solos eram apropriados, rendimentos e qualidades nutritivas, sendo os alimentos categorizados segundo o uso (como por exemplo, alimentos para grávidas, parturientes, para superar uma fadiga momentânea, entre outros).

Eram as mulheres as responsáveis pela seleção, conservação, utilização e circulação das sementes com uma gestão rigorosa da agrobiodiversidade, sendo o processo de diversificação de culturas uma preocupação constante. O uso das cinzas para recuperar a fertilidade do solo também era eficaz contra algumas doenças de tubérculos e certos insetos e roedores que atacavam as sementes. Os saberes ligados às sementes constituíam um elemento fundamental na educação agrícola das jovens nestas comunidades.

Figura feminina, data não identificada, povo Bamileque.
Acervo Museu Afro Brasil (MAB). Foto: Natália Blanco / SOF

As mulheres desenvolveram métodos de cultura, manejo dos solos e de sua fertilidade, eficazes para o cultivo em uma região montanhosa e sujeita a erosão. Elas tinham consciência da fragilidade dos solos. Plantavam morro abaixo com sulcos feitos na enxada e plantam cercas viva na curva de nível, o que retinha a água da chuva e facilitava a infiltração. Também utilizavam associação e rotação de culturas, plantio/manejo de árvores, adubação verde, plantas de cobertura (sang), cinzas domésticas, resíduo orgânico doméstico, esterco animal.

Elas realizavam uma prática chamada écobuage, que é característica da agricultura bamileke: consistia em carpir, enterrar a palhada e colocar fogo para uma combustão lenta e abafada. Esta técnica permitia obter solos mais leves e mais fáceis de trabalhar, com uma concentração mineral favorável à nutrição das plantas. Era utilizada nas áreas que são mais bem cuidadas, ao redor da casa, cultivadas intensamente com alimentos diversos consumidos pelas famílias.

Todos estes conhecimentos foram adaptados frente à pressão demográfica e mudanças na estrutura agrária que as obrigou a cultivos mais intensivos e o abandono da prática de pousio, técnica da agriculta tradicional. Neste caso passaram a usar mais esterco animal, o que destaca a importância da relação agricultura – de responsabilidade das mulheres – e pecuária – de responsabilidade dos homens.

A competência das mulheres na agricultura era esperada e valorizada. Elas eram as ma’su, mãe da enxada. A enxada é um instrumento de trabalho essencialmente feminino, fazia parte do enxoval das noivas e permitia às mulheres não só assegurar o sustento alimentar da família, mas sua independência econômica. Todas as mulheres eram antes de tudo agricultoras e a rainha mãe era responsável pelos trabalhos coletivos que se davam formalmente, nas associações femininas, ou informalmente, entre grupos de vizinhas ou familiares.

A solidariedade entre as mulheres era base de sua integração na vida social e econômica e os trabalhos coletivos realizados cada vez na área de uma delas. Os trabalhos coletivos e as feiras eram espaços de transmissão de saberes, inovações agrícolas, trocas de sementes de diferentes cultivares. As feiras eram um lugar de encontro de famílias que viviam isoladas, dia de pausa no trabalho agrícola, onde as pessoas se informavam, descobriam novas plantas e variedades, faziam trocas com povos vizinhos. A circulação de sementes tinham uma função na construção e consolidação de alianças, como nas alianças matrimoniais. Elas fazem parte do enxoval da noiva, presente de sua mãe e parentes mulheres.

A colonização inglesa impôs uma modernização agrícola, com a introdução da monocultura de café e de sementes homogêneas, cultivo em terraços e curva de nível. Permaneceram as práticas de adubação verde e uso de esterco animal. As mulheres se mostravam reticentes a estas mudanças e o fato de as práticas agrícolas serem transmitidas de mãe à filha pareceu aos colonizadores que eram imutáveis.

A agricultura realizada pelas mulheres foi considerada atrasada, um modo irracional de fazer agricultura, com a ideia de que o plantio no sentido do declive era por preguiça. Ainda que um agrônomo da época tenha escrito que naquela formação os terraços poderiam acumular água, apodrecer as raízes e causar deslizes mais graves. Para impor a monocultura do café e as novas técnicas os homens foram convocados à agricultura. A écoubage foi proibida. Esta intervenção teve como consequências: o enfraquecimento das redes de mulheres e das redes sociais, perda de cultivares, ruptura do equilíbrio do sistema de produção de alimentos, redução da criação de animais, desaparecimento das cercas viva, baixa de rendimento das culturas agrícolas, mudança nas normas de gênero, masculinização da agricultura, restrição do direito das mulheres ao uso da terra, deslegitimação do papel das mulheres na agricultura.

Esta visão de modernização da agricultura se manteve após a independência. Estas mudanças afetaram às mulheres, suas práticas agrícolas, papéis sociais e econômicos, reconhecimento de seus saberes e tecnologias e confiança em sua capacidade de inovação com consequências até os dias de hoje.

O conhecimento destas agricultoras é no presente uma questão central na preservação da biodiversidade, dos recursos naturais e da segurança alimentar.

Esta é uma resenha do artigo “Normes de genre, pratiques et savoirs agricoles féminin au Cameroun: une approche historique” de Chantal Ndami. Publicado originalmente em: https://books.openedition.org/iheid/7572

**Chantal Ndami é ativista afrofeminista e pesquisadora independente baseada em Dakar, Senegal. Doutora em História da África Contemporânea pela Université Paris Cité.

Por Miriam Nobre, coordenadora da equipe técnica da SOF Sempreviva Organização Feminista