Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
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terça-feira, 28 de julho de 2026

Feminismo: O que é Feminismo?


O que é feminismo? 
| Carol Sardá |

Você acredita que mulheres devem ter os mesmos direitos que homens? Então por que tanta gente ainda hesita quando a palavra é "feminismo"? 

Neste episódio de Aprender Liberta, Carol Sardá resgata a história do feminismo para além dos estereótipos e das caricaturas que marcaram o debate público nas últimas décadas. A partir das revoluções modernas, das lutas pelo direito ao voto, do acesso à educação e da participação política, o episódio mostra como o feminismo surgiu como um movimento social organizado para enfrentar desigualdades históricas entre homens e mulheres. 

Ao longo do vídeo, discutimos o surgimento dos movimentos sociais, a luta das sufragistas, a trajetória de importantes pensadoras e ativistas brasileiras e internacionais, além de conceitos fundamentais como patriarcado, gênero, cidadania, trabalho reprodutivo e interseccionalidade. Também analisamos como foram construídas algumas das principais desinformações sobre o feminismo e por que compreender sua história é essencial para entender as transformações sociais que moldaram o mundo contemporâneo.

Carol Sardá é publicitária, historiadora em formação e comunicadora.



quarta-feira, 13 de maio de 2026

Educação: Sociedades Matriarcais

Raízes do feminicídio: 
'  o desmonte do matriarcado pelo patriarcado '

Deusa Mãe de Madhya Pradesh, por volta do sec. VI ou VII.

As sociedades matriarcais eram profundamente ecológicas, pacíficas e inclusivas.

Houve uma época em que não se aceitava a existência histórica do matriarcado por insuficiência de dados. Mas as pesquisas arqueológicas, os estudos da psicologia do profundo e outros confirmaram o fato de que realmente existiu uma fase matriarcal da humanidade.

Primeiramente, ela foi identificada na bacia do Mediterrâneo e, depois, em quase todas as partes do mundo. Descobriram-se figuras femininas da divindade, as grandes mães de mil seios, simbolizando a fecundidade da mulher. Essas sociedades eram profundamente ecológicas, integradas à natureza, pacíficas e inclusivas.

Mas os tempos mudaram e, com eles, as relações entre homens e mulheres. Provavelmente, o desenvolvimento de instrumentos e tecnologias mais efetivas no domínio da natureza e na consecução dos alimentos, exigindo mais força física, permitiu aos homens ganharem, lentamente, mais proeminência. Eles se valeram destas vantagens e elaboraram estratégias para desbancarem o matriarcado. Assim, introduziram o domínio do homem sobre a mulher e a ocupação deles de todos os espaços públicos.

Deu-se uma verdadeira luta dos sexos, luta de gênero que não terminou ainda, pois continua até os dias de hoje. Exemplifiquemos.

Pecado das origens.

É emblemática a forma como foi retrabalhado o pecado de Adão e Eva. Nele, se revela todo o esforço de desmonte do matriarcado por parte do patriarcado. Essa visão foi aprofundada a partir de 1986, quando se criou a Internationale Akademie HAGIA, dedicada à pesquisa crítica e às experiências do matriarcado. A fundadora Heide Göttner-Abendroht resumiu as pesquisas em dois volumes – Das Matriarcat I e II (Stuttgart, 1988 e 1991).

Para a nossa reflexão, são fundamentais os estudos multidisciplinares de duas eruditas teólogas feministas, Riane Eisler (Sex Myth and Poilitics of the Body: New Paths to Power and Love, HarperCollins, San Francisco, 1955) e Françoise Gange (Les Dieux Menteurs, Editions Indigo-Côtes Femmes, Paris, 1997). Elas, de forma refinada, usando a linguística, o estruturalismo e outras ciências afins, mostraram que ao atual relato patriarcal subjaz um relato matriarcal anterior. Ele foi apagado e reescrito para justificar o poder patriarcal sobre a mulher. Seguiremos sua argumentação.

Os ritos e símbolos sagrados do matriarcado são diabolizados e retroprojetados às origens na forma de um relato primordial fundado no desígnio do Criador. O atual relato do Pecado das Origens coloca em xeque quatro símbolos fundamentais da religião das grandes deusas-mães.

O primeiro símbolo a ser atacado foi a própria mulher (Livro do Gênesis, 3, 16), que, na cultura matriarcal, era dotada do sexo sagrado, gerador de vida. Como tal, ela simbolizava a Grande-Mãe, a Suprema Divindade.

Em segundo lugar, desconstruiu-se o símbolo da serpente, considerado o atributo principal da Deusa-Mãe. Ela representava a sabedoria divina, que se renovava sempre como a pele da serpente.

Em terceiro lugar, desfigurou-se a árvore da vida, sempre tida como um dos símbolos principais da vida, ligando o céu com a Terra. A árvore continuamente renova a vida, como fruto melhor da divindade e do universo. O Gênesis 3, 6 reconhece, explicitamente, que “a árvore era boa para se comer, uma alegria para os olhos e desejável para se agir com sabedoria”. Mas sobre ela recai o interdito, nem se pode tocá-la, porque pode produzir a morte.

Em lugar, destruiu-se a relação homem-mulher, que, originariamente, constituía o coração da experiência do sagrado. A sexualidade era sagrada, pois possibilitava o acesso ao êxtase e ao saber místico.

O atual relato do pecado das origens inverteu totalmente o sentido profundo e verdadeiro desses símbolos. Dessacralizou-os,,diabolizou-os e os transformou de bênção em maldição.

A mulher será eternamente maldita, feita um ser inferior: “O homem a dominará” (Gn, 3,1 6). O poder da mulher de dar a vida foi transformado numa maldição: ”Multiplicarei o sofrimento da gravidez” (Gn 3, 16). Como se depreende, a inversão foi total e com consequências altamente negativas para o imaginário posterior, controlado pelos homens.

A serpente é maldita (Gn 3, 14) e feita símbolo do demônio tentador. O símbolo principal da mulher foi transformado em seu inimigo figadal: ”Porei inimizade entre ti e a mulher” (Gn 3,15).

A árvore da vida e da sabedoria, na atual leitura patriarcal, vem sob o signo do interdito (Gn 3, 3). Antes, na cultura matriarcal, comer da árvore da vida era se imbuir de sabedoria. Agora, comer dela significa um perigo mortal anunciado por Deus mesmo: ”Não comais do fruto da árvore do meio do jardim, sequer a toque, do contrário, morrereis” (Gn, 3,3).

O amor sagrado entre o homem e a mulher vem distorcido: ”Entre dores darás à luz os filhos; a paixão arrastar-te-á para o marido e ele te dominará” (Gn 3, 16).

Mudança de paradigma.

A partir de então, se tornou impossível uma leitura positiva da sexualidade, do corpo e da feminilidade. Aqui está a justificativa histórico-social do crime do feminicídio no Brasil e no mundo. Segundo a ONU, 140 mulheres são vítimas de feminicídio por dia no mundo. Na América Latina e Caribe, 11; no Brasil, quatro diárias.

Aqui se mostra o que se operou com a desconstrução total do relato anterior, feminino e sacral. Reescreveu-se o relato original das origens de forma a contaminar todas as significações posteriores. Todos somos, bem ou mal, reféns do relato adâmico, antifeminista e culpabilizador.

O trabalho das teólogas Riane Eisler e Françoise Gange pretende ser intencionalmente libertador ao mostrar o caráter construído do atual relato dominante, centrado sobre a dominação, o pecado e a morte; e ao propor uma alternativa mais originária e positiva na qual aparece uma relação nova com a vida, com o poder, com o sagrado e com a sexualidade. E impossibilitar o feminicídio.

Essa interpretação não visa repristinar uma situação passada, mas encontrar um ponto de equilíbrio maior entre os valores masculinos e femininos para os tempos atuais.

Estamos assistindo a uma mudança de paradigma nas relações masculino/feminino. Ela deve ser consolidada com um pensamento profundo e integrador, que possibilite uma felicidade pessoal e coletiva maior do que aquela debilmente alcançada sob o regime patriarcal. É o que as feministas, políticas, antropólogas, filósofas e teólogas do Brasil e do mundo estão fazendo com expressiva criatividade.

Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.

REVISTA LIBERTA
9 maio 2026


terça-feira, 7 de abril de 2026

Educação: Violência Adolescente

Como meninos aprendem a odiar e se tornam homens violentos?

Garotos são educados para a violência e estimulados desde cedo a fazer uso dela.

Cenas da série televisiva: "Adolescência"

Matéria: 04 de abril de 2026.

Desde a série inglesa Adolescência, de Stephen Grahem e Jack Thorne, a preocupação com a educação de meninos vem aumentando, sobretudo, porque muitos têm se tornado adeptos da ideologia misógina da chamada “machosfera”.

Os quatro episódios da série inglesa contam a história do menino Jamie, que, aos 13 anos, mata sua colega da mesma idade. A narrativa foca na sensação de absurdo em torno do garoto, que, como a maioria de sua geração, em principio, deveria passar o tempo jogando videogame no próprio quarto.

Os personagens espelham a perplexidade que espectadores necessariamente sentem diante de um fato como esse e, sobretudo, quando se dão conta de que essa é a nova vida real. Não é fácil dar-se conta de que a série é uma obra de ficção sobre a mais pura e, infelizmente, mais próxima realidade.

Assassino qualificado.

A perplexidade diante do desconhecido vem desaparecendo, pois há cada vez mais casos de adolescentes que matam, que cometem até mesmo massacres. Seja nos Estados Unidos ou pelo mundo afora e até mesmo no Brasil, a violência praticada por jovens aumenta. Detalhe fundamental é que esses adolescentes praticantes de violência são, em sua absoluta maioria, pessoas do sexo masculino, projetos de homens, agindo contra mulheres, estuprando-as sozinhos ou em maltas, mas também matando-as.

O menino do filme é, praticamente, uma criança e, no entanto, um assassino qualificado. Ele matou a colega a quem convidou para encontrar com ele no estacionamento da escola. Os episódios apontam para a ausência de motivações. Ninguém entende por que o jovem fez o que fez.

O contexto familiar não estimula a compreensão do crime como um feminicídio. Os pais do jovem feminicida são trabalhadores de classe média, que se dedicam à família, à casa, à educação dos filhos. A filha do casal, irmã do assassino, é uma garota normal, entristecida pela situação, como não poderia deixar de ser.

Ao mesmo tempo, o crime cometido pelo menino é marcado pela banalidade. No momento em que a adolescente assassinada se encontra com o garoto, a pedido dele, ele a esfaqueia sem mais explicações. O roteiro põe foco na subjetividade do adolescente, apresentando a perplexidade dos adultos. O que fazer com um menino que parecia uma criança e, de repente, se torna um assassino raivoso? Os pais, os professores, a psicóloga que o atende na prisão e até mesmo os policiais envolvidos no caso, todos agem segundo as necessidades de suas funções, mas todos estão perdidos diante do que se constitui como um mistério.

Poderíamos falar do “mistério da iniquidade”, remontando ao velho tema teológico do mistério do mal. É Paulo quem escreve em uma de suas cartas sobre esse tema (2 Tessalonicenses, 2:7) para se referir à atuação oculta do mal contra Deus no mundo. Mas, na verdade, se trataria do “mistério da iniquidade” masculina em relação ao qual já não há mistério nenhum.

Pesquisas revelam o óbvio, que a maioria dos crimes violentos cometidos no mundo são cometidos por homens. E os homens jovens seguem na mesma linha. De fato, há mulheres que matam, mas são muito poucas, realmente pouquíssimas. Os homens matam a si mesmos e matam as mulheres porque são estimulados a exercitar a violência que eles detêm como se fosse um monopólio. Enquanto as meninas são educadas para o cuidado e aprendem a cuidar, os homens são educados para a violência e aprendem a fazer uso dela.

Alguns devem estar se perguntando, perplexos, sobre a presença do ódio na vida de meninos bem educados. Como meninos e jovens com pais e mães gentis e preocupados com sua formação vêm manifestando ódio contra meninas e mulheres? Como é possível que eles venham a aderir à misoginia, quando suas famílias não propagam ideologias de ódio? De fato, em ambientes propícios, o ódio aumenta. Mas, infelizmente, além da família, há a educação escolar e outras instituições que ajudam a educar os meninos.

Masculinidade letal.

Porém, até mesmo as melhores escolas têm produzidos jovens misóginos, o que prova que há problemas ainda mais profundos que a educação não alcança em curto, médio ou longo prazo. A saber, o campo da cultura, da vida cotidiana, dos relacionamentos entre grupos de homens, que têm suas regras e funcionamento próprios, porque se perceberam como suficientes, como importantes, como uma identidade coesa, que traz satisfação e autorrealização.

Os meninos estão se tornando misóginos num processo de subjetivação e socialização pelos pares que atravessou e colocou a lei por terra. A internet é o novo território sem lei que pede que o crime se faça, e os criminosos aparecem com as novas armas, as novas tecnologias para dominar o mundo.

Adolescência é uma série que trata da presença da internet como ambiente que promove e estimula o crime, justamente porque é um território sem lei. A regulamentação da internet é essencial para coibir o avanço do crime. Como a internet e as redes sociais são muito novas, a zona cinzenta entre o que é certo e o que é errado está sendo usada como espaço de poder e violência para todo tipo de lucro.

Os crimes de ódio, baseados em preconceitos contra o outro, encontraram na era digital uma incubadora estimulada por seus proprietários, que sabem o valor do ódio. A Meta, de Marck Zuckerberg, foi recentemente condenada a pagar mais de US$ 300 milhões num processo movido no estado do Novo México, sob a acusação de criar “ambiente propício” para predadores sexuais em plataformas como Facebook e Instagram e não alertar usuários sobre riscos, nem adotar medidas suficientes para proteger crianças.

Zuckerberg está lucrando com o território que ele ocupa na sua colonização digital, assim como os red pills, os grupos de incels (“celibatários involuntários”), MG Towns e outros que se organizam pela internet afora.

É nesse ambiente digital que surgiu a chamada “machosfera”, como mercado do ódio, no qual alguns representantes da “masculinidade tóxica” – e, devemos dizer, também “masculinidade letal” – funcionam como CEOs de um grande empreendimento, no qual vendem a si mesmos. Ali, todo homem quer ser o “capital” e trabalha seu corpo para isso, tornando-se “soldado”, criando a estética da violência decorativa, que une os homens numa identidade de seita. Os meninos estão expostos a isso nas redes e são capturados pelo ideal de masculinidade, que faz parte da cultura patriarcal, sobre a qual prometo falar em outro artigo.

A criminalização da misoginia vai abalar esse mercado, mas vai abalar também a cultura do ódio às mulheres, que traz tanta compensação emocional a homens ricos e pobres, líderes e liderados, todos unidos na identidade do macho abusivo e agressivo, capaz de matar e, atualmente, de se matar também ao buscar um fim apoteótico para uma vida sem sentido.

Marcia Tiburi
Formada em filosofia e artes. Lecionou em universidades brasileiras e estrangeiras. Publicou 7 romances, entre eles Com os sapatos aniquilados, Helena avança na neve (Nós, 2023) e diversos ensaios, entre eles “Como conversar com um fascista”, “Complexo de vira-lata: análise da humilhação brasileira” (Civilização Brasileira, 2021) entre outros.




domingo, 29 de março de 2026

Histórias do Brasil: Nenê Romano

Uma história de misoginia e feminicídio.
' Nenê Romano '

Escultura "Interrogação" do artista Francisco Leopoldo e Silva,
para a tumba de Moacyr Piza. Cemitério da Consolação 1923.
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"Nenê Romano: a mulher que São Paulo matou duas vezes"

"Viver e morrer na São Paulo dos anos 1920 era, para uma mulher dona de seu próprio corpo e destino, um ato de transgressão punível com a morte e o apagamento histórico".
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Os cemitérios parecem ser o espelho invertido das cidades que os abrigam. No Cemitério da Consolação, reduto final de boa parte da aristocracia paulistana, as alamedas ladeadas por mausoléus suntuosos narram a história oficial de uma metrópole que enriqueceu à sombra dos cafezais. Ali, na Quadra 83, repousa uma das esculturas mais emblemáticas da arte tumular brasileira: “Interrogação”, obra em granito assinada pelo mestre Francisco Leopoldo e Silva. A peça retrata uma “mulher nua, semi-reclinada, sentada com as pernas sobrepostas e parcialmente estendidas, com o rosto abaixado demonstrando pesar, formando um ponto de interrogação para demonstrar a incompreensão sobre a morte de Moacir Toledo Piza.”

A narrativa oficial, perpetuada por guias e enciclopédias, afirma que a estátua expressa a dor e a absoluta incompreensão diante do suicídio do homem ali sepultado: Moacyr de Toledo Piza, um jovem, brilhante e aristocrático advogado, jornalista e escritor. Contudo, a pedra fria de Leopoldo e Silva narra apenas a metade de uma história. A efetiva interrogação que a escultura lança sobre o Brasil não diz respeito ao fim trágico de um boêmio desiludido, mas ao silenciamento de um crime brutal. A estátua oculta, sob o véu da melancolia romantizada, o feminicídio cometido contra Romilda Machiaverni, eternizada na crônica urbana sob o nome de Nenê Romano.

Para compreender o peso dessa interrogação, é preciso voltar os olhos para a São Paulo da década de 1920. A capital paulista vivia a ebulição de uma modernidade vacilante. O dinheiro do café financiava a construção de palacetes nos Campos Elíseos, Higienópolis, Avenida Paulista e a importação de espetáculos líricos para o Theatro Municipal. Era uma cidade de contrastes violentos, onde a elite conservadora desfilava sua moralidade de fachada enquanto sustentava uma fervilhante vida noturna, regada a luxúria em cabarés e bordéis exclusivos.

Nesse cenário de transição, onde os imigrantes italianos já moldavam a demografia e a força de trabalho da cidade, nasceu Romilda Machiaverni, em 1897. Filha de pais que se conheceram e casaram em São Paulo, ela começou a trabalhar cedo como costureira e, depois, como camareira no prestigiado Hotel Bella Vista. Dona de uma beleza estonteante – descrita pelos contemporâneos como bella da venere -, Romilda logo chamou a atenção dos barões do café e figurões da “República Velha” que ali se hospedavam. Adotando os pseudônimos de Olga e, definitivamente, Nenê Romano para “não envergonhar” a família, ela deixou os lençois que arrumava para deitar-se naqueles de seda, tornando-se a mais célebre e cobiçada cortesã de São Paulo.

Nenê transitava livremente pelo grand monde, desfilando joias no Trianon e frequentando os mesmos espaços da elite que a desejava em segredo e a repudiava em público. Essa liberdade custou caro. Em 1916, sofreu um atentado a mando de Maria Eugênia, filha de Íria Junqueira, uma poderosa “sinhá do café”, de Cravinhos, enciumada porque seu pretendente havia beijado a mão da cortesã em plena Avenida Paulista. Os jagunços contratados desferiram uma navalhada no pescoço de Nenê, deixando-lhe uma cicatriz profunda.

Foi a busca por justiça que selou o destino de Nenê. Para processar seus agressores, ela contratou os serviços do eminente advogado Moacyr de Toledo Piza. Membro de uma das famílias mais tradicionais do estado, Piza era um intelectual afeito à sátira e à boemia. O encontro profissional rapidamente desaguou em uma paixão avassaladora. Moacyr tornou-se obcecado por Nenê. A relação, que durou cerca de dois anos, foi marcada pelo ciúme doentio e pela possessividade do advogado, que exigia exclusividade de uma mulher cuja sobrevivência e status dependiam de seus múltiplos e abastados “benfeitores.”

Retrato de Nenê Romano.
Fonte: Sampa Histórica/Opera Mundi.

As tensões atingiram o ápice no agitado ano de 1923. Moacyr publicou o panfleto Roupa Suja (Polêmica Alegre), uma crítica cáustica à elite paulista e, em especial, ao então presidente do Estado (e futuro presidente da República), Washington Luís. Nos bastidores, comentava-se que Washington Luís era um dos frequentadores assíduos do leito de Nenê Romano. A obra de Piza, lavando a “roupa suja” da oligarquia, expôs a cortesã de forma velada, provocando a ira de Nenê, que não desejava ver seu nome arrastado para a lama das disputas políticas. Ela rompeu o relacionamento. Moacyr, financeiramente arruinado e com o orgulho ferido, não aceitou o fim.

Na noite de 25 de outubro de 1923, o advogado a interceptou quando ela entrava em um táxi. Pediu para acompanhá-la até a Avenida Angélica. No trajeto, durante uma discussão acalorada, Moacyr sacou um revólver e disparou cinco vezes à queima-roupa, brutalmente, contra a ex-amante. Em seguida, atirou contra o próprio peito. História recorrente no Brasil de ontem e de hoje, não?

O que se seguiu ao duplo disparo foi o implacável julgamento moral de uma sociedade patriarcal. A imprensa da época não hesitou em inverter os papéis. Moacyr Piza foi chorado nas páginas dos jornais como um “inditoso moço”, uma mente brilhante vitimada pelo “fogo da paixão torturante e louca.” A culpa pelo assassinato recaiu sobre a vítima. O jornal “O Combate” referiu-se a Nenê como “flor da rua e da lama”, a megera sedutora que havia enfeitiçado e levado à ruína um cidadão de bem. Ao assassino, reservaram-se as honrarias da memória; à mulher morta, o escárnio e o esquecimento:

“Matou-se Moacyr Piza, o brilhante, o audaz, o valoroso escriptor que todo São Paulo admirava. Matou-se depois de ter matado Nenê Romano, a mulher fatal, que tinha um rosto de anjo e uma alma perversa (…) Nenê Romano, flôr de rua e da lama, mulher do povo e contra o povo, que possuia o sorriso que accendia os mais perigosos fogos da paixão torturante e louca; o mais completo symbolo da leviandade e da perversidade muliebre conseguiu, com a suggestão da mulher que faz soffrer e ri, armar o braço de Moacyr Piza e desafiar a morte.”

O trecho é a síntese surreal da misoginia nacional. O tratamento dispensado aos corpos reflete com precisão cirúrgica a estrutura de classe e gênero do Brasil. Moacyr foi sepultado na Consolação, sob o peso artístico de A Interrogação, e em 1935 batizou uma rua no nobre bairro do Jardim Paulista. Ironicamente, a poucos quarteirões dali, outra via paulistana carrega o nome de Peixoto Gomide, ex-presidente do Senado Estadual que, em 1906, assassinou a própria filha, Sophia, com um tiro na testa antes de se matar. A geografia urbana de São Paulo é, literalmente, pavimentada com homenagens a feminicidas, uma ferida que recentes projetos de lei na Câmara Municipal tentam curar propondo a renomeação dessas vias para Rua Nenê Romano e Rua Sophia Gomide, respectivamente.

Enquanto isso, os restos mortais de Nenê Romano foram relegados ao Cemitério do Araçá. Sem herdeiros ou admiradores dispostos a manter sua memória, seu jazigo foi abandonado. Em abril de 1995, o túmulo foi desapropriado pelo Serviço Funerário e seus ossos foram transferidos para o ossário geral do cemitério, misturando-se ao anonimato absoluto. Há quem argumente que Nenê Romano foi enterrada no Cemitério da Quarta Parada (Brás). Em todo caso, seu apagamento foi concluído com sucesso.

Viver e morrer na São Paulo dos anos 1920 era, para uma mulher dona de seu próprio corpo e destino, um ato de transgressão punível com a morte e o apagamento histórico. E as consequências dessa engrenagem patriarcal ecoam tragicamente nos dias de hoje. O Brasil de 2025 registrou o recorde histórico de 1.470 feminicídios – uma média aterradora de quatro mulheres assassinadas por dia. A estrutura que permitiu à sociedade paulistana chorar o algoz e culpar a vítima há um século é a mesma que, ainda hoje, questiona o comportamento ou as escolhas das mulheres brutalizadas por seus parceiros.

A estátua “Interrogação” no Cemitério da Consolação não chora a morte de Moacyr Piza. Se a observarmos com as lentes de hoje, veremos que a mulher de pedra, com a cabeça baixa e o corpo nu, chora por Nenê Romano. Ela nos interroga, há cem anos, sobre a nossa conivência. Pergunta-nos até quando continuaremos erguendo monumentos aos assassinos enquanto atiramos as vítimas na vala comum do esquecimento. A interrogação não é sobre o amor que mata, pois o amor não deveria apertar gatilhos. A interrogação é sobre um país que ainda se recusa a confrontar os fantasmas de sua própria e estrutural misoginia.

Lindener Pareto Jr.
Professor, Historiador, Comunicador. Mestre e Doutor pela USP. Curador Acadêmico no Instituto Conhecimento Liberta (ICL). Apresentador do “Provocação Histórica", programa semanal de divulgação de História, Cultura e Arte nos canais do ICL. Autor de "Crônico e Anacrônico: escritos de um operário do tempo", pela editora Autonomia Literária (2025).

Plataforma 


sábado, 28 de março de 2026

Feminismo: Misoginia

O que é a misoginia?
' O problema que ninguém quer encarar '

"O capitalismo produz os corpos dos operários e dos empresários dos quais ele precisa para se sustentar como sistema" M. Weber

"O patriarcado produz os corpos dos homens, das mulheres e dos gêneros dos quais ele precisa para poder se sustentar"

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Plano de aula.

A misoginia não é um fenômeno isolado, ela é parte de uma construção histórica profunda que ainda molda a sociedade. Nesta aula, Marcia Tiburi explica como o patriarcado se formou ao longo do tempo e como ele sustenta práticas, valores e violências que continuam impactando a vida das mulheres até hoje, incluindo o feminicídio. 

No curso Misoginia e Feminicídio, a filósofa Marcia Tiburi analisa as raízes culturais, sociais e políticas da violência de gênero, mostrando como ela se manifesta no cotidiano e nas estruturas da sociedade. A proposta é ampliar o entendimento sobre o tema e provocar uma reflexão crítica sobre o mundo em que vivemos.




segunda-feira, 9 de março de 2026

Feminismo: Feminicídio

Um pacto pela vida das mulheres é URGENTE!

Brasil bate recorde com 15 mil casos de feminicídio em dez anos — quatro a cada dia.


"Quatro mulheres são assassinadas, todos os dias, no Brasil"

Essa frase deveria ser suficiente para provocar uma comoção nacional permanente. Mas não provoca. No máximo, vira manchete por algumas horas até ser empurrada para o rodapé das notícias ou substituída por outra tragédia.

No Brasil, morrer mulher virou estatística. Em 2025, o país voltou a bater o recorde de feminicídios desde que o crime foi tipificado em lei, em 2015. Foram mais de 1.500 mulheres assassinadas, simplesmente, por serem mulheres. Desde a criação da lei, mais de 15 mil brasileiras tiveram suas vidas interrompidas pela violência de gênero.

Mas os números não contam tudo. Eles não contam o medo que acompanha cada mulher quando atravessa uma rua à noite. Não contam o cuidado ao entrar num carro de aplicativo, o olhar constante sobre o retrovisor ou a mensagem obsessiva que vira ameaça e, em muitos casos, morte.
Feminicídio não é acidente

A morte é apenas o último capítulo de uma história que a sociedade insiste em fingir que não vê. O feminicídio não é acidente, porque quase sempre há sinais, há histórico de agressão, há denúncia ignorada, medidas protetivas descumpridas, vizinhos que ouviram gritos e amigos que sabiam. Mesmo assim, seguimos ignorando.

O caso de Juliana Soares escancarou esse roteiro. Dentro de um elevador, ela recebeu 61 socos no rosto, desferidos pelo companheiro. Não foi um descontrole momentâneo. Foi método. Estudos mostram que o rosto é frequentemente o alvo escolhido pelos agressores, porque destruir o rosto é tentar destruir a identidade da mulher. E o feminicídio é exatamente isso: a tentativa final de apagar uma mulher.

Mas o Brasil tem outra característica trágica: a capacidade de se acostumar com o horror. Vivemos no país onde uma pessoa é estuprada a cada seis minutos, e a maioria das vítimas são meninas. Vivemos no país onde crianças violentadas dentro da própria casa precisam provar que são vítimas, onde ainda se debate se meninas estupradas devem ou não ter direito de interromper uma gravidez que nunca escolheram.

Não é coincidência. É cultura. Uma cultura que, há séculos, naturaliza o controle, a humilhação e a violência contra mulheres. E, quando mulheres denunciam, ainda são tratadas como exageradas.

Por que essa luta não pode mais ser apenas das mulheres? Ela precisa ser também dos homens, das instituições, dos governos, da imprensa, das escolas e da justiça. Homens precisam romper o silêncio entre si, precisam confrontar e denunciar amigos violentos. Precisam entender que a masculinidade não pode continuar sendo construída sobre dominação.

Governos precisam tratar a proteção das mulheres como prioridade absoluta, e não como discurso de campanha.

A justiça precisa agir com rapidez. A sociedade precisa parar de perguntar “o que ela fez?” e começar a perguntar “por que ele fez?”.

Porque nenhuma mulher morre por acaso.


Vítimas também do esquecimento.

Juliane Soares, a mulher que recebeu mais de 60 socos no rosto dentro de um elevador, já foi esquecida. Depois dela vieram Tainara Souza Santos, Allane de Souza Pedrotti Mattos, Layse Costa Pinheiro, Rosilene Barbosa, Jhessilane Silva, Isabele Gomes de Macedo e tantas outras mulheres que, além de esquecidas, estão mortas.

Em outubro de 2009, a então estudante de turismo Geisy Arruda foi cercada, insultada e humilhada por dezenas de colegas por causa da roupa que usava: um vestido curto, cor-de-rosa. Gritos, ameaças, celulares gravando, seguranças tentando conter uma multidão que parecia mais interessada em punir e julgar. Tudo isso dentro de uma universidade.

A instituição, num primeiro momento, expulsou Geisy – como se o problema fosse a existência dela, e não a violência coletiva que se formou ao seu redor. A vítima virou culpada.

O episódio expôs algo que ainda persiste no Brasil: a facilidade com que uma mulher é transformada em alvo público quando ousa ocupar o próprio corpo com liberdade.

Passaram-se 17 anos e o Brasil ainda não aprendeu que uma mulher não precisa se cobrir ou se adequar para evitar a violência. Mulheres podem escolher sair de um relacionamento, podem dizer não, sem serem mortas ou mutiladas.

Não podemos perder a capacidade de indignação, mas isso também já não é mais suficiente. Um compromisso se faz urgente, um pacto, e ele é simples até:

Não normalizar.
Não silenciar.
Não esquecer.

Porque, enquanto uma única mulher morrer por ser mulher, nenhuma de nós estará realmente segura. E nenhuma sociedade estará realmente livre.

@Revista Liberta
Matéria: 7 mar 2026

Vivian Mesquita
Apresentadora, Repórter e Editora Chefe Executiva com passagens pela Editora Abril, Rede Globo e Canais ESPN Disney. Especialista em esportes de ação em mercado mundial. Profissional com formação consolidada na área de mídia e conteúdo esportivo, com mais de 20 anos de experiência em TV. Relacionamento sólido com a comunidade criativa local, produtoras, talentos, atletas, marcas e mídia. Habilidades em gestão de equipes, processos organizacionais e comunicação. Apresentadora do ICL Notícias - 1ª Edição.


quinta-feira, 5 de março de 2026

FeMiNiSmO: Direito ao Voto

Mulheres eram só espectadoras.
O Patriarcado

' Para críticos do voto feminino, mulher não tinha intelecto e deveria ficar restrita ao lar '

Neste mês, completam-se 90 anos que as mulheres do Brasil conseguiram o direito de votarem e serem votadas. O avanço veio pelo Código Eleitoral assinado pelo presidente Getúlio Vargas em 24 de fevereiro de 1932. Até então, o poder público era legalmente um feudo masculino.

Documentos históricos guardados no Arquivo do Senado, em Brasília, revelam que os homens retardaram ao máximo a inclusão das mulheres na vida política. Das primeiras discussões parlamentares à histórica canetada de Vargas, passaram-se quase 40 anos.

A luta política.

Foi durante os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte de 1890-1891 que a possibilidade de liberação do voto feminino apareceu pela primeira vez na arena política, alimentada pelas promessas da nascente República de modernizar o Brasil.

— É assunto de que não cogito. O que afirmo é que minha mulher não irá votar — discursou, categórico, o senador Coelho e Campos (SE) em 1891.

Para conservar as mulheres afastadas das urnas e do poder, os senadores e deputados adversários do voto feminino recorreram a argumentos preconceituosos e depreciativos. Segundo esse grupo da Constituinte, elas precisavam continuar restritas às quatro paredes do lar porque, caso os homens perdessem o domínio sobre elas, o país sofreria uma convulsão social.

Em tom poético, o deputado Serzedelo Correa (PA) afirmou:

— A mulher, pela delicadeza dos afetos, pela sublimidade dos sentimentos e pela superioridade do amor, é destinada a ser o anjo tutelar da família, a educadora do coração e o apoio moral mais sólido do próprio homem. Jogá-la no meio das paixões e das lutas políticas é tirar-lhe essa santidade que é a sua força, essa delicadeza que é a sua graça, esse recato que é o seu segredo. É destruir, é desorganizar a família. A questão é de estabilidade social.

O deputado Pedro Américo (PE), já famoso por ter pintado o quadro Independência ou Morte, evitou os floreios:

— A observação dos fenômenos afetivos, fisiológicos, psicológicos, sociais e morais me persuade que a missão da mulher é mais doméstica do que pública, mais moral do que política. A mulher normal e típica não é a que vai ao foro, à praça pública nem às assembleias políticas defender os direitos da coletividade, mas a que fica no lar doméstico exercendo as virtudes feminis, base da tranquilidade da família e, por consequência, da felicidade social.

Bela, recatada e do lar.

No fim, depois de vários argumentos irracionais como esses, as decisões contrárias ao voto feminino prevaleceram, e a Constituição de 1891 entrou em vigor sem conceder direitos políticos às mulheres. A exclusão das mulheres estava tão arraigada na sociedade que a proibição do voto nem precisou ser escrita na lei. 

A nova Constituição estabeleceu que todos os cidadãos maiores de 21 anos poderiam votar e ser votados, menos os mendigos, os analfabetos, os soldados rasos e os religiosos sujeitos a voto de obediência. 

As mulheres não apareceram nessa lista de exceções. A proibição ficou subentendida. Pelo costume, as mulheres casadas deviam submissão ao marido; as solteiras, ao pai; e as viúvas, ao filho mais velho.

O tema só voltou às discussões parlamentares duas décadas e meia mais tarde. E com força total. Embora os tempos fossem outros, os senadores e deputados resistentes à mudança recorreram aos velhos argumentos dos primórdios da República. Em 1917, um deputado favorável ao voto feminino lembrou que a Constituição brasileira não impedia as mulheres de ir às urnas e que tal proibição recaía sobre alguns poucos grupos, como o dos religiosos que deviam voto de obediência às suas congregações.

Em 1916, entrou em vigor o primeiro Código Civil brasileiro, e ele estabeleceu que as mulheres casadas eram “incapazes” para certos atos da vida civil. Se quisessem trabalhar, receber herança e até ajuizar ação judicial, por exemplo, precisavam da autorização expressa do marido.

Nesse momento, ao contrário dos tempos da Assembleia Nacional Constituinte, já não servia o argumento de que o voto feminino não existia em lugar nenhum. Os primeiros países a liberá-lo foram a Nova Zelândia, em 1893, e a Austrália, em 1902. No fim dos anos 1920, a Inglaterra e os Estados Unidos, duas das nações mais influentes do planeta, já haviam concedido direitos políticos às mulheres. No Brasil, o calor das discussões parlamentares da década de 1920 dava a entender que o voto feminino seria, sim, aprovado. Era apenas questão de tempo.

Um sinal claro disso veio do Nordeste. Em 1927, de forma pioneira, o Rio Grande do Norte autorizou suas mulheres a votarem e serem votadas. Na época, os estados tinham mais liberdade legislativa do que hoje e podiam estabelecer suas próprias regras eleitorais. Assim, o Rio Grande do Norte elegeu em 1928 a primeira prefeita do Brasil. A vitória de Alzira Soriano, na cidade de Lajes, foi notícia até no New York Times.

Em 1930, o país assistiu a um golpe de Estado que derrubou o presidente Washington Luís e fechou o Senado e a Câmara, abatendo todos os projetos de lei que estavam em análise. O debate sobre o voto feminino, contudo, já estava maduro. Ainda com o Parlamento fechado, o presidente Getúlio Vargas assinou o decreto do Código Eleitoral de 1932, que modernizou o voto no Brasil. A nova norma instituiu o voto secreto, criou a Justiça Eleitoral e também liberou o voto das mulheres.

A luta dos movimentos feministas.

No fim do século 19, por exemplo, já havia mulheres que editavam jornais e escreviam peças teatrais defendendo o sufrágio feminino. No começo do século 20, o movimento feminista se organizou e ganhou corpo. O voto feminino não foi uma concessão dos homens. Foi uma conquista das mulheres.

Os papéis do Arquivo do Senado mostram que, se por um lado as mulheres, sendo inelegíveis, não puderam expor seus argumentos nos debates do Plenário, por outro lado elas de fato fizeram nos bastidores uma forte pressão sobre os políticos que tinham voz na arena política. De 1917 em diante, nas ocasiões em que os projetos referentes ao voto feminino entravam em debate, as feministas sempre iam às galerias do Senado e da Câmara para se manifestar.

Os grandes nomes do movimento sufragista no Brasil foram Leolinda Daltro, que em 1910 criou o Partido Republicano Feminino (“partido” apenas no nome), e Bertha Lutz, que uma década depois fundou a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher (mais tarde rebatizada de Federação Brasileira pelo Progresso Feminino).

As duas mostraram na prática que as mulheres eram capazes de atuar politicamente. Elas, por exemplo, souberam cultivar relações com políticos influentes.

Leolinda se aproximou da primeira-dama Orsina da Fonseca e foi várias vezes recebida pelo presidente Hermes da Fonseca. Foi ela quem convenceu o deputado Maurício de Lacerda a apresentar o projeto de lei de 1917.

Bertha, por sua vez, entrou no círculo de amizades do senador Justo Chermont, o autor do projeto de 1919. Uma das mulheres que a ajudaram a fundar a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher foi justamente a esposa do senador, Isabel Imbassahy Chermont.

Ao longo dos anos, em ações separadas, Leolinda e Bertha arregimentaram senhoras e senhoritas para a causa feminista, fizeram passeatas, publicaram anúncios na imprensa, reuniram-se com jornalistas, distribuíram panfletos nas ruas do Rio de Janeiro, organizaram abaixo-assinados, mandaram cartas para os políticos.

Apesar dos negacionistas, direitos conquistados!

Instituído o voto feminino em 1932, os políticos mais reacionários não se deram por vencidos e se dedicaram à missão de revogá-lo quando o Congresso foi reaberto. Alguns discursos nagativistas da época, foram:

— O voto feminino foi apenas manobra da direita para se garantir contra a possibilidade de um surto esquerdista — opinou o deputado Zoroastro Gouveia (SP) em 1934.

— As mulheres, sugestionadas pelos padres quando tiverem de votar, certamente tentarão obrigar os maridos a sufragar o candidato do clero. Daí poderá até resultar a dissolução de muitas famílias, ocasionando como consequência o acréscimo da prostituição — argumentou o deputado Antônio Pennafort (SC).

O deputado Aarão Rebelo (SC) disse que, em nome do “bom senso”, o Brasil deveria imitar a Alemanha e revogar o “privilégio” do voto feminino:

— Ainda há dias, o Sr. Adolf Hilter, em discurso dirigido aos seus apaniguados, lembrou os grandes males causados pelo feminismo e disse que a salvação da Alemanha reside na preparação do cidadão nazista, começando pela educação doméstica confiada no lar à mulher.

— o feminismo não passava de uma “aberração social” e, como tal, precisava ser aniquilado.

Porém, os argumentos contra a cidadania da mulher dessa vez não vingaram, e a Constituição de 1934 foi promulgada confirmando o voto feminino.

No entanto, tal qual o Código Eleitoral de 1932, definiu-o como facultativo — ao contrário do voto masculino, obrigatório. Isso significa que o Estado não interferiu no poder do homem dentro de casa. A mulher, ainda que legalmente apta a votar, não iria às urnas se o marido assim decidisse. A igualdade política entre os sexos só veio em 1965, quando o voto feminino passou de direito a dever.

A historiadora Teresa Cristina de Novaes Marques, que é professora na Universidade de Brasília (UnB) e autora dos livros O Voto Feminino no Brasil e Bertha Lutz (ambos das Edições Câmara), lembra que, apesar de todos esses avanços legais, um número grande de mulheres — em especial as negras — continuou por muito tempo sem direitos políticos, já que a legislação manteve a proibição do voto dos analfabetos.

No passado, o analfabetismo era mais alto entre as mulheres do que entre os homens. Até hoje, é mais alto na população negra do que na branca. Em 1932, na prática, o direito de voto foi dado às mulheres brancas. Foi apenas em 1985 que saber ler e escrever deixou de ser exigência para obter o título de eleitor.

De acordo com a historiadora, as décadas de luta pelos direitos políticos das mulheres trazem lições para a atualidade:

— A exclusão das mulheres da política no passado pode ser comparada no presente à exclusão ou à baixa representação de certos grupos sociais nos postos eletivos. As próprias mulheres até hoje são minoria no poder. A história da campanha sufragista e a biografia das feministas podem ser um alento e uma inspiração para aqueles que lutam hoje por seus direitos. Ao mesmo tempo, a história daquelas sufragistas ensina que, quando queremos uma mudança, nós precisamos saber que ela não virá de graça nem de uma hora para a outra e que, por isso, precisaremos agir, pressionar, resistir, insistir. Se não fizermos os movimentos, a reforma que desejamos não ocorrerá.

Tv Senado
Ricardo Westin
Publicado em 4/2/2022


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O Blues como Libertação Feminina

Entrevista: 
Karen Lovely

A data dessa entrevista não importa, pois ela é tão atual como nunca!

A maioria das pessoas se sentiria verdadeiramente abençoada por poder ganhar a vida fazendo algo que ama. Karen Lovely certamente valoriza as oportunidades que a vida lhe proporcionou, especialmente devido às dificuldades que enfrentou antes de iniciar sua carreira.

“Cantar é tudo para mim! Fisicamente, entro em abstinência se fico muito tempo sem cantar. É uma catarse, especialmente as apresentações ao vivo. Uma das coisas que eu amo no blues é que não é só uma música jovem e bonitinha como o pop. A comunidade do blues não exclui as pessoas mais velhas, nós as acolhemos. É música para pessoas que realmente se importam com música.”

Crescendo em Boston como a mais velha de nove irmãos, Lovely estava sempre rodeada pelas vozes de sua mãe e avó, que cantavam o tempo todo. “Minha avó tinha vitrolas e fonógrafos antigos, então ouvíamos discos juntas. Ela também me ensinou a dançar foxtrote, charleston e outras danças de outros tempos. Eu escolhia o disco, dava corda na vitrola e dançávamos juntas. A primeira música pela qual me apaixonei foi Billie Holiday cantando “Pennies From Heaven”. A letra se encaixa na categoria blues. Era a música favorita da minha avó, então eu a cantei para ela quando ela faleceu.”

A família de Lovely morava em uma área etnicamente diversa, à sombra da Ponte do Rio Mystic, então conhecida como Ponte Tobin. Ela comprava muitos discos de 45 rotações de rhythm and blues, já que esse gênero musical era muito popular na época. Sua formação musical começou com aulas de piano e violão, enquanto aprimorava suas habilidades vocais no coral da igreja católica local, uma religião que não gozava de grande prestígio na época. Mas um evento mudou tudo.

“Quando John F. Kennedy foi eleito presidente dos Estados Unidos, foi um momento marcante para minha família, nossa vizinhança e a cidade. Foi notável que um católico se tornasse presidente. Minha família sempre foi politicamente ativa. Eu cresci muito consciente das questões de direitos civis. Apesar de toda a sua diversidade,

Boston tem alguns dos bairros mais intolerantes em termos étnicos. Eu tinha plena consciência da injustiça social e também de que eu tinha um papel a desempenhar na construção de um mundo melhor. Minha família sempre votou e eu criei meus dois filhos para fazerem o mesmo.

A cantora viajou bastante, morando em Los Angeles por nove anos, em Londres por um ano e em Portland, Maine, antes de se estabelecer no Oregon há vinte anos. Após sair de um relacionamento abusivo, Lovely passou um ano morando nas ruas. “Isso realmente influenciou tudo o que fiz depois. Me mostrou o melhor e o pior da vida. Foi uma experiência reveladora que me tornou sensível a muitas questões. Isso me levou a me envolver com o ativismo e o apoio a vítimas de violência doméstica. Dez por cento do dinheiro que arrecadei por meio de financiamento coletivo para meu último álbum, Fish Outta Water , foi doado para a RAINN, a maior organização do país que trabalha com vítimas de agressão sexual”. (https://www.rainn.org/)

“Em cada um dos meus álbuns, escrevo músicas que abordam especificamente questões sociais como moradores de rua, violência doméstica, dependência química, doenças mentais e suicídio. Estou tentando não apenas conscientizar, mas também oferecer caminhos para que as pessoas busquem ajuda e aprendam a reconhecer quando alguém realmente precisa de auxílio. Vejo a situação dos moradores de rua de uma maneira diferente devido às minhas próprias experiências. Como artista, sou grato por ter uma plataforma para alcançar as pessoas, ajudar a construir um mundo com tolerância zero e combater um pouco da escuridão que existe por aí.”

“Minha música sempre se concentrou em questões sociais, não em política. Mas, com o rumo das eleições recentes, decidi incluir algumas canções políticas no meu último álbum. Por isso, resolvi trabalhar com o produtor Eric Corne. Ele é um ótimo compositor desse tipo de música – “Waking Up The Dead”, “Molotov Cocktail”.”

Eric é canadense, então ele está olhando para a situação e pensando: "Meu Deus, isso realmente aconteceu nos Estados Unidos? Depois do progresso dos últimos anos, tudo explodiu da noite para o dia. As pessoas precisam pesquisar os candidatos e entender melhor as consequências do voto. Estou indignado que metade do nosso país não tenha votado. E há grupos investigando o quanto da nossa eleição foi realmente manipulada. Pensamos no nosso país como uma democracia, mas é assustador perceber a rapidez com que o processo eleitoral se descontrolou."

“Quando eu era criança, assistia ao Walter Cronkite, numa época em que o jornalismo era reverenciado. Somos um pouco ingênuos, não estamos acostumados com notícias falsas, então fomos enganados. E a mídia nem sempre nos mostra o que realmente está acontecendo. Agora mesmo, há enormes protestos contra Putin ocorrendo na Rússia, mas nunca vemos cobertura desses protestos na grande mídia. Os manifestantes estão tentando expor a corrupção do governo. Vi uma foto de um auditório vazio. Havia um pedaço de papel com o nome e a foto de um jornalista colado no encosto de cada assento. Eram jornalistas assassinados durante o governo de Putin. Cada assento tinha um pedaço de papel.”

O tempo que passou vivendo nas ruas teve um impacto profundo na visão de vida e de mundo de Lovely. Ela alerta que muitos de nós não estamos muito imunes a situações semelhantes. “É mais fácil acabar sem-teto do que qualquer um imagina. A maioria de nós sabe que estamos a um salário de distância de viver nas ruas, a menos que tenhamos bons recursos, como família e amigos. Muitas famílias vivem de salário em salário. Tenho certeza de que existem algumas exceções, mas não conheço nenhum músico de blues rico. Lutamos para sobreviver como qualquer outra pessoa”.

“Situações de violência doméstica não afetam nenhuma classe socioeconômica, raça, religião ou orientação sexual. Não é fácil para as mulheres desestruturarem suas famílias e se mudarem. Não temos todos os recursos necessários para isso. Para mim, foi uma decisão de não permanecer em um relacionamento abusivo, então deixei tudo para trás. Meu ex-parceiro tinha controle total sobre minha vida financeira, então levei muito tempo para me reerguer. Demorei um ano para juntar dinheiro suficiente para alugar meu próprio apartamento, o que foi difícil para mim e para meu filho.”

“Na época, eu era um músico profissional tentando fazer turnês. Como sociedade, falhamos em muitos aspectos ao não fornecer recursos para cuidar das pessoas. Grande parte da população sem-teto é composta por adolescentes que fugiram de casa para escapar de situações familiares de abuso físico ou sexual. Eles acham que estão mais seguros nas ruas do que em casa. E eu perdi vários amigos por suicídio porque eles não receberam a ajuda adequada. Quando você está em situação de rua, tende a ser muito reservado. Pouquíssimas pessoas sabiam da minha situação durante o ano em que a enfrentei. Eu tinha vergonha, me sentia constrangido. E me sentia mal como pai por meu filho estar passando por isso comigo. É por isso que me esforço tanto para conscientizar as pessoas sobre violência doméstica e doenças mentais.”

Lovely sempre quis cantar. Quando fez o teste para o coral, esperava ser selecionada para uma das cinco vagas disponíveis. Todas as crianças que faziam o teste cantavam e as freiras ouviam, depois tocavam no ombro dos alunos selecionados. Quando chegou a hora da última vaga, Lovely rezava por uma intervenção divina. “Elas continuavam passando por mim sem me tocar. Finalmente, o tormento acabou. Como é típico da minha vida, elas deram um toque relutante, o que me fez a criança mais feliz do mundo, mas logo em seguida comentaram que não era porque eu cantava bem, mas sim porque eu falava alto! Esse comentário ficou na minha cabeça por muito tempo”.

“Quando eu morava em Londres, em 1988, meu namorado e eu estávamos na recepção de casamento de amigos. Como presente de casamento, me pediram para cantar “Summertime”. Eu tinha bebido champanhe e estava bêbada o suficiente para aceitar. Na manhã seguinte, um cara que tinha ido à recepção me ligou porque queria que eu cantasse em uma das casas noturnas dele. Então fizemos um trio para ele. Eu estava incrivelmente nervosa, morrendo de medo do palco.” Depois daquele ano, Lovely se mudou para Los Angeles e não cantou em público novamente até 2007. Conforme foi ficando mais velha, a ideia de uma carreira musical se tornou uma vaga lembrança.

Quando seu filho adoeceu, Lovely recebeu inesperadamente um conselho que mudaria sua vida. “A enfermeira do consultório médico me disse que meu filho ficaria bem. Mas ela estava preocupada comigo. Então, ela me convidou para participar de um coral feminino do qual ela fazia parte. Isso me fez voltar a cantar e salvou minha vida. Comecei a frequentar jams de blues, me divertindo tanto que perdi o medo. Finalmente, pedi ao dono de um clube para me dar meu próprio show, porque eu estava cansada de cantar músicas de jam. Então, em 29 de setembro de 2007, fiz meu primeiro show profissional desde que saí de Londres”.

“Gravei algumas músicas na esperança de conseguir trabalho como backing vocal ou em jingles. Eu era uma mulher de meia-idade de quarenta e oito anos. Quem iria querer me ouvir? Fiz covers de músicas antigas de blues para uma fita demo. Meu tecladista, Michael Vannice, era muito amigo de Dennis Walker, produtor de Robert Cray. Ele achou que Dennis poderia melhorar a música, e melhorou mesmo. Para o próximo álbum, Still The Rain , trabalhei com Dennis e Alan Mirikitani. Eles me apresentaram muitas músicas ótimas. Foi assim que tudo começou. Participei do International Blues Challenge e fiquei em segundo lugar na categoria de bandas. Depois, o álbum foi lançado e recebeu três indicações ao Blues Music Award. Em um ano, minha vida virou de cabeça para baixo. Ainda me impressiona.” Lovely foi indicada ao Blues Blast Music Award na categoria Artista Feminina de Blues em 2011 e 2016.

Seu álbum Prohibition Blues destacou canções de blues das décadas de 1920 e 1930, compostas por artistas femininas. Lovely ministra workshops que abordam o papel que as mulheres desempenharam naquela época para popularizar o blues. Em seu trabalho seguinte, Ten Miles Of Bad Road , ela passou a dar destaque às suas próprias canções. “Escrevi ou coescrevi todas as músicas, exceto uma, desse disco. Pretendia fazer o mesmo com Fish Outta Water , mas não tinha todas as minhas músicas prontas. Gosto de aprender algo quando tenho a sorte de trabalhar com compositores realmente excelentes. Isso certamente me ajuda a aprimorar minha arte. Meu próximo álbum incluirá mais composições minhas. Trabalhar com Dennis, Tony Braunagel e Eric Corne em meus projetos de estúdio tem sido um verdadeiro aprendizado.”

Mirikitani teve um papel fundamental na formação da música do Lovely. “Al era um grande amigo meu e esteve envolvido em todos os álbuns até Ten Miles Of Bad Road . Dennis e Al foram dois dos melhores compositores que já conheci. Al também era um ótimo vocalista, engenheiro de som e músico. Ele era extraordinário, um gênio. Uma das músicas dele que gravamos foi “Company Graveyard”. A letra era: “Ain't gonna die in a company graveyard” (Não vou morrer num cemitério de empresa). Eu cantava como “Ain't gonna die” (Não vou morrer). Conversamos sobre isso. Ele disse que ninguém vive para sempre. Eu respondi que a música vive para sempre. Estávamos brincando até que ele disse: ‘Ok, faça do seu jeito’. Cerca de três semanas depois, ele faleceu durante uma sessão de gravação. Ele é uma parte essencial de tudo o que faço musicalmente. Não há um dia que passe sem que eu sinta saudades dele. Agora eu o ouço através de suas músicas.”

“Sou compositor desde sempre. É nisso que quero me tornar bom. Podemos dizer tanta coisa com nossas canções. Grande parte do blues está enraizada na progressão tradicional I-IV-V. O que definia o blues antigamente era a simplicidade da música, com suas múltiplas camadas de significado. Havia muitos marcadores nas letras que significavam uma coisa para o público branco e outra para o público negro. O nível de sofisticação na composição era impressionante. Mas parece que isso se perdeu na composição contemporânea. De certa forma, houve um banalização do blues. Para mim, a canção é soberana. Cada canção é uma história. E eu sempre preciso contar uma boa história.”


Feminismo: Dissonância Cognitiva Coletiva

Violência vicária e misoginia

A culpabilização da mulher é gêmea da desinformação que sustenta o patriarcado.


Matéria Revista Liberta
21/Fev - 2026

Pesquisas recentes demostram aumento da violência contra mulheres, enquanto outras formas de violência diminuem. No Brasil e no mundo, fala-se em “epidemia” de feminicídio, sem contar as habituais formas de violência doméstica e os casos de estupro (cerca de nove estupros por hora no Brasil).

O aumento da violência contra mulheres implica que a violência não é neutra, algo que a expressão “violência doméstica” acaba por camuflar.

Estamos falando de violência de homens contra mulheres. Para deixar bem claro, a violência domestica é uma prática, principalmente masculina, que tem a ver com monopólio da violência, mas também com a violência como um privilégio, ou seja, com a simples autorização para praticá-la.

Essa autorização é cultural. A violência é a própria matriz de subjetivação masculina, ou seja, dos valores e hábitos de produção da masculinidade na cultura. Enquanto homens são formados e educados pela violência, as mulheres são educadas para o cuidado. Ainda que haja exceções, essa é uma regra.
Argumento falacioso

Contra o argumento falacioso de que homens também matam homens e praticam muita violência contra homens, como se a naturalidade com que se aceita a cultura da violência masculina endógena tivesse força de verdade, podemos sempre lembrar que, de fato, homens matam homens, mas matam também mulheres e crianças.

Mulheres, por sua vez, matam, mas em parâmetros estatísticos muito inferiores e até mesmo excepcionais em relação à regra masculina. Lembrando sempre que é a exceção que estabelece a regra.

Nesse cenário, um tipo um pouco diferente de violência chamou atenção nos últimos dias. Foi a chamada “violência vicária”, que veio à tona com o caso de Thiago Machado, assassino de seus dois filhos – depois do crime, ele tirou a própria vida na cidade de Itumbiara, em Goiás.

A violência vicária é praticada para atingir a mãe cometendo violência contra seus filhos ou pessoas a ela ligadas. Trata-se de uma violência que tem algo de indireto, pois não atinge o corpo da vítima, mas atinge o corpo e a vida de pessoas amadas pela pessoa que se quer atingir.

A violência praticada por Thiago Machado não é incomum. Há inúmeros casos de homens que matam os filhos para atingir a mãe. Vicária é a destruição da vida simbólica de uma mãe, que permanecerá viva sob um eterno sofrimento calculado pelo perpetrador do crime.

Que haja pessoas que tenham condenado Thales por não ter matado a ex-mulher, e sim os filhos, sugere a naturalização da matança de mulheres e uma culpabilização que também é naturalizada. Os meninos poderiam ser poupados, a mulher não.

A culpabilização da mulher é gêmea da desinformação machista que sustenta o patriarcado. Em palavras muito simples, poucos se ocupam em ver a versão da mulher, enquanto a palavra de um homem vale apenas por ter sido dita ou escrita, como é o caso da carta divulgada do assassino-suicida.

A carta valeu como prova da verdade para muita gente, apenas porque veio a público. A presunção de verdade e inocência do homem – mesmo ele sendo explicitamente culpado de seu crime – gerou uma culpabilização da mulher, cuja condição de vítima não foi questionada pelos odiadores misóginos das redes. É a inversão do sentido, a vítima tratada como culpada, o que está em cena.
Delírio machista

O acontecimento produziu diversos atos de misoginia contra a mãe dos meninos assassinados e ex-esposa do pai-assassino. A partir da carta do assassino-suicida, a mãe foi julgada nas redes e culpabilizada por pessoas que sequer sabiam o que estava acontecendo e aceitavam, previamente, a verdade da narrativa do assassino-suicida.

Quando veio à tona que o pai-assassino é que teria traído a sua esposa, motivo pelo qual ela se separou dele, sendo, portanto, sua ex-esposa, a mesma população não veio pedir desculpas pelo erro.

De um lado, todos sabem que a desinformação é muito difícil de desfazer, ou seja, ela é sistêmica, ela cria um imaginário da verdade pelo qual a verdade significa que “uma mulher é culpada”. Esse é o núcleo da misoginia desde Eva e Pandora.

Uma mulher é a inimiga porque é a culpada de todos os males na vida dos homens. Não se imputa ao homem a loucura, a maldade e nem mesmo a responsabilidade pelos próprios crimes. Ele mata com suas próprias mãos e armas, mas no delírio machista é uma mulher que o levou a isso. Esse é o tipo de imaginário covarde promovido pelo patriarcado.

Se, de um lado, as pessoas não conseguem acessar a informação verdadeira depois de uma onda de mentiras, de fake news, de outro lado, é o julgamento prévio, é a prática da misoginia que move a turba de modo a desresponsabilizar o homem.

Assim, a população virtual realizou um verdadeiro linchamento da mãe nas redes sociais. No enterro dos próprios filhos, ela teve que ser escoltada pela polícia como uma criminosa sujeita ao justiçamento público.

Por que essa sociedade precisa culpar as mulheres para liberar os homens de suas responsabilidades se explica pelo fato de que a sociedade que odeia as mulheres é a mesma que ama e cultua os homens.

@RevistaLiberta

Marcia Tiburi
Formada em filosofia e artes. Lecionou em universidades brasileiras e estrangeiras. Publicou 7 romances, entre eles Com os sapatos aniquilados, Helena avança na neve (Nós, 2023) e diversos ensaios, entre eles “Como conversar com um fascista”, “Complexo de vira-lata: análise da humilhação brasileira” (Civilização Brasileira, 2021) entre outros.