Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
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domingo, 29 de março de 2026

Histórias do Brasil: Nenê Romano

Uma história de misoginia e feminicídio.
' Nenê Romano '

Escultura "Interrogação" do artista Francisco Leopoldo e Silva,
para a tumba de Moacyr Piza. Cemitério da Consolação 1923.
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"Nenê Romano: a mulher que São Paulo matou duas vezes"

"Viver e morrer na São Paulo dos anos 1920 era, para uma mulher dona de seu próprio corpo e destino, um ato de transgressão punível com a morte e o apagamento histórico".
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Os cemitérios parecem ser o espelho invertido das cidades que os abrigam. No Cemitério da Consolação, reduto final de boa parte da aristocracia paulistana, as alamedas ladeadas por mausoléus suntuosos narram a história oficial de uma metrópole que enriqueceu à sombra dos cafezais. Ali, na Quadra 83, repousa uma das esculturas mais emblemáticas da arte tumular brasileira: “Interrogação”, obra em granito assinada pelo mestre Francisco Leopoldo e Silva. A peça retrata uma “mulher nua, semi-reclinada, sentada com as pernas sobrepostas e parcialmente estendidas, com o rosto abaixado demonstrando pesar, formando um ponto de interrogação para demonstrar a incompreensão sobre a morte de Moacir Toledo Piza.”

A narrativa oficial, perpetuada por guias e enciclopédias, afirma que a estátua expressa a dor e a absoluta incompreensão diante do suicídio do homem ali sepultado: Moacyr de Toledo Piza, um jovem, brilhante e aristocrático advogado, jornalista e escritor. Contudo, a pedra fria de Leopoldo e Silva narra apenas a metade de uma história. A efetiva interrogação que a escultura lança sobre o Brasil não diz respeito ao fim trágico de um boêmio desiludido, mas ao silenciamento de um crime brutal. A estátua oculta, sob o véu da melancolia romantizada, o feminicídio cometido contra Romilda Machiaverni, eternizada na crônica urbana sob o nome de Nenê Romano.

Para compreender o peso dessa interrogação, é preciso voltar os olhos para a São Paulo da década de 1920. A capital paulista vivia a ebulição de uma modernidade vacilante. O dinheiro do café financiava a construção de palacetes nos Campos Elíseos, Higienópolis, Avenida Paulista e a importação de espetáculos líricos para o Theatro Municipal. Era uma cidade de contrastes violentos, onde a elite conservadora desfilava sua moralidade de fachada enquanto sustentava uma fervilhante vida noturna, regada a luxúria em cabarés e bordéis exclusivos.

Nesse cenário de transição, onde os imigrantes italianos já moldavam a demografia e a força de trabalho da cidade, nasceu Romilda Machiaverni, em 1897. Filha de pais que se conheceram e casaram em São Paulo, ela começou a trabalhar cedo como costureira e, depois, como camareira no prestigiado Hotel Bella Vista. Dona de uma beleza estonteante – descrita pelos contemporâneos como bella da venere -, Romilda logo chamou a atenção dos barões do café e figurões da “República Velha” que ali se hospedavam. Adotando os pseudônimos de Olga e, definitivamente, Nenê Romano para “não envergonhar” a família, ela deixou os lençois que arrumava para deitar-se naqueles de seda, tornando-se a mais célebre e cobiçada cortesã de São Paulo.

Nenê transitava livremente pelo grand monde, desfilando joias no Trianon e frequentando os mesmos espaços da elite que a desejava em segredo e a repudiava em público. Essa liberdade custou caro. Em 1916, sofreu um atentado a mando de Maria Eugênia, filha de Íria Junqueira, uma poderosa “sinhá do café”, de Cravinhos, enciumada porque seu pretendente havia beijado a mão da cortesã em plena Avenida Paulista. Os jagunços contratados desferiram uma navalhada no pescoço de Nenê, deixando-lhe uma cicatriz profunda.

Foi a busca por justiça que selou o destino de Nenê. Para processar seus agressores, ela contratou os serviços do eminente advogado Moacyr de Toledo Piza. Membro de uma das famílias mais tradicionais do estado, Piza era um intelectual afeito à sátira e à boemia. O encontro profissional rapidamente desaguou em uma paixão avassaladora. Moacyr tornou-se obcecado por Nenê. A relação, que durou cerca de dois anos, foi marcada pelo ciúme doentio e pela possessividade do advogado, que exigia exclusividade de uma mulher cuja sobrevivência e status dependiam de seus múltiplos e abastados “benfeitores.”

Retrato de Nenê Romano.
Fonte: Sampa Histórica/Opera Mundi.

As tensões atingiram o ápice no agitado ano de 1923. Moacyr publicou o panfleto Roupa Suja (Polêmica Alegre), uma crítica cáustica à elite paulista e, em especial, ao então presidente do Estado (e futuro presidente da República), Washington Luís. Nos bastidores, comentava-se que Washington Luís era um dos frequentadores assíduos do leito de Nenê Romano. A obra de Piza, lavando a “roupa suja” da oligarquia, expôs a cortesã de forma velada, provocando a ira de Nenê, que não desejava ver seu nome arrastado para a lama das disputas políticas. Ela rompeu o relacionamento. Moacyr, financeiramente arruinado e com o orgulho ferido, não aceitou o fim.

Na noite de 25 de outubro de 1923, o advogado a interceptou quando ela entrava em um táxi. Pediu para acompanhá-la até a Avenida Angélica. No trajeto, durante uma discussão acalorada, Moacyr sacou um revólver e disparou cinco vezes à queima-roupa, brutalmente, contra a ex-amante. Em seguida, atirou contra o próprio peito. História recorrente no Brasil de ontem e de hoje, não?

O que se seguiu ao duplo disparo foi o implacável julgamento moral de uma sociedade patriarcal. A imprensa da época não hesitou em inverter os papéis. Moacyr Piza foi chorado nas páginas dos jornais como um “inditoso moço”, uma mente brilhante vitimada pelo “fogo da paixão torturante e louca.” A culpa pelo assassinato recaiu sobre a vítima. O jornal “O Combate” referiu-se a Nenê como “flor da rua e da lama”, a megera sedutora que havia enfeitiçado e levado à ruína um cidadão de bem. Ao assassino, reservaram-se as honrarias da memória; à mulher morta, o escárnio e o esquecimento:

“Matou-se Moacyr Piza, o brilhante, o audaz, o valoroso escriptor que todo São Paulo admirava. Matou-se depois de ter matado Nenê Romano, a mulher fatal, que tinha um rosto de anjo e uma alma perversa (…) Nenê Romano, flôr de rua e da lama, mulher do povo e contra o povo, que possuia o sorriso que accendia os mais perigosos fogos da paixão torturante e louca; o mais completo symbolo da leviandade e da perversidade muliebre conseguiu, com a suggestão da mulher que faz soffrer e ri, armar o braço de Moacyr Piza e desafiar a morte.”

O trecho é a síntese surreal da misoginia nacional. O tratamento dispensado aos corpos reflete com precisão cirúrgica a estrutura de classe e gênero do Brasil. Moacyr foi sepultado na Consolação, sob o peso artístico de A Interrogação, e em 1935 batizou uma rua no nobre bairro do Jardim Paulista. Ironicamente, a poucos quarteirões dali, outra via paulistana carrega o nome de Peixoto Gomide, ex-presidente do Senado Estadual que, em 1906, assassinou a própria filha, Sophia, com um tiro na testa antes de se matar. A geografia urbana de São Paulo é, literalmente, pavimentada com homenagens a feminicidas, uma ferida que recentes projetos de lei na Câmara Municipal tentam curar propondo a renomeação dessas vias para Rua Nenê Romano e Rua Sophia Gomide, respectivamente.

Enquanto isso, os restos mortais de Nenê Romano foram relegados ao Cemitério do Araçá. Sem herdeiros ou admiradores dispostos a manter sua memória, seu jazigo foi abandonado. Em abril de 1995, o túmulo foi desapropriado pelo Serviço Funerário e seus ossos foram transferidos para o ossário geral do cemitério, misturando-se ao anonimato absoluto. Há quem argumente que Nenê Romano foi enterrada no Cemitério da Quarta Parada (Brás). Em todo caso, seu apagamento foi concluído com sucesso.

Viver e morrer na São Paulo dos anos 1920 era, para uma mulher dona de seu próprio corpo e destino, um ato de transgressão punível com a morte e o apagamento histórico. E as consequências dessa engrenagem patriarcal ecoam tragicamente nos dias de hoje. O Brasil de 2025 registrou o recorde histórico de 1.470 feminicídios – uma média aterradora de quatro mulheres assassinadas por dia. A estrutura que permitiu à sociedade paulistana chorar o algoz e culpar a vítima há um século é a mesma que, ainda hoje, questiona o comportamento ou as escolhas das mulheres brutalizadas por seus parceiros.

A estátua “Interrogação” no Cemitério da Consolação não chora a morte de Moacyr Piza. Se a observarmos com as lentes de hoje, veremos que a mulher de pedra, com a cabeça baixa e o corpo nu, chora por Nenê Romano. Ela nos interroga, há cem anos, sobre a nossa conivência. Pergunta-nos até quando continuaremos erguendo monumentos aos assassinos enquanto atiramos as vítimas na vala comum do esquecimento. A interrogação não é sobre o amor que mata, pois o amor não deveria apertar gatilhos. A interrogação é sobre um país que ainda se recusa a confrontar os fantasmas de sua própria e estrutural misoginia.

Lindener Pareto Jr.
Professor, Historiador, Comunicador. Mestre e Doutor pela USP. Curador Acadêmico no Instituto Conhecimento Liberta (ICL). Apresentador do “Provocação Histórica", programa semanal de divulgação de História, Cultura e Arte nos canais do ICL. Autor de "Crônico e Anacrônico: escritos de um operário do tempo", pela editora Autonomia Literária (2025).

Plataforma 


sábado, 28 de março de 2026

Feminismo: Misoginia

O que é a misoginia?
' O problema que ninguém quer encarar '

"O capitalismo produz os corpos dos operários e dos empresários dos quais ele precisa para se sustentar como sistema" M. Weber

"O patriarcado produz os corpos dos homens, das mulheres e dos gêneros dos quais ele precisa para poder se sustentar"

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Plano de aula.

A misoginia não é um fenômeno isolado, ela é parte de uma construção histórica profunda que ainda molda a sociedade. Nesta aula, Marcia Tiburi explica como o patriarcado se formou ao longo do tempo e como ele sustenta práticas, valores e violências que continuam impactando a vida das mulheres até hoje, incluindo o feminicídio. 

No curso Misoginia e Feminicídio, a filósofa Marcia Tiburi analisa as raízes culturais, sociais e políticas da violência de gênero, mostrando como ela se manifesta no cotidiano e nas estruturas da sociedade. A proposta é ampliar o entendimento sobre o tema e provocar uma reflexão crítica sobre o mundo em que vivemos.




segunda-feira, 9 de março de 2026

Feminismo: Feminicídio

Um pacto pela vida das mulheres é URGENTE!

Brasil bate recorde com 15 mil casos de feminicídio em dez anos — quatro a cada dia.


"Quatro mulheres são assassinadas, todos os dias, no Brasil"

Essa frase deveria ser suficiente para provocar uma comoção nacional permanente. Mas não provoca. No máximo, vira manchete por algumas horas até ser empurrada para o rodapé das notícias ou substituída por outra tragédia.

No Brasil, morrer mulher virou estatística. Em 2025, o país voltou a bater o recorde de feminicídios desde que o crime foi tipificado em lei, em 2015. Foram mais de 1.500 mulheres assassinadas, simplesmente, por serem mulheres. Desde a criação da lei, mais de 15 mil brasileiras tiveram suas vidas interrompidas pela violência de gênero.

Mas os números não contam tudo. Eles não contam o medo que acompanha cada mulher quando atravessa uma rua à noite. Não contam o cuidado ao entrar num carro de aplicativo, o olhar constante sobre o retrovisor ou a mensagem obsessiva que vira ameaça e, em muitos casos, morte.
Feminicídio não é acidente

A morte é apenas o último capítulo de uma história que a sociedade insiste em fingir que não vê. O feminicídio não é acidente, porque quase sempre há sinais, há histórico de agressão, há denúncia ignorada, medidas protetivas descumpridas, vizinhos que ouviram gritos e amigos que sabiam. Mesmo assim, seguimos ignorando.

O caso de Juliana Soares escancarou esse roteiro. Dentro de um elevador, ela recebeu 61 socos no rosto, desferidos pelo companheiro. Não foi um descontrole momentâneo. Foi método. Estudos mostram que o rosto é frequentemente o alvo escolhido pelos agressores, porque destruir o rosto é tentar destruir a identidade da mulher. E o feminicídio é exatamente isso: a tentativa final de apagar uma mulher.

Mas o Brasil tem outra característica trágica: a capacidade de se acostumar com o horror. Vivemos no país onde uma pessoa é estuprada a cada seis minutos, e a maioria das vítimas são meninas. Vivemos no país onde crianças violentadas dentro da própria casa precisam provar que são vítimas, onde ainda se debate se meninas estupradas devem ou não ter direito de interromper uma gravidez que nunca escolheram.

Não é coincidência. É cultura. Uma cultura que, há séculos, naturaliza o controle, a humilhação e a violência contra mulheres. E, quando mulheres denunciam, ainda são tratadas como exageradas.

Por que essa luta não pode mais ser apenas das mulheres? Ela precisa ser também dos homens, das instituições, dos governos, da imprensa, das escolas e da justiça. Homens precisam romper o silêncio entre si, precisam confrontar e denunciar amigos violentos. Precisam entender que a masculinidade não pode continuar sendo construída sobre dominação.

Governos precisam tratar a proteção das mulheres como prioridade absoluta, e não como discurso de campanha.

A justiça precisa agir com rapidez. A sociedade precisa parar de perguntar “o que ela fez?” e começar a perguntar “por que ele fez?”.

Porque nenhuma mulher morre por acaso.


Vítimas também do esquecimento.

Juliane Soares, a mulher que recebeu mais de 60 socos no rosto dentro de um elevador, já foi esquecida. Depois dela vieram Tainara Souza Santos, Allane de Souza Pedrotti Mattos, Layse Costa Pinheiro, Rosilene Barbosa, Jhessilane Silva, Isabele Gomes de Macedo e tantas outras mulheres que, além de esquecidas, estão mortas.

Em outubro de 2009, a então estudante de turismo Geisy Arruda foi cercada, insultada e humilhada por dezenas de colegas por causa da roupa que usava: um vestido curto, cor-de-rosa. Gritos, ameaças, celulares gravando, seguranças tentando conter uma multidão que parecia mais interessada em punir e julgar. Tudo isso dentro de uma universidade.

A instituição, num primeiro momento, expulsou Geisy – como se o problema fosse a existência dela, e não a violência coletiva que se formou ao seu redor. A vítima virou culpada.

O episódio expôs algo que ainda persiste no Brasil: a facilidade com que uma mulher é transformada em alvo público quando ousa ocupar o próprio corpo com liberdade.

Passaram-se 17 anos e o Brasil ainda não aprendeu que uma mulher não precisa se cobrir ou se adequar para evitar a violência. Mulheres podem escolher sair de um relacionamento, podem dizer não, sem serem mortas ou mutiladas.

Não podemos perder a capacidade de indignação, mas isso também já não é mais suficiente. Um compromisso se faz urgente, um pacto, e ele é simples até:

Não normalizar.
Não silenciar.
Não esquecer.

Porque, enquanto uma única mulher morrer por ser mulher, nenhuma de nós estará realmente segura. E nenhuma sociedade estará realmente livre.

@Revista Liberta
Matéria: 7 mar 2026

Vivian Mesquita
Apresentadora, Repórter e Editora Chefe Executiva com passagens pela Editora Abril, Rede Globo e Canais ESPN Disney. Especialista em esportes de ação em mercado mundial. Profissional com formação consolidada na área de mídia e conteúdo esportivo, com mais de 20 anos de experiência em TV. Relacionamento sólido com a comunidade criativa local, produtoras, talentos, atletas, marcas e mídia. Habilidades em gestão de equipes, processos organizacionais e comunicação. Apresentadora do ICL Notícias - 1ª Edição.


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Feminismo: Dissonância Cognitiva Coletiva

Violência vicária e misoginia

A culpabilização da mulher é gêmea da desinformação que sustenta o patriarcado.


Matéria Revista Liberta
21/Fev - 2026

Pesquisas recentes demostram aumento da violência contra mulheres, enquanto outras formas de violência diminuem. No Brasil e no mundo, fala-se em “epidemia” de feminicídio, sem contar as habituais formas de violência doméstica e os casos de estupro (cerca de nove estupros por hora no Brasil).

O aumento da violência contra mulheres implica que a violência não é neutra, algo que a expressão “violência doméstica” acaba por camuflar.

Estamos falando de violência de homens contra mulheres. Para deixar bem claro, a violência domestica é uma prática, principalmente masculina, que tem a ver com monopólio da violência, mas também com a violência como um privilégio, ou seja, com a simples autorização para praticá-la.

Essa autorização é cultural. A violência é a própria matriz de subjetivação masculina, ou seja, dos valores e hábitos de produção da masculinidade na cultura. Enquanto homens são formados e educados pela violência, as mulheres são educadas para o cuidado. Ainda que haja exceções, essa é uma regra.
Argumento falacioso

Contra o argumento falacioso de que homens também matam homens e praticam muita violência contra homens, como se a naturalidade com que se aceita a cultura da violência masculina endógena tivesse força de verdade, podemos sempre lembrar que, de fato, homens matam homens, mas matam também mulheres e crianças.

Mulheres, por sua vez, matam, mas em parâmetros estatísticos muito inferiores e até mesmo excepcionais em relação à regra masculina. Lembrando sempre que é a exceção que estabelece a regra.

Nesse cenário, um tipo um pouco diferente de violência chamou atenção nos últimos dias. Foi a chamada “violência vicária”, que veio à tona com o caso de Thiago Machado, assassino de seus dois filhos – depois do crime, ele tirou a própria vida na cidade de Itumbiara, em Goiás.

A violência vicária é praticada para atingir a mãe cometendo violência contra seus filhos ou pessoas a ela ligadas. Trata-se de uma violência que tem algo de indireto, pois não atinge o corpo da vítima, mas atinge o corpo e a vida de pessoas amadas pela pessoa que se quer atingir.

A violência praticada por Thiago Machado não é incomum. Há inúmeros casos de homens que matam os filhos para atingir a mãe. Vicária é a destruição da vida simbólica de uma mãe, que permanecerá viva sob um eterno sofrimento calculado pelo perpetrador do crime.

Que haja pessoas que tenham condenado Thales por não ter matado a ex-mulher, e sim os filhos, sugere a naturalização da matança de mulheres e uma culpabilização que também é naturalizada. Os meninos poderiam ser poupados, a mulher não.

A culpabilização da mulher é gêmea da desinformação machista que sustenta o patriarcado. Em palavras muito simples, poucos se ocupam em ver a versão da mulher, enquanto a palavra de um homem vale apenas por ter sido dita ou escrita, como é o caso da carta divulgada do assassino-suicida.

A carta valeu como prova da verdade para muita gente, apenas porque veio a público. A presunção de verdade e inocência do homem – mesmo ele sendo explicitamente culpado de seu crime – gerou uma culpabilização da mulher, cuja condição de vítima não foi questionada pelos odiadores misóginos das redes. É a inversão do sentido, a vítima tratada como culpada, o que está em cena.
Delírio machista

O acontecimento produziu diversos atos de misoginia contra a mãe dos meninos assassinados e ex-esposa do pai-assassino. A partir da carta do assassino-suicida, a mãe foi julgada nas redes e culpabilizada por pessoas que sequer sabiam o que estava acontecendo e aceitavam, previamente, a verdade da narrativa do assassino-suicida.

Quando veio à tona que o pai-assassino é que teria traído a sua esposa, motivo pelo qual ela se separou dele, sendo, portanto, sua ex-esposa, a mesma população não veio pedir desculpas pelo erro.

De um lado, todos sabem que a desinformação é muito difícil de desfazer, ou seja, ela é sistêmica, ela cria um imaginário da verdade pelo qual a verdade significa que “uma mulher é culpada”. Esse é o núcleo da misoginia desde Eva e Pandora.

Uma mulher é a inimiga porque é a culpada de todos os males na vida dos homens. Não se imputa ao homem a loucura, a maldade e nem mesmo a responsabilidade pelos próprios crimes. Ele mata com suas próprias mãos e armas, mas no delírio machista é uma mulher que o levou a isso. Esse é o tipo de imaginário covarde promovido pelo patriarcado.

Se, de um lado, as pessoas não conseguem acessar a informação verdadeira depois de uma onda de mentiras, de fake news, de outro lado, é o julgamento prévio, é a prática da misoginia que move a turba de modo a desresponsabilizar o homem.

Assim, a população virtual realizou um verdadeiro linchamento da mãe nas redes sociais. No enterro dos próprios filhos, ela teve que ser escoltada pela polícia como uma criminosa sujeita ao justiçamento público.

Por que essa sociedade precisa culpar as mulheres para liberar os homens de suas responsabilidades se explica pelo fato de que a sociedade que odeia as mulheres é a mesma que ama e cultua os homens.

@RevistaLiberta

Marcia Tiburi
Formada em filosofia e artes. Lecionou em universidades brasileiras e estrangeiras. Publicou 7 romances, entre eles Com os sapatos aniquilados, Helena avança na neve (Nós, 2023) e diversos ensaios, entre eles “Como conversar com um fascista”, “Complexo de vira-lata: análise da humilhação brasileira” (Civilização Brasileira, 2021) entre outros.