Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
Mostrando postagens com marcador anti-machismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador anti-machismo. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 9 de março de 2026

Feminismo: Feminicídio

Um pacto pela vida das mulheres é URGENTE!

Brasil bate recorde com 15 mil casos de feminicídio em dez anos — quatro a cada dia.


"Quatro mulheres são assassinadas, todos os dias, no Brasil"

Essa frase deveria ser suficiente para provocar uma comoção nacional permanente. Mas não provoca. No máximo, vira manchete por algumas horas até ser empurrada para o rodapé das notícias ou substituída por outra tragédia.

No Brasil, morrer mulher virou estatística. Em 2025, o país voltou a bater o recorde de feminicídios desde que o crime foi tipificado em lei, em 2015. Foram mais de 1.500 mulheres assassinadas, simplesmente, por serem mulheres. Desde a criação da lei, mais de 15 mil brasileiras tiveram suas vidas interrompidas pela violência de gênero.

Mas os números não contam tudo. Eles não contam o medo que acompanha cada mulher quando atravessa uma rua à noite. Não contam o cuidado ao entrar num carro de aplicativo, o olhar constante sobre o retrovisor ou a mensagem obsessiva que vira ameaça e, em muitos casos, morte.
Feminicídio não é acidente

A morte é apenas o último capítulo de uma história que a sociedade insiste em fingir que não vê. O feminicídio não é acidente, porque quase sempre há sinais, há histórico de agressão, há denúncia ignorada, medidas protetivas descumpridas, vizinhos que ouviram gritos e amigos que sabiam. Mesmo assim, seguimos ignorando.

O caso de Juliana Soares escancarou esse roteiro. Dentro de um elevador, ela recebeu 61 socos no rosto, desferidos pelo companheiro. Não foi um descontrole momentâneo. Foi método. Estudos mostram que o rosto é frequentemente o alvo escolhido pelos agressores, porque destruir o rosto é tentar destruir a identidade da mulher. E o feminicídio é exatamente isso: a tentativa final de apagar uma mulher.

Mas o Brasil tem outra característica trágica: a capacidade de se acostumar com o horror. Vivemos no país onde uma pessoa é estuprada a cada seis minutos, e a maioria das vítimas são meninas. Vivemos no país onde crianças violentadas dentro da própria casa precisam provar que são vítimas, onde ainda se debate se meninas estupradas devem ou não ter direito de interromper uma gravidez que nunca escolheram.

Não é coincidência. É cultura. Uma cultura que, há séculos, naturaliza o controle, a humilhação e a violência contra mulheres. E, quando mulheres denunciam, ainda são tratadas como exageradas.

Por que essa luta não pode mais ser apenas das mulheres? Ela precisa ser também dos homens, das instituições, dos governos, da imprensa, das escolas e da justiça. Homens precisam romper o silêncio entre si, precisam confrontar e denunciar amigos violentos. Precisam entender que a masculinidade não pode continuar sendo construída sobre dominação.

Governos precisam tratar a proteção das mulheres como prioridade absoluta, e não como discurso de campanha.

A justiça precisa agir com rapidez. A sociedade precisa parar de perguntar “o que ela fez?” e começar a perguntar “por que ele fez?”.

Porque nenhuma mulher morre por acaso.


Vítimas também do esquecimento.

Juliane Soares, a mulher que recebeu mais de 60 socos no rosto dentro de um elevador, já foi esquecida. Depois dela vieram Tainara Souza Santos, Allane de Souza Pedrotti Mattos, Layse Costa Pinheiro, Rosilene Barbosa, Jhessilane Silva, Isabele Gomes de Macedo e tantas outras mulheres que, além de esquecidas, estão mortas.

Em outubro de 2009, a então estudante de turismo Geisy Arruda foi cercada, insultada e humilhada por dezenas de colegas por causa da roupa que usava: um vestido curto, cor-de-rosa. Gritos, ameaças, celulares gravando, seguranças tentando conter uma multidão que parecia mais interessada em punir e julgar. Tudo isso dentro de uma universidade.

A instituição, num primeiro momento, expulsou Geisy – como se o problema fosse a existência dela, e não a violência coletiva que se formou ao seu redor. A vítima virou culpada.

O episódio expôs algo que ainda persiste no Brasil: a facilidade com que uma mulher é transformada em alvo público quando ousa ocupar o próprio corpo com liberdade.

Passaram-se 17 anos e o Brasil ainda não aprendeu que uma mulher não precisa se cobrir ou se adequar para evitar a violência. Mulheres podem escolher sair de um relacionamento, podem dizer não, sem serem mortas ou mutiladas.

Não podemos perder a capacidade de indignação, mas isso também já não é mais suficiente. Um compromisso se faz urgente, um pacto, e ele é simples até:

Não normalizar.
Não silenciar.
Não esquecer.

Porque, enquanto uma única mulher morrer por ser mulher, nenhuma de nós estará realmente segura. E nenhuma sociedade estará realmente livre.

@Revista Liberta
Matéria: 7 mar 2026

Vivian Mesquita
Apresentadora, Repórter e Editora Chefe Executiva com passagens pela Editora Abril, Rede Globo e Canais ESPN Disney. Especialista em esportes de ação em mercado mundial. Profissional com formação consolidada na área de mídia e conteúdo esportivo, com mais de 20 anos de experiência em TV. Relacionamento sólido com a comunidade criativa local, produtoras, talentos, atletas, marcas e mídia. Habilidades em gestão de equipes, processos organizacionais e comunicação. Apresentadora do ICL Notícias - 1ª Edição.