Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

King Crimson


KING CRIMSON
progressivo com atmosfera e colorido instrumental

O Crimson King não inventou o rock progressivo de uma só vez, mas somou às várias ideias emergentes uma forma comum de força incomum. Abrasão derivada do jazz, sutileza folk, construção de estúdio, dissonância modernista e gosto pela escala orquestral já haviam aparecido em outros lugares. O King Crimson fez esses elementos parecerem partes da mesma linguagem.

O King Crimson é mais bem compreendido como uma sequência de conjuntos do que como uma banda estável. Robert Fripp foi o único integrante contínuo, mas instrumentos, compositores e métodos de trabalho mudaram: os sopros e o Mellotron de Ian McDonald moldaram o grupo de 1969; a improvisação em concerto tornou-se central à formação de 1972–74; Adrian Belew e Tony Levin ajudaram a definir o quarteto de guitarras interligadas dos anos 1980; e a configuração final de turnê colocou três bateristas na frente do palco.

In the Court of the Crimson King foi uma estreia excepcionalmente concentrada, mas não inventou sozinho o rock progressivo. Suas cinco faixas reúnem ataque distorcido do conjunto, canção acústica, escrita para mellotron, execução informada pelo jazz e improvisação aberta num só programa. Períodos posteriores do Crimson não se limitaram a reproduzir essa combinação; reconstruíram o contexto musical com materiais diferentes.

Formação e história da banda.

A primeira formação do King Crimson começou a ensaiar em Londres em janeiro de 1969. Robert Fripp e o baterista Michael Giles vieram do Giles, Giles and Fripp. Ian McDonald trouxe instrumentos de sopros, teclados e mellotron. Greg Lake tornou-se o baixista e vocalista principal, sendo Peter Sinfield, o responsável por escrever as letras e desenvolver a apresentação visual propondo o nome da banda. 

Quando eles abriram para os Rolling Stones no Hyde Park em 5 de julho, também já haviam formado público com apresentações em clubes londrinos. A estreia autoproduzida foi gravada durante julho e agosto e lançada em outubro.

McDonald e Giles anunciaram a saída durante a primeira turnê norte americana, e Lake logo também partiu. Fripp e Sinfield continuaram produzindo pelos álbuns In the Wake of Poseidon, Lizard e Islands com mudanças de músicos em estúdio e turnê, incluindo Mel Collins, Gordon Haskell, Boz Burrell e Ian Wallace. Sinfield deixou a banda no fim de 1971, e o grupo de turnê formado por Burrell–Collins–Wallace saíram após a excursão norte americana de abril de 1972.

Robert Fripp reformulou a banda em julho de 1972 convidando o baixista e vocalista do Family, John Wetton, o baterista recém saído do Yes, Bill Bruford, o violinista e instrumentos de sopro, David Cross, e o percussionista Jamie Muir. Após o lançamento do respeitado e aclamado disco Starless, de 1974, Muir sai da banda no início do mesmo ano. Nessa época, o quarteto incorporou amplo modo de improvisação no palco, incorporando muito do estilo jazz fusion e colocando isso em prática nos shows.

David Cross partiu antes mesmo de terminarem as sessões de estúdio do álbum Red, que seria o maior sucesso da banda nos anos setenta. Deixando Fripp, Wetton e Bruford somente como um trio, a banda anunciou o fim do grupo pouco antes de o álbum surgir em 1974. Todos os membros realizaram projetos paralelos ou se integraram às bandas mais comerciais.

Retorno e a trilogia dos anos 80. 

No ano de 1981, Robert Fripp e Bill Bruford reformulam o King Crimson chamando os virtuosos músicos Adrian Belew na guitarra e voz, e o baixista Tony Levin. Eles agregam ao estilo influências da música africana, gamelão, pós-punk e minimalismo nova-iorquino.

Com os lançamentos dos álbuns: Discipline (1981), Beat (1982) e Three of a Perfect Pair (1984), essa época fica reconhecida como a trilogia dos anos oitenta. Infelizmente essa formação só duraria até o final de 1984. 

Após um hiato de uma década, Fripp reviveu o grupo como um sexteto que ele chamou de "trio duplo" em 1994, adicionando Pat Mastelotto e Trey Gunn. Este grupo participou de outro ciclo de atividade de três anos que incluiu o lançamento de Thrak (1995) e várias gravações de shows. Houve um hiato entre 1997 e 2000.

Quatro membros do sexteto anterior se reuniram em 2000 como um King Crimson de orientação mais industrial, chamado de "dupla dupla", lançando The Construkction of Light (2000) e The Power to Believe (2003). Após um hiato de cinco anos, o grupo se expandiu (na pessoa do novo segundo baterista Gavin Harrison) para uma turnê de 2008 comemorando o 40º aniversário de sua formação em 1968.

Após outro hiato (2009–2012), durante o qual Fripp foi considerado aposentado, King Crimson se reuniu novamente em 2013; desta vez como um septeto (e, mais tarde, octeto) com uma linha de frente incomum de três baterias e o novo segundo guitarrista e cantor Jakko Jakszyk. Esta versão do King Crimson continuou a turnê de 2014 a 2021 e lançou vários álbuns ao vivo, reorganizando e reinterpretando músicas de toda a carreira de 50 anos da banda pela primeira vez. A banda anunciou que retornaria às atividades no ano de 2025.

Sonoridade e estilo da banda.

A banda de 1969 usa contrastes extremos: "21st Century Schizoid Man" prende guitarra, sopros, baixo e bateria numa escrita distorcida em uníssono, enquanto "I Talk to the Wind" e "Epitaph" dão a flauta, texturas acústicas e Mellotron papéis estruturais diferentes. O grupo de 1972–74 é mais enxuto e volátil. O baixo de Wetton e a bateria de Bruford podem impulsionar material escrito como "Larks' Tongues in Aspic, Part Two", mas peças de concerto como "Trio", "The Mincer" e "Starless and Bible Black" cresceram pela improvisação coletiva.


O quarteto de 1981 muda novamente a gramática instrumental. Robert Fripp e Adrian Belew tocam ciclos repetitivos e interligados de guitarra, o Chapman Stick de Tony Levin divide funções de baixo e registro agudo, e Bill Bruford combina percussão acústica com eletrônica. Outro detalhe importante, as canções de Belew inserem formas vocais concisas no sistema rítmico.

O Double Trio duplica papéis de guitarra, cordas graves e percussão, enquanto o conjunto de 2013–21 inverte a disposição convencional do palco ao colocar seus três bateristas à frente e os instrumentos melódicos atrás. A continuidade reside menos num timbre do que na tensão entre estrutura exata e decisão em tempo real.

O catálogo do King Crimson ainda é extremamente relevante para as novas bandas e músicos da atualidade, pois cada álbum traz uma relação diferente entre composição e interpretação. O grupo de 1969 criou escala orquestral com instrumentação de rock e sobreposições de estúdio, a formação Wetton–Bruford permitiu que improvisações de concerto virassem material de álbum, o quarteto "Discipline" integrou ciclos minimalistas, novos instrumentos eletrônicos e canções, e o Double Trio tratou papéis duplicados como problema tanto de arranjo quanto de improvisação. São mudanças documentadas de método, não simples trocas de músicos ao redor de um estilo fixo.

O grupo de 2013–21 tornou o arquivo parte de sua prática presente, tocando material de várias formações anteriores e acrescentando novas peças e arranjos conduzidos pela bateria. O amplo arquivo de concertos da DGM também permite comparar como seções escritas e improvisações mudavam noite após noite.


Todos as formações da banda.

Robert Fripp é o único integrante presente em todos os períodos. O grupo de 1969 reunia Fripp, Ian McDonald, Greg Lake, Michael Giles e Peter Sinfield. O conjunto de 1972–74 se centrava em Fripp, John Wetton, Bill Bruford e David Cross, inicialmente com Jamie Muir. O quarteto de 1981–84 era Fripp, Adrian Belew, Tony Levin e Bill Bruford. O Double Trio acrescentou Trey Gunn e Pat Mastelotto; o grupo final de turnê, com sete integrantes, era Fripp, Jakko Jakszyk, Mel Collins, Tony Levin, Pat Mastelotto, Gavin Harrison e Jeremy Stacey.

Essa arquitetura tornou a banda numa referência duradoura. Mostrou que um álbum de rock podia usar contraste, atmosfera recorrente e colorido instrumental como recursos estruturais sem abandonar o impacto físico. O resultado não é pastiche clássico nem disco de improvisações arrastadas. É um mundo cuidadosamente cadenciado, com clima próprio.


terça-feira, 29 de setembro de 2026

Nego Bispo: Um Guerreiro Ancestral


NEGO BISPO
' Um Guerreiro dos Saberes Ancestrais '

Antônio Bispo dos Santos (Povoado Papagaio, Vale do Rio Berlengas, atual município de Francinópolis, Piauí, 1959 - São João do Piauí, 2023). Lavrador, poeta, escritor, professor, ativista político. Militante do movimento social quilombola e de direitos pelo uso da terra, Nêgo Bispo é e eternamente será uma das principais vozes do pensamento das comunidades tradicionais do Brasil.
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Morador do Quilombo Saco-Curtume, localizado em São João do Piauí, Nêgo Bispo possuiu trajetória educacional típica da realidade do povo quilombola. Foi formado por mestres e mestras de ofícios por meio da oralidade e de ensinamentos e saberes ancestrais. A partir deles e das demandas comunitárias, chegou à educação formal, fazendo parte da primeira geração de sua família a concluir o ensino fundamental. Desde muito jovem, desenvolveu a habilidade de traduzir para a linguagem escrita das cartas os sentimentos, as sabedorias e as vivências de seus parentes e vizinhos.

Em 2007, lançou seu primeiro livro, Quilombos, modos e significados, reeditado em 2015 com novo título, Colonização, quilombos. Modos e significações. Na obra, desenvolveu o conceito de contracolonização, que contestou o atual modelo de desenvolvimento econômico ao qual o Brasil e os demais países da América Latina se rendem. Em contraposição a esse projeto de sociedade autodestrutiva, Bispo propôs uma alternativa civilizatória baseada na biointeração, na qual a relação entre humanos e natureza é de comunhão prazerosa.

A lógica da biointeração tem como princípios extrair, utilizar e reeditar, que se realizam em uma relação comunitária, coletiva, em que a capacidade de cultivar, coletar e compartilhar são inerentes. Esse conceito é definido como contracolonização do conceito de desenvolvimento sustentável e é comum aos quilombos, aos terreiros das religiões de matriz africana e à capoeira. Para Bispo, na biointeração, as coisas se reeditam; no desenvolvimento sustentável, elas se reciclam.

Nego Bispo analisou o conceito de "desenvolvimento" denunciando seu desprezo pelos saberes das comunidades tradicionais. Defendeu os "saberes orgânicos", "saberes voltados para o ser, voltados para a vida”, que são indispensáveis para o dinâmico e instável equilíbrio entre os seres e o meio ambiente, uma vez que a visão eurocêntrica e capitalista de evolução é portadora da destruição da natureza em prol dos lucros, produzindo o "saber sintético", “saberes voltados para o ter, voltados para a extração do ser”, “tornando sintético tudo o que é natural”.

Quando se fala em natureza, o ser humano está incluído nessa composição, pois, de acordo com Nego Bispo, “querem ser criadores, mas são criaturas da natureza”. O próprio conceito de desenvolvimento deve ser superado. Em sua perspectiva, "des" "envolver" significa se separar da natureza, logo, convertê-la em um expediente externo à humanidade que possa se prestar a qualidade de recurso, objeto e instrumento, desprezando as conexões de interdependências existentes entre todos os seres.

Contracolonialismo

Propôs o conceito de contracolonialismo que não é um ataque, e sim, uma defesa. Ser contracolonialista é não se permitir ser colonizado, reforçando a cultura dos povos que sofreram dominação dos colonizadores. "Eu não quero matar os colonialistas, eu quero que os colonialistas não me atinjam". Segundo Nego Bispo, a contracolonialidade não é um posicionamento teórico, mas diz respeito a práxis ética e política que povos afropindorâmicos, ou seja, aquela que povos indígenas e quilombolas produziram a partir da sua ancestralidade. Esta práxis ética e política dos povos enseja outras formas de ser, de existir e de se organizar diante dos escombros da violência colonial.

Cosmofobia

Conceito cunhado por Nego Bispo, que argumentava que os saberes populares e das comunidades denominadas tradicionais carregam diversos e valiosos entendimentos sobre as variadas formas do que o pensador chamou de “viver, ver e sentir a vida”, antagonizando com a cultura dominante reproduzida como "monocultura".

A cosmofobia poderia ser considerada como a disseminação de valores oriundos da crença europeia cristã monoteísta, determinando ideias e práticas que organizam nossa relação com a terra ("exploração"), o trabalho ("castigo") e o divino ("um único Deus").

Ou seja, no pensamento de Bispo, a cosmofobia se caracteriza pelo medo e/ou rejeição das formas de compreensão do cosmo que não tenham origem europeia, os quais integram ser humano e natureza em um equilíbrio dinâmico. Além disso, a cosmofobia era entendida por Nego Bispo como uma "doença" que os colonialistas espalharam mundo afora, fazendo com que sintetizem tudo que vem da terra, afastando os seres humanos da terra, levando à dominação de diversos povos.

Com ampla repercussão, a obra passa a figurar nas ementas de cursos de graduação e pós-graduação em diferentes universidades brasileiras. Esse trabalho aborda os pontos importantes da formação sócio-histórica e cultural brasileira e traduz os ensinamentos de seu povo para os moldes acadêmicos. Nesse sentido, Bispo ressignificou conceitos e ideias consagradas nesse meio sob a ótica do pensamento quilombola.

Devido ao seu engajamento e sua luta pela terra, ganhou destaque à frente do Sindicato de Trabalhadores/as Rurais de Francinópolis e da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no estado do Piauí. Atuou ainda como membro da Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Piauí (Cecoq/PI) e da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq).

Sua relação com o ambiente acadêmico se iniciou com o projeto Encontro de saberes, na Universidade de Brasília (UnB), em que atua como professor e mestre na disciplina Confluências Quilombolas Contracolonização no primeiro período do ano de 2017.

Em vez de ser chamado de intelectual, Bispo preferiu ser referido como relator de pensamentos e saberes. Ele foi crítico do que chama de mercantilização do saber e defende, em contrapartida, a confluência cosmológica e o compartilhamento de conhecimentos. Confluência é um conceito criado pelo poeta no processo de análise da contracolonização dos saberes: trata-se da lei que rege a relação de convivência entre elementos da natureza e que ensina que "nem tudo o que se ajunta se mistura". Contrapondo-se a essa lei, a transfluência é a lei que rege as relações de transformação dos elementos da natureza e ensina que "nem tudo o que se mistura se ajunta".

Em sua trajetória, Antônio dos Santos Bispo construiu diálogos sobre resistência negra e quilombola, além de apresentar alternativas de sociabilidade e de relação sadia com a natureza a partir da sabedoria dos povos tradicionais. Consolidou-se como uma uma voz ativa, poética e poderosa na defesa dos direitos dos quilombolas e da terra.

Obras

Além de vários artigos, poemas e palestras, Nego Bispo publicou livros:
- Quilombos, modos e significados (2007).
- Colonização, Quilombos: modos e significados (2015).
- A terra dá, a terra quer (2023).

"VIVA A VIDA, PORQUE TODAS AS VIDAS SÃO NECESSÁRIAS" 
(nego bispo)

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Nego Bispo: Saberes Orgânicos

Saberes Orgânicos e Modos de Vida.
( Programa Trajetórias: Nego Bispo )

Em sua trajetória, Antônio dos Santos Bispo construiu diálogos sobre resistência negra e quilombola, além de apresentar alternativas de sociabilidade e de relação sadia com a natureza a partir da sabedoria dos povos tradicionais. Consolidou-se como uma uma voz ativa, poética e poderosa na defesa dos direitos dos quilombolas e da terra.

Nego Bispo se consolida como um pensador cada vez mais necessário para a compreensão da realidade e da cultura quilombola, ou para um reconhecimento dos brasis que nos compõem e que foram oficialmente ignorados. Do Quilombo Saco do Curtume, no semiárido do Piauí, ele relembra sua trajetória de luta e de aprendizados constantes.

Nego Bispo partilha reflexões sobre a sabedoria ancestral quilombola, a resistência cultural e a importância da oralidade na preservação do conhecimento. A trajetória de vida do mestre, marcada pela vivência comunitária e pela crítica ao sistema de ensino académico, revela uma visão orgânica do saber e das interações entre os povos.



Arnaldo Baptista (projeto 7.8)


Arnaldo Baptista continua formando artistas...
... e o projeto 7.8 prova isso!

Texto por Luiz Cesar Pimentel
Coordenação: Sonia Rosa Maia

Existem homenagens que olham para o passado. Esta nasceu olhando para o futuro.

Quando começamos a desenhar o Arnaldo Baptista 7.8 – Canções Inesquecíveis Revisitadas, queríamos reunir artistas para celebrar os 78 anos de um dos compositores mais importantes da música brasileira. Em algum momento do percurso, ficou claro o que já sabíamos – que o projeto não seria apenas um disco coletivo, ao gosto do mercado. Estávamos registrando um fenômeno que, até então, existia de forma dispersa, espalhado por palcos, estúdios, festivais e conversas entre músicos.

Depois de acompanhar Arnaldo durante tantos anos — como jornalista, pesquisador e admirador de sua obra — poucas coisas ainda conseguem me surpreender. Esta conseguiu.


As gravações começaram a chegar de diferentes lugares e naturezas. Depois vieram outras. Em seguida mais algumas. Quando percebemos, havia 60+ artistas trabalhando ao mesmo tempo sobre o mesmo universo musical. “Se tivéssemos feito o convite publicamente, teríamos perto de 200 aderindo”, apostou todas as suas fichas Sonia Rosa Maia durante a gravação do programa de lançamento do projeto, que inclui entrevista com Arnaldo e participações muito especiais dos artistas. É ela quem assina a direção e coordenação do Arnaldo Baptista 7.8, encarando de frente o desafio de colocar no mercado do streaming, todo estruturado por diversos engessamentos, um projeto para o qual o sistema não está preparado para abraçar.
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O recorte do repertório.

Há um detalhe que considero decisivo para entender ainda melhor a dimensão desse projeto: todas as releituras são dedicadas exclusivamente à obra solo de Arnaldo Baptista. Não há uma única composição dos Mutantes. A decisão foi consciente desde o início. A carreira solo de Arnaldo sempre exerceu enorme influência sobre músicos de diferentes gerações, mas nunca foi percebida nessa grandeza. Era chegada a hora de iluminar justamente essa parte de sua trajetória.

Também não havia uma gravadora conduzindo o processo, um grande orçamento de marketing ou contratos obrigando artistas a participar. O movimento aconteceu pelo motivo mais difícil de fabricar: vontade. Músicos quiseram gravar Arnaldo porque reconheceram nele uma referência criativa fundamental para a própria formação. Tenho dificuldade de lembrar de outro caso semelhante.

Não conheço um projeto brasileiro — e sinceramente não me recordo de um internacional — que reúna 60+ artistas lançando, simultaneamente, 55 singles inéditos inspirados na obra de um único compositor. Não estamos falando de participações em um álbum coletivo, nem de uma compilação tradicional. Cada artista escolheu uma canção, construiu sua própria leitura e a lançou como single, preservando sua identidade artística. O elo entre todos continua sendo Arnaldo. Isso diz muito menos sobre o projeto do que sobre Arnaldo.

Durante décadas, acostumamo-nos a definir Arnaldo Baptista como fundador dos Mutantes, um dos pioneiros do rock brasileiro, uma das figuras centrais da Tropicália – segundo o maestro Rogério Duprat –, ou artista cult. Tudo isso continua correto. Apenas deixou de ser suficiente. Arnaldo continua acontecendo. E essa é sua característica mais extraordinária.

Boa parte das pessoas que frequentaram seus concertos solo de 2011-2018, que hoje acompanham suas exposições ou discutem sua obra nas redes sociais, simplesmente não era nascida quando Arnaldo gravou os discos que entraram para a história da música brasileira. Muitos têm pouco mais de vinte anos. Descobriram Arnaldo ouvindo, desde o berço, músicas que os pais colocavam pra tocar. Ou por indicação de amigos, vídeos ou recortes que circulam nas redes. Não chegaram movidos por nostalgia. Chegaram porque encontraram uma liberdade criativa que continua fazendo sentido hoje.

Percebi isso há tempos! Em entrevistas, festivais, bastidores de shows e pesquisas para meus livros, o nome de Arnaldo aparecia repetidamente quando perguntava a músicos quais artistas haviam mudado sua forma de pensar música. A resposta surgia em bandas de rock, artistas experimentais, compositores da MPB, produtores de música eletrônica, gente da cena independente e até artistas visuais.

O projeto apenas tornou visível aquilo que já acontece há anos. Basta ouvir as gravações. Nenhuma delas tenta reproduzir Arnaldo. Essa, para mim, é uma das maiores qualidades do conjunto. Os artistas mergulharam profundamente nas composições, compreenderam sua lógica e, em vez de imitá-la, fizeram exatamente o que aprenderam com ela: produziram algo novo. As versões acabam revelando tanto sobre quem interpreta quanto sobre quem inspirou essas interpretações. Em muitos momentos tive a impressão de que Arnaldo aparecia justamente onde deixava de ser copiado.

Marcelo Furtado, da Pedra Relógio, resumiu isso muito bem ao contar que passou dias convivendo com Vou Me Afundar na Lingerie. Deixou um caderno aberto ao lado da cama para anotar ideias, manteve a guitarra sempre por perto, sonhou com arranjos e só entrou em estúdio quando encontrou uma versão que preservava o espírito da composição sem abrir mão da identidade da banda.

" É essa sensação que atravessa praticamente todas as gravações"

Leo Jaime voltou aos anos 1970 para gravar Cozinho de Noite, composta em parceria com Arnaldo. O Violeta de Outono incorporou trechos do piano original do compositor em Jesus, Come Back to Earth. Rod Krieger trouxe todos os pianos de Arnaldo, suas Gibsons preferidas, valvulados e finalização analógica para sua versão de The Cowboy.

É também notável a influência de Arnaldo ir além da música. O multiartista e ilustrador Rogério Puhl criou, há algum tempo, a arte inspiradora para que a designer Ste Marino desse vida ao conceito visual do projeto. “O que mais me inspira em Arnaldo é justamente essa autenticidade quase visceral. Existe uma liberdade muito rara na maneira como ele mistura som, imagem, poesia e imaginação. Dentro do meu universo, procuro absorver esse olhar inquieto e levar isso para o meu trabalho, buscando criar de forma mais livre, intuitiva e verdadeira”, contou Puhl ao liberar sua arte para o 7.8.

"Um retrato da música independente brasileira"

Enquanto ouvia esse material, outra evidência foi aparecendo. O Arnaldo Baptista 7.8 acabou se transformando também em um retrato da música independente brasileira.

A palavra “independente” vem sendo usada quase como um sinônimo de “à margem” do mercado. Mas é justamente daí que a inovação artística continua surgindo – exatamente desse território. O projeto Arnaldo Baptista 7.8 reúne músicos, produtores, artistas visuais, performers e compositores que raramente aparecem nas grandes campanhas promocionais, mas continuam produzindo as obras mais inventivas da música brasileira. 
Esta é outra herança silenciosa de Arnaldo Baptista. Ele nunca ensinou uma fórmula. Ensinou que a liberdade criativa sempre vale mais do que a conveniência do mercado.

Também por isso decidimos abandonar o modelo tradicional de lançamento. Seria um contrassenso reunir 60+ artistas para depois concentrar toda a comunicação em um único perfil ou em um único canal. O projeto nasceu coletivo-colaborativo, e sua divulgação precisava seguir a mesma lógica. Em vez de uma campanha centralizada, optamos por construir uma arquitetura de rede orgânica. Cada artista passa a ser também um difusor do projeto, permitindo que públicos diferentes conversem entre si.

"Foi esse espírito, também, que guiou a curadoria desde o início"

Desde fevereiro deste ano de 2026, ouvimos gravações, acompanhamos mixes, sugerimos caminhos e conversamos diariamente com artistas, formando um grupo que acabou funcionando menos como uma comissão e mais como uma roda permanente de criação. A curadoria foi conduzida por Arnaldo Baptista, Lucinha Barbosa, Luiz Cesar Pimentel, Lu Lima, Márcio Lomiranda, Marcos Lauro/Orfeu Digital, Rod Krieger, Sonia Rosa Maia e Thais Pimenta/Café 8. Cada um trouxe um olhar diferente para o 7.8, e talvez também por isso o projeto nunca perdeu sua diversidade.

"Foi dessa convivência que surgiu mais um momento simbólico dessa trajetória"

Já estávamos praticamente encerrando os trabalhos quando Arnaldo e Lucinha verbalizaram que ninguém havia escolhido “Sr. Empresário”, uma das favoritas de ambos da obra solo de Arnaldo. A música, escrita na época do Patrulha do Espaço, continua impressionantemente atual. Passaram-se décadas, mudaram governos, tecnologias, modelos de negócio e a indústria da música praticamente foi reinventada. Ainda assim, a ironia e a crítica presentes na composição permanecem intactas. E essa é a deixa para dizer o mesmo de toda a obra solo revisitada no Arnaldo Baptista 7.8.

A solução mais simples para a entrada de “Sr. Empresário” seria convidar mais um artista. Mas preferimos fazer outra coisa. Montamos uma banda para a regravação e a chamamos Renomado. E podes crer: enquanto você vivencia este projeto, algum artista, alguma banda, está nascendo sob a influência marcante de Arnaldo – aqui, pelo Planeta e no infinito do espaço sideral.


Para mim, entrar em estúdio para gravar uma canção de Arnaldo Baptista foi uma experiência completamente diferente. Não tinha mais a distância confortável do jornalista. Eu também fazia parte daquela história. Foi aí que percebi uma coisa que talvez explique melhor esse projeto do que qualquer número. Ninguém aceitou o convite apenas para homenagear Arnaldo. As canções reunidas aqui não nasceram de uma convocação. Nasceram de uma influência.

"O Arnaldo Baptista 7.8 não tenta preservar uma memória. Ele registra um legado em movimento"

As 55 gravações mostram que a obra de Arnaldo continua circulando, sendo reinterpretada, provocando novas ideias e formando artistas que pertencem a gerações diferentes daquela que o viu surgir. No fim das contas, essa sempre foi a maior medida da importância de um criador. Não é a quantidade de discos vendidos. Nem o número de prêmios. Muito menos o tamanho da biografia.

Um artista se torna realmente grande quando sua obra deixa de lhe pertencer e passa a fazer parte da imaginação criativa de outras pessoas. Poucos compositores brasileiros conseguiram isso de maneira tão profunda quanto Arnaldo Baptista. O Arnaldo Baptista 7.8 – Canções Inesquecíveis Revisitadas existe porque, mais de meio século depois, suas canções continuam encontrando novos intérpretes.

"E isso diz muito mais sobre Arnaldo do que sobre qualquer homenagem que se possa prestar a ele"

Luiz Cesar Pimentel
De dentro da nave espacial – os artistas e suas versões.

Para apresentar este projeto ao público na sua forma mais autêntica, a música, usamos os streamings para fazer esse tesouro chegar até o público. Os singles foram lançados, simultaneamente, nas páginas dos artistas participantes e nas de Arnaldo nos streamings no dia 2 de setembro de 2026. Logo em seguida, entraram os 4 álbuns-coletâneas, intitulados Cobre, Sunny, Pink e Jeans.

Os nomes foram inspirados nas cores escolhidas pela designer Ste Marino para a capa de cada um deles. A decisão de usar as cores para nomear os álbuns foi justamente para afastar qualquer sensação que levasse as pessoas a pensarem que havia ali uma escala, uma seleção ou ordem específica. Assim, mantivemos, até o mínimo detalhe, o espírito colaborativo e coletivo do projeto – não há destaques. Estamos “todos juntos reunidos numa pessoa só”, como diz Arnaldo em um de seus clássicos.

Mesmo a escolha de artistas mais famosos para encabeçar as coletâneas seguiu esse espírito, mas também uma estratégia. Como o álbum-coletânea no qual cada artista participante aparece vai também para sua página, queríamos inspirar ouvintes dos mais famosos a conhecerem melhor a cena da música independente brasileira.

As coletâneas foram lançadas para que tivéssemos um registro histórico, no formato clássico de álbum, do Arnaldo Baptista 7.8, que permanecesse ali nas páginas de Arnaldo no digital para sempre.


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DiScOs InCrÍvEiS: Arnaldo Baptista (Lóki?)


ARNALDO BAPTISTA 
– LÓKI? – 
(Philips, 1974)

"Não atire no pianista, diziam os cartazes nos saloons do Velho Oeste. Era peça de difícil reposição. No caso de Arnaldo, um piano foi tudo que ele precisou para fazer um dos discos fundamentais da música brasileira"

Produção: Arnaldo Baptista.

Loki, o deus asgardiano da trapaça e da loucura, não teria previsto tal insanidade: em 1974, sozinho com seu piano em seu quarto na Serra da Cantareira, um rapaz de 26 anos, Arnaldo Dias Baptista, que todos supunham desorientado, nutriu a semente de um disco que mudaria para sempre a face da música brasileira.

Loki?, o disco, foi gravado de um fôlego só, sem repetir takes, no Estúdio Eldorado, em São Paulo, em 16 canais. Possui 10 faixas e 33 minutos de duração, não apela a um único riff de guitarra (uma heresia para a época) e emparelha sintetizador com violão, arranjos orquestrais com clavinete e órgão. Sua musicalidade é visionária: há sambalanço, glam, baladas pop à moda britânica, rockabilly norte-americano, MPB, clássico, digressões progressivas. A invenção é a única fronteira do álbum, mas não é um experimentalismo cartesiano, de nerd – Arnaldo arrombou sem cerimônia as portas da percepção.

Loki? abriga desde uma viagem instrumental entre Chopin e Elton John, na composição Honky Tonky, até um certo orientalismo, que escorrega depois para o blues e chega até a MPB tradicional no violão de 12 cordas em É Fácil. Arnaldo é homem-banda se desdobrando em busca do efeito certo, como mostra com o sintetizador Moog em Desculpe e Te Amo, Podes Crer. Quando canta “onde é que está meu rock’n’roll”, ele é puro Jerry Lee Lewis, mas aí emenda um “eu vou voltar pra Cantareiraaaaaa”, que é pura MPB, e anarquiza as referências.

O ex-Mutante teve a lucidez (com apoio de Roberto Menescal, diretor artístico da Philips, que o bancou, e Marco Mazzola, que o produziu) de buscar a ajuda que precisava. O maestro Rogério Duprat, então ex-tropicalista, abominava aquilo em que o rock se tornara: uma fórmula batida de guitarra, baixo e bateria, um rótulo musical, uma limitação da imaginação. Por causa dessa conjuntura, largou tudo e foi viver em uma marcenaria doméstica em Itapecerica da Serra. Ao lapidar duas canções de Arnaldo (Uma Pessoa Só e Cê Tá Pensando Que Eu Sou Loki?), teve a sensação de que havia ainda um mundo a descortinar. Era o nosso George Martin.

Este disco é para ser ouvido em alto volume, recomendava Arnaldo. Não precisava da recomendação: o disco era tão importante que vai ressoar eternamente, enquanto seu tempo fica para trás. Havia, desde janeiro daquele ano, um novo general conduzindo com mão de ferro a ditadura militar, Ernesto Geisel. Essa sombra permanente fazia com que toda a arte da época soasse combatente, engajada. Liricamente, Arnaldo elegia sua própria angústia existencial como o universo a ser compreendido, e legou ao futuro uma Bíblia de utopia alternativa. “Ficamos até mesmo todos juntos. Reunidos numa pessoa só”, cantava, em Cê Tá Pensando que eu Sou Loki?.

O disco de Arnaldo baixou à Terra como uma visão estética e individual, o que o levou a ser comparado a Syd Barrett, do Pink Floyd. Não tinha equivalente entre seus contemporâneos, como ainda não tem. Seu combustível original foi uma desilusão amorosa, como em 90% do pop, mas o resultado é uma iluminação universal.

No resto do mundo, insinuava-se uma promessa de futuro tecnológico brilhante. Naquele ano, o Kraftwerk lançou o clássico Autobahn. A família dos sintetizadores recebia o revolucionário Moog Satellite, que seria muito usado por Vangelis nas trilhas do novo cinema.

Arnaldo Baptista transcendia sua dimensão, vivia num disco voador. Tinha ido ao topo da glória pop com Os Mutantes, mas, recém-saído da banda, continuava olhando muito além. Na foto da capa, com a calça de couro marrom sem camisa, a postura de quem está à espera de algo ou alguém, ele parecia demonstrar que não tinha voracidade pelo futuro, nem reverência pelo passado. Criava sozinho a realidade, apegado aos seus sonhos e às suas visões, e é isso que prevalece em Loki?.

São célebres as confissões de Sean Lennon e Kurt Cobain acerca da influência que Arnaldo Baptista e os Mutantes tiveram em sua música, mas é ainda mais amplo o leque, que vai de Devendra Banhart a Kevin Parker, do Tame Impala. No Brasil, essa influência se estende por gerações, audível em canções de Boogarins e O Terno.


Álbum transcendental, registra as ondas das influências naquele momento de transição – Arnaldo o fez ainda cercado pelos antigos companheiros, como se fizesse uma interseção. Há vocais de apoio de Rita Lee em duas canções (Não Estou Nem Aí e Vou Me Afundar na Lingerie) e os músicos são Liminha (baixo; Sérgio Kaffa toca o baixo apenas em Desculpe) e Dinho (bateria).

FAIXAS:

1-Será Que Eu Vou Virar Bolor?
2-Uma Pessôa Só
3-Não Estou Nem Aí
4-Vou Me Afundar Na Lingerie
5-Honky Tonky
6-Cê Tá Pensando Que Eu Sou Loki?
7-Desculpe
8-Navegar de Nôvo
9-Te Amo Podes Crer
10-É Fácil



segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Arnaldo Baptista


Arnaldo 'Loki' Baptista

“Quando eu pinto, por vezes tenho inspirações vindas do meu conhecimento musical e, em outros casos, são inspirações visuais. É a expressão do que a minha alma diz sobre o sol, sobre as nuvens… Eu construí esse novo caminho de criação, por enxergar minha alma de uma forma que conecta a música às artes plásticas”
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O cantor, multi-instrumentista, compositor, escritor, ambientalista e artista plástico paulistano Arnaldo Dias Baptista nasceu em São Paulo no chuvoso dia 6 de julho de 1948. Filho da pianista, concertista e compositora Clarisse Leite Dias Baptista e do jornalista, escritor e cantor lírico César Dias Baptista, Arnaldo estava fadado a unificar estradas e ventos em seu destino de amplificar sinais sônicos da mente e da consciência. Crescendo num ambiente multidisciplinar, entre aulas de piano clássico, jazz, balé, estudando os idiomas de Dostoiévski, Lewis Carroll e Édith Piaf, Arnaldo Baptista escolheria a via da música para atuar no alargamento das portas das percepções durante seu ciclo vital.

Entre 1961 e 1967, tateando ainda em busca de uma linguagem e de um conceito, Arnaldo integrou bandas pioneiras do cenário brasileiro a partir de 1965, grupos como Wooden Faces, Sand Trio, Six Sided Rockers e O Konjunto. Mas foi com a lenda tropicalista Os Mutantes que ele sedimentou, em parceria com o irmão Sérgio Dias e Rita Lee, – e mais tarde com a entrada de Liminha e Dinho Leme – uma linguagem de abertura cósmica, uma jornada psicodélica de música e imagens que teve o impacto de uma supernova na constelação da música jovem urbana daquela década. 

Já no seu disco de estreia, Os Mutantes (1968), Arnaldo, destacado compositor, arranjador e ideólogo do grupo, começaria a explorar, de forma insondável até então na cena nacional, bases harmônicas e rítmicas visionárias, distorções e colagens sonoras, coros invertidos, a busca de sons e referências inusitadas – de Guimarães Rosa à Bíblia, dos Beatles à música caipira –, atitude rebelde e insubordinada para com os códigos viciados da música comercial e de compreensão binária do mundo.

Não demoraria muito para que a aventura mágica dos Mutantes chegasse ao cenário internacional, em plena era Beatles & Stones, projetando um futuro referencial para o grupo a partir de um álbum de futurística ousadia, Tecnicolor (gravado em 1970 e lançado em 1999), uma obra-prima submetida a uma hibernação de 30 anos – dado seu grau de antevisão.

Entre 1968 e 1972, os Mutantes gravaram 5 discos referenciais. “Digo e repito: o Arnaldo Baptista é responsável por tudo que aconteceu de 1967 pra frente”, sentenciou, sobre a contribuição do artista, o maestro tropicalista Rogério Duprat, em 1993. Com o fim do grupo, Arnaldo seguiu criando paisagens inexploradas.

Em 1974, com o disco solo Lóki?, Arnaldo dinamitaria mais uma vez as estruturas do rock, prescindindo das guitarras, abraçando tanto a bossa quanto o blues, Chopin e George Martin. Pontuava novos parâmetros para o gênero. Nesse período, Arnaldo foi um dos raros artistas brasileiros a arriscar-se no chamado “one man band record”, realizando o disco super solo Singin’ Alone (gravado por volta de 1980 e lançado pela primeira vez no Brasil em 1982), no qual compõe as canções, toca todos os instrumentos e assina a produção musical. Não era exibicionismo: a ideia era edificar um monolito estético, uma peça de absoluta integridade.

O conceito do espaço-tempo de Einstein, as viagens no tempo de Stephen Hawking, os paradoxos da Física, a consciência cósmica e os mistérios da mediunidade: tudo estava embalado naquela visionária viagem. Baseado num céu genuíno, veio em seguida o voo underground, quando criou a banda Patrulha do Espaço, antecipando horizontes para o blues rock nacional, o hard rock tropical, as fronteiras inalcançáveis da improvisação e da cor de uma música eterna e ternamente jovem.

Artefato admirado em todos os quadrantes do planeta por seu visionarismo, a música de Arnaldo Baptista foi saudada ao longo dos anos por artistas de diferentes esferas, como Kurt Cobain, Sean Ono Lennon, Tame Impala, Beck, David Byrne, Radiohead, Stereolab, Tortoise, Devendra Banhart, High Lamas e Wondermints. Em 1993, quando esteve no Brasil, Kurt Cobain, do Nirvana, confessou sua admiração pelo vanguardismo do ex-Mutante: “Arnaldo, tudo de bom pra você e cuidado com o sistema. Eles te engolem e te cospem fora, como o caroço de uma cereja marrasquino”, escreveu o roqueiro estadunidense.

A advertência de Kurt Cobain revelava uma visão arguta: cerca de uma década antes, em janeiro de 1982, alvejado por profunda depressão, Arnaldo tinha sofrido em São Paulo um acidente devastador, que resultara em um traumatismo craniano. Sua condição agora neurodiversa impulsionou Arnaldo a ampliar seu leque de expressões e, a partir de então, produzir maravilhas que questionam cânones e arcabouços (livros, turnês, recitais, telas & acrílicos, novas parcerias e exposições). Sua atuação passa a gerar frutos em outras esferas da cultura pop.

Em 2008, foi lançado ' LÓKI? ', um filme dirigido por Paulo Henrique Fontenelle que traça um panorama sobre a carreira de Arnaldo a partir de um quadro “biográfico” pintado pelo músico. Entre os artistas que participam do documentário estão Gilberto Gil, Tom Zé, o irmão Sérgio Dias, o norte-americano Devendra Banhart e Sean Lennon, filho do ex-Beatle John Lennon. O longa traz os dramas sofridos duranrte toda sua vida e trajetória. O nome do filme é baseado no primeiro álbum solo de Arnaldo, Lóki?, lançado em 1974. 

Numa pessoa só!

A obra plástica de Arnaldo Dias Baptista é simetricamente diversa e complexa em termos de enquadramento. Aquilo que ora pode ser observado como expressão máxima de uma consciência que verte, psicossomaticamente, cenas fantásticas e de exuberância criativa livre de normatização também poderia ser caracterizado como uma combinação do representativo, do absurdo, do irreal e do inconsciente – metodologia típica dos surrealistas.

Acontece que os elementos compositivos que Arnaldo imprime em suas imagens não se encerram por aí. O humor e o cientificismo também integram a produção do artista, que já chegou a afirmar que a melhor maneira de investigar como as coisas são, sejam elas naturais, sociais, artificiais ou conceituais, é pela adoção do método científico, combinado à poesia da circunstância criada na composição.

O produto dessa investigação visual é uma vasta gama de situações onde é perceptível a oscilação entre o cômico e o idílico, sendo o primeiro aspecto um dos eixos da ruptura na concepção de OEuvre d’art provocada por Marcel Duchamp. O humor é um instrumento de rebelião e libertação, que na obra de Arnaldo opera em benefício de uma construção menos austera e mais gentil da realidade.


Ainda que, a primeira vista, o trabalho evoque a extravagancia cromática, percepção sinestésica do mundo e inversão de planos presentes na estética psicodélica, no prisma criativo de Arnaldo não é possível encontrar o arquétipo do artista divorciado do mundo e fiel apenas aos imperativos de sua obra. Arnaldo desenvolve sua produção visual como um homem-artista liberto em relação a sua época, realidade, normas, técnicas e gosto de seu tempo. Acima de tudo, Arnaldo é contemporâneo e sua produção expressa o sumo de sua relação com o mundo.

Enquanto artista visual, Arnaldo Dias Baptista se prostra frente ao Universo e esse encontro determina os símbolos que se articulam pelos sentidos em imagens sensíveis. A linguagem híbrida e transestética revelada na produção aqui exposta comunica, acima de tudo, a dependência de um sentido em relação a outro: o sincretismo da obra musical com a metáfora visual em favor da utopia – a plenitude perceptiva e renúncia a um sistema isolado de assimilação dos fenômenos. O traquejo nas múltiplas manifestações da linguagem em favor da comunicação maior – numa pessoa só.

Reconhecido como um equivalente brasileiro de mentes febris da arte internacional, como Syd Barrett, do Pink Floyd, Frank Zappa ou Brian Eno, do Roxy Music, o bruxo da Pompeia segue inabalável sua saga de guru que atua em territórios onde não chegam os conceitos triviais de criação e sensação, de transfiguração e de descondicionamento.

Para navegar e se aventurar nos projetos, nas artes visuais e na música de Arnaldo Baptista, conheça sua obra repleta de galerias e exposições na página oficial.


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The Aristocrats


THE ARISTOCRATS
' Mais divertido do que o fusion deveria ser '

Ao longo dos anos, The Aristocrats – o guitarrista Guthrie Govan (Steven Wilson, Hans Zimmer, Asia/GPS), o baixista Bryan Beller (Joe Satriani, Steve Vai, Dethklok) e o baterista Marco Minnemann (Steven Wilson, Joe Satriani, Steve Hackett) – se consolidaram como um dos grupos de rock instrumental fusion mais originais, refrescantemente irreverentes e incrivelmente divertidos do planeta.

Quem já presenciou sua performance ao vivo, repleta de improvisações musicais – misturando rock, jazz, pop, metal, country e tudo mais – sente a essência de uma banda de verdade, cuja alma improvisacional permite que qualquer coisa aconteça no palco a qualquer momento… incluindo piscadelas e acenos ocasionais para a plateia, influenciados por Frank Zappa.

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Vamos necessariamente começar pelos personagens individuais.

Guthrie Govan é indiscutivelmente o guitarrista mais requisitado da cena musical internacional atual, e seu álbum solo de 2006, Erotic Cakes, foi amplamente reconhecido como um clássico instantâneo. Sua vasta experiência em turnês (Asia/GPS, Steven Wilson, Hans Zimmer) complementa sua agenda lotada como um dos instrutores/professores de guitarra mais requisitados do mundo. Guthrie foi capa da revista Guitar Player em julho de 2011 e da revista Guitar World em abril de 2015.

Bryan Beller possui inúmeros trabalhos, incluindo colaborações com guitarristas como Steve Vai, Joe Satriani, Mike Keneally (Frank Zappa) e a popularíssima banda de metal Dethklok, originada da série animada Metalocalypse, do Adult Swim (EUA). Seu catálogo solo inclui três álbuns de estúdio (incluindo o aclamado álbum conceitual duplo progressivo Scenes From The Flood, de 2019 ), dois DVDs, um DVD instrucional para a Alfred Publishing e uma capa da revista Bass Player em outubro de 2012.

Marco Minnemann é amplamente reconhecido por fãs e colegas como um dos bateristas mais talentosos, inovadores e vanguardistas do mundo. Ele já estampou as capas de diversas revistas de bateria (incluindo a Modern Drummer ) e desfruta de uma carreira extremamente versátil como músico de apoio (Adrian Belew, UKZ, Steven Wilson, Joe Satriani, Necrophagist, Steve Hackett). Marco também é multi-instrumentista e compositor compulsivamente produtivo, com mais de vinte lançamentos solo em CD e DVD até o momento, incluindo dois álbuns com sua colaboração mais recente, McStine & Minnemann.


Apesar de seus fãs individuais terem conquistado fãs, a formação do The Aristocrats aconteceu por acaso, durante um show com pagamento mínimo. Beller e Minnemann tinham um show em trio agendado para a Winter NAMM em Anaheim, Califórnia, em janeiro de 2011, e o guitarrista deles desistiu de última hora. Govan foi o substituto de última hora, e eles se conheceram no ensaio, na noite anterior ao show. A química entre eles foi imediata, com influências compartilhadas, sem que eles soubessem, infundindo uma fusão instrumental energética com uma pegada agressiva, divertida e até mesmo irreverente. A resposta do público foi avassaladora, e a banda se formou praticamente por demanda, ali mesmo. 

"A química era tão boa", lembra Govan, "que quando saímos do palco, todos dissemos uns aos outros: 'Isso está funcionando. Deveríamos gravar isso.'"

Três meses depois, a banda se reuniu pessoalmente – dispensando o método usual de compartilhamento remoto de arquivos em favor da química real de uma banda ao vivo – para gravar o álbum. Composto por nove faixas (três contribuições de cada membro), o material era uma mistura de suas respectivas influências, que iam da seminal fusão de jazz-rock dos anos 70 de Return To Forever e Mahavishnu Orchestra, ao rock progressivo de King Crimson e UK, a heróis da guitarra como Steve Vai e Joe Satriani, à música absurdamente complexa e satírica de Frank Zappa e Mike Keneally, e até mesmo ao groove metal dos anos 90 de Rage Against The Machine.

Os títulos das músicas sempre travessas de Minnemann – como “Boing!…I'm In The Back” (inspirado em um incidente público indescritível na Rússia) e “Blues Fuckers” (em que uma forma típica de blues é violada de todas as maneiras imagináveis) – juntamente com “Sweaty Knockers” de Beller, levaram Govan a se perguntar se a banda não deveria se chamar The Aristocrats, em referência à infame piada obscena e ao filme de mesmo nome. O nome pegou, e assim nasceu The Aristocrats.

Gravado em apenas oito dias, o álbum The Aristocrats, 2011, foi aclamado como um clássico instantâneo pelas principais publicações musicais do mundo, figurando em muitas listas dos dez melhores daquele ano. Guthrie Govan se viu repentinamente nas capas de revistas de guitarra em todo o planeta. 

As escolas de música, em particular, sentiram o impacto, com uma onda de alunos tocando covers das músicas do The Aristocrats, da mesma forma que Passion and Warfare, de Steve Vai, inspirou músicos uma geração atrás. Em menos de um ano, o The Aristocrats passou de um único show de improviso a se tornar um dos grupos de rock instrumental/fusion ao vivo mais requisitados do mundo.

A energia ao vivo da banda e a química transcendental foram capturadas no lançamento ao vivo em DVD/2CD, We'll Do It Live! The Aristocrats At Alvas Showroom, de 2012. 

Em 2013, a banda lançou seu tão aguardado segundo álbum, Culture Clash, cujo título faz alusão à composição multinacional do grupo (Govan é britânico; Beller é norte-americano; Minnemann é alemão), além de ser uma referência sutil a uma cena do filme dos irmãos Coen, "Um Homem Sério". Eles usaram a mesma fórmula – três músicas de cada membro da banda – mas a potencializaram com a experiência coletiva de dezoito meses de turnê juntos. O material resultante tornou-se mais agressivo, ousado e intenso, incorporando uma recusa em se acomodar com o sucesso inesperado do álbum de estreia. Culture Clash estreou na parada Billboard Contemporary Jazz em 8º lugar… embora ninguém classificasse imediatamente a banda como jazz. (Eles estão se divertindo demais para isso!)

Seguiu-se uma outra turnê mundial ainda mais ambiciosa, com 109 datas, levando a banda por todos os Estados Unidos, pela Europa e, desta vez, por toda a Ásia. Algumas das paradas mais exóticas da turnê incluíram Vietnã, Tailândia e Islândia. A loucura ao redor do mundo foi documentada no CD/DVD ao vivo Culture Clash Live, lançado no início de 2015. As críticas universalmente positivas refletiram a captura precisa do show ao vivo insano da banda, com doses iguais de virtuosismo e absurdo. Um crítico britânico particularmente perspicaz (Echoes And Dust) observou o seguinte: “Há tanto bom humor em cada compasso que cada faixa é uma delícia, um rinoceronte em disparada de tutu rosa.”

Logo após o enorme sucesso da turnê mundial Culture Clash, o The Aristocrats decidiu reescrever suas próprias regras para o terceiro álbum de estúdio, Tres Caballeros, lançado no final de junho de 2015. Depois de dois álbuns de trio com sonoridade mais crua, a banda se instalou em fevereiro de 2015 no lendário estúdio Sunset Sound, em Hollywood, Califórnia, onde Led Zeppelin, The Rolling Stones e Van Halen gravaram álbuns memoráveis. O resultado: nove novas composições com uma profundidade e amplitude sonora nunca antes vistas, com texturas únicas e camadas exuberantes que amplificam a capacidade sobrenatural da banda de improvisar, tanto individualmente quanto em grupo, no mais alto nível possível. Mas não se preocupe – tudo isso foi temperado com uma firme recusa em se levarem muito a sério, e o The Aristocrats continuava se divertindo mais do que uma banda de fusion deveria.

“Aprendemos muito desde que começamos a banda e acho que este trabalho em particular refletiu isso de várias maneiras”, diz o guitarrista Guthrie Govan. “A decisão de testar o material ao vivo com o público antes de começar a gravação; a escolha de gravar em um estúdio com uma energia rock'n'roll inspiradora; nossa vontade repentina de sermos mais ousados ​​e experimentais com overdubs, em vez de nos sentirmos pressionados a gravar exclusivamente em um formato rígido de trio… tudo isso teve um efeito positivo no resultado final do novo disco. Além disso, acho que o material deste álbum é um dos mais interessantes que já escrevemos uns para os outros, então… espero que nossos estimados ouvintes tenham gostado do produto final tanto quanto nós!”

Após uma breve turnê europeia em 2018, o ano seguinte viu o The Aristocrats gravar seu álbum mais ambicioso e exploratório até então. Seu quarto álbum, You Know What…?, de 2019, que foi gravado no Brotheryn Studios, na bucólica Ojai, Califórnia. A banda se sentiu revigorada por sua curta pausa e mergulhou mais fundo do que nunca em novos sons e composições mais ricas para produzir seu trabalho mais profundo e diversificado até o momento. Do rock sujo e visceral de “D Grade F*ck Movie Jam” e “Terrible Lizard”, à loucura peculiar e sem limites de “Spiritus Cactus” e “Spanish Eddie”, aos arranjos luxuosos de “Burial At Sea” e “When We All Come Together”, e às melodias atemporais de “All Said And Done” e “Last Orders”, You Know What…? é um álbum repleto de grooves viciantes, jams energéticas e reviravoltas musicais aparentemente impossíveis.

A banda estava no auge e apresentou alguns dos seus melhores shows da turnê. Essas apresentações foram gravadas e se tornaram a base para o terceiro álbum ao vivo da banda, FREEZE! Live In Europe 2020, lançado em 2021. Com foco no material de You Know What…?, o álbum serviu para relembrar aos fãs ao redor do mundo o quão eletrizante a banda seria quando os shows ao vivo fossem novamente possíveis.

A banda também marcou o período de confinamento (covid-19) com outra estreia criativa: o projeto de colaboração orquestral The Aristocrats With Primuz Chamber Orchestra, em 2022. O álbum revela uma reimaginação musical exuberante e uma reinvenção sonora de composições de toda a trajetória da banda.

A banda começou a trabalhar em seu projeto de estúdio mais ambicioso até hoje: um álbum conceitual. Duck conta a história de um nativo de uma ilha antártica com pés palmados que foge de um pinguim policial até chegar à cidade de Nova York… onde muitas desventuras e perigos o aguardam. O álbum foi lançado em 16 de fevereiro de 2024, coincidindo com a turnê DUCKLING, uma série de cinco shows selecionados na costa oeste dos EUA para celebrar a ocasião. Duck leva a arte coletiva do The Aristocrats a um novo nível alucinante – ainda que absurdo.

O mais importante é lembrar que The Aristocrats são uma banda de verdade. Seja em relação à música, aos planos de turnê, à arte e à ordem das faixas do álbum, às decisões de negócios ou qualquer outra coisa, todos têm a mesma voz. Talvez Guthrie tenha resumido isso da melhor forma quando usou a expressão "uma democracia barulhenta da musicalidade".

Não é só fusão. Não é só solos virtuosos. Às vezes, nem é para ser levado a sério. É apenas o som de três caras que fizeram um showzinho qualquer e de repente descobriram que tinham algo musicalmente profundo juntos… além de uma propensão a usar títulos de músicas impróprios para menores.

Então, como se chama esse ato?


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