Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
Mostrando postagens com marcador Arnaldo Baptista Músico. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Arnaldo Baptista Músico. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Arnaldo Baptista (projeto 7.8)


Arnaldo Baptista continua formando artistas...
... e o projeto 7.8 prova isso!

Texto por Luiz Cesar Pimentel
Coordenação: Sonia Rosa Maia

Existem homenagens que olham para o passado. Esta nasceu olhando para o futuro.

Quando começamos a desenhar o Arnaldo Baptista 7.8 – Canções Inesquecíveis Revisitadas, queríamos reunir artistas para celebrar os 78 anos de um dos compositores mais importantes da música brasileira. Em algum momento do percurso, ficou claro o que já sabíamos – que o projeto não seria apenas um disco coletivo, ao gosto do mercado. Estávamos registrando um fenômeno que, até então, existia de forma dispersa, espalhado por palcos, estúdios, festivais e conversas entre músicos.

Depois de acompanhar Arnaldo durante tantos anos — como jornalista, pesquisador e admirador de sua obra — poucas coisas ainda conseguem me surpreender. Esta conseguiu.


As gravações começaram a chegar de diferentes lugares e naturezas. Depois vieram outras. Em seguida mais algumas. Quando percebemos, havia 60+ artistas trabalhando ao mesmo tempo sobre o mesmo universo musical. “Se tivéssemos feito o convite publicamente, teríamos perto de 200 aderindo”, apostou todas as suas fichas Sonia Rosa Maia durante a gravação do programa de lançamento do projeto, que inclui entrevista com Arnaldo e participações muito especiais dos artistas. É ela quem assina a direção e coordenação do Arnaldo Baptista 7.8, encarando de frente o desafio de colocar no mercado do streaming, todo estruturado por diversos engessamentos, um projeto para o qual o sistema não está preparado para abraçar.
_______________________________________________________

O recorte do repertório.

Há um detalhe que considero decisivo para entender ainda melhor a dimensão desse projeto: todas as releituras são dedicadas exclusivamente à obra solo de Arnaldo Baptista. Não há uma única composição dos Mutantes. A decisão foi consciente desde o início. A carreira solo de Arnaldo sempre exerceu enorme influência sobre músicos de diferentes gerações, mas nunca foi percebida nessa grandeza. Era chegada a hora de iluminar justamente essa parte de sua trajetória.

Também não havia uma gravadora conduzindo o processo, um grande orçamento de marketing ou contratos obrigando artistas a participar. O movimento aconteceu pelo motivo mais difícil de fabricar: vontade. Músicos quiseram gravar Arnaldo porque reconheceram nele uma referência criativa fundamental para a própria formação. Tenho dificuldade de lembrar de outro caso semelhante.

Não conheço um projeto brasileiro — e sinceramente não me recordo de um internacional — que reúna 60+ artistas lançando, simultaneamente, 55 singles inéditos inspirados na obra de um único compositor. Não estamos falando de participações em um álbum coletivo, nem de uma compilação tradicional. Cada artista escolheu uma canção, construiu sua própria leitura e a lançou como single, preservando sua identidade artística. O elo entre todos continua sendo Arnaldo. Isso diz muito menos sobre o projeto do que sobre Arnaldo.

Durante décadas, acostumamo-nos a definir Arnaldo Baptista como fundador dos Mutantes, um dos pioneiros do rock brasileiro, uma das figuras centrais da Tropicália – segundo o maestro Rogério Duprat –, ou artista cult. Tudo isso continua correto. Apenas deixou de ser suficiente. Arnaldo continua acontecendo. E essa é sua característica mais extraordinária.

Boa parte das pessoas que frequentaram seus concertos solo de 2011-2018, que hoje acompanham suas exposições ou discutem sua obra nas redes sociais, simplesmente não era nascida quando Arnaldo gravou os discos que entraram para a história da música brasileira. Muitos têm pouco mais de vinte anos. Descobriram Arnaldo ouvindo, desde o berço, músicas que os pais colocavam pra tocar. Ou por indicação de amigos, vídeos ou recortes que circulam nas redes. Não chegaram movidos por nostalgia. Chegaram porque encontraram uma liberdade criativa que continua fazendo sentido hoje.

Percebi isso há tempos! Em entrevistas, festivais, bastidores de shows e pesquisas para meus livros, o nome de Arnaldo aparecia repetidamente quando perguntava a músicos quais artistas haviam mudado sua forma de pensar música. A resposta surgia em bandas de rock, artistas experimentais, compositores da MPB, produtores de música eletrônica, gente da cena independente e até artistas visuais.

O projeto apenas tornou visível aquilo que já acontece há anos. Basta ouvir as gravações. Nenhuma delas tenta reproduzir Arnaldo. Essa, para mim, é uma das maiores qualidades do conjunto. Os artistas mergulharam profundamente nas composições, compreenderam sua lógica e, em vez de imitá-la, fizeram exatamente o que aprenderam com ela: produziram algo novo. As versões acabam revelando tanto sobre quem interpreta quanto sobre quem inspirou essas interpretações. Em muitos momentos tive a impressão de que Arnaldo aparecia justamente onde deixava de ser copiado.

Marcelo Furtado, da Pedra Relógio, resumiu isso muito bem ao contar que passou dias convivendo com Vou Me Afundar na Lingerie. Deixou um caderno aberto ao lado da cama para anotar ideias, manteve a guitarra sempre por perto, sonhou com arranjos e só entrou em estúdio quando encontrou uma versão que preservava o espírito da composição sem abrir mão da identidade da banda.

" É essa sensação que atravessa praticamente todas as gravações"

Leo Jaime voltou aos anos 1970 para gravar Cozinho de Noite, composta em parceria com Arnaldo. O Violeta de Outono incorporou trechos do piano original do compositor em Jesus, Come Back to Earth. Rod Krieger trouxe todos os pianos de Arnaldo, suas Gibsons preferidas, valvulados e finalização analógica para sua versão de The Cowboy.

É também notável a influência de Arnaldo ir além da música. O multiartista e ilustrador Rogério Puhl criou, há algum tempo, a arte inspiradora para que a designer Ste Marino desse vida ao conceito visual do projeto. “O que mais me inspira em Arnaldo é justamente essa autenticidade quase visceral. Existe uma liberdade muito rara na maneira como ele mistura som, imagem, poesia e imaginação. Dentro do meu universo, procuro absorver esse olhar inquieto e levar isso para o meu trabalho, buscando criar de forma mais livre, intuitiva e verdadeira”, contou Puhl ao liberar sua arte para o 7.8.

"Um retrato da música independente brasileira"

Enquanto ouvia esse material, outra evidência foi aparecendo. O Arnaldo Baptista 7.8 acabou se transformando também em um retrato da música independente brasileira.

A palavra “independente” vem sendo usada quase como um sinônimo de “à margem” do mercado. Mas é justamente daí que a inovação artística continua surgindo – exatamente desse território. O projeto Arnaldo Baptista 7.8 reúne músicos, produtores, artistas visuais, performers e compositores que raramente aparecem nas grandes campanhas promocionais, mas continuam produzindo as obras mais inventivas da música brasileira. 
Esta é outra herança silenciosa de Arnaldo Baptista. Ele nunca ensinou uma fórmula. Ensinou que a liberdade criativa sempre vale mais do que a conveniência do mercado.

Também por isso decidimos abandonar o modelo tradicional de lançamento. Seria um contrassenso reunir 60+ artistas para depois concentrar toda a comunicação em um único perfil ou em um único canal. O projeto nasceu coletivo-colaborativo, e sua divulgação precisava seguir a mesma lógica. Em vez de uma campanha centralizada, optamos por construir uma arquitetura de rede orgânica. Cada artista passa a ser também um difusor do projeto, permitindo que públicos diferentes conversem entre si.

"Foi esse espírito, também, que guiou a curadoria desde o início"

Desde fevereiro deste ano de 2026, ouvimos gravações, acompanhamos mixes, sugerimos caminhos e conversamos diariamente com artistas, formando um grupo que acabou funcionando menos como uma comissão e mais como uma roda permanente de criação. A curadoria foi conduzida por Arnaldo Baptista, Lucinha Barbosa, Luiz Cesar Pimentel, Lu Lima, Márcio Lomiranda, Marcos Lauro/Orfeu Digital, Rod Krieger, Sonia Rosa Maia e Thais Pimenta/Café 8. Cada um trouxe um olhar diferente para o 7.8, e talvez também por isso o projeto nunca perdeu sua diversidade.

"Foi dessa convivência que surgiu mais um momento simbólico dessa trajetória"

Já estávamos praticamente encerrando os trabalhos quando Arnaldo e Lucinha verbalizaram que ninguém havia escolhido “Sr. Empresário”, uma das favoritas de ambos da obra solo de Arnaldo. A música, escrita na época do Patrulha do Espaço, continua impressionantemente atual. Passaram-se décadas, mudaram governos, tecnologias, modelos de negócio e a indústria da música praticamente foi reinventada. Ainda assim, a ironia e a crítica presentes na composição permanecem intactas. E essa é a deixa para dizer o mesmo de toda a obra solo revisitada no Arnaldo Baptista 7.8.

A solução mais simples para a entrada de “Sr. Empresário” seria convidar mais um artista. Mas preferimos fazer outra coisa. Montamos uma banda para a regravação e a chamamos Renomado. E podes crer: enquanto você vivencia este projeto, algum artista, alguma banda, está nascendo sob a influência marcante de Arnaldo – aqui, pelo Planeta e no infinito do espaço sideral.


Para mim, entrar em estúdio para gravar uma canção de Arnaldo Baptista foi uma experiência completamente diferente. Não tinha mais a distância confortável do jornalista. Eu também fazia parte daquela história. Foi aí que percebi uma coisa que talvez explique melhor esse projeto do que qualquer número. Ninguém aceitou o convite apenas para homenagear Arnaldo. As canções reunidas aqui não nasceram de uma convocação. Nasceram de uma influência.

"O Arnaldo Baptista 7.8 não tenta preservar uma memória. Ele registra um legado em movimento"

As 55 gravações mostram que a obra de Arnaldo continua circulando, sendo reinterpretada, provocando novas ideias e formando artistas que pertencem a gerações diferentes daquela que o viu surgir. No fim das contas, essa sempre foi a maior medida da importância de um criador. Não é a quantidade de discos vendidos. Nem o número de prêmios. Muito menos o tamanho da biografia.

Um artista se torna realmente grande quando sua obra deixa de lhe pertencer e passa a fazer parte da imaginação criativa de outras pessoas. Poucos compositores brasileiros conseguiram isso de maneira tão profunda quanto Arnaldo Baptista. O Arnaldo Baptista 7.8 – Canções Inesquecíveis Revisitadas existe porque, mais de meio século depois, suas canções continuam encontrando novos intérpretes.

"E isso diz muito mais sobre Arnaldo do que sobre qualquer homenagem que se possa prestar a ele"

Luiz Cesar Pimentel
De dentro da nave espacial – os artistas e suas versões.

Para apresentar este projeto ao público na sua forma mais autêntica, a música, usamos os streamings para fazer esse tesouro chegar até o público. Os singles foram lançados, simultaneamente, nas páginas dos artistas participantes e nas de Arnaldo nos streamings no dia 2 de setembro de 2026. Logo em seguida, entraram os 4 álbuns-coletâneas, intitulados Cobre, Sunny, Pink e Jeans.

Os nomes foram inspirados nas cores escolhidas pela designer Ste Marino para a capa de cada um deles. A decisão de usar as cores para nomear os álbuns foi justamente para afastar qualquer sensação que levasse as pessoas a pensarem que havia ali uma escala, uma seleção ou ordem específica. Assim, mantivemos, até o mínimo detalhe, o espírito colaborativo e coletivo do projeto – não há destaques. Estamos “todos juntos reunidos numa pessoa só”, como diz Arnaldo em um de seus clássicos.

Mesmo a escolha de artistas mais famosos para encabeçar as coletâneas seguiu esse espírito, mas também uma estratégia. Como o álbum-coletânea no qual cada artista participante aparece vai também para sua página, queríamos inspirar ouvintes dos mais famosos a conhecerem melhor a cena da música independente brasileira.

As coletâneas foram lançadas para que tivéssemos um registro histórico, no formato clássico de álbum, do Arnaldo Baptista 7.8, que permanecesse ali nas páginas de Arnaldo no digital para sempre.


_______________________________________________________

DiScOs InCrÍvEiS: Arnaldo Baptista (Lóki?)


ARNALDO BAPTISTA 
– LÓKI? – 
(Philips, 1974)

"Não atire no pianista, diziam os cartazes nos saloons do Velho Oeste. Era peça de difícil reposição. No caso de Arnaldo, um piano foi tudo que ele precisou para fazer um dos discos fundamentais da música brasileira"

Produção: Arnaldo Baptista.

Loki, o deus asgardiano da trapaça e da loucura, não teria previsto tal insanidade: em 1974, sozinho com seu piano em seu quarto na Serra da Cantareira, um rapaz de 26 anos, Arnaldo Dias Baptista, que todos supunham desorientado, nutriu a semente de um disco que mudaria para sempre a face da música brasileira.

Loki?, o disco, foi gravado de um fôlego só, sem repetir takes, no Estúdio Eldorado, em São Paulo, em 16 canais. Possui 10 faixas e 33 minutos de duração, não apela a um único riff de guitarra (uma heresia para a época) e emparelha sintetizador com violão, arranjos orquestrais com clavinete e órgão. Sua musicalidade é visionária: há sambalanço, glam, baladas pop à moda britânica, rockabilly norte-americano, MPB, clássico, digressões progressivas. A invenção é a única fronteira do álbum, mas não é um experimentalismo cartesiano, de nerd – Arnaldo arrombou sem cerimônia as portas da percepção.

Loki? abriga desde uma viagem instrumental entre Chopin e Elton John, na composição Honky Tonky, até um certo orientalismo, que escorrega depois para o blues e chega até a MPB tradicional no violão de 12 cordas em É Fácil. Arnaldo é homem-banda se desdobrando em busca do efeito certo, como mostra com o sintetizador Moog em Desculpe e Te Amo, Podes Crer. Quando canta “onde é que está meu rock’n’roll”, ele é puro Jerry Lee Lewis, mas aí emenda um “eu vou voltar pra Cantareiraaaaaa”, que é pura MPB, e anarquiza as referências.

O ex-Mutante teve a lucidez (com apoio de Roberto Menescal, diretor artístico da Philips, que o bancou, e Marco Mazzola, que o produziu) de buscar a ajuda que precisava. O maestro Rogério Duprat, então ex-tropicalista, abominava aquilo em que o rock se tornara: uma fórmula batida de guitarra, baixo e bateria, um rótulo musical, uma limitação da imaginação. Por causa dessa conjuntura, largou tudo e foi viver em uma marcenaria doméstica em Itapecerica da Serra. Ao lapidar duas canções de Arnaldo (Uma Pessoa Só e Cê Tá Pensando Que Eu Sou Loki?), teve a sensação de que havia ainda um mundo a descortinar. Era o nosso George Martin.

Este disco é para ser ouvido em alto volume, recomendava Arnaldo. Não precisava da recomendação: o disco era tão importante que vai ressoar eternamente, enquanto seu tempo fica para trás. Havia, desde janeiro daquele ano, um novo general conduzindo com mão de ferro a ditadura militar, Ernesto Geisel. Essa sombra permanente fazia com que toda a arte da época soasse combatente, engajada. Liricamente, Arnaldo elegia sua própria angústia existencial como o universo a ser compreendido, e legou ao futuro uma Bíblia de utopia alternativa. “Ficamos até mesmo todos juntos. Reunidos numa pessoa só”, cantava, em Cê Tá Pensando que eu Sou Loki?.

O disco de Arnaldo baixou à Terra como uma visão estética e individual, o que o levou a ser comparado a Syd Barrett, do Pink Floyd. Não tinha equivalente entre seus contemporâneos, como ainda não tem. Seu combustível original foi uma desilusão amorosa, como em 90% do pop, mas o resultado é uma iluminação universal.

No resto do mundo, insinuava-se uma promessa de futuro tecnológico brilhante. Naquele ano, o Kraftwerk lançou o clássico Autobahn. A família dos sintetizadores recebia o revolucionário Moog Satellite, que seria muito usado por Vangelis nas trilhas do novo cinema.

Arnaldo Baptista transcendia sua dimensão, vivia num disco voador. Tinha ido ao topo da glória pop com Os Mutantes, mas, recém-saído da banda, continuava olhando muito além. Na foto da capa, com a calça de couro marrom sem camisa, a postura de quem está à espera de algo ou alguém, ele parecia demonstrar que não tinha voracidade pelo futuro, nem reverência pelo passado. Criava sozinho a realidade, apegado aos seus sonhos e às suas visões, e é isso que prevalece em Loki?.

São célebres as confissões de Sean Lennon e Kurt Cobain acerca da influência que Arnaldo Baptista e os Mutantes tiveram em sua música, mas é ainda mais amplo o leque, que vai de Devendra Banhart a Kevin Parker, do Tame Impala. No Brasil, essa influência se estende por gerações, audível em canções de Boogarins e O Terno.


Álbum transcendental, registra as ondas das influências naquele momento de transição – Arnaldo o fez ainda cercado pelos antigos companheiros, como se fizesse uma interseção. Há vocais de apoio de Rita Lee em duas canções (Não Estou Nem Aí e Vou Me Afundar na Lingerie) e os músicos são Liminha (baixo; Sérgio Kaffa toca o baixo apenas em Desculpe) e Dinho (bateria).

FAIXAS:

1-Será Que Eu Vou Virar Bolor?
2-Uma Pessôa Só
3-Não Estou Nem Aí
4-Vou Me Afundar Na Lingerie
5-Honky Tonky
6-Cê Tá Pensando Que Eu Sou Loki?
7-Desculpe
8-Navegar de Nôvo
9-Te Amo Podes Crer
10-É Fácil