Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
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terça-feira, 29 de setembro de 2026

DiScOs InCrÍvEiS: Arnaldo Baptista (Lóki?)


ARNALDO BAPTISTA 
– LÓKI? – 
(Philips, 1974)

"Não atire no pianista, diziam os cartazes nos saloons do Velho Oeste. Era peça de difícil reposição. No caso de Arnaldo, um piano foi tudo que ele precisou para fazer um dos discos fundamentais da música brasileira"

Produção: Arnaldo Baptista.

Loki, o deus asgardiano da trapaça e da loucura, não teria previsto tal insanidade: em 1974, sozinho com seu piano em seu quarto na Serra da Cantareira, um rapaz de 26 anos, Arnaldo Dias Baptista, que todos supunham desorientado, nutriu a semente de um disco que mudaria para sempre a face da música brasileira.

Loki?, o disco, foi gravado de um fôlego só, sem repetir takes, no Estúdio Eldorado, em São Paulo, em 16 canais. Possui 10 faixas e 33 minutos de duração, não apela a um único riff de guitarra (uma heresia para a época) e emparelha sintetizador com violão, arranjos orquestrais com clavinete e órgão. Sua musicalidade é visionária: há sambalanço, glam, baladas pop à moda britânica, rockabilly norte-americano, MPB, clássico, digressões progressivas. A invenção é a única fronteira do álbum, mas não é um experimentalismo cartesiano, de nerd – Arnaldo arrombou sem cerimônia as portas da percepção.

Loki? abriga desde uma viagem instrumental entre Chopin e Elton John, na composição Honky Tonky, até um certo orientalismo, que escorrega depois para o blues e chega até a MPB tradicional no violão de 12 cordas em É Fácil. Arnaldo é homem-banda se desdobrando em busca do efeito certo, como mostra com o sintetizador Moog em Desculpe e Te Amo, Podes Crer. Quando canta “onde é que está meu rock’n’roll”, ele é puro Jerry Lee Lewis, mas aí emenda um “eu vou voltar pra Cantareiraaaaaa”, que é pura MPB, e anarquiza as referências.

O ex-Mutante teve a lucidez (com apoio de Roberto Menescal, diretor artístico da Philips, que o bancou, e Marco Mazzola, que o produziu) de buscar a ajuda que precisava. O maestro Rogério Duprat, então ex-tropicalista, abominava aquilo em que o rock se tornara: uma fórmula batida de guitarra, baixo e bateria, um rótulo musical, uma limitação da imaginação. Por causa dessa conjuntura, largou tudo e foi viver em uma marcenaria doméstica em Itapecerica da Serra. Ao lapidar duas canções de Arnaldo (Uma Pessoa Só e Cê Tá Pensando Que Eu Sou Loki?), teve a sensação de que havia ainda um mundo a descortinar. Era o nosso George Martin.

Este disco é para ser ouvido em alto volume, recomendava Arnaldo. Não precisava da recomendação: o disco era tão importante que vai ressoar eternamente, enquanto seu tempo fica para trás. Havia, desde janeiro daquele ano, um novo general conduzindo com mão de ferro a ditadura militar, Ernesto Geisel. Essa sombra permanente fazia com que toda a arte da época soasse combatente, engajada. Liricamente, Arnaldo elegia sua própria angústia existencial como o universo a ser compreendido, e legou ao futuro uma Bíblia de utopia alternativa. “Ficamos até mesmo todos juntos. Reunidos numa pessoa só”, cantava, em Cê Tá Pensando que eu Sou Loki?.

O disco de Arnaldo baixou à Terra como uma visão estética e individual, o que o levou a ser comparado a Syd Barrett, do Pink Floyd. Não tinha equivalente entre seus contemporâneos, como ainda não tem. Seu combustível original foi uma desilusão amorosa, como em 90% do pop, mas o resultado é uma iluminação universal.

No resto do mundo, insinuava-se uma promessa de futuro tecnológico brilhante. Naquele ano, o Kraftwerk lançou o clássico Autobahn. A família dos sintetizadores recebia o revolucionário Moog Satellite, que seria muito usado por Vangelis nas trilhas do novo cinema.

Arnaldo Baptista transcendia sua dimensão, vivia num disco voador. Tinha ido ao topo da glória pop com Os Mutantes, mas, recém-saído da banda, continuava olhando muito além. Na foto da capa, com a calça de couro marrom sem camisa, a postura de quem está à espera de algo ou alguém, ele parecia demonstrar que não tinha voracidade pelo futuro, nem reverência pelo passado. Criava sozinho a realidade, apegado aos seus sonhos e às suas visões, e é isso que prevalece em Loki?.

São célebres as confissões de Sean Lennon e Kurt Cobain acerca da influência que Arnaldo Baptista e os Mutantes tiveram em sua música, mas é ainda mais amplo o leque, que vai de Devendra Banhart a Kevin Parker, do Tame Impala. No Brasil, essa influência se estende por gerações, audível em canções de Boogarins e O Terno.


Álbum transcendental, registra as ondas das influências naquele momento de transição – Arnaldo o fez ainda cercado pelos antigos companheiros, como se fizesse uma interseção. Há vocais de apoio de Rita Lee em duas canções (Não Estou Nem Aí e Vou Me Afundar na Lingerie) e os músicos são Liminha (baixo; Sérgio Kaffa toca o baixo apenas em Desculpe) e Dinho (bateria).

FAIXAS:

1-Será Que Eu Vou Virar Bolor?
2-Uma Pessôa Só
3-Não Estou Nem Aí
4-Vou Me Afundar Na Lingerie
5-Honky Tonky
6-Cê Tá Pensando Que Eu Sou Loki?
7-Desculpe
8-Navegar de Nôvo
9-Te Amo Podes Crer
10-É Fácil



segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Arnaldo Baptista


Arnaldo 'Loki' Baptista

“Quando eu pinto, por vezes tenho inspirações vindas do meu conhecimento musical e, em outros casos, são inspirações visuais. É a expressão do que a minha alma diz sobre o sol, sobre as nuvens… Eu construí esse novo caminho de criação, por enxergar minha alma de uma forma que conecta a música às artes plásticas”
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O cantor, multi-instrumentista, compositor, escritor, ambientalista e artista plástico paulistano Arnaldo Dias Baptista nasceu em São Paulo no chuvoso dia 6 de julho de 1948. Filho da pianista, concertista e compositora Clarisse Leite Dias Baptista e do jornalista, escritor e cantor lírico César Dias Baptista, Arnaldo estava fadado a unificar estradas e ventos em seu destino de amplificar sinais sônicos da mente e da consciência. Crescendo num ambiente multidisciplinar, entre aulas de piano clássico, jazz, balé, estudando os idiomas de Dostoiévski, Lewis Carroll e Édith Piaf, Arnaldo Baptista escolheria a via da música para atuar no alargamento das portas das percepções durante seu ciclo vital.

Entre 1961 e 1967, tateando ainda em busca de uma linguagem e de um conceito, Arnaldo integrou bandas pioneiras do cenário brasileiro a partir de 1965, grupos como Wooden Faces, Sand Trio, Six Sided Rockers e O Konjunto. Mas foi com a lenda tropicalista Os Mutantes que ele sedimentou, em parceria com o irmão Sérgio Dias e Rita Lee, – e mais tarde com a entrada de Liminha e Dinho Leme – uma linguagem de abertura cósmica, uma jornada psicodélica de música e imagens que teve o impacto de uma supernova na constelação da música jovem urbana daquela década. 

Já no seu disco de estreia, Os Mutantes (1968), Arnaldo, destacado compositor, arranjador e ideólogo do grupo, começaria a explorar, de forma insondável até então na cena nacional, bases harmônicas e rítmicas visionárias, distorções e colagens sonoras, coros invertidos, a busca de sons e referências inusitadas – de Guimarães Rosa à Bíblia, dos Beatles à música caipira –, atitude rebelde e insubordinada para com os códigos viciados da música comercial e de compreensão binária do mundo.

Não demoraria muito para que a aventura mágica dos Mutantes chegasse ao cenário internacional, em plena era Beatles & Stones, projetando um futuro referencial para o grupo a partir de um álbum de futurística ousadia, Tecnicolor (gravado em 1970 e lançado em 1999), uma obra-prima submetida a uma hibernação de 30 anos – dado seu grau de antevisão.

Entre 1968 e 1972, os Mutantes gravaram 5 discos referenciais. “Digo e repito: o Arnaldo Baptista é responsável por tudo que aconteceu de 1967 pra frente”, sentenciou, sobre a contribuição do artista, o maestro tropicalista Rogério Duprat, em 1993. Com o fim do grupo, Arnaldo seguiu criando paisagens inexploradas.

Em 1974, com o disco solo Lóki?, Arnaldo dinamitaria mais uma vez as estruturas do rock, prescindindo das guitarras, abraçando tanto a bossa quanto o blues, Chopin e George Martin. Pontuava novos parâmetros para o gênero. Nesse período, Arnaldo foi um dos raros artistas brasileiros a arriscar-se no chamado “one man band record”, realizando o disco super solo Singin’ Alone (gravado por volta de 1980 e lançado pela primeira vez no Brasil em 1982), no qual compõe as canções, toca todos os instrumentos e assina a produção musical. Não era exibicionismo: a ideia era edificar um monolito estético, uma peça de absoluta integridade.

O conceito do espaço-tempo de Einstein, as viagens no tempo de Stephen Hawking, os paradoxos da Física, a consciência cósmica e os mistérios da mediunidade: tudo estava embalado naquela visionária viagem. Baseado num céu genuíno, veio em seguida o voo underground, quando criou a banda Patrulha do Espaço, antecipando horizontes para o blues rock nacional, o hard rock tropical, as fronteiras inalcançáveis da improvisação e da cor de uma música eterna e ternamente jovem.

Artefato admirado em todos os quadrantes do planeta por seu visionarismo, a música de Arnaldo Baptista foi saudada ao longo dos anos por artistas de diferentes esferas, como Kurt Cobain, Sean Ono Lennon, Tame Impala, Beck, David Byrne, Radiohead, Stereolab, Tortoise, Devendra Banhart, High Lamas e Wondermints. Em 1993, quando esteve no Brasil, Kurt Cobain, do Nirvana, confessou sua admiração pelo vanguardismo do ex-Mutante: “Arnaldo, tudo de bom pra você e cuidado com o sistema. Eles te engolem e te cospem fora, como o caroço de uma cereja marrasquino”, escreveu o roqueiro estadunidense.

A advertência de Kurt Cobain revelava uma visão arguta: cerca de uma década antes, em janeiro de 1982, alvejado por profunda depressão, Arnaldo tinha sofrido em São Paulo um acidente devastador, que resultara em um traumatismo craniano. Sua condição agora neurodiversa impulsionou Arnaldo a ampliar seu leque de expressões e, a partir de então, produzir maravilhas que questionam cânones e arcabouços (livros, turnês, recitais, telas & acrílicos, novas parcerias e exposições). Sua atuação passa a gerar frutos em outras esferas da cultura pop.

Em 2008, foi lançado ' LÓKI? ', um filme dirigido por Paulo Henrique Fontenelle que traça um panorama sobre a carreira de Arnaldo a partir de um quadro “biográfico” pintado pelo músico. Entre os artistas que participam do documentário estão Gilberto Gil, Tom Zé, o irmão Sérgio Dias, o norte-americano Devendra Banhart e Sean Lennon, filho do ex-Beatle John Lennon. O longa traz os dramas sofridos duranrte toda sua vida e trajetória. O nome do filme é baseado no primeiro álbum solo de Arnaldo, Lóki?, lançado em 1974. 

Numa pessoa só!

A obra plástica de Arnaldo Dias Baptista é simetricamente diversa e complexa em termos de enquadramento. Aquilo que ora pode ser observado como expressão máxima de uma consciência que verte, psicossomaticamente, cenas fantásticas e de exuberância criativa livre de normatização também poderia ser caracterizado como uma combinação do representativo, do absurdo, do irreal e do inconsciente – metodologia típica dos surrealistas.

Acontece que os elementos compositivos que Arnaldo imprime em suas imagens não se encerram por aí. O humor e o cientificismo também integram a produção do artista, que já chegou a afirmar que a melhor maneira de investigar como as coisas são, sejam elas naturais, sociais, artificiais ou conceituais, é pela adoção do método científico, combinado à poesia da circunstância criada na composição.

O produto dessa investigação visual é uma vasta gama de situações onde é perceptível a oscilação entre o cômico e o idílico, sendo o primeiro aspecto um dos eixos da ruptura na concepção de OEuvre d’art provocada por Marcel Duchamp. O humor é um instrumento de rebelião e libertação, que na obra de Arnaldo opera em benefício de uma construção menos austera e mais gentil da realidade.


Ainda que, a primeira vista, o trabalho evoque a extravagancia cromática, percepção sinestésica do mundo e inversão de planos presentes na estética psicodélica, no prisma criativo de Arnaldo não é possível encontrar o arquétipo do artista divorciado do mundo e fiel apenas aos imperativos de sua obra. Arnaldo desenvolve sua produção visual como um homem-artista liberto em relação a sua época, realidade, normas, técnicas e gosto de seu tempo. Acima de tudo, Arnaldo é contemporâneo e sua produção expressa o sumo de sua relação com o mundo.

Enquanto artista visual, Arnaldo Dias Baptista se prostra frente ao Universo e esse encontro determina os símbolos que se articulam pelos sentidos em imagens sensíveis. A linguagem híbrida e transestética revelada na produção aqui exposta comunica, acima de tudo, a dependência de um sentido em relação a outro: o sincretismo da obra musical com a metáfora visual em favor da utopia – a plenitude perceptiva e renúncia a um sistema isolado de assimilação dos fenômenos. O traquejo nas múltiplas manifestações da linguagem em favor da comunicação maior – numa pessoa só.

Reconhecido como um equivalente brasileiro de mentes febris da arte internacional, como Syd Barrett, do Pink Floyd, Frank Zappa ou Brian Eno, do Roxy Music, o bruxo da Pompeia segue inabalável sua saga de guru que atua em territórios onde não chegam os conceitos triviais de criação e sensação, de transfiguração e de descondicionamento.

Para navegar e se aventurar nos projetos, nas artes visuais e na música de Arnaldo Baptista, conheça sua obra repleta de galerias e exposições na página oficial.


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