Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Meio Ambiente: Vitalogy Foundation - Pearl Jam

 Vitalogy Foundation: Pearl Jam


A Vitalogy Foundation é uma organização sem fins lucrativos (501c3) fundada pelo Pearl Jam para traduzir o espírito de sua música em impactos positivos tangíveis. 

Para maximizar seu efeito, a Vitalogy atua tanto como defensora quanto como doadora.

No trabalho coletivo da banda, a Fundação concentra-se em três áreas principais.

Meio Ambiente:

Existe um motivo pelo qual o Pearl Jam tem se envolvido ativamente em causas ambientais durante a maior parte de seus 30 anos de existência: temos um planeta lindo e queremos fazer a nossa parte para protegê-lo.

Mitigação de Carbono

Desde 2003, o Pearl Jam calcula as toneladas métricas de dióxido de carbono emitidas pelas turnês mundiais da banda. Esses cálculos são baseados em passagens aéreas e estadias em hotéis da banda e da equipe, quilometragem de caminhões e ônibus, peso do transporte (quilômetros/modalidade de transporte) e o número de fãs presentes em cada show. Com base nesse cálculo, a banda destina uma parte dos lucros das turnês para investir em projetos ambientais que visam compensar ou mitigar o dióxido de carbono liberado na atmosfera durante as turnês.

Pessoas sem-teto:

A empatia transformada em ação define o trabalho da banda no combate à falta de moradia, um problema que a Vitalogy acredita poder ser resolvido por meio do trabalho conjunto e de um maior engajamento cívico.

Causas Indígenas:

O Pearl Jam tem trabalhado discretamente nos bastidores com algumas das comunidades mais negligenciadas e desassistidas do mundo há décadas.

Pearl Jam

Pearl Jam
' Do Grunge ao Cult '

O Pearl Jam, membros do Hall da Fama do Rock and Roll, venderam mais de 85 milhões de álbuns em todo o mundo. Com mais de trinta anos de apresentações ao vivo, doze álbuns de estúdio e centenas de gravações piratas de shows ao vivo lançadas oficialmente, a banda continua a ser aclamada pela crítica e um sucesso comercial. Seu mais recente álbum, Dark Matter.


Desde sua origem, o som diferenciado do Pearl Jam – menos barulhento e mais melódico, se comparado aos seus contemporâneos como Nirvana, Soundgarden e Alice in Chains, por exemplo – garantiu lugar de destaque entre as bandas que surgiram no cenário grunge na década de 90.

Hoje, mais como uma banda Cult, eles possuem seguidores fiéis, cultuados por um grupo de fãs ávidos. São admiradores e consumidores mesmo após não estar mais a banda em evidência, devido à produção e projetos filantropos. Muitas obras e fundações, como a "Vitalogy Foundation", fazem a banda atingirem status de cult depois que suas "vidas úteis" supostamente expiraram.

História

A banda Pearl Jam nasceu em Seattle, o berço do grunge na década de 90. Foi formada por músicos que já traziam certa bagagem, e eram conhecidos na cena antes de se juntarem para formar a banda. O baixista Jeff Ament e o guitarrista Stone Gossard remanescentes da banda "Mother Love Bone", precurssora do chamado "movimento grunge", foram os responsáveis pela formação original do Pearl Jam.

Depois do fim de várias bandas em que vinham tocando juntos, Jeff e Stone gravaram uma fita demo com três músicas instrumentais, juntamente com o guitarrista Mike McCready que nessa altura já havia adentrado na banda. A fita chegou às mãos de um cantor que morava em San Diego, chamado Eddie Vedder. Eddie gravou seus vocais por cima da base instrumental e mandou a fita de volta, com suas composições. E, assim que ouviram, encontraram a peça que faltava para o nascimento do Pearl Jam.

Rapidamente a banda ganhou reputação e assinou um contrato com a Epic Records, lançando em 1991 o primeiro álbum: “Ten”. O álbum foi um sucesso e emplacou vários hits nas rádios e na televisão, como “Alive”, “Oceans”, “Jeremy” e “Even Flow”. Vale ressaltar que esse foi um dos poucos álbuns da história do rock que foi tocado inteiro nas rádios.

E é nessa época que surge o famoso mascote da banda, chamado de "Stickman", um símbolo criado pelo baixista Jeff Ament no início da década de 90, aparecendo pela primeira vez no encarte do álbum Ten (1991). Segundo o baixista, ele representa a liberdade e energia crua. O boneco de traços simples tornou-se símbolo da atitude grunge da banda, frequentemente associado à música "Alive" e à resistência.

Em 1993 o Pearl Jam já era um sucesso. Participaram de filmes e especiais, e ganharam o MTV Video Music Awards de melhor banda de Hard Rock / Heavy Metal, Melhor Vídeo de Grupo, Melhor Diretor e Vídeo do Ano pelo clipe provocativo e reflexivo de “Jeremy”. No final de desse ano lançaram o segundo álbum “Vs”, álbum que, até recentemente, era dono do recorde de mais rápida vendagem da história – em apenas 24 horas foram vendidas 350 mil cópias.

O álbum seguinte, “Vitalogy”, lançado em 1994, não obteve o sucesso estrondoso do álbum anterior, porém, a banda continuava fazendo muitos shows e mantendo fiel sua legião de fãs. Curiosamente, o álbum foi lançado primeiro em vinil, e apenas duas semanas depois em cassete e CD. O vinil alcançou o número 55 da parada da Billboard, enquanto o CD chegou à primeira posição.

Em 1995 gravam um novo disco: “No Code”. O quinto disco, “Yield”, foi lançado em 1998. Após seis anos sem produzir videoclipes, lançaram o vídeo de “Do the Evolution”, em animação. A turnê nos Estados Unidos desse ano resultou na gravação de um álbum ao vivo, o “Live on Two Legs”. Nesse mesmo ano, o baterista é substituído por Matt Cameron, ex-integrante do Soundgarden, que ficou integrante definitivo da banda até hoje.

Em 2000 o Pearl Jam lança o disco “Binaural”, com um som menos agressivo, que marcou o início da carreira. Em maio desse ano, a turnê pela Europa foi interrompida de forma trágica no Festival de Roskilde, na Dinamarca. Durante o show, nove pessoas morreram pressionadas contra a frente do palco. Em respeito aos fãs e devido ao abalo emocional da banda, eles decidiram cancelar a turnê, mesmo faltando dois shows para finalizá-la. Anunciaram que não participariam mais de festivais.

Dois anos depois, chega o “Riot Act” com o single “I am Mine”. O som mais agressivo e as performances ao vivo estavam de volta, com o vocalista Eddie Vedder criticando duramente o presidente americano George W. Bush e a guerra no Iraque durante suas apresentações.

Os lançamentos do Pearl Jam em 2003 foram a coletânea de b-sides “Lost Dogs” e o DVD “Pearl Jam at the Garden”. Em 2006, um álbum homônimo à banda é lançado. E em 2009, o CD “Backspacer” é lançado e chega ao primeiro lugar da Billboard. Em 2011, lançam mais um álbum ao vivo, “Live On Ten Legs”.

"Lightning Bolt", o décimo álbum da carreira, foi o de maior tempo entre seus lançamentos. Muito antecipado pela ótima recepção dos dois primeiros singles – a acelerada “Mind Your Manners” e a emocional “Sirens” – Lightning Bolt rapidamente se tornou o trabalho mais aguardado do Pearl Jam em muitos anos. Talvez o mais antecipado globalmente desde que Binaural (2000) criou muitas expectativas criadas pelo anterior Yield (1998). Os verdadeiros fãs da banda certamente irão apreciá-lo, pois representa a essência da música honesta e consistente da banda, que não oscila e é concebida de forma singular.

Os fãs do Pearl Jam são únicos e estar em um show da banda é uma experiência incomparável. Os fãs são sérios e 100% devotados à banda. É quase como estar no meio de uma reunião de culto, e a empolgação gerada é tão intensa que chega a ser um pouco alarmante no início. O público fica hipnotizado por cada palavra de Vedder; é um evento imperdível, sem dúvida.

Em 2020, ano da pandemia por covid-19, é lançado o álbum "Gigaton", com essa pegada de processar e atualizar os problemas reais da humanidade. Coesa e competente como sempre, a banda fez um disco alinhado com as preocupações do novo milênio (ou que deveriam realmente ser preocupações).

Da capa com uma geleira derretendo, passando pelas letras que expõem e alertam sobre os riscos da não ação nas questões ambientais e climáticas e criticam a inércia e a má vontade de quem deveria fazer algo, todos os 57 minutos giram no entorno. Até a economia no virtuosismo instrumental serve para deixar a mensagem mais seca e direta, e talvez por isso mesmo, mais impactante. É o rock do século XXI.

O último álbum da banda, "Dark Matter", lançado em 2024, trouxe uma explosão audível nas canções do disco, com letras mais políticas que consagraram a banda; a própria faixa-título usa acordes em tom maior para propor uma reflexão sobre a ignorância, a ausência de empatia e intolerância nos dias atuais, com Eddie Vedder entoando gritos de doer as cordas vocais em alguns momentos do disco. 

O álbum faz um retorno às raízes, enaltecendo o refinamento e a consagração não necessariamente tornando os membros do Pearl Jam intocáveis — mas ainda interessados em agradar velhos fãs e atrair novos com uma roupagem moderna.

O Pearl Jam nos mostra que para continuar andando para a frente é necessário e urgente pensar em como consertar atitudes ruins de um passado não tão distante, e que podem não permitir que tenhamos um futuro.




sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Mandrill

Mandrill
' The Experience '

Mandrill é uma banda de soul-funk do Brooklyn, NY, que lançou cinco álbuns pela gravadora Polydor entre 1970 e 1974, seguidos por dois álbuns pela UA e três títulos pela gravadora Arista durante a segunda metade da década de setenta.

Todos integrantes: Carlos Wilson (trombone, vocal), Lou Wilson (trompete -  vocal), Ric Wilson (saxofone - vocal), Claude “Coffee” Cave (teclados), Omar Mesa (guitarra), Bundie Cenas (baixo), Charlie Padro (bateria), Fudgie Kae Solomon (baixo), Neftali Santiago (bateria), Dougie Rodriguez (guitarra), Wilfredo “Wolf” Wilson (baixo), Joaquin Jessup (guitarra).

Breve história por seus cinco primeiros álbuns.

A banda Mandrill foi formada em 1968 no Brooklyn por três irmãos panamenho-estadunidenses: Carlos Wilson (trombone), Lou Wilson (trompete) e Ric Wilson (saxofone). Os três cantavam e tocavam vários instrumentos. Eles batizaram a banda com o nome do mandril, uma espécie de primata da África Centro-Ocidental conhecida por suas características faciais coloridas. A formação original de sete integrantes também incluía o tecladista Claude “Coffee” Cave, o guitarrista Omar Mesa, o baixista Bundie Cenas e o baterista Charlie Padro.

A banda mudou para a gravadora Arista Records e adicionou um quarto irmão Wilson, Wilfredo, no baixo. O ex-baterista Neftali Santiago retornou e o guitarrista Joaquin Jessup se juntou à banda. Esta formação lançou o álbum "We Are One" em 1977 e obteve seus maiores sucessos em vários anos com os singles "Funky Monkey" e "Can You Get It". A banda lançou mais três álbuns pela gravadora Arista, com sucesso decrescente, e parou de gravar como um grupo em 1982.

Mandrill - (1971)

O Mandrill lançou seu álbum de estreia homônimo em abril de 1971 pela Polydor. O álbum apresenta a fusão do grupo de funk, jazz, blues, soul e rock latino, com arranjos que incluem instrumentação variável e suítes extensas, equilibrando seções rigorosamente orquestradas com improvisação livre.

Todos os seis membros compuseram o material coletivamente sob o crédito de Wilson Bros., com exceção da faixa de abertura, creditada ao Mandrill como um todo.

A faixa-título se desenrola em seções mutáveis ​​com crescendos de órgão, intervenções de flauta e percussão agrupada. “Warning Blues” adota um ritmo estridente e guiado por riffs, enquanto “Symphonic Revolution” sobrepõe harmonias roucas a texturas orquestrais de funk. “Rollin' On” começa com frases de rock, transita para um ritmo latino e culmina em um clímax inspirado no gospel. A faixa “Peace and Love (Amani Na Mapenzi)”, que ocupa um lado inteiro do disco, se desenvolve como uma suíte em seis partes que abrange passagens cósmicas, interações jazzísticas e episódios pastorais antes de se encerrar com a coda instrumental “Chutney”.

As gravações ocorreram no Electric Lady Studios, na cidade de Nova York, no final de 1970, com os produtores Beau Ray Fleming e Mandrill, e a assistência do produtor associado Mitch Green. Kim King foi o engenheiro de som e mixou o álbum com o assistente Vin Leary.

A capa de Mandrill foi criada por Frank Gauna, com um conceito desenvolvido por Beau Ray Fleming, Mitch Green e a banda. O encarte duplo apresenta retratos de cada membro da banda, que se transformam, quadro a quadro, no primata mandril. 

O álbum alcançou a 27ª posição na parada R&B da Billboard.

Mandrill Is - (1972)

O Mandrill lançou seu segundo álbum
 em abril de 1972 pela Polydor.

O álbum aprofunda a fusão de funk, música latina, jazz, blues e rock da banda, ao mesmo tempo que abre o processo de composição para quase todos os membros. Comparado ao álbum de estreia, o material apresenta uma sonoridade mais incisiva e um ritmo mais conciso, sem deixar de lado os detalhes orquestrais e as mudanças progressivas.

Os irmãos Wilson escreveram quatro músicas, enquanto o tecladista Claude “Coffee” Cave contribuiu com “Cohelo” e “Kofijahm”, o guitarrista Omar Mesa escreveu “Central Park” e “The Sun Must Go Down”, e o baterista Charles Padro compôs “Universal Rhythms”. Duas faixas, “Git It All” e “Lord of the Golden Baboon”, contam com créditos de todo o grupo.

O álbum começa com “Ape Is High”, uma vigorosa faixa de funk-rock onde cantos em grupo, floreios de metais e rápidas passagens de órgão se entrelaçam com uma linha de baixo marcante. “Cohelo”, de Cave, vem a seguir como um breve esboço de bossa nova, colorido por flauta e vibrafone. “Git It All” se estende em uma jam intensa que sobrepõe guitarras vibrantes com passagens de metais precisas, enquanto “Children of the Sun” mescla influências caribenhas com nuances psicodélicas e floreios orquestrais. “I Refuse to Smile” se concentra nas harmonias vocais de Wilson sobre arranjos de cordas.

No Lado B, “Universal Rhythms”, de Padro, introduz uma narrativa falada mística, antes da instrumental “Lord of the Golden Baboon” se transformar em uma fusão com toques orientais. “Central Park”, de Mesa, transmite um tom nostálgico, enquanto “Kofijahm” impulsiona a música com percussão de inspiração africana. As duas faixas finais, “Here Today Gone Tomorrow” e “The Sun Must Go Down”, destacam riffs de guitarra mais pesados ​​e texturas jazz-rock em camadas.

As gravações ocorreram no Electric Lady Studios e no Record Plant, em Nova York, durante o inverno de 1971-72, com os produtores Alfred V. Brown e Mandrill. Dave Palmer gravou e mixou o álbum, com a assistência de Shelly Yakus, Andy Edlin e Steve Bruno.

A capa de Mandrill Is apresenta arte e design de Joseph Westerfield em colaboração com a banda, com direção de arte de Ron Nackman. A capa exibe uma figura serena de mandril contemplando a lua. O lançamento incluía um encarte de quatro páginas com letras e créditos.

A Polydor lançou "Ape Is High" e "Git It All" como singles, sendo que este último alcançou a 37ª posição na parada de R&B. O álbum chegou ao 24º lugar na parada de álbuns de soul da Billboard.

Composite Truth - (1973)

O Mandrill lançou seu terceiro álbum em janeiro de 1973 pela Polydor.

O álbum refinou a abordagem abrangente do grupo, direcionando-a para um som funk mais direto, sem deixar de incorporar ritmos latinos, harmonias soul e trechos de arranjos progressivos. Tornou-se o lançamento de maior sucesso da banda, trazendo-lhes maior reconhecimento através de dois singles que entraram nas paradas de sucesso.

Os irmãos Wilson compuseram quatro das oito faixas, enquanto o guitarrista Omar Mesa contribuiu com “Golden Stone”, o baixista Fudgie Kae escreveu “Out With the Boys” e o tecladista Claude “Coffee” Cave compôs a faixa de abertura “Hang Loose”. A banda é creditada coletivamente pelos arranjos, com Cave responsável por grande parte da instrumentação, tocando órgão, vibrafone, clavinet, piano, sintetizador Moog e Fender Rhodes.

“Hang Loose” abre o álbum com um ritmo variável, alternando entre passagens funk vibrantes e riffs de guitarra incisivos. “Fencewalk”, a faixa mais conhecida do disco, sobrepõe um refrão suave com seções conduzidas por metais e um extenso solo de guitarra. “Hágalo” se inspira na salsa, enquanto “Don't Mess With People” canaliza um funk descontraído com vocais arrastados e meio falados. “Golden Stone”, de Mesa, se estende em uma improvisação mais longa, contrastando com a participação vocal de Kae em “Out With the Boys”. “Polk Street Carnival” traz uma cadência caribenha relaxante, enquanto “Moroccan Nights” encerra o álbum em um tom mais lento e atmosférico.

As gravações ocorreram no Electric Lady Studios, em Nova York, durante o inverno de 1972, com trabalhos adicionais em “Hang Loose” e “Don't Mess With People” no Hit Factory. Alfred V. Brown coproduziu com o Mandrill, enquanto Dave Palmer e Harry Maslin foram os engenheiros de som em diferentes sessões.

O livro "Composite Truth" apresenta uma capa com design de David Krieger e fotografias de Joel Brodsky. 

A Polydor lançou dois singles: “Fencewalk”, que alcançou o 19º lugar na parada Soul dos EUA, e “Hang Loose”, que chegou ao 25º lugar. O próprio álbum alcançou o 8º lugar na parada Top Soul Albums da Billboard.

Just Outside of Town - (1973)

O Mandrill lançou seu quarto álbum em outubro de 1973 pela Polydor.

O álbum equilibrou a base funk já consolidada do Mandrill com incursões no soul, na música latina, no hard rock e em vertentes progressivas. Arranjos expansivos e mudanças de ritmo marcaram a abordagem do grupo, com o Lado Dois apresentando alguns de seus trabalhos mais ambiciosos.

Os irmãos Wilson compuseram três faixas, enquanto o tecladista Claude “Coffee” Cave escreveu “Fat City Strut”, o baterista Neftali Santiago contribuiu com “Two Sisters of Mystery”, o baixista Fudgie Kae compôs “She Ain't Lookin' Too Tough” e o guitarrista Omar Mesa escreveu a faixa de encerramento “Aspiration Flame”. Cave e Carlos Wilson também fizeram os arranjos e conduziram as passagens de cordas do álbum.

“Mango Meat” abre com metais vibrantes e vocais em grupo sobrepostos, uma declaração de funk latino que mais tarde ganhou reconhecimento através de samples. “Never Die” mistura uma atmosfera psicodélica suave com harmonias soul, enquanto “Love Song” se estende em uma balada orquestral. “Fat City Strut”, de Cave, alterna entre fortes explosões de metais, breaks de percussão e floreios de vibrafone. “Two Sisters of Mystery”, de Santiago, caminha para a intensidade do rock, construída em torno de um baixo fuzz e metais estridentes. “Africus Retrospectus” serve como a peça central do álbum, um instrumental extenso com órgão fluido, linhas de metais mutáveis ​​e uma interação aberta de piano, flauta e trompete. “Aspiration Flame”, de Mesa, encerra em um modo instrumental lento, conduzido pela flauta antes de crescer para um final poderoso.

As gravações ocorreram no Electric Lady Studios, no Hit Factory e no Sound Ideas, em Nova York, com trabalhos adicionais no Sound City, em Van Nuys. Alfred V. Brown coproduziu com o Mandrill, enquanto Dave Palmer, Harry Maslin, Monte Stark e Rick Rowe foram os engenheiros de som.

A edição "Just Outside of Town" apresenta fotografia de capa de Don Anderson com design de Davis Fried Krieger sob a direção de arte de Ron Nackman. 

A Polydor lançou "Mango Meat" como single do álbum. Just Outside of Town alcançou o 6º lugar na parada Top Soul Albums da Billboard. 

Mandrilland - (1974)

O Mandrill lançou seu quinto álbum em agosto de 1974 pela Polydor.

O álbum duplo marcou seu trabalho mais abrangente, misturando funk vibrante, soul orquestrado, rock latino, ritmos africanos e jazz fusion. Ao longo de seus quatro lados, o grupo transitou entre números vocais concisos e passagens instrumentais exuberantes, frequentemente alterando o clima e o ritmo dentro de uma mesma faixa.

A composição das músicas foi dividida entre os irmãos Wilson e Claude “Coffee” Cave, que também fez os arranjos e conduziu os instrumentos de corda. O baterista Neftali Santiago contribuiu com “Cal-Ipso”, enquanto o guitarrista Doug Rodrigues coescreveu “The Reason I Sing” com o baixista Fudgie Kae e compôs a faixa de encerramento “After the Race”.

O lado A se desenrola como uma suíte contínua, culminando em “The Road to Love”, que entrelaça jazz-funk com refrões vocais. “Positive Thing” aparece duas vezes, primeiro em formato de single compacto e depois expandida em uma versão funk mais longa e dinâmica. O lado B inclina-se para o soul orquestrado e baladas, com momentos de harmonia à la Beatles e ritmo com toque latino, enquanto “Armadillo” serve como um breve esboço instrumental. “The Reason I Sing”, de Rodrigues e Kae, centraliza o lado B em uma estrutura soul-pop, enquanto “Bro' Weevil & The Swallow” e “Khidja” destacam as texturas de teclado de Cave e a flauta de Carlos Wilson.

O Lado Três se volta para ritmos de inspiração africana, desvios avant-funk e jams divertidas, com “El Funko” oferecendo um interlúdio minimalista e “Folks on a Hill” incorporando o blues do pântano em arranjos conduzidos por metais. O lado final traz “Mini-Suite for Duke”, de Cave, uma homenagem vibrante liderada pelo órgão que mescla o estilo de Ellington com a dramaticidade do órgão rock, antes da incursão de calipso de Santiago e do encerramento com a guitarra de Rodrigues.

As gravações ocorreram no Studio in the Country em Bogalusa, Louisiana, com Lee Peterzell e Bill Evans como engenheiros de som. O grupo gravou partes adicionais de cordas no Record Plant em Nova York com Dennis Ferrante e Corky Stasiak. O Mandrill produziu o álbum de forma independente.

Mandrilland apresenta obras de arte de Goodman Gries com design de Ted Pettus, sob um conceito criado pela banda.

A Polydor lançou "Positive Thing" como single, que alcançou a 29ª posição na parada Soul dos EUA. O próprio álbum chegou ao 28º lugar na parada Top Soul Albums da Billboard.

O Mandrill é considerado uma das bandas de funk mais experimentais e progressivas da década de 1970. O uso proeminente de elementos latinos pela banda gerou comparações com as bandas de Sly Stone, Carlos Santana e War. 
O historiador do funk Rickey Vincent observou a composição multiétnica do Mandrill como: 
"mistura bizarra de ritmos de base africana, riffs de rock abrasadores, folk, jazz bop e óperas rock de guitarra de um acorde"


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Trapeze

Mel Galley, Terry Rowley, Glenn Hughes e Dave Holland.

 

TRAPEZE - UMA BREVE HISTÓRIA (1969-1994)


Um trio de músicos de elite altamente respeitado que, embora muito estimado por seus contemporâneos, nunca colheu os frutos de seu inegável talento. Em vez disso, o Trapeze encontrou uma base de fãs leais nos estados do sul dos Estados Unidos e, após sua separação, influenciou as carreiras de sucesso de bandas como Deep Purple, Judas Priest e Whitesnake.

O Trapeze foi formado em torno do núcleo composto pelo ex- baterista do Pinkertons Assorted Colours, Dave Holland, o ex -guitarrista do Red Caps, Mel Galley, e o ex- baixista/vocalista do The Hooker-Lees/The Intruders/The In Pack/The News, Glenn Hughes.

O trio originalmente se uniu para formar o Finders Keepers com o guitarrista Alan Clees e o vocalista Ian "Sludge" Lees. Este último, posteriormente, fez sucesso fora do rock'n'roll, como comediante. Nota lateral - The Montanas: Um dos grupos locais mais populares de Wolverhampton na década de 1960, The Montanas, formou-se em 1964 com Johnny Jones nos vocais, Bill Hayward na guitarra solo, Terry Rowley no baixo e Graham Crewe na bateria.

O grupo era conhecido por seus esquetes de comédia, bem como por suas excelentes interpretações de harmonias americanas contemporâneas. Eles gravaram pelos selos Piccadilly e Pye Records, e seus maiores sucessos, ambos lançados em 1967, foram "Ciao Baby" e "Anyone There", sendo que este último chegou à metade inferior da parada Hot 100 estadunidense. Em 1967, Jake Elcock, vindo do Findres Keepers, juntou-se ao grupo, e Graham Hollis tornou-se o baterista.

Em 1969, o grupo passou por uma mudança fundamental de formação quando Johnny Jones e Terry Rowley se juntaram à formação original de cinco integrantes. O terceiro dos quatro lançamentos de 1967 da Pye Records UK rendeu seu maior sucesso, "You've Got To Be Loved", com "Difference Of Opinion" no lado B do single. 

Glenn Hughes, Dave Holland e Mel Galley se separaram para formar o Trapeze com o tecladista Terry Rowley e o ex- vocalista do The Montanas, Johnny Jones. Com essa formação, a banda se apresentou no programa de TV "Colour Me Pop", despertando o interesse da Threshold Records, nova gravadora fundada pelo baixista do The Moody Blues, John Lodge.

Terry Rowley assumiu a produção para gravar o álbum de estreia do Trapeze em 1969, que só foi lançado no ano seguinte, em março de 1970. Foi um sucesso notável com a BBC Radio One tocando o álbum na íntegra do começo ao fim!

Apesar do sucesso imediato, nem tudo ia bem entre os integrantes, e Johnny Jones e Terry Rowley saíram da banda. Coincidentemente quando o Trapeze se reduziu a um "power trio", a coisa se acertou, e ficaram mais conhecidos, Jones seguiu os passos de Ian Lees e iniciou uma carreira na comédia.

O segundo álbum do Trapeze, Medusa, lançado em 1970, foi outro sucesso, e o single "Black Cloud" garantiu a banda uma importante exposição nas rádios estadunidenses. O Trapeze, então, especializou-se em um funk rock pesado e alcançou um sucesso notável no Texas, tanto que a banda se mudou para os estados unidos. Isso levou o Trapeze a fazer seis turnês pelo país em três anos. Obviamente, isso levou a banda se apresentar com pouca frequência em seu país de origem.

Quando a banda ocasionalmente fazia shows em clubes na região central da Inglaterra, era sabido que o baterista do Led Zeppelin, John Bonham, frequentemente improvisava com eles no palco.

Durante uma de suas raras apresentações em seu país natal, eles receberam uma proposta para participar de uma transmissão da Rádio BBC. Um dos destaques da apresentação foi uma interpretação impressionante de "What Is A Woman's Role". Também presente na formação dessa apresentação estava ninguém menos que John Lodgen, tocando congas.

Os planos da banda era de que Glenn Hughes abandonasse o baixo para se tornar o guitarrista rítmico, porém isso nunca se concretizou, pois logo após essa apresentação ele aceitou uma convite para se juntar ao Deep Purple, que estava renovando a banda. 

O Trapeze só ganhou notoriedade na inglaterra quando Glenn Hughes deixou a banda para se juntar ao Dee Purple em meados de 1973, pois todos queriam saber quem era o novo integrante do Purple, e após o lançamento do álbum "You Are The Music, We're Just The Band", em 1972, a banda perde seu baixista e vocalista principal.

Após um período criativo, ainda que turbulento no Deep Purple, Glenn Hughes também participaria posteriormente com destaque em projetos como: Hughes/Thrall, com o guitarrista Pat Thrall, em 1984 no Black Sabbath de Tommy Iommy, e com Gary Moore também nos anos oitenta. 

O Trapeze seguiu em frente, adicionando o guitarrista Rob Kendrick e o baixista Pete Wright. A popularidade da banda foi mantida em alta com o lançamento da coletânea "The Final Swing". Em 1974, lançaram o álbum The Trapeze 1975, que incluía duas faixas inéditas, "Good Love" e "Dat's It". Foi o primeiro álbum da banda a entrar nas paradas nacionais estadunidenses, alcançando boa projeção. E a nova formação assinou com a Warner Bros. Records para lançar também em 1974, Hot Wire, outro álbum de sucesso que chegou bem nas paradas radiofônicas. Isso manteve o Trapeze como uma banda cult.

Houve um breve reencontro da formação original "power trio" em 1976. Glenn Hughes, que havia acabado de deixar o Deep Purple, reformou o Trapeze – a ideia era realizar um reencontro completo com um álbum de músicas inéditas, seguido de uma turnê mundial. No fim, algumas datas na América do Norte foram concluídas com sucesso sob o nome de " The Appreciation Tour". Mas a reformulação não deu certo e o esperado álbum virou o primeiro álbum solo de Glenn Hughes intitulado, Play Me Out, do qual duas músicas foram incluídas no repertório da turnê: LA Cut-Off e Space High.

Após o fracasso do retorno da banda com Glenn Hughes, Mel Galley convida o vocalista Pete Goalby e o baixista Peter Mackie, ambos ex-integrantes da banda Fable, de Wolverhampton, para reformular a banda em 1978. O Trapeze faz a estréia dos seus novos integrantes em um show de abertura para o Humble Pie, antes de excursionarem como banda de apoio para a turnê do Nazareth. Essa formação lança o excelente álbum, Hold On, em 1979.

Porém, nesse mesmo ano, Dave Holland deixa a banda para se juntar ao Judas Priest, onde permaneceu até 1990 participando da fase importante na construção do chamado "heavy metal" com o álbum "British Steel" e álbuns de platina da banda como "Screaming For Vengeance", "Defenders of the Faith" e "Turbo". 
O Trapeze lança um álbum ao vivo, em 1981, contando com o baterista Steve Bray. Após o lançamento, Pete Goalby sai da banda juntando-se brevemente ao Rainbow, antes de encontrar uma base mais sólida com o Uriah Heep.

Houve uma tentativa de reunião do Trapeze com Mel Galley, Steve Bray, o ex-vocalista do Big Daisy, Mervyn 'Spam' Spence e o ex -tecladista do Magnum, Richard Bailey. Essa formação fez uma turnê pela Grã-Bretanha como banda de apoio ao Edgar Winter. Bray foi substituído por outro ex- membro do Magnum, Kex Gorin, e a banda começou a gravar um álbum. No entanto, infelizmente não deu certo pois Mel Galley estava trabalhando com a banda Phenomena nessa época. 

Richard Bailey participou do projeto do álbum conceitual e acabou sendo atraído para o Whitesnake. Mas depois se juntou definitivamente ao Alaska. Muitas das músicas gravadas nas sessões do Trapeze dessa época apareceriam nos próximos lançamentos das bandas Whitesnake e do Phenomena.

O Trapeze eventualmente se reformou como o trio clássico e fez uma turnê em 1992 com a adição do tecladista do Asia e do Yes, Geoff Downes. Alguns anos depois, foi lançado um álbum ao vivo de um de seus shows em Londres, intitulado Welcome To The Real World - Trapeze - Live At The Borderline.

A formação original se reuniu mais uma vez em fevereiro de 1994, quando fizeram um show em Nova York em homenagem ao ex-vocalista do Badlands e do Black Sabbath, Ray Gillen. Os rumores de uma reunião mais permanente de Hughes/Galley/Holland em 1993 finalmente se concretizaram em meados de 1994 com uma série de shows nos Estados Unidos e na Europa, que também incluíram o veterano guitarrista de blues, Craig Erickson, acompanhando Mel Galley tanto na guitarra solo quanto na rítmica.

No ano de 2023, foram lançados dois álbuns que resgatam a essência do Trapeze e trazem de volta a nostalgia do auge da banda. O conjunto de discos chamado "Lost Tapes Vol. 1 e 2", são gravações que ficaram perdidas no fundo do baú da banda e que ganharam vida com o trabalho de regate do irmão de Mel Galley, Tom Galley, do filho Marcus Galley e do empresário Tony Perry. Obviamente, as gravações são muito antigas e isso é perceptível. Mas se você conseguir ignorar isso, encontrará músicas muito boas. Dois discos que contém inclusive a última música que Mel Galley gravou. Embora na época ele já estivesse doente e soubesse que seu tempo era limitado, ele gravou "Live Fast Die Laughing" com ele próprio nos vocais. 

Uma canção de rock com um título típico de Mel Galley e da história do Trapeze: 
"seguir em frente".



Série Lugares Afro-Brasileiro: Cais do Valongo

Cais do Valongo 
(Rio de Janeiro - RJ)

Patrimônio Mundial da Humanidade. Foto: Marcos de Paula.

Principal porto de entrada de africanos escravizados no Brasil e nas Américas, o Cais do Valongo, localizado no Rio de Janeiro (RJ), passou a integrar a Lista do Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), em 2017. O Brasil recebeu perto de quatro milhões de escravos, durante os mais de três séculos de duração do regime escravagista. Pelo Cais do Valongo, na região portuária da cidade, passou cerca de um milhão de africanos escravizados em cerca de 40 anos, o que o tornou o maior porto receptor de escravos do mundo.

Revelado, em 2011, durante as obras do Porto Maravilha, que abrange uma área de cinco milhões de metros quadrados, o Cais foi construído em 1811 pela Intendência Geral de Polícia da Corte do Rio de Janeiro. O objetivo era retirar da Rua Direita, atual Rua Primeiro de Março, o desembarque e comércio de africanos escravizados que eram levados para as plantações de café, fumo e açúcar do interior do Estado e de outras regiões do Brasil. Os que ficavam na capital, geralmente eram os escravos domésticos ou aqueles usados como força de trabalho nas obras públicas.

Em 2012, a prefeitura do Rio de janeiro acatou a sugestão das Organizações dos Movimentos Negros e, em julho do mesmo ano, transformou o espaço em monumento preservado e aberto à visitação pública. O Cais do Valongo passou a integrar o Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, que estabelece marcos da cultura afro-brasileira na região portuária, ao lado do Jardim Suspenso do Valongo, Largo do Depósito, Pedra do Sal, Centro Cultural José Bonifácio e Cemitério dos Pretos Novos.

Escrito por: 
Carlos Ferreira



quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

HiStòRiA: Simón Bolívar

 Simón Bolívar

Simón Bolívar foi um importante revolucionário que fez parte dos processos de independência da Colômbia, Venezuela, Peru e Bolívia.

Simón Bolívar foi um revolucionário venezuelano que pertencia a uma família da aristocracia criolla. Jurou defender a independência da América do Sul quando esteve na Itália e dedicou sua vida à luta contra os espanhóis. Auxiliou nos processos de independência da Venezuela, Colômbia, Peru e Bolívia.

História:

Tentou combater a pobreza da população sul-americana e idealizou a união das nações da América do Sul na Grã-Colômbia. Viu o seu projeto unificador fracassar e morreu vítima de tuberculose e pobre, porque usou toda a sua fortuna na luta pela independência.

Simón José Antonio de la Santíssima Trinidad Bolívar Palacios Ponte y Blanco nasceu em Caracas, atual capital da Venezuela, no dia 24 de julho de 1783. Fazia parte de uma família que integrava a aristocracia local, sendo seus pais donos de muitas propriedades e escravos.

Os pais de Simón Bolívar pertenciam à aristocracia criolla, isto é, eram parte de uma elite na Venezuela que era descendente direta de espanhóis que se mudaram pra América. Os pais de Simón Bolívar chamavam-se Juan Vicente Bolívar e María de la Concepción Palacios y Blanco — ambos faleceram quando Bolívar ainda era uma criança.

O pai morreu em 1786, quando Símon tinha apenas dois anos, e a mãe faleceu em 1792, quando ele estava quase completando nove anos. Por isso, a guarda de Simón Bolívar esteve nas mãos de parentes quando ele era criança, e um dos mais importantes para a sua criação foi Carlos Palacios y Blanco, seu tio por parte de sua mãe.

A educação de Bolívar contou com os ensinamentos de Simón Rodríguez e Andrés Bello, ambos importantes intelectuais venezuelanos no começo do século XIX. Durante a sua formação, ele ainda teve suas primeiras lições militares aos 14 anos e, quando tinha 16 anos, foi enviado para a Espanha para que pudesse continuar os seus estudos.

Na Espanha, Simón Bolívar conheceu María Teresa del Toro Alayza, uma espanhola que era filha de criollos venezuelanos. Eles foram noivos de 1800 a 1802 e, então, casaram-se em maio de 1802 em Madrid, na Espanha. Em junho ambos foram para Caracas para residir nas propriedades de Bolívar. Infortunadamente, María Teresa ficou doente e morreu em janeiro de 1803 de febre amarela.

Com o falecimento de sua esposa, Bolívar decidiu realizar uma viagem pela Europa e Estados Unidos. Essa viagem foi fundamental para que a veia revolucionária em Bolívar aflorasse. Ele passou pela Espanha, presenciou a coroação de Napoleão Bonaparte como imperador francês em 1804 e foi à Itália e aos Estados Unidos.

Trajetória revolucionária de Simón Bolívar.

Um dos pontos mais marcantes na formação de Simón Bolívar enquanto revolucionário foram algumas das coisas que ele viu e fez durante essa viagem. O contexto histórico e a influência de ideais iluministas na formação intelectual de Bolívar também foram fundamentais para que ele se tornasse um ícone revolucionário.

Na Itália, por exemplo, ele prestou um juramento em que dedicaria a sua vida para lutar pela libertação da América do domínio dos espanhóis e disse que não descansaria enquanto isso acontecesse. Esse foi o Juramento do Monte Sacro.

Nesse juramento, Bolívar estava junto de Simón Rodríguez no Monte Sacro, localizado em Roma. Esse local foi escolhido porque recebeu uma revolta civil de pobres em 494 a.C. A viagem pelos Estados Unidos, país que recentemente tinha conquistado a sua independência, também influenciou fortemente Bolívar.

Em 1807, ele retornou para a Venezuela e, quando chegou em Caracas, encontrou a cidade em grande agitação política. As colônias espanholas na América estavam em grande alvoroço por conta da destituição do rei espanhol Fernando VII pelas tropas da França. O enfraquecimento do poderio espanhol, somado aos ideais revolucionários que pipocavam, influenciados pelo iluminismo e pelo exemplo da Revolução Americana, gerou esse cenário de agitação nas colônias.

O resultado foi que Caracas deu início à luta pela independência da Venezuela, que fazia parte da Capitania-Geral da Venezuela, em 19 de abril de 1810, quando uma junta revolucionária se formou na cidade. Essa junta foi responsável por inaugurar a Primeira República venezuelana em julho de 1811 com a declaração de independência, mas a Venezuela ainda enfrentaria um longo processo para se assegurar como nação independente.

Nesses acontecimentos que se passaram na Venezuela entre 1807 e 1810, Bolívar não teve protagonismo algum. Isso começou a mudar quando ele foi escalado para uma missão diplomática em Londres. Ele foi enviado junto de Andrés Bello e Luis López Méndez para conseguir apoio dos ingleses à independência venezuelana.

Ainda em 1811, Simón Bolívar participou da sua primeira batalha militar contra os espanhóis (chamados de realistas). Apesar de ter participado de algumas campanhas vitoriosas, os venezuelanos foram derrotados em 1812, e Simón Bolívar precisou fugir da Venezuela. Ele foi para Curaçao e, depois, para Cartagena, em Nova Granada.

Em Cartagena ele formou um novo exército e liderou uma pequena tropa, que marchou pelo território venezuelano em 1813. A marcha de Bolívar pela Venezuela partiu de Cúcuta, cidade colombiana que fica na fronteira com o território venezuelano. Ele conquistou Mérida, recebendo lá o título de “libertador”.

Monumento em homenagem - Guayaquil, Equador.
Em agosto de 1813, as tropas de Bolívar chegaram a Caracas e, com a nova derrota espanhola, foi inaugurada a Segunda República venezuelana. No entanto, a guerra contra as forças realistas seguiu, e as forças das tropas de Bolívar enfraqueceram-se. Ele então partiu para Nova Granada em busca de apoio, onde se envolveu com a luta independentista local.

Em 1815, ele fugiu para a Jamaica, local onde redigiu a Carta da Jamaica, documento em que ele reafirmou o seu compromisso com a causa da independência sul-americana do domínio espanhol. Por fim, ele foi para o Haiti à procura de segurança, uma vez que na Jamaica tinha sido alvo de tentativas de assassinato promovidas pela Espanha.

No Haiti ele conseguiu o apoio de Alexandre Pétion, presidente haitiano. Em 1816, ele chegou à Venezuela e formou um governo em Angostura, no oeste venezuelano. Em 1817 foi proclamada a Terceira República, e Bolívar era o chefe dessa república e o líder militar das tropas venezuelanas que ainda lutavam contra os espanhóis.

Em 1819, ele levou suas tropas para Nova Granada e lutou contra os espanhóis, consolidando a independência da Colômbia e a formação de uma república lá em 1819. Os espanhóis ainda resistiam em uma parte do território venezuelano, mas, em 1821, Bolívar liderou um exército que lutou na Batalha de Carabobo, derrotando as forças realistas.

Só em 1823 os espanhóis foram definitivamente derrotados, e a Venezuela pôde garantir a sua independência de fato. Bolívar ainda se envolveu nos processos revolucionários que garantiram a independência do Peru e da Bolívia, fazendo dele um dos grandes revolucionários da história sul-americana.

Em seus últimos anos, Simón Bolívar foi um dos idealizadores da Grã-Colômbia, nação que reunia territórios da Colômbia, Venezuela e Equador. Bolívar esteve à frente desse projeto, como presidente, de 1819 a 1830. Durante esse período, realizou uma série de ações populares, como uma lei de reforma agrária.

No entanto, as diferenças de interesses entre as elites de cada país fizeram com que a Grã-Colômbia fracassasse. Ele renunciou à presidência em 1830 e, no ano seguinte, a Grã-Colômbia dissolveu-se. Bolívar afastou-se da política e passou os últimos meses de sua vida pobre e doente. Em 17 de dezembro de 1830, ele faleceu vítima de tuberculose.

Formado em História pela Universidade Estadual de Goiás (UEG) e especialista em História e Narrativas Audiovisuais pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Atua como professor de História desde 2010.



terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

DiScOs InCrÍvEiS: The Blues Album

Shaw Taylor

' The Blues Album - 2021 '

“O álbum The Blues Album mostra por que Joanne Shaw Taylor é um dos nomes mais respeitados na guitarra blues moderna.” Guitar.com

Joanne Shaw Taylor disse que, após as restrições da Covid em 2020, "eu só queria vir para Nashville, ficar na casa da minha melhor amiga e tocar um monte de músicas de blues com uma banda que eu gosto e me divertir fazendo isso."

E é exatamente isso que você ouvirá ao escutar seu sétimo álbum de estúdio, The Blues Album. Onze covers de raros clássicos do blues de artistas como Albert King, Peter Green, Little Richard, Magic Sam, Aretha Franklin e Little Milton são interpretados com considerável maestria por Taylor e uma banda de primeira linha, transbordando alegria, emoção e sentimento blues.

A incrível habilidade de Taylor na guitarra é evidente, mas talvez seja seu canto que mais se destaque neste álbum. Ora intenso, ora visceral, ora cru, ora rouco, ela faz dessas canções algo seu, prendendo sua atenção e extraindo cada gota de emoção da música.

O álbum conta com a participação do virtuoso guitarrista de blues rock, cantor, compositor e produtor Josh Smith. Reese Wynans (teclados), Greg Morrow (bateria), Steve Mackey (baixo), Steve Patrick (trompete), Mark Douthit (saxofone) e Barry Green (trombone). Joe Bonamassa toca guitarra e canta na faixa " Don't Go Away Mad", enquanto Mike Farris participa como convidado especial em " I Don't Know What You've Got".

O álbum, lançado pela gravadora KTBA de Joe Bonamassa, foi produzido por Bonamassa e Josh Smith e gravado no Ocean Way Studios em Nashville, Tennessee. Taylor e Bonamassa são amigos e admiradores da música um do outro há muitos anos. Taylor disse: “Ele já atuava como mentor e produtor não oficial do The Blues Album , então perguntei se ele gostaria de assumir o cargo oficialmente”, conta Joanne. “Felizmente, ele aceitou. O The Blues Album foi tudo o que eu esperava. Foi um trabalho feito com muito carinho, supervisionado por um artista, produtor e amigo em quem confio plenamente.”

O álbum começa com "Stop Messin' Around" , de Peter Green , originalmente gravada pelo Fleetwood Mac em 1968. É absolutamente contagiante e empolgante, uma maneira simplesmente fabulosa de iniciar o disco.

Os metais entram em cena na próxima música, a um tanto cômica " If That Ain't A Reason" de Little Milton , dando-lhe um som maravilhosamente encorpado. Os vocais de Taylor voltam a brilhar e são mais do que suficientes para acompanhar o som completo da banda. 

A mais jazzística " Keep On Lovin' Me ( Magic Sam)" vem a seguir e, quando o solo de guitarra começa, você percebe o quão incrível guitarrista Joanne Shaw Taylor é, caso ainda não tivesse percebido. Seu talento na guitarra ao longo dos anos lhe rendeu uma legião de fãs e elogios de nomes como Jimmy Cliff, Stevie Wonder e Annie Lennox, além de Joe Bonamassa. E ela ainda está na casa dos 30 anos – como pode ficar ainda melhor?


"Don't Go Away Mad" muda um pouco o clima do som blues clássico do resto do álbum. Mas é uma música muito cativante, gravada originalmente em 1991 pelo supergrupo Little Village, que incluía Ry Cooder, Nick Lowe, Jim Keltner e John Hiatt. Taylor e Bonamassa fazem um dueto na música com grande efeito.

Há uma música de Albert King, " Can't You See What You're Doing to Me" , lançada originalmente pela Stax Records em 1970. Taylor a interpreta sem medo, com vocais e guitarra fazendo jus à canção.

"Two Time My Lovin'" tem um ritmo mais suave em comparação com algumas das faixas mais incendiárias do álbum, mas é uma música deliciosa que dá vontade de bater o pé, enquanto a última canção, " Three Time Loser" , é uma música alegre e animada que contrasta com a letra melancólica.

Juntas, essas onze canções formam um todo coerente, unido por um grupo de músicos extremamente talentosos e pela voz e guitarra blues de Joanne Shaw Taylor. Joe Bonamassa disse sobre o álbum que "o objetivo é transmitir uma mensagem e fazer com que o ouvinte queira ouvir a música repetidamente".

Joanne Shaw Taylor deixou isso bem claro com The Blues Album , e acredite em mim, é um álbum que você vai querer ouvir repetidamente.

Lista de faixas:

Stop Messin’ Round
If That Ain’t A Reason
Keep on Lovin’ Me
If You Gotta Make A Fool of Somebody
Don’t Go Away Mad (feat. Joe Bonamassa)
Scraps Vignette
Can’t You See What You’re Doing To Me
Let Me Down Easy
Two Time My Lovin’
I Don’t Know What You’ve Got (feat. Mike Farris)
Three Time Loser


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O Blues como Libertação Feminina

Entrevista: 
Karen Lovely

A data dessa entrevista não importa, pois ela é tão atual como nunca!

A maioria das pessoas se sentiria verdadeiramente abençoada por poder ganhar a vida fazendo algo que ama. Karen Lovely certamente valoriza as oportunidades que a vida lhe proporcionou, especialmente devido às dificuldades que enfrentou antes de iniciar sua carreira.

“Cantar é tudo para mim! Fisicamente, entro em abstinência se fico muito tempo sem cantar. É uma catarse, especialmente as apresentações ao vivo. Uma das coisas que eu amo no blues é que não é só uma música jovem e bonitinha como o pop. A comunidade do blues não exclui as pessoas mais velhas, nós as acolhemos. É música para pessoas que realmente se importam com música.”

Crescendo em Boston como a mais velha de nove irmãos, Lovely estava sempre rodeada pelas vozes de sua mãe e avó, que cantavam o tempo todo. “Minha avó tinha vitrolas e fonógrafos antigos, então ouvíamos discos juntas. Ela também me ensinou a dançar foxtrote, charleston e outras danças de outros tempos. Eu escolhia o disco, dava corda na vitrola e dançávamos juntas. A primeira música pela qual me apaixonei foi Billie Holiday cantando “Pennies From Heaven”. A letra se encaixa na categoria blues. Era a música favorita da minha avó, então eu a cantei para ela quando ela faleceu.”

A família de Lovely morava em uma área etnicamente diversa, à sombra da Ponte do Rio Mystic, então conhecida como Ponte Tobin. Ela comprava muitos discos de 45 rotações de rhythm and blues, já que esse gênero musical era muito popular na época. Sua formação musical começou com aulas de piano e violão, enquanto aprimorava suas habilidades vocais no coral da igreja católica local, uma religião que não gozava de grande prestígio na época. Mas um evento mudou tudo.

“Quando John F. Kennedy foi eleito presidente dos Estados Unidos, foi um momento marcante para minha família, nossa vizinhança e a cidade. Foi notável que um católico se tornasse presidente. Minha família sempre foi politicamente ativa. Eu cresci muito consciente das questões de direitos civis. Apesar de toda a sua diversidade,

Boston tem alguns dos bairros mais intolerantes em termos étnicos. Eu tinha plena consciência da injustiça social e também de que eu tinha um papel a desempenhar na construção de um mundo melhor. Minha família sempre votou e eu criei meus dois filhos para fazerem o mesmo.

A cantora viajou bastante, morando em Los Angeles por nove anos, em Londres por um ano e em Portland, Maine, antes de se estabelecer no Oregon há vinte anos. Após sair de um relacionamento abusivo, Lovely passou um ano morando nas ruas. “Isso realmente influenciou tudo o que fiz depois. Me mostrou o melhor e o pior da vida. Foi uma experiência reveladora que me tornou sensível a muitas questões. Isso me levou a me envolver com o ativismo e o apoio a vítimas de violência doméstica. Dez por cento do dinheiro que arrecadei por meio de financiamento coletivo para meu último álbum, Fish Outta Water , foi doado para a RAINN, a maior organização do país que trabalha com vítimas de agressão sexual”. (https://www.rainn.org/)

“Em cada um dos meus álbuns, escrevo músicas que abordam especificamente questões sociais como moradores de rua, violência doméstica, dependência química, doenças mentais e suicídio. Estou tentando não apenas conscientizar, mas também oferecer caminhos para que as pessoas busquem ajuda e aprendam a reconhecer quando alguém realmente precisa de auxílio. Vejo a situação dos moradores de rua de uma maneira diferente devido às minhas próprias experiências. Como artista, sou grato por ter uma plataforma para alcançar as pessoas, ajudar a construir um mundo com tolerância zero e combater um pouco da escuridão que existe por aí.”

“Minha música sempre se concentrou em questões sociais, não em política. Mas, com o rumo das eleições recentes, decidi incluir algumas canções políticas no meu último álbum. Por isso, resolvi trabalhar com o produtor Eric Corne. Ele é um ótimo compositor desse tipo de música – “Waking Up The Dead”, “Molotov Cocktail”.”

Eric é canadense, então ele está olhando para a situação e pensando: "Meu Deus, isso realmente aconteceu nos Estados Unidos? Depois do progresso dos últimos anos, tudo explodiu da noite para o dia. As pessoas precisam pesquisar os candidatos e entender melhor as consequências do voto. Estou indignado que metade do nosso país não tenha votado. E há grupos investigando o quanto da nossa eleição foi realmente manipulada. Pensamos no nosso país como uma democracia, mas é assustador perceber a rapidez com que o processo eleitoral se descontrolou."

“Quando eu era criança, assistia ao Walter Cronkite, numa época em que o jornalismo era reverenciado. Somos um pouco ingênuos, não estamos acostumados com notícias falsas, então fomos enganados. E a mídia nem sempre nos mostra o que realmente está acontecendo. Agora mesmo, há enormes protestos contra Putin ocorrendo na Rússia, mas nunca vemos cobertura desses protestos na grande mídia. Os manifestantes estão tentando expor a corrupção do governo. Vi uma foto de um auditório vazio. Havia um pedaço de papel com o nome e a foto de um jornalista colado no encosto de cada assento. Eram jornalistas assassinados durante o governo de Putin. Cada assento tinha um pedaço de papel.”

O tempo que passou vivendo nas ruas teve um impacto profundo na visão de vida e de mundo de Lovely. Ela alerta que muitos de nós não estamos muito imunes a situações semelhantes. “É mais fácil acabar sem-teto do que qualquer um imagina. A maioria de nós sabe que estamos a um salário de distância de viver nas ruas, a menos que tenhamos bons recursos, como família e amigos. Muitas famílias vivem de salário em salário. Tenho certeza de que existem algumas exceções, mas não conheço nenhum músico de blues rico. Lutamos para sobreviver como qualquer outra pessoa”.

“Situações de violência doméstica não afetam nenhuma classe socioeconômica, raça, religião ou orientação sexual. Não é fácil para as mulheres desestruturarem suas famílias e se mudarem. Não temos todos os recursos necessários para isso. Para mim, foi uma decisão de não permanecer em um relacionamento abusivo, então deixei tudo para trás. Meu ex-parceiro tinha controle total sobre minha vida financeira, então levei muito tempo para me reerguer. Demorei um ano para juntar dinheiro suficiente para alugar meu próprio apartamento, o que foi difícil para mim e para meu filho.”

“Na época, eu era um músico profissional tentando fazer turnês. Como sociedade, falhamos em muitos aspectos ao não fornecer recursos para cuidar das pessoas. Grande parte da população sem-teto é composta por adolescentes que fugiram de casa para escapar de situações familiares de abuso físico ou sexual. Eles acham que estão mais seguros nas ruas do que em casa. E eu perdi vários amigos por suicídio porque eles não receberam a ajuda adequada. Quando você está em situação de rua, tende a ser muito reservado. Pouquíssimas pessoas sabiam da minha situação durante o ano em que a enfrentei. Eu tinha vergonha, me sentia constrangido. E me sentia mal como pai por meu filho estar passando por isso comigo. É por isso que me esforço tanto para conscientizar as pessoas sobre violência doméstica e doenças mentais.”

Lovely sempre quis cantar. Quando fez o teste para o coral, esperava ser selecionada para uma das cinco vagas disponíveis. Todas as crianças que faziam o teste cantavam e as freiras ouviam, depois tocavam no ombro dos alunos selecionados. Quando chegou a hora da última vaga, Lovely rezava por uma intervenção divina. “Elas continuavam passando por mim sem me tocar. Finalmente, o tormento acabou. Como é típico da minha vida, elas deram um toque relutante, o que me fez a criança mais feliz do mundo, mas logo em seguida comentaram que não era porque eu cantava bem, mas sim porque eu falava alto! Esse comentário ficou na minha cabeça por muito tempo”.

“Quando eu morava em Londres, em 1988, meu namorado e eu estávamos na recepção de casamento de amigos. Como presente de casamento, me pediram para cantar “Summertime”. Eu tinha bebido champanhe e estava bêbada o suficiente para aceitar. Na manhã seguinte, um cara que tinha ido à recepção me ligou porque queria que eu cantasse em uma das casas noturnas dele. Então fizemos um trio para ele. Eu estava incrivelmente nervosa, morrendo de medo do palco.” Depois daquele ano, Lovely se mudou para Los Angeles e não cantou em público novamente até 2007. Conforme foi ficando mais velha, a ideia de uma carreira musical se tornou uma vaga lembrança.

Quando seu filho adoeceu, Lovely recebeu inesperadamente um conselho que mudaria sua vida. “A enfermeira do consultório médico me disse que meu filho ficaria bem. Mas ela estava preocupada comigo. Então, ela me convidou para participar de um coral feminino do qual ela fazia parte. Isso me fez voltar a cantar e salvou minha vida. Comecei a frequentar jams de blues, me divertindo tanto que perdi o medo. Finalmente, pedi ao dono de um clube para me dar meu próprio show, porque eu estava cansada de cantar músicas de jam. Então, em 29 de setembro de 2007, fiz meu primeiro show profissional desde que saí de Londres”.

“Gravei algumas músicas na esperança de conseguir trabalho como backing vocal ou em jingles. Eu era uma mulher de meia-idade de quarenta e oito anos. Quem iria querer me ouvir? Fiz covers de músicas antigas de blues para uma fita demo. Meu tecladista, Michael Vannice, era muito amigo de Dennis Walker, produtor de Robert Cray. Ele achou que Dennis poderia melhorar a música, e melhorou mesmo. Para o próximo álbum, Still The Rain , trabalhei com Dennis e Alan Mirikitani. Eles me apresentaram muitas músicas ótimas. Foi assim que tudo começou. Participei do International Blues Challenge e fiquei em segundo lugar na categoria de bandas. Depois, o álbum foi lançado e recebeu três indicações ao Blues Music Award. Em um ano, minha vida virou de cabeça para baixo. Ainda me impressiona.” Lovely foi indicada ao Blues Blast Music Award na categoria Artista Feminina de Blues em 2011 e 2016.

Seu álbum Prohibition Blues destacou canções de blues das décadas de 1920 e 1930, compostas por artistas femininas. Lovely ministra workshops que abordam o papel que as mulheres desempenharam naquela época para popularizar o blues. Em seu trabalho seguinte, Ten Miles Of Bad Road , ela passou a dar destaque às suas próprias canções. “Escrevi ou coescrevi todas as músicas, exceto uma, desse disco. Pretendia fazer o mesmo com Fish Outta Water , mas não tinha todas as minhas músicas prontas. Gosto de aprender algo quando tenho a sorte de trabalhar com compositores realmente excelentes. Isso certamente me ajuda a aprimorar minha arte. Meu próximo álbum incluirá mais composições minhas. Trabalhar com Dennis, Tony Braunagel e Eric Corne em meus projetos de estúdio tem sido um verdadeiro aprendizado.”

Mirikitani teve um papel fundamental na formação da música do Lovely. “Al era um grande amigo meu e esteve envolvido em todos os álbuns até Ten Miles Of Bad Road . Dennis e Al foram dois dos melhores compositores que já conheci. Al também era um ótimo vocalista, engenheiro de som e músico. Ele era extraordinário, um gênio. Uma das músicas dele que gravamos foi “Company Graveyard”. A letra era: “Ain't gonna die in a company graveyard” (Não vou morrer num cemitério de empresa). Eu cantava como “Ain't gonna die” (Não vou morrer). Conversamos sobre isso. Ele disse que ninguém vive para sempre. Eu respondi que a música vive para sempre. Estávamos brincando até que ele disse: ‘Ok, faça do seu jeito’. Cerca de três semanas depois, ele faleceu durante uma sessão de gravação. Ele é uma parte essencial de tudo o que faço musicalmente. Não há um dia que passe sem que eu sinta saudades dele. Agora eu o ouço através de suas músicas.”

“Sou compositor desde sempre. É nisso que quero me tornar bom. Podemos dizer tanta coisa com nossas canções. Grande parte do blues está enraizada na progressão tradicional I-IV-V. O que definia o blues antigamente era a simplicidade da música, com suas múltiplas camadas de significado. Havia muitos marcadores nas letras que significavam uma coisa para o público branco e outra para o público negro. O nível de sofisticação na composição era impressionante. Mas parece que isso se perdeu na composição contemporânea. De certa forma, houve um banalização do blues. Para mim, a canção é soberana. Cada canção é uma história. E eu sempre preciso contar uma boa história.”