Livro Colonização, Quilombos:
Modos e Significações
( Mestre Nego Bispo )
Autor: Antônio Bispo dos Santos
Ano de Publicação: 2015
Lançamento: Parcerias INCTI / UnB
Quando não nos reconhecemos em nossa história, podemos correr o sério risco de assumir uma farsa. Antes que queiramos fazer um debate sobre os conceitos “deconial”, “descolonial” ou “contracolonial”, é importante que reconheçamos a enorme diversidade de costumes, experiências e cotidiano, tanto no Brasil quanto na “Améfrica Ladina”, como diria a intelectual brasileira Lélia Gonzalez. O que seria de nossa história trabalhadora se não fossem o Quilombo dos Palmares e a Revolta dos Malês contra o poder da Europa sobre nossos territórios?
Nos últimos dias fomos impactadas por um texto escrito por Douglas Barros, em que o autor afirma existirem pessoas que escolhem negar “a realidade para respirar o ar das alturas imaginárias de seu desejo”. Ele refere-se às formulações do intelectual e militante quilombola Nego Bispo (1959-2023). Nosso intuito aqui é debatê-lo.

O problema dessa crítica é que ela parte de uma definição estreita e hierarquizada de materialidade, na qual apenas a análise estrutural clássica (capital/trabalho/Estado) teria estatuto de realidade. O que Nego Bispo faz não é negar a materialidade, mas alargar seu campo. Quando ele afirma a centralidade do corpo, da oralidade, do território e da vivência, ele não está operando uma fuga idealista, mas insistindo que a materialidade do capitalismo colonial também se inscreve nos corpos racializados, nas formas de pertencimento destruídas, na expropriação simbólica e espiritual. Negar isso significa negar a história.
É vasta a literatura que versa sobre o perfil do capitalismo em diversos territórios do mundo. E se no Brasil o capitalismo trilhou seus caminhos pela racialização da população, certamente a história da classe trabalhadora está intimamente ligada ao racismo e todas as suas derivações. No capitalismo periférico e racializado, o pertencimento não é dado: ele é insistentemente alvejado. A centralidade da ancestralidade no pensamento de Bispo pode ser lida menos como essencialismo e mais como resposta política ao silenciamento histórico sistemático promovido pelo colonialismo e, consequentemente, pelo capital. Esses são como irmãos, por aqui sempre andaram de mãos dadas.
A ancestralidade, em Bispo, não opera como essência biológica, mas como recurso político de organização e reconhecimento da memória coletiva, algo que muito se distancia do nacionalismo romântico europeu que Douglas mobiliza como analogia (independentemente de ele ter sido mobilizado de forma irônica ou não).
Suspeitamos que talvez essa negação das experiências e perspectivas que não se curvaram ao olhar de uma ciência que reforça o silenciamento da nossa memória, ou até mesmo de uma ideologia que deixa despercebida a nossa história — de resistência, sobretudo —, esteja altamente contaminada por referências que nem são as do autor criticado. Referimo-nos, por exemplo, à ideia de que formulações como as de Nego Bispo resultariam de certa “ressaca da URSS”. Como dito anteriormente, há uma série de organizações coletivas fora do espectro socialista que enfrentaram e continuam no enfrentamento ao colonialismo, sem que suas estratégias coadunem com o capital. Nos parece que esse ímpeto de querer encaixar a história em nossas próprias ideações de revolução nos impossibilita até de fazer uma análise de conjuntura.
O que se entendia por “organização da esquerda brasileira” no início do século XX sofreu alterações. A formação desse campo, como já sabemos, teve forte influência das tradições europeias de enfrentamento ao sistema capitalista. Mas hoje, em pleno século XXI e sob as luzes do olhar “centenário” da nossa história, podemos dizer que — graças às mobilizações que nos garantiram políticas públicas de inclusão social — conseguimos reconhecer através de pesquisas o nosso poder de análise sensível da realidade, anteriormente silenciado. Desta vez, ela nos inclui, e Nego Bispo foi fundamental nesse processo de formação.
Interessa apontar que o afastamento de setores populares da linguagem clássica da esquerda não se deve apenas à sua “captura simbólica”, mas contesta silenciamentos raciais e coloniais dentro da própria esquerda. São, portanto, respostas a formas de organização política que não reconheceram a experiência concreta da exclusão. Nesse sentido, a inflexão de Bispo não é um abandono da crítica, mas uma tentativa de reinscrevê-la a partir da práxis cotidiana, algo que o próprio marxismo, em sua origem, reivindicava.
Vivência como privilégio epistêmico? Ou como mediação histórica da práxis?
A vivência, em Bispo, não é experiência individual isolada, mas sim vivência coletiva, territorializada e historicamente produzida pela exclusão colonial. Ou seja, trata-se menos de “eu vivi, logo sei” e mais de: certas posições sociais produzem experiências que a teoria abstrata não capta sozinha. Isso não elimina a necessidade de mediações teóricas, mas questiona quem define quais experiências são teorizáveis. Ao desqualificar a vivência como categoria, nos perguntamos: o que caracteriza um “pensamento” e quem o legitima? estar na “academia”?
Bispo defendia os modos de vida e os conhecimentos tradicionais como um antídoto a interpretações e conceitos resultantes de um ponto de vista colonialista, hegemônico. Com isso, não faz nem sentido criticá-lo por supostamente não se enquadrar em um arcabouço teórico-metodológico determinado.
Nesse escopo cabe também falar que a religião, os afetos, a relação com a morte, com a terra e com os ancestrais organizam práticas concretas de sociabilidade, cuidado, resistência e sobrevivência. Tratar isso como mero irracionalismo é reduzir a materialidade à sua forma europeia. Quando Bispo desloca o centro, colocando o europeu fora do eixo, ele não está negando a história global, mas questionando quem ocupa o lugar de universalidade. Num capitalismo que se apropria da cultura enquanto apaga histórias concretas, produzir ancestralidade é um ato material de resistência.
A contracolonialidade não nega o capital. Além disso, no Brasil, o marxismo não pode operar apenas como leitura de classe: ele precisa estar completamente atravessado por marcadores de gênero, raça, etnia e localização geográfica. Em contextos como o brasileiro, onde capitalismo e colonialismo jamais caminharam separados, mirar no inimigo errado é um equívoco caro. Não porque o debate teórico seja dispensável, mas porque ele perde sua potência quando se distancia das formas concretas de vida, resistência e organização produzidas nos territórios historicamente expropriados.
A crítica contracolonial de Nego Bispo não desloca o antagonismo central; ela o recoloca em condições históricas reais. Ao fazê-lo, evidencia que não há crítica ao capital possível que não esteja atravessada por raça, gênero, território e pertencimento, como já apontava a marxista Heleieth Saffioti ao pensar o nó indissociável dessas determinações.
Tratar essa inflexão como abandono da materialidade ou como desvio identitário é ignorar que, no capitalismo periférico, produzir pertencimento, memória e ancestralidade não é gesto simbólico, mas prática material de sobrevivência e enfrentamento. O desafio que se coloca, portanto, não é escolher entre classe ou vivência, mas reconhecer uma cartela de identidades presentes nos sujeitos históricos que uma crítica que não se deixa atravessar pela história concreta corre o risco de falar sozinha.
Tratar essa inflexão como abandono da materialidade ou como desvio identitário é ignorar que, no capitalismo periférico, produzir pertencimento, memória e ancestralidade não é gesto simbólico, mas prática material de sobrevivência e enfrentamento. O desafio que se coloca, portanto, não é escolher entre classe ou vivência, mas reconhecer uma cartela de identidades presentes nos sujeitos históricos que uma crítica que não se deixa atravessar pela história concreta corre o risco de falar sozinha.
Texto por: Camila Galetti e Sandra Sena


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