Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
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domingo, 4 de outubro de 2026

Livros para conhecer o Brasil: Nego Bispo


Livro Colonização, Quilombos: 
Modos e Significações

( Mestre Nego Bispo )

Autor: Antônio Bispo dos Santos
Ano de Publicação: 2015
Lançamento: Parcerias INCTI / UnB

Quando não nos reconhecemos em nossa história, podemos correr o sério risco de assumir uma farsa. Antes que queiramos fazer um debate sobre os conceitos “deconial”, “descolonial” ou “contracolonial”, é importante que reconheçamos a enorme diversidade de costumes, experiências e cotidiano, tanto no Brasil quanto na “Améfrica Ladina”, como diria a intelectual brasileira Lélia Gonzalez. O que seria de nossa história trabalhadora se não fossem o Quilombo dos Palmares e a Revolta dos Malês contra o poder da Europa sobre nossos territórios?

Nos últimos dias fomos impactadas por um texto escrito por Douglas Barros, em que o autor afirma existirem pessoas que escolhem negar “a realidade para respirar o ar das alturas imaginárias de seu desejo”. Ele refere-se às formulações do intelectual e militante quilombola Nego Bispo (1959-2023). Nosso intuito aqui é debatê-lo.

O problema dessa crítica é que ela parte de uma definição estreita e hierarquizada de materialidade, na qual apenas a análise estrutural clássica (capital/trabalho/Estado) teria estatuto de realidade. O que Nego Bispo faz não é negar a materialidade, mas alargar seu campo. Quando ele afirma a centralidade do corpo, da oralidade, do território e da vivência, ele não está operando uma fuga idealista, mas insistindo que a materialidade do capitalismo colonial também se inscreve nos corpos racializados, nas formas de pertencimento destruídas, na expropriação simbólica e espiritual. Negar isso significa negar a história.

O corpo não substitui a realidade material: ele é uma de suas formas históricas de inscrição. Quando o autor do texto ironiza a frase “o corpo se torna mais importante que a alma”, ele ignora que, para populações negras e indígenas, o corpo sempre foi território de dominação, exploração e resistência.

É vasta a literatura que versa sobre o perfil do capitalismo em diversos territórios do mundo. E se no Brasil o capitalismo trilhou seus caminhos pela racialização da população, certamente a história da classe trabalhadora está intimamente ligada ao racismo e todas as suas derivações. No capitalismo periférico e racializado, o pertencimento não é dado: ele é insistentemente alvejado. A centralidade da ancestralidade no pensamento de Bispo pode ser lida menos como essencialismo e mais como resposta política ao silenciamento histórico sistemático promovido pelo colonialismo e, consequentemente, pelo capital. Esses são como irmãos, por aqui sempre andaram de mãos dadas.

A ancestralidade, em Bispo, não opera como essência biológica, mas como recurso político de organização e reconhecimento da memória coletiva, algo que muito se distancia do nacionalismo romântico europeu que Douglas mobiliza como analogia (independentemente de ele ter sido mobilizado de forma irônica ou não).

Suspeitamos que talvez essa negação das experiências e perspectivas que não se curvaram ao olhar de uma ciência que reforça o silenciamento da nossa memória, ou até mesmo de uma ideologia que deixa despercebida a nossa história — de resistência, sobretudo —, esteja altamente contaminada por referências que nem são as do autor criticado. Referimo-nos, por exemplo, à ideia de que formulações como as de Nego Bispo resultariam de certa “ressaca da URSS”. Como dito anteriormente, há uma série de organizações coletivas fora do espectro socialista que enfrentaram e continuam no enfrentamento ao colonialismo, sem que suas estratégias coadunem com o capital. Nos parece que esse ímpeto de querer encaixar a história em nossas próprias ideações de revolução nos impossibilita até de fazer uma análise de conjuntura.

O que se entendia por “organização da esquerda brasileira” no início do século XX sofreu alterações. A formação desse campo, como já sabemos, teve forte influência das tradições europeias de enfrentamento ao sistema capitalista. Mas hoje, em pleno século XXI e sob as luzes do olhar “centenário” da nossa história, podemos dizer que — graças às mobilizações que nos garantiram políticas públicas de inclusão social — conseguimos reconhecer através de pesquisas o nosso poder de análise sensível da realidade, anteriormente silenciado. Desta vez, ela nos inclui, e Nego Bispo foi fundamental nesse processo de formação.

Interessa apontar que o afastamento de setores populares da linguagem clássica da esquerda não se deve apenas à sua “captura simbólica”, mas contesta silenciamentos raciais e coloniais dentro da própria esquerda. São, portanto, respostas a formas de organização política que não reconheceram a experiência concreta da exclusão. Nesse sentido, a inflexão de Bispo não é um abandono da crítica, mas uma tentativa de reinscrevê-la a partir da práxis cotidiana, algo que o próprio marxismo, em sua origem, reivindicava.

Vivência como privilégio epistêmico? Ou como mediação histórica da práxis?

A vivência, em Bispo, não é experiência individual isolada, mas sim vivência coletiva, territorializada e historicamente produzida pela exclusão colonial. Ou seja, trata-se menos de “eu vivi, logo sei” e mais de: certas posições sociais produzem experiências que a teoria abstrata não capta sozinha. Isso não elimina a necessidade de mediações teóricas, mas questiona quem define quais experiências são teorizáveis. Ao desqualificar a vivência como categoria, nos perguntamos: o que caracteriza um “pensamento” e quem o legitima? estar na “academia”?

Bispo defendia os modos de vida e os conhecimentos tradicionais como um antídoto a interpretações e conceitos resultantes de um ponto de vista colonialista, hegemônico. Com isso, não faz nem sentido criticá-lo por supostamente não se enquadrar em um arcabouço teórico-metodológico determinado.

Nesse escopo cabe também falar que a religião, os afetos, a relação com a morte, com a terra e com os ancestrais organizam práticas concretas de sociabilidade, cuidado, resistência e sobrevivência. Tratar isso como mero irracionalismo é reduzir a materialidade à sua forma europeia. Quando Bispo desloca o centro, colocando o europeu fora do eixo, ele não está negando a história global, mas questionando quem ocupa o lugar de universalidade. Num capitalismo que se apropria da cultura enquanto apaga histórias concretas, produzir ancestralidade é um ato material de resistência.

A contracolonialidade não nega o capital. Além disso, no Brasil, o marxismo não pode operar apenas como leitura de classe: ele precisa estar completamente atravessado por marcadores de gênero, raça, etnia e localização geográfica. Em contextos como o brasileiro, onde capitalismo e colonialismo jamais caminharam separados, mirar no inimigo errado é um equívoco caro. Não porque o debate teórico seja dispensável, mas porque ele perde sua potência quando se distancia das formas concretas de vida, resistência e organização produzidas nos territórios historicamente expropriados. 

A crítica contracolonial de Nego Bispo não desloca o antagonismo central; ela o recoloca em condições históricas reais. Ao fazê-lo, evidencia que não há crítica ao capital possível que não esteja atravessada por raça, gênero, território e pertencimento, como já apontava a marxista Heleieth Saffioti ao pensar o nó indissociável dessas determinações.

Tratar essa inflexão como abandono da materialidade ou como desvio identitário é ignorar que, no capitalismo periférico, produzir pertencimento, memória e ancestralidade não é gesto simbólico, mas prática material de sobrevivência e enfrentamento. O desafio que se coloca, portanto, não é escolher entre classe ou vivência, mas reconhecer uma cartela de identidades presentes nos sujeitos históricos que uma crítica que não se deixa atravessar pela história concreta corre o risco de falar sozinha.

Texto por: Camila Galetti e Sandra Sena

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Nego Bispo: Um Guerreiro Ancestral


NEGO BISPO
' Um Guerreiro dos Saberes Ancestrais '

Antônio Bispo dos Santos (Povoado Papagaio, Vale do Rio Berlengas, atual município de Francinópolis, Piauí, 1959 - São João do Piauí, 2023). Lavrador, poeta, escritor, professor, ativista político. Militante do movimento social quilombola e de direitos pelo uso da terra, Nêgo Bispo é e eternamente será uma das principais vozes do pensamento das comunidades tradicionais do Brasil.
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Morador do Quilombo Saco-Curtume, localizado em São João do Piauí, Nêgo Bispo possuiu trajetória educacional típica da realidade do povo quilombola. Foi formado por mestres e mestras de ofícios por meio da oralidade e de ensinamentos e saberes ancestrais. A partir deles e das demandas comunitárias, chegou à educação formal, fazendo parte da primeira geração de sua família a concluir o ensino fundamental. Desde muito jovem, desenvolveu a habilidade de traduzir para a linguagem escrita das cartas os sentimentos, as sabedorias e as vivências de seus parentes e vizinhos.

Em 2007, lançou seu primeiro livro, Quilombos, modos e significados, reeditado em 2015 com novo título, Colonização, quilombos. Modos e significações. Na obra, desenvolveu o conceito de contracolonização, que contestou o atual modelo de desenvolvimento econômico ao qual o Brasil e os demais países da América Latina se rendem. Em contraposição a esse projeto de sociedade autodestrutiva, Bispo propôs uma alternativa civilizatória baseada na biointeração, na qual a relação entre humanos e natureza é de comunhão prazerosa.

A lógica da biointeração tem como princípios extrair, utilizar e reeditar, que se realizam em uma relação comunitária, coletiva, em que a capacidade de cultivar, coletar e compartilhar são inerentes. Esse conceito é definido como contracolonização do conceito de desenvolvimento sustentável e é comum aos quilombos, aos terreiros das religiões de matriz africana e à capoeira. Para Bispo, na biointeração, as coisas se reeditam; no desenvolvimento sustentável, elas se reciclam.

Nego Bispo analisou o conceito de "desenvolvimento" denunciando seu desprezo pelos saberes das comunidades tradicionais. Defendeu os "saberes orgânicos", "saberes voltados para o ser, voltados para a vida”, que são indispensáveis para o dinâmico e instável equilíbrio entre os seres e o meio ambiente, uma vez que a visão eurocêntrica e capitalista de evolução é portadora da destruição da natureza em prol dos lucros, produzindo o "saber sintético", “saberes voltados para o ter, voltados para a extração do ser”, “tornando sintético tudo o que é natural”.

Quando se fala em natureza, o ser humano está incluído nessa composição, pois, de acordo com Nego Bispo, “querem ser criadores, mas são criaturas da natureza”. O próprio conceito de desenvolvimento deve ser superado. Em sua perspectiva, "des" "envolver" significa se separar da natureza, logo, convertê-la em um expediente externo à humanidade que possa se prestar a qualidade de recurso, objeto e instrumento, desprezando as conexões de interdependências existentes entre todos os seres.

Contracolonialismo

Propôs o conceito de contracolonialismo que não é um ataque, e sim, uma defesa. Ser contracolonialista é não se permitir ser colonizado, reforçando a cultura dos povos que sofreram dominação dos colonizadores. "Eu não quero matar os colonialistas, eu quero que os colonialistas não me atinjam". Segundo Nego Bispo, a contracolonialidade não é um posicionamento teórico, mas diz respeito a práxis ética e política que povos afropindorâmicos, ou seja, aquela que povos indígenas e quilombolas produziram a partir da sua ancestralidade. Esta práxis ética e política dos povos enseja outras formas de ser, de existir e de se organizar diante dos escombros da violência colonial.

Cosmofobia

Conceito cunhado por Nego Bispo, que argumentava que os saberes populares e das comunidades denominadas tradicionais carregam diversos e valiosos entendimentos sobre as variadas formas do que o pensador chamou de “viver, ver e sentir a vida”, antagonizando com a cultura dominante reproduzida como "monocultura".

A cosmofobia poderia ser considerada como a disseminação de valores oriundos da crença europeia cristã monoteísta, determinando ideias e práticas que organizam nossa relação com a terra ("exploração"), o trabalho ("castigo") e o divino ("um único Deus").

Ou seja, no pensamento de Bispo, a cosmofobia se caracteriza pelo medo e/ou rejeição das formas de compreensão do cosmo que não tenham origem europeia, os quais integram ser humano e natureza em um equilíbrio dinâmico. Além disso, a cosmofobia era entendida por Nego Bispo como uma "doença" que os colonialistas espalharam mundo afora, fazendo com que sintetizem tudo que vem da terra, afastando os seres humanos da terra, levando à dominação de diversos povos.

Com ampla repercussão, a obra passa a figurar nas ementas de cursos de graduação e pós-graduação em diferentes universidades brasileiras. Esse trabalho aborda os pontos importantes da formação sócio-histórica e cultural brasileira e traduz os ensinamentos de seu povo para os moldes acadêmicos. Nesse sentido, Bispo ressignificou conceitos e ideias consagradas nesse meio sob a ótica do pensamento quilombola.

Devido ao seu engajamento e sua luta pela terra, ganhou destaque à frente do Sindicato de Trabalhadores/as Rurais de Francinópolis e da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no estado do Piauí. Atuou ainda como membro da Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Piauí (Cecoq/PI) e da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq).

Sua relação com o ambiente acadêmico se iniciou com o projeto Encontro de saberes, na Universidade de Brasília (UnB), em que atua como professor e mestre na disciplina Confluências Quilombolas Contracolonização no primeiro período do ano de 2017.

Em vez de ser chamado de intelectual, Bispo preferiu ser referido como relator de pensamentos e saberes. Ele foi crítico do que chama de mercantilização do saber e defende, em contrapartida, a confluência cosmológica e o compartilhamento de conhecimentos. Confluência é um conceito criado pelo poeta no processo de análise da contracolonização dos saberes: trata-se da lei que rege a relação de convivência entre elementos da natureza e que ensina que "nem tudo o que se ajunta se mistura". Contrapondo-se a essa lei, a transfluência é a lei que rege as relações de transformação dos elementos da natureza e ensina que "nem tudo o que se mistura se ajunta".

Em sua trajetória, Antônio dos Santos Bispo construiu diálogos sobre resistência negra e quilombola, além de apresentar alternativas de sociabilidade e de relação sadia com a natureza a partir da sabedoria dos povos tradicionais. Consolidou-se como uma uma voz ativa, poética e poderosa na defesa dos direitos dos quilombolas e da terra.

Obras

Além de vários artigos, poemas e palestras, Nego Bispo publicou livros:
- Quilombos, modos e significados (2007).
- Colonização, Quilombos: modos e significados (2015).
- A terra dá, a terra quer (2023).

"VIVA A VIDA, PORQUE TODAS AS VIDAS SÃO NECESSÁRIAS" 
(nego bispo)

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Nego Bispo: Saberes Orgânicos

Saberes Orgânicos e Modos de Vida.
( Programa Trajetórias: Nego Bispo )

Em sua trajetória, Antônio dos Santos Bispo construiu diálogos sobre resistência negra e quilombola, além de apresentar alternativas de sociabilidade e de relação sadia com a natureza a partir da sabedoria dos povos tradicionais. Consolidou-se como uma uma voz ativa, poética e poderosa na defesa dos direitos dos quilombolas e da terra.

Nego Bispo se consolida como um pensador cada vez mais necessário para a compreensão da realidade e da cultura quilombola, ou para um reconhecimento dos brasis que nos compõem e que foram oficialmente ignorados. Do Quilombo Saco do Curtume, no semiárido do Piauí, ele relembra sua trajetória de luta e de aprendizados constantes.

Nego Bispo partilha reflexões sobre a sabedoria ancestral quilombola, a resistência cultural e a importância da oralidade na preservação do conhecimento. A trajetória de vida do mestre, marcada pela vivência comunitária e pela crítica ao sistema de ensino académico, revela uma visão orgânica do saber e das interações entre os povos.