Magic Slim & The Teardrops
"A última autêntica banda de blues de Chicago"
Assim a imprensa definia a banda de Magic Slim. O líder do grupo era também um dos últimos músicos desse gênero, ao lado de B.B. King e Buddy Guy, que trocaram os campos de algodão do sul dos estados unidos pelos palcos de festivais mundo afora.

"Alguém em Chicago deveria erguer um monumento a esse grupo, pela sua determinação e habilidade em tornar a cidade orgulhosa diante do mundo inteiro", reinvidicou a Jazz Cadence. A Living Blues, mais conceituada publicação desse gênero, considerava Slim "uma lenda" e "um tesouro nacional".
"Pode ser arroz com feijão, mas mostra quantos sabores um mestre pode trazer para a fórmula", reflete a Philadelphia Inquirer. "Ninguém cozinha uma arroz com feijão mais forte do que Magic Slim", completou a revista Blues Revue.
Os ingredientes desse "prato feito" vinham do blues rural do mississippi, que Slim ainda cultivava. Outros músicos de sua geração, que foram para Chicago mais jovens, como Otis Rush, Magic Sam e Buddy Guy, desenvolveram um estilo mais urbano, polido e razoavelmente sofisticado, o chamado "West Side sound", o som da Zona Oeste, em cujos bares eles tocavam.
Outro fator que contribuiu para a magia dos Teardrops foi que, assim como Muddy Waters, Magic Slim teve habilidade para manter uma banda sem muitas alterações na formação ao longo de décadas. O irmão Nick Holt foi o baixista por mais de trinta anos. Outro irmão, Douglas Holt, ocupou o assento da bateria por mais de dez. Os guitarristas de apoio também ficaram sempre em torno de uma década. Depois de tanto tempo juntos, os músicos adquiriam um entrosamento quase telepático. Bastava uma nota do líder para todos saberem o que fazer.
A explicação de Slim para a fidelidade dos sidemen era tão elementar que hoje poderia causar surpresa, mas dá a medida de como era dura a vida dos velhos bluesmen. "Uma coisa que você tem que fazer é pagar os músicos. Não pode colocar o dinheiro todo no bolso. Tem que pagar e não ficar mentindo para eles", ensinou a Beverly Zeldin, da Living Blues.
"Os Teardrops eram considerados imbatíveis no palco. A trovejante batida dos Teardrops chacoalha o salão com uma intensidade incendiária. Você quase pode sentir as paredes suando enquanto Slim dispara seus solos estridentes e cintilantes. Se você não pular da cadeira, alguém te sedou", disse o produtor musical e articulista da revista Juke Blues, Dick Shurman.
Só a presença de Magic Slim já causava forte impacto. O trocadilho era tão inevitável que virou quase um epíteto para ele: um gigante do blues- não só pelo talento, mas também pelos seus 1,98 m de altura. Acrescentando-se seus inseparáveis chapéus de caubói, era impossível não prestar atenção numa figura como aquela. Por tudo isso "Magic Slim & The Teardrops deveriam ser o padrão pelo qual nós comparamos todos os outros".
Morris Holt nasceu em Torrence, 7 de agosto de 1937 — cresceu nos campos de algodão onde seus pais trabalhavam como meeiros a beira do rio Mississippi. Iniciou musicalmente tocando piano, instrumento que abandonou após perder um de seus dedos em um acidente com uma máquina de colheita. A solução foi passar para a guitarra. Como era comum entre os garotos pobres de sua época, ele improvisou um instrumento caseiro com cerdas de vassoura pregadas numa parede, adotando assim, seu instrumento favorito.
Aos onze anos de idade, mudou-se com a família para uma cidade maior, Grenada. Lá ele ficou amigo de outro jovem guitarrista que conheceu na escola, Samuel Maghett, que mais tarde seria também um grande nome do blues, conhecido por Magic Sam. Maghett lhe deu dicas e ensinou algumas músicas.
Em 1955, Holt foi para Chicago tentar a sorte. Magic Sam, que tinha ido cinco anos antes e já construía uma reputação na cidade, lhe ofereceu o posto de baixista em sua banda. Foi ele também que sugeriu o nome artístico de Magic Slim, pois Holt era muito magro. Mas a competição era muito grande na capital do blues, e o próprio Slim reconhecia que, naquela época, não era um bom músico. "Ninguém queria tocar comigo, porque eu não conseguia tocar suficientemente bem". Sem conseguir espaço teve que voltar para Grenada.
Lá, enquanto procurava se aperfeiçoar na guitarra, ensinou o irmão Nick Holt, três anos mais novo, a tocar baixo. Assim eles formaram um trio com o caçula, Douglas "Lee Baby", e começaram a tocar em "juke joints" (botecos onde a comunidade negra se encontrava para se divertir e ouvir música nos finais de semana). No Mississippi os irmãos adquiriram um repertório imenso, apresentando o ofício das chamadas "juke box bands", que deveriam conhecer o máximo possível de canções para atender aos pedidos do público.
Apesar de ter tido Magic Sam como mentor, o estilo de tocar e cantar que Slim desenvolveu é completamente diferente do dele. Talvez a maior influência que recebeu do amigo tenha sido a inclusão de soul music no repertório (Sam flertava com o gênero nas próprias composições; Slim preferiu gravar clássicos como "Tramp" e "Mustang Sally").
Sua maior influência parece ter sido Eddie Taylor, que acompanhou durante muitos anos o astro Jimmy Reed e depois gravou alguns discos com John Lee Hooker. De Taylor ele copiou o recurso de usar dedeiras no polegar e no indicador, o que produzia um som mais forte, metálico e percussivo.
Outro recurso, que parece ter sido criado por ele mesmo, é o de escorregar os dedos pelas cordas, simulando um slide (técnica de usar um tubo metálico ou de vidro, ou mesmo um gargalo de garrafa, em um dos dedos da mão esquerda, para mudar o tom da música, e que costuma criar um som "choroso").
O canto rouco e gritado, sem dúvida, foi inspirado em Little Milton (Milton Campbell), um cantor eclético de blues, rhythm & blues e soul music. Slim gravou várias composições dele, inclusive a que se tornaria marca registrada de seus shows no Brasil, "The Blues Is Alright".
Em 1965, sentindo-se mais seguro como músico, ele voltou para Chicago. Conseguiu emprego na banda Mr. Pitiful and The Teardrops, do baixista Robert Perkins ("Mr. Pitiful"). O grupo acabou no ano seguinte, e Perkins deixou que ele usasse o nome Teardrops. Slim chamou os irmãos e, no mesmo ano, começou a gravar alguns singles, entre os quais "Scuffin", que seria uma de suas músicas mais conhecidas. Mas as coisas nunca foram fáceis para ele. Até 1976, quando já excursionava pela Europa, ainda precisava ter empregos durante o dia para se manter. Trabalhou como soldador e, durante muitos anos, como motorista de caminhão.
Em 1974, Hound Dog Taylor, que era outro dos guitarristas mais rústicos e intensos de Chicago, ofereceu a Slim a vaga de Brewer Phillips, com quem vivia brigando. Mas Slim preferiu continuar com os Teardrops, mesmo sendo bem menos conhecidos do que os Houserockers de Taylor. Mais tarde Slim retribuiria a gentileza do amigo gravando composições dele, como "Sadie" e "Give Me Back My Wig". Ainda em 1974, Taylor parou de tocar no bar Florence's, onde tinha data fixa todos os domingos, e Slim ocupou a vaga. Foi aí que o público finalmente começou a prestar atenção nele.
A entrada de Coleman "Alabama Junior" Pettis na segunda guitarra, em 1975, contribuiu para moldar o som do grupo. Pettis não se restringia ao papel de manter o ritmo: às vezes tecia frases em contraponto aos solos do líder. Ele também costumava fazer harmonias vocais com Slim, algo não muito comum no blues, e assumia o vocal principal em algumas músicas. O guitarrista ficaria nos Teardrops até 1982, sendo substituído por John Primer, que tinha acabado de sair da banda de Muddy Waters.
Sua carreira só deslanchou nos anos 1980, quando Slim amadureceu o estilo rude e básico que o consagraria e começou a gravar por selos maiores como a Alligator, Blind Pig e Wolf. A partir daí, passou a se apresentar no Japão, na América Latina e tornou-se um dos bluesmen mais requisitados em festivais europeus. Ao longo dos anos, ganhou várias vezes os prêmios mais importantes do blues, como o W.C. Handy e o Blues Music Awards.
Magic Slim tocou no Brasil inúmeras vezes, tornando-se um dos músicos de blues mais conhecidos do nosso país. A primeira delas foi no lendário festival de blues de Ribeirão Preto (SP), o primeiro do gênero por aqui, em 1989, ao lado de lendas como Buddy Guy & Junior Wells, Albert Collins e Etta James. O sucesso do festival fez surgirem outros ao longo dos anos, e ele tocou em quase todos, como o Blues Festival (1990, em São Paulo), Natu Blues (2002, em Porto Alegre e Curitiba), The Blues Festival (2005, em São Paulo) e Oi Blues (2008, em seis capitais do Nordeste). Fez turnê pelo país como convidado especial do Trio paulistano Blue Jeans. Por onde ele passava, o público em peso entoava o refrão "Hey, Hey, the blues is alright!" como um grito de guerra.
Em mais de trinta anos, ele aprimorou seu "arroz com feijão" em álbuns apimentados como Highway Is My Home (1978), Gravel Road (1990), Scufflin' (1996) e Black Tornado (1998). Composições como "I'm a Bluesmen", "Goin' to Mississippi", "Please Don't Dog Me", "You Got To Pay" e Scufflin" adquiriram o status de clássicos do blues. Cada vez mais a crítica e os entusiastas do blues, consolidavam a reputação dos Teardrops como a melhor banda de Chicago em atividade.
Esporadicamente projetos diferentes como Alone & Unplugged (1995), que trazia apenas sua voz e um violão, Blue Magic (2002), produzido pelo guitarrista Popa Chubby, de estilo bem mais moderno, que usou até efeitos eletrônicos; e Midnight Blues (2008), talvez o único álbum que apresentou vários convidados especias, entre eles o gaitista James Cotton, o guitarrista Elvin Bishop e o cantor Otis Clay.
Os Teardrops receberam um duro golpe com a perda de Nick Holt, seu irmão, que faleceu em 2009 de câncer. Considerado um dos baixistas mais eficientes de Chicago, ele também era elogiado como vocalista (várias faixas da banda eram cantadas por ele como "As the Years Go Passing By"), e gravou um álbum solo. Nick foi substituído por Danny O'Connor e, depois, por Andre Howard.
Slim não fugia do estereótipo dos velhos bluesmen de vida desregrada. Bebia e fumava muito, o que lhe trouxe problemas renais, cardiacos e pulmonares. Em janeiro de 2013, durante uma turnê abrindo shows de Johnny Winter, precisou ser hospitalizado às pressas na Filadélfia. Ficou internado até 21 de fevereiro, quando não resistiu a uma cirurgia para tentar conter uma úlcera hemorrágica. No hospital ele pediu ao filho Shawn, que estava há um mês na banda como segundo guitarrista, que assumisse a liderança e prosseguisse a turnê. O grupo continua até hoje na ativa, agora como Shawn Holt and The Teardrops.
“ Se quer tocar blues, toque. Se não o sente, deixe-o, porque não se pode tocar o que não se sente” - Magic Slim.





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