Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Educação: Violência Adolescente

Como meninos aprendem a odiar e se tornam homens violentos?

Garotos são educados para a violência e estimulados desde cedo a fazer uso dela.

Cenas da série televisiva: "Adolescência"

Matéria: 04 de abril de 2026.

Desde a série inglesa Adolescência, de Stephen Grahem e Jack Thorne, a preocupação com a educação de meninos vem aumentando, sobretudo, porque muitos têm se tornado adeptos da ideologia misógina da chamada “machosfera”.

Os quatro episódios da série inglesa contam a história do menino Jamie, que, aos 13 anos, mata sua colega da mesma idade. A narrativa foca na sensação de absurdo em torno do garoto, que, como a maioria de sua geração, em principio, deveria passar o tempo jogando videogame no próprio quarto.

Os personagens espelham a perplexidade que espectadores necessariamente sentem diante de um fato como esse e, sobretudo, quando se dão conta de que essa é a nova vida real. Não é fácil dar-se conta de que a série é uma obra de ficção sobre a mais pura e, infelizmente, mais próxima realidade.

Assassino qualificado.

A perplexidade diante do desconhecido vem desaparecendo, pois há cada vez mais casos de adolescentes que matam, que cometem até mesmo massacres. Seja nos Estados Unidos ou pelo mundo afora e até mesmo no Brasil, a violência praticada por jovens aumenta. Detalhe fundamental é que esses adolescentes praticantes de violência são, em sua absoluta maioria, pessoas do sexo masculino, projetos de homens, agindo contra mulheres, estuprando-as sozinhos ou em maltas, mas também matando-as.

O menino do filme é, praticamente, uma criança e, no entanto, um assassino qualificado. Ele matou a colega a quem convidou para encontrar com ele no estacionamento da escola. Os episódios apontam para a ausência de motivações. Ninguém entende por que o jovem fez o que fez.

O contexto familiar não estimula a compreensão do crime como um feminicídio. Os pais do jovem feminicida são trabalhadores de classe média, que se dedicam à família, à casa, à educação dos filhos. A filha do casal, irmã do assassino, é uma garota normal, entristecida pela situação, como não poderia deixar de ser.

Ao mesmo tempo, o crime cometido pelo menino é marcado pela banalidade. No momento em que a adolescente assassinada se encontra com o garoto, a pedido dele, ele a esfaqueia sem mais explicações. O roteiro põe foco na subjetividade do adolescente, apresentando a perplexidade dos adultos. O que fazer com um menino que parecia uma criança e, de repente, se torna um assassino raivoso? Os pais, os professores, a psicóloga que o atende na prisão e até mesmo os policiais envolvidos no caso, todos agem segundo as necessidades de suas funções, mas todos estão perdidos diante do que se constitui como um mistério.

Poderíamos falar do “mistério da iniquidade”, remontando ao velho tema teológico do mistério do mal. É Paulo quem escreve em uma de suas cartas sobre esse tema (2 Tessalonicenses, 2:7) para se referir à atuação oculta do mal contra Deus no mundo. Mas, na verdade, se trataria do “mistério da iniquidade” masculina em relação ao qual já não há mistério nenhum.

Pesquisas revelam o óbvio, que a maioria dos crimes violentos cometidos no mundo são cometidos por homens. E os homens jovens seguem na mesma linha. De fato, há mulheres que matam, mas são muito poucas, realmente pouquíssimas. Os homens matam a si mesmos e matam as mulheres porque são estimulados a exercitar a violência que eles detêm como se fosse um monopólio. Enquanto as meninas são educadas para o cuidado e aprendem a cuidar, os homens são educados para a violência e aprendem a fazer uso dela.

Alguns devem estar se perguntando, perplexos, sobre a presença do ódio na vida de meninos bem educados. Como meninos e jovens com pais e mães gentis e preocupados com sua formação vêm manifestando ódio contra meninas e mulheres? Como é possível que eles venham a aderir à misoginia, quando suas famílias não propagam ideologias de ódio? De fato, em ambientes propícios, o ódio aumenta. Mas, infelizmente, além da família, há a educação escolar e outras instituições que ajudam a educar os meninos.

Masculinidade letal.

Porém, até mesmo as melhores escolas têm produzidos jovens misóginos, o que prova que há problemas ainda mais profundos que a educação não alcança em curto, médio ou longo prazo. A saber, o campo da cultura, da vida cotidiana, dos relacionamentos entre grupos de homens, que têm suas regras e funcionamento próprios, porque se perceberam como suficientes, como importantes, como uma identidade coesa, que traz satisfação e autorrealização.

Os meninos estão se tornando misóginos num processo de subjetivação e socialização pelos pares que atravessou e colocou a lei por terra. A internet é o novo território sem lei que pede que o crime se faça, e os criminosos aparecem com as novas armas, as novas tecnologias para dominar o mundo.

Adolescência é uma série que trata da presença da internet como ambiente que promove e estimula o crime, justamente porque é um território sem lei. A regulamentação da internet é essencial para coibir o avanço do crime. Como a internet e as redes sociais são muito novas, a zona cinzenta entre o que é certo e o que é errado está sendo usada como espaço de poder e violência para todo tipo de lucro.

Os crimes de ódio, baseados em preconceitos contra o outro, encontraram na era digital uma incubadora estimulada por seus proprietários, que sabem o valor do ódio. A Meta, de Marck Zuckerberg, foi recentemente condenada a pagar mais de US$ 300 milhões num processo movido no estado do Novo México, sob a acusação de criar “ambiente propício” para predadores sexuais em plataformas como Facebook e Instagram e não alertar usuários sobre riscos, nem adotar medidas suficientes para proteger crianças.

Zuckerberg está lucrando com o território que ele ocupa na sua colonização digital, assim como os red pills, os grupos de incels (“celibatários involuntários”), MG Towns e outros que se organizam pela internet afora.

É nesse ambiente digital que surgiu a chamada “machosfera”, como mercado do ódio, no qual alguns representantes da “masculinidade tóxica” – e, devemos dizer, também “masculinidade letal” – funcionam como CEOs de um grande empreendimento, no qual vendem a si mesmos. Ali, todo homem quer ser o “capital” e trabalha seu corpo para isso, tornando-se “soldado”, criando a estética da violência decorativa, que une os homens numa identidade de seita. Os meninos estão expostos a isso nas redes e são capturados pelo ideal de masculinidade, que faz parte da cultura patriarcal, sobre a qual prometo falar em outro artigo.

A criminalização da misoginia vai abalar esse mercado, mas vai abalar também a cultura do ódio às mulheres, que traz tanta compensação emocional a homens ricos e pobres, líderes e liderados, todos unidos na identidade do macho abusivo e agressivo, capaz de matar e, atualmente, de se matar também ao buscar um fim apoteótico para uma vida sem sentido.

Marcia Tiburi
Formada em filosofia e artes. Lecionou em universidades brasileiras e estrangeiras. Publicou 7 romances, entre eles Com os sapatos aniquilados, Helena avança na neve (Nós, 2023) e diversos ensaios, entre eles “Como conversar com um fascista”, “Complexo de vira-lata: análise da humilhação brasileira” (Civilização Brasileira, 2021) entre outros.




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