Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Artes visuais: Exposição Zumví

Exposição - ZUMVÍ
'Arquivo Afro-fotográfico"

( Lázaro Roberto )

"Zumví: a trajetória política e estética de um acervo fotográfico negro"

"Exposição traz cerca de 400 imagens que registram a vida negra baiana a partir de experiências próprias"
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Quando o artista Lázaro Roberto começou a circular com sua câmera pela Feira de São Joaquim, na Cidade Baixa, em Salvador, feirantes de um dos maiores mercados de rua do país o abordavam para indagar se ele tinha “virado branco”.

“Você vai vender minha foto no Pelourinho?” ou “Vai fazer o que com a minha imagem?” foram algumas das perguntas que ele ouviu em suas incursões iniciais, entre o final dos anos 1980 e o início da década de 1990. “Me chamavam de turista”, recorda Lázaro. “Na Bahia, existia uma hegemonia branca na fotografia, representada pela família Cravo e por Pierre Verger.”

Zumví, além de refletir a primazia mencionada por Lázaro, esse interrogatório remetia a uma prática colonial, na qual pessoas negras e racializadas são frequentemente destituídas de suas individualidades, sendo representadas como exemplares exóticos de um gabinete de curiosidades.

Das pinturas aos álbuns de família – com retratos de mulheres escravizadas, amas de leite ou babás, embalando crianças brancas – até o trabalho de badalados artífices contemporâneos, corpos negros foram explorados como mercadoria, raramente identificados.

Não é o caso das pessoas retratadas por Lázaro. Mais de quarenta anos depois, trabalhadores da Feira de São Joaquim figuram entre os personagens da mostra Zumví – Arquivo Afro Fotográfico. A exposição em cartaz no IMS Paulista é a primeira grande coletiva dedicada a esta instituição, detentora de um acervo fundamental da história da fotografia e dos movimentos negros brasileiros.

Criado em Salvador, em 1990, pelos fotógrafos Lázaro Roberto, Aldemar Marques e Raimundo Monteiro, o Zumví possui um arquivo com mais de 50 mil fotogramas e documentos que registram a vida negra baiana a partir de vivências próprias, hoje distribuído em uma sede no Pelourinho e outra no bairro do Rio Vermelho.

Com curadoria de Hélio Menezes – um dos responsáveis pela Bienal Internacional de Artes de São Paulo em 2023 –, a exposição no IMS apresenta cerca de 400 imagens, organizadas em 16 eixos temáticos idealizados por Lázaro, o único dos três fundadores que segue à frente do projeto, agora com a colaboração de seu sobrinho, o historiador José Carlos Ferreira.

Além do núcleo dedicado à Feira de São Joaquim, a exposição destaca ações do Movimento Negro Unificado (MNU), o cotidiano de Blocos Afro e Afoxés, a resistência territorial do Quilombo do Rio das Rãs e a efervescência cultural de movimentos como o reggae e o hip-hop soteropolitano.



Olhar negro

Ocupando as mesmas duas salas onde até o início deste mês estava a individual de Gordon Parks, Zumví oferece o contraponto perfeito às obras do pioneiro estadunidense. Ícone da fotografia, do cinema e do fotojornalismo, Parks documentou a segregação racial nos Estados Unidos sob uma perspectiva humanista. 

Da mesma forma, o Zumví revela uma estética atenta às demandas das margens, antecipando manifestações políticas, religiosas e comportamentais décadas antes do mainstream artístico e da mídia.

O despertar de Lázaro para essa ausência de representatividade ocorreu quando ele passou a ver o mundo pelas lentes da negritude, nos anos 1970, ao se juntar a um grupo de teatro criado por um “padre comunista”, ligado à Teologia da Libertação, no bairro Fazenda Grande do Retiro.

Nesse contexto, Lázaro descobriu a fotografia, arte que aprendeu de forma autodidata, manuseando a câmera de um colega. Além do teatro, a criação do Ilê Aiyê, em 1974, e a ascensão do MNU na Bahia foram, segundo ele, determinantes para sua formação política e estética.

Em 1980, como assistente do pároco em um jornal social, Lázaro comprou sua primeira câmera, uma Minolta. Dedicou-se, então, a retratar o que ele chama de “reafricanização de Salvador”, numa época marcada pela ascendência de blocos afro, afoxés (como o Filhos de Gandhi) e pelo ativismo de lavadeiras, favelados e mulheres, entre outros. “Quando comecei a fotografar, percebi que Salvador era uma cidade negra. Até então, não enxergava isso”, afirma Lázaro.

A Minolta durou até 1990, quando Lázaro comprou uma Pentax de segunda mão e, pela primeira vez, experimentou lentes de aproximação. Na mesma época, juntou-se a Aldemar e Raimundo, criando o Zumví. A palavra une a noção do zoom fotográfico, grafado em português, com a ideia de que essa prática testemunha acontecimentos históricos coletivos: eu “vi”.

A primeira sede da instituição foi uma sala com dois banheiros, transformados em laboratório, cedidos pela Igreja Católica da Penha, no bairro da Ribeira. Durante cinco anos, o trio registrou movimentos sociais, o ativismo no contexto da redemocratização e trocou percepções sobre a fotografia, até que Aldemar e Raimundo desistiram da empreitada.

Lázaro persistiu, acumulando dezenas de pastas de arquivo, identificadas com tema, data e local. “A vida inteira, tudo convergiu para eu continuar fotografando”, diz. “Num determinado momento, entendi que o que faço é um trabalho de documentação.”

Nessa missão, Lázaro acumulou centenas de negativos de sua autoria, de antigos e novos parceiros, além de doações e trabalhos de alunos dos cursos de fotografia ministrados por ele e outros profissionais. Muitas dessas imagens jamais foram sequer ampliadas. Desde sua fundação, o Zumví realizou apenas uma individual, em 1992, além de participações em coletivas como a Bienal de São Paulo de 2023.

O pouco caso de instituições públicas e privadas revela o desprezo por um acervo que guarda relíquias ainda a serem descobertas, além de momentos memoráveis da história brasileira, como os protestos do Centenário da Abolição da Escravidão (1988), o tricentenário de Zumbi dos Palmares (1995), e a visita de Nelson e Winnie Mandela à Bahia, (1991).

“Sempre tive consciência de que estava fotografando para o futuro”, diz Lázaro. Um porvir que, finalmente, começa a se materializar.


28 mar 2026.

Adriana Ferreira Silva
Jornalista, escritora e curadora, com enfoque em questões interseccionais de gênero e racial. Como moderadora, participa de eventos internacionais como a Commission on the Status of Women (ONU/NYC) e o B20 Brazil Opening Event. Foi correspondente internacional em Paris e trabalhou nas redações de Folha de S.Paulo, Marie Claire, Vogue, Veja SP e como colunista da rádio CBN. Sua experiência em curadoria abrange a Jornada Galápagos de Jornalismo e o edital Rumos Itaú Cultural. É colunista do Nexo Jornal e escreve para Numéro Brasil e Quatro Cinco Um. (Foto: Cris Santoro).

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Exposição:

Zumví Arquivo Afro Fotográfico
28/3/2026 a 23/8/2026

IMS Paulista
Avenida Paulista, 2424, São Paulo/SP - Brasil
Entrada gratuita. Terça a domingo e feriados das 10h às 20h (fechado às segundas). Última admissão: 30 minutos antes do encerramento.


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