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quarta-feira, 13 de maio de 2026

Educação: Sociedades Matriarcais

Raízes do feminicídio: 
'  o desmonte do matriarcado pelo patriarcado '

Deusa Mãe de Madhya Pradesh, por volta do sec. VI ou VII.

As sociedades matriarcais eram profundamente ecológicas, pacíficas e inclusivas.

Houve uma época em que não se aceitava a existência histórica do matriarcado por insuficiência de dados. Mas as pesquisas arqueológicas, os estudos da psicologia do profundo e outros confirmaram o fato de que realmente existiu uma fase matriarcal da humanidade.

Primeiramente, ela foi identificada na bacia do Mediterrâneo e, depois, em quase todas as partes do mundo. Descobriram-se figuras femininas da divindade, as grandes mães de mil seios, simbolizando a fecundidade da mulher. Essas sociedades eram profundamente ecológicas, integradas à natureza, pacíficas e inclusivas.

Mas os tempos mudaram e, com eles, as relações entre homens e mulheres. Provavelmente, o desenvolvimento de instrumentos e tecnologias mais efetivas no domínio da natureza e na consecução dos alimentos, exigindo mais força física, permitiu aos homens ganharem, lentamente, mais proeminência. Eles se valeram destas vantagens e elaboraram estratégias para desbancarem o matriarcado. Assim, introduziram o domínio do homem sobre a mulher e a ocupação deles de todos os espaços públicos.

Deu-se uma verdadeira luta dos sexos, luta de gênero que não terminou ainda, pois continua até os dias de hoje. Exemplifiquemos.

Pecado das origens.

É emblemática a forma como foi retrabalhado o pecado de Adão e Eva. Nele, se revela todo o esforço de desmonte do matriarcado por parte do patriarcado. Essa visão foi aprofundada a partir de 1986, quando se criou a Internationale Akademie HAGIA, dedicada à pesquisa crítica e às experiências do matriarcado. A fundadora Heide Göttner-Abendroht resumiu as pesquisas em dois volumes – Das Matriarcat I e II (Stuttgart, 1988 e 1991).

Para a nossa reflexão, são fundamentais os estudos multidisciplinares de duas eruditas teólogas feministas, Riane Eisler (Sex Myth and Poilitics of the Body: New Paths to Power and Love, HarperCollins, San Francisco, 1955) e Françoise Gange (Les Dieux Menteurs, Editions Indigo-Côtes Femmes, Paris, 1997). Elas, de forma refinada, usando a linguística, o estruturalismo e outras ciências afins, mostraram que ao atual relato patriarcal subjaz um relato matriarcal anterior. Ele foi apagado e reescrito para justificar o poder patriarcal sobre a mulher. Seguiremos sua argumentação.

Os ritos e símbolos sagrados do matriarcado são diabolizados e retroprojetados às origens na forma de um relato primordial fundado no desígnio do Criador. O atual relato do Pecado das Origens coloca em xeque quatro símbolos fundamentais da religião das grandes deusas-mães.

O primeiro símbolo a ser atacado foi a própria mulher (Livro do Gênesis, 3, 16), que, na cultura matriarcal, era dotada do sexo sagrado, gerador de vida. Como tal, ela simbolizava a Grande-Mãe, a Suprema Divindade.

Em segundo lugar, desconstruiu-se o símbolo da serpente, considerado o atributo principal da Deusa-Mãe. Ela representava a sabedoria divina, que se renovava sempre como a pele da serpente.

Em terceiro lugar, desfigurou-se a árvore da vida, sempre tida como um dos símbolos principais da vida, ligando o céu com a Terra. A árvore continuamente renova a vida, como fruto melhor da divindade e do universo. O Gênesis 3, 6 reconhece, explicitamente, que “a árvore era boa para se comer, uma alegria para os olhos e desejável para se agir com sabedoria”. Mas sobre ela recai o interdito, nem se pode tocá-la, porque pode produzir a morte.

Em lugar, destruiu-se a relação homem-mulher, que, originariamente, constituía o coração da experiência do sagrado. A sexualidade era sagrada, pois possibilitava o acesso ao êxtase e ao saber místico.

O atual relato do pecado das origens inverteu totalmente o sentido profundo e verdadeiro desses símbolos. Dessacralizou-os,,diabolizou-os e os transformou de bênção em maldição.

A mulher será eternamente maldita, feita um ser inferior: “O homem a dominará” (Gn, 3,1 6). O poder da mulher de dar a vida foi transformado numa maldição: ”Multiplicarei o sofrimento da gravidez” (Gn 3, 16). Como se depreende, a inversão foi total e com consequências altamente negativas para o imaginário posterior, controlado pelos homens.

A serpente é maldita (Gn 3, 14) e feita símbolo do demônio tentador. O símbolo principal da mulher foi transformado em seu inimigo figadal: ”Porei inimizade entre ti e a mulher” (Gn 3,15).

A árvore da vida e da sabedoria, na atual leitura patriarcal, vem sob o signo do interdito (Gn 3, 3). Antes, na cultura matriarcal, comer da árvore da vida era se imbuir de sabedoria. Agora, comer dela significa um perigo mortal anunciado por Deus mesmo: ”Não comais do fruto da árvore do meio do jardim, sequer a toque, do contrário, morrereis” (Gn, 3,3).

O amor sagrado entre o homem e a mulher vem distorcido: ”Entre dores darás à luz os filhos; a paixão arrastar-te-á para o marido e ele te dominará” (Gn 3, 16).

Mudança de paradigma.

A partir de então, se tornou impossível uma leitura positiva da sexualidade, do corpo e da feminilidade. Aqui está a justificativa histórico-social do crime do feminicídio no Brasil e no mundo. Segundo a ONU, 140 mulheres são vítimas de feminicídio por dia no mundo. Na América Latina e Caribe, 11; no Brasil, quatro diárias.

Aqui se mostra o que se operou com a desconstrução total do relato anterior, feminino e sacral. Reescreveu-se o relato original das origens de forma a contaminar todas as significações posteriores. Todos somos, bem ou mal, reféns do relato adâmico, antifeminista e culpabilizador.

O trabalho das teólogas Riane Eisler e Françoise Gange pretende ser intencionalmente libertador ao mostrar o caráter construído do atual relato dominante, centrado sobre a dominação, o pecado e a morte; e ao propor uma alternativa mais originária e positiva na qual aparece uma relação nova com a vida, com o poder, com o sagrado e com a sexualidade. E impossibilitar o feminicídio.

Essa interpretação não visa repristinar uma situação passada, mas encontrar um ponto de equilíbrio maior entre os valores masculinos e femininos para os tempos atuais.

Estamos assistindo a uma mudança de paradigma nas relações masculino/feminino. Ela deve ser consolidada com um pensamento profundo e integrador, que possibilite uma felicidade pessoal e coletiva maior do que aquela debilmente alcançada sob o regime patriarcal. É o que as feministas, políticas, antropólogas, filósofas e teólogas do Brasil e do mundo estão fazendo com expressiva criatividade.

Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.

REVISTA LIBERTA
9 maio 2026