O primeiro momento da invasão:
O mundo não estava esperando, e em 07 de fevereiro de 1964, a banda britânica da cidade de Liverpool, The Beatles, já fazia sucesso na Europa e aportou nos EUA pela primeira vez para uma mini turnê. Sem esperar, os jovens foram virados de cabeça para baixo. Literalmente da noite para o dia, os Beatles se transformaram no maior fenômeno popular de música que aquele país já vira. Milhares de jovens invadiram o Aeroporto Internacional JFK, em Nova York; suas canções monopolizaram as rádios de costa a costa; seus discos atingiram cifras de vendagens jamais vistas; sua primeira aparição na TV norte americana – no programa The Ed Sullivan Show marcou uma audiência recorde com 73 milhões de telespectadores. Foi uma loucura apelidada de "beatlemania"! Além de ser um fenômeno, os The Beatles foram apenas o começo.
Depois do primeiro contato com o quarteto de Liverpool, descobriram que a Grã-Bretanha produzia dezenas de bandas com aquela nova sonoridade, um rock enérgico, levado nas guitarras elétricas e reforçado com vozes fortes e harmônicas. Logo, vários outros grupos ingleses passaram a dividir a atenção do público e da mídia: The Rolling Stones, The Animals, The Kinks, The Hollies, The Dave Clark Five e The Yardbirds chegaram logo em seguida. A Invasão Britânica criou não apenas um fenômeno social, musical e cultural, ela criou o rock que conhecemos hoje. Definiu as bases de um gênero musical que, muito mais do que apenas música, virou um estilo de vida e contra-cultura.
As influências do movimento:
O Rock 'n' Roll desenvolvido nos estados unidos na década de 1950 foi se popularizando, cativando um público cada vez maior; e das pequenas gravadoras independentes saltou para as grandes gravadoras, as rádios nacionais, a TV e o sucesso internacional. Artistas como Bill Harley and His Comets, Elvis Presley, Little Richard, Chuck Berry, Buddy Holly, Jerry Lee Lewis fizeram a transição e viraram ídolos do estilo.
Conquistando a mídia a partir de 1954, o rock se torna um fenômeno mundial em 1956. Tudo isso foi fruto de um grande intercâmbio de gêneros musicais “raiz”, ou seja, populares, que se combinaram nos interiores do país e se popularizaram nos grandes centros urbanos.
A mistura do Jazz, Blues, Rhythm'n Blues, Country and Western e a música Folk se fundiram entre os pretos e os brancos para consagrarem esse gênero. Porém, tão rápido e intenso eles brilharam, tão logo desapareceram. Em 1959, muitos ícones do rock 'n' roll estavam enfrentando problemas pessoais, e por vários motivos eles simplesmente não estavam conseguindo mais manter o mesmo sucesso nas rádios. Seria o fim do Rock?
Do outro lado do atlântico, na Grã-Bretanha, o rock and roll também fez sucesso a partir de 1956. Mas causou um efeito diferente. A Inglaterra diante das consequências da segunda guerra mundial, ainda sofria com racionamento, pobreza e falta de perspectiva para os mais jovens. O rock era o que eles precisavam. Mas a Grã-Bretanha ainda não tinha um grande aparelho de mídia como o que já existia nos EUA. A TV era controlada pela BBC. O rádio também. A programação radiofônica era restrita ao que o governo julgasse “digno” de ser ouvido. Rock era considerado ofensivo. Não tocava no rádio. Só existiam quatro gravadoras de discos e não havia gravadoras independentes. Os jovens não tinham dinheiro para comprar uma guitarra elétrica, por exemplo, pois teria que importar o instrumento. Então o rock, a princípio, foi um movimento totalmente marginal e subversivo.
Na entrada da década de 1960, vai se criando todo um cenário libertador e revolucionário entre os jovens, mas foi preciso chutar a porta para que a música e as artes em geral pudessem ganhar espaço.
Alguns ingleses já extasiados com o recém-descoberto "Blues" afro-americano, com elementos e o swing do Funk de James Brown e a sensualidade da Soul Music de Mavin Gaye e Ray Charles, inicia-se um caldeirão fervilhante de ideias. O estilo estava ficando cada vez mais frenético, pulsante e sensual, era o renascimento do Rock and Roll! Na europa, o rock também bebeu em outras fontes: na música sinfônica europeia; na música popular anglo-saxônica. O Jazz e o Blues já faziam muito sucesso entre os intelectuais; e a combinação do blues rural com sua herança popular deu origem ao Skiffle, um gênero tipicamente inglês: rápido, rústico e rasgante. Essa foi a base fundamental que fez o rock inglês ser diferente do rock americano.
Desbravando o mundo:
Ensaios de roqueiros ingleses como Cliff Richards and the Shadows, por exemplo, no início dos anos 1960, logo vira uma verdadeira cena roqueira capitaneada pelos The Beatles. O quarteto formado em Liverpool, no norte do país, região mais atrasada, provinciana e pobre, precisou de muita insistência e perseverança para romper a barreira imposta pela capital Londres. Mas isso se desfez logo após o retorno da banda na passagem de muito sucesso por Hamburgo, na Alemanha. O lançamento de seu primeiro disco, em 1962, torna-se um grande fenômeno de vendas no país. E não demora para o sucesso escoar pelo resto da europa.
O sucesso dos Beatles chamou a atenção das gravadoras e abriu o caminho para toda uma horda de bandas que estavam esperando para estourar. Num primeiro momento, a própria região de Liverpool providenciou uma enorme gama de artistas, como Garry and the Peacemakers, Billy J. Kramer and the Dakotas, The Fourmost, Cilla Black e The Hollies.
O compacto "I Want to Hold your Hand" chegou ao primeiro lugar das paradas dos EUA e se transformou no maior fenômeno de vendas que o país já vira. Como n.º 1 nas rádios, os Beatles decidiram ir ao país se apresentar. Curiosamente, devido ao pouco tempo, os Beatles agendaram apenas uma mini-turnê, que envolvia apenas dois concertos, no Colliseum de Washington, DC e no Carnegie Hall em Nova York. Três apresentações no programa televisivo de Ed Sullivan também foram agendadas. Um marco histórico.
Em vista o grande sucesso e domínio do rock inglês nas rádios americanas durante o ano de 1964, as gravadoras americanas começaram a investir e bandas de rock começaram a brotar pelo país. Assim, em 1965, surgem bandas como The Beach Boys, The Byrds, Simon & Garfunkel e The Mamas and the Papas acompanhando as tendências.
Até o músico e compositor Bob Dylan, um puritano da música Folk, experimentou o "rock elétrico". Conhecido por suas letras poéticas e politizadas, por canções calmas e acústicas, também foi influenciado por essa invasão e aderiu a guitarra elétrica em certo momento. Criou o chamado "Folk-Rock", que seria a misturas dos dois estilos. Na época, causou um pouco de revolta entre alguns puritanos da música folk, porém ele se transformou mundialmente conhecido.
O Blues domina Londres:
Paralelamente, a capital Londres começara a gestação de uma outra cena musical, mais pautada na influência do Blues e R&B. Figuras muito importantes como os músicos Alexis Korner e Cyril Davies abrem as portas para que artistas "bluseiros" norte americanos entrassem no circuito de bares e festivais na capital londrina. Inclusive, Alexis Korner é considerado o "Pai do Blues Britânico".
A banda John Mayall & The Bluesbreakers, importantíssima na cena, foi a chamada "Escola de Blues". John Mayall, pouco mais velho que a rapaziada, recrutava jovens músicos e instrumentistas interessados no estilo para tocarem em sua banda. Muitas experimentações foram feitas na banda e muitos músicos ficaram famosos mais tarde como os guitarristas Peter Green, Eric Clapton e Mick Taylor.
Outras bandas também se formaram, pelo menos no início, para tocar o "Blues Raiz" afro-americano, e, assim, desenvolverem mais profundamente o blues britânico. The Rolling Stones, The Animals, The Yardbirds, The Pretty Things, The Manfred Mann são alguns exemplos de bandas "blues" que estouraram nas paradas entre 1963 - 1965.
A sonoridade dessas bandas era bastante diferente do rock and roll dos anos cinquenta, e se transformou na principal referência para todo o rock que veio a seguir. Por isso, o rock tal qual o conhecemos hoje – com as bandas que ouvimos atualmente – é fruto da Invasão Britânica.
O segundo momento da invasão:
Apesar da qualidade sonora até ali criada, os britânicos continuaram a elevar o Blues-Rock após 1965. Bandas como The Yardbirds, The Who, The Spencer Davis Group, The Small Faces e Jeff Beck Group do virtuoso guitarrista Jeff Beck, fazem uma fusão excelente para o rock mais comercial. Já bandas como: Free, The Graham Bond Organization, Chicken Shack, Peter Green’s Fleetwood Mac e Savoy Brown, elevam a qualidade do "Blues Inglês".
Os The Rolling Stones mostravam uma imagem rebelde, um rock mais sujo no sentido sonoro, muita sensualidade interpretada pelo vocalista Mick Jagger, e emplacou sucessos como The Last Time, I Can’t Get No Satisfaction e Get Off of My Cloud. Os Yardbirds colocavam a guitarra no centro do palco, primeiro com Eric Clapton, depois com seu substituto, Jeff Beck, popularizando os efeitos de distorção e feedback, e depois Jimmy Page, fundador da banda Led Zeppelin mais tarde.
O The Who fazia um som poderoso de guitarra, baixo e bateria. Performance inquieta e intensa, volume no talo e letras provocativas como na música My Generation, "prefiro morrer jovem à envelhecer". A banda foi a primeira a quebrar os instrumentos nos shows, Pete Towshend foi o primeiro músico a destruir sua guitarra no palco, tudo era simbolgia de insatisfação e rebeldia juvenil.
Nos EUA, no berço do blues elétrico, Chicago, a banda The Paul Butterfield Blues Band do gaitista Paul Butterfield, assinou contrato com a Elektra Records depois de adicionar o guitarrista Michael Bloomfield. Seu álbum homônimo foi lançado em 1965. Depois de várias mudanças na formação e no estilo musical da banda, Paul iniciou uma carreira solo nos anos setenta.
Outra banda muito importante no blues norte americano, o Canned Heat, de Los Angeles, inovou na sua criação em 1965, na época era uma das poucas bandas de blues formadas apenas por brancos, muita originalidade tanto em covers de blues quanto nas composições próprias. As músicas são baseadas em artistas clássicos de blues, como Robert Johnson, John Lee Hooker, Skip James, entre muitos outros.
O resultado da combustão musical e a chegada da "Cultura Hippie":
Apesar das diferenças culturais e estéticas, a Invasão Britânica e o estilo americano começaram a se fundir em 1966 para formar o chamado Psicodelismo, a estética marcada pelas cores abundantes, a música experimental, a apologia de liberdade às drogas e o nascimento do movimento hippie. A importância de artistas como Janis Joplin, Jefferson Airplane, Vanilla Fudge, Iron Butterfly e The Doors mostram a qualidade americana nesse estilo. E grandes nomes do Psicodelismo da Grã-Bretanha são Moody Blues, Pink Floyd, Cream e Traffic. Sem falar na adesão de artistas “veteranos” como os Rolling Stones e Beatles.
Algumas bandas como os americanos The Beach Boys com o álbum “Pet Sounds” de 1966 precursor do estilo, The Rolling Stones com “Their Satanic Majesties Request” de 1967 e The Beatles com o álbum Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band de 1967 entraram de cabeça na música psicodélica e demonstram o poder sonoro da lisergia.
A chegada do virtuosismo:
A maior revolução e inovação da guitarra e consequentemente todos os instrumentos e equipamentos da época vieram de um americano chamado Jimi Hendrix. Após emigrar para a Inglaterra em 1966 e formar uma banda britânica, a “The Jimi Hendrix Experience”, vira um fenômeno mundial entre músicos e críticos da indústria. Jimi Hendrix revolucionou a sonoridade e o modo de tocar guitarra, abriu as portas para o som mais pesado que viria na próxima década misturando todos os estilos. Depois dele nada seria a mesma coisa.
O psicodelismo, para alguns músicos e bandas, apontaria para um futuro estilo que chegaria. Encantaria as pessoass com as viagens sonoras, capas coloridas e muita experimentação instrumental misturando várias vertentes. Esse estilo seria conhecido em breve por "Rock Progressivo", que seria representado por bandas pioneiras do estilo como: Pink Floyd, The Soft Machine, Jethro Tull, Yes, Atomic Rooster, King Crimson e Emerson, Lake & Palmer.
Importante destacar que todos esses estilos e rumos do rock estavam explodindo por toda a Europa, nos apresentando artistas e bandas fantásticas por inúmeros países.
Os novos rumos:
A década de 1960 foram muito dinâmicos e intensos. Muitas bandas produziram muito e duraram pouco. Outras mudaram ou adaptaram-se em outros estilos. Pioneiros como The Animals, The Yardbirds e The Hollies mal sobreviveram até a ano de 1967, encerrando as atividades ou desaparecendo da grande mídia. Alguns artistas ficaram muito famosos e conseguiram sucesso em vários projetos diferentes ou tiveram grande sucesso em suas carreiras solos.
Vale destacar aqui a banda pioneira do estilo chamado Blues-Rock, no formato "Power Trio", (banda de sonoridade pesada com apenas três músicos: guitarra-baixo-bateria), o Cream. Ao final dessa banda em 1969, por exemplo, os três grandes músicos fazem outros projetos e carreiras solos brilhantes. Jack Bruce (vocalista e baixista), Eric Clapton (guitarrista) e Ginger Baker (baterista), formaram depois outras bandas com muito destaque e depois álbuns solos maravilhosos.
Outras bandas sobreviveram à passagem do tempo – Beatles, Stones e The Who por exemplo, já produziam uma sonoridade totalmente diferente, madura e ousada com os álbuns White Album e Abbey Road dos Beatles; Beggars Banquet e Let it Bleed dos Rolling Stones e a primeira "Ópera Rock" lançada pelo The Who, o álbum "Tommy".
Foi a era dos grandes festivais e que rendeu o lendário festival de Woodstock em 1969, com mais de 400 mil espectadores revelou ao mundo artistas como Joe Cocker, Crosby Stills Nash & Young, Santana além de contar com as apresentações de Jimi Hendrix, Janis Joplin e The Who. A américa continuou a produzir excelentes bandas folks e de rock psicodélico como The Band, Creedene Clearwater Revival e Grateful Dead.
As bandas britânicas mudam o rumo novamente:
O surgimento de uma nova sonoridade blues-rock, com fortes riffs de guitarra e muito mais pesados, chamados depois de Hard Rock, transformaram mais uma vez o rock and roll. Esse novo som já vinha sendo lapidado ao longo dos anos por bandas como Cream, The Jimi Hendrix Experience, Ten Years After e Jeff Beck Group, porém, foi a partir do primeiro e segundo disco da banda Led Zeppelin lançados em 1969 que o novo gênero estava fundado.
A partir de 1970, bandas como Deep Purple, Uriah Heep, Black Sabbath, Wishbone Ash, Budgie e Nazareth consolidam o hard rock.
A partir desse momento viriam ainda muitas e muitas páginas da história do Rock e da música Pop. Inúmeros estilos, sub gêneros e vertentes surgiram e surgem até hoje. Outras cuturas e artes musicais estão sempre se fundindo e criando novas sonoridades. Rock com Reggae, o Reggae com Jazz, o Jazz com o Samba, o Samba com Erudito ...
"sem a mistura de raízes culturais, a música não seria magnífica e complexa"
O legado:
A importância da Invasão Britânica sequer pode ser medida, pois ela definiu os caminhos do rock e da música pop na atualidade. É uma referência para muitas bandas e artistas do gênero. David Bowie, Elton John e até Michael Jackson rei da música pop surgiram desse legado. A inversão do polo artístico musical global trouxe uma mudança radical à música do século XX e o surgimento de um dos momentos mais importantes da história da música, com a revelação de artistas que estão entranhados no DNA musical das gerações posteriores.
E tudo isso explodiu em 1963 após a invasão de um quarteto vindo de Liverpool ...
Long Live Rock!