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terça-feira, 6 de outubro de 2026

DiScOs InCrÍvEiS: Zélia Duncan


ZÉLIA DUNCAN
' Pelespírito - 2021 '

Em casa, na causa, longe de tudo – mas sem tirar os olhos do mundo. É assim que Zélia Duncan se apresenta na primeira faixa que dá nome ao álbum. Fazendo referência ao termo “perispírito”, cunhado por Allan Kardec para definir o envoltório semimaterial que une corpo e alma, Pelespírito é um sentimento que ”significa solidão, medo e, ao mesmo tempo, vontade de alguma leveza que a gente não estava encontrando. A pele repuxada de tantas perguntas, e o espírito procurando por alguma elevação no meio do caos. Pelespírito é o sentimento de que algo te puxa para baixo e, ao mesmo tempo, para cima. É a morte e a vida”, reflete Zélia.

O álbum é resultante do trabalho entre a cantora e os compositores Juliano Holanda e o baiano Webster Santos, que assinam a produção. “Trabalhamos juntos, mas separados, cada um na sua casa. Foi uma troca incrível, o álbum é bem literal”, conta. “Onde é Que Isso Vai Dar é um diálogo entre eu e Juliano. Ele disse: ‘A nossa parceria tá me salvando, tá sendo tão bom pra mim’, e aí eu disse pra ele: ‘Te digo o mesmo. Você me provoca, e eu adoro um desafio’”, relata.

As 15 canções, que passeiam entre folk, country, rock ‘n’ roll, blues e sertanejo nordestino, foram gravadas a distância, e foi a primeira oportunidade em que Zélia se auto dirigiu durante a gravação. “Foi tão louco. Eu sou uma pessoa alegre, tento ser engraçadinha, faço meus amigos rirem, mas eu cultivo (muito bem cultivada) certa melancolia. Um lugar onde eu me sinto inspirada, onde eu acho que enxergo melhor as coisas”, reflete. “Eu, sozinha, me gravando, me emociono”, diz.

Pandemia, ignorância e criatividade.

Zélia conta que se lembra do que passava na sua cabeça enquanto gravava, em plena solitude, Pelespírito: “Me lembro da hora em que estava cantando... Estava com uma pena da gente, sabe? Estava pensando: ‘Pô, cara, a gente precisa conseguir ir pra um lugar, dentro de nós, onde a gente possa esperar alguma coisa do Brasil’”, e, em consonância com sua alma ativista, critica: “O Brasil nunca foi justo, nunca foi um lugar amistoso pra todos nós. Apesar disso, é a primeira vez que eu estou sentindo uma ode à ignorância. A impressão que eu tenho é a de que o Brasil, que a gente ama, tá cercado. Quando eu fui cantar Pelespírito, fiquei sentindo essas coisas. ‘Caramba, a gente tá tão pequenininho, a gente tá reduzido a isso aqui: uma pelezinha, um espíritozinho’. Eu fiquei nessa, e foi assim que eu gravei o disco todo: com a alegria de estar fazendo, e com uma certa tristeza cultivada, também”.


Para Duncan, o álbum contempla uma boa dose de solidão. Criar, produzir e lançar neste período oferece percalços inéditos, e, sobre estes, conta: “Eu aprendi a gravar minha própria voz – coisa que não fiz em 40 anos de carreira –, num computadorzinho pequenininho... Foi uma experiência muito nova pra mim, e solitária. Acho que o disco tem esses questionamentos de quem está ali, sozinho, perguntando alguma uma coisa – e este alguém, na verdade, somos todos nós, eu acredito”. Todo desafio exige uma força motriz, que, para a cantora, é o amor pelo seu ofício: “O meu ofício não me abandonou. Tantos colegas ficaram paralisados no meio disso tudo, sem conseguir produzir muito, e eu fui na contramão, fazendo milhares de coisas”.

Sua perspectiva é que existe uma solidão boa, “que é quando você se faz companhia sem dor. Eu tenho vida interna, tenho coisas que povoam a minha cabeça. Um repertório que me faz companhia quando estou sozinha – e este repertório é a arte. Esta é a importância da arte neste período de isolamento social: ela nos faz companhia”.

Zélia afirma sentir muita falta do contato próximo, cara a cara, com o público: e é a partir deste sentimento que surge a música Eu e Vocês, onde exprime sua “saudade apertada” e fala diretamente com a plateia em versos como: “Vontade de cantar / Num coro essa canção / Com voz de coração / Eu e vocês”. A cantora, emocionada, afirma que “nada substitui eu e vocês. Vocês e eu, juntinhos”.

Além de expressar sua nostalgia referente aos tempos em que aglomerações ofereciam bons momentos, o álbum transita por outros assuntos delicados, como em Você Rainha, que promete ser um local seguro para as mulheres presas com seus algozes durante o isolamento social. “É para que essas mulheres saibam que não estão sozinhas e que sempre terão uma saída. Juntas somos mais fortes e podemos nos ajudar”. O disco é finalizado com a canção Vai Melhorar, que conta com a participação de Ézio Filho no contrabaixo e percussão e oferece um momento para acalentar os corações aflitos com um voto de esperança.

Zélia pós-‘Pelespírito’

Sob a perspectiva de que toda obra lançada representa um parto, existem mudanças de comportamento e pensamento geradas a partir deste “nascimento”. Quando perguntada “Quem é Zélia depois de Pelespírito”, ela responde: “Junto com este lançamento, eu estou comemorando 40 anos de carreira. Acho que eu sou total uma sobrevivente da minha história, por vir de onde venho, por ser dessa comunidade LGBTQIA+, por ser mulher, cantora, não ter um artista na família pra me ajudar. 

Com a idade chegando, a gente vai tendo uma noção de tudo a que sobrevivemos. ‘Nossa, aquilo ali foi tão feio’, ‘nossa, ali foi por um triz, também’. Então agora, aos 56 anos, eu canto ‘tô por um fio dessa minha blusa’, e sei quantas vezes eu já estive por um fio. Zélia pós-Pelespírito é uma sobrevivente”.

Sobre as sequelas sociais da pandemia, Zélia diz com pesar que “todos mereciam ser sobreviventes desta situação. O meu disco entra neste contexto com a intenção de ser um espaço nosso: de compartilhar angústias, questionamentos, dúvidas, mas acima de tudo compartilharmos amor e o alívio de termos um ao outro”.



Zélia Duncan


ZÉLIA DUNCAN
"A voz que pede calma e bota a alma pra pensar"

Zélia Cristina Duncan Golçalves Moreira nasceu em 28/10/1964 em Niterói, RJ. Sua voz de timbre rouco e profundo é uma de suas marcas registradas mais famosas, inicialmente motivo de timidez na adolescência, mas depois transformado em seu maior diferencial. Transita com facilidade por diferentes gêneros musicais, como MPB, pop, rock, folk e samba. É uma voz atuante na defesa dos direitos LGBTQIAPN+, tendo se assumido lésbica na juventude, e posiciona-se frequentemente sobre temas culturais e sociais.
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Trajetória artística

Começou a cantar profissionalmente no início dos anos 80, e sua estréia como solista aconteceu em 1987 no Botanic, no Rio, quando ainda adotava o nome artístico Zélia Cristina. Em 1990 lançou pela Eldorado o LP "Outra Luz", mas, insatisfeita, passou um semestre nos Emirados Árabes, cantando em um hotel.

Voltou em 1992 e gravou uma faixa no songbook de Dorival Caymmi produzido pela editora Lumiar. Mudou o nome para Duncan (nome de solteira da mãe) e passou a ser incluída numa nova safra de cantoras que surgiu na década de 90, ao lado de Adriana Calcanhoto, Cássia Eller e Marisa Monte. 

Em 1994 saiu o CD "Zélia Duncan", incluindo o hit "Catedral" (versão do sucesso da cantora alemã Tanita Tikaram), que jogou os holofotes sobre a violonista, compositora e cantora de voz grave.

Em 1997 gravou "Intimidade", que a levou para uma temporada no Japão e Europa. No ano seguinte, é a vez de "Acesso", produzido por Christiaan Oyens, com maior teor folk e pop e com participações de Jacques Morelenbaum e do grupo Uakti.

Em 2004, Zélia lança "Eu Me Transformo Em Outras". Baseado no show homônimo, o disco traz interpretações da cantora que deixam de lado a marca pop que a consagrou para experimentar os caminhos do samba.

O álbum seguinte foi “Pré Pós Tudo Bossa Band”, lançado em 2005 pela Duncan Discos. A canção título, que abre o CD, é um composição de Zélia com Lenine. Além disso, o trabalho também traz parceria com Mart´nália, Moska, Pedro Luís, Beto Villares e Christiaan Oyens.

Em 2006, a cantora se uniu aos irmãos Serginho e Arnaldo Baptista e o baterista Dinho e saiu em turnê internacional na badalada volta dos Mutantes, substituindo os vocais que um dia foram de Rita Lee. O sucesso das apresentações na Europa foi tão grande, que Zélia foi convidada a integrar oficialmente a banda.

Em 2008, Zélia se une à cantora Simone para lançar o DVD ‘Amigo é casa’, projeto que Zélia leva paralelamente ao seu trabalho solo.

Em 2009, Zélia grava o CD ‘Pelo sabor do gesto’, muito bem recebido pela crítica e pelo público. Com esse trabalho recebe uma indicação ao Grammy Latino 2009 e ganha o prêmio de Melhor Cantora na categoria Pop/rock da 21o. edição do Prêmio de Música.


Em 2011 a cantora e compositora niteroiense completa 30 anos de carreira e para as comemorações deste ano tão especial, grava o DVD 'Pelo sabor do Gesto Em Cena' (indicado em 2012 ao Grammy Latino), e estreia o espetáculo ‘Totatiando’, inspirado na obra de Luiz Tatit e dirigido pela atriz Regina Braga.

Em 2012, Zélia começa a se despedir da turnê ‘Pelo sabor do gesto’. Em junho do mesmo ano, é convidada por José Maurício Machline a apresentar a 22ª edição do Prêmio de Música Brasileira, ao lado de Luana Piovani. Ainda em 2012, e paralelamente aos shows, Zélia gravou um CD apenas com músicas de Itamar Assumpção, ‘Zélia Duncan canta Itamar Assumpção Tudo Esclarecido’, lançado no final do ano pela Warner Music. No segundo semestre, Zélia volta a apresentar ‘Totatiando’ e mantém o espetáculo, aclamado pela crítica, em turnê pelo país.

Em 2013, venceu em duas categorias do Prêmio da Música Brasileira com o álbum ‘Zélia Duncan canta Itamar Assumpção Tudo Esclarecido’, que também ganhou edição em vinil.

2015 marca o relançamento do álbum "Eu Me Transformo Em Outras", em CD e DVD, e o lançamento do tão aguardado cd de sambas de Zélia, ambos pela gravadora Biscoito Fino. “Antes do Mundo Acabar” traz 14 sambas, sendo dez inéditos e nove com a assinatura de Zélia com parceiros. No mesmo ano, Zélia inaugura coluna semanal no jornal O Globo, um dos veículos de maior circulação nacional.

Em 2016, Zélia continua em cartaz com “Totatiando”, desta vez através do projeto Vivo EnCena, e sai em turnê com o show “Antes do Mundo Acabar” com apresentações pelo Brasil. Com o novo álbum, Zélia foi consagrada na 27ª edição do Prêmio da Música Brasileira com três prêmios, o de melhor canção (“Antes do Mundo Acabar”) e os de melhor álbum e melhor cantora na categoria de samba.

Paralelamente aos shows, Zélia começa uma incursão pelos palcos agora também como atriz ao aceitar o convite do diretor teatral Moacyr Góes para estrear o musical Alegria, Alegria em São Paulo em 2017. No ano seguinte atua na comédia “Mordidas”, do argentino Gonzalo de Maria, ao lado de Ana Beatriz Nogueira, Regina Braga e Luciana.

Zélia preparou uma turnê com os shows “O lado bom da solidão” (voz e violão) e “Invento+”, no qual interpreta Milton Nascimento acompanhada apenas pelo grande cellista Jaques Morelenbaum. Com este disco, Zélia ganhou o prêmio de melhor cantora de MPB na 29a. edição do Prêmio da Música Brasileira (2018).

Em 2019 a cantora e compositora preparou um novo disco autoral mais na linha pop/folk, "Todos É Um", com seu parceiro Christiaan Oyens na produção musical. Os dois juntos, são autores de muitos de seus maiores sucessos, como Não Vá Ainda, Nos Lençóis Desse Reagge, Enquanto Durmo e Sentidos.

"Pelespírito" chegou num momento tenso e intimista da compositora. Em meio aos dramas da humanidade causados pela pandemia (covid-19), somados aos descasos do governo vigente da época, esse álbum de estúdio foi lançado em maio de 2021 pela Universal Music, em parceria com o selo Duncan Discos. A parceria de composição e produção foi em conjunto com o músico e poeta pernambucano Juliano Holanda.

Seu último álbum, até então, "Agudo Grave" lançado em 2026, marca um novo momento de sua trajetória artística e reúne parcerias com nomes como Lucina, Maria Beraldo, Lenine, Zeca Baleiro, Juliano Holanda e Alberto Continentino. Nesse álbum conta com a colaboração da produtora Maria Beraldo, trazendo sua convivência com diferentes gerações da música brasileira e os caminhos que percorreu em mais de 45 anos de carreira. A artista mescla as composições com maturidade, envelhecimento, tecnologia e as transformações da indústria da música. 

Zélia Duncan continua revelando diferentes facetas e aproximando o público do universo criativo de uma das vozes mais importantes da música brasileira contemporânea.

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