Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
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quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Fim da Espécie ??


Uma Leitura Filosofante da Crise Atual

Estamos sob a energia destrutiva do caos, mas nele está germinando uma nova ordem.

Estão se fazendo as mais variadas análises das eleições brasileiras com a ascensão surpreendente da extrema direita, geralmente com categorias de uma sociologia integral. Elas são necessárias. Entretanto, a gravidade da crise brasileira, que é também planetária, é de tal envergadura que nos faltam categorias adequadas para entendê-la. Estimo que precisamos de uma ótica filosofante, pois se trata de ir às raízes para encontrar alguma luz esperançadora.

Parto da percepção generalizada de que o mundo assim como está não pode continuar. Há demasiadas e graves ameaças ao futuro da vida. A continuar, advertia Zygmunt Bauman, “vamos engrossar o cortejo dos que estão rumando na direção da vala comum”. Já antes, em 1930, escreveu Freud O Mal Estar da Cultura, concluindo, na última página, com esta frase sombria: ”Agora os homens avançaram tanto no domínio das forças da natureza que, com sua ajuda, será fácil exterminar uns aos outro até o último indivíduo” (Edição Vozes, 2026, p.129). Atualmente, com o arsenal destrutivo existente, acrescido pela IA autônoma, pode se tornar uma realidade. Há, pois, um mal estar coletivo no mundo, que encontra na ascensão trepidante do fascismo e da extrema direita no Brasil, especialmente nos EUA e alhures, sua inegável comprovação.

De minha parte, diria, como hipótese, que esta atmosfera inimiga da vida e da convivência fraterna entre os humanos e com a natureza deriva de uma radical decepção, que degenerou numa profunda depressão.

A decepção residiria no fracasso de todas as promessas feitas pelas grandes narrativas nos últimos séculos: o iluminismo, o capitalismo, o socialismo, as democracias, as tecnociências da comunicação (internet, Twitter, Facebook etc.) e a IA. As promessas não foram cumpridas.

A decepção generalizada redundou numa grande depressão coletiva: uma onda terrível de ódio, de raiva, de fake news e de violência está cobrindo o planeta e, em particular, o Brasil. A depressão nos rouba a alegria de viver.

Crises sempre houve e haverá em todas as culturas. A nossa é singular, por ser planetária. Haverá alguma luz na imensa obra de 12 tomos do historiador inglês Arnold Toynbee, A Study of History? Nela, ele mostra como as culturas surgem, se desenvolvem, chegam a seu ápice e morrem, substituídas por outras.

Maneja duas categorias básicas: desafio (challange) e resposta (response).Quando o desafio é de pouca monta, a civilização responde a ela e floresce. Quando o desafio é maior do que a sua capacidade de resposta, a civilização entra em crise, pode prolongar sua agonia, mas, no fim, desaparece. Essa é uma exposição simplificada de uma obra complexa e extremamente erudita. Talvez seu limite consista em não ter considerado a luta de classes, que, queiramos ou não, sempre ocorre em sociedades complexas. Agora, estamos sob a regência da incapacidade de resposta, pois o desafio ultrapassa esta nossa capacidade . Irrompe, então, a depressão.

Novo rumo, nova esperança.

Há alguma saída para esta enroscada? Ou chegou a nossa vez de encerrarmos o nosso ciclo dentro da cosmogênese e vamos desparecer? É notório que todos os seres que, depois de terem vivido por milhões de anos sobre este planeta, chegaram ao seu clímax e desapareceram. Também nós teríamos o mesmo destino? Deixo a questão em aberto, pois não nos parece improvável nem impossível, uma vez que já nos demos os meios de nos autodestruir.

Meu sentimento do mundo me diz que, quando desfalecem as utopias, mesmo as mínimas, de melhoria dentro do sistema imperante, só nos resta voltarmo-nos sobre nós mesmos. Somos uma fonte inesgotável de virtualidades e de uma capacidade ilimitada de relações e de criatividade. Apesar de sermos contraditórios, feitos de luz e de sombras (C. G. Jung), sapientes e dementes (E. Morin), (eros: vida) e (thánatos: morte, Freud) podemos potenciar de tal forma nossa positividade, capaz de definir um novo rumo e uma nova esperança.

Nesse sentido, é inspiradora a teoria do caos, formulada pelo russo-belga Ilya Prigogine (1917-2003), prêmio Nobel de Química em 1977 (Order Out of Chaos, 1948) e de Lorenz/Gleick. O universo se originou de um fantástico caos inicial (Big Bang). A evolução se fez e se faz para colocar ordem neste caos originário,criando ordens cada vez mais altas e complexas até irromperem no ser humano com inteligência, sentimento, amor e cuidado.

A natureza do caos é de ser destrutivo e generativo. Ele destrói uma ordem vigente que esgotou suas virtualidades, mas guarda dentro de si seminalmente uma nova ordem. Concluído o processo de destruição, irrompe a nova ordem. Ela inaugura uma outra história até que ela mesma se extenuar e mostrar-se caótica/destrutiva. Mas guarda dentro de si o novo a irromper.

Na atual fase histórica global, estamos sob a energia destrutiva do caos, mas dentro dele está germinando uma nova ordem, um novo mundo, que cremos será amigo da vida, da irmandade universal também com os seres na natureza, justo e terno, que permitirá melhor conviver e amar. Superaremos o caos destrutivo bolsonarista-fascista, expresso pela eleição no primeiro turno, pelo caos generativo de Luiz Inácio Lula da Silva , que, esperamos, triunfará para levar avante o projeto de inclusão dos pobres.

Então, não desesperemos. Esta leitura, que se propõe filosofante, pode nos infundir um renovado esperançar.

@REVISTA LIBERTA

Matéria: 10 de outubro de 2026
Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.



sábado, 29 de agosto de 2026

Pensamento: Democracia Socioecológica

Homenagem: José Lutzenberger, RS. 
Uma democracia socioecológica ou o ecossocialismo.

"É o que se impõe diante da responsabilidade pelo futuro comum da Terra e da Humanidade"

Com a crise geral das democracias e face aos ataques do fascismo e da extrema direita à la Donald Trump, estamos em busca de uma democracia enriquecida que atenda às mudanças ecológicas e geopolíticas que estão em curso. Especialmente a monetarização da política e a uberização da vida. Vale sempre o pressuposto básico de qualquer tipo de democracia: o que interessa a todos deve poder ser decidido por todos, seja diretamente, seja por representantes. Estamos em busca de um novo tipo de democracia.

Hoje está se impondo o projeto de uma democracia ecológico-social ou, na formulação de Michael Löwy (Ecossocialismo: Um Projeto de Civilização, 2025) e seu grupo, de um ecossocialismo. Essa compreensão nos obriga a superar um limite interno ao discurso clássico da democracia: o fato de ser ainda antropocêntrica e sociocêntrica, vale dizer, centrada apenas nos cidadãos e na sociedade. Eles são reducionistas, pois o ser humano não é um centro exclusivo, nem mesmo a sociedade, como se todos os demais seres somente ganhassem sentido enquanto ordenados a ele e à sociedade.

Ser humano e sociedade constituem um elo, entre outros, da corrente da vida. Sem as relações com a biosfera, com o meio ambiente e com as precondições físico-químicas, não existem nem subsistem. Elementos tão importantes devem ser incluídos em nossa compreensão de democracia contemporânea na era da conscientização ecológica e planetária segundo a qual natureza, ser humano e sociedade estão indissoluvelmente unidos de sorte que possuem um mesmo destino comum.

A perspectiva ecológico-social ou ecossocialista tem, ademais, o condão de inserir a democracia na lógica geral das coisas. Sabemos hoje pelas ciências da Terra e da vida que a lei básica que continua atuando na constituição do universo e de todos os ecossistemas é a cooperação, a sinergia, a simbiose e a relação de todos com todos em todos os momentos e circunstâncias. Mesmo a sobrevivência do mais apto pela seleção natural de Darwin, em parte válida no reino dos vivos, se inscreve dentro desta lei universal. Por ela se garante a diversidade e se inclui também o mais fraco, que, no jogo das inter-retro-relações, tem chances e direito de estar sobre a Terra.

A singularidade do ser humano consiste no fato de comparecer como ser de socialidade, de cooperação e de convivialidade, como bem viram os chilenos Maturana e Varela. Tal singularidade aparece melhor quando o comparamos com os símios superiores dos quais nos diferenciamos em apenas 1,6% da carga genética. Estes também possuem vida societária. Mas se orientam pela lógica da dominação e da hierarquização. Ao surgir o ser humano, há alguns milhões de anos, ao invés da competitividade e da subjugação, entra a funcionar a cooperação.

Esse 1,6% de ácidos nucléicos e de bases fosfatadas que nos diferenciam funda o humano enquanto humano, como ser de cooperação.

Ora, a social-democracia é o valor e o regime de convivência que melhor se adequa à ordem geral das coisas e da natureza humana cooperativa e societária. Aquilo que vem inscrito em sua natureza é transformado em projeto político-social consciente, fundamento da democracia: a cooperação e a solidariedade sem restrições. Realizar a democracia, da melhor forma que pudermos, significa avançar mais e mais para o reino do especificamente humano. Significa re-ligar-se também mais profundamente ao Todo e à Terra.

Gaia e Pacha Mama

Cosmólogos vêm afirmando com insistência que há de se entender a vida como um momento da história evolutiva do universo, quando a matéria, colocada longe de seu equilíbrio (caos generativo), se complexifica e se auto-organiza. A vida humana é um capítulo da história da vida. Como humanos, consoante o mito antigo do cuidado (que é da essência do humano), viemos do húmus (humus = homo); por isso, somos fundamentalmente Terra, que, em seu evoluir, chegou ao momento de sentir, de pensar, de amar e de venerar. Não vivemos apenas sobre a Terra. Somos a própria Terra que sente, pensa, ama e venera.

Em razão disso, notáveis astrofísicos e biólogos como Lovelock, Margullis, Sathouri, Swimme e Berry, juristas como Zaffaroni e ecologistas como o nosso José Lutzenberger, entre outros, sustentam que a Terra é um superorganismo vivo. Mostra tal equilíbrio em todos os seus elementos físico-químicos que somente um ser vivo pode revelar. Chamam-na de Gaia, nome mitológico dos gregos para sinalizar a Terra como vivente, ou Pacha Mama dos povos originários.

Se assim é, então, a Terra é portadora de subjetividade, de direitos e de relativa autonomia, tanto ela quanto os ecossistemas que a compõem. Há a dignitas Terrae, a dignidade da Terra que reclama respeito e cuidado.

Impõe-se uma ampliação da personalidade jurídica à Terra, às aguas e às florestas. Bem disse o pensador Michel Serres: “A Declaração dos Direitos do Homem teve o mérito de dizer ‘todos os homens têm direitos’ e o defeito de pensar ‘só os homens”. Os indígenas, os escravos e as mulheres tiveram que lutar para serem incluídos em ‘todos os homens”. E, hoje, esta luta inclui a inteira natureza com seus subsistemas, também sujeitos de direitos e, por isso, novos membros da sociedade ampliada.

Pelo fato de termos criado a ameaça de destruição da Terra-Gaia, com o antropoceno, necroceno e, ultimamente, pelo piroceno (queimadas em todo o planeta), não podemos mais excluí-la do novo pacto social planetário, base da sociedade mundial que queremos sócio-democrática ou ecossocialista.

Hobbes, Locke, Rouseau e Kant, em seu contrato social, davam por descontado o futuro da Terra, garantido pelas forças diretivas do universo. Hoje não é mais assim. Sem a Gaia, não há mais base para nenhum tipo de cidadania e de democracia. Se quisermos sobreviver juntos, a democracia tem de ser também biocracia, numa palavra, democracia ecológico-social ou ecossocial, que assume a preservação da Terra, incluindo-a no pacto social.

Foi em razão desta consciência que os movimentos do MST e da agroecologia estão desenvolvendo semelhante compreensão da social-democracia. Aí se trata de uma nova relação interativa do ser humano com a natureza na qual ambos se veem incluídos.

Uma cidade não vive apenas de cidadãos, instituições e serviços sociais. Nela vivem também paisagens, árvores, pássaros, animais, montanhas, pedras, águas, rios, lagos, mares, atmosfera, ar, estrelas no firmamento, o sol e a lua.

Sem tais realidades, morreríamos de solidão, como disse o sábio indígena Seattle, em 1854. São os novos cidadãos com os quais devemos aprender a conviver em harmonia. Faz-se mister uma educação ecológica para que os humanos aprendam a acolher todos os seres como concidadãos, no respeito, na justa relação e na irmandade universal. Eis o surgir da democracia ecológico-social e do ecossocialismo, enriquecimento necessário da democracia clássica em tempos de nova consciência ecológica, dos riscos da IA autônoma e de responsabilidade pelo futuro comum da Terra e da Humanidade.

Matéria:
29 Agosto 2026
REVISTALIBERTA

por: Leonardo Boff
Escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.


quarta-feira, 29 de abril de 2026

Educação: Sexualidade e a Plena Comunhão

Sexualidade: caminho para a não-dualidade e a plena comunhão.

Com ela e através dela, busca-se a união suprema entre os parceiros e o universo.

REVISTA LIBERTA
Leonardo Boff
25 abr 2026 - 05h00

Num artigo anterior, mostramos como o feminino é a fonte-matriz do masculino. É o caminho ocidental que usa a antropologia e a psicologia. Mas, com referência à mulher, Freud diz que ela é um ser inferior e Lacan acrescenta que ela não existe porque não pode ser definida. Esqueçamos estes laivos de machismo cultural atávico. Vamos ao olhar oriental, que é mais fecundo e menos preconceituoso.

A visão oriental da sexualidade segue outro caminho, diverso daquele ocidental. Desenvolve uma antropologia extremamente refinada. Exemplo: para a tradição do Yoga e do Tao, a sexualidade não é vista como algo em si mesmo. Ela é integrada num todo maior. Com ela e através dela, busca-se alcançar a experiência de não-dualidade, quer dizer, propiciar uma união suprema entre os parceiros e o universo.

A antropologia yoga trabalha com a realidade na kundalini, que se expressa pelos sete chacras (centros energéticos). Kundalini, em sânscrito, significa a energia da serpente cósmica: é aquela energia universal, que enche o universo todo, representada pelo dragão e pela serpente alada. Os cosmólogos modernos falam da energia de fundo ou o abismo gerador de todos os seres.
Energia vital

A kundalini, qual serpente, estaria enrolada dentro de cada um de nós, na parte inferior do corpo (no cóccix), com a cabeça erguida, pronta para fazer a sua trajetória. Na kundalini se concentra a energia vital da sexualidade.

Uma vez despertada, ela passa pelos muitos centros vitais, no sacro enrolada em si mesma na forma fogo; após, pelo chacra dos órgãos genitais e reprodutivos; passa ao chacra solar (umbigo), pelo qual entra a energia de todo o universo; daí vem o chacra do coração, que propicia a experiência do amor e da empatia; o chacra do pulmão, com o qual inspiramos e expiramos energia; depois, emerge o chacra frontal, entre os dois olhos, chamado também de terceiro olho, o qual nos permite ver a terceira margem da realidade, portanto, uma visão de totalidade; e, finalmente, o chacra da glândula pineal, no alto da cabeça, que nos concede uma experiência de totalidade e de comunhão com o Todo universal.

Na nossa cultura, entretanto, a kundalini ficou preferentemente fixada no chacra dos órgãos genitais, ligada àquela excitação erótica que desperta os sentidos, ejacula, realiza a descarga e relaxa. Se ficar nisso, se não passar pelos vários chacras, ela perde uma experiência da totalidade plenificadora e do amor profundo, fruto de uma entrega.

Afirma-se que o homem possui imensa dificuldade de uma entrega total, pois trata-se de uma experiência de morte. Ele a interrompe no meio. Ao não entregar-se, se priva da experiência mais completa. Em geral o homem se satisfaz, relaxa e dorme. A mulher se vira e chora, frustrada, porque não aconteceu a entrega total, não se fez o percurso pelos chacras, não se sentiu o amor real, não se deu o alargamento da consciência até chegar à superação da dualidade, pela qual ele e ela mergulham numa unidade profunda. Ela tem outro ritmo, que deve ser conhecido pelo parceiro: saber esperar e ajudá-la pela carícia essencial a chegar ao seu clímax. Então, relaxa.

Realizando-se esta compreensão mais integradora e holística, revela-se melhor o mistério que a sexualidade esconde, aquela dimensão ligada à reprodução da vida e, ao mesmo tempo, a que permite uma comunhão entre os dois com o todo que transcende a ambos.
Fluir natural

Outro é o caminho do Tantra, seja no hinduísmo ou no taoísmo. Tantra, em sânscrito, possui muitas definições. A mais significativa é a da urdidura, como se fossem fios fazendo a unidade do tecido. Diríamos, é o total entrosamento sexual do homem e da mulher, uma entrega sem freios, de forma que supera a dualidade homem-mulher e forma um todo. O homem se une tanto à mulher que se torna mulher, e a mulher se torna homem.

Normalmente, se entende mal o Tantra, como se fosse uma técnica de prolongamento da relação sexual. O sentido do Tantra é totalmente outro. Afirma a sexualidade que é inata e vulcânica. Mas ela não se basta a si mesma. Ela é o caminho daquilo que, talvez, seja o mais difícil para os humanos: a total entrega e uma radical experiência de sua bioenergia em seu fluir natural.

Em primeiro lugar, exige-se um relaxamento completo, sem visar a um fim a ser alcançado. Em seguida. homem e mulher se relacionam sexualmente não buscando a ejaculação ou o clímax. Ao contrário, supõe em ambos completo autocontrole da capacidade sexual.

Cada um, totalmente relaxado, esquecendo-se de tudo e de todos, se concentra totalmente no outro ao fluir da energia sexual. Vai irrompendo, lentamente, tal unidade entre eles, que se tornam um, vale dizer, superam a tão ansiada não-dualidade. É um êxtase, a suprema realização humana. O abraço profundo pode durar horas e horas, sem ejacular ou chegar ao clímax. O resultado final é um radical relaxamento e a experiência de uma unidade total entre ambos, incluindo todas as coisas. Vive-se um arrebatamento que perdura vários dias, tal é a radicalidade desta uni-fic-ação (cf. Bhagawan Shree Rajneesh,Tantra: Sexo e Espiritualidade, Agora, São Paulo 1977).

Como se depreende, a sexualidade, seja no Yoga ou no Tantra, possui seu lado instintivo e, ao mesmo tempo, ao nível da consciência, torna-se um caminho da mais alta comunhão, isto é, alcançando a não-dualidade. Não sem razão, da sexualidade se origina o bem maior, a vida humana em suas várias expressões. Ela é a natural e sagrada fonte de espiritualidade e experiência do Divino.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Ciência e Sociedade: O fim do princípio Adão

O fim do princípio-Adão: 
o feminino é anterior ao masculino
"A vida é feita mais de cooperação e simbiose do que de luta competitiva"


Leonardo Boff
Em: 11 de abril de 2026

Texto dedicado às bravas mulheres e meninas da comunidade ICL

A vida já existe na Terra há 3,8 bilhões de anos. O antepassado comum de todos os viventes foi, provavelmente, uma bactéria unicelular sem núcleo, que se multiplicava espantosamente por divisão interna ou por clonagem. Na clonagem, se não houver controle sobre a bactéria, em três dias ela toma conta do planeta, tal é sua vontade de vida e de automultiplicação. Mas sempre prevalece um equilíbrio que autolimita este processo, caso contrário, teríamos graves desequilíbrios ecológicos, a ponto de a vida se tornar impossível. Isso durou cerca de um bilhão de anos.

Em seguida, surgiu uma célula com membrana e dois núcleos, dentro dos quais se encontravam os cromossomos. Nela se identifica a origem do sexo. Quando ocorria a troca de núcleos entre duas células binucleadas, gerava-se um único núcleo com os cromossomos em pares. Antes, as células se subdividiam por clonagem, agora, se dá pela troca entre duas células diferentes com seus núcleos. Revela-se, assim, a simbiose – composição de diferentes elementos –, que, junto com a seleção natural, representa uma (não a única) das forças importantes da evolução.

Princípio da Interdependência

O que muitos biólogos sustentam – inclusive, o astrofísico Stephen Hawking, em seu livro O Universo numa Casca de Noz (Mandarim, São Paulo 2001) – é que, na evolução e no processo biogênico, não há simplesmente o triunfo do mais adaptável, como pretendia Darwin. Tal visão é ainda insuficiente, pois não toma em conta as interdependências existentes entre todos os seres, já no seu nível físico-químico, bem antes do surgimento da vida. É essa interdependência, a cooperação de todos com todos, que constitui a linha mestra do processo evolucionário.

A competição com a chance de o mais adaptável triunfar só é possível no interior da interdependência e cooperação universal. O fraco também possui a sua chance e o seu lugar e, graças à interdependência, sobrevive. Este princípio originário da interdependência de todos com todos funda a sustentabilidade e explica a biodiversidade e a pujança da vida.

Christian de Duve, Prêmio Nobel de Medicina, chega a dizer em seu conhecido livro Poeira Vital: A Vida Como Imperativo Cósmico (Campus 1997) : “A vida é como uma praga tão violenta que jamais se conseguiu exterminá-la” (p. 368). Ocorreram na história da Terra 15 grandes dizimações de espécies vivas, mas ela, a Terra viva, conseguiu sempre refazer a biodiversidade e ainda enriquecê-la.

Quando surgiu a sexualidade, com a bipolaridade masculino/feminino, veio junto a grande diversidade e a singularidade dos seres vivos. A troca do material genético se dá sempre sob um quociente quântico, isto é, sempre está vigente o princípio de indeterminação de Werner Heisenberg. Não se sabe exatamente o que resulta das conjunções e que enriquecimentos ocorrem a partir dos dois tipos de capital genético, do feminino e do masculino.

Tal fato tem consequências filosóficas: a vida é tecida mais de trocas, de cooperação e de simbiose do que da luta competitiva pela sobrevivência e pela concorrência, como no nível dos negócios.

Quando se alcança o nível consciente e livre, essa riqueza e essa troca passam da dimensão da exterioridade biológica para a da interioridade subjetiva, vale dizer, para o projeto pessoal. A sexualidade pode se transformar num propósito de vida, vivido a dois e em liberdade, expresso pelo amor. Esta opção não é mais regida pelo código genético que a biologia descreve. Aqui valem outros princípios ligados à inovação, à liberdade, à cooperação consciente, ao cuidado, ao amor sobre os quais se estruturam relações novas, criativas e livres também entre homem com homem ou mulher com mulher.

Retomando o fio da meada: nos dois primeiros bilhões de anos, nos oceanos ou nos lagos, de onde irrompeu a vida, não existiam órgãos sexuais específicos. Havia uma existência feminina generalizada, que, no grande útero dos oceanos, lagos e rios, gerava vidas. Nesse sentido, podemos dizer que o princípio e originário é o princípio feminino, e não o masculino. Assim, se invalida o mito bíblico e cultural da primazia de Adão (do masculino).

Só quando os seres vivos deixaram o mar, lentamente, foi surgindo o pênis, algo masculino, que, tocando a célula fêmea, passava a ela parte de seu DNA, onde estão os genes.

Com o aparecimento dos vertebrados, os répteis, há 370 milhões de anos, estes criaram o ovo amniótico cheio de nutrientes e consolidaram a vida em terra firme. Com o surgimento dos mamíferos, há cerca de 125 milhões de anos, já despontou uma sexualidade definida de macho e fêmea. Aí emerge o cuidado, o amor e a proteção da cria. Há 70 milhões de anos, apareceu o nosso ancestral humano, que vivia na copa das árvores, nutrindo-se de brotos e de flores. Com o desaparecimento dos dinossauros, há 67 milhões de anos, ele pôde ganhar o chão e se desenvolver chegando até os dias de hoje.

Dimensão Ontológica

Cabe detalhar melhor a complexidade implicada na sexualidade.

O sexo genético-celular humano apresenta o seguinte quadro: a mulher se caracteriza por 22 pares de cromossomos somáticos mais dois cromossomos X (XX). O homem possui também 22 pares, mas com apenas um cromossomo X e outro Y (XY). Daí se depreende que o sexo-base é feminino (XX), sendo que o masculino (XY) representa uma derivação dele por um único cromossomo (Y). Portanto, não há um sexo absoluto, apenas um dominante. Em cada um de nós, homens e mulheres, existe “um segundo sexo”.

Com referência ao sexo genital-gonadal, importa reter que, nas primeiras semanas, o embrião apresenta-se andrógino, vale dizer, possui ambas as possibilidades sexuais, feminina ou masculina. A partir da oitava semana, se um cromossomo masculino Y penetrar no óvulo feminino, mediante o hormônio androgênio, a definição sexual será masculina. Se nada ocorrer, prevalece a base comum, feminina.

Em termos do sexo genital-gonadal, podemos dizer: o caminho feminino é primordial. A partir do feminino se dá a diferenciação, o que desautoriza o fantasioso “princípio-Adão”. A rota do masculino é uma modificação da matriz feminina, por causa da secreção do androgênio.

Existe ainda o sexo hormonal. Todas as glândulas sexuais no homem e na mulher são comandadas pela hipófise, sexualmente neutra, e pelo hipotálamo, que é sexuado. Estas glândulas secretam no homem e na mulher os dois hormônios: o androgênio (masculino) e o estrogênio (feminino). São responsáveis pelas características secundárias da sexualidade.

A predominância de um ou de outro hormônio produzirá uma configuração e um comportamento com características femininas ou masculinas. Se no homem houver uma impregnação maior do estrogênio, terá alguns traços femininos; o mesmo se dá com a mulher com referência ao androgênio, aparecendo alguns traços masculinos.

Por fim, importa dizer que a sexualidade possui uma dimensão ontológica. Quer dizer, o ser humano não possui sexo. Ele é sexuado em todas as suas dimensões, corporais, mentais e espirituais. Antes da emergência da sexualidade, o mundo é dos mesmos e dos idênticos. Com a sexualidade, emerge a diferenciação pela troca entre diferentes. São diferentes para poderem estabelecer laços de convivência e de inter-relação.

Tal fato tem consequências antropológicas: a vida é tecida mais de trocas, de cooperação e de simbiose do que da luta competitiva pela sobrevivência.

É o que ocorre com a sexualidade humana: cada um, além da força instintiva que sente em si, sente também a necessidade racional-afetiva de canalizar e sublimar tal força. Quer amar e ser amado, não por imposição, mas por liberdade.

A sexualidade desabrocha no amor, a força mais poderosa “que move o céu e as estrelas” (Dante) e também nossos corações. É a suprema realização que o ser humano pode almejar. Mas, retenhamos: o feminino é anterior, ele surge primeiro e é básico. O masculino só veio muito mais tarde no processo da sexogênese. Porém, ambos se encontram para compor a unidade diversificada da espécie humana, de mulher e de homem.

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Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.



sábado, 28 de março de 2026

Meio Ambiente: Só depende de Nós!

Noite Estrelada - Van Gogh (1889).

Depende de nós impedir que as atuais crises virem tragédias.

"Não tememos a noite sombria de nosso tempo porque amamos as estrelas"

São muitos , atualmente, que perderam a esperança de que, no quadro atual sinistro, tenhamos ainda algum futuro. Há demasiada maldade, genocídio a céu aberto e vergonhosamente feito por aqueles que o praticam, Israel e os Estados Unidos da América, ainda escandalosamente apoiados por alguns países europeus, nomeadamente pela Alemanha, esquecida do holocausto nazista.

Assistimos, estarrecidos, a uma grande nação, aquela que dispõe de mais meios de destruição em massa e até de aniquilação da vida sobre a Terra, a Rússia, arrasar uma nação vizinha com grandes tradições culturais e os famosos e sábios contos rabínicos, a Ucrânia. Terrível está sendo a guerra dos USA e Israel contra o Irã, destruindo uma das civilizações mais antigas, com uma ferocidade que não escolhe seus alvos, tudo é atacado, incluindo escolas de meninas.

Acresce ainda a absurda acumulação de fortunas em pouquíssimas mãos, pois, oito pessoas possuem, individualmente, a riqueza equivalente ao que possuem 4,7 bilhões de pessoas. Nestes, não se nota nenhuma sensibilidade humana face a seus semelhantes, tratando-os como zeros econômicos, descartáveis e considerados sub-humanos: os milhões que vivem nas periferias das grandes cidades do Norte Global (só nos EUA, vivem 30 milhões de pobres) e enchem, aos milhões, as metrópoles do Sul Global.

Abstenho-me de referir à grave ameaça da Sobrecarga da Terra, com severos limites da produção de bens e serviços que sustentam a vida (precisamos hoje já de 1,7 Terras). Nem mesmo do crescente aquecimento global do planeta que, se até 2030-2035, não for detido no máximo de crescimento de 1,5ºC, com referência à era industrial (1850-1900), causará uma inexorável dizimação de vidas na natureza e na humanidade.

Como ainda ter esperança num drama destas proporções? Entendemos as preocupações de analistas do curso do mundo que dizem: não é impossível que tenha chegado a nossa vez de desaparecer do processo da evolução, como centenas e centenas de espécies já desapareceram.

Por isso, sou pessimista, porque a realidade é péssima. No entanto, me declaro um pessimista esperançoso. Esperançoso porque, se somos Terra que sente, pensa, ama e venera, temos a resiliência que a Terra mostrou nas 15 dizimações de vidas que sofreu ao longo de sua história de 4,5 bilhões de anos. A vida nunca sucumbiu. Depois de cada dizimação, atestam vários historiadores da vida Terra, como Christian de Duve (Poeira Cósmica: A Vida como Imperativo Cósmico, 1995), ela, como que se vingando, produziu uma biodiversidade maior do que aquela que foi ceifada.

Como dizia o poeta alemão Friedrich Hölderin: “Lá onde há perigo, cresce também o que salva” (“wo aber Gefahr ist, wächst auch das Rettende”). O nosso perigo é inegável. Mas, considerando que o ser humano é um projeto infinito, dotado de mil virtualidades, ele saberá face ao grande perigo forjar chances de salvação.

Sabidamente, a história da vida não é linear. Ela dá saltos. O improvável pode se fazer provável. E o inesperado pode acontecer. Era seguramente improvável que um negro, Barack Obama, dada a discriminação que sempre sofreu pelos supremacistas brancos, chegasse à presidência dos EUA. E chegou. Quem poderia imaginar que, numa sociedade machista como a brasileira, uma mulher se tornasse presidenta do Brasil, Dilma Rousseff? E chegou.
Seres cooperativos e sensíveis

Tenho a convicção que animava o paleontólogo e místico Pierre Teilhard de Chardin de que a humanidade, num momento grave de sua história, especialmente sabendo que poderá se autodestruir, cairia em si e se daria conta de seu lugar no conjunto dos seres e de sua responsabilidade pelo futuro da vida. Daria um salto quântico em sua consciência e definiria um outro rumo à sua história. Far-se-ia a guardiã e a cuidadora de sua sagrada herança, a Terra, e de todos os seus ecossistemas com os seres que neles habitam. Perceberia que é parte e parcela da natureza, confraternizada com os demais irmãos e irmãs nela presentes. Amaria e ornaria a Casa Comum na qual todos caberiam com suas diferenças, mas numa profunda unidade.

Isso está dentro das possibilidades humanas. Somos seres naturalmente cooperativos e sensíveis face aos mais vulneráveis. Em nosso profundo, como dado objetivo, atestado pela new science, somos seres espirituais, capazes de identificar aquela Energia de Fundo (Aquele Ser que faz ser todos os seres) que tudo penetra e sustenta. James Watson comprovou que, em nosso DNA, está o amor, a força maior do universo (DNA: O Segredo da Vida, 2005). Com todas estas positividades, vamos ainda fazer uma dolorosa travessia até chegarmos a uma forma amorosa e fraterna de convivência.

Não estamos diante de uma tragédia anunciada, mas no coração de uma crise de nossos fundamentos, que vai nos acrisolar, purificar e permitir um salto, habitando um mundo que, juntos, podemos fazer existir sustentavelmente. Depende de nós impedir que as atuais crises virem tragédias.

Por isso, não tememos a noite sombria de nosso tempo, porque amamos as estrelas, nossas irmãs. Esperamos a aurora que se anuncia.

Matéria escrita, 28 março de 2026.
@Revista Liberta

Leonardo Boff
Escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.


sábado, 27 de dezembro de 2025

Meio Ambiente: Leonardo Boff

O Natal e a ecologia profunda.
A tradição cristã viu o nascimento do Filho de Deus cercado de elementos ecológicos.


27 dez 2025

A ecologia é mais do que uma técnica de gerenciamento de bens e serviços naturais cada vez mais escassos. Tão escassos que a Mãe Terra se sente extenuada, pois o consumo humano mais aquele da natureza estão exigindo uma Terra e meia para atender a todas as demandas. Por isso, nós, humanos, devemos nos preparar para reinventar um outro caminho, se quisermos garantir um futuro para o nosso tipo de civilização.

Nem por isso deixaremos de fazer uma referência entre o Natal e a ecologia. Esta é mais do que o meio ambiente a ser urgentemente preservado. Ela possui uma dimensão do Profundo em nós.

A tradição cristã viu o nascimento do Filho de Deus, Jesus de Nazaré, cercado de elementos ecológicos: nasceu numa estrebaria, colocado sobre palhinhas e junto a um boi e um jumento (que, segundo certos relatos, aqueciam o Menino com seu bafo), com ovelhas distribuídas no campo. Há ainda uma estrela que iluminou a noite dos pastores e guiou os sábios vindos do Oriente.

Há um texto de grande beleza, que é cantado na liturgia de Natal, o qual mostra uma comoção cósmica, significando a entrada do Filho de Deus em nosso mundo. Quando tudo estava em profundo silêncio e a noite no meio de seu curso, eis o que aconteceu:

Então, as folhas que farfalhavam pararam como mortas.

Então, o vento que sussurrava ficou parado no ar.

Então, o galo que cantava parou no meio de seu canto.

Então, as águas do riacho que corriam se estancaram.

Então, as ovelhas que pastavam ficaram imóveis.

Então, o pastor que erguia o cajado ficou petrificado.

Então, nesse momento, tudo parou, tudo silenciou, tudo se suspendeu:

Nasceu Jesus, o salvador do mundo e do universo.

Como se depreende, as coisas não ficaram indiferentes à inserção do Divino em nossa história. Elas se prepararam, silentes, para recebê-lo.

Flor de Natal

Contam-se também histórias comoventes, como esta que surgiu entre os cristãos do México, pois lá existe uma flor chamada de Bico de Papagaio ou Espírito Santo. Ela possui folhas menores verdes e outras maiores vermelhas. Ela é associada ao Natal por causa da história que contarei a seguir, que possui seu lado ecológico.

Uma senhora pobre queria dar um presente ao Menino Jesus. Mas era tão pobre que não tinha nada para oferecer. Em sua simplicidade, colheu uma plantinha junto à estrada e levou-a até ele. Colheu a plantinha e foi, alegre, oferecê-la ao Menino Jesus no presépio. As pessoas que estavam perto começaram a rir da pobre senhora. Ela ficou tão envergonhada que começou a chorar.

As lágrimas cairam sobre as folhas verdes, que se transformaram em vermelhas. Por isso, esta planta é chamada Flor de Natal. E, de fato, assim é: quando exposta ao sol, fica verde; na sombra, torna-se vermelha, de um vermelho irradiante, que, em muitos lugares, cerca todo o presépio.

É comum que o grande aeroporto da cidade do México, na época de Natal, seja totalmente ornamentado com esta flor vermelha.

O Menino Jesus no presépio nos recorda ainda que todos nós, um dia, fomos crianças e que carregamos esta criança dentro de nós pela vida afora. A criança simboliza a vida nova, a inocência, a transparência, um novo começo. Sempre estamos às voltas com essas coisas: queremos ter uma vida saudável, podermos sempre de novo recomeçar e viver criativos e livres, como livres e criativas são as crianças. Não esqueçamos esta criança (dives puer) que ainda vive dentro de nós.

O Poeta Fernando Pessoa (Foto: Reprodução)

Mas a verdade mais profunda que o Natal nos quer transmitir, talvez, seja esta: Deus não veio para divinizar o ser humano, mas veio para humanizar o Deus que ninguém jamais viu, como atestam todas as Escrituras. Agora, Ele se manifestou em nossa carne frágil, mortal e quente. Se Jesus é o Deus que se humanizou, isto significa que há uma porção de Deus dentro de cada um de nós. Jesus é nosso irmão. E, como irmãos, somos também filhos e filhas de Deus. Poderia haver dignidade maior do que ser filho e filha de Deus e pertencer à família divina?

Neste contexto, cabe citar um tópico do poeta português Fernando Pessoa, que escreveu, talvez, um dos mais belos poemas sobre o Natal na literatura universal:

Ele é a Eterna Criança, o Deus que faltava.

Ele é o humano que é natural,

Ele é o divino que sorri e que brinca.

É por isso que eu sei com toda a certeza

Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

É a criança tão humana que é divina.

……..

Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro de tua casa.

Despe meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.

Depois destes tocantes versos, não cabem mais palavras. Apenas reafirmarmos que, depois que Deus se fez um de nós, não temos mais motivos de viver tristes. Não estamos mais sós. Ele caminha conosco em nosso próprio caminhar.

Leonardo Boff
Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.



terça-feira, 9 de dezembro de 2025

CIÊNCIA: A VIDA

A vida, o maior dom da cosmogênese.
Há 3,8 bilhões de anos, aconteceu algo portentoso: a irrupção da vida

O que é a vida e donde ela veio constitui uma questão permanente de cada ser humano e de cada geração durante toda a nossa história. Hoje, com os avanços da nova cosmologia, melhor, da cosmogênese (porque o universo se encontra ainda em nascimento e em expansão), dito mais simplesmente das ciências da Terra e da vida, sabemos que a expansão, a auto-organização, a complexificação e a emergência de ordens cada vez mais emaranhadas são características do Universo.

Detritos da explosão de uma estrela anã branca (foto, NASA)

E a vida?

Não sabemos exatamente como surgiu. O que podemos dizer é que a Terra e o inteiro Universo trabalharam bilhões e bilhões de anos para criar as condições do nascimento desta belíssima criança, que é a vida. É frágil, porque pode facilmente adoecer e morrer. Mas também é forte, porque nada até hoje – nem os vulcões, nem os terremotos, nem os meteoros, nem as dizimações em massa em eras passadas – conseguiu extingui-la totalmente.

De forma jocosa, dizia o grande biólogo E. Wilson que a vida é como “uma praga que jamais foi destruída e, parece, nunca poderá ser”.

Para que surgisse a vida foi preciso que o Universo fosse dotado de três qualidades: ordem, gerada do interior do caos; complexidade, oriunda de seres simples; e informação, originada pelas conexões de todos com todos. Mas faltava ainda um dado: a criação dos tijolinhos com os quais se constrói a casa da vida.

Esses tijolinhos foram forjados dentro do coração das grandes estrelas vermelhas, que arderam por vários bilhões de anos. São os ácidos químicos e demais elementos que permitem todas as combinações e todas as transformações. Assim, não há vida sem que haja a presença do carbono, do hidrogênio, do oxigênio, do nitrogênio, do ferro, do fósforo e dos 92 ou mais elementos da escala periódica de Mendeleiev (1834-1907).

Quando esses vários elementos se unem, formam o que chamamos de molécula, a menor porção de matéria viva. A união com outras moléculas criou os organismos e os órgãos, que constituem os seres vivos, das bactérias aos seres humanos.

Ordem a partir do caos.


Foi mérito de Ilya Prigogine, prêmio Nobel de química de 1977, ter mostrado que a vida resulta da dinâmica da auto-organização intrínseca do próprio universo, quando colocado fora do equilíbrio (Order out of Chaos, 1984), vale dizer, em situação de caos destritivo no interior do qual se forma o caos generativo.

Revelou também que existe uma fábrica que produz continuamente a vida. O motor central desta fábrica da vida é formado por um conjunto de 20 aminoácidos e quatro bases nitrogenadas. Ganhou o prêmio Nobel em 1977.

Os aminoácidos são um conglomerado de ácidos que, combinados, permitem surgir a vida. Eles se compõem de quatro bases de nitrogênio, que funcionam como uma espécie de quatro tipos de cimento, os quais unem os tijolinhos, formando construções, as mais diversificadas. É a biodiversidade.

Temos, portanto, o mesmo código genético de base criando a unidade sagrada da vida, dos microrganimos até os seres humanos. Todos somos, de fato, primos e primas, irmãos e irmãs, como afirmou o Papa Francisco em sua encíclica sobre a ecologia integral Laudato Sì: Sobre o Cuidado da Casa Comum (2015)) e a outra, Fratelli Tutti (2020), porque somos formados pelos mesmos 20 aminoácidos e as quatro bases nitrogenadas (adenina, timina, guanina e citosina).

Mas faltava um berço que acolhesse a vida: a atmosfera e a biosfera (em parte, criada pelo próprios seres vivos) com todos os elementos essenciais para a vida: o carbono, o oxigênio, o metano, o ácido sulfúrico, o nitrogênio e outros.

Dadas estas pré-condições, eis que, há 3,8 bilhões de anos, aconteceu algo portentoso. Possivelmente do mar ou de um brejo primitivo, onde borbulhavam todos os elementos como uma espécie de sopa, de repente, sob a ação de uma poderosa energia relampejante vinda do céu, irrompeu a vida.

Misteriosamente, ela está aí já há 3,8 bilhões de anos. No minúsculo planeta Terra, num sistema solar de quinta grandeza, dentro da galáxia espiral, Via Láctea, num canto dessa galáxia, a 29 mil anos luz do centro dela, aconteceu o fato mais importante da evolução: a irrupção da vida.

Ela é a mãe originária de todos os viventes, a Eva verdadeira. Dela descendem todos os demais seres vivos, também nós humanos, um subcapítulo do capítulo da vida: a nossa vida consciente.

Por fim, ouso dizer com o biólogo (também ganhador do Prêmio Nobel) Christian de Duve e o cosmólogo Brian Swimme que o “Universo seria incompleto sem a vida” (The Unverse Story: from the Primordial Flaring Florth to the Ecozoic Era, N.Y.1992). Sempre que se atinge certo nível de complexidade, a vida surge como um imperativo cósmico, em qualquer parte do Universo, tese central de Christian de Duve em seu livro, talvez o melhor sobre a história da vida, Poeira Vital: A vida Como Imperativo Cósmico (Objetiva 1995).

Portanto, a vida não seria um dom exclusivo, doado ao planeta Terra pelo universo em sua expansão e complexificação. Ela ocorre em todo o universo, sempre que se criam as condicionalidades referidas acima. Então, a vida irrompe imperativamente.

Assim, devemos superar a ideia comum de que o universo é uma coisa meramente física e morta, com pitadinhas de vida para completar o quadro. Essa é uma compreensão pobre e redutivista.

O universo parece estar cheio de vida e é em função disso que ele existe, como o berço acolhedor da vida, especialmente da vida inteligente, como a nossa e a de outras em possíveis universos paralelos, consoante a teoria das cordas.

A vida é para ser celebrada, cuidada como a emergência mais alta da cosmogênese e o dom mais precioso que recebemos.

Com o cosmólogo Mark Hathawy, Leonardo Boff escreveu “O Tao da Libertação: Explorando uma Ecologia da Transformação” (Orbis 2010,) livro ganhador da medalha de ouro, em 2010, nos Estados Unidos, em nova ciência e cosmologia.


Leonardo Boff

Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.


domingo, 16 de novembro de 2025

Meio Ambiente: Salvar A Casa Comum

Salvar a Casa Comum

Cuidar da humanidade e garantir um futuro para a vida.

Se faz urgente uma ética do cuidado, da compaixão e da solidariedade.


A COP30 se propõe a diminuir a emissão de gazes de efeito estufa, sustar o desmatamento e reflorestar as áreas degradadas, além de buscar energias alternativas. As grandes pressões exercidas por um número crescente de lobbies do petróleo, do carvão, do gás e do agronegócio – como de outras vezes – impedem o consenso necessário e freiam decisões transformadoras.

Ademais, a questão séria mesmo é verificar se o aquecimento mundial firmou-se acima 1,5ºC – em 2024, chegou a 1,7ºC e, em alguns lugares, a 2ºC. Se isso se confirmar, estaríamos num caminho sem retorno, segundo vários especialistas. O aquecimento cresceria mais e mais. Foi constatado que o limite estabelecido de 1,5ºC até 2030 pelo Acordo de Paris de 2015 já foi antecipado e, assim, ultrapassado. As consequências na natureza e na humanidade podem ser altamente desastrosas.

Crise ecológica

Já em 2003, a Carta da Terra assumida pela ONU (um dos documentos mais fundamentais sobre o estado da Terra) advertia: “A escolha é nossa: ou formar uma aliança global para cuidar da Terra e cuidar uns dos outros ou arriscar a nossa destruição e a destruição da diversidade da vida”. E o Papa Francisco, na Carta Encíclica Fratelli tutti (2020), igualmente, admoestava: ”Estamos no mesmo barco: ou nos salvamos todos ou ninguém se salva” (nº 34).

Portanto, esse tema fundamental não consta na agenda da COP30: salvar a Casa Comum, cuidar da humanidade e garantir um futuro para a vida. Esta é a questão stantis et cadentis: inescapável.

No entanto, apesar de poderosos negacionistas como Donald Trump, cresce a consciência de que só temos uma única Casa Comum, o planeta Terra. Formamos, como espécie, uma única humanidade. Temos um destino comum, Terra, humanidade. Precisamos incorporar a visão que os astronautas nos legaram: vista da Lua ou das naves espaciais, não há diferença entre Terra e humanidade. Formamos uma única entidade complexa. Como humanos, somos aquela porção da Terra que sente, pensa, ama, cuida e venera.

Como sair dessa crise estrutural, planetária e paradigmática?

Uma coisa, para muitos, é indubitável: dentro do sistema capitalista e da cultura de consumo que ele criou, não há solução para a crise ecológica. Ou mudamos de paradigma e de rumo ou, como asseverou Zygmunt Bauman: “Vamos engrossar o cortejo dos que caminham na direção da vala comum”.
Equilíbrio perdido

Em primeiro lugar, devemos abandonar o paradigma da modernidade que afirmava o ser humano fora e acima da natureza, sentindo-se “dono e senhor” (dominus), em direção ao paradigma que sustenta o ser humano como parte da natureza e irmão (frater) de todos os demais seres, especialmente, de seus semelhantes humanos.

Em seguida, importa resgatar a importância do cérebro límbico, surgido com os mamíferos há mais de 100 milhões de anos. Nele, reside o afeto, o amor, a empatia, a cooperação. Nós, seres humanos, somos mamíferos racionais de afetividade, que amam e cuidam dos seres que geram. O cérebro neocortical, da razão instrumental-analítica, irrompeu há cerca de 8-9 milhões de anos.

Ocorre que, na cultura vigente, se recalcou a afetividade e a empatia em favor da dominação quase absoluta da razão intelectual-analítica, operando uma espécie de lobotomia em nós. Importa enriquecer esta razão (neocortex) com a inteligência cordial (cérebro límbico) para refazer o equilíbrio perdido. E estabelecer um laço de amor à Terra.

Depois, importa dar centralidade à vida em função da qual estão a política, a economia e a cultura. Nosso sistema produz morte da natureza e de milhões de seres humanos. Por isso, é imperioso denunciar todos os sistemas que dizimam ecossistemas e produzem miséria.

Insistir no fato de que a paz só será possível se for superada a injustiça social mundial, o que só será possível se houver mais equidade em todas as relações. A paz, além de fruto da justiça socioambiental, resulta do cuidado que a humanidade cultiva de uns para com os outros e com a natureza.

Face à falta de sustentabilidade da sociedade mundial e da natureza, se faz urgente uma ética do cuidado, da compaixão, da responsabilidade e da solidariedade. O cuidado pertence à essência da vida e do humano. Ele é a precondição para que emerja a vida. É o norteador antecipado de todo o comportamento para que seja benfazejo para a vida e para os outros, e não destrutivo. É uma atitude amorosa que dá segurança e proteção à Casa Comum.

Dimensão espiritual

Uma ética sozinha não dá conta dos problemas mundiais. Assim como uma estrela não brilha sem uma aura, assim uma ética não será assumida se não estiver imbuída de espiritualidade.

A espiritualidade não é monopólio das religiões. Como se impõe mais e mais pela new science (cosmogênesis, neurociências, biologia genética), a espiritualidade é natural e pertence à essência de nossa humanidade. Dela nascem as religiões, mas não se identifica com elas. Manifesta-se pelos valores intangíveis, como o amor, a empatia, compaixão e o contentamento.

Esses valores e motivações vão além dos interesses pessoais e coletivos e se ancoram no caráter precioso da realidade, na gratuidade do bem e na abertura ao Todo. Pela espiritualidade se capta aquela energia poderosa e amorosa (Energia de Fundo), que subjaz e sustenta todos os seres. Não a dominamos, mas podemos abrir-nos a ela e tornar nossa existência mais apetecida, feliz e amiga da vida.

A dimensão espiritual é despertada quando resgatamos o princípio feminino, presente no homem e na mulher. Durante séculos, foi recalcado ou tornado invisível socialmente. O princípio feminino é aquela energia que nos faz sensíveis aos valores da interioridade, da gratuidade, do cuidado, da vida e da comunhão, e que nos faz captar as mensagens vindas da realidade, que nos permite entender os símbolos e nos abre para o mistério da vida e do sagrado.

Durante séculos, temos vivido sob a dominação do masculino (presente no homem e na mulher), que responde pela razão analítica, pelo uso do poder e pela conquista do mundo exterior. Hoje, ambos os princípios devem ser integrados, mas a partir do polo que a nossa cultura menos cultivou, que é o feminino. Então, teremos uma experiência mais completa e integral do ser humano, homem e mulher.

Por fim, devemos ser, na bela expressão do ecologista Roberto Malvezzi, “como os peixes da piracema, que só desovam nadando contra a corrente (o atual sistema) e assim reproduzindo a vida”.

Leonardo Boff
Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.



sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Meio Ambiente: COP 30 BELÉM

COP 30 BELÉM

Pará, Amazônia 
- 2025 -

Adaptação sem prevenção: risco de capitulação?

Temos que considerar outro paradigma, que evite os desastres ambientais

Escreveu o franco-brasileiro Michael Löwy, pesquisador na Sorbonne: “Se a COP30 privilegiar a adaptação, em detrimento da prevenção, ficará na memória das pessoas como a COP da capitulação” (artigo publicado no portal A Terra é Redonda, em 26/10/25).

Esta afirmação, que nos parece estranha, está, na verdade, bem fundamentada.

A COP30 tratará, fundamentalmente, do aquecimento global e da busca de energias alternativas que não produzam efeito estufa. O grande pano de fundo em Belém é a presença da floresta amazônica, fator básico para o equilíbrio dos climas terrestres. André Corrêa do Lago, presidente da COP30, declarou: “Gostaria muito que as pessoas se lembrassem da COP30 como uma COP da adaptação”.

Seguramente, todas as sociedades devem adaptar-se às mudanças climáticas. Por mais que rejeitem o aquecimento global, os negacionistas não podem negar os fatos: secas severas, nevascas nunca antes vistas, inundações desastrosas (como as ocorridas no Rio Grande do Sul), crescente desertificação, diminuição drástica de água potável, incêndios florestais apavorantes na Amazônia, no Pantanal, na Califórnia e em outros tantos lugares no mundo, sem falar dos frequentes tornados e na erupção dos vulcões.

Tais fatos trágicos confirmam que já estamos dentro do aquecimento global. Cientistas reconhecem que a ciência não pode reverter este fenômeno; ela pode apenas advertir a chegada de eventos extremos e mitigar seus efeitos danosos.
Ponto da virada

Sabemos, hoje, que os seres humanos lançaram na atmosfera 2.390 bilhões de toneladas de CO2 entre1850 a 2019. Dados recentes do observatório europeu Copernicus indicam que a temperatura média global, em 2025, chegou a 1,49°C acima dos níveis pré-industriais, ultrapassando os tipping points (pontos de inflexão ou pontos de virada) traçados pelo Acordo de Paris, em 2015, que seriam os de não ultrapassar a marca de 1,5°C até 2030. Em outras palavras, antecipamos os dados.

Em função disso, todas as sociedades situadas em montanhas, como Petrópolis e Teresópolis (no Rio de Janeiro) e outras, devem adaptar-se aos possíveis grandes deslizamentos de terra, que implicam o risco de destruição de inúmeras casas com registro de vítimas fatais. Mas resignar-se apenas a essa estratégia de adaptação representa uma capitulação, achando que pouco nos resta a fazer exceto aceitar o aquecimento e adaptar-se a ele. Temos que considerar outro paradigma, que tenha um aquecimento amigável à vida e suportável por todos os humanos.

Não basta que cidades do Vale do Taquari e mesmo Porto Alegre, às bordas do Guaíba, realizem apenas adaptações, o que o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, órgão das Nações Unidas criado em 1988) chama de estabelecer “a trajetória da resiliência climática”, mantendo os mesmos lugares afetados, com meras adaptações. O que ocorreu é apenas o começo. Tudo indica que o aquecimento vai aumentar, podendo chegar a 2°C ou mais até 2030. Muitos não conseguirão adaptar-se na natureza e na humanidade.

Não à resignação

Devemos partir do fato de que a Terra não é mais a mesma. Estamos numa nova era, a do antropoceno/necroceno/piroceno, que exige mais do que adaptações.

É urgente, dentro ainda do sistema imperante, a prevenção, vale dizer, criar infraestruturas que prevejam o que virá e evitem os desastres e a proliferação de vírus e bactérias para salvar a vida humana, em especial, dos mais frágeis. Caso contrário, os danos serão fatais. Como se depreende, exige-se um outro paradigma de habitar a Casa Comum, que vá além da adaptação e da prevenção.

Em termos planetários, poderemos estar diante da extinção das espécies, não excluída a humana. Por esta razão, a COP30 pode ser decisiva: ir além da adaptação proposta, pensar num outro paradigma e forjar, dentro da atual situação, formas de prevenção que protejam a integridade do planeta, a continuidade dos países insulares, a preservação maior possível da biodiversidade e que também forneçam a garantia de um futuro possível e melhor para a espécie humana.

Ficar apenas nas adaptações, sem as prevenções nos lugares atingidos pelos desastres ecológicos, tendo, talvez, que trocar de lugar ou criar fortes estruturas preventivas, seria realizar o que Michel Löwy advertiu: uma capitulação. Não à resignação, mas realizar a prevenção e a busca de um novo paradigma. Caso contrário, vale o que Bertold Brecht disse: “Quem luta pode perder. Quem não luta já perdeu”. Então, há que lutar para chegarmos a um outro paradigma, que seja benigno para Terra e para a vida.

Leonardo Boff
Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.


sexta-feira, 31 de outubro de 2025

MEIO AMBIENTE: Urgência do Ecoceno

Do Antropoceno ao Ecoceno
Como nunca antes na história, o destino comum está em nossas mãos.


Matéria exclusiva da Revista Liberta

Sempre que uma cultura entra em crise, como a nossa, projetam-se narrativas de fim do mundo e de destruição da espécie. Irrompem verdadeiros mitos. Usa-se, então, recurso literário conhecido: relatos patéticos de visões e de intervenções de anjos, que se comunicam para anunciar mudanças iminentes e preparar a humanidade. No Novo Testamento, esse gênero ganhou corpo no livro do Apocalipse e em alguns trechos dos Evangelhos, que colocam na boca de Jesus predições de fim do mundo.

Hoje, prolifera uma vasta literatura esotérica, que usa códigos diferentes, como passagem a outro nível de vibração ou a um mundo paralelo, além de comunicação com extraterrestres. A linguagem é diferente, mas a mensagem é idêntica: a viragem é iminente e há que estar preparado.

Importante é não deixar-se iludir por esse gênero de expressão. É linguagem típica de tempos de crise, e não uma reportagem antecipada do que vai ocorrer. Mas há uma diferença entre nós e os antigos.
Satã da Terra

Para os antigos, o fim do mundo estava no imaginário deles e não no processo realmente existente. Para nós, não está no imaginário, mas no processo real, pois criamos, de fato, o princípio de autodestruição com armas químicas, biológicas e nucleares. E, se isso ocorrer, cabe perguntarmo-nos, seriamente: será que não temos o destino das demais espécies, que, depois de milhões de anos sobre o nosso planeta, chegaram ao seu clímax e acabaram desparecendo naturalmente? Por que seríamos diferentes?

O fato é que, nos últimos trezentos anos, o homo sapiens/demens, que somos nós, humanos, montou uma investida poderosíssima sobre todas as comunidades ecossistêmicas do planeta, explorando-as e canalizando grande parte do produto terrestre bruto para os sistemas humanos de um consumo sem medida. O biólogo E. Wilson fala que a “humanidade é a primeira espécie na história da vida na Terra a se tornar numa força geofísica destruidora” (A Criação: Como Salvar a Vida no Planeta, São Paulo, 2008, pg. 37).

O Prêmio Nobel de Química de 1995, o holandês Paul J. Crutzen, aterrorizado pela magnitude do atual ecocídio, afirmou que inauguramos uma nova era geológica: o antropoceno. É a idade das grandes dizimações perpetradas pela agressividade e a irracionalidade do ser humano(em grego, ántropos é homem).

Ao antropoceno, seguiu-se o necroceno (necro, em grego, é morte), vale dizer, a devastação brutal da biodiversidade. No testemunho do citado E. Wilson, desparecem, anualmente, dada a nossa virulência industrialista e consumista, entre 70-100 mil espécies de organismos vivos, sendo que um milhão está sob risco de também desaparecer. Efetivamente, nos tornamos o Satã da Terra.

Como se isso não bastasse, nos anos recentes, criou-se outro termo, o piroceno (piros, em grego, é fogo). Por todas as partes do planeta, irromperam grandes queimadas, como as mais conhecidas na Califórnia (EUA) e na Amazônia e no Pantanal, no Brasil, bem como em outros lugares, até úmidos, como na Sibéria. Em parte, é consequência da irresponsabilidade humana, mas também porque, devido ao aquecimento global dos solos e da crise hídrica mundial, pedras se aquecem e folhas secas e gravetos se incendeiam e fazem alastrar o fogo, queimando milhares de hectares.

Armagedom ecológico

O planeta Terra, superorganismo vivo, funciona dentro de certos limites, os quais não podem ser ultrapassados. Caso contrário, o futuro da vida estaria em risco. Nosso eminente cientista Carlos Nobre nos enumerou e explicou quais são estes limites (Planetary Boundaries) estabelecidos por grandes cientistas.

1. Mudanças climáticas: refere-se ao aumento da temperatura média global devido às emissões de gases de efeito estufa;

2. Acidificação dos oceanos: resulta da absorção de CO2 pelos oceanos, causando a diminuição do pH da água, o que prejudica a vida marinha, especialmente de recifes de corais;

3. Mudanças no uso da terra: desmatamento e expansão urbana descontrolada alteram os ecossistemas e a capacidade de absorção de CO2 da Terra; inclui a conversão de florestas e outros ecossistemas naturais em áreas agrícolas ou urbanas;

4. Perda de biodiversidade: avalia a perda de biodiversidade e as taxas de extinção de espécies;

5. Fluxos biogeoquímicos: monitora desequilíbrios nos ciclos de nitrogênio e fósforo provocados, principalmente, pela agricultura intensiva e pela indústria, que poluem e degradam ecossistemas;

6. Uso da água doce: considera a quantidade de água doce utilizada pela humanidade, incluindo água para agricultura, indústria e consumo humano, e a gestão inadequada do recurso, com extração excessiva e poluição;

7. Camada de ozônio: refere-se à redução da camada estratosférica que protege a Terra da radiação ultravioleta prejudicial;

8. Aerossóis: monitora a concentração de partículas finas na atmosfera, que podem afetar o clima e a saúde humana;

9. Introdução de novas entidades: é a poluição química, que inclui a liberação de substâncias químicas sintéticas no ambiente, como plásticos e produtos químicos tóxicos.

Carlos Nobre ainda anota: 
”Atualmente, seis limites foram ultrapassados são: mudanças climáticas, acidificação dos oceanos, mudanças no uso da terra, perda de biodiversidade, fluxos biogeoquímicos e uso da água doce”.

Como tudo está relacionado com tudo, há o risco do efeito dominó: se caírem os últimos três, a civilização pode entrar em colapso. Seria o fim do experimento humano sobre este planeta.

Como nunca antes na história, o destino comum está em nossas mãos. Ou mudamos (e sabemos como o sistema capitalista imperante resiste em mudar) ou vamos ao encontro de um Armagedom ecológico.

Talvez o velho Martin Heidegger tenha, por fim, razão: “Só um Deus nos poderá salvar”(Nur noch ein Gott kann uns retten). Mas, se mudarmos mentes e corações, poderá ser inaugurada uma benéfica era geológica:o ecoceno, no qual a ecologia organizará nossas sociedades. E todos sobreviveremos.

Leonardo Boff
Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.



sexta-feira, 17 de outubro de 2025

MEIO AMBIENTE: A Terra é Viva!

A Terra é viva, geradora de todos os seres vivos.

A visão de Gaia está ligada a uma ética de sustentabilidade e responsabilidade.


Há um consenso na comunidade científica de que a Terra é viva. Por exemplo, num só grama de terra, ou seja, menos de um punhado, vivem cerca de 10 bilhões de micro-organismos: bactérias, fungos e vírus, conforme afirma-nos o grande biólogo E. Wilson, em A Criação: Como Salvar a Vida na Terra, (2008, p. 26). São invisíveis, mas sempre ativos, trabalhando para que a Terra permaneça viva e fértil. A Terra, assim cheia de vida, é a mãe geradora de todos os seres vivos.


Tal constatação não era evidente. Tanto para Einstein quanto para Bohr, “a vida ultrapassa a capacidade de compreensão da análise científica” (N. Bohr, Atomic Physis and Human Knowledge, 1956, cp. Light and Life, p.6). Entretanto, a aplicação da física quântica, da teoria da complexidade (Morin), do caos (Gleick, Prigogine) e da biologia genética e molecular (Maturana, Capra) mostraram que a vida pertence ao processo evolucionário, desde as energias e partículas mais originárias, passando pelo gás primordial, as grandes estrelas vermelhas, as super novas, as galáxias, o pó cósmico, a geosfera, a hidrosfera, a atmosfera e, finalmente, a biosfera.

Equilíbrio precário


Como afirma o Prêmio Nobel em biologia de 1974, Christian du Duve: “o carbono, o hidrogênio, o nitrogênio, o oxigênio, o fósforo e o enxofre formam a maior parte da matéria viva” (Poeira Vital: A Vida Como Imperativo Cósmico, 1995, cp.1).

Foi mérito especial de Ilya Prigogine, Nobel em química, em 1977, mostrar que não basta a presença dos elementos físico-químicos. Eles trocam, continuamente, energia com o meio ambiente. Consomem muita energia e, por isso, aumentam a entropia (desgaste da energia utilizável). Ele as chamou, com razão, de estruturas dissipativas (gastadoras de energia).

Mas são, igualmente, estruturas dissipativas, num segundo sentido, paradoxal, por dissiparem a entropia, pelo fato de metabolizarem a desordem e o caos do meio ambiente em ordens e estruturas complexas. Elas se auto-organizam, fugindo à entropia, produzindo negentropia: entropia negativa; positivamente: produzem sintropia (Order Out of Chaos, 1984).

O que é desordem para um serve de ordem para outro. É através de um equilíbrio precário entre ordem e desordem (Caos: Dupuy, Ordres et Désordres, 1982) que a vida se mantém (Ehrlich, O Mecanismo da Natureza, 1993, p. 239-290).

Baste-nos a referência às investigações do médico e biólogo inglês James E. Lovelock e da bióloga Lynn Margulis (Gaia, 1989; 1991; 2006; José Lutzemberger, Gaia, O Planeta Vivo – Por um Caminho Suave, 1990; Lynn Margulis, Microcosmos, 1990), que constataram a calibragem sutil entre todos os elementos químicos, físicos, entre o calor da crosta terrestre, a atmosfera, as rochas, os oceanos, todos sob os efeitos da luz solar, de sorte que tornam a Terra boa e até ótima aos organismos vivos. Ela surge, destarte, como um imenso superorganismo vivo, que se autorregula, chamado por James E. Lovelock de Gaia, nome que os gregos davam para a Terra viva.

Isso vale também para nós, humanos. Entre nós, se originam formas de relação e de vida nas quais predomina a sintropia (economia de energia) sobre a entropia (desgaste de energia). O pensamento, a comunicação pela palavra, a solidariedade, o amor são energias fortíssimas, com escasso nível de entropia e alto nível de sintropia.

Articulação sinfônica


Nessa perspectiva, temos pela frente não a morte térmica, mas a transfiguração do processo cosmogênico, que vai se revelando, com cada vez mais intensidade, em ordens supremamente ordenadas, criativas e vitais. Qual é o futuro deste processo? Não sabemos. É totalmente misterioso.

A articulação sinfônica das quatro interações básicas do universo (a gravitacional, a eletromagnética, a nuclear forte e a nuclear fraca) continua atuando, sinergeticamente, para a manutenção da atual seta cosmológica do tempo, rumo a formas cada vez mais relacionais e complexas. Muitos cientistas sustentam que elas, na verdade, constituem a lógica e o dinamismo interno do processo evolucionário; por assim dizer, a estrutura, melhor dito, a mente ordenadora do próprio cosmos.

Vale citar a famosa afirmação do físico britânico Freeman Dyson: “Quanto mais examino o universo e os detalhes de sua arquitetura, mais acho evidências de que o universo sabia que um dia, lá na frente, iríamos surgir” (Disturbing the Universe, 1979, p. 250).

O próprio ser humano é um nó de relações voltado para todas as direções. A própria Divindade se revela panrelacional, como o Papa Francisco enfatiza em sua encíclica Laudato Si’ (nº 239). Se tudo é relação e nada existe fora da relação, então, a lei mais universal é a sinergia, a sintropia, o inter-retro-relacionamento, a cooperação, a solidariedade cósmica, a comunhão e a fraternidade/sororidade universais.

Essa visão de Gaia poderá reencantar a nossa convivência com a Terra e fazer com que vivamos uma ética da sustentabilidade e da responsabilidade necessária, da compaixão e do cuidado, atitudes que salvarão a vida na Casa Comum, na Terra.

Leonardo Boff
Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.