Do Antropoceno ao Ecoceno
Como nunca antes na história, o destino comum está em nossas mãos.
Matéria exclusiva da Revista Liberta
Sempre que uma cultura entra em crise, como a nossa, projetam-se narrativas de fim do mundo e de destruição da espécie. Irrompem verdadeiros mitos. Usa-se, então, recurso literário conhecido: relatos patéticos de visões e de intervenções de anjos, que se comunicam para anunciar mudanças iminentes e preparar a humanidade. No Novo Testamento, esse gênero ganhou corpo no livro do Apocalipse e em alguns trechos dos Evangelhos, que colocam na boca de Jesus predições de fim do mundo.
Hoje, prolifera uma vasta literatura esotérica, que usa códigos diferentes, como passagem a outro nível de vibração ou a um mundo paralelo, além de comunicação com extraterrestres. A linguagem é diferente, mas a mensagem é idêntica: a viragem é iminente e há que estar preparado.
Importante é não deixar-se iludir por esse gênero de expressão. É linguagem típica de tempos de crise, e não uma reportagem antecipada do que vai ocorrer. Mas há uma diferença entre nós e os antigos.
Satã da Terra
Para os antigos, o fim do mundo estava no imaginário deles e não no processo realmente existente. Para nós, não está no imaginário, mas no processo real, pois criamos, de fato, o princípio de autodestruição com armas químicas, biológicas e nucleares. E, se isso ocorrer, cabe perguntarmo-nos, seriamente: será que não temos o destino das demais espécies, que, depois de milhões de anos sobre o nosso planeta, chegaram ao seu clímax e acabaram desparecendo naturalmente? Por que seríamos diferentes?
O fato é que, nos últimos trezentos anos, o homo sapiens/demens, que somos nós, humanos, montou uma investida poderosíssima sobre todas as comunidades ecossistêmicas do planeta, explorando-as e canalizando grande parte do produto terrestre bruto para os sistemas humanos de um consumo sem medida. O biólogo E. Wilson fala que a “humanidade é a primeira espécie na história da vida na Terra a se tornar numa força geofísica destruidora” (A Criação: Como Salvar a Vida no Planeta, São Paulo, 2008, pg. 37).
O Prêmio Nobel de Química de 1995, o holandês Paul J. Crutzen, aterrorizado pela magnitude do atual ecocídio, afirmou que inauguramos uma nova era geológica: o antropoceno. É a idade das grandes dizimações perpetradas pela agressividade e a irracionalidade do ser humano(em grego, ántropos é homem).
Ao antropoceno, seguiu-se o necroceno (necro, em grego, é morte), vale dizer, a devastação brutal da biodiversidade. No testemunho do citado E. Wilson, desparecem, anualmente, dada a nossa virulência industrialista e consumista, entre 70-100 mil espécies de organismos vivos, sendo que um milhão está sob risco de também desaparecer. Efetivamente, nos tornamos o Satã da Terra.
Como se isso não bastasse, nos anos recentes, criou-se outro termo, o piroceno (piros, em grego, é fogo). Por todas as partes do planeta, irromperam grandes queimadas, como as mais conhecidas na Califórnia (EUA) e na Amazônia e no Pantanal, no Brasil, bem como em outros lugares, até úmidos, como na Sibéria. Em parte, é consequência da irresponsabilidade humana, mas também porque, devido ao aquecimento global dos solos e da crise hídrica mundial, pedras se aquecem e folhas secas e gravetos se incendeiam e fazem alastrar o fogo, queimando milhares de hectares.
Armagedom ecológico
O planeta Terra, superorganismo vivo, funciona dentro de certos limites, os quais não podem ser ultrapassados. Caso contrário, o futuro da vida estaria em risco. Nosso eminente cientista Carlos Nobre nos enumerou e explicou quais são estes limites (Planetary Boundaries) estabelecidos por grandes cientistas.
1. Mudanças climáticas: refere-se ao aumento da temperatura média global devido às emissões de gases de efeito estufa;
2. Acidificação dos oceanos: resulta da absorção de CO2 pelos oceanos, causando a diminuição do pH da água, o que prejudica a vida marinha, especialmente de recifes de corais;
3. Mudanças no uso da terra: desmatamento e expansão urbana descontrolada alteram os ecossistemas e a capacidade de absorção de CO2 da Terra; inclui a conversão de florestas e outros ecossistemas naturais em áreas agrícolas ou urbanas;
4. Perda de biodiversidade: avalia a perda de biodiversidade e as taxas de extinção de espécies;
5. Fluxos biogeoquímicos: monitora desequilíbrios nos ciclos de nitrogênio e fósforo provocados, principalmente, pela agricultura intensiva e pela indústria, que poluem e degradam ecossistemas;
6. Uso da água doce: considera a quantidade de água doce utilizada pela humanidade, incluindo água para agricultura, indústria e consumo humano, e a gestão inadequada do recurso, com extração excessiva e poluição;
7. Camada de ozônio: refere-se à redução da camada estratosférica que protege a Terra da radiação ultravioleta prejudicial;
8. Aerossóis: monitora a concentração de partículas finas na atmosfera, que podem afetar o clima e a saúde humana;
9. Introdução de novas entidades: é a poluição química, que inclui a liberação de substâncias químicas sintéticas no ambiente, como plásticos e produtos químicos tóxicos.
Carlos Nobre ainda anota:
Hoje, prolifera uma vasta literatura esotérica, que usa códigos diferentes, como passagem a outro nível de vibração ou a um mundo paralelo, além de comunicação com extraterrestres. A linguagem é diferente, mas a mensagem é idêntica: a viragem é iminente e há que estar preparado.
Importante é não deixar-se iludir por esse gênero de expressão. É linguagem típica de tempos de crise, e não uma reportagem antecipada do que vai ocorrer. Mas há uma diferença entre nós e os antigos.
Satã da Terra
Para os antigos, o fim do mundo estava no imaginário deles e não no processo realmente existente. Para nós, não está no imaginário, mas no processo real, pois criamos, de fato, o princípio de autodestruição com armas químicas, biológicas e nucleares. E, se isso ocorrer, cabe perguntarmo-nos, seriamente: será que não temos o destino das demais espécies, que, depois de milhões de anos sobre o nosso planeta, chegaram ao seu clímax e acabaram desparecendo naturalmente? Por que seríamos diferentes?
O fato é que, nos últimos trezentos anos, o homo sapiens/demens, que somos nós, humanos, montou uma investida poderosíssima sobre todas as comunidades ecossistêmicas do planeta, explorando-as e canalizando grande parte do produto terrestre bruto para os sistemas humanos de um consumo sem medida. O biólogo E. Wilson fala que a “humanidade é a primeira espécie na história da vida na Terra a se tornar numa força geofísica destruidora” (A Criação: Como Salvar a Vida no Planeta, São Paulo, 2008, pg. 37).
O Prêmio Nobel de Química de 1995, o holandês Paul J. Crutzen, aterrorizado pela magnitude do atual ecocídio, afirmou que inauguramos uma nova era geológica: o antropoceno. É a idade das grandes dizimações perpetradas pela agressividade e a irracionalidade do ser humano(em grego, ántropos é homem).
Ao antropoceno, seguiu-se o necroceno (necro, em grego, é morte), vale dizer, a devastação brutal da biodiversidade. No testemunho do citado E. Wilson, desparecem, anualmente, dada a nossa virulência industrialista e consumista, entre 70-100 mil espécies de organismos vivos, sendo que um milhão está sob risco de também desaparecer. Efetivamente, nos tornamos o Satã da Terra.
Como se isso não bastasse, nos anos recentes, criou-se outro termo, o piroceno (piros, em grego, é fogo). Por todas as partes do planeta, irromperam grandes queimadas, como as mais conhecidas na Califórnia (EUA) e na Amazônia e no Pantanal, no Brasil, bem como em outros lugares, até úmidos, como na Sibéria. Em parte, é consequência da irresponsabilidade humana, mas também porque, devido ao aquecimento global dos solos e da crise hídrica mundial, pedras se aquecem e folhas secas e gravetos se incendeiam e fazem alastrar o fogo, queimando milhares de hectares.
Armagedom ecológico
O planeta Terra, superorganismo vivo, funciona dentro de certos limites, os quais não podem ser ultrapassados. Caso contrário, o futuro da vida estaria em risco. Nosso eminente cientista Carlos Nobre nos enumerou e explicou quais são estes limites (Planetary Boundaries) estabelecidos por grandes cientistas.
1. Mudanças climáticas: refere-se ao aumento da temperatura média global devido às emissões de gases de efeito estufa;
2. Acidificação dos oceanos: resulta da absorção de CO2 pelos oceanos, causando a diminuição do pH da água, o que prejudica a vida marinha, especialmente de recifes de corais;
3. Mudanças no uso da terra: desmatamento e expansão urbana descontrolada alteram os ecossistemas e a capacidade de absorção de CO2 da Terra; inclui a conversão de florestas e outros ecossistemas naturais em áreas agrícolas ou urbanas;
4. Perda de biodiversidade: avalia a perda de biodiversidade e as taxas de extinção de espécies;
5. Fluxos biogeoquímicos: monitora desequilíbrios nos ciclos de nitrogênio e fósforo provocados, principalmente, pela agricultura intensiva e pela indústria, que poluem e degradam ecossistemas;
6. Uso da água doce: considera a quantidade de água doce utilizada pela humanidade, incluindo água para agricultura, indústria e consumo humano, e a gestão inadequada do recurso, com extração excessiva e poluição;
7. Camada de ozônio: refere-se à redução da camada estratosférica que protege a Terra da radiação ultravioleta prejudicial;
8. Aerossóis: monitora a concentração de partículas finas na atmosfera, que podem afetar o clima e a saúde humana;
9. Introdução de novas entidades: é a poluição química, que inclui a liberação de substâncias químicas sintéticas no ambiente, como plásticos e produtos químicos tóxicos.
Carlos Nobre ainda anota:
”Atualmente, seis limites foram ultrapassados são: mudanças climáticas, acidificação dos oceanos, mudanças no uso da terra, perda de biodiversidade, fluxos biogeoquímicos e uso da água doce”.
Como tudo está relacionado com tudo, há o risco do efeito dominó: se caírem os últimos três, a civilização pode entrar em colapso. Seria o fim do experimento humano sobre este planeta.
Como nunca antes na história, o destino comum está em nossas mãos. Ou mudamos (e sabemos como o sistema capitalista imperante resiste em mudar) ou vamos ao encontro de um Armagedom ecológico.
Talvez o velho Martin Heidegger tenha, por fim, razão: “Só um Deus nos poderá salvar”(Nur noch ein Gott kann uns retten). Mas, se mudarmos mentes e corações, poderá ser inaugurada uma benéfica era geológica:o ecoceno, no qual a ecologia organizará nossas sociedades. E todos sobreviveremos.
Leonardo Boff
Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.
Como tudo está relacionado com tudo, há o risco do efeito dominó: se caírem os últimos três, a civilização pode entrar em colapso. Seria o fim do experimento humano sobre este planeta.
Como nunca antes na história, o destino comum está em nossas mãos. Ou mudamos (e sabemos como o sistema capitalista imperante resiste em mudar) ou vamos ao encontro de um Armagedom ecológico.
Talvez o velho Martin Heidegger tenha, por fim, razão: “Só um Deus nos poderá salvar”(Nur noch ein Gott kann uns retten). Mas, se mudarmos mentes e corações, poderá ser inaugurada uma benéfica era geológica:o ecoceno, no qual a ecologia organizará nossas sociedades. E todos sobreviveremos.
Leonardo Boff
Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.

