Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
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terça-feira, 13 de outubro de 2026

A Natureza nos (re)Conectando: Indígenas Isolados da Civilização.

Vestígios 
| A vida dos indígenas isolados no coração da Amazônia |
| Documentário |

No coração do sul do Amazonas, um grupo de cerca de cem pessoas nunca teve contato com o mundo moderno. São os isolados do Mamoriá Grande — caçadores-coletores do tronco Arawá cuja existência foi comprovada apenas em 2021. 

Em novembro de 2024, o jornalista Leão Serva e o fotógrafo Rogério Assis acompanharam uma expedição sigilosa da Funai à Terra Indígena Mamoriá Grande. O objetivo era ler os sinais que eles deixam para trás: redes, fogareiros, cerâmicas, galhos quebrados. Um relatório escrito na floresta.

O documentário Vestígios — A História dos Isolados do Mamoriá Grande narra essa jornada de mais de duas semanas pelo rio Purus, revelando as ameaças que cercam esses povos — garimpo, grilagem, missões religiosas — e o delicado trabalho dos indigenistas que protegem seu direito de permanecer invisíveis.



quinta-feira, 24 de setembro de 2026

A Natureza nos (re)Conectando: A Luta das Etnias no Brasil


Indígenas, a luta dos povos esquecidos.

O programa Caminhos da Reportagem vai a várias partes do país e mostra a luta dos índios para permanecer na terra de seus antepassados. No Brasil existem 305 etnias indígenas, que integram uma população com cerca de 897 mil pessoas. Apesar de se reconhecerem como indígenas, nem todas os grupos conseguiram conquistar seu território. Os Guarani Kaiowá, por exemplo, ainda lutam pelo reconhecimento da terra sagrada, o Tekoha.

Percorrendo aldeias que vivem pela demarcação de suas terras; os Guarani Kaiowa, de Mato Grosso do Sul; os Suruí em Rondônia, e várias outras etnias em Roraima, na terra indígena Raposa Serra Sol. As dificuldades estruturais e ameaças constantes são realidades vividas pelos povos apresentadas no documentário, que vivem sob pressão de madeireiros, mineradores, pecuaristas etc., que, ou se entendem donos da terra ou simplesmente invadem a área para retirar os bens naturais. Salienta-se que algumas terras foram demarcadas ou homologadas, mas mesmo assim os indígenas não conseguem subsistir com dignidade ou viver em paz.  

REPORTAGEM: TV BRASIL



terça-feira, 15 de setembro de 2026

A Natureza nos (re)Conectando: Kamukuwaká


KAMUKUWAKÁ 
| A Gruta Sagrada do Xingu |
| etnia: Waujá |

Descubra a força da ancestralidade, da resistência e da espiritualidade dos povos originários do Xingu.

A obra revela a história da gruta sagrada deixada fora da demarcação oficial em 1961, tombada como patrimônio histórico, mas brutalmente depredada — destruindo quase mil anos de registros gravados em suas paredes. Você vai conhecer o esforço coletivo para reconstruir a gruta em tamanho real na Espanha, em um projeto com os anciãos da etnia Waujá. 

O documentário também resgata imagens históricas dos irmãos Villas-Bôas e reportagens marcantes de Washington Novaes, além de abordar os impactos atuais da crise climática e da destruição da Amazônia na cultura dos povos do Xingu.

Documentário inédito da TV Cultura
Reportagem de Laís Duarte e Adriano Tavares.



A Natureza nos (re)Conectando: (Robert Plant)


Robert Plant & Saving Grace
' redescoberta da tradição folk ' 
“Two Coats”

A interpretação de “Two Coats” — clássico da música tradicional americana eternizado na voz do lendário Ralph Stanley e adotado com paixão por Robert Plant ao lado de seu projeto Saving Grace — revela muito sobre a fase atual da carreira do ex-vocalista do Led Zeppelin. Longe dos palcos grandiosos e dos amplificadores ensurdecedores do rock arenas, Plant tem fincado suas raízes na essência pura da folk music, do bluegrass e da Americana, e “Two Coats” brilha como um dos momentos mais orgânicos dessa jornada.

A Raiz e a Tradição “Two Coats” é uma canção gospel-folk tradicional de profundas raízes nos Apalaches, frequentemente associada ao lendário patriarca do bluegrass Ralph Stanley. A letra emprega uma metáfora cristã e moral muito comum na música folclórica do sul dos Estados Unidos: a dualidade entre o “velho homem” (terreno, falível, desgastado pelo mundo) e o “novo homem” (renovado pela graça e pela salvação).

“Two coats were before me, an old and a new / I asked my sweet Master, ‘What must I do?’” A narrativa evoca a escolha de abandonar velhos fardos e vestir uma “nova veste” de aconchego e proteção contra as tempestades da vida.

A Leitura de Robert Plant com o Saving Grace Robert Plant incorporou “Two Coats” de forma fixa aos repertórios ao vivo do Saving Grace — banda que conta com a voz marcante de Suzi Dian, Tony Kelsey, Matt Worley e Oli Jefferson. A sonoridade construída pelo grupo foge de qualquer artifício comercial: é minimalista, acústica, guiada por violões, banjos e vocais harmoniosos que remetem diretamente às cantorias de varanda do interior norte-americano e britânico.

Para consolidar essa fase, a faixa ganhou um registro de estúdio oficial ao integrar o EP All That Glitters…, lançado pelo Saving Grace. A escolha da música reflete o próprio momento artístico de Plant: um músico lendário que, em vez de inflar o peito para revisitar o passado estrondoso do rock pesado, prefere despir suas canções até a alma, demonstrando respeito reverente pelas tradições que moldaram a música popular moderna.

O Significado Artístico Ouvir Robert Plant cantar “Two Coats” é testemunhar um artista em plena comunhão com suas influências primordiais. Não há pozinho mágico de estúdio ou grandiloquência; é apenas o timbre envelhecido e rico em experiência de Plant fundindo-se a texturas acústicas rústicas. A música soa quase como uma confissão pessoal sobre escolhas, passagens de tempo, renovação espiritual e artística — o som de quem trocou o peso do mundo por uma calmaria reconfortante.
BANDA

Robert Plant: Voz - Suzi Dian: Vocais e acordeão - Oli Jefferson: Bateria - Tony Kelsey: Guitarra - Barney Morse Brown: Cello - Matt Worley: Banjo 5-cordas


Matéria: @Kiss

domingo, 16 de novembro de 2025

Meio Ambiente: A Farsa do Carbono

A farsa do mercado de carbono!

O governo federal publicou durante a COP30, em Belém, o edital da licitação para privatizar uma floresta na Amazônia por meio do mercado de carbono.

Em março de 2026, será realizado um leilão na Bolsa de Valores de São Paulo, e a empresa vencedora terá 40 anos para reflorestar 100 mil hectares da degradada Floresta Nacional do Bom Futuro em Rondônia. Em troca, poderá vender créditos de carbono para outras empresas poluidoras. Com esses créditos, elas podem continuar poluindo o planeta em paz.

Esse é mais um capítulo do teatro do absurdo montado pelo que se convencionou chamar de capitalismo verde, o novo figurino vestido por velhos atores, justamente os principais responsáveis pela catástrofe climática, ecológica e social que estamos vivendo.

Um teatro que tem suas sessões mais concorridas durante as Conferências do Clima da ONU, quando Estados e megacorporações internacionais atuam harmonicamente para construir e regulamentar falsas soluções para a crise. Uma das falsidades mais populares é a do mercado de carbono.


Corporações globais

Criado em 1997 na COP3, em Kyoto, o mercado de carbono nasceu de uma teoria que parece boa – transferir recursos de países ricos para que países pobres possam preservar suas áreas verdes –, mas, na prática, tem servido apenas para empurrar a humanidade em direção à sua própria destruição.

A lógica é a seguinte: precisamos reduzir a emissão de gases do efeito estufa, que são os responsáveis pelo aquecimento global. Esses gases são de vários tipos, mas, convencionalmente, nós o chamamos de “gases equivalentes ao dióxido de carbono”. Para simplificar ainda mais, chamamos tudo de carbono.

Diante da necessidade de reduzir as emissões de carbono, as corporações globais concordaram em criar alternativas para abandonar, aos poucos, a queima de combustíveis fósseis, ocasião em que o carbono chega à atmosfera e esquenta o planeta.

Mas reduzir a queima de fósseis causa impacto na produtividade e na margem de lucro das corporações, duas coisas que, como sabemos, são mais preciosas para elas do que as próprias condições de vida na Terra. Então, para as empresas que não querem mudar seu padrão poluidor, a ONU ofereceu uma alternativa: comprar créditos para “compensar” sua emissões.

Esses créditos são moedas criadas a partir de projetos que dizem manter ou recuperar florestas e áreas verdes, sob o argumento de que uma árvore na Malásia seria capaz de absorver ou “compensar” as emissões de um avião na Noruega, por exemplo.

Hoje, sabemos que não é assim que a natureza funciona, já que a própria emissão de gases do efeito estufa torna mais difícil e até inviável a sobrevivência das florestas. Mas, pela lógica torta do mercado de carbono, uma petroleira como a ExxonMobil, que acabou de ganhar um leilão para extrair petróleo da Foz do Amazonas, pode continuar queimando até a última gota de óleo e lucrando com essa poluição. Basta que ela reverta uma parte desse lucro sujo para a compra de créditos de algum projeto de carbono, como o do governo federal para recuperar a floresta de Rondônia.

Ou como o “Projeto Maísa”, na região de Moju, no Pará. Durante anos, empresas como Uber, Audi, Nike e iFood compraram créditos desse projeto para compensar suas emissões cotidianas, já que o “Maísa” prometia aplicar esses recursos na preservação de 26 mil hectares de floresta amazônica. Mas uma reportagem de Isabel Harari e Poliana Dallabrida, no “Repórter Brasil”, revelou que os empresários brasileiros que receberam esse dinheiro estavam fazendo outra coisa com ele.

Em vez de preservar a floresta, esses empresários contrataram trabalhadores para desmatá-la. E, pior ainda, submeteram 16 deles a condições análogas à escravidão. Ou seja, não é exagero dizer que a verba da sustentabilidade dessas grandes corporações financiou a destruição da Amazônia e a escravização do seu povo. E esse não foi um caso isolado.

Letras miúdas

Com o avanço do mercado de carbono pela Amazônia, populações que sempre viveram em harmonia com a floresta agora precisam lidar com a chegada de empresários oferecendo dinheiro fácil para “manter a floresta em pé”, promessas, aliás, que, muitas vezes, não são cumpridas. Os contratos, escritos em linguagem cifrada e letras miúdas, costumam restringir o uso tradicional que povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos sempre fizeram da terra, como no caso dos indígenas submetidos a vigilância por drones para não criarem roçados na aldeia.

Na prática, esse mercado tem funcionado como uma licença pras grandes poluidoras continuarem poluindo, às custas dos modos de vida dos povos do Sul Global. Se você gostar de números, talvez goste (e se irrite) de saber que, mesmo com todo o oba-oba em torno do mercado de carbono, ele tem se mostrado absolutamente incapaz de reduzir significativamente o nosso padrão de emissões de gases maléficos.

Uma revisão de dados de 39 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) constatou que a introdução de mecanismos de precificação de carbono para que ele pudesse ser negociado reduziu o crescimento das emissões em apenas 0,6% a 1,5% de 1990 a 2016, em relação ao que teria acontecido sem esses mecanismos.

Mesmo assim, nós tivemos em 2024 o ano mais quente da nossa história. E não existe nenhum sinal de que seremos capazes de limitar o aumento do aquecimento, apesar do ilusionismo que empresas e governos submetidos a elas continuam encenando em eventos como a COP.

A nossa única chance seria abandonar toda e qualquer falsa solução criada para satisfazer apenas as demandas do capitalismo, que, tendo causado a crise, nunca estará de fato interessado em resolvê-la. Mas, para isso, seria preciso ter um governo de fato comprometido com a preservação do bem-estar e do futuro da sua população – e não com a expansão ilimitada do capital.

REVISTA LIBERTA
Adriano Wilkson
Repórter, roteirista e apresentador de podcast. Atuou nas redações da Folha de S. Paulo e do UOL, onde cobriu edições das Olimpíadas e da Copa do Mundo. Produziu, roteirizou e apresentou o podcast “Os Grampos de Robinho” e trabalhou no documentário sobre o mesmo tema do Globoplay. Hoje, produz o podcast independente “Carrapato”.


sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Meio Ambiente: COP 30 BELÉM

COP 30 BELÉM

Pará, Amazônia 
- 2025 -

Adaptação sem prevenção: risco de capitulação?

Temos que considerar outro paradigma, que evite os desastres ambientais

Escreveu o franco-brasileiro Michael Löwy, pesquisador na Sorbonne: “Se a COP30 privilegiar a adaptação, em detrimento da prevenção, ficará na memória das pessoas como a COP da capitulação” (artigo publicado no portal A Terra é Redonda, em 26/10/25).

Esta afirmação, que nos parece estranha, está, na verdade, bem fundamentada.

A COP30 tratará, fundamentalmente, do aquecimento global e da busca de energias alternativas que não produzam efeito estufa. O grande pano de fundo em Belém é a presença da floresta amazônica, fator básico para o equilíbrio dos climas terrestres. André Corrêa do Lago, presidente da COP30, declarou: “Gostaria muito que as pessoas se lembrassem da COP30 como uma COP da adaptação”.

Seguramente, todas as sociedades devem adaptar-se às mudanças climáticas. Por mais que rejeitem o aquecimento global, os negacionistas não podem negar os fatos: secas severas, nevascas nunca antes vistas, inundações desastrosas (como as ocorridas no Rio Grande do Sul), crescente desertificação, diminuição drástica de água potável, incêndios florestais apavorantes na Amazônia, no Pantanal, na Califórnia e em outros tantos lugares no mundo, sem falar dos frequentes tornados e na erupção dos vulcões.

Tais fatos trágicos confirmam que já estamos dentro do aquecimento global. Cientistas reconhecem que a ciência não pode reverter este fenômeno; ela pode apenas advertir a chegada de eventos extremos e mitigar seus efeitos danosos.
Ponto da virada

Sabemos, hoje, que os seres humanos lançaram na atmosfera 2.390 bilhões de toneladas de CO2 entre1850 a 2019. Dados recentes do observatório europeu Copernicus indicam que a temperatura média global, em 2025, chegou a 1,49°C acima dos níveis pré-industriais, ultrapassando os tipping points (pontos de inflexão ou pontos de virada) traçados pelo Acordo de Paris, em 2015, que seriam os de não ultrapassar a marca de 1,5°C até 2030. Em outras palavras, antecipamos os dados.

Em função disso, todas as sociedades situadas em montanhas, como Petrópolis e Teresópolis (no Rio de Janeiro) e outras, devem adaptar-se aos possíveis grandes deslizamentos de terra, que implicam o risco de destruição de inúmeras casas com registro de vítimas fatais. Mas resignar-se apenas a essa estratégia de adaptação representa uma capitulação, achando que pouco nos resta a fazer exceto aceitar o aquecimento e adaptar-se a ele. Temos que considerar outro paradigma, que tenha um aquecimento amigável à vida e suportável por todos os humanos.

Não basta que cidades do Vale do Taquari e mesmo Porto Alegre, às bordas do Guaíba, realizem apenas adaptações, o que o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, órgão das Nações Unidas criado em 1988) chama de estabelecer “a trajetória da resiliência climática”, mantendo os mesmos lugares afetados, com meras adaptações. O que ocorreu é apenas o começo. Tudo indica que o aquecimento vai aumentar, podendo chegar a 2°C ou mais até 2030. Muitos não conseguirão adaptar-se na natureza e na humanidade.

Não à resignação

Devemos partir do fato de que a Terra não é mais a mesma. Estamos numa nova era, a do antropoceno/necroceno/piroceno, que exige mais do que adaptações.

É urgente, dentro ainda do sistema imperante, a prevenção, vale dizer, criar infraestruturas que prevejam o que virá e evitem os desastres e a proliferação de vírus e bactérias para salvar a vida humana, em especial, dos mais frágeis. Caso contrário, os danos serão fatais. Como se depreende, exige-se um outro paradigma de habitar a Casa Comum, que vá além da adaptação e da prevenção.

Em termos planetários, poderemos estar diante da extinção das espécies, não excluída a humana. Por esta razão, a COP30 pode ser decisiva: ir além da adaptação proposta, pensar num outro paradigma e forjar, dentro da atual situação, formas de prevenção que protejam a integridade do planeta, a continuidade dos países insulares, a preservação maior possível da biodiversidade e que também forneçam a garantia de um futuro possível e melhor para a espécie humana.

Ficar apenas nas adaptações, sem as prevenções nos lugares atingidos pelos desastres ecológicos, tendo, talvez, que trocar de lugar ou criar fortes estruturas preventivas, seria realizar o que Michel Löwy advertiu: uma capitulação. Não à resignação, mas realizar a prevenção e a busca de um novo paradigma. Caso contrário, vale o que Bertold Brecht disse: “Quem luta pode perder. Quem não luta já perdeu”. Então, há que lutar para chegarmos a um outro paradigma, que seja benigno para Terra e para a vida.

Leonardo Boff
Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.


sexta-feira, 31 de outubro de 2025

MEIO AMBIENTE: Urgência do Ecoceno

Do Antropoceno ao Ecoceno
Como nunca antes na história, o destino comum está em nossas mãos.


Matéria exclusiva da Revista Liberta

Sempre que uma cultura entra em crise, como a nossa, projetam-se narrativas de fim do mundo e de destruição da espécie. Irrompem verdadeiros mitos. Usa-se, então, recurso literário conhecido: relatos patéticos de visões e de intervenções de anjos, que se comunicam para anunciar mudanças iminentes e preparar a humanidade. No Novo Testamento, esse gênero ganhou corpo no livro do Apocalipse e em alguns trechos dos Evangelhos, que colocam na boca de Jesus predições de fim do mundo.

Hoje, prolifera uma vasta literatura esotérica, que usa códigos diferentes, como passagem a outro nível de vibração ou a um mundo paralelo, além de comunicação com extraterrestres. A linguagem é diferente, mas a mensagem é idêntica: a viragem é iminente e há que estar preparado.

Importante é não deixar-se iludir por esse gênero de expressão. É linguagem típica de tempos de crise, e não uma reportagem antecipada do que vai ocorrer. Mas há uma diferença entre nós e os antigos.
Satã da Terra

Para os antigos, o fim do mundo estava no imaginário deles e não no processo realmente existente. Para nós, não está no imaginário, mas no processo real, pois criamos, de fato, o princípio de autodestruição com armas químicas, biológicas e nucleares. E, se isso ocorrer, cabe perguntarmo-nos, seriamente: será que não temos o destino das demais espécies, que, depois de milhões de anos sobre o nosso planeta, chegaram ao seu clímax e acabaram desparecendo naturalmente? Por que seríamos diferentes?

O fato é que, nos últimos trezentos anos, o homo sapiens/demens, que somos nós, humanos, montou uma investida poderosíssima sobre todas as comunidades ecossistêmicas do planeta, explorando-as e canalizando grande parte do produto terrestre bruto para os sistemas humanos de um consumo sem medida. O biólogo E. Wilson fala que a “humanidade é a primeira espécie na história da vida na Terra a se tornar numa força geofísica destruidora” (A Criação: Como Salvar a Vida no Planeta, São Paulo, 2008, pg. 37).

O Prêmio Nobel de Química de 1995, o holandês Paul J. Crutzen, aterrorizado pela magnitude do atual ecocídio, afirmou que inauguramos uma nova era geológica: o antropoceno. É a idade das grandes dizimações perpetradas pela agressividade e a irracionalidade do ser humano(em grego, ántropos é homem).

Ao antropoceno, seguiu-se o necroceno (necro, em grego, é morte), vale dizer, a devastação brutal da biodiversidade. No testemunho do citado E. Wilson, desparecem, anualmente, dada a nossa virulência industrialista e consumista, entre 70-100 mil espécies de organismos vivos, sendo que um milhão está sob risco de também desaparecer. Efetivamente, nos tornamos o Satã da Terra.

Como se isso não bastasse, nos anos recentes, criou-se outro termo, o piroceno (piros, em grego, é fogo). Por todas as partes do planeta, irromperam grandes queimadas, como as mais conhecidas na Califórnia (EUA) e na Amazônia e no Pantanal, no Brasil, bem como em outros lugares, até úmidos, como na Sibéria. Em parte, é consequência da irresponsabilidade humana, mas também porque, devido ao aquecimento global dos solos e da crise hídrica mundial, pedras se aquecem e folhas secas e gravetos se incendeiam e fazem alastrar o fogo, queimando milhares de hectares.

Armagedom ecológico

O planeta Terra, superorganismo vivo, funciona dentro de certos limites, os quais não podem ser ultrapassados. Caso contrário, o futuro da vida estaria em risco. Nosso eminente cientista Carlos Nobre nos enumerou e explicou quais são estes limites (Planetary Boundaries) estabelecidos por grandes cientistas.

1. Mudanças climáticas: refere-se ao aumento da temperatura média global devido às emissões de gases de efeito estufa;

2. Acidificação dos oceanos: resulta da absorção de CO2 pelos oceanos, causando a diminuição do pH da água, o que prejudica a vida marinha, especialmente de recifes de corais;

3. Mudanças no uso da terra: desmatamento e expansão urbana descontrolada alteram os ecossistemas e a capacidade de absorção de CO2 da Terra; inclui a conversão de florestas e outros ecossistemas naturais em áreas agrícolas ou urbanas;

4. Perda de biodiversidade: avalia a perda de biodiversidade e as taxas de extinção de espécies;

5. Fluxos biogeoquímicos: monitora desequilíbrios nos ciclos de nitrogênio e fósforo provocados, principalmente, pela agricultura intensiva e pela indústria, que poluem e degradam ecossistemas;

6. Uso da água doce: considera a quantidade de água doce utilizada pela humanidade, incluindo água para agricultura, indústria e consumo humano, e a gestão inadequada do recurso, com extração excessiva e poluição;

7. Camada de ozônio: refere-se à redução da camada estratosférica que protege a Terra da radiação ultravioleta prejudicial;

8. Aerossóis: monitora a concentração de partículas finas na atmosfera, que podem afetar o clima e a saúde humana;

9. Introdução de novas entidades: é a poluição química, que inclui a liberação de substâncias químicas sintéticas no ambiente, como plásticos e produtos químicos tóxicos.

Carlos Nobre ainda anota: 
”Atualmente, seis limites foram ultrapassados são: mudanças climáticas, acidificação dos oceanos, mudanças no uso da terra, perda de biodiversidade, fluxos biogeoquímicos e uso da água doce”.

Como tudo está relacionado com tudo, há o risco do efeito dominó: se caírem os últimos três, a civilização pode entrar em colapso. Seria o fim do experimento humano sobre este planeta.

Como nunca antes na história, o destino comum está em nossas mãos. Ou mudamos (e sabemos como o sistema capitalista imperante resiste em mudar) ou vamos ao encontro de um Armagedom ecológico.

Talvez o velho Martin Heidegger tenha, por fim, razão: “Só um Deus nos poderá salvar”(Nur noch ein Gott kann uns retten). Mas, se mudarmos mentes e corações, poderá ser inaugurada uma benéfica era geológica:o ecoceno, no qual a ecologia organizará nossas sociedades. E todos sobreviveremos.

Leonardo Boff
Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.