Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
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domingo, 16 de novembro de 2025

Meio Ambiente: A Farsa do Carbono

A farsa do mercado de carbono!

O governo federal publicou durante a COP30, em Belém, o edital da licitação para privatizar uma floresta na Amazônia por meio do mercado de carbono.

Em março de 2026, será realizado um leilão na Bolsa de Valores de São Paulo, e a empresa vencedora terá 40 anos para reflorestar 100 mil hectares da degradada Floresta Nacional do Bom Futuro em Rondônia. Em troca, poderá vender créditos de carbono para outras empresas poluidoras. Com esses créditos, elas podem continuar poluindo o planeta em paz.

Esse é mais um capítulo do teatro do absurdo montado pelo que se convencionou chamar de capitalismo verde, o novo figurino vestido por velhos atores, justamente os principais responsáveis pela catástrofe climática, ecológica e social que estamos vivendo.

Um teatro que tem suas sessões mais concorridas durante as Conferências do Clima da ONU, quando Estados e megacorporações internacionais atuam harmonicamente para construir e regulamentar falsas soluções para a crise. Uma das falsidades mais populares é a do mercado de carbono.


Corporações globais

Criado em 1997 na COP3, em Kyoto, o mercado de carbono nasceu de uma teoria que parece boa – transferir recursos de países ricos para que países pobres possam preservar suas áreas verdes –, mas, na prática, tem servido apenas para empurrar a humanidade em direção à sua própria destruição.

A lógica é a seguinte: precisamos reduzir a emissão de gases do efeito estufa, que são os responsáveis pelo aquecimento global. Esses gases são de vários tipos, mas, convencionalmente, nós o chamamos de “gases equivalentes ao dióxido de carbono”. Para simplificar ainda mais, chamamos tudo de carbono.

Diante da necessidade de reduzir as emissões de carbono, as corporações globais concordaram em criar alternativas para abandonar, aos poucos, a queima de combustíveis fósseis, ocasião em que o carbono chega à atmosfera e esquenta o planeta.

Mas reduzir a queima de fósseis causa impacto na produtividade e na margem de lucro das corporações, duas coisas que, como sabemos, são mais preciosas para elas do que as próprias condições de vida na Terra. Então, para as empresas que não querem mudar seu padrão poluidor, a ONU ofereceu uma alternativa: comprar créditos para “compensar” sua emissões.

Esses créditos são moedas criadas a partir de projetos que dizem manter ou recuperar florestas e áreas verdes, sob o argumento de que uma árvore na Malásia seria capaz de absorver ou “compensar” as emissões de um avião na Noruega, por exemplo.

Hoje, sabemos que não é assim que a natureza funciona, já que a própria emissão de gases do efeito estufa torna mais difícil e até inviável a sobrevivência das florestas. Mas, pela lógica torta do mercado de carbono, uma petroleira como a ExxonMobil, que acabou de ganhar um leilão para extrair petróleo da Foz do Amazonas, pode continuar queimando até a última gota de óleo e lucrando com essa poluição. Basta que ela reverta uma parte desse lucro sujo para a compra de créditos de algum projeto de carbono, como o do governo federal para recuperar a floresta de Rondônia.

Ou como o “Projeto Maísa”, na região de Moju, no Pará. Durante anos, empresas como Uber, Audi, Nike e iFood compraram créditos desse projeto para compensar suas emissões cotidianas, já que o “Maísa” prometia aplicar esses recursos na preservação de 26 mil hectares de floresta amazônica. Mas uma reportagem de Isabel Harari e Poliana Dallabrida, no “Repórter Brasil”, revelou que os empresários brasileiros que receberam esse dinheiro estavam fazendo outra coisa com ele.

Em vez de preservar a floresta, esses empresários contrataram trabalhadores para desmatá-la. E, pior ainda, submeteram 16 deles a condições análogas à escravidão. Ou seja, não é exagero dizer que a verba da sustentabilidade dessas grandes corporações financiou a destruição da Amazônia e a escravização do seu povo. E esse não foi um caso isolado.

Letras miúdas

Com o avanço do mercado de carbono pela Amazônia, populações que sempre viveram em harmonia com a floresta agora precisam lidar com a chegada de empresários oferecendo dinheiro fácil para “manter a floresta em pé”, promessas, aliás, que, muitas vezes, não são cumpridas. Os contratos, escritos em linguagem cifrada e letras miúdas, costumam restringir o uso tradicional que povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos sempre fizeram da terra, como no caso dos indígenas submetidos a vigilância por drones para não criarem roçados na aldeia.

Na prática, esse mercado tem funcionado como uma licença pras grandes poluidoras continuarem poluindo, às custas dos modos de vida dos povos do Sul Global. Se você gostar de números, talvez goste (e se irrite) de saber que, mesmo com todo o oba-oba em torno do mercado de carbono, ele tem se mostrado absolutamente incapaz de reduzir significativamente o nosso padrão de emissões de gases maléficos.

Uma revisão de dados de 39 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) constatou que a introdução de mecanismos de precificação de carbono para que ele pudesse ser negociado reduziu o crescimento das emissões em apenas 0,6% a 1,5% de 1990 a 2016, em relação ao que teria acontecido sem esses mecanismos.

Mesmo assim, nós tivemos em 2024 o ano mais quente da nossa história. E não existe nenhum sinal de que seremos capazes de limitar o aumento do aquecimento, apesar do ilusionismo que empresas e governos submetidos a elas continuam encenando em eventos como a COP.

A nossa única chance seria abandonar toda e qualquer falsa solução criada para satisfazer apenas as demandas do capitalismo, que, tendo causado a crise, nunca estará de fato interessado em resolvê-la. Mas, para isso, seria preciso ter um governo de fato comprometido com a preservação do bem-estar e do futuro da sua população – e não com a expansão ilimitada do capital.

REVISTA LIBERTA
Adriano Wilkson
Repórter, roteirista e apresentador de podcast. Atuou nas redações da Folha de S. Paulo e do UOL, onde cobriu edições das Olimpíadas e da Copa do Mundo. Produziu, roteirizou e apresentou o podcast “Os Grampos de Robinho” e trabalhou no documentário sobre o mesmo tema do Globoplay. Hoje, produz o podcast independente “Carrapato”.


Meio Ambiente: Salvar A Casa Comum

Salvar a Casa Comum

Cuidar da humanidade e garantir um futuro para a vida.

Se faz urgente uma ética do cuidado, da compaixão e da solidariedade.


A COP30 se propõe a diminuir a emissão de gazes de efeito estufa, sustar o desmatamento e reflorestar as áreas degradadas, além de buscar energias alternativas. As grandes pressões exercidas por um número crescente de lobbies do petróleo, do carvão, do gás e do agronegócio – como de outras vezes – impedem o consenso necessário e freiam decisões transformadoras.

Ademais, a questão séria mesmo é verificar se o aquecimento mundial firmou-se acima 1,5ºC – em 2024, chegou a 1,7ºC e, em alguns lugares, a 2ºC. Se isso se confirmar, estaríamos num caminho sem retorno, segundo vários especialistas. O aquecimento cresceria mais e mais. Foi constatado que o limite estabelecido de 1,5ºC até 2030 pelo Acordo de Paris de 2015 já foi antecipado e, assim, ultrapassado. As consequências na natureza e na humanidade podem ser altamente desastrosas.

Crise ecológica

Já em 2003, a Carta da Terra assumida pela ONU (um dos documentos mais fundamentais sobre o estado da Terra) advertia: “A escolha é nossa: ou formar uma aliança global para cuidar da Terra e cuidar uns dos outros ou arriscar a nossa destruição e a destruição da diversidade da vida”. E o Papa Francisco, na Carta Encíclica Fratelli tutti (2020), igualmente, admoestava: ”Estamos no mesmo barco: ou nos salvamos todos ou ninguém se salva” (nº 34).

Portanto, esse tema fundamental não consta na agenda da COP30: salvar a Casa Comum, cuidar da humanidade e garantir um futuro para a vida. Esta é a questão stantis et cadentis: inescapável.

No entanto, apesar de poderosos negacionistas como Donald Trump, cresce a consciência de que só temos uma única Casa Comum, o planeta Terra. Formamos, como espécie, uma única humanidade. Temos um destino comum, Terra, humanidade. Precisamos incorporar a visão que os astronautas nos legaram: vista da Lua ou das naves espaciais, não há diferença entre Terra e humanidade. Formamos uma única entidade complexa. Como humanos, somos aquela porção da Terra que sente, pensa, ama, cuida e venera.

Como sair dessa crise estrutural, planetária e paradigmática?

Uma coisa, para muitos, é indubitável: dentro do sistema capitalista e da cultura de consumo que ele criou, não há solução para a crise ecológica. Ou mudamos de paradigma e de rumo ou, como asseverou Zygmunt Bauman: “Vamos engrossar o cortejo dos que caminham na direção da vala comum”.
Equilíbrio perdido

Em primeiro lugar, devemos abandonar o paradigma da modernidade que afirmava o ser humano fora e acima da natureza, sentindo-se “dono e senhor” (dominus), em direção ao paradigma que sustenta o ser humano como parte da natureza e irmão (frater) de todos os demais seres, especialmente, de seus semelhantes humanos.

Em seguida, importa resgatar a importância do cérebro límbico, surgido com os mamíferos há mais de 100 milhões de anos. Nele, reside o afeto, o amor, a empatia, a cooperação. Nós, seres humanos, somos mamíferos racionais de afetividade, que amam e cuidam dos seres que geram. O cérebro neocortical, da razão instrumental-analítica, irrompeu há cerca de 8-9 milhões de anos.

Ocorre que, na cultura vigente, se recalcou a afetividade e a empatia em favor da dominação quase absoluta da razão intelectual-analítica, operando uma espécie de lobotomia em nós. Importa enriquecer esta razão (neocortex) com a inteligência cordial (cérebro límbico) para refazer o equilíbrio perdido. E estabelecer um laço de amor à Terra.

Depois, importa dar centralidade à vida em função da qual estão a política, a economia e a cultura. Nosso sistema produz morte da natureza e de milhões de seres humanos. Por isso, é imperioso denunciar todos os sistemas que dizimam ecossistemas e produzem miséria.

Insistir no fato de que a paz só será possível se for superada a injustiça social mundial, o que só será possível se houver mais equidade em todas as relações. A paz, além de fruto da justiça socioambiental, resulta do cuidado que a humanidade cultiva de uns para com os outros e com a natureza.

Face à falta de sustentabilidade da sociedade mundial e da natureza, se faz urgente uma ética do cuidado, da compaixão, da responsabilidade e da solidariedade. O cuidado pertence à essência da vida e do humano. Ele é a precondição para que emerja a vida. É o norteador antecipado de todo o comportamento para que seja benfazejo para a vida e para os outros, e não destrutivo. É uma atitude amorosa que dá segurança e proteção à Casa Comum.

Dimensão espiritual

Uma ética sozinha não dá conta dos problemas mundiais. Assim como uma estrela não brilha sem uma aura, assim uma ética não será assumida se não estiver imbuída de espiritualidade.

A espiritualidade não é monopólio das religiões. Como se impõe mais e mais pela new science (cosmogênesis, neurociências, biologia genética), a espiritualidade é natural e pertence à essência de nossa humanidade. Dela nascem as religiões, mas não se identifica com elas. Manifesta-se pelos valores intangíveis, como o amor, a empatia, compaixão e o contentamento.

Esses valores e motivações vão além dos interesses pessoais e coletivos e se ancoram no caráter precioso da realidade, na gratuidade do bem e na abertura ao Todo. Pela espiritualidade se capta aquela energia poderosa e amorosa (Energia de Fundo), que subjaz e sustenta todos os seres. Não a dominamos, mas podemos abrir-nos a ela e tornar nossa existência mais apetecida, feliz e amiga da vida.

A dimensão espiritual é despertada quando resgatamos o princípio feminino, presente no homem e na mulher. Durante séculos, foi recalcado ou tornado invisível socialmente. O princípio feminino é aquela energia que nos faz sensíveis aos valores da interioridade, da gratuidade, do cuidado, da vida e da comunhão, e que nos faz captar as mensagens vindas da realidade, que nos permite entender os símbolos e nos abre para o mistério da vida e do sagrado.

Durante séculos, temos vivido sob a dominação do masculino (presente no homem e na mulher), que responde pela razão analítica, pelo uso do poder e pela conquista do mundo exterior. Hoje, ambos os princípios devem ser integrados, mas a partir do polo que a nossa cultura menos cultivou, que é o feminino. Então, teremos uma experiência mais completa e integral do ser humano, homem e mulher.

Por fim, devemos ser, na bela expressão do ecologista Roberto Malvezzi, “como os peixes da piracema, que só desovam nadando contra a corrente (o atual sistema) e assim reproduzindo a vida”.

Leonardo Boff
Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.



sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Meio Ambiente: COP 30 BELÉM

COP 30 BELÉM

Pará, Amazônia 
- 2025 -

Adaptação sem prevenção: risco de capitulação?

Temos que considerar outro paradigma, que evite os desastres ambientais

Escreveu o franco-brasileiro Michael Löwy, pesquisador na Sorbonne: “Se a COP30 privilegiar a adaptação, em detrimento da prevenção, ficará na memória das pessoas como a COP da capitulação” (artigo publicado no portal A Terra é Redonda, em 26/10/25).

Esta afirmação, que nos parece estranha, está, na verdade, bem fundamentada.

A COP30 tratará, fundamentalmente, do aquecimento global e da busca de energias alternativas que não produzam efeito estufa. O grande pano de fundo em Belém é a presença da floresta amazônica, fator básico para o equilíbrio dos climas terrestres. André Corrêa do Lago, presidente da COP30, declarou: “Gostaria muito que as pessoas se lembrassem da COP30 como uma COP da adaptação”.

Seguramente, todas as sociedades devem adaptar-se às mudanças climáticas. Por mais que rejeitem o aquecimento global, os negacionistas não podem negar os fatos: secas severas, nevascas nunca antes vistas, inundações desastrosas (como as ocorridas no Rio Grande do Sul), crescente desertificação, diminuição drástica de água potável, incêndios florestais apavorantes na Amazônia, no Pantanal, na Califórnia e em outros tantos lugares no mundo, sem falar dos frequentes tornados e na erupção dos vulcões.

Tais fatos trágicos confirmam que já estamos dentro do aquecimento global. Cientistas reconhecem que a ciência não pode reverter este fenômeno; ela pode apenas advertir a chegada de eventos extremos e mitigar seus efeitos danosos.
Ponto da virada

Sabemos, hoje, que os seres humanos lançaram na atmosfera 2.390 bilhões de toneladas de CO2 entre1850 a 2019. Dados recentes do observatório europeu Copernicus indicam que a temperatura média global, em 2025, chegou a 1,49°C acima dos níveis pré-industriais, ultrapassando os tipping points (pontos de inflexão ou pontos de virada) traçados pelo Acordo de Paris, em 2015, que seriam os de não ultrapassar a marca de 1,5°C até 2030. Em outras palavras, antecipamos os dados.

Em função disso, todas as sociedades situadas em montanhas, como Petrópolis e Teresópolis (no Rio de Janeiro) e outras, devem adaptar-se aos possíveis grandes deslizamentos de terra, que implicam o risco de destruição de inúmeras casas com registro de vítimas fatais. Mas resignar-se apenas a essa estratégia de adaptação representa uma capitulação, achando que pouco nos resta a fazer exceto aceitar o aquecimento e adaptar-se a ele. Temos que considerar outro paradigma, que tenha um aquecimento amigável à vida e suportável por todos os humanos.

Não basta que cidades do Vale do Taquari e mesmo Porto Alegre, às bordas do Guaíba, realizem apenas adaptações, o que o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, órgão das Nações Unidas criado em 1988) chama de estabelecer “a trajetória da resiliência climática”, mantendo os mesmos lugares afetados, com meras adaptações. O que ocorreu é apenas o começo. Tudo indica que o aquecimento vai aumentar, podendo chegar a 2°C ou mais até 2030. Muitos não conseguirão adaptar-se na natureza e na humanidade.

Não à resignação

Devemos partir do fato de que a Terra não é mais a mesma. Estamos numa nova era, a do antropoceno/necroceno/piroceno, que exige mais do que adaptações.

É urgente, dentro ainda do sistema imperante, a prevenção, vale dizer, criar infraestruturas que prevejam o que virá e evitem os desastres e a proliferação de vírus e bactérias para salvar a vida humana, em especial, dos mais frágeis. Caso contrário, os danos serão fatais. Como se depreende, exige-se um outro paradigma de habitar a Casa Comum, que vá além da adaptação e da prevenção.

Em termos planetários, poderemos estar diante da extinção das espécies, não excluída a humana. Por esta razão, a COP30 pode ser decisiva: ir além da adaptação proposta, pensar num outro paradigma e forjar, dentro da atual situação, formas de prevenção que protejam a integridade do planeta, a continuidade dos países insulares, a preservação maior possível da biodiversidade e que também forneçam a garantia de um futuro possível e melhor para a espécie humana.

Ficar apenas nas adaptações, sem as prevenções nos lugares atingidos pelos desastres ecológicos, tendo, talvez, que trocar de lugar ou criar fortes estruturas preventivas, seria realizar o que Michel Löwy advertiu: uma capitulação. Não à resignação, mas realizar a prevenção e a busca de um novo paradigma. Caso contrário, vale o que Bertold Brecht disse: “Quem luta pode perder. Quem não luta já perdeu”. Então, há que lutar para chegarmos a um outro paradigma, que seja benigno para Terra e para a vida.

Leonardo Boff
Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.