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sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Meio Ambiente: COP 30 BELÉM

COP 30 BELÉM

Pará, Amazônia 
- 2025 -

Adaptação sem prevenção: risco de capitulação?

Temos que considerar outro paradigma, que evite os desastres ambientais

Escreveu o franco-brasileiro Michael Löwy, pesquisador na Sorbonne: “Se a COP30 privilegiar a adaptação, em detrimento da prevenção, ficará na memória das pessoas como a COP da capitulação” (artigo publicado no portal A Terra é Redonda, em 26/10/25).

Esta afirmação, que nos parece estranha, está, na verdade, bem fundamentada.

A COP30 tratará, fundamentalmente, do aquecimento global e da busca de energias alternativas que não produzam efeito estufa. O grande pano de fundo em Belém é a presença da floresta amazônica, fator básico para o equilíbrio dos climas terrestres. André Corrêa do Lago, presidente da COP30, declarou: “Gostaria muito que as pessoas se lembrassem da COP30 como uma COP da adaptação”.

Seguramente, todas as sociedades devem adaptar-se às mudanças climáticas. Por mais que rejeitem o aquecimento global, os negacionistas não podem negar os fatos: secas severas, nevascas nunca antes vistas, inundações desastrosas (como as ocorridas no Rio Grande do Sul), crescente desertificação, diminuição drástica de água potável, incêndios florestais apavorantes na Amazônia, no Pantanal, na Califórnia e em outros tantos lugares no mundo, sem falar dos frequentes tornados e na erupção dos vulcões.

Tais fatos trágicos confirmam que já estamos dentro do aquecimento global. Cientistas reconhecem que a ciência não pode reverter este fenômeno; ela pode apenas advertir a chegada de eventos extremos e mitigar seus efeitos danosos.
Ponto da virada

Sabemos, hoje, que os seres humanos lançaram na atmosfera 2.390 bilhões de toneladas de CO2 entre1850 a 2019. Dados recentes do observatório europeu Copernicus indicam que a temperatura média global, em 2025, chegou a 1,49°C acima dos níveis pré-industriais, ultrapassando os tipping points (pontos de inflexão ou pontos de virada) traçados pelo Acordo de Paris, em 2015, que seriam os de não ultrapassar a marca de 1,5°C até 2030. Em outras palavras, antecipamos os dados.

Em função disso, todas as sociedades situadas em montanhas, como Petrópolis e Teresópolis (no Rio de Janeiro) e outras, devem adaptar-se aos possíveis grandes deslizamentos de terra, que implicam o risco de destruição de inúmeras casas com registro de vítimas fatais. Mas resignar-se apenas a essa estratégia de adaptação representa uma capitulação, achando que pouco nos resta a fazer exceto aceitar o aquecimento e adaptar-se a ele. Temos que considerar outro paradigma, que tenha um aquecimento amigável à vida e suportável por todos os humanos.

Não basta que cidades do Vale do Taquari e mesmo Porto Alegre, às bordas do Guaíba, realizem apenas adaptações, o que o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, órgão das Nações Unidas criado em 1988) chama de estabelecer “a trajetória da resiliência climática”, mantendo os mesmos lugares afetados, com meras adaptações. O que ocorreu é apenas o começo. Tudo indica que o aquecimento vai aumentar, podendo chegar a 2°C ou mais até 2030. Muitos não conseguirão adaptar-se na natureza e na humanidade.

Não à resignação

Devemos partir do fato de que a Terra não é mais a mesma. Estamos numa nova era, a do antropoceno/necroceno/piroceno, que exige mais do que adaptações.

É urgente, dentro ainda do sistema imperante, a prevenção, vale dizer, criar infraestruturas que prevejam o que virá e evitem os desastres e a proliferação de vírus e bactérias para salvar a vida humana, em especial, dos mais frágeis. Caso contrário, os danos serão fatais. Como se depreende, exige-se um outro paradigma de habitar a Casa Comum, que vá além da adaptação e da prevenção.

Em termos planetários, poderemos estar diante da extinção das espécies, não excluída a humana. Por esta razão, a COP30 pode ser decisiva: ir além da adaptação proposta, pensar num outro paradigma e forjar, dentro da atual situação, formas de prevenção que protejam a integridade do planeta, a continuidade dos países insulares, a preservação maior possível da biodiversidade e que também forneçam a garantia de um futuro possível e melhor para a espécie humana.

Ficar apenas nas adaptações, sem as prevenções nos lugares atingidos pelos desastres ecológicos, tendo, talvez, que trocar de lugar ou criar fortes estruturas preventivas, seria realizar o que Michel Löwy advertiu: uma capitulação. Não à resignação, mas realizar a prevenção e a busca de um novo paradigma. Caso contrário, vale o que Bertold Brecht disse: “Quem luta pode perder. Quem não luta já perdeu”. Então, há que lutar para chegarmos a um outro paradigma, que seja benigno para Terra e para a vida.

Leonardo Boff
Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.