Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
Mostrando postagens com marcador Leonardo Boff Educação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Leonardo Boff Educação. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Educação: Sexualidade e a Plena Comunhão

Sexualidade: caminho para a não-dualidade e a plena comunhão.

Com ela e através dela, busca-se a união suprema entre os parceiros e o universo.

REVISTA LIBERTA
Leonardo Boff
25 abr 2026 - 05h00

Num artigo anterior, mostramos como o feminino é a fonte-matriz do masculino. É o caminho ocidental que usa a antropologia e a psicologia. Mas, com referência à mulher, Freud diz que ela é um ser inferior e Lacan acrescenta que ela não existe porque não pode ser definida. Esqueçamos estes laivos de machismo cultural atávico. Vamos ao olhar oriental, que é mais fecundo e menos preconceituoso.

A visão oriental da sexualidade segue outro caminho, diverso daquele ocidental. Desenvolve uma antropologia extremamente refinada. Exemplo: para a tradição do Yoga e do Tao, a sexualidade não é vista como algo em si mesmo. Ela é integrada num todo maior. Com ela e através dela, busca-se alcançar a experiência de não-dualidade, quer dizer, propiciar uma união suprema entre os parceiros e o universo.

A antropologia yoga trabalha com a realidade na kundalini, que se expressa pelos sete chacras (centros energéticos). Kundalini, em sânscrito, significa a energia da serpente cósmica: é aquela energia universal, que enche o universo todo, representada pelo dragão e pela serpente alada. Os cosmólogos modernos falam da energia de fundo ou o abismo gerador de todos os seres.
Energia vital

A kundalini, qual serpente, estaria enrolada dentro de cada um de nós, na parte inferior do corpo (no cóccix), com a cabeça erguida, pronta para fazer a sua trajetória. Na kundalini se concentra a energia vital da sexualidade.

Uma vez despertada, ela passa pelos muitos centros vitais, no sacro enrolada em si mesma na forma fogo; após, pelo chacra dos órgãos genitais e reprodutivos; passa ao chacra solar (umbigo), pelo qual entra a energia de todo o universo; daí vem o chacra do coração, que propicia a experiência do amor e da empatia; o chacra do pulmão, com o qual inspiramos e expiramos energia; depois, emerge o chacra frontal, entre os dois olhos, chamado também de terceiro olho, o qual nos permite ver a terceira margem da realidade, portanto, uma visão de totalidade; e, finalmente, o chacra da glândula pineal, no alto da cabeça, que nos concede uma experiência de totalidade e de comunhão com o Todo universal.

Na nossa cultura, entretanto, a kundalini ficou preferentemente fixada no chacra dos órgãos genitais, ligada àquela excitação erótica que desperta os sentidos, ejacula, realiza a descarga e relaxa. Se ficar nisso, se não passar pelos vários chacras, ela perde uma experiência da totalidade plenificadora e do amor profundo, fruto de uma entrega.

Afirma-se que o homem possui imensa dificuldade de uma entrega total, pois trata-se de uma experiência de morte. Ele a interrompe no meio. Ao não entregar-se, se priva da experiência mais completa. Em geral o homem se satisfaz, relaxa e dorme. A mulher se vira e chora, frustrada, porque não aconteceu a entrega total, não se fez o percurso pelos chacras, não se sentiu o amor real, não se deu o alargamento da consciência até chegar à superação da dualidade, pela qual ele e ela mergulham numa unidade profunda. Ela tem outro ritmo, que deve ser conhecido pelo parceiro: saber esperar e ajudá-la pela carícia essencial a chegar ao seu clímax. Então, relaxa.

Realizando-se esta compreensão mais integradora e holística, revela-se melhor o mistério que a sexualidade esconde, aquela dimensão ligada à reprodução da vida e, ao mesmo tempo, a que permite uma comunhão entre os dois com o todo que transcende a ambos.
Fluir natural

Outro é o caminho do Tantra, seja no hinduísmo ou no taoísmo. Tantra, em sânscrito, possui muitas definições. A mais significativa é a da urdidura, como se fossem fios fazendo a unidade do tecido. Diríamos, é o total entrosamento sexual do homem e da mulher, uma entrega sem freios, de forma que supera a dualidade homem-mulher e forma um todo. O homem se une tanto à mulher que se torna mulher, e a mulher se torna homem.

Normalmente, se entende mal o Tantra, como se fosse uma técnica de prolongamento da relação sexual. O sentido do Tantra é totalmente outro. Afirma a sexualidade que é inata e vulcânica. Mas ela não se basta a si mesma. Ela é o caminho daquilo que, talvez, seja o mais difícil para os humanos: a total entrega e uma radical experiência de sua bioenergia em seu fluir natural.

Em primeiro lugar, exige-se um relaxamento completo, sem visar a um fim a ser alcançado. Em seguida. homem e mulher se relacionam sexualmente não buscando a ejaculação ou o clímax. Ao contrário, supõe em ambos completo autocontrole da capacidade sexual.

Cada um, totalmente relaxado, esquecendo-se de tudo e de todos, se concentra totalmente no outro ao fluir da energia sexual. Vai irrompendo, lentamente, tal unidade entre eles, que se tornam um, vale dizer, superam a tão ansiada não-dualidade. É um êxtase, a suprema realização humana. O abraço profundo pode durar horas e horas, sem ejacular ou chegar ao clímax. O resultado final é um radical relaxamento e a experiência de uma unidade total entre ambos, incluindo todas as coisas. Vive-se um arrebatamento que perdura vários dias, tal é a radicalidade desta uni-fic-ação (cf. Bhagawan Shree Rajneesh,Tantra: Sexo e Espiritualidade, Agora, São Paulo 1977).

Como se depreende, a sexualidade, seja no Yoga ou no Tantra, possui seu lado instintivo e, ao mesmo tempo, ao nível da consciência, torna-se um caminho da mais alta comunhão, isto é, alcançando a não-dualidade. Não sem razão, da sexualidade se origina o bem maior, a vida humana em suas várias expressões. Ela é a natural e sagrada fonte de espiritualidade e experiência do Divino.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Ciência e Sociedade: O fim do princípio Adão

O fim do princípio-Adão: 
o feminino é anterior ao masculino
"A vida é feita mais de cooperação e simbiose do que de luta competitiva"


Leonardo Boff
Em: 11 de abril de 2026

Texto dedicado às bravas mulheres e meninas da comunidade ICL

A vida já existe na Terra há 3,8 bilhões de anos. O antepassado comum de todos os viventes foi, provavelmente, uma bactéria unicelular sem núcleo, que se multiplicava espantosamente por divisão interna ou por clonagem. Na clonagem, se não houver controle sobre a bactéria, em três dias ela toma conta do planeta, tal é sua vontade de vida e de automultiplicação. Mas sempre prevalece um equilíbrio que autolimita este processo, caso contrário, teríamos graves desequilíbrios ecológicos, a ponto de a vida se tornar impossível. Isso durou cerca de um bilhão de anos.

Em seguida, surgiu uma célula com membrana e dois núcleos, dentro dos quais se encontravam os cromossomos. Nela se identifica a origem do sexo. Quando ocorria a troca de núcleos entre duas células binucleadas, gerava-se um único núcleo com os cromossomos em pares. Antes, as células se subdividiam por clonagem, agora, se dá pela troca entre duas células diferentes com seus núcleos. Revela-se, assim, a simbiose – composição de diferentes elementos –, que, junto com a seleção natural, representa uma (não a única) das forças importantes da evolução.

Princípio da Interdependência

O que muitos biólogos sustentam – inclusive, o astrofísico Stephen Hawking, em seu livro O Universo numa Casca de Noz (Mandarim, São Paulo 2001) – é que, na evolução e no processo biogênico, não há simplesmente o triunfo do mais adaptável, como pretendia Darwin. Tal visão é ainda insuficiente, pois não toma em conta as interdependências existentes entre todos os seres, já no seu nível físico-químico, bem antes do surgimento da vida. É essa interdependência, a cooperação de todos com todos, que constitui a linha mestra do processo evolucionário.

A competição com a chance de o mais adaptável triunfar só é possível no interior da interdependência e cooperação universal. O fraco também possui a sua chance e o seu lugar e, graças à interdependência, sobrevive. Este princípio originário da interdependência de todos com todos funda a sustentabilidade e explica a biodiversidade e a pujança da vida.

Christian de Duve, Prêmio Nobel de Medicina, chega a dizer em seu conhecido livro Poeira Vital: A Vida Como Imperativo Cósmico (Campus 1997) : “A vida é como uma praga tão violenta que jamais se conseguiu exterminá-la” (p. 368). Ocorreram na história da Terra 15 grandes dizimações de espécies vivas, mas ela, a Terra viva, conseguiu sempre refazer a biodiversidade e ainda enriquecê-la.

Quando surgiu a sexualidade, com a bipolaridade masculino/feminino, veio junto a grande diversidade e a singularidade dos seres vivos. A troca do material genético se dá sempre sob um quociente quântico, isto é, sempre está vigente o princípio de indeterminação de Werner Heisenberg. Não se sabe exatamente o que resulta das conjunções e que enriquecimentos ocorrem a partir dos dois tipos de capital genético, do feminino e do masculino.

Tal fato tem consequências filosóficas: a vida é tecida mais de trocas, de cooperação e de simbiose do que da luta competitiva pela sobrevivência e pela concorrência, como no nível dos negócios.

Quando se alcança o nível consciente e livre, essa riqueza e essa troca passam da dimensão da exterioridade biológica para a da interioridade subjetiva, vale dizer, para o projeto pessoal. A sexualidade pode se transformar num propósito de vida, vivido a dois e em liberdade, expresso pelo amor. Esta opção não é mais regida pelo código genético que a biologia descreve. Aqui valem outros princípios ligados à inovação, à liberdade, à cooperação consciente, ao cuidado, ao amor sobre os quais se estruturam relações novas, criativas e livres também entre homem com homem ou mulher com mulher.

Retomando o fio da meada: nos dois primeiros bilhões de anos, nos oceanos ou nos lagos, de onde irrompeu a vida, não existiam órgãos sexuais específicos. Havia uma existência feminina generalizada, que, no grande útero dos oceanos, lagos e rios, gerava vidas. Nesse sentido, podemos dizer que o princípio e originário é o princípio feminino, e não o masculino. Assim, se invalida o mito bíblico e cultural da primazia de Adão (do masculino).

Só quando os seres vivos deixaram o mar, lentamente, foi surgindo o pênis, algo masculino, que, tocando a célula fêmea, passava a ela parte de seu DNA, onde estão os genes.

Com o aparecimento dos vertebrados, os répteis, há 370 milhões de anos, estes criaram o ovo amniótico cheio de nutrientes e consolidaram a vida em terra firme. Com o surgimento dos mamíferos, há cerca de 125 milhões de anos, já despontou uma sexualidade definida de macho e fêmea. Aí emerge o cuidado, o amor e a proteção da cria. Há 70 milhões de anos, apareceu o nosso ancestral humano, que vivia na copa das árvores, nutrindo-se de brotos e de flores. Com o desaparecimento dos dinossauros, há 67 milhões de anos, ele pôde ganhar o chão e se desenvolver chegando até os dias de hoje.

Dimensão Ontológica

Cabe detalhar melhor a complexidade implicada na sexualidade.

O sexo genético-celular humano apresenta o seguinte quadro: a mulher se caracteriza por 22 pares de cromossomos somáticos mais dois cromossomos X (XX). O homem possui também 22 pares, mas com apenas um cromossomo X e outro Y (XY). Daí se depreende que o sexo-base é feminino (XX), sendo que o masculino (XY) representa uma derivação dele por um único cromossomo (Y). Portanto, não há um sexo absoluto, apenas um dominante. Em cada um de nós, homens e mulheres, existe “um segundo sexo”.

Com referência ao sexo genital-gonadal, importa reter que, nas primeiras semanas, o embrião apresenta-se andrógino, vale dizer, possui ambas as possibilidades sexuais, feminina ou masculina. A partir da oitava semana, se um cromossomo masculino Y penetrar no óvulo feminino, mediante o hormônio androgênio, a definição sexual será masculina. Se nada ocorrer, prevalece a base comum, feminina.

Em termos do sexo genital-gonadal, podemos dizer: o caminho feminino é primordial. A partir do feminino se dá a diferenciação, o que desautoriza o fantasioso “princípio-Adão”. A rota do masculino é uma modificação da matriz feminina, por causa da secreção do androgênio.

Existe ainda o sexo hormonal. Todas as glândulas sexuais no homem e na mulher são comandadas pela hipófise, sexualmente neutra, e pelo hipotálamo, que é sexuado. Estas glândulas secretam no homem e na mulher os dois hormônios: o androgênio (masculino) e o estrogênio (feminino). São responsáveis pelas características secundárias da sexualidade.

A predominância de um ou de outro hormônio produzirá uma configuração e um comportamento com características femininas ou masculinas. Se no homem houver uma impregnação maior do estrogênio, terá alguns traços femininos; o mesmo se dá com a mulher com referência ao androgênio, aparecendo alguns traços masculinos.

Por fim, importa dizer que a sexualidade possui uma dimensão ontológica. Quer dizer, o ser humano não possui sexo. Ele é sexuado em todas as suas dimensões, corporais, mentais e espirituais. Antes da emergência da sexualidade, o mundo é dos mesmos e dos idênticos. Com a sexualidade, emerge a diferenciação pela troca entre diferentes. São diferentes para poderem estabelecer laços de convivência e de inter-relação.

Tal fato tem consequências antropológicas: a vida é tecida mais de trocas, de cooperação e de simbiose do que da luta competitiva pela sobrevivência.

É o que ocorre com a sexualidade humana: cada um, além da força instintiva que sente em si, sente também a necessidade racional-afetiva de canalizar e sublimar tal força. Quer amar e ser amado, não por imposição, mas por liberdade.

A sexualidade desabrocha no amor, a força mais poderosa “que move o céu e as estrelas” (Dante) e também nossos corações. É a suprema realização que o ser humano pode almejar. Mas, retenhamos: o feminino é anterior, ele surge primeiro e é básico. O masculino só veio muito mais tarde no processo da sexogênese. Porém, ambos se encontram para compor a unidade diversificada da espécie humana, de mulher e de homem.

_____________________________________

Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.