Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
Mostrando postagens com marcador Instituto conhecimento liberta. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Instituto conhecimento liberta. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Políticas públicas: Assassinos da Cultura

A gloriosa vingança contra os assassinos da cultura.

A arte brasileira sobreviveu às trevas que porta-vozes das políticas extremistas desejam retomar.

Protesto contra o cancelamento da exposição, 'Queermuseu'.

Revisra Liberta

O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro. O título do faroeste nacional dirigido pelo baiano Glauber Rocha – de Vitória da Conquista para o mundo, com sua ópera em cordel – encaixa direitinho no episódio de blasfêmia do pastor Silas Malafaia contra Wagner Moura.

Depois do triunfo do filme brasileiro O Agente Secreto no Globo de Ouro, no domingo passado, o agitador político da extrema direita xingou o artista de cretino. O líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo desafinou, no seu falsete característico, em defesa de Jair Bolsonaro, definido pelo ator como um ex-presidente fascista.

Malafaia puxou o coro dos descontentes com a premiação de O Agente Secreto nos EUA. O exército bolsonarista seguiu, nas redes sociais, nos rastros do ódio do pregador. Vivemos Dias de Ira – agora, citando outro filmaço das antigas, o “western spaghetti” com Lee Van Cleef e Giuliano Gemma.

Leitor da Bíblia, o pastor sabe que a ira, nesse caso, repousa no íntimo dos tolos, como registra o livro do Eclesiastes. A desesperada pregação, porém, revela o inconformismo dos fascistas tropicais – religiosos ou não-praticantes – com a evidência de que não assassinaram a cultura brasileira como premeditaram.

A cultura, aqui tratamos no sentido das produções artísticas, foi alvejada no período de 2018 a 2022, mas seguiu viva (e se bolindo), mesmo sob ataque permanente dos clubes de tiro.
Safra vingadora

O cinema, por causa do cartaz internacional do momento, é o alvo principal dos representantes da extrema direita. O ódio, porém, alcança a literatura (nas censuras e proibições a livros como O Avesso da Pele, de Jéferson Tenório), a música, o teatro e as artes plásticas. Nada escapa.

De forma mais organizada, esse tipo de ataque começou ainda na pré-campanha eleitoral de Jair Bolsonaro, em 2017, quando o MBL, ala juvenil extremista, atacou a exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, no Santander Cultural, em Porto Alegre. As autoridades gaúchas referendaram o vandalismo praticado pelo movimento de jovens fascistas contra obras relevantes de Adriana Varejão, Cândido Portinari, Lygia Clark e Leonilson, entre outros.

No governo bolsonarista, a assombração ganhou ares de nazismo. Na época, o secretário nacional de Cultura, Roberto Alvim, copiou, em pronunciamento, trechos de um discurso do ministro da Propaganda de Adolf Hitler, Joseph Goebbels.

Por ter sobrevivido a toda essa má sorte, a arte brasileira do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho pratica sua dourada vingança com O Agente Secreto, em nome dos sufocados do período de trevas, que Malafaia & Cia. desejam retomar.

Os prêmios para o ator baiano Wagner Moura e o de melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro são apenas os troféus mais reluzentes de uma safra vingadora, que larga com o fenômeno Ainda Estou Aqui e conta, agora, com mais dois cineastas recifenses de sucesso: Gabriel Mascaro e Marianna Brennand.

Mascaro dirigiu O Último Azul (com Rodrigo Santoro) e ganhou o Urso de Prata, o grande prêmio do Festival de Berlim, em 2025. Marianna foi premiada em Cannes, Veneza e concorre ao Goya da Espanha, em fevereiro.

O pastor Silas Malafaia, porta-voz da extrema direita, ainda terá muitos motivos para seus espetaculares falsetes do ódio e do ressentimento. Que venha o Oscar.

Xico Sá
Escritor e jornalista, faz parte da equipe de apresentadores do ICL Notícias. Com passagem por diversas redações e emissoras de tv, ganhou os prêmios Esso, Folha, Abril e Comunique-se. Participou de programas como Notícias MTV, Cartão Verde (Cultura), Redação Sportv, Papo de Segunda (GNT) e Amor & Sexo (Globo). É autor de Big Jato (Companhia das Letras) e A Falta (Planeta), entre outros livros. O colunista nasceu no Crato, na região do Cariri cearense, e iniciou sua trajetória profissional no Recife.


quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Histórias do Brasil: Democracia

O que significa soberania de um país?

' O atentado de 8 de Janeiro e as pessoas mais feias do mundo '


O macabro jardim de infância do fascismo contemporâneo.

“Eu sei que não é legal dizer, mas essas pessoas são uma bagunça.

São as pessoas mais feias que eu já vi”.


Trump, Donald – 2026
presidente norte americano


08/01/2026.
Quinta-feira, 8 de janeiro de 2026. Há exatos três anos, o Planalto Central era invadido por uma turba enfurecida e ao mesmo tempo festiva. Mulheres e homens adultos de todas as idades, como crianças sem limites e achando-se heróis da pátria, faziam sim história, porém como o lado patético, bizarro e criminoso ao demonstrarem um prazer quase que sexual em depredar prédios públicos, emporcalhar gabinetes e destruir patrimônio histórico.

Feito uma turma de pré-adolescentes saída de algum filme de terror, os “patriotas” acharam-se livres para pôr em prática uma tomada de poder como se estivessem em um vídeo game e, mais que isso, tinham certeza da imunidade e da impunidade. Quando viram que deram com os burros n’água, tentaram atribuir o ocorrido a “infiltrados”. Não colou e brincar de dar golpe saiu caríssimo para os próprios, mas principalmente para o país.

Trinta e seis meses depois, os mesmos que acharam que estava tudo bem atentar contra a democracia, ainda pensam da mesma maneira e no percurso trataram de festejar a eleição de Donald Trump, estender e celebrar a bandeira estadunidense em solo brasileiro, comemorar a taxação do país, parar a nação por meses trancando pautas urgentes e mobilizando toda a mídia para debater e enfiar goela abaixo anistia, redução de pena, benesses, alívios, proteções … ufa!

Trabalhosa, custosa, cruel e mortal. Essa é a definição de uma vertente política que paralisa uma nação para fazer valer os próprios delírios, caprichos, interesses e desejos de dominação.

Por último, é um tal de vibrar com a invasão da Venezuela, como se o capitalista que se fez presidente nos EUA estivesse muito preocupado com ditadura. Como se não fosse aliado de grandes ditadores e tivesse vocalizado com o mesmo tom de voz debochado e enfadonho de sempre, que entrou porque está disposto a pegar na mão grande as riquezas do país vizinho.

A alegria da extrema direita brasileira em cima da queda de Nicolás Maduro, toda calcada na esperança de que talvez o presidente brasileiro — que eles chamam de ditador — tivesse o mesmo fim, faz questão de fechar os olhos para o fato de que o presidente mimado, que brinca de dono do mundo, também aqui estaria pouco se lixando para o povo. Principalmente para eles, os políticos capachos de gringo. Estes seriam os primeiros descartados numa possível nova ordem, como foi Marina Corina Machado, a opositora de Maduro e ganhadora do Prêmio Nobel da Paz que acha lindo soluções por vias bélicas.

Todo este extenso, dispendioso e mortal processo por que temos — os americanos de norte a sul —, suportado nos últimos anos é fruto da mesma massa ressentida e desejosa de manutenção de privilégios, volta ao século 20 em certos aspectos e em outros ao 19 e 18.

Os manifestantes venezuelanos marchando contra tudo isso no último dia 6, em Nova Iorque, receberam do idoso branco pintado de laranja, cabelo cor de rosa e que se acha muito lindo, a alcunha de “pessoas mais feias do mundo”. Para ele, a Venezuela, o Brasil, a Colômbia, etc… são um aglomerado de gente feia sentada em cima de riquezas essenciais para o poder dos “bonitos”.

O atual presidente dos Estados Unidos é o representante máximo de uma extrema direita que se apresenta como um jardim de infância de gente minúscula, mesquinha, cruel e profundamente interesseira, mas, seja você um patriota do 8 de janeiro ou um opositor ferrenho a tudo isso, por aqui todos e todas são “uma bagunça” para Donald Trump.

Para ele, todos e todas somos “as pessoas mais feias do mundo”.

@ICL

Eliana Alves Cruz é carioca, escritora, roteirista e jornalista. Foi a ganhadora do Prêmio Jabuti 2022 na categoria Contos, pelo livro “A vestida”. É autora dos também premiados romances Água de barrela, O crime do cais do Valongo; Nada digo de ti, que em ti não veja; e Solitária. Tem ainda dois livros infantis e está em cerca de 20 antologias. Foi colunista do The Intercept Brasil, UOL e atuou como chefe de imprensa da Confederação Brasileira de Natação.


sábado, 27 de dezembro de 2025

Meio Ambiente: Leonardo Boff

O Natal e a ecologia profunda.
A tradição cristã viu o nascimento do Filho de Deus cercado de elementos ecológicos.


27 dez 2025

A ecologia é mais do que uma técnica de gerenciamento de bens e serviços naturais cada vez mais escassos. Tão escassos que a Mãe Terra se sente extenuada, pois o consumo humano mais aquele da natureza estão exigindo uma Terra e meia para atender a todas as demandas. Por isso, nós, humanos, devemos nos preparar para reinventar um outro caminho, se quisermos garantir um futuro para o nosso tipo de civilização.

Nem por isso deixaremos de fazer uma referência entre o Natal e a ecologia. Esta é mais do que o meio ambiente a ser urgentemente preservado. Ela possui uma dimensão do Profundo em nós.

A tradição cristã viu o nascimento do Filho de Deus, Jesus de Nazaré, cercado de elementos ecológicos: nasceu numa estrebaria, colocado sobre palhinhas e junto a um boi e um jumento (que, segundo certos relatos, aqueciam o Menino com seu bafo), com ovelhas distribuídas no campo. Há ainda uma estrela que iluminou a noite dos pastores e guiou os sábios vindos do Oriente.

Há um texto de grande beleza, que é cantado na liturgia de Natal, o qual mostra uma comoção cósmica, significando a entrada do Filho de Deus em nosso mundo. Quando tudo estava em profundo silêncio e a noite no meio de seu curso, eis o que aconteceu:

Então, as folhas que farfalhavam pararam como mortas.

Então, o vento que sussurrava ficou parado no ar.

Então, o galo que cantava parou no meio de seu canto.

Então, as águas do riacho que corriam se estancaram.

Então, as ovelhas que pastavam ficaram imóveis.

Então, o pastor que erguia o cajado ficou petrificado.

Então, nesse momento, tudo parou, tudo silenciou, tudo se suspendeu:

Nasceu Jesus, o salvador do mundo e do universo.

Como se depreende, as coisas não ficaram indiferentes à inserção do Divino em nossa história. Elas se prepararam, silentes, para recebê-lo.

Flor de Natal

Contam-se também histórias comoventes, como esta que surgiu entre os cristãos do México, pois lá existe uma flor chamada de Bico de Papagaio ou Espírito Santo. Ela possui folhas menores verdes e outras maiores vermelhas. Ela é associada ao Natal por causa da história que contarei a seguir, que possui seu lado ecológico.

Uma senhora pobre queria dar um presente ao Menino Jesus. Mas era tão pobre que não tinha nada para oferecer. Em sua simplicidade, colheu uma plantinha junto à estrada e levou-a até ele. Colheu a plantinha e foi, alegre, oferecê-la ao Menino Jesus no presépio. As pessoas que estavam perto começaram a rir da pobre senhora. Ela ficou tão envergonhada que começou a chorar.

As lágrimas cairam sobre as folhas verdes, que se transformaram em vermelhas. Por isso, esta planta é chamada Flor de Natal. E, de fato, assim é: quando exposta ao sol, fica verde; na sombra, torna-se vermelha, de um vermelho irradiante, que, em muitos lugares, cerca todo o presépio.

É comum que o grande aeroporto da cidade do México, na época de Natal, seja totalmente ornamentado com esta flor vermelha.

O Menino Jesus no presépio nos recorda ainda que todos nós, um dia, fomos crianças e que carregamos esta criança dentro de nós pela vida afora. A criança simboliza a vida nova, a inocência, a transparência, um novo começo. Sempre estamos às voltas com essas coisas: queremos ter uma vida saudável, podermos sempre de novo recomeçar e viver criativos e livres, como livres e criativas são as crianças. Não esqueçamos esta criança (dives puer) que ainda vive dentro de nós.

O Poeta Fernando Pessoa (Foto: Reprodução)

Mas a verdade mais profunda que o Natal nos quer transmitir, talvez, seja esta: Deus não veio para divinizar o ser humano, mas veio para humanizar o Deus que ninguém jamais viu, como atestam todas as Escrituras. Agora, Ele se manifestou em nossa carne frágil, mortal e quente. Se Jesus é o Deus que se humanizou, isto significa que há uma porção de Deus dentro de cada um de nós. Jesus é nosso irmão. E, como irmãos, somos também filhos e filhas de Deus. Poderia haver dignidade maior do que ser filho e filha de Deus e pertencer à família divina?

Neste contexto, cabe citar um tópico do poeta português Fernando Pessoa, que escreveu, talvez, um dos mais belos poemas sobre o Natal na literatura universal:

Ele é a Eterna Criança, o Deus que faltava.

Ele é o humano que é natural,

Ele é o divino que sorri e que brinca.

É por isso que eu sei com toda a certeza

Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

É a criança tão humana que é divina.

……..

Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro de tua casa.

Despe meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.

Depois destes tocantes versos, não cabem mais palavras. Apenas reafirmarmos que, depois que Deus se fez um de nós, não temos mais motivos de viver tristes. Não estamos mais sós. Ele caminha conosco em nosso próprio caminhar.

Leonardo Boff
Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.



terça-feira, 9 de dezembro de 2025

CIÊNCIA: A VIDA

A vida, o maior dom da cosmogênese.
Há 3,8 bilhões de anos, aconteceu algo portentoso: a irrupção da vida

O que é a vida e donde ela veio constitui uma questão permanente de cada ser humano e de cada geração durante toda a nossa história. Hoje, com os avanços da nova cosmologia, melhor, da cosmogênese (porque o universo se encontra ainda em nascimento e em expansão), dito mais simplesmente das ciências da Terra e da vida, sabemos que a expansão, a auto-organização, a complexificação e a emergência de ordens cada vez mais emaranhadas são características do Universo.

Detritos da explosão de uma estrela anã branca (foto, NASA)

E a vida?

Não sabemos exatamente como surgiu. O que podemos dizer é que a Terra e o inteiro Universo trabalharam bilhões e bilhões de anos para criar as condições do nascimento desta belíssima criança, que é a vida. É frágil, porque pode facilmente adoecer e morrer. Mas também é forte, porque nada até hoje – nem os vulcões, nem os terremotos, nem os meteoros, nem as dizimações em massa em eras passadas – conseguiu extingui-la totalmente.

De forma jocosa, dizia o grande biólogo E. Wilson que a vida é como “uma praga que jamais foi destruída e, parece, nunca poderá ser”.

Para que surgisse a vida foi preciso que o Universo fosse dotado de três qualidades: ordem, gerada do interior do caos; complexidade, oriunda de seres simples; e informação, originada pelas conexões de todos com todos. Mas faltava ainda um dado: a criação dos tijolinhos com os quais se constrói a casa da vida.

Esses tijolinhos foram forjados dentro do coração das grandes estrelas vermelhas, que arderam por vários bilhões de anos. São os ácidos químicos e demais elementos que permitem todas as combinações e todas as transformações. Assim, não há vida sem que haja a presença do carbono, do hidrogênio, do oxigênio, do nitrogênio, do ferro, do fósforo e dos 92 ou mais elementos da escala periódica de Mendeleiev (1834-1907).

Quando esses vários elementos se unem, formam o que chamamos de molécula, a menor porção de matéria viva. A união com outras moléculas criou os organismos e os órgãos, que constituem os seres vivos, das bactérias aos seres humanos.

Ordem a partir do caos.


Foi mérito de Ilya Prigogine, prêmio Nobel de química de 1977, ter mostrado que a vida resulta da dinâmica da auto-organização intrínseca do próprio universo, quando colocado fora do equilíbrio (Order out of Chaos, 1984), vale dizer, em situação de caos destritivo no interior do qual se forma o caos generativo.

Revelou também que existe uma fábrica que produz continuamente a vida. O motor central desta fábrica da vida é formado por um conjunto de 20 aminoácidos e quatro bases nitrogenadas. Ganhou o prêmio Nobel em 1977.

Os aminoácidos são um conglomerado de ácidos que, combinados, permitem surgir a vida. Eles se compõem de quatro bases de nitrogênio, que funcionam como uma espécie de quatro tipos de cimento, os quais unem os tijolinhos, formando construções, as mais diversificadas. É a biodiversidade.

Temos, portanto, o mesmo código genético de base criando a unidade sagrada da vida, dos microrganimos até os seres humanos. Todos somos, de fato, primos e primas, irmãos e irmãs, como afirmou o Papa Francisco em sua encíclica sobre a ecologia integral Laudato Sì: Sobre o Cuidado da Casa Comum (2015)) e a outra, Fratelli Tutti (2020), porque somos formados pelos mesmos 20 aminoácidos e as quatro bases nitrogenadas (adenina, timina, guanina e citosina).

Mas faltava um berço que acolhesse a vida: a atmosfera e a biosfera (em parte, criada pelo próprios seres vivos) com todos os elementos essenciais para a vida: o carbono, o oxigênio, o metano, o ácido sulfúrico, o nitrogênio e outros.

Dadas estas pré-condições, eis que, há 3,8 bilhões de anos, aconteceu algo portentoso. Possivelmente do mar ou de um brejo primitivo, onde borbulhavam todos os elementos como uma espécie de sopa, de repente, sob a ação de uma poderosa energia relampejante vinda do céu, irrompeu a vida.

Misteriosamente, ela está aí já há 3,8 bilhões de anos. No minúsculo planeta Terra, num sistema solar de quinta grandeza, dentro da galáxia espiral, Via Láctea, num canto dessa galáxia, a 29 mil anos luz do centro dela, aconteceu o fato mais importante da evolução: a irrupção da vida.

Ela é a mãe originária de todos os viventes, a Eva verdadeira. Dela descendem todos os demais seres vivos, também nós humanos, um subcapítulo do capítulo da vida: a nossa vida consciente.

Por fim, ouso dizer com o biólogo (também ganhador do Prêmio Nobel) Christian de Duve e o cosmólogo Brian Swimme que o “Universo seria incompleto sem a vida” (The Unverse Story: from the Primordial Flaring Florth to the Ecozoic Era, N.Y.1992). Sempre que se atinge certo nível de complexidade, a vida surge como um imperativo cósmico, em qualquer parte do Universo, tese central de Christian de Duve em seu livro, talvez o melhor sobre a história da vida, Poeira Vital: A vida Como Imperativo Cósmico (Objetiva 1995).

Portanto, a vida não seria um dom exclusivo, doado ao planeta Terra pelo universo em sua expansão e complexificação. Ela ocorre em todo o universo, sempre que se criam as condicionalidades referidas acima. Então, a vida irrompe imperativamente.

Assim, devemos superar a ideia comum de que o universo é uma coisa meramente física e morta, com pitadinhas de vida para completar o quadro. Essa é uma compreensão pobre e redutivista.

O universo parece estar cheio de vida e é em função disso que ele existe, como o berço acolhedor da vida, especialmente da vida inteligente, como a nossa e a de outras em possíveis universos paralelos, consoante a teoria das cordas.

A vida é para ser celebrada, cuidada como a emergência mais alta da cosmogênese e o dom mais precioso que recebemos.

Com o cosmólogo Mark Hathawy, Leonardo Boff escreveu “O Tao da Libertação: Explorando uma Ecologia da Transformação” (Orbis 2010,) livro ganhador da medalha de ouro, em 2010, nos Estados Unidos, em nova ciência e cosmologia.


Leonardo Boff

Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

FEMINISMO: O que é misoginia?

Misoginia e capitalismo do ódio
A quem serve a matança de mulheres que está em curso?



O ódio às mulheres sempre existiu, mas vem se tornando cada vez mais manifesto. Essa evidência sinaliza para a terrível verdade da misoginia naturalizada e, justamente por isso, difícil de enfrentar.

A misoginia, alicerce da barbárie patriarcal, finalmente está escancarada.

Um massacre de mulheres está em curso a ponto de chamar a atenção de todo mundo. Somente lunáticos tem dúvida sobre a presença e a potência da matança, que pode avançar se não for controlada.

Há alguns dias, um desses “lunáticos” dizia que há mais mulheres matando homens do que homens matando mulheres. Certamente, além da desinformação quanto a estatísticas oficiais, o que o sujeito fazia era se capitalizar política e midiaticamente, vociferando nas redes sociais, enquanto pessoas razoáveis tentavam contestar o desequilibrado.

Notem, loucura e desequilíbrio emocional sempre foram imputados às mulheres. Lembremos que o duplo feminicida do CEFET, que matou as servidoras Allane e Layse, tinha um laudo de distúrbio psiquiátrico.

Mas, de fato, a coisa vai bem além da loucura ou do que, antigamente, chamavam de passionalidade. O capitalismo é uma evolução econômica do patriarcado. O machismo não é mais apenas um fator cultural, ele se tornou um fator econômico. Na verdade, sempre foi, mas exacerbou essa sua característica.

O homem que pratica o discurso de ódio contra mulheres nas redes engajou-se no sistema codificado, o qual vem sendo chamado de “machosfera”. Esse ódio às mulheres providencia, além de compensação emocional para homens infelizes consigo mesmos, vantagens econômicas.

Esse é também o caso do famoso “Calvo do Campari”, preso por violência doméstica, que se tornou ainda mais famoso após essa violência. Ao contrário do que seria de se esperar, em condições normais de temperatura e pressão democrática, sua violência foi capitalizada impulsionando sua presença em noticiários e redes. Aliás, tendo a ajuda da imprensa economicamente hegemônica a dar espaço para esse homem, como se ele fosse uma pessoa normal.

Imagine ganhar dinheiro fazendo o que você gosta. É disso que estamos falando, de homens que ganham dinheiro, fama e status, odiando mulheres.

Negacionismo e negócio.

Nos últimos dias, o ódio máximo que se expressa no feminicídio, se tornou o “assunto”, pelo menos na imprensa alternativa.

A imprensa conservadora evita usar a palavra feminicídio. Ela é tão evitada quanto a palavra feminismo. Mas o que realmente está sendo evitado nessa negação diante de tantas evidências?

Certamente, o que se evita é o “gênero” como calibrador social, como categoria de análise. É preciso evitar que a “naturalização” dos sexos e dos corpos seja desmontada.

É preciso evitar que o fator cultural implicado na violência de gênero seja visto e, assim, a violência cometida por homens continue sendo aceitável e perdoável, já que é natural espancar e até matar mulheres naturalmente demonizadas, como as “bruxas” da história.

A violência é que impõe às mulheres o “medo da morte violenta” num regime de ameaça constante, para que elas obedeçam e se calem e, desse modo, evitem ser mortas. Do contrário, serão tratadas como culpadas por sua própria morte.

O ódio às mulheres é necessário e, por isso, defendido e protegido. Os homens sabem disso, principalmente os que seguem em silêncio.

E as mulheres que têm consciência e lutam pelo fim das injustiças e da violência contra elas, ou seja, as feministas, são duplamente odiadas, por serem mulheres e por saberem o que está implicado nisso.

É útil saber que usamos a palavra patriarcado para definir o sistema no qual o machismo é a ideologia e a metodologia de sustentação. A misoginia é o seu fundamento místico, ou seja, o ódio às mulheres não tem outro sentido além de garantir o privilégio do “macho” matador e adorado na sua posição de matador.

O patriarcado se sustenta sobre uma equação simples: amor aos machos, ódio às mulheres. Por isso, cabe a pergunta: se não defendermos umas às outras, quem nos defenderá?

Marcia Tiburi
Formada em filosofia e artes. Lecionou em universidades brasileiras e estrangeiras. Publicou 7 romances, entre eles Com os sapatos aniquilados, Helena avança na neve (Nós, 2023) e diversos ensaios, entre eles “Como conversar com um fascista”, “Complexo de vira-lata: análise da humilhação brasileira” (Civilização Brasileira, 2021) entre outros.


quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Cultura do Amor

Cultura do Amor

Desembargador manda carta a moradora do Complexo da Penha: 
‘Estou andando ao seu lado’

Magistrado tomou posse em março e viralizou com discurso sobre ameaças do fascismo. Buch explica, no texto, pontos que fazem parte da lei e que podem ter sido violados. Entre eles estão o uso proporcional da força, câmeras nas viaturas, elaboração de um plano de reocupação de territórios invadidos por organizações criminosas e a entrada da Polícia Federal nas investigações contra milícias e tráfico de drogas interestadual e internacional.

______________________________________

Uma carta para dona Nice

Querida dona Nice,

escrevo-lhe com afeto e respeito.

Meu nome é João Marcos, moro em Santa Catarina e trabalho com a Justiça. Sou desembargador, nome dado a juízes que atuam em recursos nos tribunais.

Na última terça-feira, vi sua entrevista no jornal da TV. A senhora voltava para casa, com sacolas de supermercado nas mãos, e foi parada por uma repórter que queria saber sobre a chacina ocorrida mais cedo nos complexos da Penha e do Alemão, onde mais tarde se viria a constatar que 121 pessoas (pode ser além) haviam sido mortas, na mais sangrenta intervenção da segurança pública já ocorrida no Rio de Janeiro e no Brasil dos tempos atuais.

Sua entrevista me marcou profundamente. Moradora desde sempre da Penha, a senhora disse que já não tinha mais esperança, que, nessa altura da vida, tendo visto tanta tragédia, tantas operações policiais, tantas pessoas próximas assassinadas, não acreditava mais que um dia a vida melhoraria — tudo era tristeza. Em seguida, a senhora se despediu da repórter e retomou seu caminho para casa, cambaleante, cansada, segurando as sacolas.

Hoje já é domingo; faz cinco dias que eu penso na senhora, faz cinco dias que estou andando ao seu lado, faz cinco dias que tento carregar as suas sacolas até sua casa. Por isso, querida Dona Nice, com o coração inquieto, mesmo sem saber nada da sua vida, senão o fato de que a senhora perdeu a esperança, resolvi lhe escrever.

Eu sei que esta carta nunca chegará a seu destino, pois nunca a postarei. Impotente que sou para modificar um átomo de sua vida e para lhe oferecer uma centelha de esperança, escrevo-lhe porque não consigo fazer diferente, porque não sei mais se a esperança também me abandonou.

Assim como nas favelas de Florianópolis, já estive em favelas do Rio; já me encharquei da beleza e da bondade de pessoas que tão bem me acolheram. E já testemunhei muita dor e injustiça. Entretanto, o fato é que nada mais conheço, além de que a vida de quem mora nessas comunidades periféricas é carente de direitos e de oportunidades.

Sabe, Dona Nice, sempre tive o cuidado de não me arvorar em senhor das verdades, e me incomoda muito ver quem acha que sabe de tudo — cegado por redes sociais e algoritmos —, pessoas com quem é impossível argumentar com base em fatos e lógica. É desolador ouvir suas vozes celebrando a chacina, justificando o horror com acusações sem conhecimento de causa sobre crimes antes cometidos. De onde vem esse ódio? De que veneno se alimentam esses seres humanos? Onde está sua bondade, sua compaixão?

Fico a pensar o que essas manifestações causam na senhora, que tanto já testemunhou e viveu. Será que a senhora ainda chora, ainda se revolta com a opressão e a violência que sua comunidade sofre? Essa chacina, para mim, que vivo em um apartamento confortável, localizado em um bairro seguro, saneado, arborizado, com espaços de cultura e lazer, provocou espanto, lamento e indignação. Porém, quando a pessoa tem sua dignidade tão ferida e há tanto tempo, ela acaba perdendo a consciência de que aquela situação fere de morte seus direitos. Então, não sei o quanto isso tudo lhe afetou; só sei que a esperança lhe foi roubada.

Em meus estudos e em meu trabalho, aprendi algo sobre o fenômeno da violência urbana. Depois de algum tempo procurando entender nossa sociedade, tomei conhecimento de que a fórmula do “confronto” na segurança pública é fadada ao fracasso (a senhora sabe disso bem antes de mim). Essa fórmula ceifa vidas de todos os lados e não supera as dificuldades das comunidades vulnerabilizadas. Por que é tão difícil que governos e autoridades entendam que somente políticas públicas inclusivas — de habitação, saneamento, saúde, educação, empregabilidade, cultura e lazer — articuladas à segurança pública, podem trazer benefícios reais para toda a sociedade?

No país, nós temos o Supremo Tribunal Federal (STF). Pois bem, a mais alta corte da Justiça definiu, em uma ação proposta pelo Partido Socialista Brasileiro (ADPF n.º 635, conhecida como ADPF das Favelas), que o governo do Rio deve seguir diversas regras nas operações policiais, como o uso proporcional da força, câmeras nas viaturas, elaboração de um plano de reocupação de territórios invadidos por organizações criminosas, bem como a entrada da Polícia Federal nas investigações contra milícias e tráfico de drogas interestadual e internacional. Olha, Dona Nice, parece que o Supremo não foi muito bem respeitado. Creio, inclusive, que logo logo autoridades terão de prestar contas.

Aliás, até a Organização das Nações Unidas (ONU), por meio do seu Alto Comissariado dos Direitos Humanos, declarou que essa operação policial — que eu chamo de chacina — ampliou a tendência de consequências extremamente letais sobre as comunidades marginalizadas e enfatizou que as autoridades têm obrigação perante as leis internacionais de direitos humanos.

Mas o que isso importa, não é? A chacina já aconteceu, vidas foram ceifadas, até policiais morreram — e não consigo imaginar a dor das famílias que tiveram seus entes sequestrados de suas vidas para todo o sempre.

Ainda sinto que um dia a justiça alcançará a todos os cidadãos, que as instituições funcionarão conforme a Constituição e que a dignidade da pessoa humana será, em definitivo, fundamento da República.

Dona Nice, inspirado na leitura de um livro chamado Antes que as Palavras te Abandonem, de um grande amigo, Leonardo Tônus, em que um imigrante, à procura de um amigo refugiado afegão em Berlim, escreve-lhe cartas, eu lhe digo que, se pudesse, eu a abraçaria e afirmaria, com o coração aberto, que não importa mais o resultado da luta, mas a capacidade de entender o seu chamado.

Dona Nice, neste Brasil tão sangrento, de séculos de escravidão, racismo, patriarcado e colonialismo, não tenho o direito de lhe pedir que volte a ter esperança. Entretanto, ouso lhe pedir outra coisa: atenda nosso chamado, não desista de mim, não desista de nós, não desista da humanidade.

Querida Dona Nice, a senhora é a nossa esperança, volte,

João Marcos Buch

Desterro, 02/11/25 – finados

Amanda Miranda
Formada pela UFSC, com mestrado em educação científica e doutorado em Jornalismo na mesma instituição. Tem pós doutorado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Servidora pública federal e ativista pelo direito à informação, tem se dedicado a monitorar políticos extremistas.


sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Ópera do Malandro: O Paradoxo Brasil

O paradoxo Brasil – II

O eterno retorno de uma simetria perversa.


Capa do disco "Ópera do Malandro", de Chico Buarque, 1979.

Estatísticas como sintoma


Bem-sucedido e desterrado: eis onde paramos na coluna anterior. Como entender esse aparente paradoxo? Como preservar sua tensão constitutiva e transformar o impasse em reflexão renovada sobre as origens da formação histórica brasileira? A tarefa não é fácil. O próprio Sérgio Buarque de Holanda preferiu diluir o dilema na edição definitiva de Raízes do Brasil. Como vimos na semana passada, o historiador ficou apenas com o desterro, apagando o aparente êxito na “transplantação da cultura europeia para uma zona de clima tropical e subtropical”.

O ensaio ficou assim mais endomingado, mais coerente em sua linha argumentativa, pronto para ser canonizado. Mas, infelizmente, desse modo, perdeu-se o que, de fato, importava, qual seja, assinalar a contradição que ainda hoje assombra o Brasil.

Uma estatística-sintoma esclarece meu ponto.

País bem-sucedido: no primeiro trimestre de 2024, o Brasil voltou à posição de oitava economia do mundo, superando a Itália. O Produto Interno Bruto (PIB) do país chegou a US$ 2,333 trilhões e, segundo projeções do Fundo Monetário Internacional, pelo menos até 2029 deve permanecer nessa posição. Recorde-se que, até 1930, era essencialmente um país exportador, sobretudo de café, e possuía uma base industrial precária e incipiente. O salto só não foi quântico porque não foi acompanhado de um correspondente crescimento de bem-estar social.

Nação de desterrados na própria terra: o Brasil ocupa a oitava posição no elenco das economias mais desiguais do planeta. O resultado foi divulgado no Relatório Global de Riqueza 2025. A vergonhosa permanência da desigualdade social desde a implantação da República, em 15 de novembro de 1889, continua sendo o maior obstáculo para uma melhora significativa dos indicadores que determinam o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

A simetria perversa dessas estatísticas, como se compusesse um inesperado desenho de M. C. Escher, é o nó górdio para que o paradoxo identificado por Sérgio Buarque seja enfrentado com coragem, em lugar de negligenciado. Até lá, o título da inquietante distopia de Ignácio de Loyola Brandão valerá como um retrato acabado de nossa encruzilhada: Não verás país nenhum.

(Não pode haver nação sem povo.)

Congresso e Nação

Nosso Congresso é muito bem-sucedido – ninguém há de negar. Conseguiu a proeza que nenhum Parlamento, no mundo todo, nos últimos dois séculos, sequer ousou: sequestrar o orçamento do Executivo e realizar o maior ato de pilhagem dos cofres públicos dos cinco séculos da história do Brasil. Mais: os artífices e continuadores desse assalto não somente escaparam, por enquanto, de qualquer responsabilização criminal, como ainda se dão ao luxo de chantagear o governo democraticamente eleito.

(Agora já não é normal

O que dá de malandro regular, profissional

Malandro com aparato de malandro oficial

Malandro candidato a malandro federal

Malandro com retrato na coluna social

Malandro com contrato, com gravata e capital

Que nunca se dá mal)

Pois bem: prova dos nove. O errático presidente Donald Trump anunciou um tarifaço de 50% sobre os produtos brasileiros com a vã esperança de intimidar o Supremo Tribunal Federal, a fim de libertar o ex-presidente golpista Jair Messias Bolsonaro. Deu com os burros n’água. Em boa parte, porque, para colocar o burro na sombra, o governo brasileiro foi ágil e propôs uma medida emergencial: o BNDES disponibilizaria até R$ 40 bilhões para auxiliar os exportadores dos produtos que, porventura, tivessem sido afetados pelo capricho do projeto de ditador gringo.

O Congresso aprovou a inciativa em tempo ímpar: de imediato, por assim dizer. Claro, tudo para beneficiar os pares.

Recentemente, o mesmo governo enviou ao mesmo Congresso uma Medida Provisória (MP) que visava aumentar a tributação dos super-ricos e começar a cobrar impostos da indústria das bets. Em comparação com o projeto do BNDES para os exportadores, essa MP planejava obter “somente” algo em torno de R$ 17 bilhões, que seriam prioritariamente empregados para programas sociais, isto é, para o povo. Os nobres e honrados deputados da oposição derrubaram a MP e festejaram como se não houvesse amanhã.

(Ou eleições em 2026.)

Eterno retorno da simetria perversa?

Concessão de R$ 40 bilhões para exportadores de grande porte: país muito bem-sucedido.

Veto de R$ 17 bilhões para o povo: desterrados na própria terra.

O que fazer?

Precisamos resgatar o paradoxo que atemorizou Sérgio Buarque de Holanda. Caso contrário, o país será cada vez mais bem-sucedido e, por isso mesmo, continuaremos uma nação de exilados no interior da pátria.

Quem sabe tudo já não tenha sido dito por Aldir Blanc e Maurício Tapajós na canção-pensamento Querelas do Brasil:

O Brazil não conhece o Brasil

O Brasil nunca foi ao Brazil

(…)

O Brazil não merece o Brasil

O Brazil tá matando o Brasil

Contudo, se tornarmos o paradoxo tema de debate público, talvez um dia possamos construir uma alternativa, o desenho de uma realidade outra, na qual o Brazil se reencontre como Brasil.

Mais ou menos assim:

Do Brasil, s.o.s ao Brasil

Do Brasil, s.o.s ao Brasil

Do Brasil, s.o.s ao Brasil


___________________________________________________

Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1936, p. 3, destaques meus.

João Cezar de Castro Rocha
Professor Titular de Literatura Comparada (UERJ) e Cientista do Nosso Estado (FAPERJ). Autor de 14 livros; seu trabalho já foi traduzido para o espanhol, mandarim, italiano, francês, alemão e inglês.



quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Ideias Anti-Racismo: Lília Guerra

Literatura Anti-Racismo

Texto de Eliana Alves Cruz: É guerra o tempo todo.


A escritora Lília Guerra e o racismo nosso de cada dia.

O líder, intelectual e imortal indígena da Academia Brasileira de Letras Aílton Krenak, há alguns anos, no primeiro episódio do ótimo documentário Guerras do Brasil, dirigido por Luiz Bolognesi, falou algo perturbador e antológico: “Nós estamos em guerra. Eu não sei por que você está me olhando com essa cara tão simpática. O seu mundo e o meu mundo estão em guerra. Os nossos mundos estão todos em guerra. A falsificação ideológica que sugere que nós temos paz, é pra gente continuar mantendo a coisa funcionando. Não tem paz em lugar nenhum. É guerra, em todos os lugares, o tempo todo”.

Como esse “tempo todo” é algo que não passa no Brasil e os fatos parecem se entrelaçar de maneira irônica, uma escritora que tem “guerra” no sobrenome, participante da programação principal da Flip em 2025, foi a prova da verdade proferida por Krenak.

Lília Guerra, autora dos excelentes livros “O céu para os bastardos” e “Perifobia” subiu no palco principal da Festa Literária de Paraty, a FLIP, a mais famosa do país, aquela que deu origem a todas as outras neste formato. Finalizado o evento, já em casa, ela recebe um contato da organização, informando que pousada deu falta de um lençol e uma manta no quarto em que ela estivera.

Lília estava sendo alvo da suspeita de um furto.

Em suas palavras, no texto que escreveu para desaguar todo o caos interior que se instala quando algo assim acontece: “Pelo que entendi, a pousada solicitava reembolso do valor correspondente aos itens apontados como ausentes no quarto onde estive, após a checagem padrão. A produção da Festa foi contatada porque era responsável pela minha estadia e me colocou a par da situação. Me disseram que duvidavam muito que isso houvesse realmente ocorrido. Porém, que se tivesse sido assim, eu só precisava confirmar e eles providenciariam o ressarcimento”.

São tantas camadas de erro que é até difícil começar a enumerar, mas vamos aprofundar aqui na conjunção adversativa “porém”. A dúvida é um tapa na cara. Não apenas de Lília, mas de todos e todas nós que crescemos apontados como possíveis cometedores de delitos, contravenções, atos fora da lei, violências. A dúvida é a certeza da dureza que é escapar da lógica colonial que fixou cada pedra do chão da cidade de Paraty, parte do Caminho do Ouro e um dos epicentros da riqueza colonial brasileira.

Lília entrou pela porta da frente, como resultado da projeção que conquistou com sua escrita importante, necessária, bonita. Sentou-se na cadeira do centro do palco com a imagem de Carolina Maria de Jesus, uma inspiração e um incentivo, estampada no peito. Realizou um desejo de muitos escritores e escritoras em todo o país, para alegria de quem a ama, considera e admira. Para contentamento de todos nós, escritores e escritoras negros e negras, que por décadas sem conta estivemos alijados destes espaços dados à intelectualidade brasileira. Um evento que nos últimos nove anos vêm buscando dar voz e espelhar a produção literária tão diversa do país. Aí, como diz o pema do Drummond, no “meio do caminho tinha uma pedra”, no meio da fala tinha um “porém”.

Lília prosseguiu em seu desabafo.

“(…) Suponho que deva ser uma ocorrência corriqueira, dada a naturalidade com que me foi comunicada. Para mim? Um piano de cauda descendo uma ladeira de patins. Inacreditável.

(…) Recebi pedidos de desculpas, sim. Pelo equívoco, pela condução desacertada, pelo incômodo, pela comunicação falha. Pela falta de assertividade, pelo desencontro de informações, pela demora no retorno. Pelo desconforto, pela gravidade. Acreditei na sinceridade de todos esses pedidos e os aceitei. Tanto que, em determinado momento, me flagrei elaborando como agir, de modo a não parecer julgadora, intolerante, injusta, transgressora do Pai Nosso, inflexível ou incompreensiva. Não deixei de pensar que somos todos passíveis de erros e procurei administrar o tempo para ouvir quem achou por bem se manifestar. Eu mesma não tenho muito mais a dizer.

Livro: O Céu para os Bastardos, Lília Guerra.

Decidi compartilhar a experiência porque as Festas e Festivais, Feiras e acontecimentos literários seguirão ocorrendo e isso é muito bom! Desejo que se expandam! Que se realizem em todos os cantos do Brasil. Que alcancem o povo! E acredito que haverá mais pessoas como eu transitando por esses eventos. Nas curadorias, mediações. Nas mesas e, sobretudo, nas plateias. (…) É preciso aprender a conviver com a gente nesses meios. Estamos aí!”

Sim, querida Lília, estamos aí, mas é bom nunca esquecer aquelas pedras que pavimentam Paraty e todos os espaços neste país. Ouçamos Drumond:

“Nunca me esquecerei desse acontecimento

Na vida de minhas retinas tão fatigadas

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

Tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra”

E levemos a sério o alerta de Krenak: “É guerra, em todo lugar, o tempo todo”.

Eliana Alves Cruz é carioca, escritora, roteirista e jornalista. Foi a ganhadora do Prêmio Jabuti 2022 na categoria Contos, pelo livro “A vestida”. É autora dos também premiados romances Água de barrela, O crime do cais do Valongo; Nada digo de ti, que em ti não veja; e Solitária. Tem ainda dois livros infantis e está em cerca de 20 antologias. Foi colunista do The Intercept Brasil, UOL e atuou como chefe de imprensa da Confederação Brasileira de Natação.

Plataforma ICL de Comunicação.
https://iclnoticias.com.br/e-guerra-o-tempo-todo-lilia/