Misoginia e capitalismo do ódio
A quem serve a matança de mulheres que está em curso?
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O ódio às mulheres sempre existiu, mas vem se tornando cada vez mais manifesto. Essa evidência sinaliza para a terrível verdade da misoginia naturalizada e, justamente por isso, difícil de enfrentar.
A misoginia, alicerce da barbárie patriarcal, finalmente está escancarada.
Um massacre de mulheres está em curso a ponto de chamar a atenção de todo mundo. Somente lunáticos tem dúvida sobre a presença e a potência da matança, que pode avançar se não for controlada.
Há alguns dias, um desses “lunáticos” dizia que há mais mulheres matando homens do que homens matando mulheres. Certamente, além da desinformação quanto a estatísticas oficiais, o que o sujeito fazia era se capitalizar política e midiaticamente, vociferando nas redes sociais, enquanto pessoas razoáveis tentavam contestar o desequilibrado.
Notem, loucura e desequilíbrio emocional sempre foram imputados às mulheres. Lembremos que o duplo feminicida do CEFET, que matou as servidoras Allane e Layse, tinha um laudo de distúrbio psiquiátrico.
Mas, de fato, a coisa vai bem além da loucura ou do que, antigamente, chamavam de passionalidade. O capitalismo é uma evolução econômica do patriarcado. O machismo não é mais apenas um fator cultural, ele se tornou um fator econômico. Na verdade, sempre foi, mas exacerbou essa sua característica.
O homem que pratica o discurso de ódio contra mulheres nas redes engajou-se no sistema codificado, o qual vem sendo chamado de “machosfera”. Esse ódio às mulheres providencia, além de compensação emocional para homens infelizes consigo mesmos, vantagens econômicas.
Esse é também o caso do famoso “Calvo do Campari”, preso por violência doméstica, que se tornou ainda mais famoso após essa violência. Ao contrário do que seria de se esperar, em condições normais de temperatura e pressão democrática, sua violência foi capitalizada impulsionando sua presença em noticiários e redes. Aliás, tendo a ajuda da imprensa economicamente hegemônica a dar espaço para esse homem, como se ele fosse uma pessoa normal.
Imagine ganhar dinheiro fazendo o que você gosta. É disso que estamos falando, de homens que ganham dinheiro, fama e status, odiando mulheres.
Negacionismo e negócio.
Nos últimos dias, o ódio máximo que se expressa no feminicídio, se tornou o “assunto”, pelo menos na imprensa alternativa.
A imprensa conservadora evita usar a palavra feminicídio. Ela é tão evitada quanto a palavra feminismo. Mas o que realmente está sendo evitado nessa negação diante de tantas evidências?
Certamente, o que se evita é o “gênero” como calibrador social, como categoria de análise. É preciso evitar que a “naturalização” dos sexos e dos corpos seja desmontada.
É preciso evitar que o fator cultural implicado na violência de gênero seja visto e, assim, a violência cometida por homens continue sendo aceitável e perdoável, já que é natural espancar e até matar mulheres naturalmente demonizadas, como as “bruxas” da história.
A violência é que impõe às mulheres o “medo da morte violenta” num regime de ameaça constante, para que elas obedeçam e se calem e, desse modo, evitem ser mortas. Do contrário, serão tratadas como culpadas por sua própria morte.
O ódio às mulheres é necessário e, por isso, defendido e protegido. Os homens sabem disso, principalmente os que seguem em silêncio.
E as mulheres que têm consciência e lutam pelo fim das injustiças e da violência contra elas, ou seja, as feministas, são duplamente odiadas, por serem mulheres e por saberem o que está implicado nisso.
É útil saber que usamos a palavra patriarcado para definir o sistema no qual o machismo é a ideologia e a metodologia de sustentação. A misoginia é o seu fundamento místico, ou seja, o ódio às mulheres não tem outro sentido além de garantir o privilégio do “macho” matador e adorado na sua posição de matador.
O patriarcado se sustenta sobre uma equação simples: amor aos machos, ódio às mulheres. Por isso, cabe a pergunta: se não defendermos umas às outras, quem nos defenderá?
Marcia Tiburi
Formada em filosofia e artes. Lecionou em universidades brasileiras e estrangeiras. Publicou 7 romances, entre eles Com os sapatos aniquilados, Helena avança na neve (Nós, 2023) e diversos ensaios, entre eles “Como conversar com um fascista”, “Complexo de vira-lata: análise da humilhação brasileira” (Civilização Brasileira, 2021) entre outros.
