Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Heroínas do Brasil: Antonieta de Barros


Antonieta de Barros
' mil faces de uma liderança histórica pioneira '

Em memória dos 125 anos de nascimento de Antonieta de Barros, saiba mais detalhes sobre a trajetória, as lições e o legado da professora e jornalista, que foi a primeira parlamentar negra eleita em Santa Catarina

Mais do que uma pessoa à frente de seu tempo, uma liderança que apontava horizontes para a estruturar e construir o futuro do Brasil. Esta descrição sobre Antonieta de Barros (1901-1952) ajuda a compreender a magnitude de sua trajetória, mas passa longe de fazê-lo de modo pleno.

Dizer que Antonieta de Barros foi professora, oradora, parlamentar, militante da área educacional e ensaísta não dá a dimensão do quão grande foram a sua vida e obra. Falar que ela entrou para a história brasileira por ser considerada a primeira mulher negra de Santa Catarina eleita deputada em 1934, nas eleições realizadas imediatamente após as mulheres terem conquistado o direito ao voto no Brasil, em 1932, induz ao risco de limitá-la a um determinado período histórico.

Constatar que ela foi isso tudo e muito mais ainda está aquém do seu tamanho real. Podemos dizer, sem dúvida, que a liderança foi - e continua a ser - uma daquelas figuras maiores do que a vida. Isso sem contar que conhecer a sua trajetória ajuda apresentar contrapontos importantes contra tentativas de apagamento e de revisionismo histórico sobre a presença negra em Santa Catarina.

“Sua trajetória nos ensina a olhar a sociedade brasileira sobre vários aspectos que fogem ao senso comum: mostra que, apesar da autoimagem e da imagem que a região Sul construiu, não há apenas brancos e eurodescendentes na região”, explica Surya Aaronovich Pombo de Barros, professora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), pós-doutoranda no Instituto Caro y Cuervo (Bogotá, Colômbia) e bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

A docente destaca também que a sua trajetória ensina também que, “a despeito de uma ideia recorrente de que ‘pessoas negras’ estiveram apartados do universo letrado e escolar, as pesquisas das duas últimas décadas demonstram que uma parte da resistência negra foi feita pela via da educação formal.”

Superação de barreiras históricas e sociais

“Não havia processos que levassem as pessoas a ter mobilidade social. Havia privilégios: fazer parte de determinado grupo, classe social ou etnia. Então, quando ela chega à Escola Normal, ela já está rompendo com algumas barreiras. Não [significa] que não houvesse pessoas negras antes: por meio da biografia dela e dos estudos sobre ela e a irmã conhecer as outras pessoas negras.”

Esta fala de Jeruse Romão, professora escritora, militante do movimento negro e biógrafa de Antonieta de Barros e da irmã, Leonor de Barros (1904-1974), ajuda a perceber a dimensão das diversas barreiras presentes nas trajetórias de pessoas negras à época. Outro ponto diz respeito ao apagamento histórico que, por meio de dinâmicas diversas, permearam a época em que a intelectual atuou e encontram ecos nos dias atuais.

A análise que Jeruse Romão faz sobre a liderança educacional e política, que reverberou nas obras de sua autoria ‘Antonieta de Barros: Professora, escritora, jornalista, primeira deputada catarinense e negra no Brasil’ (2021) e ‘Antonieta de Barros: Discursos, entrevistas e outros textos’ (2023) mostra que o caminho trilhado por ela teve participações definitivas dos passos que sua mãe, Catarina de Barros, e sua irmã, Leonor de Barros, deram.

Aqui entra, mais uma vez, a resistência à tendência ao apagamento histórico: enquanto Catarina, a mãe, trabalhou como lavadeira para possibilitar o desenvolvimento educacional das filhas - nas primeiras décadas após a abolição da escravatura, em 1888, vale dizer -, o trabalho de Leonor, que também cursou a Escola Normal e se tornou professora, foi fundamental para Antonieta de Barros prosseguir com o propósito de democratizar e universalizar o acesso à educação.

Nesse contexto, para manter-se em Florianópolis, as duas irmãs abrem, em 1921, a escola Curso Particular Antonieta de Barros, que funcionou até a década de 1960.

Pela democratização no acesso a espaços educacionais e decisórios

A carreira parlamentar de Antonieta de Barros teve como marca incontestável a defesa da valorização e do acesso à educação. Basta dizer que a instituição de 15 de outubro como o Dia do Professor em Santa Catarina, em 1948 - e que se tornaria uma data nacional em 1963 -, foi uma pequena parte do trabalho que ela realizou dentro dessa pauta.

Temas que hoje são recorrentes no debate sobre Educação e sociedade já estavam presentes na atuação legislativa dela há quase um século. “É admirável e ao mesmo tempo perturbador notar que na primeira metade do século XX ela já defendia temas ainda urgentes como concurso público para magistério e o cargo de direção de escolas. Idem a importância da igualdade de salário entre professores e professoras; a relevância da educação de adultos; a necessidade de organização da categoria docente; a importância da aproximação entre crianças pobres e livros”, destaca Surya Aaronovich Pombo de Barros.

Nesse sentido, a atuação de Antonieta de Barros em defesa tem caráter interseccional com pautas como gênero, raça, infância, entre outros. Outros pontos passam pela valorização da docência e dos saberes prévios de estudantes, dentro da chave da democratização do acesso ao ensino.

“Antonieta foi da Comissão da Educação e da comissão que tratou do plano de carreira do funcionário público. O que vi [obra de] escrevendo, estudando e biografando foi uma mulher que está no grupo de protagonistas brasileiros e brasileiras, que entendiam a educação como um instrumento de transformação social. Algumas vezes ela me lembra muito Paulo Freire. Quer dizer: ele me lembra, pois ela veio antes”, reforça Jeruse Romão.

Ao considerar-se que a História pode rimar, os debates atuais sobre temas como permanência no Ensino Superior encontram correspondência com o acesso a estágios em nível básico para populações de grupos vulnerabilizados - de prevalência negra e periférica. Assim, Antonieta de Barros foi autora de requerimento para estabelecer o funcionamento de aulas noturnas para jovens e filhas e filhos de pessoas trabalhadoras.

Outros tópicos passaram também pela concessão de bolsas de estudos e pela oferta de merenda escolar:

“Percebe-se que ela [Antonieta de Barros] tinha uma ótica muito fina sobre a estrutura e o funcionamento da educação pública. Não era apenas sobre a sala de aula, mas também políticas educacionais, estrutura e funcionamento da escola.” (Jeruse Romão)

O poder da palavra e a vida pública como sacerdócio

Outra faceta da polivalente trajetória de Antonieta de Barros passou pelo jornalismo, uma vez que ela começou a escrever aos 23 anos textos publicados em veículos de Santa Catarina e assinando-os sob o pseudônimo Maria da Ilha, por meio do qual publicou o livro ‘Farrapos da Ilha’, em 1937.

“O nome dela não foi de resistência pela trajetória, mas sim pela ala conservadora masculina e feminina de Florianópolis que não concordava de jeito nenhum com a participação das mulheres na política, com uma ala machista que não concordava e com outra racista também, que não concordava com que as pessoas negras tivessem visibilidade. Ela enfrentou todas essas camadas pela educação e não recuou”, narra a biógrafa da intelectual.

Ao mesmo tempo em que ela usava sua coluna como canal pontual para a abordagem veemente da pauta racial, a sua atuação jornalística teve abordagem mais ampla. “Tendo a chamá-la de uma negra na imprensa”, ressalta Jeruse Romão, ao destacar o estilo de escrita da intelectual que flerta também com a verve literária. “Antonieta de Barros criou, junto com outros negros que tiveram a ideia, e compõe o Centro Catarinense de Letras, movimento de quem foi rejeitado pela Academia Catarinense de Letras, que não aceitava negros e mulheres.”

Como consequência, o afinco ao qual se dedicava a todas as áreas profissionais de sua vida a fez assumir o trabalho como se fosse sacerdócio. Isso refletia-se no fato de nem ela, tampouco Leonor de Barros, participarem de eventos comemorativos. “Elas não gostavam de exposição social e não iam a eventos públicos - apenas iam a eventos cívicos e eventos profissionais. Elas eram dadas a retirarem-se da cidade em época de férias para ir a internatos, internatos de freira e lugares isolados”, comenta a biógrafa.

Preservação da memória

Apesar da história de Antonieta de Barros ser digna da primeira prateleira de ícones da história do Brasil, o seu nome foi inserido no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria somente em 2023. Esse fato demonstra, por si só, que a sua trajetória não recebeu o devido reconhecimento por quase um século.

Pode-se considerar, então, que o reconhecimento à vida e obra da intelectual faz parte de um movimento de reparação histórica. Para se ter uma ideia, em 2024 o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), do Ministério da Educação (MEC), lançou a plataforma Antonieta de Barros, espaço que tem como objetivo reunir dados sobre investimentos, execução e monitoramento de programas e ações desenvolvidos pelo departamento.

Todavia, o legado e a memória de Antonieta de Barros estão sob constante disputa. Sua trajetória mostra, independentemente de forças políticas que tentem instrumentalizar ou cooptar a sua imagem, que o seu legado estará ligado às lutas pela universalização do acesso à educação, em especial para populações em situação de vulnerabilidade e com histórico de exclusão sociorracial. “Tenho certeza absoluta de que ela teria se colocado a favor do direito das pessoas de estarem na escola”, relata Jeruse Romão.

A memória da intelectual tem endereço reservado para a sua preservação. A saber, o prédio da antiga Escola Antonieta de Barros, situada em Florianópolis, será a sede de um museu dedicado à sua trajetória, assim como do Centro de Cultura, Memória e Arte Negra Catarinense local. Todavia, essa articulação veio acompanhada de muita luta. “Queremos consolidar o Museu Antonieta de Barros e entregá-lo para a cidade, pois ela é uma das mais importantes filhas de Florianópolis”, detalha a biógrafa da intelectual.

Combate ao revisionismo e respeito ao legado

Em tempos nos quais segmentos reacionários tentam normalizar pautas que visam eliminar ações afirmativas e retirar direitos voltados à promoção da equidade racial, como as cotas étnico-raciais, assim como o descalabro em forma do debate sobre mulheres poderem ou não votar, as histórias de ícones como Antonieta de Barros revelam-se fundamentais.

Episódios com esse teor são lembretes de que conquistas estarão sob permanente disputa e, diante disso, precisam ser defendidas, preservadas e protegidas também quando se trata de leis. Isso vale também para tópicos como a preservação mecanismos com foco na promoção da paridade numérica e de forças para candidaturas de parlamentares mulheres e negros.

“Estes são temas que pareciam já resolvidos, mas cujo retrocesso parece estar no horizonte próximo”, reforça Surya Aaronovich Pombo de Barros. Desse modo, é fundamental haver organização política para barrar proposições com esse teor. E os faróis históricos já estão no nosso horizonte. “Conhecer a trajetória de pessoas como Antonieta de Barros pode ser parte do antídoto para esse tipo de projeto.”

Assim, a sua vida e obra é fundamental para estudantes e pessoas pesquisadoras, assim como para qualquer pessoa que se interesse em aprofundar em discussões e reflexões sobre história, educação, gênero e raça no Brasil. “Seu legado está em sua própria trajetória pessoal e nas pautas que defendeu como intelectual pública, política e educadora, que ainda são urgentes e objetos de disputa sobre que sociedade desejamos ser”, pondera a professora da UFPB.

Por fim, outra lição que Antonieta de Barros deixa é sobre a sua trajetória não ser um fato isolado, por mais extraordinária e inspiradora que tenha sido. Sua mãe, Catarina, e sua irmã, Leonor, foram as suas bases e caminharam ao seu lado. Figuras históricas, como Almerinda Silva Gama (1899-1992), Coema Hemetério dos Santos (1888-?), Izolina Machado (1889-1931), Adelia de França (1904-1981), Laudelina de Campos Melo (1904-1991), Conceição Soares Lopes (1905-1990), Virgínia Bicudo (1910-2003), entre muitas outras, mostraram que a luta por direitos raciais e de gênero apenas obteve êxito graças a sonhos e esforços coletivos.

“Não é apenas sobre Antonieta de Barros, [o poeta] Cruz e Sousa ou Gustavo Lacerda, um dos fundadores da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), que é um homem negro de Santa Catarina. Ao puxar-se a história de Antonieta, ela não vem sozinha: vêm ela e uma legião de pretos e pretas que construíram e estruturaram a história de Santa Catarina”, completa Jeruse Romão. E a construção e a estruturação nesse contexto podem ser estendidas também para a história do Brasil.

Escrito por:
Amauri Eugênio Jr.
31 de Julho de 2026

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Cultura do Amor: Pensem nas feridas como Rosas Cálidas


Pensem nas feridas como rosas cálidas ...

Tragédias humanitárias não podem ser esquecidas.

Tragédias humanitárias precisam ser registradas para que não caiam no esquecimento.

Foi assim com a devastação de Hiroshima por uma bomba de urânio (apelidada de Little Boy) jogada de um avião americano em 6 de agosto de 1945. Morreram, de imediato, pelo menos 140 mil pessoas. Dois dias depois, outra bomba – essa de plutônio, batizada de Fat Man – caiu em Nagasaki, causando a morte de outros 40 mil japoneses. Milhares morreram nos anos seguintes devido aos efeitos da radiação.

Entre 25 de maio e 12 de junho de 1946 (portanto, quase um ano após a tragédia), o jornalista John Hersey se deslocou até Hiroshima para acompanhar a trajetória de seis sobreviventes. O relato saiu, inicialmente, na revista The New Yorker. Para se ter ideia da repercussão, os 300 mil exemplares da edição rapidamente se esgotaram nas bancas e cópias clandestinas passaram a ser vendidas por um valor 10 vezes maior do que o preço de capa. Emissoras de rádio como a ABC, nos Estados Unidos, e a britânica BBC produziram versões dramatizadas do texto de Harsey, que, a seguir, foi publicado no livro Hiroshima, precursor do New Journalism – gênero que confere impacto e profundidade à reportagem através de uma abordagem literária.

No Brasil, o horror e a estupidez do ataque à cidade japonesa foram registrados por Vinícius de Moraes no poema Rosa de Hiroshima, escrito em 1946 e publicado, pela primeira vez, em 1957, em sua Antologia Poética. Em 1973, os versos foram musicados por Gerson Conrad e ganharam a voz de Ney Matogrosso com a banda Secos & Molhados, ampliando o alcance da indignação do poeta.

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas

Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas

Igualmente, os horrores da Guerra Civil Espanhola – que matou meio milhão de pessoas, entre 1936 e 1939 – foram para sempre inscritos na memória coletiva por Pablo Picasso em Guernica (imagem no alto da página), uma das obras mais conhecidas do pintor espanhol, referência à cidade basca bombardeada por aviões nazistas e fascistas em 26 de abril de 1937.

No caso de Gaza, porém, ainda não temos nem de perto a dimensão da tragédia humana que se abateu sobre o enclave palestino asfixiado pelas forças militares de Israel – desde outubro de 2023, foram exterminadas no mínimo 85 mil pessoas (incluindo 23 mil crianças e 13 mil mulheres) –, como mostram os artigos de Heloísa Villela e Ualid Rabah publicados nesta edição da Liberta. Não apenas os textos, mas também a magnífica arte de capa produzida por Aroeira, inspirada em Portinari, soam como um grito de alerta: não vamos esquecer de Gaza!

Porque tragédias humanitárias precisam ser registradas para que não se eternizem à mercê do ódio ou da omissão.

Matéria:
Paulo César Teixeira
25 jul 2026


quarta-feira, 15 de julho de 2026

Escravidão: "Empregados" domésticos

Viola Davis no filme: Histórias Cruzadas.
Os ricos de condomínio e seus ‘escravos’

Mais do que um passado vergonhoso, a escravidão é parte inegável do presente.

O Brasil é o país com mais empregados domésticos do mundo. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), são 5,9 milhões de pessoas, uma massa de trabalhadores formada por 91% de mulheres.

Isso é resultado da desigualdade do país, é fato. O de cima sobe/o de baixo desce, cantava o amigo Chico Science. E, claro, somos os donos desse recorde triste por causa da nossa herança escravocrata. Em alguns países, a escravidão faz parte de um passado vergonhoso. No Brasil, é parte inegável do nosso presente.

Na semana passada, tivemos mais uma prova dessa realidade amarga e inaceitável, quando foi divulgado que uma mulher de 62 anos havia sido resgatada de um imóvel num condomínio de luxo, na região de Fortaleza, o Terras Alphaville – Residencial 2, no bairro Cidade Alpha. A vítima servia à mesma família desde os sete anos de idade sem salário mensal, o que configura trabalho em condições análogas à escravidão.

Bem, se uma mulher foi escravizada por mais de 50 anos no meio de um condomínio de luxo, isso significa que toda a família sabia do que se passava, assim como agregados e amigos. Será que os outros vizinhos ricos ignoravam o caso?

As histórias de escravidão doméstica moderna lembram as dos abusos sexuais perpetrados por poderosos por anos impunemente, como Saul e Samuel Klein, das Casas Bahia. É necessária uma rede gigante de pessoas que se calam para que esse tipo de crime ocorra por tanto tempo. Isso mostra o quanto a escravidão é naturalizada e banalizada no Brasil.

Essas mulheres, muitas vezes, são tratadas como parte da estrutura familiar, mas não como “alguém da família”, como diz o clichê. Na verdade, são como propriedades e bens mesmo, igualzinho nos tempos da escravidão que vigorou no país até o século 19. Elas são da família tão quanto uma cristaleira antiga herdada de uma avó.

A mulher de Fortaleza não é um episódio isolado. De vez em quando, um crime parecido vem à tona.

O caso Jorge Luiz de Borba
Em 2023, Sônia Maria de Jesus foi resgatada da casa do desembargador do Tribunal de Justiça de Santa Catarina Jorge Luiz de Borba. No ano passado, sua esposa, Ana Cristina Gayotto de Borba, teve seu nome incluído na lista suja do trabalho escravo do governo federal. Isso aconteceu depois que uma investigação concluiu que Ana Cristina manteve Sônia Maria em regime de trabalho escravo doméstico por quase 40 anos na residência da família Borba, em Florianópolis.

O caso de Sônia é emblemático. Ela voltou para a casa da família Borba por vontade própria, depois de três meses do seu resgate, o que é perfeitamente entendível, já que essa era a única vida que ela conhecia. A família Borba afirma que ela sempre foi tratada como “filha”. E o desembargador nunca perdeu o seu emprego. Revoltante.

O caso Isis Valverde
Alguns exemplos de exploração doméstica moderna não são tão iguais ao do escravagista clássico, mas não deixam de ser escancaradamente escravocratas.

Recentemente, um caso envolvendo a atriz Isis Valverde causou revolta nacional. A atriz é acusada de explorar uma empregada doméstica, que a processou. A funcionária afirma que cumpria jornadas de aproximadamente 12 horas por dia, geralmente das 8h30 às 20h ou 20h30, e que tinha apenas cerca de 20 minutos para o almoço (!). Ela entrou na Justiça pedindo o pagamento de horas extras, diferenças de Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), multa rescisória e indenização por danos morais. O valor pedido por ela era de R$ 385.233,56. Em junho, as duas partes chegaram a um acordo de R$ 30 mil.

O valor baixo causou espanto, assim como a forma encontrada pela atriz para pagar o acordo. Isis é uma pessoa muito bem sucedida, casada com um empresário rico, mas decidiu pagar o acordo em seis parcelas mensais de R$ 5 mil. Um escárnio. A atriz nega as acusações e o seu advogado já ameaçou quem a acusasse com processo, usando uma tática de silenciamento.

Se, realmente, Isis explorou a funcionária desse jeito, ela está muito longe de ser a única. Nos prédios e condomínios de luxo, explorar trabalhadoras domésticas e tratá-las de forma escravocrata é comum.

As babás vestidas de branco, que lotam praças de bairros de bacanas e espaços de convivência dos condomínios de luxo são mais uma prova desse presente escravocrata. E, não, não é normal. Só acontece em países onde a herança da escravidão faz parte do presente.

Enquanto isso, os escravocratas modernos, sejam eles criminosos que vão parar na lista suja do trabalho escravo do país ou apenas ricos descolados que não percebem (como pode?) que é indecente submeter funcionárias a salários baixos e humilhações, não sentem vergonha nenhuma. Está na hora de passarem a ter.

Matéria:
@Revista Liberta
11 jul - 2026

Nina Lemos: é jornalista, escritora e mora em Berlin. É uma das criadoras do trio 02 Neurônio, com quem lançou cinco livros. Foi repórter especial da revista Tpm e colunista da Folha de S. Paulo, do UOL e da DW Brasil.


quarta-feira, 13 de maio de 2026

Educação: O que são Direitos Humanos?

O que são direitos humanos e por que são tratados como uma ameaça?


Entenda o que são direitos humanos, como surgiram e por que passaram a ser associados à criminalidade e à disputa política no Brasil contemporâneo.

Poucos termos atravessam tanto o debate público brasileiro quanto direitos humanos. Ao mesmo tempo em que aparecem em leis, políticas públicas e acordos internacionais, também são alvo de rejeição, desconfiança e disputa política.

Em parte da sociedade, a expressão deixou de ser associada à garantia de direitos básicos e passou a ser vinculada à ideia de proteção indevida a criminosos ou à imposição de valores. Esse deslocamento não acontece por acaso, se constrói ao longo do tempo, atravessando disputas políticas, narrativas midiáticas e experiências concretas de desigualdade.

Entender o que são direitos humanos, de onde vêm e como passaram a ser questionados ajuda a explicar por que o tema se tornou um dos símbolos da polarização política no país.

Como os direitos humanos surgiram a partir de contextos de violência?

Direitos humanos são um conjunto de garantias reconhecidas a todas as pessoas pelo simples fato de existirem. Eles incluem direitos civis, políticos e sociais, como vida, liberdade, segurança, acesso à educação, saúde e participação política .

A formulação mais conhecida desse conjunto está na Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada após a Segunda Guerra Mundial. O documento estabelece que todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos, sem distinção de origem, raça, religião ou posição social.

A declaração surge em um contexto de ruptura. O mundo acabava de enfrentar o Holocausto e conflitos que expuseram os limites da violência estatal. Segundo o alto comissário da ONU Volker Türk, o texto foi construído como resposta a esse cenário e buscava estabelecer um padrão mínimo de proteção à vida humana.

Ao longo das décadas, esse conjunto de direitos passou a orientar constituições, tratados internacionais e movimentos sociais. Lutas contra o apartheid, por independência nacional e por direitos civis se apoiaram nesses princípios.

Movimentos sociais e direitos humanos

Apesar da formulação universal, a aplicação dos direitos humanos nunca foi automática. Grupos historicamente excluídos precisam disputar o reconhecimento desses direitos na prática.

No Brasil, movimentos sociais tiveram papel direto nesse processo. Os movimentos negros e indígenas, por exemplo, contribuem para redefinir o conteúdo dos direitos humanos ao incorporar o debate sobre racialidade e território.

Essa dinâmica reforça um ponto central apontado pela Teoria crítica dos direitos humanos: o direito não é neutro. Ele reflete relações de poder e pode tanto reproduzir desigualdades quanto ser utilizado para enfrentá-las.

Mesmo com avanços institucionais, como a Constituição de 1988, a distância entre norma e realidade permanece. Violações continuam sendo registradas em diferentes áreas da vida social.

A ideia de “Direitos humanos para humanos direitos” mudou o sentido do conceito


"A associação de violência contra os direitos humanos é o caminho de algumas pessoas de extrema-direita. Produtos como este são vendidos livremente na internet, com esta e outras palavras com estímulos violentos"

Ao longo do tempo, os direitos humanos passaram a ser reinterpretados no debate público. Uma das expressões mais difundidas desse processo é a ideia de “direitos humanos para humanos direitos”.

Essa formulação sugere que os direitos não devem ser universais, mas condicionados ao comportamento ou à posição social. Essa ideia se espalha como um padrão cultural, reforçado por meios de comunicação e programas policiais.

Uma pesquisa realizada pela ONU Mulheres em parceria com o Instituto Ipsos, divulgada em 2024, ajuda a dimensionar essa percepção no Brasil contemporâneo. O levantamento mostrou que 38% dos entrevistados afirmam que os direitos humanos defendem mais os criminosos do que as vítimas. O dado ajuda a entender como o tema passou a ser associado à impunidade.

Esse deslocamento altera o sentido original da política de direitos humanos. Em vez de garantir proteção universal, o conceito passa a ser visto como instrumento seletivo.

O papel da mídia na construção dessa percepção

A forma como a violência é retratada influencia diretamente a percepção pública sobre direitos humanos. Programas de rádio e televisão voltados à cobertura policial reforçam a ideia de que segurança pública e direitos são agendas opostas, promovendo incitação à violência, exposição indevida de pessoas e desrespeito à presunção de inocência.

Esse padrão de cobertura tende a apresentar a violência como resultado de ações individuais e a defender respostas baseadas no aumento da punição. Nesse contexto, direitos humanos aparecem como obstáculo, e não como parte da solução.

Como a construção de inimigos redefine quem tem direito à proteção do Estado

A ideia de que determinados grupos representam uma ameaça à sociedade também influencia o debate. Esse processo envolve a definição de quem merece proteção e quem deve ser tratado como inimigo.

No campo jurídico, essa lógica se aproxima do chamado Direito Penal do Inimigo, que parte da distinção entre cidadãos e pessoas vistas como ameaça ao Estado. Para esse segundo grupo, a teoria admite a redução de garantias legais, como a presunção de inocência e o direito à defesa, com base na justificativa de prevenção de riscos. Esse tipo de raciocínio aparece em debates sobre segurança pública e no tratamento diferenciado dado a determinados grupos.

No Brasil, essa perspectiva aparece em práticas como o encarceramento em massa e a violência policial direcionada a determinados grupos. A criminalização da pobreza e da população racializada se insere nesse contexto.

Além disso, mecanismos legais podem ser utilizados para perseguir adversários políticos ou movimentos sociais, prática conhecida como lawfare, o uso do sistema de Justiça como instrumento de disputa política, por meio de investigações, processos ou medidas judiciais que produzem desgaste público e restrição de direitos.

Como o Estado atua entre garantir os direitos humanos, mas também violá-los

O Estado ocupa uma posição central nesse debate. Ele é responsável por garantir direitos, mas também aparece como agente de violação em diferentes contextos.

Em tempos contemporâneos, políticas públicas voltadas aos direitos humanos voltaram a ganhar espaço na estrutura federal. A retomada de programas e o fortalecimento de instâncias como o Conselho Nacional de Direitos Humanos indicam uma tentativa de reorganizar essa agenda.

Ao mesmo tempo, os próprios dados mostram limites dessa atuação. Entre 2023 e 2024, foram registrados 486 casos de violência contra defensoras e defensores de direitos humanos no Brasil, incluindo 55 assassinatos, segundo levantamento de organizações como Justiça Global e Terra de Direitos. O estudo aponta ainda que a violência ocorre, em média, a cada 36 horas, com participação de agentes públicos em parte dos casos.

Essa ambiguidade não é recente. A criminalização de quem atua na defesa de direitos também aparece no uso de mecanismos institucionais para restringir a atuação de movimentos sociais e lideranças. Processos judiciais, investigações e outras medidas legais são utilizados como forma de pressão e desgaste, especialmente em disputas envolvendo território, meio ambiente e direitos coletivos.

No cenário internacional, a disputa também se manifesta na tentativa de influenciar organismos multilaterais. Em 2026, articulações envolvendo Donald Trump e Javier Milei buscaram interferir na Comissão Interamericana de Direitos Humanos, órgão responsável por monitorar violações na região.

As movimentações incluem a indicação de nomes alinhados a essas agendas e a tentativa de alterar o funcionamento da instituição, o que pode impactar investigações e recomendações sobre direitos humanos no continente.

Esse tipo de posicionamento se conecta a um padrão mais amplo de deslegitimação do tema no discurso público.

O que acontece quando direitos humanos deixam de ser garantidos

A negação de direitos humanos aparece em indicadores concretos. Ela se traduz em restrição de acesso a direitos básicos e em maior exposição à violência, especialmente entre grupos mais vulneráveis.

No Brasil, diferentes formas de violação seguem sendo registradas. Algumas violações comuns no país nos permitem observar como esse cenário se manifesta no cotidiano.

Pessoas em situação de rua

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada estimou que, em 2023, o número de pessoas em situação de rua ultrapassou 280 mil. O aumento da população está associado a fatores como desemprego, informalidade e dificuldade de acesso a políticas de moradia.

A falta de acesso a documentação, alimentação e serviços públicos coloca essa população fora do alcance de direitos básicos, dificultando inclusive o acesso a políticas de assistência.

Trabalho análogo à escravidão

O trabalho análogo à escravidão segue sendo identificado em diferentes regiões do país. Em 2025, o Ministério do Trabalho e Emprego resgatou quase 3 mil trabalhadores em condições desse tipo, em 1.594 ações fiscais realizadas ao longo do ano.

As situações identificadas incluem jornadas exaustivas, condições degradantes, restrição de liberdade e servidão por dívida. Dados acumulados mostram que, desde 1995, mais de 63 mil pessoas foram resgatadas desse tipo de exploração no Brasil. A recorrência dos casos indica que essas práticas não desapareceram e seguem vinculadas a contextos de vulnerabilidade social e econômica.

Tortura e violência estatal

Casos de tortura e violência estatal seguem sendo registrados no país, inclusive em ações policiais. O Ministério Público Federal mantém investigações abertas sobre esse tipo de ocorrência, que envolvem detenções arbitrárias, agressões físicas e mortes em operações.

Os dados indicam que esses episódios não são isolados. Entre 2023 e 2024, ao menos 45 casos de violência contra defensores de direitos humanos tiveram participação de policiais militares, incluindo registros de assassinatos. A presença de agentes do Estado em parte dessas ocorrências reforça o papel ambíguo das instituições responsáveis tanto por garantir quanto por violar direitos.

Esses registros mostram que a negação de direitos humanos não se distribui de forma homogênea. Ela incide com maior frequência sobre grupos já expostos a desigualdades estruturais, ampliando a distância entre o que está previsto na lei e o que se verifica na prática.

Por que existe distância entre os direitos previstos na lei e a realidade

A distância entre o que está previsto na lei e o que acontece na prática é um dos pontos centrais do debate sobre direitos humanos.

A Declaração Universal estabelece um conjunto de garantias, mas sua aplicação depende de políticas públicas, decisões judiciais e disputas sociais.

Em 2026, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que há um cenário global de enfraquecimento dessas garantias, com aumento de conflitos, desigualdades e violações. Esse contexto reforça a ideia de que direitos humanos não são um dado consolidado, mas um campo em disputa permanente.

Os direitos humanos e o caminho para uma sociedade justa

A discussão sobre direitos humanos envolve mais do que a definição de políticas públicas. Ela trata de como a sociedade organiza a distribuição de proteção e acesso a direitos.

Quando o conceito deixa de ser universal, abre espaço para critérios que definem quem deve ser protegido e quem pode ser excluído.

Esse deslocamento aparece em discursos, políticas e práticas institucionais. Ele também influencia a forma como diferentes grupos são tratados no cotidiano.Os direitos humanos foram formulados como resposta a contextos de violência e exclusão. Ao longo do tempo, passaram a ser reinterpretados e disputados em diferentes arenas.

No Brasil, essa disputa envolve história, desigualdade, mídia e política. O resultado é um cenário em que o conceito permanece presente, mas com significados em disputa.

A forma como esse debate evolui impacta diretamente a vida de quem depende dessas garantias para acessar direitos básicos.

@PlataformaInstitutoConhecimentoLiberta
Matéria em: 12/05/2026


terça-feira, 5 de maio de 2026

Feminismo: Educação sobre Misoginia.

Precisamos de uma educação que 
esfarinhe a misoginia.


‘Listas de estupráveis’: uma tendência macabra entre estudantes.
Casos foram registrados em março e abril em diferentes instituições de ensino

Quando eu estava na escola, lá nos distantes anos 1980, era comum que os meninos da turma fizessem anualmente uma lista das meninas “mais bonitas da sala”. Olhando agora, essa brincadeira machista soa inocente e boba. Parece que muitas coisas pioraram nesses 40 anos.

Agora, uma nova tendência macabra aparece em escolas e universidades: a “modinha” (com mil aspas, já que se trata de um crime) é fazer listas de “garotas estupráveis” entre as colegas. Não me atrevo a tentar entender o que esse conceito significa. O que sei, com certeza, é que estamos diante de um crime.

Estupro é uma coisa horrível, o maior terror das mulheres. E isso não pode se transformar em “brincadeira de estudantes”.

Não é exagero falar que é uma tendência. Numa pesquisa rápida, achei três denúncias de casos do tipo (isso dos que chegaram à imprensa) em pouco mais de um mês: na Universidade Federal do Paraná, em Curitiba; na IFsul, de Pelotas, no Rio Grande do Sul; e no colégio São Domingos, em São Paulo.

Isso é assustador em todos os níveis. Os homens e os meninos parecem ter perdido a vergonha de assumir seus lados mais misóginos e perversos. Ou será que ser estuprador virou uma coisa cool entre alguns homens? Praticar crimes sexuais parece ser prova de macheza em círculos dos mais variados.

Em março, o caso do colégio São Domingos causou choque pelo horror da lista em si e por tratar-se de meninos do 9º ano, ou seja, adolescentes menores de idade, de uma escola progressista da capital paulista.

Prêmio para criminosos sexuais.

Mas o que aconteceu em São Paulo não foi um caso isolado. Esse tipo de lista pode ser ainda mais perverso.

Na semana passada, o diretório acadêmico da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Paraná denunciou a existência de um grupo, dentro da escola, que faria listas de “meninas estupráveis” e ofereceria dinheiro, como uma espécie de premiação, para aqueles que “conseguissem” executar os crimes, como se mulheres fossem animais numa temporada de caça.

Foram compartilhados também detalhes sobre as vítimas, como seus horários, percursos, ou seja, esse “grupo” funcionaria como uma célula de criminosos sexuais organizados.

Uma estudante teria recebido uma mensagem com prints do grupo, chamado “Ghost”, onde homens faziam planos para estuprá-la. O valor do prêmio para quem conseguisse praticar o crime seria de cerca de R$ 400. O material foi enviado para a polícia civil, que investiga o caso.

Em nota institucional, a universidade informou que “tomou conhecimento das mensagens que circulam em grupos de estudantes, a partir de uma denúncia grave envolvendo ameaça de violência sexual”. As estudantes foram avisadas pelo diretório acadêmico a “tomarem cuidado, não andarem sozinhas e evitarem sair à noite”. Imaginem o terror que estão sofrendo.

Tudo indica que os autores das ameaças seriam alunos do curso de Medicina, o que torna tudo ainda mais perigoso. Futuros médicos deveriam ser pessoas com um mínimo de decência, não criminosos. Mulheres não podem se sentir seguras nem em um consultório médico? Se você for vítima de um crime sexual, corre o risco de, no hospital, ser atendida por um criminoso do mesmo tipo? Como esses homens vão tratar mulheres se, quando olham para seus corpos, enxergam bichos a serem abatidos?

Uma lista parecida circulou no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-Rio-Grandense (IFSul), em Pelotas, no fim de março. Um grupo de alunos criou um “ranking sexual” com fotos de 30 colegas e adjetivos misóginos. Oito deles foram suspensos e o caso também passou a ser investigado pela polícia civil.

Espero que todos os alunos envolvidos nesses casos sejam expulsos, claro. Mas isso ainda é pouco. Eles precisam responder por seus crimes de verdade.

Normalização do estupro.

O que mais assusta é a normalização de algo tão abominável como o estupro. Desde quando os jovens passaram a falar disso sem vergonha?

Pelo jeito, o momento atual, de ascensão da extrema direita, que trata mulheres como “coisas” e fala claramente absurdos como “você não merece ser estuprada”, como disse o então deputado federal Jair Bolsonaro para a também deputada Maria do Rosário (e depois foi eleito presidente!), o ódio a feministas que “precisam de um corretivo” e outros horrores fizeram com que potenciais estupradores saíssem do armário.

O aumento da misoginia, representada por grupos de red pills e incels, obviamente, também contribui para esse horror. Mulheres e meninas passaram a ser vistas (mais ainda) como ameaças, pessoas perigosas, manipuladoras, que precisam “aprender com os homens a se comportar”.

É terrível que a gente esteja em um momento desses. O que não podemos, de forma alguma, é culpar todos os avanços feministas e o empoderamento das meninas por essa suposta “fraqueza dos meninos”. Quem faz lista de colegas “estupráveis” não está “confuso” e “assustado”. Está praticando um crime, algo que não pode ser relativizado. Que as meninas sejam cada vez mais educadas a reagir e a se defender juntas.

É o que tem acontecido. Enquanto alguns jovens fazem listas de quais colegas “são mais estupráveis”, elas se unem para se proteger deles. Temos que a apoiá-las a ser cada vez mais fortes em seus “nãos”. E, obviamente, a PL contra a misoginia precisa ser aprovada, urgentemente. Parar esse horror, caros deputados, precisamos ter prioridade máxima.

Nina Lemos - 2 maio 2026


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Sociologia: Quando a Educação Perde a Alma

Uma Visão Humanista e Espiritual
da Educação


Neoliberalismo, humanismo e espiritualidade no debate educacional contemporâneo. A educadora e espírita Dora Incontri concedeu recente entrevista ao jornal e à TV Brasil 247, na qual articula uma crítica consistente ao modelo educacional neoliberal no Brasil contemporâneo. 

A partir de uma visão humanista e espiritualista da educação, Incontri analisa a transformação da escola em espaço de desempenho, com professores submetidos a lógicas produtivistas e estudantes progressivamente tratados como consumidores. 
É a partir desse horizonte pedagógico e espiritual que se organizam os comentários e reflexões apresentados a seguir. A entrevista concedida por Dora Incontri reacende uma questão incômoda e necessária: o que restou da educação como processo de formação humana? 

Ao afirmar que “a educação foi sequestrada pelo neoliberalismo”, a educadora não formula apenas uma crítica econômica ou administrativa. Ela aponta para uma fratura mais profunda: a perda do sentido da experiência educativa. Vivemos um tempo em que a escola é crescentemente tratada como linha de montagem de competências, e o estudante como portador de indicadores mensuráveis. Nesse cenário, ensinar passa a ser sinônimo de cumprir metas, e aprender, de atingir desempenhos previamente estipulados. 

A fala de Incontri surge, assim, como contraponto humanista e alerta ético: quando a educação se submete integralmente à lógica do mercado, ela abdica de sua função civilizatória. A pedagogia sob a lógica do desempenho. A crítica central da entrevista dirige-se à substituição da formação integral por métricas de desempenho, rankings e avaliações padronizadas. Avaliar tornou-se mais importante do que compreender; medir, mais urgente do que educar. O estudante aparece menos como sujeito em formação e mais como dado estatístico. Essa lógica contrasta frontalmente com a tradição pedagógica clássica. Desde Comenius, que defendia uma educação universal orientada pela natureza do aprendiz, respeitando ritmos e etapas do desenvolvimento humano, até Pestalozzi, que insistia na integração entre afetividade, razão e ação — “coração, cabeça e mãos” — como núcleo do processo educativo, a pedagogia sempre compreendeu a educação como fenômeno complexo e integral. 

Ao converter a escola em organização gerencial, o neoliberalismo rompe essa unidade. O resultado é uma educação tecnicamente eficiente, mas antropologicamente empobrecida. O enquadramento da crítica Convém, no entanto, situar o discurso no qual a entrevista se inscreve. A crítica de Dora Incontri à educação contemporânea emerge de um enquadramento político-cultural específico, compartilhado também pelo veículo e pelo formato da entrevista. Trata-se de uma leitura fortemente marcada por uma tradição crítica ao neoliberalismo, que privilegia a análise estrutural dos efeitos do mercado sobre a escola pública. Esse enquadramento não invalida os argumentos apresentados — muitos deles amplamente sustentados por tradições pedagógicas clássicas e humanistas —, mas delimita o horizonte interpretativo da conversa. Como todo discurso situado, ele ilumina certos aspectos da realidade educacional ao mesmo tempo em que silencia outros, exigindo do leitor uma escuta crítica, contextualizada e intelectualmente responsável. Humanismo pedagógico: força e tensão. 

Ao enfatizar o vínculo afetivo entre educador e educando, Incontri recupera um núcleo essencial da pedagogia humanista. O conhecimento, nessa perspectiva, não é simples transmissão de conteúdos, mas experiência relacional, mediada pela presença, pelo tempo e pela escuta. Essa concepção dialoga diretamente com Rousseau, para quem a educação deveria favorecer o desenvolvimento das potencialidades humanas e não a adaptação precoce às exigências sociais. Educar, nesse sentido, é formar um sujeito capaz de pensar, sentir e agir com autonomia — não apenas responder a demandas externas. O desafio contemporâneo, contudo, permanece aberto: como sustentar essa visão humanista em sistemas educacionais massificados, precarizados e submetidos a pressões econômicas constantes? 

A entrevista identifica a fratura, mas deixa claro que não há soluções simplistas. Tecnologia, aceleração e empobrecimento da atenção. Outro eixo relevante da entrevista é a crítica ao uso acrítico da tecnologia na educação. Incontri alerta para o risco de que plataformas digitais, quando orientadas exclusivamente por eficiência, escala e produtividade, substituam o vínculo pedagógico por interfaces e fragmentem a atenção dos estudantes. Ensinar, no entanto, exige tempo de elaboração, silêncio reflexivo e mediação humana. Não se trata de rejeitar a tecnologia, mas de reconhecer que ela não é neutra: molda comportamentos, reorganiza a atenção e redefine prioridades. Uma educação submetida à lógica da aceleração permanente corre o risco de perder sua capacidade de formar pensamento profundo. 

Um diálogo possível com o Espiritismo laico Embora não explicitamente espírita, a entrevista de Dora Incontri permite um diálogo fecundo com a tradição espírita em sua vertente laica, filosófica e crítica. Para Allan Kardec, a educação era elemento central do progresso humano. A instrução intelectual, desacompanhada da formação moral, poderia apenas sofisticar desigualdades e ampliar abusos. Em Obras Póstumas, Kardec afirma que o verdadeiro progresso é inseparavelmente intelectual e moral. Educar, portanto, não é apenas transmitir conhecimentos, mas preparar o espírito para o uso responsável do saber. Essa visão seria aprofundada por Léon Denis, ao defender que a educação deve formar consciências, considerando a continuidade da vida e a responsabilidade espiritual do ser humano. Sob essa ótica, uma educação capturada por métricas perde não apenas sua dimensão humanista, mas também sua vocação ética e evolutiva. Educação como responsabilidade coletiva. 

Há ainda um aspecto sociológico implícito na entrevista: ao reduzir a educação a um serviço, a lógica neoliberal desloca a responsabilidade coletiva pela formação das novas gerações. A escola deixa de ser espaço público de construção de sentido e passa a operar como prestadora de resultados. Do ponto de vista espírita — e também humanista — a sociedade é um espaço contínuo de aprendizagem moral. Indivíduos e instituições educam-se mutuamente. Quando a educação se empobrece, empobrece também o tecido social que dela depende. 

Considerações finais. A entrevista de Dora Incontri não oferece respostas prontas — e talvez esse seja seu maior mérito. Ela recoloca a educação no campo das questões essenciais: Para que educamos? Que tipo de ser humano estamos formando? Que valores orientam nossas escolhas pedagógicas? Ao articular crítica social, pedagogia humanista e abertura a uma leitura espiritual não dogmática, sua fala convida a pensar a educação como experiência de sentido, e não apenas como instrumento de adaptação ao mercado. Em tempos de aceleração, métricas e automação, a pergunta: o que restou da educação como processo de formação humana? permanece incômoda — e absolutamente necessária.

Por Wilson Garcia
@BlogCanteiroDeIdeias


quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Histórias do Brasil: Democracia

O que significa soberania de um país?

' O atentado de 8 de Janeiro e as pessoas mais feias do mundo '


O macabro jardim de infância do fascismo contemporâneo.

“Eu sei que não é legal dizer, mas essas pessoas são uma bagunça.

São as pessoas mais feias que eu já vi”.


Trump, Donald – 2026
presidente norte americano


08/01/2026.
Quinta-feira, 8 de janeiro de 2026. Há exatos três anos, o Planalto Central era invadido por uma turba enfurecida e ao mesmo tempo festiva. Mulheres e homens adultos de todas as idades, como crianças sem limites e achando-se heróis da pátria, faziam sim história, porém como o lado patético, bizarro e criminoso ao demonstrarem um prazer quase que sexual em depredar prédios públicos, emporcalhar gabinetes e destruir patrimônio histórico.

Feito uma turma de pré-adolescentes saída de algum filme de terror, os “patriotas” acharam-se livres para pôr em prática uma tomada de poder como se estivessem em um vídeo game e, mais que isso, tinham certeza da imunidade e da impunidade. Quando viram que deram com os burros n’água, tentaram atribuir o ocorrido a “infiltrados”. Não colou e brincar de dar golpe saiu caríssimo para os próprios, mas principalmente para o país.

Trinta e seis meses depois, os mesmos que acharam que estava tudo bem atentar contra a democracia, ainda pensam da mesma maneira e no percurso trataram de festejar a eleição de Donald Trump, estender e celebrar a bandeira estadunidense em solo brasileiro, comemorar a taxação do país, parar a nação por meses trancando pautas urgentes e mobilizando toda a mídia para debater e enfiar goela abaixo anistia, redução de pena, benesses, alívios, proteções … ufa!

Trabalhosa, custosa, cruel e mortal. Essa é a definição de uma vertente política que paralisa uma nação para fazer valer os próprios delírios, caprichos, interesses e desejos de dominação.

Por último, é um tal de vibrar com a invasão da Venezuela, como se o capitalista que se fez presidente nos EUA estivesse muito preocupado com ditadura. Como se não fosse aliado de grandes ditadores e tivesse vocalizado com o mesmo tom de voz debochado e enfadonho de sempre, que entrou porque está disposto a pegar na mão grande as riquezas do país vizinho.

A alegria da extrema direita brasileira em cima da queda de Nicolás Maduro, toda calcada na esperança de que talvez o presidente brasileiro — que eles chamam de ditador — tivesse o mesmo fim, faz questão de fechar os olhos para o fato de que o presidente mimado, que brinca de dono do mundo, também aqui estaria pouco se lixando para o povo. Principalmente para eles, os políticos capachos de gringo. Estes seriam os primeiros descartados numa possível nova ordem, como foi Marina Corina Machado, a opositora de Maduro e ganhadora do Prêmio Nobel da Paz que acha lindo soluções por vias bélicas.

Todo este extenso, dispendioso e mortal processo por que temos — os americanos de norte a sul —, suportado nos últimos anos é fruto da mesma massa ressentida e desejosa de manutenção de privilégios, volta ao século 20 em certos aspectos e em outros ao 19 e 18.

Os manifestantes venezuelanos marchando contra tudo isso no último dia 6, em Nova Iorque, receberam do idoso branco pintado de laranja, cabelo cor de rosa e que se acha muito lindo, a alcunha de “pessoas mais feias do mundo”. Para ele, a Venezuela, o Brasil, a Colômbia, etc… são um aglomerado de gente feia sentada em cima de riquezas essenciais para o poder dos “bonitos”.

O atual presidente dos Estados Unidos é o representante máximo de uma extrema direita que se apresenta como um jardim de infância de gente minúscula, mesquinha, cruel e profundamente interesseira, mas, seja você um patriota do 8 de janeiro ou um opositor ferrenho a tudo isso, por aqui todos e todas são “uma bagunça” para Donald Trump.

Para ele, todos e todas somos “as pessoas mais feias do mundo”.

@ICL

Eliana Alves Cruz é carioca, escritora, roteirista e jornalista. Foi a ganhadora do Prêmio Jabuti 2022 na categoria Contos, pelo livro “A vestida”. É autora dos também premiados romances Água de barrela, O crime do cais do Valongo; Nada digo de ti, que em ti não veja; e Solitária. Tem ainda dois livros infantis e está em cerca de 20 antologias. Foi colunista do The Intercept Brasil, UOL e atuou como chefe de imprensa da Confederação Brasileira de Natação.


domingo, 14 de dezembro de 2025

Humanidade: Onde estão as pessoas humanas?

Por que a escolha pela guerra e pelas armas?

Indiferença ao sofrimento humano: potências abandonam milhões de pessoas

ONU afirma que "indiferença global" inviabiliza ajuda aos que vivem em crise humanitária profunda

Revista Liberta
13 dez 2025

A ONU precisa, em 2026, de apenas 1% dos gastos destinados pelos governos para armas para sair ao resgate de 87 milhões de pessoas que vivem uma crise humanitária profunda. Constrangida e indignada, porém, ela não sabe se irá conseguir reunir o dinheiro.

Acampamento de refugiados no Sudão (AFP).

Nesta semana, a entidade apresentou seu orçamento e seu programa para as operações humanitárias no próximo ano. Mas, diante do que ela descreve como sendo uma “indiferença global ao sofrimento humano”, o alerta é sobre os cortes profundos no compromisso de governos europeus, dos EUA e de outras grandes economias para garantir ajuda aos mais necessitados.

“Este é um momento de brutalidade, impunidade e indiferença”, disse o chefe humanitário da ONU, Tom Fletcher. Para ele, 2025 foi marcado pela “ferocidade e intensidade dos assassinatos, o completo desrespeito ao direito internacional e níveis horríveis de violência sexual”.

Fletcher está convencido de que o sistema internacional criado para proteger civis está “em retrocesso”, corroído por distrações, polarização política e orçamentos de ajuda cada vez menores. “Nossas antenas de sobrevivência foram entorpecidas pela apatia”, alertou.
Crises invisíveis

Sua mensagem é dura e direcionada aos governos de todo o mundo.

“Estamos sobrecarregados, com poucos recursos e sob ataque”, disse. “E dirigimos a ambulância em direção ao incêndio. Em nome de vocês. Mas agora também nos pedem para apagar o fogo. E não há água suficiente no tanque. E estamos sendo alvejados”, alertou.

Em 2025, a ONU havia feito um apelo por US$ 45 bilhões, mas recebeu apenas US$ 12 bilhões. “Quando os políticos se gabam de cortar a ajuda”, disse Fletcher, “somos forçados a escolher quem vive e quem morre.”

Sob o governo de Donald Trump, Washington reduziu suas doações humanitárias de US$ 11 bilhões, em 2024, para US$ 2,7 bilhões, em 2025, segundo dados da ONU. O resultado tem sido milhões de pessoas sem acesso a remédios, abrigo ou ajuda.

Mesmo as maiores e mais notórias crises continuam criticamente subfinanciadas em 2025.

A Ucrânia, por exemplo, recebeu apenas 48,7% dos fundos necessários; o Território Palestino Ocupado, 40%; e o financiamento para a resposta no Sudão está em 35,4%, uma queda acentuada em relação aos 69,3% registrados em 2024.

Enquanto isso, outras crises “invisíveis” são ainda mais negligenciadas.

O apelo da ONU para a República Democrática do Congo recebeu apenas 22% do financiamento necessário, enquanto os apelos do Iêmen e da Somália estão ambos em 24%.

Em função da queda vertiginosa do financiamento, as organizações humanitárias estão sendo forçadas a reduzir drasticamente a assistência e a proteção às pessoas em crise. Serviços vitais – como alimentação e saúde de emergência, água, saneamento e programas de proteção – estão sendo reduzidos ou suspensos, deixando milhões de pessoas em maior risco de doenças evitáveis, desnutrição e deslocamento.

As consequências dos cortes de financiamento são potencialmente fatais para milhões de pessoas que lutam para sobreviver. No Iêmen, uma das emergências nutricionais mais graves do mundo, Global Nutrition Cluster (GNC), relatou, em setembro, que os cortes de financiamento forçaram o fechamento de 377 centros de atendimento ambulatorial e de 2.376 centros de distribuição de alimentos suplementares, deixando milhões de mães e crianças sem apoio vital.

Escolhas de vida ou morte.

Para 2026, a ONU estima que 230 milhões de pessoas precisarão de ajuda. Mas o plano não dará conta de todos. A entidade busca pelo menos US$ 23 bilhões para auxiliar 87 milhões de pessoas em alguns dos contextos mais perigosos do mundo – incluindo Gaza, Ucrânia, Sudão, Haiti e Mianmar. Mas a esperança é a de que US$ 33 bilhões possam ser arrecadados para ajudar 135 milhões de pessoas.

Diante de um realismo dolorido, a ONU decidiu escolher prioridades e focar seus recursos sobre “escolhas angustiantes de vida ou morte”.

No topo da lista de prioridades para 2026, estão Gaza e a Cisjordânia, onde a ONU busca US$ 4,1 bilhões para socorrer três milhões de pessoas. A ONU ainda está solicitando US$ 2,9 bilhões para 20 milhões de sudaneses.

Ela promete pressionar os governos a abrirem seus cofres públicos. Mas Fletcher admite que, se isso fracassar, a organização recorrerá de forma mais incisiva à sociedade civil, às empresas e aos cidadãos.

Para a ONU, não é verdade que o mundo rico esteja sendo “generoso demais” com os mais pobres, como líderes populistas têm afirmado.

“Não estou pedindo às pessoas que escolham entre um hospital no Brooklyn ou um hospital em Kandahar”, disse. “Estou pedindo ao mundo que gaste menos com defesa e mais com apoio humanitário”, explicou o chefe do serviço humanitário.

Seu cálculo é tão simples quanto brutal: o valor solicitado pela ONU para salvar 87 milhões de pessoas representa pouco mais de 1% dos gastos militares globais anuais.

Jamil Chade
Jornalista paulistano radicado na Suíça desde 2000 e correspondente na Europa há mais de 20 anos. Com passagens por mais de 70 países, já presidiu a Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça, integra a rede de especialistas da Transparência Internacional e colabora com veículos como BBC, CNN, Al Jazeera e France24. Autor de cinco livros — dois finalistas do Prêmio Jabuti — foi eleito duas vezes o melhor correspondente brasileiro no exterior pelo Prêmio Comunique-se.




quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Cultura do Amor

Cultura do Amor

Desembargador manda carta a moradora do Complexo da Penha: 
‘Estou andando ao seu lado’

Magistrado tomou posse em março e viralizou com discurso sobre ameaças do fascismo. Buch explica, no texto, pontos que fazem parte da lei e que podem ter sido violados. Entre eles estão o uso proporcional da força, câmeras nas viaturas, elaboração de um plano de reocupação de territórios invadidos por organizações criminosas e a entrada da Polícia Federal nas investigações contra milícias e tráfico de drogas interestadual e internacional.

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Uma carta para dona Nice

Querida dona Nice,

escrevo-lhe com afeto e respeito.

Meu nome é João Marcos, moro em Santa Catarina e trabalho com a Justiça. Sou desembargador, nome dado a juízes que atuam em recursos nos tribunais.

Na última terça-feira, vi sua entrevista no jornal da TV. A senhora voltava para casa, com sacolas de supermercado nas mãos, e foi parada por uma repórter que queria saber sobre a chacina ocorrida mais cedo nos complexos da Penha e do Alemão, onde mais tarde se viria a constatar que 121 pessoas (pode ser além) haviam sido mortas, na mais sangrenta intervenção da segurança pública já ocorrida no Rio de Janeiro e no Brasil dos tempos atuais.

Sua entrevista me marcou profundamente. Moradora desde sempre da Penha, a senhora disse que já não tinha mais esperança, que, nessa altura da vida, tendo visto tanta tragédia, tantas operações policiais, tantas pessoas próximas assassinadas, não acreditava mais que um dia a vida melhoraria — tudo era tristeza. Em seguida, a senhora se despediu da repórter e retomou seu caminho para casa, cambaleante, cansada, segurando as sacolas.

Hoje já é domingo; faz cinco dias que eu penso na senhora, faz cinco dias que estou andando ao seu lado, faz cinco dias que tento carregar as suas sacolas até sua casa. Por isso, querida Dona Nice, com o coração inquieto, mesmo sem saber nada da sua vida, senão o fato de que a senhora perdeu a esperança, resolvi lhe escrever.

Eu sei que esta carta nunca chegará a seu destino, pois nunca a postarei. Impotente que sou para modificar um átomo de sua vida e para lhe oferecer uma centelha de esperança, escrevo-lhe porque não consigo fazer diferente, porque não sei mais se a esperança também me abandonou.

Assim como nas favelas de Florianópolis, já estive em favelas do Rio; já me encharquei da beleza e da bondade de pessoas que tão bem me acolheram. E já testemunhei muita dor e injustiça. Entretanto, o fato é que nada mais conheço, além de que a vida de quem mora nessas comunidades periféricas é carente de direitos e de oportunidades.

Sabe, Dona Nice, sempre tive o cuidado de não me arvorar em senhor das verdades, e me incomoda muito ver quem acha que sabe de tudo — cegado por redes sociais e algoritmos —, pessoas com quem é impossível argumentar com base em fatos e lógica. É desolador ouvir suas vozes celebrando a chacina, justificando o horror com acusações sem conhecimento de causa sobre crimes antes cometidos. De onde vem esse ódio? De que veneno se alimentam esses seres humanos? Onde está sua bondade, sua compaixão?

Fico a pensar o que essas manifestações causam na senhora, que tanto já testemunhou e viveu. Será que a senhora ainda chora, ainda se revolta com a opressão e a violência que sua comunidade sofre? Essa chacina, para mim, que vivo em um apartamento confortável, localizado em um bairro seguro, saneado, arborizado, com espaços de cultura e lazer, provocou espanto, lamento e indignação. Porém, quando a pessoa tem sua dignidade tão ferida e há tanto tempo, ela acaba perdendo a consciência de que aquela situação fere de morte seus direitos. Então, não sei o quanto isso tudo lhe afetou; só sei que a esperança lhe foi roubada.

Em meus estudos e em meu trabalho, aprendi algo sobre o fenômeno da violência urbana. Depois de algum tempo procurando entender nossa sociedade, tomei conhecimento de que a fórmula do “confronto” na segurança pública é fadada ao fracasso (a senhora sabe disso bem antes de mim). Essa fórmula ceifa vidas de todos os lados e não supera as dificuldades das comunidades vulnerabilizadas. Por que é tão difícil que governos e autoridades entendam que somente políticas públicas inclusivas — de habitação, saneamento, saúde, educação, empregabilidade, cultura e lazer — articuladas à segurança pública, podem trazer benefícios reais para toda a sociedade?

No país, nós temos o Supremo Tribunal Federal (STF). Pois bem, a mais alta corte da Justiça definiu, em uma ação proposta pelo Partido Socialista Brasileiro (ADPF n.º 635, conhecida como ADPF das Favelas), que o governo do Rio deve seguir diversas regras nas operações policiais, como o uso proporcional da força, câmeras nas viaturas, elaboração de um plano de reocupação de territórios invadidos por organizações criminosas, bem como a entrada da Polícia Federal nas investigações contra milícias e tráfico de drogas interestadual e internacional. Olha, Dona Nice, parece que o Supremo não foi muito bem respeitado. Creio, inclusive, que logo logo autoridades terão de prestar contas.

Aliás, até a Organização das Nações Unidas (ONU), por meio do seu Alto Comissariado dos Direitos Humanos, declarou que essa operação policial — que eu chamo de chacina — ampliou a tendência de consequências extremamente letais sobre as comunidades marginalizadas e enfatizou que as autoridades têm obrigação perante as leis internacionais de direitos humanos.

Mas o que isso importa, não é? A chacina já aconteceu, vidas foram ceifadas, até policiais morreram — e não consigo imaginar a dor das famílias que tiveram seus entes sequestrados de suas vidas para todo o sempre.

Ainda sinto que um dia a justiça alcançará a todos os cidadãos, que as instituições funcionarão conforme a Constituição e que a dignidade da pessoa humana será, em definitivo, fundamento da República.

Dona Nice, inspirado na leitura de um livro chamado Antes que as Palavras te Abandonem, de um grande amigo, Leonardo Tônus, em que um imigrante, à procura de um amigo refugiado afegão em Berlim, escreve-lhe cartas, eu lhe digo que, se pudesse, eu a abraçaria e afirmaria, com o coração aberto, que não importa mais o resultado da luta, mas a capacidade de entender o seu chamado.

Dona Nice, neste Brasil tão sangrento, de séculos de escravidão, racismo, patriarcado e colonialismo, não tenho o direito de lhe pedir que volte a ter esperança. Entretanto, ouso lhe pedir outra coisa: atenda nosso chamado, não desista de mim, não desista de nós, não desista da humanidade.

Querida Dona Nice, a senhora é a nossa esperança, volte,

João Marcos Buch

Desterro, 02/11/25 – finados

Amanda Miranda
Formada pela UFSC, com mestrado em educação científica e doutorado em Jornalismo na mesma instituição. Tem pós doutorado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Servidora pública federal e ativista pelo direito à informação, tem se dedicado a monitorar políticos extremistas.