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domingo, 14 de dezembro de 2025

Humanidade: Onde estão as pessoas humanas?

Por que a escolha pela guerra e pelas armas?

Indiferença ao sofrimento humano: potências abandonam milhões de pessoas

ONU afirma que "indiferença global" inviabiliza ajuda aos que vivem em crise humanitária profunda

Revista Liberta
13 dez 2025

A ONU precisa, em 2026, de apenas 1% dos gastos destinados pelos governos para armas para sair ao resgate de 87 milhões de pessoas que vivem uma crise humanitária profunda. Constrangida e indignada, porém, ela não sabe se irá conseguir reunir o dinheiro.

Acampamento de refugiados no Sudão (AFP).

Nesta semana, a entidade apresentou seu orçamento e seu programa para as operações humanitárias no próximo ano. Mas, diante do que ela descreve como sendo uma “indiferença global ao sofrimento humano”, o alerta é sobre os cortes profundos no compromisso de governos europeus, dos EUA e de outras grandes economias para garantir ajuda aos mais necessitados.

“Este é um momento de brutalidade, impunidade e indiferença”, disse o chefe humanitário da ONU, Tom Fletcher. Para ele, 2025 foi marcado pela “ferocidade e intensidade dos assassinatos, o completo desrespeito ao direito internacional e níveis horríveis de violência sexual”.

Fletcher está convencido de que o sistema internacional criado para proteger civis está “em retrocesso”, corroído por distrações, polarização política e orçamentos de ajuda cada vez menores. “Nossas antenas de sobrevivência foram entorpecidas pela apatia”, alertou.
Crises invisíveis

Sua mensagem é dura e direcionada aos governos de todo o mundo.

“Estamos sobrecarregados, com poucos recursos e sob ataque”, disse. “E dirigimos a ambulância em direção ao incêndio. Em nome de vocês. Mas agora também nos pedem para apagar o fogo. E não há água suficiente no tanque. E estamos sendo alvejados”, alertou.

Em 2025, a ONU havia feito um apelo por US$ 45 bilhões, mas recebeu apenas US$ 12 bilhões. “Quando os políticos se gabam de cortar a ajuda”, disse Fletcher, “somos forçados a escolher quem vive e quem morre.”

Sob o governo de Donald Trump, Washington reduziu suas doações humanitárias de US$ 11 bilhões, em 2024, para US$ 2,7 bilhões, em 2025, segundo dados da ONU. O resultado tem sido milhões de pessoas sem acesso a remédios, abrigo ou ajuda.

Mesmo as maiores e mais notórias crises continuam criticamente subfinanciadas em 2025.

A Ucrânia, por exemplo, recebeu apenas 48,7% dos fundos necessários; o Território Palestino Ocupado, 40%; e o financiamento para a resposta no Sudão está em 35,4%, uma queda acentuada em relação aos 69,3% registrados em 2024.

Enquanto isso, outras crises “invisíveis” são ainda mais negligenciadas.

O apelo da ONU para a República Democrática do Congo recebeu apenas 22% do financiamento necessário, enquanto os apelos do Iêmen e da Somália estão ambos em 24%.

Em função da queda vertiginosa do financiamento, as organizações humanitárias estão sendo forçadas a reduzir drasticamente a assistência e a proteção às pessoas em crise. Serviços vitais – como alimentação e saúde de emergência, água, saneamento e programas de proteção – estão sendo reduzidos ou suspensos, deixando milhões de pessoas em maior risco de doenças evitáveis, desnutrição e deslocamento.

As consequências dos cortes de financiamento são potencialmente fatais para milhões de pessoas que lutam para sobreviver. No Iêmen, uma das emergências nutricionais mais graves do mundo, Global Nutrition Cluster (GNC), relatou, em setembro, que os cortes de financiamento forçaram o fechamento de 377 centros de atendimento ambulatorial e de 2.376 centros de distribuição de alimentos suplementares, deixando milhões de mães e crianças sem apoio vital.

Escolhas de vida ou morte.

Para 2026, a ONU estima que 230 milhões de pessoas precisarão de ajuda. Mas o plano não dará conta de todos. A entidade busca pelo menos US$ 23 bilhões para auxiliar 87 milhões de pessoas em alguns dos contextos mais perigosos do mundo – incluindo Gaza, Ucrânia, Sudão, Haiti e Mianmar. Mas a esperança é a de que US$ 33 bilhões possam ser arrecadados para ajudar 135 milhões de pessoas.

Diante de um realismo dolorido, a ONU decidiu escolher prioridades e focar seus recursos sobre “escolhas angustiantes de vida ou morte”.

No topo da lista de prioridades para 2026, estão Gaza e a Cisjordânia, onde a ONU busca US$ 4,1 bilhões para socorrer três milhões de pessoas. A ONU ainda está solicitando US$ 2,9 bilhões para 20 milhões de sudaneses.

Ela promete pressionar os governos a abrirem seus cofres públicos. Mas Fletcher admite que, se isso fracassar, a organização recorrerá de forma mais incisiva à sociedade civil, às empresas e aos cidadãos.

Para a ONU, não é verdade que o mundo rico esteja sendo “generoso demais” com os mais pobres, como líderes populistas têm afirmado.

“Não estou pedindo às pessoas que escolham entre um hospital no Brooklyn ou um hospital em Kandahar”, disse. “Estou pedindo ao mundo que gaste menos com defesa e mais com apoio humanitário”, explicou o chefe do serviço humanitário.

Seu cálculo é tão simples quanto brutal: o valor solicitado pela ONU para salvar 87 milhões de pessoas representa pouco mais de 1% dos gastos militares globais anuais.

Jamil Chade
Jornalista paulistano radicado na Suíça desde 2000 e correspondente na Europa há mais de 20 anos. Com passagens por mais de 70 países, já presidiu a Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça, integra a rede de especialistas da Transparência Internacional e colabora com veículos como BBC, CNN, Al Jazeera e France24. Autor de cinco livros — dois finalistas do Prêmio Jabuti — foi eleito duas vezes o melhor correspondente brasileiro no exterior pelo Prêmio Comunique-se.