O fracasso ético e moral
da Humanidade
Será que ainda temos chance de fazer predominar a bondade sobre a brutalidade?
Será que só nos resta olharmos sem indignição?
A Terra continuará a girar por milênios ao redor do Sol, mas sem nós ou apenas com os trilhões de trilhões micro-organismos no subsolo, que sobreviverão. O destino está em nossas decisões, em nossas mãos. Como salvar a nós e a vida fazendo do amor, do cuidado e da empatia os eixos estruturadoras de um novo tipo de civilização? Sem isso não teremos futuro.
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Genocídio em Gaza, um crime hediondo contra a humanidade |
07 de fevereiro - 2026
A nossa origem se encontra na África. Por isso, somos todos africanos. O Vale do Rift – que pode ser visto da Lua, com extensão de 3 mil km, começando no norte da Síria e chegando ao centro de Moçambique – é uma zona privilegiada. Nesse vale, se produziu uma grande divisão: de um lado, mais alto, ficaram as florestas nas quais nossos antepassados antropoides e, depois, símios superiores como os gorilas e orangotangos viviam e tinham abundância de alimentos. Não precisavam evoluir para sobreviver.
Alguns ficaram na parte rebaixada do Vale do Rift, tornada uma espécie de savana. Os nossos ancestrais neste “nordeste seco” evoluíram em seu corpo, começaram a andar em pé e, em seu cérebro, passaram a ter mais interações de seus neurônios, propiciando um pensamento inicial, no afã de buscar o necessário para a sobrevivência. Ecologicamente, a vida na savana não é tão abundante em meios de vida quanto nas demais biorregiões. Em 1974, descobriu-se um fóssil bastante completo no deserto de Afar, na Etiópia, datado de 3,18 milhões de anos. Parecia ser de uma mulher. Por isso, foi chamada de “Lucy”, nome tirado de uma canção dos Beatles, Lucy in the Sky with Diamonds.
Concluindo: a bioantropologia deixou claro que nós, seres humanos, derivamos de um ancestral comum.
Abominação da desolação.
Não era um macaco como comumente se pensa, mas um primata primitivo, que se bifurcou: por um lado, deu origem aos grandes símios, acima referidos; e, por outro, às várias fases do ser humano, como o homo habilis, depois o homo erectus e, por fim, o homo sapiens, donde nós procedemos.
A grande mudança começou com o homo habilis, há mais de 2 milhões de anos. Ele já utilizava instrumentos como pedras pontiagudas, paus aguçados e ossos grossos com os quais intervinha na natureza e facilitava a caça de animais. Mas essa intervenção não era ainda destrutiva.
Com a diferença de centenas de anos, surgiu o homo erectus, já bípede, que utilizava instrumentos mais potentes a ponto de, em grupos coordenados, caçar bovinos e até elefantes. Usou pela primeira vez o fogo, introduzindo uma verdadeira revolução cultural, passando do cru para o cozido, como foi estudado pelo antropólogo Claude Levy Strauss. Cresceu a intervenção na natureza, atingindo animais maiores, como as grandes preguiças.
Depois de ter permanecido por milênios na África, migrando de um lugar ao outro, mas sempre dentro do continente africano, começou a grande migração do homo erectus.
Emigrou para a Eurásia, para a Ásia Central, chegando à Índia, à China e até à Austrália. Mais tarde, o seu descendente, o homo sapiens, chegou às Américas por volta de 20 mil anos atrás e, a partir daí, ocupou todo o planeta.
O homo sapiens introduziu, há 10 mil anos, talvez a maior revolução na história já realizada, a única universalizada, cujas consequências perduram e se aprofundaram até os dias atuais. É a revolução do neolítico. Os seres humanos ficaram sedentários: criaram vilas e cidades. A grande invenção foi a agricultura e a irrigação, especialmente junto aos grandes rios, como Tigre, Eufrates, Nilo e Indo.
Com a agricultura, formou-se um superávit de meios de vida. Agora. começa seu processo de violência e agressão, não só contra a natureza, como vinha fazendo crescentemente até esta data, mas contra outros seres humanos. A produção agrícola produziu excedentes em boa quantidade. Isso possibilitou a guerra, pois havia reservas para alimentar os soldados. Foi neste momento que o historiador Arnold Toynbee, em sua imensa obra A Study of History, viu o surgimento do fenômeno que jamais desapareceu da face da Terra: a guerra. Começou a verdadeira “abominação da desolação”, como biblicamente se descreve o nível da destrutividade humana.
Princípio da autodestruição.
Mas a sistemática violência contra outros seres humanos e com a natureza ganhou dimensões nunca vistas antes com o processo de colonização e escravização da África, da América Latina e de outras regiões a partir da Europa. Milhões foram sacrificados. Só nas Américas, 61 milhões no espaço de um século e meio. Foi o maior holocausto da história. Houve verdadeiros genocídios, atualizados nos dias atuais, como aquele da Faixa de Gaza contra os palestinos.
A inauguração da industrialização moderna até a presente data, com as formas mais sofisticadas de dominação de pessoas e de depredação de praticamente todos os ecossistemas, utilizando a IA, propiciou o auge do uso da violência. Até criarmos o princípio de autodestruição com todo tipo de armas letais.
Devemos reconhecer que, graças às ciências e às técnicas modernas, o bem estar humano cresceu prodigiosamente. Tornou a vida mais cômoda e mais longeva, embora grande parte da humanidade seja condenada à exclusão desses benefícios. Indubitavelmente houve um progresso. Mas não devemos nos orgulhar, pois, como observou o geneticista francês André Langaney, as algas e as borboletas desenvolvera mais o DNA do que nós. Em termos de massa, os vermes da terra a possuem mais que todos nós juntos.
Não obstante este desenvolvimento cultural, em termos morais (modos de organizar a vida) e éticos (os princípios que orientam a vida) estamos ainda na pré-história. Acompanhou-nos sempre a maldade, a crueldade, a mentira intencionada e a falta de empatia, como verificamos em nossos dias. Os escândalos de pedofilia e se abusos inomináveis a jovens meninas, atestados nos arquivos de Epstein, envolvendo o presidente Trump e outros, nos testemunham o nível da degradação humana.
Somos os últimos dos seres portadores de inteligência reflexa a entrar no processo da evolução, no derradeiro minuto antes da meia-noite, se reduzirmos a idade do Universo (13,7 bilhões de anos) ao calendário de um ano. Será que ainda temos a chance de fazer predominar a bondade sobre a brutalidade, o cuidado sobre a destrutividade de nosso modo de viver?
Um insano como o presidente Donald Trump ameaça usar seu poder militar para submeter todos os países, com o risco de eliminar, por uma guerra nuclear, a vida humana. Ou, por sua incontida vontade de poder letal, seria aquele representado como Anticristo, o inimigo da vida, que poria fim à saga humana?
Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.