Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
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quarta-feira, 29 de julho de 2026

Cultura do Amor: Pensem nas feridas como Rosas Cálidas


Pensem nas feridas como rosas cálidas ...

Tragédias humanitárias não podem ser esquecidas.

Tragédias humanitárias precisam ser registradas para que não caiam no esquecimento.

Foi assim com a devastação de Hiroshima por uma bomba de urânio (apelidada de Little Boy) jogada de um avião americano em 6 de agosto de 1945. Morreram, de imediato, pelo menos 140 mil pessoas. Dois dias depois, outra bomba – essa de plutônio, batizada de Fat Man – caiu em Nagasaki, causando a morte de outros 40 mil japoneses. Milhares morreram nos anos seguintes devido aos efeitos da radiação.

Entre 25 de maio e 12 de junho de 1946 (portanto, quase um ano após a tragédia), o jornalista John Hersey se deslocou até Hiroshima para acompanhar a trajetória de seis sobreviventes. O relato saiu, inicialmente, na revista The New Yorker. Para se ter ideia da repercussão, os 300 mil exemplares da edição rapidamente se esgotaram nas bancas e cópias clandestinas passaram a ser vendidas por um valor 10 vezes maior do que o preço de capa. Emissoras de rádio como a ABC, nos Estados Unidos, e a britânica BBC produziram versões dramatizadas do texto de Harsey, que, a seguir, foi publicado no livro Hiroshima, precursor do New Journalism – gênero que confere impacto e profundidade à reportagem através de uma abordagem literária.

No Brasil, o horror e a estupidez do ataque à cidade japonesa foram registrados por Vinícius de Moraes no poema Rosa de Hiroshima, escrito em 1946 e publicado, pela primeira vez, em 1957, em sua Antologia Poética. Em 1973, os versos foram musicados por Gerson Conrad e ganharam a voz de Ney Matogrosso com a banda Secos & Molhados, ampliando o alcance da indignação do poeta.

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas

Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas

Igualmente, os horrores da Guerra Civil Espanhola – que matou meio milhão de pessoas, entre 1936 e 1939 – foram para sempre inscritos na memória coletiva por Pablo Picasso em Guernica (imagem no alto da página), uma das obras mais conhecidas do pintor espanhol, referência à cidade basca bombardeada por aviões nazistas e fascistas em 26 de abril de 1937.

No caso de Gaza, porém, ainda não temos nem de perto a dimensão da tragédia humana que se abateu sobre o enclave palestino asfixiado pelas forças militares de Israel – desde outubro de 2023, foram exterminadas no mínimo 85 mil pessoas (incluindo 23 mil crianças e 13 mil mulheres) –, como mostram os artigos de Heloísa Villela e Ualid Rabah publicados nesta edição da Liberta. Não apenas os textos, mas também a magnífica arte de capa produzida por Aroeira, inspirada em Portinari, soam como um grito de alerta: não vamos esquecer de Gaza!

Porque tragédias humanitárias precisam ser registradas para que não se eternizem à mercê do ódio ou da omissão.

Matéria:
Paulo César Teixeira
25 jul 2026


Cinema: A Voz de Hind Rajab


Documentário: A Voz de Hind Rajab 
(dirigido por Kaouther Ben Hania) 

Ao narrar os momentos finais de uma criança palestina cercada pela violência, transforma um nome próprio em símbolo. Hind Rajab deixa de ser uma menina, torna-se metáfora viva do clamor palestino que demanda solidariedade do mundo.

O filme opera em dois níveis. No primeiro, é documento. Registra, com rigor, a experiência concreta de devastação: civis sitiados, crianças aterrorizadas, profissionais de saúde tentando alcançar corpos, vozes sob escombros e os sons dos tiros. O documentário é um arquivo sensível dos crimes cometidos pelo colonialismo sionista contra uma população que vive sob ocupação e bombardeios há 78 anos. Ele fixa na memória aquilo que as estatísticas anestesiam.

Há algo mais: o filme assume o caráter de documento histórico. Como o livro O Diário de Anne Frank, ele preserva uma voz que o terror tentou silenciar. O diário de Anne não foi apenas literatura. Tornou-se prova viva do horror nazista, registro íntimo que desmentia qualquer tentativa de negação ou relativização. Da mesma forma, as gravações que atravessam o documentário — a respiração tensa, o pedido de ajuda, o medo audível — convertem-se em vestígios históricos. Não são apenas emoção: são evidência, provas.

Em 15 de julho de 1944, Anne escreveu: “Apesar de tudo, eu ainda creio na bondade humana.” A frase tornou-se uma das mais citadas de seu diário, talvez porque concentre um paradoxo insuportável: como sustentar a crença na humanidade quando se vive sob a ameaça permanente de extermínio? A voz de Hind Rajab dialoga com essa mesma tensão. Em meio ao cerco, ao medo e ao abandono, há ainda o gesto primeiro de pedir ajuda. Pedir ajuda é, de algum modo, acreditar que alguém virá, alguém ouvirá, que ainda há humanidade do outro lado. Há uma diferença de forma — um diário escrito às escondidas e uma gravação em meio a bombardeios —, mas a convergência é ética. Ambos expõem o horror a partir da perspectiva de uma criança. Ambos obrigam o mundo adulto a confrontar sua própria falência moral. Ambos sobrevivem como testemunho contra o apagamento.

No segundo nível, o filme nos arrasta para dentro da cena. Ao acompanhar os profissionais que tentavam chegar até Hind, somos deslocados da posição confortável de espectadores. Escutamos as gravações, acompanhamos as tentativas frustradas de resgate, sentimos o tempo escorrer como uma matéria espessa. O desespero deles nos atravessa.

O documentário nos aproxima da situação-limite daqueles que estavam do outro lado da linha telefônica, tentando manter viva uma voz infantil em meio ao ruído das explosões. Ao fazê-lo, questiona minha própria posição: o que significa ouvir e nada fazer? O que significa saber e seguir a rotina?

Hind, então, torna-se mais que personagem. Ela encarna a Palestina contemporânea: isolada pelo establishment político, cercada, pedindo socorro em um idioma que o mundo diz não compreender. Expõe a distância obscena entre a urgência de quem implora por ajuda e a lentidão — quando não a cumplicidade — das potências globais. A metáfora é brutal porque é literal. A voz de uma criança em pânico ecoa como a voz de um povo submetido à violência sistemática. O pedido de ajuda não é abstrato: tem timbre, respiração, desespero e revolta. Em muitos momentos, cansada, ela pergunta: “Por que vocês estão demorando tanto? Venham logo!”

As horas em que a criança permaneceu aguardando socorro, cercada pela violência sionista, tornaram-se uma imagem dolorosa de uma política sistemática de extermínio: os 78 anos de luta do povo palestino pelo reconhecimento efetivo de seu direito à autodeterminação. Assim como aquela criança aguardava uma ajuda que tardava a chegar, a Palestina há décadas apela à comunidade internacional por solidariedade concreta, não apenas declarações formais, mas medidas capazes de garantir segurança, dignidade e soberania. A demora no resgate de Hind condensa simbolicamente o tempo político da Palestina: um tempo marcado por promessas reiteradas, resoluções descumpridas e uma expectativa persistente de que o princípio da autodeterminação, consagrado no direito internacional, deixe de ser uma formulação abstrata para tornar-se realidade vivida.

Os profissionais do Crescente Vermelho que se dirigiram ao resgate da criança atuavam no limite extremo dessa solidariedade, não apenas como apoiadores simbólicos, mas como agentes humanitários que colocam o próprio corpo entre a vida e a morte. Eles enfrentam a materialidade brutal do genocídio, onde o gesto de salvar se converte em vulnerabilidade absoluta. Essa assimetria evidencia que, embora a indignação global seja fundamental para manter viva a pauta da autodeterminação palestina, há aqueles cuja solidariedade não se dá no plano do discurso, mas na exposição direta ao perigo, pagando com a própria vida o preço de um compromisso ético que deveria ser protegido pelo direito internacional.

Há algo de insuportável no fato de sabermos o final. O conhecimento prévio não nos protege. Ao contrário, intensifica a angústia. Assistimos na esperança irracional de que, desta vez, a história mude. Que alguém chegue a tempo. Que a ambulância atravesse o bloqueio. Que o mundo, finalmente, intervenha. Essa esperança — mesmo contra os fatos — revela nossa recusa íntima em aceitar a naturalização do genocídio. É como se houvesse um momento de delírio. Eu pensava: a ambulância vai conseguir chegar… Falta tão pouco… apenas 200 metros.

Chamar o filme de documento não é figura de linguagem. É reconhecer que ele produz memória contra o apagamento. Em um cenário em que narrativas oficiais disputam versões e relativizam responsabilidades, a gravação de uma voz infantil torna-se prova histórica e prova criminal. A emoção, aqui, não é manipulação; é evidência. Tal como o diário de Anne Frank se converteu em marco incontornável da memória do Holocausto, a voz de Hind Rajab inscreve-se como testemunho de um tempo em que o mundo ouviu e precisará responder pelo que fez, ou deixou de fazer.

A Voz de Hind Rajab nos coloca diante de uma pergunta incômoda: o que faremos com o que ouvimos? Porque ouvir é já não poder alegar ignorância. Se Hind é metáfora da Palestina, então sua voz continua ecoando, não apenas como lamento, mas como acusação.

No fim, talvez o maior mérito do documentário seja este: transformar espectadores em testemunhas. E testemunhar é um ato político, uma recusa ao esquecimento. É dizer que aquela voz importou. O clamor palestino não é ruído distante, mas um apelo que atravessa fronteiras — e consciências.

E então surge uma pergunta perturbadora, quase insuportável: o que faziam aqueles que tinham poder de decidir sobre a vida e a morte naquele instante? O que acontecia do outro lado da mira, enquanto uma menina, quase soterrada entre os corpos de seus parentes também executados, implorava por socorro?

A imaginação — essa faculdade que o documentário desperta — nos conduz a cenas possíveis do nosso tempo: soldados observando à distância, telas acesas, talvez registrando imagens, talvez trocando mensagens ou, quem sabe, gravando um vídeo para as redes sociais. Não se trata de afirmar um fato específico, mas de expor a obscenidade de uma época em que a violência pode coexistir com a banalidade digital transformada em hasbara.

O filme é documento sensível, histórico e de acusação. Como O Diário de Anne Frank, ele preserva uma voz infantil que o terror tentou silenciar. E, como em Maus, a violência não aparece apenas como evento — mas como estrutura, como dispositivo de poder que observa, controla e decide quem vive e quem morre.

Em Maus, há cenas perturbadoras em que guardas nazistas (representados por gatos) aparecem no alto de torres, olhando de cima para os prisioneiros judeus no campo de concentração (os ratos, ou Maus). Nessa escolha estética e política poderosa, Art Spiegelman representa grupos humanos como animais, numa perspectiva fundamental: quem está na torre detém a arma e a altura; quem está no chão é alvo, corpo vulnerável, figura reduzida a objeto de mira. A torre simboliza distância ontológica. A elevação física corresponde à queda ética. Em Maus, os ratos e os gatos expõem a lógica da desumanização — a mesma estratégia que assistimos sendo operada pelos sionistas em relação aos palestinos. Não existe criança palestina. A criança é uma antecipação do adulto terrorista.

Ao evocarmos essa imagem ao lado do documentário sobre Hind Rajab, sou levada a pensar na gramática recorrente da violência: a posição de superioridade que transforma o outro em alvo e o sofrimento em espetáculo distante. Em ambas as cenas — da torre e do controle dos soldados sionistas — há um desnível brutal entre quem sofre e quem observa armado.

Tanto em Maus como em A Voz de Hind, o horror é explicitamente encenado como política de extermínio. Mas ali estamos nós, assistindo ao ritual da morte de uma criança, rodeada pelos cadáveres de familiares. Eu me perguntava: o que acontecia na subjetividade de quem observa a dor do outro sob mira?

A tecnologia mudou. As torres foram substituídas por veículos blindados, drones e miras digitais. A estrutura simbólica, no entanto, permanece: alguém observa de cima; alguém está preso embaixo. E, finalmente, os disparos e a execução dos socorristas do Crescente Vermelho e da criança. Talvez essa tenha sido a hora do clímax de prazer dentro dos blindados sionistas.

Há um ponto decisivo: tanto o diário de Anne quanto Maus sobreviveram como memória incontornável do século XX. Eles impediram que a violência fosse apagada. A Voz de Hind Rajab reivindica essa mesma função no presente, como insistência ética: a dor de uma criança não pode ser relativizada pela política. Ela não é estatística, não é “dano colateral”, não é abstração geopolítica. É respiração, é medo, é infância. A voz resiste à redução.

Se há algo que une essas obras é a recusa ao silêncio. A torre observa. O livro testemunha. A arma mira — e a voz permanece. Que a voz de Hind, entrecortada pelo pânico, não seja apenas um arquivo, mas um documento que seja escutado não apenas nas salas escuras dos cinemas, mas nos salões das cortes internacionais que, em algum momento, transformarão o testemunho em justiça.

Matéria: Berenice Bento
5 de março de 2026 
Professora do Departamento de Sociologia/UnB. Pesquisadora do CNPq.)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Sociologia: O genocídio da humanidade

O fracasso ético e moral 
da Humanidade

Será que ainda temos chance de fazer predominar a bondade sobre a brutalidade?

Será que só nos resta olharmos sem indignição?

A Terra continuará a girar por milênios ao redor do Sol, mas sem nós ou apenas com os trilhões de trilhões micro-organismos no subsolo, que sobreviverão. O destino está em nossas decisões, em nossas mãos. Como salvar a nós e a vida fazendo do amor, do cuidado e da empatia os eixos estruturadoras de um novo tipo de civilização? Sem isso não teremos futuro.

Genocídio em Gaza, um crime hediondo contra a humanidade


07 de fevereiro - 2026

A nossa origem se encontra na África. Por isso, somos todos africanos. O Vale do Rift – que pode ser visto da Lua, com extensão de 3 mil km, começando no norte da Síria e chegando ao centro de Moçambique – é uma zona privilegiada. Nesse vale, se produziu uma grande divisão: de um lado, mais alto, ficaram as florestas nas quais nossos antepassados antropoides e, depois, símios superiores como os gorilas e orangotangos viviam e tinham abundância de alimentos. Não precisavam evoluir para sobreviver.

Alguns ficaram na parte rebaixada do Vale do Rift, tornada uma espécie de savana. Os nossos ancestrais neste “nordeste seco” evoluíram em seu corpo, começaram a andar em pé e, em seu cérebro, passaram a ter mais interações de seus neurônios, propiciando um pensamento inicial, no afã de buscar o necessário para a sobrevivência. Ecologicamente, a vida na savana não é tão abundante em meios de vida quanto nas demais biorregiões. Em 1974, descobriu-se um fóssil bastante completo no deserto de Afar, na Etiópia, datado de 3,18 milhões de anos. Parecia ser de uma mulher. Por isso, foi chamada de “Lucy”, nome tirado de uma canção dos Beatles, Lucy in the Sky with Diamonds.

Concluindo: a bioantropologia deixou claro que nós, seres humanos, derivamos de um ancestral comum.

Abominação da desolação.

Não era um macaco como comumente se pensa, mas um primata primitivo, que se bifurcou: por um lado, deu origem aos grandes símios, acima referidos; e, por outro, às várias fases do ser humano, como o homo habilis, depois o homo erectus e, por fim, o homo sapiens, donde nós procedemos.

A grande mudança começou com o homo habilis, há mais de 2 milhões de anos. Ele já utilizava instrumentos como pedras pontiagudas, paus aguçados e ossos grossos com os quais intervinha na natureza e facilitava a caça de animais. Mas essa intervenção não era ainda destrutiva.

Com a diferença de centenas de anos, surgiu o homo erectus, já bípede, que utilizava instrumentos mais potentes a ponto de, em grupos coordenados, caçar bovinos e até elefantes. Usou pela primeira vez o fogo, introduzindo uma verdadeira revolução cultural, passando do cru para o cozido, como foi estudado pelo antropólogo Claude Levy Strauss. Cresceu a intervenção na natureza, atingindo animais maiores, como as grandes preguiças.

Depois de ter permanecido por milênios na África, migrando de um lugar ao outro, mas sempre dentro do continente africano, começou a grande migração do homo erectus.

Emigrou para a Eurásia, para a Ásia Central, chegando à Índia, à China e até à Austrália. Mais tarde, o seu descendente, o homo sapiens, chegou às Américas por volta de 20 mil anos atrás e, a partir daí, ocupou todo o planeta.

O homo sapiens introduziu, há 10 mil anos, talvez a maior revolução na história já realizada, a única universalizada, cujas consequências perduram e se aprofundaram até os dias atuais. É a revolução do neolítico. Os seres humanos ficaram sedentários: criaram vilas e cidades. A grande invenção foi a agricultura e a irrigação, especialmente junto aos grandes rios, como Tigre, Eufrates, Nilo e Indo.

Com a agricultura, formou-se um superávit de meios de vida. Agora. começa seu processo de violência e agressão, não só contra a natureza, como vinha fazendo crescentemente até esta data, mas contra outros seres humanos. A produção agrícola produziu excedentes em boa quantidade. Isso possibilitou a guerra, pois havia reservas para alimentar os soldados. Foi neste momento que o historiador Arnold Toynbee, em sua imensa obra A Study of History, viu o surgimento do fenômeno que jamais desapareceu da face da Terra: a guerra. Começou a verdadeira “abominação da desolação”, como biblicamente se descreve o nível da destrutividade humana.

Princípio da autodestruição.

Mas a sistemática violência contra outros seres humanos e com a natureza ganhou dimensões nunca vistas antes com o processo de colonização e escravização da África, da América Latina e de outras regiões a partir da Europa. Milhões foram sacrificados. Só nas Américas, 61 milhões no espaço de um século e meio. Foi o maior holocausto da história. Houve verdadeiros genocídios, atualizados nos dias atuais, como aquele da Faixa de Gaza contra os palestinos.

A inauguração da industrialização moderna até a presente data, com as formas mais sofisticadas de dominação de pessoas e de depredação de praticamente todos os ecossistemas, utilizando a IA, propiciou o auge do uso da violência. Até criarmos o princípio de autodestruição com todo tipo de armas letais.

Devemos reconhecer que, graças às ciências e às técnicas modernas, o bem estar humano cresceu prodigiosamente. Tornou a vida mais cômoda e mais longeva, embora grande parte da humanidade seja condenada à exclusão desses benefícios. Indubitavelmente houve um progresso. Mas não devemos nos orgulhar, pois, como observou o geneticista francês André Langaney, as algas e as borboletas desenvolvera mais o DNA do que nós. Em termos de massa, os vermes da terra a possuem mais que todos nós juntos.

Não obstante este desenvolvimento cultural, em termos morais (modos de organizar a vida) e éticos (os princípios que orientam a vida) estamos ainda na pré-história. Acompanhou-nos sempre a maldade, a crueldade, a mentira intencionada e a falta de empatia, como verificamos em nossos dias. Os escândalos de pedofilia e se abusos inomináveis a jovens meninas, atestados nos arquivos de Epstein, envolvendo o presidente Trump e outros, nos testemunham o nível da degradação humana.

Somos os últimos dos seres portadores de inteligência reflexa a entrar no processo da evolução, no derradeiro minuto antes da meia-noite, se reduzirmos a idade do Universo (13,7 bilhões de anos) ao calendário de um ano. Será que ainda temos a chance de fazer predominar a bondade sobre a brutalidade, o cuidado sobre a destrutividade de nosso modo de viver?

Um insano como o presidente Donald Trump ameaça usar seu poder militar para submeter todos os países, com o risco de eliminar, por uma guerra nuclear, a vida humana. Ou, por sua incontida vontade de poder letal, seria aquele representado como Anticristo, o inimigo da vida, que poria fim à saga humana?

Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.



domingo, 14 de dezembro de 2025

Humanidade: Onde estão as pessoas humanas?

Por que a escolha pela guerra e pelas armas?

Indiferença ao sofrimento humano: potências abandonam milhões de pessoas

ONU afirma que "indiferença global" inviabiliza ajuda aos que vivem em crise humanitária profunda

Revista Liberta
13 dez 2025

A ONU precisa, em 2026, de apenas 1% dos gastos destinados pelos governos para armas para sair ao resgate de 87 milhões de pessoas que vivem uma crise humanitária profunda. Constrangida e indignada, porém, ela não sabe se irá conseguir reunir o dinheiro.

Acampamento de refugiados no Sudão (AFP).

Nesta semana, a entidade apresentou seu orçamento e seu programa para as operações humanitárias no próximo ano. Mas, diante do que ela descreve como sendo uma “indiferença global ao sofrimento humano”, o alerta é sobre os cortes profundos no compromisso de governos europeus, dos EUA e de outras grandes economias para garantir ajuda aos mais necessitados.

“Este é um momento de brutalidade, impunidade e indiferença”, disse o chefe humanitário da ONU, Tom Fletcher. Para ele, 2025 foi marcado pela “ferocidade e intensidade dos assassinatos, o completo desrespeito ao direito internacional e níveis horríveis de violência sexual”.

Fletcher está convencido de que o sistema internacional criado para proteger civis está “em retrocesso”, corroído por distrações, polarização política e orçamentos de ajuda cada vez menores. “Nossas antenas de sobrevivência foram entorpecidas pela apatia”, alertou.
Crises invisíveis

Sua mensagem é dura e direcionada aos governos de todo o mundo.

“Estamos sobrecarregados, com poucos recursos e sob ataque”, disse. “E dirigimos a ambulância em direção ao incêndio. Em nome de vocês. Mas agora também nos pedem para apagar o fogo. E não há água suficiente no tanque. E estamos sendo alvejados”, alertou.

Em 2025, a ONU havia feito um apelo por US$ 45 bilhões, mas recebeu apenas US$ 12 bilhões. “Quando os políticos se gabam de cortar a ajuda”, disse Fletcher, “somos forçados a escolher quem vive e quem morre.”

Sob o governo de Donald Trump, Washington reduziu suas doações humanitárias de US$ 11 bilhões, em 2024, para US$ 2,7 bilhões, em 2025, segundo dados da ONU. O resultado tem sido milhões de pessoas sem acesso a remédios, abrigo ou ajuda.

Mesmo as maiores e mais notórias crises continuam criticamente subfinanciadas em 2025.

A Ucrânia, por exemplo, recebeu apenas 48,7% dos fundos necessários; o Território Palestino Ocupado, 40%; e o financiamento para a resposta no Sudão está em 35,4%, uma queda acentuada em relação aos 69,3% registrados em 2024.

Enquanto isso, outras crises “invisíveis” são ainda mais negligenciadas.

O apelo da ONU para a República Democrática do Congo recebeu apenas 22% do financiamento necessário, enquanto os apelos do Iêmen e da Somália estão ambos em 24%.

Em função da queda vertiginosa do financiamento, as organizações humanitárias estão sendo forçadas a reduzir drasticamente a assistência e a proteção às pessoas em crise. Serviços vitais – como alimentação e saúde de emergência, água, saneamento e programas de proteção – estão sendo reduzidos ou suspensos, deixando milhões de pessoas em maior risco de doenças evitáveis, desnutrição e deslocamento.

As consequências dos cortes de financiamento são potencialmente fatais para milhões de pessoas que lutam para sobreviver. No Iêmen, uma das emergências nutricionais mais graves do mundo, Global Nutrition Cluster (GNC), relatou, em setembro, que os cortes de financiamento forçaram o fechamento de 377 centros de atendimento ambulatorial e de 2.376 centros de distribuição de alimentos suplementares, deixando milhões de mães e crianças sem apoio vital.

Escolhas de vida ou morte.

Para 2026, a ONU estima que 230 milhões de pessoas precisarão de ajuda. Mas o plano não dará conta de todos. A entidade busca pelo menos US$ 23 bilhões para auxiliar 87 milhões de pessoas em alguns dos contextos mais perigosos do mundo – incluindo Gaza, Ucrânia, Sudão, Haiti e Mianmar. Mas a esperança é a de que US$ 33 bilhões possam ser arrecadados para ajudar 135 milhões de pessoas.

Diante de um realismo dolorido, a ONU decidiu escolher prioridades e focar seus recursos sobre “escolhas angustiantes de vida ou morte”.

No topo da lista de prioridades para 2026, estão Gaza e a Cisjordânia, onde a ONU busca US$ 4,1 bilhões para socorrer três milhões de pessoas. A ONU ainda está solicitando US$ 2,9 bilhões para 20 milhões de sudaneses.

Ela promete pressionar os governos a abrirem seus cofres públicos. Mas Fletcher admite que, se isso fracassar, a organização recorrerá de forma mais incisiva à sociedade civil, às empresas e aos cidadãos.

Para a ONU, não é verdade que o mundo rico esteja sendo “generoso demais” com os mais pobres, como líderes populistas têm afirmado.

“Não estou pedindo às pessoas que escolham entre um hospital no Brooklyn ou um hospital em Kandahar”, disse. “Estou pedindo ao mundo que gaste menos com defesa e mais com apoio humanitário”, explicou o chefe do serviço humanitário.

Seu cálculo é tão simples quanto brutal: o valor solicitado pela ONU para salvar 87 milhões de pessoas representa pouco mais de 1% dos gastos militares globais anuais.

Jamil Chade
Jornalista paulistano radicado na Suíça desde 2000 e correspondente na Europa há mais de 20 anos. Com passagens por mais de 70 países, já presidiu a Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça, integra a rede de especialistas da Transparência Internacional e colabora com veículos como BBC, CNN, Al Jazeera e France24. Autor de cinco livros — dois finalistas do Prêmio Jabuti — foi eleito duas vezes o melhor correspondente brasileiro no exterior pelo Prêmio Comunique-se.