Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Sociologia: O genocídio da humanidade

O fracasso ético e moral 
da Humanidade

Será que ainda temos chance de fazer predominar a bondade sobre a brutalidade?

Será que só nos resta olharmos sem indignição?

A Terra continuará a girar por milênios ao redor do Sol, mas sem nós ou apenas com os trilhões de trilhões micro-organismos no subsolo, que sobreviverão. O destino está em nossas decisões, em nossas mãos. Como salvar a nós e a vida fazendo do amor, do cuidado e da empatia os eixos estruturadoras de um novo tipo de civilização? Sem isso não teremos futuro.

Genocídio em Gaza, um crime hediondo contra a humanidade


07 de fevereiro - 2026

A nossa origem se encontra na África. Por isso, somos todos africanos. O Vale do Rift – que pode ser visto da Lua, com extensão de 3 mil km, começando no norte da Síria e chegando ao centro de Moçambique – é uma zona privilegiada. Nesse vale, se produziu uma grande divisão: de um lado, mais alto, ficaram as florestas nas quais nossos antepassados antropoides e, depois, símios superiores como os gorilas e orangotangos viviam e tinham abundância de alimentos. Não precisavam evoluir para sobreviver.

Alguns ficaram na parte rebaixada do Vale do Rift, tornada uma espécie de savana. Os nossos ancestrais neste “nordeste seco” evoluíram em seu corpo, começaram a andar em pé e, em seu cérebro, passaram a ter mais interações de seus neurônios, propiciando um pensamento inicial, no afã de buscar o necessário para a sobrevivência. Ecologicamente, a vida na savana não é tão abundante em meios de vida quanto nas demais biorregiões. Em 1974, descobriu-se um fóssil bastante completo no deserto de Afar, na Etiópia, datado de 3,18 milhões de anos. Parecia ser de uma mulher. Por isso, foi chamada de “Lucy”, nome tirado de uma canção dos Beatles, Lucy in the Sky with Diamonds.

Concluindo: a bioantropologia deixou claro que nós, seres humanos, derivamos de um ancestral comum.

Abominação da desolação.

Não era um macaco como comumente se pensa, mas um primata primitivo, que se bifurcou: por um lado, deu origem aos grandes símios, acima referidos; e, por outro, às várias fases do ser humano, como o homo habilis, depois o homo erectus e, por fim, o homo sapiens, donde nós procedemos.

A grande mudança começou com o homo habilis, há mais de 2 milhões de anos. Ele já utilizava instrumentos como pedras pontiagudas, paus aguçados e ossos grossos com os quais intervinha na natureza e facilitava a caça de animais. Mas essa intervenção não era ainda destrutiva.

Com a diferença de centenas de anos, surgiu o homo erectus, já bípede, que utilizava instrumentos mais potentes a ponto de, em grupos coordenados, caçar bovinos e até elefantes. Usou pela primeira vez o fogo, introduzindo uma verdadeira revolução cultural, passando do cru para o cozido, como foi estudado pelo antropólogo Claude Levy Strauss. Cresceu a intervenção na natureza, atingindo animais maiores, como as grandes preguiças.

Depois de ter permanecido por milênios na África, migrando de um lugar ao outro, mas sempre dentro do continente africano, começou a grande migração do homo erectus.

Emigrou para a Eurásia, para a Ásia Central, chegando à Índia, à China e até à Austrália. Mais tarde, o seu descendente, o homo sapiens, chegou às Américas por volta de 20 mil anos atrás e, a partir daí, ocupou todo o planeta.

O homo sapiens introduziu, há 10 mil anos, talvez a maior revolução na história já realizada, a única universalizada, cujas consequências perduram e se aprofundaram até os dias atuais. É a revolução do neolítico. Os seres humanos ficaram sedentários: criaram vilas e cidades. A grande invenção foi a agricultura e a irrigação, especialmente junto aos grandes rios, como Tigre, Eufrates, Nilo e Indo.

Com a agricultura, formou-se um superávit de meios de vida. Agora. começa seu processo de violência e agressão, não só contra a natureza, como vinha fazendo crescentemente até esta data, mas contra outros seres humanos. A produção agrícola produziu excedentes em boa quantidade. Isso possibilitou a guerra, pois havia reservas para alimentar os soldados. Foi neste momento que o historiador Arnold Toynbee, em sua imensa obra A Study of History, viu o surgimento do fenômeno que jamais desapareceu da face da Terra: a guerra. Começou a verdadeira “abominação da desolação”, como biblicamente se descreve o nível da destrutividade humana.

Princípio da autodestruição.

Mas a sistemática violência contra outros seres humanos e com a natureza ganhou dimensões nunca vistas antes com o processo de colonização e escravização da África, da América Latina e de outras regiões a partir da Europa. Milhões foram sacrificados. Só nas Américas, 61 milhões no espaço de um século e meio. Foi o maior holocausto da história. Houve verdadeiros genocídios, atualizados nos dias atuais, como aquele da Faixa de Gaza contra os palestinos.

A inauguração da industrialização moderna até a presente data, com as formas mais sofisticadas de dominação de pessoas e de depredação de praticamente todos os ecossistemas, utilizando a IA, propiciou o auge do uso da violência. Até criarmos o princípio de autodestruição com todo tipo de armas letais.

Devemos reconhecer que, graças às ciências e às técnicas modernas, o bem estar humano cresceu prodigiosamente. Tornou a vida mais cômoda e mais longeva, embora grande parte da humanidade seja condenada à exclusão desses benefícios. Indubitavelmente houve um progresso. Mas não devemos nos orgulhar, pois, como observou o geneticista francês André Langaney, as algas e as borboletas desenvolvera mais o DNA do que nós. Em termos de massa, os vermes da terra a possuem mais que todos nós juntos.

Não obstante este desenvolvimento cultural, em termos morais (modos de organizar a vida) e éticos (os princípios que orientam a vida) estamos ainda na pré-história. Acompanhou-nos sempre a maldade, a crueldade, a mentira intencionada e a falta de empatia, como verificamos em nossos dias. Os escândalos de pedofilia e se abusos inomináveis a jovens meninas, atestados nos arquivos de Epstein, envolvendo o presidente Trump e outros, nos testemunham o nível da degradação humana.

Somos os últimos dos seres portadores de inteligência reflexa a entrar no processo da evolução, no derradeiro minuto antes da meia-noite, se reduzirmos a idade do Universo (13,7 bilhões de anos) ao calendário de um ano. Será que ainda temos a chance de fazer predominar a bondade sobre a brutalidade, o cuidado sobre a destrutividade de nosso modo de viver?

Um insano como o presidente Donald Trump ameaça usar seu poder militar para submeter todos os países, com o risco de eliminar, por uma guerra nuclear, a vida humana. Ou, por sua incontida vontade de poder letal, seria aquele representado como Anticristo, o inimigo da vida, que poria fim à saga humana?

Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.



sábado, 17 de janeiro de 2026

LiTeRaTuRa: Guesa Errante

"Um brasileiro entendeu nossas questões como "latinos" americanos bem antes de inúmeros outros autores, Joaquim de Sousa Andrade, o Sousândrade, um brasileiro que se preocupou e escreveu sobre a América explorada, numa época em que os contatos entre Brasil e a América Hispânica eram muito raros e voláteis. Sousândrade com sua obra incrível precoce de precursora ideia, de que a América se definia pelas diferenças internas, pela mutabilidade, pela capacidade de dialogar e enxergar o outro. Portanto, era uma américa que deveria ter sido batizada de, Transamérica"

Texto: Prof. Dr. Júlio Pimentel
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Livro: Guesa Errante

Autor: Joaquim de Sousa Andrade (Sousândrade)

Editora: Valer

Sinopse: Guesa Errante é um poema narrativo em que o autor resgata uma lenda quíchua que narra o sacrifício de um adolescente, no qual utiliza recursos expressivos, como a criação de neologismos e metáforas vertiginosas. É proprietário de uma das mais originais e instigantes obras do Romantismo brasileiro.

Reflexão: Quem lê o futuro se condena ao esquecimento. Joaquim de Sousa Andrade (1833-1902), ou Sousândrade, dizia-se decepcionado por saber que seria lido 50 anos depois. Ele se referia à sua obra maior, O Guesa, poema épico de 13 cantos e 176 estrofes, cujo protagonista é um ser errante, em travessia pelo continente americano - seu destino é ser sacrificado por especuladores em Nova York. Apesar da importância, o livro só foi editado em edição fac-similar, de pequena tiragem. Esta é a primeira, desde o fim do século 19, edição integral, com a tipologia da época e sem a reprodução em fac-símile, com prefácio do poeta Augusto de Campos, com o seu irmão, Haroldo de Campos, escreveu Re-Visão de Sousândrade, e resgataram a obra do poeta maranhense nos anos 1960. 

Os grandes méritos de O Guesa residem, em grande parte, nas inovações estéticas do poema, especialmente nos episódios epigramáticos que Haroldo e eu denominamos Tatuturema e O Inferno de Wall Street. Uma das primeiras edições parciais do poema, publicada em 1877, em Nova York, onde o poeta residiu por vários anos, já traz essas sequências, nas quais ele usa recursos inusitados. 

Colagens de eventos colhidos nos jornais The New York Herald e The Sun, neologismos como 'sobre-rum-nadam' ou 'fossilpetrifique' e a diversidade tipográfica dão um aspecto incomum a esses epigramas dialogados. Mas não são apenas essas inovações, presentes em outros versos, que lhe conferem particular interesse. Trata-se de um poema épico com uma visão transamericana atípica: o personagem principal, o 'guesa', sem-lar ou errante, extraído da mitologia dos antigos músicas, índios colombianos, era um menino sacrificado em homenagem a Bochica, o Deus do Sol. Assumindo alegoricamente a sua persona, Sousândrade percorre vários países sul e centroamericanos e termina sacrificado pelos especuladores da Bolsa de Nova York.


LiTeRaTuRa: As Veias Abertas da América Latina

"A américa (latina) é marcada pelo signo do maravilhoso, e maravilhoso na base etimológica, da palavra maravilha, que vem de mirabilia, ou seja, a ideia de mirar, olhar com intensidade, é olhar através de nós, o inabitual, o inesperado e o que contraria as leis limites, as convenções que você supõe gerais e que olha o mundo ao contrário do desejo e o anseio"

Alejo Carpentier, do romance 'O Reino deste mundo'.
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Livro: As veias abertas da América Latina

Autor: Eduardo Galeano

Editora L&PM

Lançamento: 1970

Remontando a 1970, sua primeira edição, atualizada em 1977, quando a maioria dos países do continente padecia facinorosas ditaduras, este livro tornou-se um 'clássico libertário', um inventário da dependência e da vassalagem de que a América Latina tem sido vítima, desde que nela aportaram os europeus no final do século XV.

No começo, espanhóis e portugueses. Depois vieram ingleses, holandeses, franceses, modernamente os norte-americanos, e o ancestral cenário permanece - a mesma submissão, a mesma miséria, a mesma espoliação.


segunda-feira, 14 de julho de 2025

LIVRO: AnGeLa DaViS

Angela Davis

Livro: Mulheres, cultura e política ...

Nessa compilação de discursos e artigos, a ativista política Angela Davis - autora de Mulheres, raça e classe, publicado com estrondoso sucesso pela Boitempo - apresenta um balanço de sua luta por uma mudança social progressista. Dividida em três eixos temáticos, "Sobre as mulheres e a busca por igualdade e paz", "Sobre questões internacionais" e "Sobre educação e cultura", a obra aborda as mudanças políticas e sociais pelas quais o mundo passou nas últimas décadas em relação à igualdade racial, sexual e econômica.

A autora traz dados históricos e estatísticos detalhados sobre as condições das mulheres, da classe trabalhadora e da população negra nos Estados Unidos durante o governo Reagan, mostrando como a política adotada naquela administração operou para enfraquecer esses grupos sociais. Mostra, ainda, as influências das políticas norte-americanas em países da América Central, da África e do Oriente Médio, destacando o impacto que tiveram para fortalecer um movimento econômico mundial de concentração de renda e enfraquecimento das lutas sociais em vários países do mundo. Ao mesmo tempo, ela faz reflexões importantes sobre a resistência representada pelos movimentos sociais e sobre o potencial de conscientização e contestação da educação e das artes, em especial a pintura, a fotografia e o blues. Por meio dessa reflexão, Davis argumenta que a convergência dos diversos grupos, em diferentes países, em torno de interesses comuns é essencial para a construção de um mundo menos desigual.

Editora: Boitempo Editorial
Ano de publicação: 1989
Artes fotográfias do livro e produção: Gabriel Mesquita

Breve biografia de Angela Davis

Angela nasceu no estado do Alabama, um dos mais racistas do sul dos Estados Unidos, e desde cedo conviveu com humilhações de cunho racial em sua cidade. Leitora voraz quando criança, aos 14 anos participou de um intercâmbio colegial, que oferecia bolsas de estudo para estudantes negros sulistas em escolas integradas do norte do país, o que a levou a estudar no Greenwich Village, em Nova York, onde travou conhecimento com o comunismo e o socialismo teórico marxista, sendo recrutada para uma organização comunista de jovens estudantes.

Na década de 1960, Angela tornou-se militante do partido e participante ativa dos movimentos negros e feministas que sacudiam a sociedade norte-americana da época, primeiro como filiada da SNCC de Stokely Carmichael e depois de movimentos e organizações políticas como o Black Power e os Panteras Negras.

Em 18 de agosto de 1970, Angela Davis tornou-se a terceira mulher a integrar a Lista dos Dez Fugitivos Mais Procurados do FBI, ao ser acusada de conspiração, sequestro e homicídio, por causa de uma suposta ligação com uma tentativa de fuga do tribunal do Palácio de Justiça do Condado de Marin, em São Francisco.

Durante o verão daquele ano, Angela estava envolvida nos esforços dos Panteras Negras para conquistar o apoio da sociedade a três militantes presos, George Jackson, Fleeta Drumgo e John Clutchette, conhecidos como os “Irmãos Soledad”, por terem sido enviados à Prisão de Soledad, em Monterey.


Angela lecionou por 17 anos no Departamento de História da Consciência na prestigiada Universidade da Califórnia-Santa Cruz. Recebeu o título de professora emérita da Universidade da Califórnia e se aposentou em 2008. Após sua aposentadoria continuou sua rotina de palestras e cursos em diversas universidades e centros culturais por todo o mundo. Em 2019 passou a integrar o National Women's Hall of Fame dos Estados Unidos.