Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
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quarta-feira, 8 de julho de 2026

Cinema: Uma Noite em Miami

Uma noite em Miami
Drama • Pesado • Intenso
1 h 55 min.
Ano - 2021

Sinopse: Uma noite em Miami é o relato fictício de uma noite incrível onde os ícones Muhammad Ali, Malcolm X, Sam Cooke e Jim Brown se reúnem e discutem seus papéis na luta pelos direitos civis e na revolução cultural dos anos 1960.

Diretores: Regina King.
Produtores: Jess Wu Calder, Keith Calder, Jody Klein, Regina King, Kemp Powers, Chris Harding, Paul O. Davis.
Elenco: Kingsley Ben-Adir, Eli Goree, Aldis Hodge, Leslie Odom Jr..
Estúdio: Amazon Studios.
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Crítica do Filme

Uma Noite em Miami…
Regina King utiliza o poder revisionista do cinema para imaginar o encontro entre lendas da história negra estadunidense.

João Oliveira - 18 de janeiro de 2021
@PlanoAberto

Malcolm X
Apoiada nesta ideia de reimaginar a história, Regina King relembra um encontro entre Cassius Clay/Muhammad Ali (Eli Goree), Malcolm X (Kingsley Ben-Adir), Sam Cooke (Leslie Odom Jr.) e Jim Brown (Aldis Hodge) em Uma Noite em Miami… Embora relatos digam que este encontro de fato ocorreu, nunca se soube o que foi conversado entre estes quatro membros históricos do movimento negro estadunidense. Com isso, o filme de Regina King se encarrega de projetar como pode ter se dado esta reunião. Neste exercício imaginativo, King estabelece personalidades distintas para os quatro personagens de seu filme e os encarrega de dialogar acerca de seus papeis diante do movimento negro dos anos 60.

O jovem Clay, que acabara de se tornar campeão mundial pela primeira vez, reluta ingressar no islamismo e mudar seu nome para Muhammadi Ali, enquanto Malcolm X, mais velho e sereno, prega para que seus irmãos sejam mais incisivos em seus posicionamentos a favor da luta por direitos civis. Em contrapartida, Cooke, musicista bem sucedido e dono de uma gravadora, se contenta em produzir conteúdos brandos sem tocar na temática da igualdade racial, mesmo que seus shows no Copacabana não agradem muito os brancos.

Jim Brown
Mediando isto tudo, Jim Brown é a figura conciliadora, que trata de ouvir ambos os lados e se divide entre a carreira na NFL e o sonho de ser ator. Sem priorizar nenhum personagem, King dá a cada um deles momentos de brilho e encarrega que os debates cheios de falas fortes carreguem o filme.

Por ter seu roteiro baseado em uma peça teatral, Uma Noite em Miami… poderia muito bem cair na problemática de se prender a um único cenário e render poucos momentos cinematográficos, dependendo demais de seu texto e interpretações. No entanto, King consegue driblar este empecilho ao introduzir eventos que obrigam seus personagens a migrar para outros cenários. Além disso, tanto na cena final, quanto na inicial, King preza por uma narrativa mais biográfica, mostrando seus personagens antes e depois da noite do filme em momentos e locais diferentes. Estas pequenas alterações de cenários dão dinamismo ao filme, enquanto o cenário principal, o quarto de hotel de Malcolm X, se encarrega de enfatizar a sensação de aprisionamento em um filme que muito fala sobre busca pela liberdade.

Muhammad Ali
A liberdade é o tema central para o filme. Complexa, esta busca por libertação é quase paradoxal, pois os embates de pontos de vista parecem não chegar a um consenso de qual é a melhor maneira para obtê-la. O filme não parece interessado em tirar respostas, muito pelo contrário, seu maior interesse é em expor alternativas. Não há juízo de valor para dizer qual personagem está mais certo que o outro. Os embates e os discursos até são capazes de atingir e mudá-los, mas não há um apontamento claro para uma ideologia.

Apesar do filme tentar imaginar o que aconteceu dentro do quarto de Malcolm X nesta noite de Miami, seu momento de mais força é quando ele recorre aos fatos. Regina King, em uma manobra ousada, não imagina novos rumos para seus personagens após o encontro, em vez disso, ela finaliza seu filme recriando exatamente como a história se sucedeu. Ao realizar isto, a diretora expõe que pouco importa o quão edificante ou banal possa ter sido aquela noite, os resultados seriam os mesmos graças ao Estado opressor estadunidense.

Sam Cooke
Por mais forte que Cooke tenha saído das conversas com Malcolm e tenha cedido um espaço para o movimento negro em suas composições, a casa de seu amigo ainda seria incendiada e o compositor logo depois seria assassinado. O racismo estrutural não se importa com o que aconteceu naquela noite de Miami e, no fim das contas, imaginar o que aconteceu neste dia é um exercício em vão.

Mesmo assim, King deixa uma nota esperançosa, pois a celebração de maneira inspiracional de seus personagens serve de como um espelho e um chamado para despertar nos dias atuais. A diretora quer mostrar que estas figuras, embora distintas, tinham um propósito de vida e foram capazes de pavimentar os direitos obtidos hoje em dia. Se o cinema negro consegue produzir filmes como Uma Noite em Miami…, esta noite teve uma pequena parcela de responsabilidade nisso. É uma narrativa forte, que demonstra que qualquer conversa naquele local não mudaria o futuro, mas que mira para o presente em busca de dias melhores.

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quinta-feira, 20 de novembro de 2025

🎥 Documentário - Consciência Negra

20 de novembro
Dia da Consciência Negra

Para celebrar o início do Mês da Cultura Africana, o documentário “Consciência Negra” traça um panorama da trajetória dos negros no Brasil. Grandes nomes do movimento negro no país repercutem a herança da escravidão e suas consequências no presente e no futuro do povo brasileiro.



domingo, 26 de outubro de 2025

Rap & Hip Hop: SABOTAGE

Sabotage Nós - Documentário

'Sabotage Nós' é um documentário que retrata a caminhada do 'Maestro do Canão' em direção ao seu disco de estreia, 'Rap É Compromisso', apresentando a perspectiva dos produtores, amigos e colaboradores que participaram ativamente do trabalho. Em paralelo, é contada a história da 'Família RZO' e do momento áureo do rap nacional ao final dos anos 90. 

O documentário é intercalado por cenas dos filhos de Mauro Mateus dos Santos, Wanderson Sabotinha e Tamires, mostrando o cotidiano da Favela do Boqueirão, onde moram e onde viveu Sabotage após a saída do Canão. Os herdeiros do rapper ainda levam a reportagem para uma visita ao que restou da Favela do Canão, à beira da Avenida Prof. Roberto Marinho, antiga 'Av. Espraiada'. 

A direção é assinada por Guilherme Xavier Ribeiro, em uma coprodução da GuardaChuva com a MTV Brasil, que exibiu um trecho do material durante o 'Último Yo! MTV Raps', em setembro de 2013.


terça-feira, 14 de outubro de 2025

Histórias do Brasil: João Cândido, o Almirante Negro!

João Cândido
"A Revolta das Chibatas"

Aula 10 do curso completo: Histórias da Rebeldia Brasileira
Prof. Lindener Pareto
Plataforma de Cursos Instituto Conhecimento Liberta

O módulo de “Histórias da Rebeldia brasileira” (inspirado no genial trabalho de Istvan Jancso na Caros Amigos) apresenta a trajetória (sempre inserida na ordem estrutural e global) de homens e mulheres que desafiaram o poder e a tirania em suas respectivas épocas e ousaram lutar pela causa da liberdade! 

Hoje, especialmente, apresento a vocês uma dessas aulas: a incrível história de João Cândido, o Almirante Negro! Fosse eu um cineasta, já teria feito mil filmes dessa história extraordinária! Por ora, fiquem com minha breve e singela narrativa de uma hora sobre o Almirante Negro, um herói pra ninguém botar defeito, que fez tremer de medo os poderosos da Baía da Guanabara monumento da liberdade! 

SALVE O NAVEGANTE NEGRO QUE TEM POR MONUMENTO AS PEDRAS PISADAS DO CAIS!


quarta-feira, 8 de outubro de 2025

JUNE JORDAN

June Jordan
Poetisa e Ativista Social

"Poema sobre meus direitos"

Ainda esta noite preciso dar uma volta e limpar
minha cabeça sobre este poema sobre por que não posso
sair sem trocar de roupa e sapatos
minha postura corporal minha identidade de gênero minha idade
meu status de mulher 

sozinha à noite/sozinha nas ruas/sozinha não é o ponto/
a questão é que não posso fazer o que quero
e ver com meu próprio corpo porque eu sou a errada
sexo na idade errada e pele errada 

e suponha que não fosse aqui na cidade, mas na praia/
ou bem longe na floresta 
e eu queria ir ali sozinha pensando em Deus/ou pensando
sobre crianças ou pensar sobre o mundo/

tudo isso revelado pelas estrelas e pelo silêncio:
Eu não podia ir, não podia pensar e não podia/
fique aí sozinha como eu preciso ser
sozinha porque não consigo fazer o que quero fazer com o meu próprio corpo 

e quem diabos armou tudo assim
e na França dizem que se o cara penetra
mas não ejacula então ele não me estuprou

e se depois de esfaqueá-lo se depois de gritar 
se depois de implorar ao bastardo 
e se mesmo depois de esmagar
um martelo na cabeça 

se mesmo depois disso ele e os amigos dele me fodem/ 
depois disso então eu consenti 
e houve sem estupro porque finalmente você entendeu 
finalmente eles me ferraram porque eu estava errada, 

eu estava errada novamente ser eu sendo eu onde eu estava/
errada ser quem eu sou
que é exatamente como a África do Sul
penetrando na Namíbia penetrando em Angola
e isso significa que eu quero dizer como você sabe se

Pretória ejacula como serão as evidências
prova da ejaculação da bota monstruosa em Blackland
e se depois da Namíbia e se depois de Angola e se depois do Zimbabué
e se depois todos os meus parentes e mulheres resistirem até mesmo a
autoimolação das aldeias 
e se depois disso nós perdemos, no entanto, o que os meninos grandes dirão?

reivindicar meu consentimento:
Você me segue: 
Somos as pessoas erradas de pele errada no continente errado 
e porque diabos todo mundo está sendo sensato[...]

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Biografia e projetos:

Uma das escritoras jamaicano-americanas mais amplamente publicadas e aclamadas de sua geração, a poetisa, dramaturga e ensaísta June Jordan era conhecida por seu firme compromisso com os direitos humanos e o ativismo político. Ao longo de uma carreira que produziu vinte e sete volumes de poemas, ensaios, libretos e obras para crianças, Jordan se envolveu nas lutas fundamentais de sua época: pelos direitos civis, pelos direitos das mulheres e pela liberdade sexual. Escritora prolífica em diversos gêneros, a poesia de Jordan é conhecida por sua imediatez e acessibilidade, bem como por seu interesse pela identidade e pela representação da experiência pessoal e vivida – sua poesia é frequentemente profundamente autobiográfica. A obra de Jordan também frequentemente imagina uma noção radical e globalizada de solidariedade entre os marginalizados e oprimidos do mundo. Em volumes como Some Changes (1971), Living Room (1985) e Kissing God Goodbye: Poems 1991-1997 (1997), Jordan usa um inglês coloquial, muitas vezes vernacular, para abordar tópicos que vão desde família, bissexualidade, opressão política, identidade racial e desigualdade racial, até memória. 

Considerada uma das figuras-chave no meio social, político e artístico americano de meados do século, Jordan também lecionou em muitas das universidades mais prestigiadas do país, incluindo Yale, a Universidade Estadual de Nova York-Stony Brook e a Universidade da Califórnia-Berkeley, onde fundou a Poetry for the People. Suas honrarias e prêmios incluíram bolsas do National Endowment for the Arts, do Massachusetts Council on the Arts e da New York Foundation for the Arts, uma bolsa da Fundação Rockefeller e o Prêmio da Associação Nacional de Jornalistas Negros.

Nascida em 9 de julho de 1936, no Harlem, Nova York, Jordan teve uma infância difícil e um relacionamento especialmente tenso com seu pai. Seus pais eram ambos imigrantes jamaicanos e, como ela relembrou em Civil Wars: Selected Essays, 1963-80 (1981), "por um longo período da minha infância, fui relativamente pequena, baixa e, de outras maneiras, alvo de bullying. Na verdade, meu pai foi o primeiro valentão regular da minha vida". Mas Jordan também tem memórias positivas de sua infância e foi durante seus primeiros anos que começou a escrever. Embora se tornar poeta "não fizesse sentido" para seus pais, eles enviaram a adolescente Jordan para escolas preparatórias, onde ela era a única aluna negra. Seus professores incentivaram seu interesse por poesia, mas não a apresentaram ao trabalho de nenhum poeta negro. Após o ensino médio, Jordan matriculou-se no Barnard College, na cidade de Nova York. Embora gostasse de algumas de suas aulas e admirasse muitas das pessoas que conheceu, sentia-se fundamentalmente em desacordo com o currículo predominantemente branco e masculino e deixou Barnard para estudar na Universidade de Chicago, antes de retornar a Barnard para concluir seu bacharelado.

Em 1955, Jordan casou-se com Michael Meyer, um estudante branco da Universidade de Columbia. Casamentos inter-raciais enfrentaram considerável oposição na época, e Jordan e seu marido se divorciaram após dez anos e meio, deixando Jordan para sustentar seu filho. Mais ou menos na mesma época, a carreira de Jordan começou a decolar. Trabalhando primeiro com cinema, Jordan explorou o impacto do meio ambiente e da arquitetura na vida de famílias negras de baixa renda, trabalhando com o arquiteto Buckminster Fuller. Em 1966, ela começou a lecionar no City College da City University de Nova York e, em 1969, publicou seu primeiro livro de poesia, Who Look at Me. Destinado a jovens leitores, o livro foi originalmente um projeto de Langston Hughes. Em uma voz vernacular, Who Look at Me descreve várias pinturas de negros americanos, cujas gravuras estão incluídas no livro. Jordan tinha fortes convicções sobre o uso do inglês negro, vendo-o como uma maneira de manter viva a comunidade e a cultura negras. Ela encorajou seus jovens alunos a escrever nesse idioma por meio de suas oficinas de escrita para crianças negras e porto-riquenhas. Com Terri Bush, ela editou uma coleção de escritos de seus jovens alunos, The Voice of the Children; ela também editou o enormemente popular e influente Soulscript: Afro-American Poetry (1970; reimpresso em 2004).

A preocupação de Jordan com as crianças permaneceu central em seu trabalho. Seu romance de 1971 para jovens adultos, His Own Where, também escrito em inglês negro, explora os interesses de Jordan em design ambiental. Buddy, de dezesseis anos, e sua namorada mais nova, Angela, tentam criar um mundo próprio em uma casa abandonada perto de um cemitério. Jordan explicou seus sentimentos sobre o livro para De Veaux: "Buddy age, ele se move. Ele é o homem em quem acredito, o homem que virá para liderar seu povo em uma nova comunidade." Outros trabalhos de Jordan para jovens incluem Dry Victories (1972), New Life: New Room (1975) e Kimako's Story (1981), inspirados pela jovem filha da amiga de Jordan, a colega escritora Alice Walker.

Embora Jordan não escrevesse especificamente para jovens leitores desde "A História de Kimako", ela explora seus próprios anos de formação em "Soldado: A Infância de uma Poetisa" (2000). A descrição pungente de Jordan sobre aprender a ser uma "boa soldadinha" sob a tutela severa de seu pai, que a impulsionou a ser forte e inteligente, a apreciar a beleza, mas muitas vezes à custa de uma surra, é contada na voz de uma criança. Jordan explicou seu objetivo para o livro em uma entrevista com Elizabeth Farnsworth, do NewsHour: “Eu queria homenagear meu pai, em primeiro lugar, e em segundo lugar, queria que as pessoas prestassem atenção a uma garotinha que é intelectualmente talentosa e criativa, e vissem que há uma complexidade aqui que, de outra forma, não estaríamos preparados para reconhecer ou mesmo buscar, muito menos encorajar, e entender que esta é uma história boa... uma história, eu acho, com um desfecho feliz. ”Jordan comentou ainda em uma entrevista à Essence: “Meu pai era muito intenso, apaixonado e exagerado. Ele era meu herói e meu tirano.” A crítica da Booklist, Stephanie Zvirin, observou que Soldier, escrito “na linguagem fluente de um poema em prosa”, é “um livro de memórias assombroso sobre amadurecimento”.

Ao longo de sua longa carreira, Jordan ganhou renome como ensaísta e escritora política, escrevendo uma coluna regular para o Progressive. Em Some of Us Did Not Die: New and Selected Essays of June Jordan (2002), publicado no mesmo ano da morte da autora por câncer de mama, Jordan apresenta trinta e dois ensaios publicados anteriormente, bem como oito novos tratados. Os ensaios examinam uma ampla gama de tópicos, desde sexismo, racismo e inglês negro até viagens que a autora fez a vários lugares, o declínio do sistema educacional dos EUA e os ataques terroristas em Nova York e Washington, DC, em 11 de setembro de 2001. 

Um colaborador da Kirkus Reviews escreveu: "Alguns dos artigos mais fortes aqui... abordam o vasto complexo de injustiça que é a vida americana contemporânea". Uma edição dos poemas coletados de Jordan também foi publicada postumamente. Esse volume, Directed by Desire: The Collected Poems of June Jordan (2005), inclui vários poemas publicados de 1969 a 2001, muitos dos quais discutem sua batalha contra o câncer. Janet St. John, escrevendo na Booklist, declarou que o livro era "uma leitura obrigatória para aqueles que desejam aprender e ser transformados pelas opiniões e impressões de Jordan". Outros volumes póstumos incluem We 're On: A June Jordan Reader (2017).

Em um obituário para o San Francisco Chronicle, Annie Nakao escreveu que a autora "deixou uma montanha de obras literárias e políticas". Nakao acrescentou: "Como descobri logo quando peguei uma obra de June Jordan, seu conteúdo podia gritar, acariciar, enfurecer. O que nunca fazia era deixar você desinteressado". Em um artigo de agradecimento no Los Angeles Times. 

Após a morte da autora, Lynell George explicou como a autora "passou a vida costurando o pessoal e o político para que as costuras não aparecessem". George afirmou ainda que, ao longo de sua vida, a autora "continuou a publicar em todo o mapa, mudando de forma conforme a ocasião ou o tópico exigiam. Por meio de poesia, ensaios, peças teatrais, jornalismo e até mesmo literatura infantil, ela abordou tópicos como raça, classe, sexualidade, capitalismo, maternidade solteira e lutas de libertação ao redor do mundo". No entanto, Jordan talvez tenha compreendido melhor seu próprio legado. 

Em uma entrevista à Alternative Radio antes de sua morte, Jordan foi questionada sobre o papel do poeta na sociedade. Jordan respondeu: "O papel do poeta, começando com minha própria experiência de infância, é merecer a confiança de pessoas que sabem que o que você faz é trabalhar com palavras". Ela continuou: “Seja sempre o mais honesto possível e o mais cuidadoso possível com a confiança depositada em você. Então, a tarefa de um poeta de cor, um poeta negro, como um povo odiado e desprezado, é mobilizar o espírito do seu povo... Eu tenho que me recompor e descobrir um ângulo, uma perspectiva, que seja uma oferta, que outras pessoas possam usar para se reerguer, se mobilizar e continuar ou, melhor ainda, saltar mais alto, alcançar mais amplamente, em solidariedade com ainda mais variedades de pessoas, para realizar algo. Sinto que é uma tarefa espiritual.”


quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Histórias AnTi-RaCiSmO: Assata Shakur

A trajetória cinematográfica de Assata Shakur 
Criminosa ou Revolucionária? 

Canal: Negritude em Letras 



Assata Shakur:
 A saga de uma revolucionária da resistência negra. Figura emblemática na luta pela emancipação dos afro-americanos, ativista integrou o Partido dos Panteras Negras e implementou ações sociais no bairro do Harlem.

Há 78 anos, em 16 de julho de 1947, nascia a revolucionária norte-americana Assata Shakur. Figura emblemática da luta pela emancipação dos afro-americanos, Assata foi membro do Partido dos Panteras Negras e ajudou a implementar diversas ações sociais no bairro do Harlem.

Nos anos 70, ela se tornou fundadora e líder do Exército de Libertação Negra — um grupo revolucionário de guerrilha urbana que se tornaria alvo preferencial da repressão do FBI.

Alvo de uma campanha persecutória do governo norte-americana, Assata foi presa após uma emboscada policial e condenada à prisão perpétua. Ela foi alvo de diversos abusos físicos e psicológicos durante o cárcere, permanecendo em isolamento por quase dois anos em uma prisão masculina.

Em 1979, Assata conseguiu fugir da cadeia e partiu para o exílio em Cuba, onde vive até hoje. Ela também é conhecida por ser madrinha do rapper Tupac Shakur e foi homenageada em várias canções.

O governo norte-americano continua exigindo a extradição de Assata. Ela foi a primeira mulher a ser colocada na “Lista dos Terroristas Mais Procurados” do FBI.
Juventude e formação

Batizada JoAnne Deborah Byron, Assata Shakur nasceu no distrito de Queens, em Nova York, em uma família negra da classe operária. Ela passou parte da infância na casa dos avós em Wilmington, Carolina do Norte. Após concluir o ensino primário, voltou para Nova York, onde viveu com sua mãe, a professora Doris Johnson, e seu padrasto.

Sua adolescência foi bastante atribulada, marcada por conflitos familiares, fugas e abandono escolar. Ela viveu por um tempo com sua tia, Evelyn Williams, uma militante do movimento dos direitos civis dos negros. Foi Evelyn que pressionou Assata a retomar os estudos e que a ajudou a obter seu diploma de equivalência do ensino secundário (GED).

Assata ingressou na Faculdade Comunitária do Distrito de Manhattan e posteriormente se transferiu para o City College de Nova York (CCNY). A jovem iniciou sua militância política durante a graduação, dedicando-se ao estudo do marxismo e do socialismo, participando nas manifestações do movimento negro e dos protestos contra a Guerra do Vietnã.

Em 1967, Assata foi presa pela primeira vez, após participar de um ato exigindo a contratação de mais professores universitários negros e a inclusão dos estudos afro-americanos nas grades curriculares. Nesse mesmo ano, ela se casou com Louis Chesimard, um colega da CCNY. O casamento durou pouco tempo. Eles romperam após um ano juntos e se divorciaram legalmente em 1970.

Panteras Negras

O ingresso de Assata na militância política ocorreu em um período marcado pela intensificação da luta antissegregacionista. A aprovação da Lei dos Direitos Civis e da Lei dos Direitos de Voto representaram importantes conquistas, mas a violência policial, os ataques raciais de grupos supremacistas e a discriminação econômica persistiam como obstáculos à plena integração dos afro-americanos.

A frustração com o pacifismo das correntes majoritárias do movimento negro abriu espaço para o surgimento de organizações mais combativas, que pregavam o recurso à autodefesa e uma postura de maior confrontação diante das ofensivas reacionárias. É o caso do Partido dos Panteras Negras, fundado em 1966 por Huey Newton e Bobby Seale.

Os Panteras Negras eram uma agremiação de orientação marxista-leninista e inspiração maoísta. Eles defendiam a legitimidade da violência revolucionária para garantir a integridade física e o respeito aos direitos fundamentais da população negra.

Assata ingressou nos Panteras Negras no fim dos anos 60. Ela logo se tornaria uma dirigente da organização no Harlem, onde ajudou a implementar programas de alfabetização, clínicas comunitárias e o programa “Café da Manhã Gratuito para Crianças”, que visava fornecer nutrição adequada para estudantes negros de bairros pobres.

Exército de Libertação Negra

Malgrado a importância do trabalho de base e da organização política dos Panteras Negras, Assata se frustrou com o machismo de alguns membros do partido e com a falta de espaço para as mulheres nos processos decisórios internos.

No início dos anos 70, ela se uniu aos dissidentes que participaram da fundação do Exército de Libertação Negra (BLA) — uma organização revolucionária que pregava a luta armada e o uso de táticas de guerrilha urbana para promover a emancipação do povo negro.

O BLA foi fortemente influenciado pela luta dos movimentos anticoloniais como a Frente Nacional para a Libertação do Vietnã (os chamados “vietcongues”) e a Frente de Libertação Nacional da Argélia. O grupo não tinha uma estrutura administrativa centralizada, sendo organizado através de células autônomas clandestinas, visando dificultar operações de infiltração, vigilância e repressão.

Foi após a adesão ao BLA que JoAnne passou a usar o nome Assata Olugbala Shakur, abandonado o que considerava seu “nome de escravizada”. “Assata” é um termo derivado da África Ocidental que significa “guerreira”. “Shakur” provém do árabe e quer dizer “agradecida”. E “Olugbala” é o termo iorubá para “salvador”.

Assata participou de uma série de ações armadas levadas a cabo pelo BLA, incluindo alguns assaltos a bancos, visando angariar recursos para financiar o movimento. Em 1972, ela seria identificada pelo FBI como a chefe da célula do movimento em Nova York.

COINTELPRO

Após a prisão de Dhoruba bin Wahad, as autoridades norte-americanas passaram a considerar Assata como a principal liderança do Exército de Libertação Negra, o que a transformou em uma das pessoas mais procuradas nos Estados Unidos.

Assata foi um dos alvos diretos do COINTELPRO — um programa secreto de contrainteligência conduzido pelo FBI entre as décadas de 50 e 70. O programa tinha como objetivo desarticular, desacreditar e, se necessário, eliminar as organizações e indivíduos considerados “subversivos” pelo governo norte-americano.

Inicialmente focado na repressão ao movimento comunista, o programa foi expandido para abranger as lideranças e organizações do movimento negro a partir dos anos 60. Os agentes do COINTELPRO usavam táticas de espionagem, infiltração, desinformação, fabricação de evidências, assassinato de reputação e até execuções sumárias para neutralizar seus alvos.

Assim como vários líderes da resistência negra, Assata foi alvo de diversas acusações criminais fabricadas, a fim de ser rotulada como uma ameaça à segurança nacional. Entre 1973 e 1977, ela seria indiciada em 10 processos criminais distintos, respondendo a acusações de assaltos, sequestros, tentativas de homicídio, agressão e posse ilegal de armas.

Quase todas as acusações direcionadas a Assata foram posteriormente descartadas por falta de provas. Dos sete julgamentos aos quais ela foi submetida, três resultaram em absolvições e outros três foram arquivados. E o único caso que resultou em condenação estava repleto de irregularidades.

Confronto em Nova Jersey e prisão

O caso em que Assata foi condenada ocorreu em 2 de maio de 1973. Ela estava em um veículo que trafegava por uma rodovia de Nova Jersey, acompanhada de Zayd Malik Shakur e Sundiata Acoli. Na altura da cidade de East Brunswick, o automóvel foi forçado a encostar por uma patrulha policial, por uma suposta infração de trânsito.

O que aparentava ser uma abordagem de rotina se converteu em um tumulto e logo evoluiu para um troca de tiros. Zayd e o policial Werner Foerster foram mortos durante o embate. Assata foi alvejada cinco vezes. Ela foi levada para o Hospital Geral de Middlesex em estado grave, mas sobreviveu. Em seguida, foi transferida para uma prisão, onde foi submetida a espancamentos e sessões de tortura. Assata estava grávida quando foi presa. Sua filha, Kakuya Shakur, nasceu em setembro de 1974.

Assata sempre afirmou sua inocência, alegando que foi vítima de uma emboscada e que não disparou nenhum tiro. As evidências forenses apresentadas durante o julgamento mostraram que ela não tinha resíduos de pólvora nas mãos. Além disso, a posição dos ferimentos sugeriam que ela foi baleada enquanto estava se rendendo com as mãos levantadas, contradizendo a narrativa policial.

O julgamento de Assata foi marcado por controvérsias. Realizado em um condado predominantemente branco e conservador, o processo foi denunciado por ativistas dos direitos civis como um exemplo de justiça racialmente enviesada. O júri era composto exclusivamente por pessoas brancas e a mídia retratava Assata como uma criminosa perigosa.

O processo foi eivado de irregularidades, com manipulação de provas, coação de testemunhas e violações dos direitos processuais da defesa. Em abril de 1977, Assata foi condenada pelo assassinato de Werner Foerster e sentenciada à prisão perpétua.

As condições do cárcere eram brutais. Assata foi mantida em isolamento por dois anos em uma prisão masculina, enfrentando abusos físicos e psicológicos. Posteriormente, foi transferida para o Centro Correcional Clinton, uma unidade feminina de segurança máxima.

A prisão de Assata se tornou um símbolo das injustiças do sistema jurídico norte-americano. Angela Davis e outros militantes do movimento negro denunciaram internacionalmente sua condição de presa política. Uma investigação conduzida por um painel de juristas vinculado à Comissão de Direitos Humanos da ONU reconheceu que as condições de sua prisão eram desumanas.

Fuga e exílio em Cuba

Assata Shakur foi libertada da prisão em 2 de novembro de 1979, por meio de uma audaciosa operação conjunta organizada pelo Exército de Libertação Negra e pela Organização Comunista 19 de Maio. A ação foi realizada por quatro pessoas disfarçadas de visitantes. Eles renderam os guardas e agentes penitenciários, retiraram Assata do recinto e fugiram em um veículo que os aguardava do lado de fora.

O FBI distribuiu cartazes com o rosto de Assata por todo país. Três dias após a fuga, milhares de pessoas saíram às ruas de Nova York em uma manifestação em apoio à fugitiva, carregando cartazes de “Assata é bem vinda aqui”.

Assata permaneceria como foragida nos Estados Unidos por quase cinco anos, auxiliada por uma rede de apoio mantida pelo BLA, organizações do movimento negro e agremiações da esquerda revolucionária.

Em 1984, Assata conseguiu fugir para Cuba, onde foi recepcionada por Fidel Castro e recebeu o status de refugiada política. Sua filha Kakuya se mudou para ilha no ano seguinte. Elas vivem em Cuba até hoje e seguem participando ativamente do debate político a das ações da militância socialista e antirracista.

Assata publicou uma autobiografia em 1988 e lançou outro livro escrito em parceria com Dhoruba bin Wahad e Mumia Abu-Jamal em 1993 (“Still Black, Still Strong”). Sua vida foi retratada no documentário “Eyes of the Rainbow”, dirigido por Gloria Rolando, e no filme “Assata aka Joanne Chesimard”, de Fred Baker. Conhecida por ser madrinha de Tupac Shakur, Assata foi citada e homenageada em dezenas de canções.

O asilo concedido por Cuba gerou tensões nas relações com os Estados Unidos. O governo norte-americano segue até hoje exigindo a extradição de Assata e o FBI chegou a oferecer um milhão de dólares pela sua captura. Em 2013, Assata Shakur se tornou a primeira mulher a figurar na “Lista dos Terroristas Mais Procurados” pelos Estados Unidos.

Portal Opera Mundi:
https://operamundi.uol.com.br/
Nicole Gerard e Estevam Silva 
São Paulo, 16 de julho de 2025.

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Entrevista: Lazzo Matumbi

Lazzo Matumbi 
“Parece um projeto de extermínio dos negros. Temos que lutar por Brasil mais justo"

Créditos do Canal: Direção Geral: Bob Fernandes Direção Executiva: Antonio Prada Produção: Eliano Jorge Imagem e edição: João Cayres Arte e Vinhetas: Lorota Música de abertura e encerramento: Gabriel Edé Este é o canal de Bob Fernandes. Vídeos novos todas terças e sextas, sempre, e demais postagens a qualquer momento necessário.

Canal: Bob Fernandes


♪ Antes de ficar popularizado como Lazzo Matumbi, um dos mais importantes cantores e compositores do universo musical afro-baiano, o soteropolitano Lázaro Jerônimo Ferreira já foi conhecido como Lazinho do Ilê – em alusão ao fato de ter sido um dos vocalistas do bloco afro Ilê Aiyê de 1978 a 1980 – e Lazinho Diamante Negro.

Matumbi, referência no Samba/Reggae
Voz ativista da Bahia, de importância fundamental na popularização do samba-reggae e do reggae, Lázaro virou Lazzo Matumbi em 1981, ano em que iniciou carreira solo com a edição de single duplo autoral com as músicas Salve a Jamaica (Homenagem a Bob Marley) e Guarajuba.

Em toda sua caminhada solo são sintetizados em documentário filmado sob a direção da cineasta Urânia Muzanzu e em fase de finalização. As gravações aconteceram em locações como o Teatro Castro Alves, em Salvador (BA), cidade natal do artista que completará 64 anos em 24 de março.

Para quem não liga o nome ao som, Lazzo Matumbi é o compositor de músicas como Alegria da cidade (1988, em parceria com Jorge Portugal), Kindala (1991, em parceria com José Carlos Capinan) e Me abraça e me beija (1988, em parceria com Gileno Félix), entre outros temas.

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Ideias Anti-Racismo: Lília Guerra

Literatura Anti-Racismo

Texto de Eliana Alves Cruz: É guerra o tempo todo.


A escritora Lília Guerra e o racismo nosso de cada dia.

O líder, intelectual e imortal indígena da Academia Brasileira de Letras Aílton Krenak, há alguns anos, no primeiro episódio do ótimo documentário Guerras do Brasil, dirigido por Luiz Bolognesi, falou algo perturbador e antológico: “Nós estamos em guerra. Eu não sei por que você está me olhando com essa cara tão simpática. O seu mundo e o meu mundo estão em guerra. Os nossos mundos estão todos em guerra. A falsificação ideológica que sugere que nós temos paz, é pra gente continuar mantendo a coisa funcionando. Não tem paz em lugar nenhum. É guerra, em todos os lugares, o tempo todo”.

Como esse “tempo todo” é algo que não passa no Brasil e os fatos parecem se entrelaçar de maneira irônica, uma escritora que tem “guerra” no sobrenome, participante da programação principal da Flip em 2025, foi a prova da verdade proferida por Krenak.

Lília Guerra, autora dos excelentes livros “O céu para os bastardos” e “Perifobia” subiu no palco principal da Festa Literária de Paraty, a FLIP, a mais famosa do país, aquela que deu origem a todas as outras neste formato. Finalizado o evento, já em casa, ela recebe um contato da organização, informando que pousada deu falta de um lençol e uma manta no quarto em que ela estivera.

Lília estava sendo alvo da suspeita de um furto.

Em suas palavras, no texto que escreveu para desaguar todo o caos interior que se instala quando algo assim acontece: “Pelo que entendi, a pousada solicitava reembolso do valor correspondente aos itens apontados como ausentes no quarto onde estive, após a checagem padrão. A produção da Festa foi contatada porque era responsável pela minha estadia e me colocou a par da situação. Me disseram que duvidavam muito que isso houvesse realmente ocorrido. Porém, que se tivesse sido assim, eu só precisava confirmar e eles providenciariam o ressarcimento”.

São tantas camadas de erro que é até difícil começar a enumerar, mas vamos aprofundar aqui na conjunção adversativa “porém”. A dúvida é um tapa na cara. Não apenas de Lília, mas de todos e todas nós que crescemos apontados como possíveis cometedores de delitos, contravenções, atos fora da lei, violências. A dúvida é a certeza da dureza que é escapar da lógica colonial que fixou cada pedra do chão da cidade de Paraty, parte do Caminho do Ouro e um dos epicentros da riqueza colonial brasileira.

Lília entrou pela porta da frente, como resultado da projeção que conquistou com sua escrita importante, necessária, bonita. Sentou-se na cadeira do centro do palco com a imagem de Carolina Maria de Jesus, uma inspiração e um incentivo, estampada no peito. Realizou um desejo de muitos escritores e escritoras em todo o país, para alegria de quem a ama, considera e admira. Para contentamento de todos nós, escritores e escritoras negros e negras, que por décadas sem conta estivemos alijados destes espaços dados à intelectualidade brasileira. Um evento que nos últimos nove anos vêm buscando dar voz e espelhar a produção literária tão diversa do país. Aí, como diz o pema do Drummond, no “meio do caminho tinha uma pedra”, no meio da fala tinha um “porém”.

Lília prosseguiu em seu desabafo.

“(…) Suponho que deva ser uma ocorrência corriqueira, dada a naturalidade com que me foi comunicada. Para mim? Um piano de cauda descendo uma ladeira de patins. Inacreditável.

(…) Recebi pedidos de desculpas, sim. Pelo equívoco, pela condução desacertada, pelo incômodo, pela comunicação falha. Pela falta de assertividade, pelo desencontro de informações, pela demora no retorno. Pelo desconforto, pela gravidade. Acreditei na sinceridade de todos esses pedidos e os aceitei. Tanto que, em determinado momento, me flagrei elaborando como agir, de modo a não parecer julgadora, intolerante, injusta, transgressora do Pai Nosso, inflexível ou incompreensiva. Não deixei de pensar que somos todos passíveis de erros e procurei administrar o tempo para ouvir quem achou por bem se manifestar. Eu mesma não tenho muito mais a dizer.

Livro: O Céu para os Bastardos, Lília Guerra.

Decidi compartilhar a experiência porque as Festas e Festivais, Feiras e acontecimentos literários seguirão ocorrendo e isso é muito bom! Desejo que se expandam! Que se realizem em todos os cantos do Brasil. Que alcancem o povo! E acredito que haverá mais pessoas como eu transitando por esses eventos. Nas curadorias, mediações. Nas mesas e, sobretudo, nas plateias. (…) É preciso aprender a conviver com a gente nesses meios. Estamos aí!”

Sim, querida Lília, estamos aí, mas é bom nunca esquecer aquelas pedras que pavimentam Paraty e todos os espaços neste país. Ouçamos Drumond:

“Nunca me esquecerei desse acontecimento

Na vida de minhas retinas tão fatigadas

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

Tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra”

E levemos a sério o alerta de Krenak: “É guerra, em todo lugar, o tempo todo”.

Eliana Alves Cruz é carioca, escritora, roteirista e jornalista. Foi a ganhadora do Prêmio Jabuti 2022 na categoria Contos, pelo livro “A vestida”. É autora dos também premiados romances Água de barrela, O crime do cais do Valongo; Nada digo de ti, que em ti não veja; e Solitária. Tem ainda dois livros infantis e está em cerca de 20 antologias. Foi colunista do The Intercept Brasil, UOL e atuou como chefe de imprensa da Confederação Brasileira de Natação.

Plataforma ICL de Comunicação.
https://iclnoticias.com.br/e-guerra-o-tempo-todo-lilia/


sexta-feira, 15 de agosto de 2025

🎥 Documentário - Quilombos do Século XXI

Quilombos do Século XXI

A TV Justiça resgata parte da história do Brasil com o documentário Quilombos do Século XXI. Líderes do movimento negro e historiadores afro-brasileiros discutem a questão do racismo estrutural que vigora no país desde o fim da escravatura, em 1888. Leis que foram publicadas ainda no Império impediram a emancipação dos descendentes diretos dos grupos escravizados pelos portugueses.



segunda-feira, 21 de julho de 2025

PROVOCAÇÃO HISTÓRICA - “CARAMURUS NEGROS"

CARAMURUS NEGROS

"A REVOLTA ESCRAVA MAIS SANGRENTA DO BRASIL”

Programa Provocação Histórica - 16/07/2025 -

Livro: Caramurus Negros - A Revolta dos Escravos de Carrancas - MG (1833)
Editora: Chão Editora
Edição: 13 maio de 2025

Sinopse:
Em 13 de maio de 1833, ocorreu no sul de Minas Gerais a insurreição escrava mais sangrenta do Sudeste do Império, em que morreram 33 pessoas — 21 escravizados, 9 membros da família Junqueira (incluindo 3 mulheres e 3 crianças), 1 agregado e 2 "pessoas de cor". Conhecido como a Revolta de Carrancas, o episódio resultou na maior condenação coletiva à pena de morte da história da escravidão no país.

Caramurus negros: a revolta de escravos de Carrancas — Minas Gerais (1833), com organização e posfácio do historiador Marcos Ferreira de Andrade, é fruto de mais de trinta anos de pesquisa. O livro contém a transcrição de parte dos autos do processo-crime da revolta e um posfácio que mostra como as elites regionais e o próprio Estado imperial lidaram com os rebeldes insurgentes.

Autodenominando-se "caramurus", um dos agrupamentos políticos do pós-Independência, os rebelados afirmaram seu protagonismo diante das identidades em disputa na construção do Estado nacional. A revolta dos escravos de Carrancas deve ser compreendida dentro desse contexto de intensos conflitos e repressão militar.

Ao trazer à tona parte da história e das lutas de personagens como Ventura Mina, André Crioulo, Antônio Benguela, Joaquim Mina, Antônio Rezende e tantos outros que os acompanharam, o episódio permite-nos compreender não apenas as hierarquias, alianças e disputas que se estabeleciam no dia a dia da vida em cativeiro, mas também os sonhos e projetos de liberdade acalentados pelos cativos.

Ainda que pudessem imaginar as graves consequências de participar de uma insurreição e tenham sido derrotados e punidos de forma exemplar, naquele 13 de maio os audazes "caramurus negros" colocaram em prática seus projetos de liberdade e, assim, entraram para a história.


segunda-feira, 14 de julho de 2025

LIVRO: AnGeLa DaViS

Angela Davis

Livro: Mulheres, cultura e política ...

Nessa compilação de discursos e artigos, a ativista política Angela Davis - autora de Mulheres, raça e classe, publicado com estrondoso sucesso pela Boitempo - apresenta um balanço de sua luta por uma mudança social progressista. Dividida em três eixos temáticos, "Sobre as mulheres e a busca por igualdade e paz", "Sobre questões internacionais" e "Sobre educação e cultura", a obra aborda as mudanças políticas e sociais pelas quais o mundo passou nas últimas décadas em relação à igualdade racial, sexual e econômica.

A autora traz dados históricos e estatísticos detalhados sobre as condições das mulheres, da classe trabalhadora e da população negra nos Estados Unidos durante o governo Reagan, mostrando como a política adotada naquela administração operou para enfraquecer esses grupos sociais. Mostra, ainda, as influências das políticas norte-americanas em países da América Central, da África e do Oriente Médio, destacando o impacto que tiveram para fortalecer um movimento econômico mundial de concentração de renda e enfraquecimento das lutas sociais em vários países do mundo. Ao mesmo tempo, ela faz reflexões importantes sobre a resistência representada pelos movimentos sociais e sobre o potencial de conscientização e contestação da educação e das artes, em especial a pintura, a fotografia e o blues. Por meio dessa reflexão, Davis argumenta que a convergência dos diversos grupos, em diferentes países, em torno de interesses comuns é essencial para a construção de um mundo menos desigual.

Editora: Boitempo Editorial
Ano de publicação: 1989
Artes fotográfias do livro e produção: Gabriel Mesquita

Breve biografia de Angela Davis

Angela nasceu no estado do Alabama, um dos mais racistas do sul dos Estados Unidos, e desde cedo conviveu com humilhações de cunho racial em sua cidade. Leitora voraz quando criança, aos 14 anos participou de um intercâmbio colegial, que oferecia bolsas de estudo para estudantes negros sulistas em escolas integradas do norte do país, o que a levou a estudar no Greenwich Village, em Nova York, onde travou conhecimento com o comunismo e o socialismo teórico marxista, sendo recrutada para uma organização comunista de jovens estudantes.

Na década de 1960, Angela tornou-se militante do partido e participante ativa dos movimentos negros e feministas que sacudiam a sociedade norte-americana da época, primeiro como filiada da SNCC de Stokely Carmichael e depois de movimentos e organizações políticas como o Black Power e os Panteras Negras.

Em 18 de agosto de 1970, Angela Davis tornou-se a terceira mulher a integrar a Lista dos Dez Fugitivos Mais Procurados do FBI, ao ser acusada de conspiração, sequestro e homicídio, por causa de uma suposta ligação com uma tentativa de fuga do tribunal do Palácio de Justiça do Condado de Marin, em São Francisco.

Durante o verão daquele ano, Angela estava envolvida nos esforços dos Panteras Negras para conquistar o apoio da sociedade a três militantes presos, George Jackson, Fleeta Drumgo e John Clutchette, conhecidos como os “Irmãos Soledad”, por terem sido enviados à Prisão de Soledad, em Monterey.


Angela lecionou por 17 anos no Departamento de História da Consciência na prestigiada Universidade da Califórnia-Santa Cruz. Recebeu o título de professora emérita da Universidade da Califórnia e se aposentou em 2008. Após sua aposentadoria continuou sua rotina de palestras e cursos em diversas universidades e centros culturais por todo o mundo. Em 2019 passou a integrar o National Women's Hall of Fame dos Estados Unidos.

domingo, 13 de julho de 2025

Itamar Assumpção

Itamar
Assumpção

O artista que desafiou
 a indústria musical!

Itamar de Assumpção, nome de registro. Francisco José Itamar de Assumpção, nome de batismo. Itamar Assumpção, nome artístico.

“Ele ganhou um violãozinho e tinha vontade de aprender, mas como a gente não tinha condições de comprar um violão novo, ele falou: ‘Eu vou tentando com esse mesmo’. Aí ele começou.”

Transcrição do depoimento de Maria Aparecida Silva de Assumpção em 2003 para o curta metragem “Beleléu Cá Entre Nós – Itamar Assumpção antes do Nego Dito”, de Fábio Giorgio.

Breve Biografia:

Em 1949 nasce Itamar de Assumpção* na cidade de Tietê, no interior de São Paulo, onde viveu com a avó até os 12 anos. Esta cidade surgiu devido a ação dos bandeirantes, que invadiram o interior do Brasil à procura de metais preciosos e indígenas para escravizar. Ao longo do tempo, a cidade recebeu um número significativo de africanos e afrodescendentes de outras regiões do Brasil como mão de obra escravizada. Uma das formas de sociabilidade dos negros e negras nesta cidade eram os Batuques de Umbigada, manifestações da cultura popular negra que seriam muito importantes para a formação performática de Itamar Assumpção.

Também nasce, na capital paulista, o Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Nenê de Vila Matilde, situado na Zona Leste de São Paulo, há poucos quilômetros de onde Itamar moraria e morreria anos mais tarde.

No alvorecer da década de 1950, Adoniran Barbosa lançava seu clássico “Saudosa Maloca” e, anos depois, estreavam Ataulfo Alves e Elza Soares, com seu rasgante Bossa-Negra. O rádio era a grande atração na casa dos brasileiros, modelando a escuta e o gosto musical de diversas gerações.


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quinta-feira, 19 de junho de 2025

HiStÓrIaS AnTi-RaCiSmO

O Poeta Solano Trindade

Nesse vídeo Cíntia Santos nos conta a história de Solano Trindade e por que o poeta foi  preso e teve seu filho assassinado ...

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terça-feira, 17 de junho de 2025

Black, Funk e Soul

Toni Tornado
(Resistência Negra na Ditadura Militar)

Toni Tornado um dos maiores ícones da música e da televisão brasileira, o ator, cantor e compositor, nascido Antônio Viana Gomes – em Mirante de Paranapanema, região de Presidente Prudente, no interior de São Paulo – no dia 26 de maio de 1930, Tony Tornado tornou-se um dos principais nomes da black music e do funk no Brasil, consagrando-se tanto na área musical, como na atuação, além der ser um dos precursores do movimento negro no país.Tony é uma força da natureza. Não à toa, seu nome artístico é “Tornado”. Ele transformou para sempre cada local por onde passou. E não foram poucos.

Seu pai nasceu, na capital da Guiana – Georgetown – e veio para o Brasil ainda criança, mais especificamente para Macapá, onde – mesmo tendo nascido na primeira década do século 20 – foi escravizado em fazendas do interior e trabalhou como reprodutor, tendo mais de 100 filhos. No interior de São Paulo, conheceu a mãe de Tony. Com esse passado familiar tão recente, o garoto não poderia mesmo passar a existência sem muitas lutas. Desde muito cedo, Tony entendeu que a arte era seu destino e que a cidade onde nasceu – e onde trabalhou como baleiro no cinema – era pequena demais.
Ainda contribuiu com 13 anos de exército antes de voltar da guerra pelo Canal de Suez, em 1957.

Tony inicia sua carreira artística.



Participou do programa “Hoje é Dia de Rock”, na Rádio Mayrink Veiga, ainda utilizando o nome artístico de Tony Checker, uma homenagem a Chubby Checker, cantor, compositor e dançarino norte-americano, conhecido por popularizar o twist com sua gravação, feita na década de 1960, do sucesso de R&B composto por Hank Ballard, “The Twist”. Nessa época, a luta pelos direitos civis estava ganhando corpo e chegando ao seu auge nos Estados Unidos. O Brasil também começava a ter grupos muito engajados na luta antirracista e Tony Tornado seguiu, em 1963, com o “Conjunto Folclórico Coisas do Brasil” para a Europa e depois para os Estados Unidos.

Nessa época, a luta pelos direitos civis estava ganhando corpo e chegando ao seu auge nos Estados Unidos. O Brasil também começava a ter grupos muito engajados na luta antirracista e Tony Tornado seguiu, em 1963, com o “Conjunto Folclórico Coisas do Brasil” para a Europa e depois para os Estados Unidos. No coração do bairro do Harlem, Tony conheceu Stokely Carmichael – ativista negro do Movimento dos Direitos Civis nos Estados Unidos nas décadas de 1960 e 1970 – casado com a cantora Miriam Makeba – cantora, compositora, atriz, embaixadora da boa vontade da ONU e ativista pelos direitos humanos e contra o apartheid sul-africana.

Nos Estados Unidos, Tony também entrou em contato com os movimentos “Black is beautiful”, “Black Power’, “Black Panther” e foi impactado pelaMarcha sobre Washington (1963), pelo Verão da Liberdade e do Nobel da Paz para Martin Luther King (1964), e pela Marcha de Selma no Alabama e o assassinato de Malcolm X (1965).

Chegou no Brasil na fase mais dura da ditadura militar e passou a cantar em inferninhos da Praça Mauá, até que foi à boate New Holiday, para integrar o conjunto do músico Ed Lincoln, já introduzindo no Brasil toda a influência de James Brown, do funk e do soul. Nesta época ele conheceu Janis Joplin, apresentada pelo cantor Serguei, e dois nomes que o fariam entrar para a história da MPB: Antônio Adolfo e Tibério Gaspar, os compositores da canção “BR-3”, que – em 1970 – Tony Tornado (já com esse nome artístico) interpretou no 5º Festival Internacional da Canção, ao lado do Trio Ternura, formado pelos irmãos – também negros – Jussara, Jurema e Robson da Silva. Dançando e cantando versos como “a gente morre na BR-3”, foi impactante a vitória em primeiro lugar de Tony, um desconhecido do grande público até então, desbancando nomes como Caetano Veloso, Jair Rodrigues, Ivan Lins, Tom Jobim, Beth Carvalho e Gilberto Gil.

Mas, em tempos duros de repressão e ditadura militar, não demorou muito para que Tony Tornado fosse visto como “um suspeito em potencial”. A Comissão Estadual da Verdade do Rio (CEV-RJ) resgatou o seguinte trecho publicado, na época, pelo jornal O Globo: “Um revolucionário americano estaria no Brasil recrutando militantes para implementar no país um regime de segregação racial”.

Em 1971, Elis Regina fez um show no Maracanãzinho e levantou as arquibancadas interpretando “Black is Beautiful”, canção de Marcos e Paulo Sérgio Valle. Ao terminar a canção, a cantora pediu para alguém negro subir ao palco e Tony gritou na hora um “sou eu!”. Ele subiu e ergueu o punho cerrado como os Panteras Negras, grupo revolucionário da década de 1960, que lutava contra o racismo nos Estados Unidos. Já desceu do palco algemado, com 40 mil pessoas vaiando a polícia no estádio: “É uma história complicada. Foi um choque muito grande. As pessoas não estavam acostumadas. Eu cantava e falava coisas de negros, depois casei com uma loira. Foi um negócio muito sério. Deixavam recados ofensivos no meu carro.”, relembra o artista.

O furacão Tony Tornado

Em 2015, aos 85 anos, Tony subiu ao Palco Sunset do Rock in Rio para cantar ao lado de Rappin Hood e de Nasi (do Ira!) e encarnar outra vez o “rei do soul”. Foi ovacionado ao entrar de óculos escuros e paletó amarelo e cantar “BR-3”, o grande hit da carreira de sua carreira de cantor.


Black, Funk e Soul

Baile Black Rio
"A revolução urbana"


"O movimento Black Rio nos Anos 70: bailes lotaram a cidade e foram alvo da ditadura"

História do movimento começa com a descoberta pela mídia e marca ainda a chegada de novos sons. Nesse movimento se vê o alcance dos bailes ao longo da década, atravessando mais de 30 bairros cariocas, de Botafogo, na zona sul), a Bangu, na zona oeste, passando por lugares como Tijuca, Méier e Penha, todos na zona norte.

A percepção geográfica do fenômeno, a partir de mapas como esse, é uma das contribuições do estudo para o entendimento do sucesso -um movimento que mobilizou milhares de jovens e deixou marcas na cultura brasileira para além das fronteiras cariocas.

"Quis chamar a atenção para como o movimento foi enorme e se espalhou pela cidade toda, praticamente. Por isso, a ideia de "Pequena África", como ficou conhecida a região central do Rio que serviu de berço para o samba urbano na virada do século 19 para o 20, mas que sempre foi a "Grande África Soul".

sexta-feira, 13 de junho de 2025

HISTÓRIAS DO BRASIL: Bernardina Rich

Bernardina Rich

A Mulher Que Desafiou o Sistema em 1888


Em pleno século XIX, apenas meses após a abolição da escravidão, ela desafiou tudo o que diziam ser impossível para uma mulher negra. Mas sua história foi apagada. Neste vídeo, você vai conhecer a trajetória inspiradora de Bernardina Maria Elvira Rich uma das primeiras mulheres negras a conquistar um cargo público no Brasil. Uma educadora, jornalista e ativista que usou a educação, a escrita e o afeto como formas de resistência.

Referências: GOMES, Nailza da Costa Barbosa; MARQUES, Ana Maria. Bernardina Rich (1872-1942): uma mulher negra no enfrentamento do racismo em Mato Grosso. Revista Territórios & Fronteiras, Cuiabá, v. 10, n. 2, p. 224–244, jul./dez. 2017.
Acesso em: 25 maio 2025.

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quinta-feira, 5 de junho de 2025

Histórias do Brasil

ESPERANÇA GARCIA

A primeira advogada do Brasil não usava toga: usava correntes!

A primeira advogada do Brasil não usava toga. Ela era uma mulher negra e escravizada. Em 1770, com apenas 19 anos, Esperança Garcia escreveu uma carta ao governador do Piauí denunciando abusos e exigindo o direito de viver com sua família. Essa é a história de uma mulher que transformou dor em denúncia e palavra em luta.


Canal: Negritude em Letras