Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Tia Ciata: A Raíz do Samba

Tia Ciata  
| A raíz do samba através de suas matriarcas |

A vida e o legado de Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata, se entrelaçam à história do samba e da cultura negra no Brasil. Baiana do Recôncavo, Ciata faz parte de um coletivo de mulheres que migrou para o Rio de Janeiro, no final do século XIX e início do século XX, no movimento que mais tarde foi definido como “diáspora baiana”.

Neste #CaminhosDaReportagem, acompanhe a vida e o legado da ialorixá referência na cultura negra do Brasil.



sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Ópera do Malandro: O Paradoxo Brasil

O paradoxo Brasil – II

O eterno retorno de uma simetria perversa.


Capa do disco "Ópera do Malandro", de Chico Buarque, 1979.

Estatísticas como sintoma


Bem-sucedido e desterrado: eis onde paramos na coluna anterior. Como entender esse aparente paradoxo? Como preservar sua tensão constitutiva e transformar o impasse em reflexão renovada sobre as origens da formação histórica brasileira? A tarefa não é fácil. O próprio Sérgio Buarque de Holanda preferiu diluir o dilema na edição definitiva de Raízes do Brasil. Como vimos na semana passada, o historiador ficou apenas com o desterro, apagando o aparente êxito na “transplantação da cultura europeia para uma zona de clima tropical e subtropical”.

O ensaio ficou assim mais endomingado, mais coerente em sua linha argumentativa, pronto para ser canonizado. Mas, infelizmente, desse modo, perdeu-se o que, de fato, importava, qual seja, assinalar a contradição que ainda hoje assombra o Brasil.

Uma estatística-sintoma esclarece meu ponto.

País bem-sucedido: no primeiro trimestre de 2024, o Brasil voltou à posição de oitava economia do mundo, superando a Itália. O Produto Interno Bruto (PIB) do país chegou a US$ 2,333 trilhões e, segundo projeções do Fundo Monetário Internacional, pelo menos até 2029 deve permanecer nessa posição. Recorde-se que, até 1930, era essencialmente um país exportador, sobretudo de café, e possuía uma base industrial precária e incipiente. O salto só não foi quântico porque não foi acompanhado de um correspondente crescimento de bem-estar social.

Nação de desterrados na própria terra: o Brasil ocupa a oitava posição no elenco das economias mais desiguais do planeta. O resultado foi divulgado no Relatório Global de Riqueza 2025. A vergonhosa permanência da desigualdade social desde a implantação da República, em 15 de novembro de 1889, continua sendo o maior obstáculo para uma melhora significativa dos indicadores que determinam o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

A simetria perversa dessas estatísticas, como se compusesse um inesperado desenho de M. C. Escher, é o nó górdio para que o paradoxo identificado por Sérgio Buarque seja enfrentado com coragem, em lugar de negligenciado. Até lá, o título da inquietante distopia de Ignácio de Loyola Brandão valerá como um retrato acabado de nossa encruzilhada: Não verás país nenhum.

(Não pode haver nação sem povo.)

Congresso e Nação

Nosso Congresso é muito bem-sucedido – ninguém há de negar. Conseguiu a proeza que nenhum Parlamento, no mundo todo, nos últimos dois séculos, sequer ousou: sequestrar o orçamento do Executivo e realizar o maior ato de pilhagem dos cofres públicos dos cinco séculos da história do Brasil. Mais: os artífices e continuadores desse assalto não somente escaparam, por enquanto, de qualquer responsabilização criminal, como ainda se dão ao luxo de chantagear o governo democraticamente eleito.

(Agora já não é normal

O que dá de malandro regular, profissional

Malandro com aparato de malandro oficial

Malandro candidato a malandro federal

Malandro com retrato na coluna social

Malandro com contrato, com gravata e capital

Que nunca se dá mal)

Pois bem: prova dos nove. O errático presidente Donald Trump anunciou um tarifaço de 50% sobre os produtos brasileiros com a vã esperança de intimidar o Supremo Tribunal Federal, a fim de libertar o ex-presidente golpista Jair Messias Bolsonaro. Deu com os burros n’água. Em boa parte, porque, para colocar o burro na sombra, o governo brasileiro foi ágil e propôs uma medida emergencial: o BNDES disponibilizaria até R$ 40 bilhões para auxiliar os exportadores dos produtos que, porventura, tivessem sido afetados pelo capricho do projeto de ditador gringo.

O Congresso aprovou a inciativa em tempo ímpar: de imediato, por assim dizer. Claro, tudo para beneficiar os pares.

Recentemente, o mesmo governo enviou ao mesmo Congresso uma Medida Provisória (MP) que visava aumentar a tributação dos super-ricos e começar a cobrar impostos da indústria das bets. Em comparação com o projeto do BNDES para os exportadores, essa MP planejava obter “somente” algo em torno de R$ 17 bilhões, que seriam prioritariamente empregados para programas sociais, isto é, para o povo. Os nobres e honrados deputados da oposição derrubaram a MP e festejaram como se não houvesse amanhã.

(Ou eleições em 2026.)

Eterno retorno da simetria perversa?

Concessão de R$ 40 bilhões para exportadores de grande porte: país muito bem-sucedido.

Veto de R$ 17 bilhões para o povo: desterrados na própria terra.

O que fazer?

Precisamos resgatar o paradoxo que atemorizou Sérgio Buarque de Holanda. Caso contrário, o país será cada vez mais bem-sucedido e, por isso mesmo, continuaremos uma nação de exilados no interior da pátria.

Quem sabe tudo já não tenha sido dito por Aldir Blanc e Maurício Tapajós na canção-pensamento Querelas do Brasil:

O Brazil não conhece o Brasil

O Brasil nunca foi ao Brazil

(…)

O Brazil não merece o Brasil

O Brazil tá matando o Brasil

Contudo, se tornarmos o paradoxo tema de debate público, talvez um dia possamos construir uma alternativa, o desenho de uma realidade outra, na qual o Brazil se reencontre como Brasil.

Mais ou menos assim:

Do Brasil, s.o.s ao Brasil

Do Brasil, s.o.s ao Brasil

Do Brasil, s.o.s ao Brasil


___________________________________________________

Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1936, p. 3, destaques meus.

João Cezar de Castro Rocha
Professor Titular de Literatura Comparada (UERJ) e Cientista do Nosso Estado (FAPERJ). Autor de 14 livros; seu trabalho já foi traduzido para o espanhol, mandarim, italiano, francês, alemão e inglês.



quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Histórias do BRASIL: A Longa Noite dos Corpos

Brasil: 
| A longa noite dos corpos |

A brutalidade que se viu nas vielas do Complexo da Penha não é um espasmo de violência, um desvio na rota da civilização. Ela é a própria rota. É a violência fundadora, o DNA de um país erguido sobre o açoite e a pólvora.

30/10/2025 | 12h06

Canudos - 1897 (Flávio de Barros)

29 de outubro de 2025. O dia ainda não rompera sobre a Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro, mas a noite já se eternizava em centenas de corpos. Estendidos sobre o asfalto, cobertos por lonas plásticas e lençois florais manchados de sangue, eles eram a crônica de uma guerra que não ousa dizer seu nome. Foram mais de 130 vidas ceifadas, arrastadas da mata por moradores que, em meio ao luto, se tornaram coveiros improvisados. “Isso foi um massacre, não uma operação”, ecoava a voz de uma comunidade acostumada à brutalidade, mas ainda capaz de se horrorizar com a escala da carnificina. O governador do Estado, Cláudio Castro, em contraste, celebrava o “sucesso” da ação, um eco sombrio da lógica que há muito rege esta nação chamada Brasil.

A brutalidade que se viu nas vielas do Complexo da Penha não é um espasmo de violência, um desvio na rota da civilização. Ela é a própria rota. É a violência fundadora, o DNA de um país erguido sobre o açoite e a pólvora. É a mesma violência que abarrotava os porões dos navios negreiros, onde corpos negros eram empilhados como mercadoria, inaugurando a contabilidade macabra que até hoje define quem pode viver e quem deve morrer. A cena dos corpos na praça, aguardando a chegada tardia do Estado que os executou, é um retrato contemporâneo do convés do navio tumbeiro, a mesma desumanização, a mesma exposição pública do poder sobre a vida e, principalmente, sobre a morte.

Essa violência é a dos bandeirantes, figuras romantizadas em monumentos que, na verdade, foram os senhores da guerra contra os povos originários e os quilombos. A caça a Zumbi dos Palmares, a aniquilação de aldeias inteiras, o degolar de indígenas: tudo isso faz parte da mesma gramática de extermínio que hoje se aplica nas favelas. O Estado brasileiro, desde sua concepção, aprendeu que a resposta a qualquer forma de organização social deve ser o massacre. Foi assim contra as rebeliões de escravizados, que ousaram sonhar com a liberdade; foi assim em Canudos, onde um arraial de miseráveis foi afogado em sangue em nome da República; foi assim na Revolta da Vacina, quando o povo se insurgiu contra o autoritarismo sanitário; e foi assim na Revolta da Chibata, quando marinheiros negros exigiram o fim da tortura e receberam a morte como resposta.

O tempo passou, mas a lógica permaneceu. Vigário Geral, Candelária, Carandiru. Nomes que se tornaram sinônimos de chacinas, capítulos mais recentes de uma mesma história. A operação no Rio de Janeiro, a mais letal da história da cidade, não é um ponto fora da curva; é a reafirmação da curva. É a violência cotidiana que se abate sobre os povos da Amazônia, cujas terras são invadidas e cujos líderes são assassinados, e sobre os povos afrodescendentes das comunidades e morros, tratados como inimigos em seu próprio território. “Da favela para dentro, tiro, porrada, bomba, invasão, desrespeito, chacina, massacre. Em outros endereços, o tratamento é quase vip”, resumiu o ativista Raull Santiago, um dos que transmitiu o horror ao vivo.

O Brasil, mais uma vez, ensina ao mundo o seu pior. Antes que o conceito fosse nomeado pelo filósofo Achille Mbembe, o país já havia inventado a necropolítica. Essa é a política que se baseia no poder de ditar quem é descartável, uma gestão da morte que se torna a principal ferramenta de controle sobre populações inteiras. Hoje, essa política é aplaudida pelos asseclas de Cláudio Castro e pelos viúvos de Jair Bolsonaro, para quem a frase “bandido bom é bandido morto” não é apenas um slogan, mas um projeto de poder, a licença para matar que ecoa desde os capitães do mato.

A longa noite dos corpos de outubro de 2025 é apenas mais uma página no diário de uma nação que nunca acertou as contas com suas assombrações autoritárias. O horror que choca o mundo é, para nós, a confirmação de uma estrutura. É o navio negreiro que ainda ancora em nossas praias, o bandeirante que ainda marcha sobre nossas terras, o pelourinho que ainda se ergue em nossas praças. A barbárie não é a exceção; é a regra que se reafirma a cada corpo preto, pardo e pobre tombado no chão de uma favela.

Lindener Pareto
Professor e Historiador. Mestre e Doutor pela USP. Curador Acadêmico no Instituto Conhecimento Liberta (ICL). Apresentador do “Provocação Histórica", programa semanal de divulgação de História, Cultura e Arte nos canais do ICL. Especialista em desmascarar narrativas históricas convenientes e incomodar quem prefere a versão falaciosa dos fatos.


terça-feira, 14 de outubro de 2025

Histórias do Brasil: João Cândido, o Almirante Negro!

João Cândido
"A Revolta das Chibatas"

Aula 10 do curso completo: Histórias da Rebeldia Brasileira
Prof. Lindener Pareto
Plataforma de Cursos Instituto Conhecimento Liberta

O módulo de “Histórias da Rebeldia brasileira” (inspirado no genial trabalho de Istvan Jancso na Caros Amigos) apresenta a trajetória (sempre inserida na ordem estrutural e global) de homens e mulheres que desafiaram o poder e a tirania em suas respectivas épocas e ousaram lutar pela causa da liberdade! 

Hoje, especialmente, apresento a vocês uma dessas aulas: a incrível história de João Cândido, o Almirante Negro! Fosse eu um cineasta, já teria feito mil filmes dessa história extraordinária! Por ora, fiquem com minha breve e singela narrativa de uma hora sobre o Almirante Negro, um herói pra ninguém botar defeito, que fez tremer de medo os poderosos da Baía da Guanabara monumento da liberdade! 

SALVE O NAVEGANTE NEGRO QUE TEM POR MONUMENTO AS PEDRAS PISADAS DO CAIS!


sexta-feira, 13 de junho de 2025

HISTÓRIAS DO BRASIL: Bernardina Rich

Bernardina Rich

A Mulher Que Desafiou o Sistema em 1888


Em pleno século XIX, apenas meses após a abolição da escravidão, ela desafiou tudo o que diziam ser impossível para uma mulher negra. Mas sua história foi apagada. Neste vídeo, você vai conhecer a trajetória inspiradora de Bernardina Maria Elvira Rich uma das primeiras mulheres negras a conquistar um cargo público no Brasil. Uma educadora, jornalista e ativista que usou a educação, a escrita e o afeto como formas de resistência.

Referências: GOMES, Nailza da Costa Barbosa; MARQUES, Ana Maria. Bernardina Rich (1872-1942): uma mulher negra no enfrentamento do racismo em Mato Grosso. Revista Territórios & Fronteiras, Cuiabá, v. 10, n. 2, p. 224–244, jul./dez. 2017.
Acesso em: 25 maio 2025.

Canal Negritude em Letras - https://www.youtube.com/@negritudemletras