O paradoxo Brasil – II
O eterno retorno de uma simetria perversa.
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| Capa do disco "Ópera do Malandro", de Chico Buarque, 1979. |
Estatísticas como sintoma
Bem-sucedido e desterrado: eis onde paramos na coluna anterior. Como entender esse aparente paradoxo? Como preservar sua tensão constitutiva e transformar o impasse em reflexão renovada sobre as origens da formação histórica brasileira? A tarefa não é fácil. O próprio Sérgio Buarque de Holanda preferiu diluir o dilema na edição definitiva de Raízes do Brasil. Como vimos na semana passada, o historiador ficou apenas com o desterro, apagando o aparente êxito na “transplantação da cultura europeia para uma zona de clima tropical e subtropical”.O ensaio ficou assim mais endomingado, mais coerente em sua linha argumentativa, pronto para ser canonizado. Mas, infelizmente, desse modo, perdeu-se o que, de fato, importava, qual seja, assinalar a contradição que ainda hoje assombra o Brasil.
Uma estatística-sintoma esclarece meu ponto.
País bem-sucedido: no primeiro trimestre de 2024, o Brasil voltou à posição de oitava economia do mundo, superando a Itália. O Produto Interno Bruto (PIB) do país chegou a US$ 2,333 trilhões e, segundo projeções do Fundo Monetário Internacional, pelo menos até 2029 deve permanecer nessa posição. Recorde-se que, até 1930, era essencialmente um país exportador, sobretudo de café, e possuía uma base industrial precária e incipiente. O salto só não foi quântico porque não foi acompanhado de um correspondente crescimento de bem-estar social.
Nação de desterrados na própria terra: o Brasil ocupa a oitava posição no elenco das economias mais desiguais do planeta. O resultado foi divulgado no Relatório Global de Riqueza 2025. A vergonhosa permanência da desigualdade social desde a implantação da República, em 15 de novembro de 1889, continua sendo o maior obstáculo para uma melhora significativa dos indicadores que determinam o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).
A simetria perversa dessas estatísticas, como se compusesse um inesperado desenho de M. C. Escher, é o nó górdio para que o paradoxo identificado por Sérgio Buarque seja enfrentado com coragem, em lugar de negligenciado. Até lá, o título da inquietante distopia de Ignácio de Loyola Brandão valerá como um retrato acabado de nossa encruzilhada: Não verás país nenhum.
(Não pode haver nação sem povo.)
Congresso e Nação
Nosso Congresso é muito bem-sucedido – ninguém há de negar. Conseguiu a proeza que nenhum Parlamento, no mundo todo, nos últimos dois séculos, sequer ousou: sequestrar o orçamento do Executivo e realizar o maior ato de pilhagem dos cofres públicos dos cinco séculos da história do Brasil. Mais: os artífices e continuadores desse assalto não somente escaparam, por enquanto, de qualquer responsabilização criminal, como ainda se dão ao luxo de chantagear o governo democraticamente eleito.
(Agora já não é normal
O que dá de malandro regular, profissional
Malandro com aparato de malandro oficial
Malandro candidato a malandro federal
Malandro com retrato na coluna social
Malandro com contrato, com gravata e capital
Que nunca se dá mal)
Pois bem: prova dos nove. O errático presidente Donald Trump anunciou um tarifaço de 50% sobre os produtos brasileiros com a vã esperança de intimidar o Supremo Tribunal Federal, a fim de libertar o ex-presidente golpista Jair Messias Bolsonaro. Deu com os burros n’água. Em boa parte, porque, para colocar o burro na sombra, o governo brasileiro foi ágil e propôs uma medida emergencial: o BNDES disponibilizaria até R$ 40 bilhões para auxiliar os exportadores dos produtos que, porventura, tivessem sido afetados pelo capricho do projeto de ditador gringo.
O Congresso aprovou a inciativa em tempo ímpar: de imediato, por assim dizer. Claro, tudo para beneficiar os pares.
Recentemente, o mesmo governo enviou ao mesmo Congresso uma Medida Provisória (MP) que visava aumentar a tributação dos super-ricos e começar a cobrar impostos da indústria das bets. Em comparação com o projeto do BNDES para os exportadores, essa MP planejava obter “somente” algo em torno de R$ 17 bilhões, que seriam prioritariamente empregados para programas sociais, isto é, para o povo. Os nobres e honrados deputados da oposição derrubaram a MP e festejaram como se não houvesse amanhã.
(Ou eleições em 2026.)
Eterno retorno da simetria perversa?
Concessão de R$ 40 bilhões para exportadores de grande porte: país muito bem-sucedido.
Veto de R$ 17 bilhões para o povo: desterrados na própria terra.
O que fazer?
Precisamos resgatar o paradoxo que atemorizou Sérgio Buarque de Holanda. Caso contrário, o país será cada vez mais bem-sucedido e, por isso mesmo, continuaremos uma nação de exilados no interior da pátria.
Quem sabe tudo já não tenha sido dito por Aldir Blanc e Maurício Tapajós na canção-pensamento Querelas do Brasil:
O Brazil não conhece o Brasil
O Brasil nunca foi ao Brazil
(…)
O Brazil não merece o Brasil
O Brazil tá matando o Brasil
Contudo, se tornarmos o paradoxo tema de debate público, talvez um dia possamos construir uma alternativa, o desenho de uma realidade outra, na qual o Brazil se reencontre como Brasil.
Mais ou menos assim:
Do Brasil, s.o.s ao Brasil
Do Brasil, s.o.s ao Brasil
Do Brasil, s.o.s ao Brasil
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Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1936, p. 3, destaques meus.
João Cezar de Castro Rocha
Professor Titular de Literatura Comparada (UERJ) e Cientista do Nosso Estado (FAPERJ). Autor de 14 livros; seu trabalho já foi traduzido para o espanhol, mandarim, italiano, francês, alemão e inglês.