Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
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quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Romance: O Que Podemos Saber (Ian McEwan)


O Que Podemos Saber

Qual futuro prever a partir dos escombros do presente?

Autor: IAN MCEWAN
Editora: ‎Companhia das Letras
Data da publicação: 12 maio 2026
Edição: ‎1ª

Em 2119, no que restou do mundo após uma catástrofe climática, um professor de literatura parte em busca de um poema perdido de 2014. Sua obsessão não é compreendida pelos jovens: qual é a importância da literatura numa terra devastada? É um questionamento que o mestre britânico Ian McEwan nos provoca em um romance de ideias ousadas.

Como a história da literatura é escrita? Em 2014, em um jantar de intelectuais, um poema supostamente brilhante é lido por Francis Blundy em homenagem à sua esposa. No entanto, nenhuma cópia do texto é encontrada, apesar de tudo no século xxi ser registrado digitalmente, de e-mails a mensagens instantâneas privadas ― um vasto material que apenas cem anos depois poderá ser acessado.

Em 2119, em um mundo alagado e em vias de reconstrução sob um novo modelo, o professor Thomas Metcalfe segue obcecado por encontrar o poema. A jornada de Metcalfe nos leva a reconstruir a vida antes da tragédia global até a descoberta de segredos inconfessáveis. O deslocamento temporal de ficção científica encenado por McEwan, mesclado ao seu estilo realista, perturba pela coragem e o arrojo de suas ideias. Afinal, o que pode a literatura e as artes diante do apocalipse iminente?
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Romance futurista de Ian McEwan projeta a distopia como realidade no século 22

( Reflexão: Adriana Ferreira Silva )

Estamos em 2119. Após décadas de alterações no clima, o nível do mar subiu, reduzindo países como o Reino Unido a ilhotas, enquanto cidades como Nova York, Amsterdã e Londres estão completamente submersas.

Com o colapso da União Europeia, nações como a Alemanha foram anexadas à Rússia Maior. Isolado e sob o comando de milícias, os Estados Unidos se tornaram um dos lugares do planeta a se evitar. No continente africano, a Nigéria se consolidou como superpotência global, tendo a naira utilizada como principal moeda nas negociações internacionais.

Devido a guerras, catástrofes naturais e pandemias, de cerca de 8 bilhões em 2026, a população mundial está reduzida à metade. Espalhadas por ilhas e nas terras altas que restaram após a Grande Inundação, as pessoas se deslocam de barco, bicicleta e a pé. Sem as imensas extensões de terra dedicadas à agricultura e à criação de animais para o abate, a alimentação foi substituída por bolos de proteínas sintéticas. Produtos como café, chocolate e bebidas alcoólicas são raridades caríssimas para poucos.

O mundo imaginado pelo autor britânico Ian McEwan em O Que Podemos Saber (Cia. das Letras) ensejou uma série de discussões sobre a sociedade contemporânea desde seu lançamento no primeiro semestre. Um dos livros mais elogiados deste ano, o romance futurista tem como protagonista o professor e crítico literário Tom Metcalfe, cujo foco de estudos é a produção literária dos anos 1990/2000, em especial a criação do poeta Francis Blundy, cuja obra-prima, um poema inspirado em sua mulher, Vivien, está desaparecida há décadas.

Em sua investigação, Metcalfe explora mensagens instantâneas de texto, e-mails, reminiscências de perfis de redes sociais há muito desativadas, que revelam um modo de vida marcado pela abundância e o desperdício. Um jeito de existir incompreensível para seus jovens estudantes de literatura, a quem o mestre tenta sensibilizar para as qualidades e fraquezas de seus antepassados.

“Nesse estágio, os alunos ainda não estão convencidos. Não conseguem acreditar que as pessoas da era pré-Inundação, que viveram há apenas um século, eram parecidas com eles. Aquela gente antiga compunha-se de imbecis ignorantes, miseráveis e destrutivos. Como mencionou um dos alunos mais inteligentes, sem dúvida, eles poderiam ter feito algo mais do que expandir suas economias e guerrear.”

As mesmas proposições que nos levam a tentar compreender nosso passado mais recente pautam as reflexões de McEwan sobre como imaginar um futuro a partir dos escombros do presente.

Sob essa perspectiva, tenho pensado sobre como as próximas gerações irão se referir a nós, desde a divulgação dos resultados do primeiro turno das eleições presidenciais no último domingo. Na impossibilidade de evitar as notícias ou ceder à paralisia e à depressão, a arte é alento, mas também alerta.

Estirpe das servas.

Para quem, como eu, nasceu na década de 1970, os anos 2000 pareciam ser a materialização da utopia. A internet encurtou distâncias, expandiu fronteiras, promoveu acessos. As democracias vingavam. No Brasil, em especial, a vida prometia ser cada vez melhor. Mas, em menos de duas décadas, a elite capitalista deixou bem claro a quem serve todas as supostas facilidades da nova era: única e exclusivamente a ela própria.

A distopia se impôs como realidade. Não à toa, a obra que mais inspira comparações com a ascensão da extrema direita ao redor do mundo, O Conto da Aia (Ed. Rocco), de Margaret Atwood, baseia-se em extensa pesquisa da best-seller canadense sobre regimes totalitários (o livro inspirou uma série para a televisão lançada em 2017).

Para quem não leu ou assistiu à série, no romance, uma junta autoritária chega ao poder dos Estados Unidos, que passam a se chamar Gilead. Dividida em castas, a sociedade funciona sob estritas regras religiosas e patriarcais, na qual mulheres – mesmo as de classes dominantes – têm seus direitos cassados e são submetidas a todo tipo de violência, do estupro ao trabalho forçado e à mutilação como forma de castigo.

As aias do título integram a estirpe das servas, destinadas a procriar. Submetidas a estupros diários, são separadas das crianças assim que dão à luz. Exatamente o mesmo que ocorria às africanas escravizadas. Ou o que ocorre hoje às afegãs. E quem sabe pode vir a ocorrer novamente às brasileiras pobres.

Caso Ian McEwan tomasse o Brasil de 2026 como ponto de partida para pensar o século 22, poderia incluir a total extinção dos povos indígenas, cujas terras serão transformadas em pastos e plantações, bem como a floresta e outras áreas de proteção ambiental. Considerado um rio morto, no Amazonas só restarão as estruturas utilizadas na exploração de petróleo, lixo abandonado por empresas estadunidenses.

Ocupado por cassinos e resorts, o litoral brasileiro será dividido entre facções milicianas, conhecidas por promover festas de arromba, onde drogas sintéticas serão consumidas por “novinhas” e pela fina-flor da elite. Na Baía da Guanabara, uma base do Exército estadunidense terá canhões apontados para o que restou dos morros. Pobres e pretos que sobreviverem vão lotar gigantescos complexos penitenciários, geridos por conglomerados religiosos trilionários.

Parafraseando McEwan, tudo isso, porque aquela gente antiga, composta de uma maioria de imbecis ignorantes, miseráveis e destrutivos preferiu ignorar o fato de que estava escolhendo um homem acusado por diversas falcatruas para governar o país. Sem dúvida, eles poderiam ter feito algo melhor. Ainda dá tempo.

@REVISTA_LIBERTA

Matéria: 10 out 2026
Adriana Ferreira Silva é jornalista, escritora e curadora, com enfoque em temáticas interseccionais de gênero e raciais. Coautora do livro "Democracia Para Quem? – Ensaios de Resistência" (ed. Boitempo), colabora com veículos como o canal ICL Notícias, jornal Nexo e as revistas Liberta, Numéro Brasil e Quatro Cinco Um. Como moderadora, atuou em eventos nacionais e internacionais como a Commission on the Status of Women (ONU/NYC). É curadora de eventos culturais e de jornalismo como a série "Conversas sobre branquitude", o edital Rumos Itaú Cultural 2023-2024 e a Jornada Galápagos de Jornalismo. Participou de coberturas como a dos atentados de 11 de Setembro em Nova York (2001), foi correspondente em Paris, trabalhou nas redações de Marie Claire, Vogue, Veja SP, Folha de S. Paulo e como colunista da rádio CBN.

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Fim da Espécie ??


Uma Leitura Filosofante da Crise Atual

Estamos sob a energia destrutiva do caos, mas nele está germinando uma nova ordem.

Estão se fazendo as mais variadas análises das eleições brasileiras com a ascensão surpreendente da extrema direita, geralmente com categorias de uma sociologia integral. Elas são necessárias. Entretanto, a gravidade da crise brasileira, que é também planetária, é de tal envergadura que nos faltam categorias adequadas para entendê-la. Estimo que precisamos de uma ótica filosofante, pois se trata de ir às raízes para encontrar alguma luz esperançadora.

Parto da percepção generalizada de que o mundo assim como está não pode continuar. Há demasiadas e graves ameaças ao futuro da vida. A continuar, advertia Zygmunt Bauman, “vamos engrossar o cortejo dos que estão rumando na direção da vala comum”. Já antes, em 1930, escreveu Freud O Mal Estar da Cultura, concluindo, na última página, com esta frase sombria: ”Agora os homens avançaram tanto no domínio das forças da natureza que, com sua ajuda, será fácil exterminar uns aos outro até o último indivíduo” (Edição Vozes, 2026, p.129). Atualmente, com o arsenal destrutivo existente, acrescido pela IA autônoma, pode se tornar uma realidade. Há, pois, um mal estar coletivo no mundo, que encontra na ascensão trepidante do fascismo e da extrema direita no Brasil, especialmente nos EUA e alhures, sua inegável comprovação.

De minha parte, diria, como hipótese, que esta atmosfera inimiga da vida e da convivência fraterna entre os humanos e com a natureza deriva de uma radical decepção, que degenerou numa profunda depressão.

A decepção residiria no fracasso de todas as promessas feitas pelas grandes narrativas nos últimos séculos: o iluminismo, o capitalismo, o socialismo, as democracias, as tecnociências da comunicação (internet, Twitter, Facebook etc.) e a IA. As promessas não foram cumpridas.

A decepção generalizada redundou numa grande depressão coletiva: uma onda terrível de ódio, de raiva, de fake news e de violência está cobrindo o planeta e, em particular, o Brasil. A depressão nos rouba a alegria de viver.

Crises sempre houve e haverá em todas as culturas. A nossa é singular, por ser planetária. Haverá alguma luz na imensa obra de 12 tomos do historiador inglês Arnold Toynbee, A Study of History? Nela, ele mostra como as culturas surgem, se desenvolvem, chegam a seu ápice e morrem, substituídas por outras.

Maneja duas categorias básicas: desafio (challange) e resposta (response).Quando o desafio é de pouca monta, a civilização responde a ela e floresce. Quando o desafio é maior do que a sua capacidade de resposta, a civilização entra em crise, pode prolongar sua agonia, mas, no fim, desaparece. Essa é uma exposição simplificada de uma obra complexa e extremamente erudita. Talvez seu limite consista em não ter considerado a luta de classes, que, queiramos ou não, sempre ocorre em sociedades complexas. Agora, estamos sob a regência da incapacidade de resposta, pois o desafio ultrapassa esta nossa capacidade . Irrompe, então, a depressão.

Novo rumo, nova esperança.

Há alguma saída para esta enroscada? Ou chegou a nossa vez de encerrarmos o nosso ciclo dentro da cosmogênese e vamos desparecer? É notório que todos os seres que, depois de terem vivido por milhões de anos sobre este planeta, chegaram ao seu clímax e desapareceram. Também nós teríamos o mesmo destino? Deixo a questão em aberto, pois não nos parece improvável nem impossível, uma vez que já nos demos os meios de nos autodestruir.

Meu sentimento do mundo me diz que, quando desfalecem as utopias, mesmo as mínimas, de melhoria dentro do sistema imperante, só nos resta voltarmo-nos sobre nós mesmos. Somos uma fonte inesgotável de virtualidades e de uma capacidade ilimitada de relações e de criatividade. Apesar de sermos contraditórios, feitos de luz e de sombras (C. G. Jung), sapientes e dementes (E. Morin), (eros: vida) e (thánatos: morte, Freud) podemos potenciar de tal forma nossa positividade, capaz de definir um novo rumo e uma nova esperança.

Nesse sentido, é inspiradora a teoria do caos, formulada pelo russo-belga Ilya Prigogine (1917-2003), prêmio Nobel de Química em 1977 (Order Out of Chaos, 1948) e de Lorenz/Gleick. O universo se originou de um fantástico caos inicial (Big Bang). A evolução se fez e se faz para colocar ordem neste caos originário,criando ordens cada vez mais altas e complexas até irromperem no ser humano com inteligência, sentimento, amor e cuidado.

A natureza do caos é de ser destrutivo e generativo. Ele destrói uma ordem vigente que esgotou suas virtualidades, mas guarda dentro de si seminalmente uma nova ordem. Concluído o processo de destruição, irrompe a nova ordem. Ela inaugura uma outra história até que ela mesma se extenuar e mostrar-se caótica/destrutiva. Mas guarda dentro de si o novo a irromper.

Na atual fase histórica global, estamos sob a energia destrutiva do caos, mas dentro dele está germinando uma nova ordem, um novo mundo, que cremos será amigo da vida, da irmandade universal também com os seres na natureza, justo e terno, que permitirá melhor conviver e amar. Superaremos o caos destrutivo bolsonarista-fascista, expresso pela eleição no primeiro turno, pelo caos generativo de Luiz Inácio Lula da Silva , que, esperamos, triunfará para levar avante o projeto de inclusão dos pobres.

Então, não desesperemos. Esta leitura, que se propõe filosofante, pode nos infundir um renovado esperançar.

@REVISTA LIBERTA

Matéria: 10 de outubro de 2026
Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.



sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Democracia Corintiana: Diretas Já! (ditadura militar)


Amarelo, sim! 
' símbolo da luta democrática na redemocratização do Brasil '

A multidão que pedia a volta da democracia no famoso comício do Vale do Anhangabaú em 1984 vestiu amarelo, assim como os atletas corinthianos que subiram ao palco.
20/09/2023 - Agência Corinthians

“Um, dois, três, quatro, cinco mil, queremos eleger o presidente do Brasil!”

Dezenas de milhões de brasileiros gritavam essas e outras palavras durante as passeatas, comícios, shows e outros eventos das Diretas Já. Gestadas em 1983, as manifestações cresceram e em 1984 tomaram o país como uma onda amarela. A cor, representativa do período e protagonista na terceira camisa corinthiana desta temporada, não foi escolhida por acaso.

O amarelo fora definido como cor oficial pelo Comitê 25 de Janeiro, que reunia diversos ativistas a favor do movimento que pedia a volta das eleições diretas para presidente do Brasil, depois de 20 anos de regime militar. Dentre os diversos motivos, o amarelo havia sido usado em outras manifestações democráticas mundo afora e tinha conexão direta com a bandeira brasileira. A proposta foi abraçada pelo comitê e levada à imprensa, que em sua maioria apoiava o movimento e passou a divulgá-la como a cor oficial das Diretas Já.

Na mesma época, a Democracia Corinthiana dava show nos estádios e nas ideias. O time vitorioso tinha uma gestão revolucionária, na qual diversas demandas do departamento de futebol eram definidas por meio do voto de atletas, técnico, roupeiro, diretores etc. Aquele modelo havia sido sugerido por Adilson Monteiro Alves, diretor de futebol da época (e atual diretor do departamento de Responsabilidade Social do Corinthians). Foi recebida com entusiasmo pela maioria da comissão técnica, que também enxergou uma forma de provocar a reflexão política do Brasil.

Não por acaso, os jogadores carregaram no uniforme mensagens estampadas em apoio às eleições, além da emblemática faixa “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia”. Com esse espírito, muitos passaram a frequentar os palcos dos Comícios pelas Diretas Já, notadamente Sócrates, Wladimir e Casagrande.

Estiveram também na manifestação de 16 de abril de 1984, realizada no Vale do Anhangabaú, no centro paulistano. O narrador Osmar Santos foi o mestre de cerimônias do evento que reuniu pelo menos 400 mil pessoas – algumas contas falavam em mais de um milhão, mas a verdade é que o espaço não comportava tanta gente. 

A data marcou, de todo modo, o maior comício pelas Diretas do Brasil, contando com nomes como Fafá de Belém, Geraldo Vandré, Eva Wilma, Rita Lee e Fernanda Montenegro, e várias lideranças políticas como Lula, Fernando Henrique Cardoso, Mario Covas e Leonel Brizola.

Do alto do palco, vestindo amarelo como toda a multidão, Sócrates deu a famosa declaração de que não deixaria o país caso o Congresso aprovasse a emenda parlamentar que garantiria a volta das eleições diretas.

As Diretas Já reuniram multidões Brasil afora e o apoio geral de artistas, intelectuais, jornalistas, trabalhadores e diversas parcelas de sociedade. Um movimento que está marcado na história do Corinthians e de todo o Brasil.

Fontes: Fernando Wanner; Ensinar História; Esportelândia, O Estado de S.Paulo (17/4/1984); Folha de S.Paulo (17/4/1984; 16/4/2004, 25/2/2023).


quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Heroínas do Brasil: Antonieta de Barros


Antonieta de Barros
' mil faces de uma liderança histórica pioneira '

Em memória dos 125 anos de nascimento de Antonieta de Barros, saiba mais detalhes sobre a trajetória, as lições e o legado da professora e jornalista, que foi a primeira parlamentar negra eleita em Santa Catarina

Mais do que uma pessoa à frente de seu tempo, uma liderança que apontava horizontes para a estruturar e construir o futuro do Brasil. Esta descrição sobre Antonieta de Barros (1901-1952) ajuda a compreender a magnitude de sua trajetória, mas passa longe de fazê-lo de modo pleno.

Dizer que Antonieta de Barros foi professora, oradora, parlamentar, militante da área educacional e ensaísta não dá a dimensão do quão grande foram a sua vida e obra. Falar que ela entrou para a história brasileira por ser considerada a primeira mulher negra de Santa Catarina eleita deputada em 1934, nas eleições realizadas imediatamente após as mulheres terem conquistado o direito ao voto no Brasil, em 1932, induz ao risco de limitá-la a um determinado período histórico.

Constatar que ela foi isso tudo e muito mais ainda está aquém do seu tamanho real. Podemos dizer, sem dúvida, que a liderança foi - e continua a ser - uma daquelas figuras maiores do que a vida. Isso sem contar que conhecer a sua trajetória ajuda apresentar contrapontos importantes contra tentativas de apagamento e de revisionismo histórico sobre a presença negra em Santa Catarina.

“Sua trajetória nos ensina a olhar a sociedade brasileira sobre vários aspectos que fogem ao senso comum: mostra que, apesar da autoimagem e da imagem que a região Sul construiu, não há apenas brancos e eurodescendentes na região”, explica Surya Aaronovich Pombo de Barros, professora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), pós-doutoranda no Instituto Caro y Cuervo (Bogotá, Colômbia) e bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

A docente destaca também que a sua trajetória ensina também que, “a despeito de uma ideia recorrente de que ‘pessoas negras’ estiveram apartados do universo letrado e escolar, as pesquisas das duas últimas décadas demonstram que uma parte da resistência negra foi feita pela via da educação formal.”

Superação de barreiras históricas e sociais

“Não havia processos que levassem as pessoas a ter mobilidade social. Havia privilégios: fazer parte de determinado grupo, classe social ou etnia. Então, quando ela chega à Escola Normal, ela já está rompendo com algumas barreiras. Não [significa] que não houvesse pessoas negras antes: por meio da biografia dela e dos estudos sobre ela e a irmã conhecer as outras pessoas negras.”

Esta fala de Jeruse Romão, professora escritora, militante do movimento negro e biógrafa de Antonieta de Barros e da irmã, Leonor de Barros (1904-1974), ajuda a perceber a dimensão das diversas barreiras presentes nas trajetórias de pessoas negras à época. Outro ponto diz respeito ao apagamento histórico que, por meio de dinâmicas diversas, permearam a época em que a intelectual atuou e encontram ecos nos dias atuais.

A análise que Jeruse Romão faz sobre a liderança educacional e política, que reverberou nas obras de sua autoria ‘Antonieta de Barros: Professora, escritora, jornalista, primeira deputada catarinense e negra no Brasil’ (2021) e ‘Antonieta de Barros: Discursos, entrevistas e outros textos’ (2023) mostra que o caminho trilhado por ela teve participações definitivas dos passos que sua mãe, Catarina de Barros, e sua irmã, Leonor de Barros, deram.

Aqui entra, mais uma vez, a resistência à tendência ao apagamento histórico: enquanto Catarina, a mãe, trabalhou como lavadeira para possibilitar o desenvolvimento educacional das filhas - nas primeiras décadas após a abolição da escravatura, em 1888, vale dizer -, o trabalho de Leonor, que também cursou a Escola Normal e se tornou professora, foi fundamental para Antonieta de Barros prosseguir com o propósito de democratizar e universalizar o acesso à educação.

Nesse contexto, para manter-se em Florianópolis, as duas irmãs abrem, em 1921, a escola Curso Particular Antonieta de Barros, que funcionou até a década de 1960.

Pela democratização no acesso a espaços educacionais e decisórios

A carreira parlamentar de Antonieta de Barros teve como marca incontestável a defesa da valorização e do acesso à educação. Basta dizer que a instituição de 15 de outubro como o Dia do Professor em Santa Catarina, em 1948 - e que se tornaria uma data nacional em 1963 -, foi uma pequena parte do trabalho que ela realizou dentro dessa pauta.

Temas que hoje são recorrentes no debate sobre Educação e sociedade já estavam presentes na atuação legislativa dela há quase um século. “É admirável e ao mesmo tempo perturbador notar que na primeira metade do século XX ela já defendia temas ainda urgentes como concurso público para magistério e o cargo de direção de escolas. Idem a importância da igualdade de salário entre professores e professoras; a relevância da educação de adultos; a necessidade de organização da categoria docente; a importância da aproximação entre crianças pobres e livros”, destaca Surya Aaronovich Pombo de Barros.

Nesse sentido, a atuação de Antonieta de Barros em defesa tem caráter interseccional com pautas como gênero, raça, infância, entre outros. Outros pontos passam pela valorização da docência e dos saberes prévios de estudantes, dentro da chave da democratização do acesso ao ensino.

“Antonieta foi da Comissão da Educação e da comissão que tratou do plano de carreira do funcionário público. O que vi [obra de] escrevendo, estudando e biografando foi uma mulher que está no grupo de protagonistas brasileiros e brasileiras, que entendiam a educação como um instrumento de transformação social. Algumas vezes ela me lembra muito Paulo Freire. Quer dizer: ele me lembra, pois ela veio antes”, reforça Jeruse Romão.

Ao considerar-se que a História pode rimar, os debates atuais sobre temas como permanência no Ensino Superior encontram correspondência com o acesso a estágios em nível básico para populações de grupos vulnerabilizados - de prevalência negra e periférica. Assim, Antonieta de Barros foi autora de requerimento para estabelecer o funcionamento de aulas noturnas para jovens e filhas e filhos de pessoas trabalhadoras.

Outros tópicos passaram também pela concessão de bolsas de estudos e pela oferta de merenda escolar:

“Percebe-se que ela [Antonieta de Barros] tinha uma ótica muito fina sobre a estrutura e o funcionamento da educação pública. Não era apenas sobre a sala de aula, mas também políticas educacionais, estrutura e funcionamento da escola.” (Jeruse Romão)

O poder da palavra e a vida pública como sacerdócio

Outra faceta da polivalente trajetória de Antonieta de Barros passou pelo jornalismo, uma vez que ela começou a escrever aos 23 anos textos publicados em veículos de Santa Catarina e assinando-os sob o pseudônimo Maria da Ilha, por meio do qual publicou o livro ‘Farrapos da Ilha’, em 1937.

“O nome dela não foi de resistência pela trajetória, mas sim pela ala conservadora masculina e feminina de Florianópolis que não concordava de jeito nenhum com a participação das mulheres na política, com uma ala machista que não concordava e com outra racista também, que não concordava com que as pessoas negras tivessem visibilidade. Ela enfrentou todas essas camadas pela educação e não recuou”, narra a biógrafa da intelectual.

Ao mesmo tempo em que ela usava sua coluna como canal pontual para a abordagem veemente da pauta racial, a sua atuação jornalística teve abordagem mais ampla. “Tendo a chamá-la de uma negra na imprensa”, ressalta Jeruse Romão, ao destacar o estilo de escrita da intelectual que flerta também com a verve literária. “Antonieta de Barros criou, junto com outros negros que tiveram a ideia, e compõe o Centro Catarinense de Letras, movimento de quem foi rejeitado pela Academia Catarinense de Letras, que não aceitava negros e mulheres.”

Como consequência, o afinco ao qual se dedicava a todas as áreas profissionais de sua vida a fez assumir o trabalho como se fosse sacerdócio. Isso refletia-se no fato de nem ela, tampouco Leonor de Barros, participarem de eventos comemorativos. “Elas não gostavam de exposição social e não iam a eventos públicos - apenas iam a eventos cívicos e eventos profissionais. Elas eram dadas a retirarem-se da cidade em época de férias para ir a internatos, internatos de freira e lugares isolados”, comenta a biógrafa.

Preservação da memória

Apesar da história de Antonieta de Barros ser digna da primeira prateleira de ícones da história do Brasil, o seu nome foi inserido no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria somente em 2023. Esse fato demonstra, por si só, que a sua trajetória não recebeu o devido reconhecimento por quase um século.

Pode-se considerar, então, que o reconhecimento à vida e obra da intelectual faz parte de um movimento de reparação histórica. Para se ter uma ideia, em 2024 o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), do Ministério da Educação (MEC), lançou a plataforma Antonieta de Barros, espaço que tem como objetivo reunir dados sobre investimentos, execução e monitoramento de programas e ações desenvolvidos pelo departamento.

Todavia, o legado e a memória de Antonieta de Barros estão sob constante disputa. Sua trajetória mostra, independentemente de forças políticas que tentem instrumentalizar ou cooptar a sua imagem, que o seu legado estará ligado às lutas pela universalização do acesso à educação, em especial para populações em situação de vulnerabilidade e com histórico de exclusão sociorracial. “Tenho certeza absoluta de que ela teria se colocado a favor do direito das pessoas de estarem na escola”, relata Jeruse Romão.

A memória da intelectual tem endereço reservado para a sua preservação. A saber, o prédio da antiga Escola Antonieta de Barros, situada em Florianópolis, será a sede de um museu dedicado à sua trajetória, assim como do Centro de Cultura, Memória e Arte Negra Catarinense local. Todavia, essa articulação veio acompanhada de muita luta. “Queremos consolidar o Museu Antonieta de Barros e entregá-lo para a cidade, pois ela é uma das mais importantes filhas de Florianópolis”, detalha a biógrafa da intelectual.

Combate ao revisionismo e respeito ao legado

Em tempos nos quais segmentos reacionários tentam normalizar pautas que visam eliminar ações afirmativas e retirar direitos voltados à promoção da equidade racial, como as cotas étnico-raciais, assim como o descalabro em forma do debate sobre mulheres poderem ou não votar, as histórias de ícones como Antonieta de Barros revelam-se fundamentais.

Episódios com esse teor são lembretes de que conquistas estarão sob permanente disputa e, diante disso, precisam ser defendidas, preservadas e protegidas também quando se trata de leis. Isso vale também para tópicos como a preservação mecanismos com foco na promoção da paridade numérica e de forças para candidaturas de parlamentares mulheres e negros.

“Estes são temas que pareciam já resolvidos, mas cujo retrocesso parece estar no horizonte próximo”, reforça Surya Aaronovich Pombo de Barros. Desse modo, é fundamental haver organização política para barrar proposições com esse teor. E os faróis históricos já estão no nosso horizonte. “Conhecer a trajetória de pessoas como Antonieta de Barros pode ser parte do antídoto para esse tipo de projeto.”

Assim, a sua vida e obra é fundamental para estudantes e pessoas pesquisadoras, assim como para qualquer pessoa que se interesse em aprofundar em discussões e reflexões sobre história, educação, gênero e raça no Brasil. “Seu legado está em sua própria trajetória pessoal e nas pautas que defendeu como intelectual pública, política e educadora, que ainda são urgentes e objetos de disputa sobre que sociedade desejamos ser”, pondera a professora da UFPB.

Por fim, outra lição que Antonieta de Barros deixa é sobre a sua trajetória não ser um fato isolado, por mais extraordinária e inspiradora que tenha sido. Sua mãe, Catarina, e sua irmã, Leonor, foram as suas bases e caminharam ao seu lado. Figuras históricas, como Almerinda Silva Gama (1899-1992), Coema Hemetério dos Santos (1888-?), Izolina Machado (1889-1931), Adelia de França (1904-1981), Laudelina de Campos Melo (1904-1991), Conceição Soares Lopes (1905-1990), Virgínia Bicudo (1910-2003), entre muitas outras, mostraram que a luta por direitos raciais e de gênero apenas obteve êxito graças a sonhos e esforços coletivos.

“Não é apenas sobre Antonieta de Barros, [o poeta] Cruz e Sousa ou Gustavo Lacerda, um dos fundadores da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), que é um homem negro de Santa Catarina. Ao puxar-se a história de Antonieta, ela não vem sozinha: vêm ela e uma legião de pretos e pretas que construíram e estruturaram a história de Santa Catarina”, completa Jeruse Romão. E a construção e a estruturação nesse contexto podem ser estendidas também para a história do Brasil.

Escrito por:
Amauri Eugênio Jr.
31 de Julho de 2026

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Livros para conhecer o Brasil: Banzeiro Òkòtó

Banzeiro Òkòtó: 
Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo

Editora:‎ Companhia das Letras.
Data da publicação:‎ 29 outubro 2021.
Autora: Eliane Brum.

A autora mescla relato pessoal e investigação jornalística para escrever um livro urgente de denúncia e em defesa da Amazônia, lugar que adotou como casa e de cuja luta pela sobrevivência participa ativamente.

Escritora, jornalista e documentarista, Eliane Brum faz um mergulho profundo nas múltiplas realidades da maior floresta tropical do planeta. Com quase 35 anos de experiência como repórter, há mais de vinte ela percorre diferentes Amazônias. Em 2017, adotou a floresta como casa ao se mudar de São Paulo para Altamira, epicentro de destruição e uma das mais violentas cidades do Brasil desde que a hidrelétrica de Belo Monte foi implantada.

A partir de rigorosa pesquisa, Brum denuncia a escalada de devastação que leva a floresta aceleradamente ao ponto de não retorno. E vai mais além ao refletir sobre o impacto das ações da minoria dominante que levaram o mundo ao colapso climático e à sexta extinção em massa de espécies. Neste percurso às vezes fascinante, às vezes aterrador, a autora cruza com vários seres da floresta e mostra como raça, classe e gênero estão implicados no destino da Amazônia e da Terra.

Um livro imprescindível para quem tem a coragem de buscar respostas para o tempo de urgência que vivemos, escrito por quem não teme se arriscar para buscá-las.


Eliane Brum
 nasceu em Ijuí, Rio Grande do Sul, em 1966. Escritora, jornalista e documentarista, publicou oito livros no Brasil e no exterior. Reconhecida em 2020 como a repórter mais premiada da história do país, em 2021 sua obra jornalística foi contemplada com o prêmio Maria Moors Cabot, o mais importante das Américas e o mais antigo do mundo. Colunista do espanhol El País, é colaboradora de diversos jornais e revistas da Europa e dos Estados Unidos.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Cultura do Amor: Pensem nas feridas como Rosas Cálidas


Pensem nas feridas como rosas cálidas ...

Tragédias humanitárias não podem ser esquecidas.

Tragédias humanitárias precisam ser registradas para que não caiam no esquecimento.

Foi assim com a devastação de Hiroshima por uma bomba de urânio (apelidada de Little Boy) jogada de um avião americano em 6 de agosto de 1945. Morreram, de imediato, pelo menos 140 mil pessoas. Dois dias depois, outra bomba – essa de plutônio, batizada de Fat Man – caiu em Nagasaki, causando a morte de outros 40 mil japoneses. Milhares morreram nos anos seguintes devido aos efeitos da radiação.

Entre 25 de maio e 12 de junho de 1946 (portanto, quase um ano após a tragédia), o jornalista John Hersey se deslocou até Hiroshima para acompanhar a trajetória de seis sobreviventes. O relato saiu, inicialmente, na revista The New Yorker. Para se ter ideia da repercussão, os 300 mil exemplares da edição rapidamente se esgotaram nas bancas e cópias clandestinas passaram a ser vendidas por um valor 10 vezes maior do que o preço de capa. Emissoras de rádio como a ABC, nos Estados Unidos, e a britânica BBC produziram versões dramatizadas do texto de Harsey, que, a seguir, foi publicado no livro Hiroshima, precursor do New Journalism – gênero que confere impacto e profundidade à reportagem através de uma abordagem literária.

No Brasil, o horror e a estupidez do ataque à cidade japonesa foram registrados por Vinícius de Moraes no poema Rosa de Hiroshima, escrito em 1946 e publicado, pela primeira vez, em 1957, em sua Antologia Poética. Em 1973, os versos foram musicados por Gerson Conrad e ganharam a voz de Ney Matogrosso com a banda Secos & Molhados, ampliando o alcance da indignação do poeta.

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas

Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas

Igualmente, os horrores da Guerra Civil Espanhola – que matou meio milhão de pessoas, entre 1936 e 1939 – foram para sempre inscritos na memória coletiva por Pablo Picasso em Guernica (imagem no alto da página), uma das obras mais conhecidas do pintor espanhol, referência à cidade basca bombardeada por aviões nazistas e fascistas em 26 de abril de 1937.

No caso de Gaza, porém, ainda não temos nem de perto a dimensão da tragédia humana que se abateu sobre o enclave palestino asfixiado pelas forças militares de Israel – desde outubro de 2023, foram exterminadas no mínimo 85 mil pessoas (incluindo 23 mil crianças e 13 mil mulheres) –, como mostram os artigos de Heloísa Villela e Ualid Rabah publicados nesta edição da Liberta. Não apenas os textos, mas também a magnífica arte de capa produzida por Aroeira, inspirada em Portinari, soam como um grito de alerta: não vamos esquecer de Gaza!

Porque tragédias humanitárias precisam ser registradas para que não se eternizem à mercê do ódio ou da omissão.

Matéria:
Paulo César Teixeira
25 jul 2026


quarta-feira, 15 de julho de 2026

Escravidão: "Empregados" domésticos

Viola Davis no filme: Histórias Cruzadas.
Os ricos de condomínio e seus ‘escravos’

Mais do que um passado vergonhoso, a escravidão é parte inegável do presente.

O Brasil é o país com mais empregados domésticos do mundo. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), são 5,9 milhões de pessoas, uma massa de trabalhadores formada por 91% de mulheres.

Isso é resultado da desigualdade do país, é fato. O de cima sobe/o de baixo desce, cantava o amigo Chico Science. E, claro, somos os donos desse recorde triste por causa da nossa herança escravocrata. Em alguns países, a escravidão faz parte de um passado vergonhoso. No Brasil, é parte inegável do nosso presente.

Na semana passada, tivemos mais uma prova dessa realidade amarga e inaceitável, quando foi divulgado que uma mulher de 62 anos havia sido resgatada de um imóvel num condomínio de luxo, na região de Fortaleza, o Terras Alphaville – Residencial 2, no bairro Cidade Alpha. A vítima servia à mesma família desde os sete anos de idade sem salário mensal, o que configura trabalho em condições análogas à escravidão.

Bem, se uma mulher foi escravizada por mais de 50 anos no meio de um condomínio de luxo, isso significa que toda a família sabia do que se passava, assim como agregados e amigos. Será que os outros vizinhos ricos ignoravam o caso?

As histórias de escravidão doméstica moderna lembram as dos abusos sexuais perpetrados por poderosos por anos impunemente, como Saul e Samuel Klein, das Casas Bahia. É necessária uma rede gigante de pessoas que se calam para que esse tipo de crime ocorra por tanto tempo. Isso mostra o quanto a escravidão é naturalizada e banalizada no Brasil.

Essas mulheres, muitas vezes, são tratadas como parte da estrutura familiar, mas não como “alguém da família”, como diz o clichê. Na verdade, são como propriedades e bens mesmo, igualzinho nos tempos da escravidão que vigorou no país até o século 19. Elas são da família tão quanto uma cristaleira antiga herdada de uma avó.

A mulher de Fortaleza não é um episódio isolado. De vez em quando, um crime parecido vem à tona.

O caso Jorge Luiz de Borba
Em 2023, Sônia Maria de Jesus foi resgatada da casa do desembargador do Tribunal de Justiça de Santa Catarina Jorge Luiz de Borba. No ano passado, sua esposa, Ana Cristina Gayotto de Borba, teve seu nome incluído na lista suja do trabalho escravo do governo federal. Isso aconteceu depois que uma investigação concluiu que Ana Cristina manteve Sônia Maria em regime de trabalho escravo doméstico por quase 40 anos na residência da família Borba, em Florianópolis.

O caso de Sônia é emblemático. Ela voltou para a casa da família Borba por vontade própria, depois de três meses do seu resgate, o que é perfeitamente entendível, já que essa era a única vida que ela conhecia. A família Borba afirma que ela sempre foi tratada como “filha”. E o desembargador nunca perdeu o seu emprego. Revoltante.

O caso Isis Valverde
Alguns exemplos de exploração doméstica moderna não são tão iguais ao do escravagista clássico, mas não deixam de ser escancaradamente escravocratas.

Recentemente, um caso envolvendo a atriz Isis Valverde causou revolta nacional. A atriz é acusada de explorar uma empregada doméstica, que a processou. A funcionária afirma que cumpria jornadas de aproximadamente 12 horas por dia, geralmente das 8h30 às 20h ou 20h30, e que tinha apenas cerca de 20 minutos para o almoço (!). Ela entrou na Justiça pedindo o pagamento de horas extras, diferenças de Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), multa rescisória e indenização por danos morais. O valor pedido por ela era de R$ 385.233,56. Em junho, as duas partes chegaram a um acordo de R$ 30 mil.

O valor baixo causou espanto, assim como a forma encontrada pela atriz para pagar o acordo. Isis é uma pessoa muito bem sucedida, casada com um empresário rico, mas decidiu pagar o acordo em seis parcelas mensais de R$ 5 mil. Um escárnio. A atriz nega as acusações e o seu advogado já ameaçou quem a acusasse com processo, usando uma tática de silenciamento.

Se, realmente, Isis explorou a funcionária desse jeito, ela está muito longe de ser a única. Nos prédios e condomínios de luxo, explorar trabalhadoras domésticas e tratá-las de forma escravocrata é comum.

As babás vestidas de branco, que lotam praças de bairros de bacanas e espaços de convivência dos condomínios de luxo são mais uma prova desse presente escravocrata. E, não, não é normal. Só acontece em países onde a herança da escravidão faz parte do presente.

Enquanto isso, os escravocratas modernos, sejam eles criminosos que vão parar na lista suja do trabalho escravo do país ou apenas ricos descolados que não percebem (como pode?) que é indecente submeter funcionárias a salários baixos e humilhações, não sentem vergonha nenhuma. Está na hora de passarem a ter.

Matéria:
@Revista Liberta
11 jul - 2026

Nina Lemos: é jornalista, escritora e mora em Berlin. É uma das criadoras do trio 02 Neurônio, com quem lançou cinco livros. Foi repórter especial da revista Tpm e colunista da Folha de S. Paulo, do UOL e da DW Brasil.


quinta-feira, 28 de maio de 2026

LiTeRaTuRa: Feira e Livros Interessantes


Feira do Livro 
' Bom momento das mulheres na literatura '

Programação de um dos encontros literários mais concorridos do país reúne cerca de 30 escritoras.

Literaturas Nacionais

Natalia Timerman investiga a perda de memória pelo Alzheimer. Adriana Negreiros narra a trajetória de uma das atrizes mais interessantes do país. Bianca Santana fabula o passado de sua avó. Carla Madeira é mestre em tragédias familiares. Giovana Madalosso imagina o que é viver sob a tensão de uma doença fatal. Estelle-Sarah Bulle desvenda as violências da colonização. Maria Brant situa seu drama durante a passagem do cometa Halley. Vera Iaconelli revela a vida dupla de seu pai. Pilar Quintana transforma uma temporada no paraíso num inferno particular.

Essa lista poderia seguir incluindo ainda Amelinha Telles, Alessandra Orofino, Ana Estaregui, Erika Palomino, Gabriela Biló, Gaía Passarelli e outras autoras que participam d’A Feira do Livro, evento que, pelo quinto ano consecutivo, ocupa a praça Charles Miller, em São Paulo, de 30 de maio a 7 de junho.

Um dos encontros literários mais concorridos do país, a feira terá mais de trinta escritoras na programação principal, refletindo o bom momento editorial para as mulheres no Brasil e no mundo. Na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), já há alguns anos, elas são maioria entre as convidadas. Mesmo que ainda não tenha anunciado a lista completa de atrações, a curadora Rita Palmeira garante que a seleção final de 2026 reforça a tendência de festas anteriores.

As mulheres também são maioria na plateia destes e de outros convescotes literários, além de representarem mais de 50% das 93,4 milhões de pessoas que leem no país. Um número que não para de crescer: segundo um levantamento da Câmara Brasileira do Livro, dos 3 milhões de novos consumidores de livros em 2025, metade é formada por mulheres. Desse montante, 30% são pretas e pardas da classe C, o que as torna o maior grupo de novos consumidores.

O documento, divulgado em março passado, não inclui os títulos das obras adquiridas. Numa conversa com a escritora Cidinha da Silva, ela especula que podem ser livros de colorir – no topo do ranking de mais vendidos – ou publicações técnicas, expressão do acesso dessa fatia da população ao ensino médio e superior. Primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Gonçalves é mais otimista, ao afirmar que mulheres negras são maioria entre suas leitoras.

Obras recentes e os lançamentos das autoras.

Uma multiplicidade de boas histórias, narradas sob novas e diversas perspectivas, atende a esse contingente de leitoras, compondo uma cena cuja efervescência se manifesta na quantidade de lançamentos que ocorrem durante A Feira do Livro.

Das estrelas do cenário contemporâneo com novidades, Natalia Timerman apresenta seu aguardado terceiro romance, Antes que Apague (Cia. das Letras). Narrado por uma escritora e psiquiatra (como Natalia), o livro acompanha o declínio cognitivo da mãe da protagonista, causado pelo Alzheimer, num texto que entrelaça análises sobre escrita, literatura e memória.

Responsável pelo best-seller Copo Vazio (Ed. Todavia), Natalia caiu no gosto da geração millenium em 2021, quando publicou a história de Mirela, arquiteta que amarga um ghosting (o famoso pé na bunda) sem explicações do namorado Pedro – drama adaptado para o teatro pela dramaturga Angela Ribeiro sob o mesmo título.

Outro nome em ascensão, a multipremiada Mariana Salomão Carrara estreia Cláudia Vera Feliz Natal (Ed. Todavia). Em seu sexto romance, a vencedora dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura traça a trajetória de um jovem magistrado que precisa prestar contas de sua lentidão em um caso sensível que o acompanha há meses. Aos seus superiores, o personagem dirige uma defesa-autobiografia, em que revisita os anos de ofício nas pequenas comarcas de Cláudia, Vera e Feliz Natal, no interior do Mato Grosso.

Na seara dos livros-reportagem, a jornalista Adriana Negreiros (Maria Bonita: Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço) fala sobre seu novíssimo Dercy – A Diva Debochada (Ed. Objetiva), que resgata a trajetória de Dercy Gonçalves. Nessa apuração, Adriana demonstra como o machismo marcou a carreira de Dercy, atriz taxada de imoral e pornográfica por confrontar o conservadorismo da sociedade, atuando até os 85 anos.

Uma das mais aguerridas fotojornalistas em atividade, Gabriela Biló celebra a chegada de Juízo final: Tentativa e Fracasso do Golpe no Brasil (Ed. Fósforo), em parceria com os jornalistas Cristiano Botafogo e Pedro Daltro (do podcast Medo e Delírio em Brasília) e o designer Pedro Inoue. A obra reúne mais de oitenta imagens, manchetes e interpretações visuais, que mostram a decadência política do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Das veteranas, destaca-se a genial Maria Valéria Rezende, escritora, pedagoga, freira e comunista, que tratará do recém-lançado Recapitulações (Ed. 34). Partindo da produção literária de Machado de Assis, Kafka e Guy de Maupassant, Maria Valéria propõe novos desfechos para histórias conhecidas, questionando a ideia de originalidade.


Literaturas Internacionais

O investimento do mercado editorial na autoria de mulheres tem garantido também a versão nacional de nomes incensados no Exterior, como a colombiana Pilar Quintana.

Conhecida por aqui pelo premiado A Cachorra (Ed. Intrínseca), Pilar vem à feira para falar sobre o recém-lançado Noite Negra (Cia. das Letras). Em seu terceiro romance, ela retoma o universo narrativo de A Cachorra, uma vila de pescadores no Pacífico colombiano, onde a publicitária Rosa busca refúgio, após abandonar o ofício numa agência em Cáli, principal centro urbano e econômico do sudoeste do país, a fim de realizar o sonho de morar no mato com o companheiro, o carpinteiro irlandês Gene.

Inspirada por sua própria vivência na região, Pilar constrói um thriller no qual a protagonista tem de lidar com a selva ao redor e o comportamento dos homens que a cercam, após uma viagem do marido. Uma das expoentes da literatura latino-americana, a colombiana é responsável pela coleção Biblioteca de Escritoras Colombianas (BEC), projeto realizado por instituições como a Biblioteca Nacional da Colômbia e Ministério das Culturas, das Artes e dos Saberes, com 18 títulos de autoras nascidas desde o período colonial à primeira metade do século 20.

Também da América do Sul, a argentina Paula Sibilia participa da feira com Eu Mereço! Da Velha Hipocrisia aos Novos Cinismos (Ed. Ubu). No estudo, a pesquisadora investiga o que considera ser uma contradição central da contemporaneidade: como uma cultura que incentiva o prazer, a liberdade e a autorrealização convive com níveis crescentes de sofrimento psíquico e desagregação social.

A programação oficial traz, ainda, o olhar decolonial da francesa Estelle-Sarah Bulle para a terra natal de seu pai, Guadalupe, no romance Onde o Vento Faz a Curva (Ed. 34). Em seu primeiro livro publicado no Brasil, a jornalista e escritora parte de experiências pessoais para descrever as consequências da colonização da França no Caribe, por meio da história de uma família birracial que migra do vilarejo guadalupense Morne-Galant para Paris, em meados dos anos 1960.

Nesse cruzo de interpretações, há também a interessante visão da estadunidense Tracy Mann para a cultura nacional em O Mundo Todo é Bahia – Memórias do Brasil (Ed. Laranja Original). A partir de uma visita realizada nos anos 1970, a escritora navega da elite paulistana aos bastidores de noitadas no Rio e na Bahia, celebrando o panorama das artes brasileiras do mainstream ao underground.

Não faltam, enfim, motivos para ler essas e outras mulheres.

Em tempo: estarei na feira em 5 de junho, às 14h30, conversando com Estelle-Sarah Bulle e a brasileira Bianca Santana. Dá para consultar a programação completa aqui.

Até lá!

23 maio 2026

terça-feira, 26 de maio de 2026

Cultura e Esperança: Projeto Sabotage

Centro Cultural Sabotage

' Luta constante para sobreviver '


Filhos de Sabotage mantêm com muito empenho o projeto social na zona sul de São Paulo, região onde o maestro do Canão viveu. Na favela do Boqueirão, o Centro Cultural Sabotage Vive atende 1.200 crianças com atividades sociais com local de multi-cultura e esportes. Apesar das inúmeras dificuldades e sem apoio oficial, nem empresarial, foi lançado o kit que celebra o legado do rapper para arrecadar fundos.

Um kit com dois cadernos, um pôster e uma bag é o corre que os filhos de Sabotage estão fazendo para manter o Centro Cultural Sabotage Vive. Poucos sabem, sequer, que ele existe, mas está localizado no Boqueirão, zona sul de São Paulo, com o chão no contrapiso e o telhado com goteiras.

O Centro é mantido pelo esforço pessoal de Tamires e Sabota Júnior. Não há financiamento oficial nem empresarial. Conta com a ajuda de eventuais parceiros que ficam sabendo que o local existe, das suas necessidades, e sentem que, como cantou Sabotage, “rap é compromisso, não é viagem”.

A filha do maestro do Canão, uma líder comunitária de 31 anos, ainda mora na mesma quebrada, onde a família segue respeitadíssima. Em uma das salas do Centro Cultural Sabotage Vive, acompanhada dos criadores do kit, ela conta histórias inéditas do Sabotage, com quadrinhos, nas páginas que abrem os cadernos de anotações, além da cartela de adesivos.

“Muita gente não sabe dos projetos sociais do Sabotage dentro da favela”, diz Tamires. O projeto social começou com aulas de axé e capoeira, em um barraco que seu pai ganhou na favela do Boqueirão, em 2000. O barraco foi removido, mas Tamires deu sequência.



Centro Cultural Sabotage Vive !!

Tamires correu atrás e obteve autorização da subprefeitura do Ipiranga para ocupar um espaço de cinco salas na Praça Frei José Maria Lorenzetti, na principal via da favela do Boqueirão. “Nem a subprefeitura sabia que a sala existia”, conta a filha de Sabotage.

Após a pandemia, a paisagem da praça mudou. Ao invés de dependentes químicos (oito moravam onde hoje é o Centro Cultural), há cursos de capoeira, skate, boxe, barbearia. Em breve, de trancista. Meu pai tinha uma frase que ele vivia dizendo pros moradores: "quando melhorar pra mim, vai melhorar pra você”, lembra Tamires.

A favela do Boqueirão tem dez mil famílias. Festa do Dia das Crianças reúne, fácil, mais de mil crianças. O Centro Cultural Sabotage Vive promove essa e outras festas, distribui comida e faz até castração de animais. Promove cursos com formatura, certificado e material para começar a trabalhar.

"Já que não tem ninguém por nós, é nós mesmos”, diz Tamires, ela lembra de algumas passagens das músicas do pai, proféticas em relação às dificuldades do Centro Cultural Sabotage. Cita: “sei que eles doam, mas não pros morros, pra Unicef, pobre esquece”.

Kit é conteúdo importante, com retorno para todos!

Francisco Espectro, cantor e comunicador, e Tales Gurgel, da Entrelinhas Arte & Papel, que produzem o Kit Centro Cultural Sabotage Vive, tiveram o mesmo duplo impacto de quem fica sabendo do projeto social, e como sobrevive. “É um lugar maravilhoso, que funciona na raça. Senti que precisava fazer alguma coisa. O kit é para reverter para a comunidade, é o mínimo”, explica Espectro.

Tales Gurgel teve os memos sentimentos ao conhecer o Centro Cultural Sabotage Vive e a filha do maestro do Canão. Ela é estudante de Direito, cantora, integrante do conselho gestor de saúde, casada, mãe. Gurgel explica que o kit “é uma produção editorial que conta uma história, com conteúdo importante, com retorno para todos”.

Sabotage morreu antes de ficar rico. Sua filha acredita que, se ele estivesse vivo, o centro cultural estaria em outra situação. “Sei o que é passar fome, frio... Quando meu pai morreu, o Brasil gritava Sabotage e a gente passava necessidade”, diz Tamires. Sua expressão de mulher madura não revela ódio, apenas consciência de como é o corre na favela: “A gente vive isso.”




terça-feira, 5 de maio de 2026

Feminismo: Educação sobre Misoginia.

Precisamos de uma educação que 
esfarinhe a misoginia.


‘Listas de estupráveis’: uma tendência macabra entre estudantes.
Casos foram registrados em março e abril em diferentes instituições de ensino

Quando eu estava na escola, lá nos distantes anos 1980, era comum que os meninos da turma fizessem anualmente uma lista das meninas “mais bonitas da sala”. Olhando agora, essa brincadeira machista soa inocente e boba. Parece que muitas coisas pioraram nesses 40 anos.

Agora, uma nova tendência macabra aparece em escolas e universidades: a “modinha” (com mil aspas, já que se trata de um crime) é fazer listas de “garotas estupráveis” entre as colegas. Não me atrevo a tentar entender o que esse conceito significa. O que sei, com certeza, é que estamos diante de um crime.

Estupro é uma coisa horrível, o maior terror das mulheres. E isso não pode se transformar em “brincadeira de estudantes”.

Não é exagero falar que é uma tendência. Numa pesquisa rápida, achei três denúncias de casos do tipo (isso dos que chegaram à imprensa) em pouco mais de um mês: na Universidade Federal do Paraná, em Curitiba; na IFsul, de Pelotas, no Rio Grande do Sul; e no colégio São Domingos, em São Paulo.

Isso é assustador em todos os níveis. Os homens e os meninos parecem ter perdido a vergonha de assumir seus lados mais misóginos e perversos. Ou será que ser estuprador virou uma coisa cool entre alguns homens? Praticar crimes sexuais parece ser prova de macheza em círculos dos mais variados.

Em março, o caso do colégio São Domingos causou choque pelo horror da lista em si e por tratar-se de meninos do 9º ano, ou seja, adolescentes menores de idade, de uma escola progressista da capital paulista.

Prêmio para criminosos sexuais.

Mas o que aconteceu em São Paulo não foi um caso isolado. Esse tipo de lista pode ser ainda mais perverso.

Na semana passada, o diretório acadêmico da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Paraná denunciou a existência de um grupo, dentro da escola, que faria listas de “meninas estupráveis” e ofereceria dinheiro, como uma espécie de premiação, para aqueles que “conseguissem” executar os crimes, como se mulheres fossem animais numa temporada de caça.

Foram compartilhados também detalhes sobre as vítimas, como seus horários, percursos, ou seja, esse “grupo” funcionaria como uma célula de criminosos sexuais organizados.

Uma estudante teria recebido uma mensagem com prints do grupo, chamado “Ghost”, onde homens faziam planos para estuprá-la. O valor do prêmio para quem conseguisse praticar o crime seria de cerca de R$ 400. O material foi enviado para a polícia civil, que investiga o caso.

Em nota institucional, a universidade informou que “tomou conhecimento das mensagens que circulam em grupos de estudantes, a partir de uma denúncia grave envolvendo ameaça de violência sexual”. As estudantes foram avisadas pelo diretório acadêmico a “tomarem cuidado, não andarem sozinhas e evitarem sair à noite”. Imaginem o terror que estão sofrendo.

Tudo indica que os autores das ameaças seriam alunos do curso de Medicina, o que torna tudo ainda mais perigoso. Futuros médicos deveriam ser pessoas com um mínimo de decência, não criminosos. Mulheres não podem se sentir seguras nem em um consultório médico? Se você for vítima de um crime sexual, corre o risco de, no hospital, ser atendida por um criminoso do mesmo tipo? Como esses homens vão tratar mulheres se, quando olham para seus corpos, enxergam bichos a serem abatidos?

Uma lista parecida circulou no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-Rio-Grandense (IFSul), em Pelotas, no fim de março. Um grupo de alunos criou um “ranking sexual” com fotos de 30 colegas e adjetivos misóginos. Oito deles foram suspensos e o caso também passou a ser investigado pela polícia civil.

Espero que todos os alunos envolvidos nesses casos sejam expulsos, claro. Mas isso ainda é pouco. Eles precisam responder por seus crimes de verdade.

Normalização do estupro.

O que mais assusta é a normalização de algo tão abominável como o estupro. Desde quando os jovens passaram a falar disso sem vergonha?

Pelo jeito, o momento atual, de ascensão da extrema direita, que trata mulheres como “coisas” e fala claramente absurdos como “você não merece ser estuprada”, como disse o então deputado federal Jair Bolsonaro para a também deputada Maria do Rosário (e depois foi eleito presidente!), o ódio a feministas que “precisam de um corretivo” e outros horrores fizeram com que potenciais estupradores saíssem do armário.

O aumento da misoginia, representada por grupos de red pills e incels, obviamente, também contribui para esse horror. Mulheres e meninas passaram a ser vistas (mais ainda) como ameaças, pessoas perigosas, manipuladoras, que precisam “aprender com os homens a se comportar”.

É terrível que a gente esteja em um momento desses. O que não podemos, de forma alguma, é culpar todos os avanços feministas e o empoderamento das meninas por essa suposta “fraqueza dos meninos”. Quem faz lista de colegas “estupráveis” não está “confuso” e “assustado”. Está praticando um crime, algo que não pode ser relativizado. Que as meninas sejam cada vez mais educadas a reagir e a se defender juntas.

É o que tem acontecido. Enquanto alguns jovens fazem listas de quais colegas “são mais estupráveis”, elas se unem para se proteger deles. Temos que a apoiá-las a ser cada vez mais fortes em seus “nãos”. E, obviamente, a PL contra a misoginia precisa ser aprovada, urgentemente. Parar esse horror, caros deputados, precisamos ter prioridade máxima.

Nina Lemos - 2 maio 2026