Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Democracia Corintiana: Diretas Já! (ditadura militar)


Amarelo, sim! 
' símbolo da luta democrática na redemocratização do Brasil '

A multidão que pedia a volta da democracia no famoso comício do Vale do Anhangabaú em 1984 vestiu amarelo, assim como os atletas corinthianos que subiram ao palco.
20/09/2023 - Agência Corinthians

“Um, dois, três, quatro, cinco mil, queremos eleger o presidente do Brasil!”

Dezenas de milhões de brasileiros gritavam essas e outras palavras durante as passeatas, comícios, shows e outros eventos das Diretas Já. Gestadas em 1983, as manifestações cresceram e em 1984 tomaram o país como uma onda amarela. A cor, representativa do período e protagonista na terceira camisa corinthiana desta temporada, não foi escolhida por acaso.

O amarelo fora definido como cor oficial pelo Comitê 25 de Janeiro, que reunia diversos ativistas a favor do movimento que pedia a volta das eleições diretas para presidente do Brasil, depois de 20 anos de regime militar. Dentre os diversos motivos, o amarelo havia sido usado em outras manifestações democráticas mundo afora e tinha conexão direta com a bandeira brasileira. A proposta foi abraçada pelo comitê e levada à imprensa, que em sua maioria apoiava o movimento e passou a divulgá-la como a cor oficial das Diretas Já.

Na mesma época, a Democracia Corinthiana dava show nos estádios e nas ideias. O time vitorioso tinha uma gestão revolucionária, na qual diversas demandas do departamento de futebol eram definidas por meio do voto de atletas, técnico, roupeiro, diretores etc. Aquele modelo havia sido sugerido por Adilson Monteiro Alves, diretor de futebol da época (e atual diretor do departamento de Responsabilidade Social do Corinthians). Foi recebida com entusiasmo pela maioria da comissão técnica, que também enxergou uma forma de provocar a reflexão política do Brasil.

Não por acaso, os jogadores carregaram no uniforme mensagens estampadas em apoio às eleições, além da emblemática faixa “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia”. Com esse espírito, muitos passaram a frequentar os palcos dos Comícios pelas Diretas Já, notadamente Sócrates, Wladimir e Casagrande.

Estiveram também na manifestação de 16 de abril de 1984, realizada no Vale do Anhangabaú, no centro paulistano. O narrador Osmar Santos foi o mestre de cerimônias do evento que reuniu pelo menos 400 mil pessoas – algumas contas falavam em mais de um milhão, mas a verdade é que o espaço não comportava tanta gente. 

A data marcou, de todo modo, o maior comício pelas Diretas do Brasil, contando com nomes como Fafá de Belém, Geraldo Vandré, Eva Wilma, Rita Lee e Fernanda Montenegro, e várias lideranças políticas como Lula, Fernando Henrique Cardoso, Mario Covas e Leonel Brizola.

Do alto do palco, vestindo amarelo como toda a multidão, Sócrates deu a famosa declaração de que não deixaria o país caso o Congresso aprovasse a emenda parlamentar que garantiria a volta das eleições diretas.

As Diretas Já reuniram multidões Brasil afora e o apoio geral de artistas, intelectuais, jornalistas, trabalhadores e diversas parcelas de sociedade. Um movimento que está marcado na história do Corinthians e de todo o Brasil.

Fontes: Fernando Wanner; Ensinar História; Esportelândia, O Estado de S.Paulo (17/4/1984); Folha de S.Paulo (17/4/1984; 16/4/2004, 25/2/2023).


quarta-feira, 15 de julho de 2026

Escravidão: "Empregados" domésticos

Viola Davis no filme: Histórias Cruzadas.
Os ricos de condomínio e seus ‘escravos’

Mais do que um passado vergonhoso, a escravidão é parte inegável do presente.

O Brasil é o país com mais empregados domésticos do mundo. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), são 5,9 milhões de pessoas, uma massa de trabalhadores formada por 91% de mulheres.

Isso é resultado da desigualdade do país, é fato. O de cima sobe/o de baixo desce, cantava o amigo Chico Science. E, claro, somos os donos desse recorde triste por causa da nossa herança escravocrata. Em alguns países, a escravidão faz parte de um passado vergonhoso. No Brasil, é parte inegável do nosso presente.

Na semana passada, tivemos mais uma prova dessa realidade amarga e inaceitável, quando foi divulgado que uma mulher de 62 anos havia sido resgatada de um imóvel num condomínio de luxo, na região de Fortaleza, o Terras Alphaville – Residencial 2, no bairro Cidade Alpha. A vítima servia à mesma família desde os sete anos de idade sem salário mensal, o que configura trabalho em condições análogas à escravidão.

Bem, se uma mulher foi escravizada por mais de 50 anos no meio de um condomínio de luxo, isso significa que toda a família sabia do que se passava, assim como agregados e amigos. Será que os outros vizinhos ricos ignoravam o caso?

As histórias de escravidão doméstica moderna lembram as dos abusos sexuais perpetrados por poderosos por anos impunemente, como Saul e Samuel Klein, das Casas Bahia. É necessária uma rede gigante de pessoas que se calam para que esse tipo de crime ocorra por tanto tempo. Isso mostra o quanto a escravidão é naturalizada e banalizada no Brasil.

Essas mulheres, muitas vezes, são tratadas como parte da estrutura familiar, mas não como “alguém da família”, como diz o clichê. Na verdade, são como propriedades e bens mesmo, igualzinho nos tempos da escravidão que vigorou no país até o século 19. Elas são da família tão quanto uma cristaleira antiga herdada de uma avó.

A mulher de Fortaleza não é um episódio isolado. De vez em quando, um crime parecido vem à tona.

O caso Jorge Luiz de Borba
Em 2023, Sônia Maria de Jesus foi resgatada da casa do desembargador do Tribunal de Justiça de Santa Catarina Jorge Luiz de Borba. No ano passado, sua esposa, Ana Cristina Gayotto de Borba, teve seu nome incluído na lista suja do trabalho escravo do governo federal. Isso aconteceu depois que uma investigação concluiu que Ana Cristina manteve Sônia Maria em regime de trabalho escravo doméstico por quase 40 anos na residência da família Borba, em Florianópolis.

O caso de Sônia é emblemático. Ela voltou para a casa da família Borba por vontade própria, depois de três meses do seu resgate, o que é perfeitamente entendível, já que essa era a única vida que ela conhecia. A família Borba afirma que ela sempre foi tratada como “filha”. E o desembargador nunca perdeu o seu emprego. Revoltante.

O caso Isis Valverde
Alguns exemplos de exploração doméstica moderna não são tão iguais ao do escravagista clássico, mas não deixam de ser escancaradamente escravocratas.

Recentemente, um caso envolvendo a atriz Isis Valverde causou revolta nacional. A atriz é acusada de explorar uma empregada doméstica, que a processou. A funcionária afirma que cumpria jornadas de aproximadamente 12 horas por dia, geralmente das 8h30 às 20h ou 20h30, e que tinha apenas cerca de 20 minutos para o almoço (!). Ela entrou na Justiça pedindo o pagamento de horas extras, diferenças de Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), multa rescisória e indenização por danos morais. O valor pedido por ela era de R$ 385.233,56. Em junho, as duas partes chegaram a um acordo de R$ 30 mil.

O valor baixo causou espanto, assim como a forma encontrada pela atriz para pagar o acordo. Isis é uma pessoa muito bem sucedida, casada com um empresário rico, mas decidiu pagar o acordo em seis parcelas mensais de R$ 5 mil. Um escárnio. A atriz nega as acusações e o seu advogado já ameaçou quem a acusasse com processo, usando uma tática de silenciamento.

Se, realmente, Isis explorou a funcionária desse jeito, ela está muito longe de ser a única. Nos prédios e condomínios de luxo, explorar trabalhadoras domésticas e tratá-las de forma escravocrata é comum.

As babás vestidas de branco, que lotam praças de bairros de bacanas e espaços de convivência dos condomínios de luxo são mais uma prova desse presente escravocrata. E, não, não é normal. Só acontece em países onde a herança da escravidão faz parte do presente.

Enquanto isso, os escravocratas modernos, sejam eles criminosos que vão parar na lista suja do trabalho escravo do país ou apenas ricos descolados que não percebem (como pode?) que é indecente submeter funcionárias a salários baixos e humilhações, não sentem vergonha nenhuma. Está na hora de passarem a ter.

Matéria:
@Revista Liberta
11 jul - 2026

Nina Lemos: é jornalista, escritora e mora em Berlin. É uma das criadoras do trio 02 Neurônio, com quem lançou cinco livros. Foi repórter especial da revista Tpm e colunista da Folha de S. Paulo, do UOL e da DW Brasil.


quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Histórias Anti-Racismo: TIA CIATA

Quem foi Tia Ciata

Hilária Batista de Almeida (Tia Ciata ou Aciata).


No Recôncavo baiano (Santo Amaro) dia 13 de janeiro de 1854 nasce Hilária Batista de Almeida, com 16 anos mesmo tão jovem, já participara da fundação da Irmandade da Boa Morte, em Cachoeira, outra cidade do Recôncavo baiano. A Irmandade existe até hoje é do seu acervo. Filha de Oxum, sendo iniciada no santo na casa de Bambochê, da nação Ketu. Aos 22 anos, trazendo consigo uma filha, mudou-se para o Rio de Janeiro, formando nova família ao se casar com João Baptista da Silva, funcionário publico com quem teve 14 filhos. Continuou os preceitos do santo na casa de João Alabá, tornando-se Mãe-Pequena. Morou inicialmente na Pedra do Sal, Beco João Inácio, Rua da Alfândega, 304 e posteriormente na Rua General Pedra, Rua dos Cajueiros e mais tarde na Rua Visconde de Itaúna, residindo na Cidade Nova entre os anos de 1899 e 1924. foi uma das responsáveis pela sedimentação do samba-carioca e tornou-se uma espécie de primeira dama das comunidades negras da Pequena África.

O casarão era uma legítima casa de cômodos, com seus 6 quartos, 2 salas, um longo corredor e quintal com árvores (um abacateiro, ao menos). Parte da família seguiu, porém, morando na Rua da Alfândega: foi lá que em 1909 nasceu Bucy Moreira (músico e compositor), mesmo com a determinação de Ciata para que seu neto viesse ao mundo no casarão. Poucos meses depois, o futuro grande sambista mudou-se com a família para a Rua Minervina, perto da Praça Onze. . (A Visconde de Itaúna não existe mais, desapareceu quando das obras para a abertura da avenida Presidente Vargas).

Mulher de Grande Iniciativa.

Ciata fez de sua vida um trabalho constante, tornado-se com as outras tias baianas, a iniciadora da tradição das baianas quituteiras no Rio deJaneiro, com suas vistosas roupas, colares e pulseiras, desenvolvendo uma atividade cercada por forte fundamento religioso.

Empresárias denominadas Tias Baianas.

Nesse âmbito as tias baianas Ciata, Bebiana, Mônica, Carmem , Perciliana, Amélia, dentre outras, destacaram-se nas principais formas de organização e influência sobre a comunidade. Assim, essas mulheres recebem reconhecimento e respeito por suas posições centrais nos terreiros e por suas participações nas principais atividades do grupo, garantem a manutenção de tradições africanas, sempre reinventadas, guardando possibilidades de revitalização na vida da cidade. Transformaram suas casas, na área da Praça onze, em pontos de referência e convívio comunitários.

Inovadora e criativa.

Tia Ciata passou também a confeccionar e alugar roupas de baiana feitas com requinte, para teatros e desfiles carnavalescos, não só para as “cocotes” chiques como também para homens, gente graúda que gostava de se travestir nos festejos de Momo. Sua morte, em 1924, encerraria uma época, à partir da qual progressivamente o negro passaria à freqüentar diferentes ambientes na vida cultural e social carioca.

Religiosidade e o Samba.

Mãe-de-santo afamada, Tia Ciata festejava seus orixás, sendo famosas suas festas de São Cosme e Damião e de sua Oxum, Nossa Senhora da Conceição. Nas festas suas habilidades de partideira a destacavam nas rodas de partido-alto, e seu neto Bucy Moreira aprendeu com ela o segredo do "miudinho", uma forma de sambar de pés juntos que exige destreza e elegância, no qual Ciata era mestra.

Logo após a cerimônia religiosa, antecedida por uma missa cristã, músicos e capoeiras amigos da casa armavam um pagode com violões, pandeiros, ganzás e muito samba. Tia Ciata, partideira respeitada, não deixava o samba morrer, providenciando que as panelas sempre estivessem quentes, por vezes,promovendo em sua casa, saraus com chorões e bailes amaxixados no salão da frente, sem esquecer um bom samba lá no fundo do quintal, sempre com uma cerimônia de candomblé encerrando as festividades.

Sambista famosos na casa de Ciata.

Se alguns podem ter ido para outro samba afamado da época, o de João Alabá, é certo que muitos preferiram a nova casa de tia Ciata, na Visconde de Itaúna, estrategicamente localizada perto da Praça Onze, da sociedade recreativa Paladinos da Cidade Nova - e, mais tarde, da sociedade carnavalesca Kananga do Japão (fundada como rancho em 1910). E bota "muitos" nisso: nos cerca de 20 anos que Ciata morou na Cidade Nova, freqüentaram sua casa outras tias baianas famosas na época - além de suas amigas que também eram filhas-de-santo de Alabá, acrescentem-se tia Dadá, Tia Amelia ( mãe do Donga), Tia Prisciliana ( mãe de João da bahiana), tia Veridiana (mãe de Chico da Bahiana), tia Josefa Rica e tia Tomásia , o jornalista Vagalume, o ator Alfredo de Albuquerque e importantes nomes da música popular como Hilário Jovino Ferreira, Donga, Pixinguinha, João da Bahiana, Heitor dos Prazeres, Sinhô, Caninha, Didi da Gracinda, Marinho que Toca (pai do compositor Getúlio Marinho), Mauro de Almeida, João da Mata, João Câncio, Getúlio da Praia, Mirandella, Mestre Germano (genro de Ciata), China (irmão de Pixinguinha) e Catulo da Paixão Cearense.


Prestígio junto à Presidência da República.

Se a medida de prestígio era o bom trânsito junto à Presidência da República, pode-se dizer que tia Ciata não tinha o que invejar em relação a Abedé. Ela foi chamada ao Palácio do Catete para tratar de uma ferida do presidente Venceslau Brás, que resistia a todos os tratamentos indicados pelos médicos. Curado por Ciata, Venceslau Brás expressou sua gratidão transferindo João Batista da Imprensa Nacional para a chefia de gabinete do chefe de Polícia. Assim, durante o mandato de Venceslau Brás (1914-18), as festas na casa de tia Ciata eram autorizadas, contando com o envio de dois soldados que iam fazer a segurança. (O prestígio da família com o poder sobreviveu a Ciata : em 1925, o chefe de Polícia conseguiu vaga para Bucy Moreira estudar na Escola Bom Jesus, em Paquetá, onde ele ficou até 1927.)

A casa da Tia Ciata, como descreve Roberto Moura.

Se torna a capital dessa Pequena África no Rio de Janeiro. Esse grupo de origem baiana se constituía numa elite nessa comunidade que se desloca do Centro para suas imediações, forçada a se reestruturar dentro das grandes transformações das políticas internacionais e nacionais. engendrando conseqüente reforma da cidade.

O legado: Cortejo da Ciata.

Cortejo da Ciata é sobre tudo uma celebração, uma homenagem a grande Tia Ciata, das primeiras rodas de samba, dos ritos e dos doces, das baianas, da Praça Onze, do quintal com Pixinguinha, Donga, Joao da Baiana, matriarca negra, figura fundamental para a manutenção e enriquecimento da nossa cultura. Celebramos tambem o encontro de dois personagens emblemáticos da cultura negra Brasileira, separados pelo tempo e unidos pelo Distrito Cultural da Praça Onze e pela resistência cultural e étnica. Zumbi dos Palmares e Tia Ciata .

A idéia, que germina no ateliê de experimentação escultórica do Centro Municipal de Artes Calouste Gulbenkian, sob orientação do escultor Sandro Lucena, localizado do coração da Praça Onze, em frente a Escola Tia Ciata. O que num primeiro momento consistia na realização coletiva de uma Eco-Escultura de grande formato, feita com reaproveitamento de diversos materiais, como sucatas de ferro e aço inox, chapas de geladeiras velhas e armários para a o revestimento da figura, se transformou num evento multicultural envolvendo vários grupos e coletivos de arte, de diversas linguaguens artisticas, existentes na cidade, conectando a Secretaria de Cultura com a Secretaria de Educação, com apoio do controle urbano e outras que ajudaram a realizar o primeiro evento.

domingo, 23 de novembro de 2025

Histórias do Brasil: DEMOCRACIA

Democracia
"democracia é o exercício diário"

A democracia é um sistema de governo no qual o poder emana do povo, que exerce sua soberania de forma direta ou indireta, por meio de representantes eleitos. Ela se baseia nos princípios fundamentais de liberdade, igualdade e soberania popular, e é considerada a melhor forma de garantir a convivência coletiva e o respeito aos direitos humanos.


22/11/2025
Um dia a ser lembrado

"Acordei hoje as 08:30, um pouco mais tarde do que de costume, com uma notícia maravilhosa: Bolsonaro está, finalmente, preso! Quem o ama o ama sem limites racionais, mas quem o odeia também, e me incluo entre estes últimos. A alegria que vi nas redes sociais acerca deste dia mostra que ainda somos humanos. Bolsonaro representa o que há de mais abjeto na espécie humana: a ausência de empatia com o sofrimento alheio; e a mentira e a manipulação da vulnerabilidade alheia como moeda.

Eu não sou religioso, mas como sociólogo sei que foi o cristianismo que moldou a gramática moral do Ocidente secular. A primeira e mais importante ideia crista é a empatia com o sofrimento alheio, especialmente daqueles mais frágeis. Todo o processo de civilização secular, como nos ensina o grande Norbert Elias, é um reflexo desta ideia. Ser “civilizado” passa a ser percebido como diminuição da dor e do sofrimento evitável. Bolsonaro representa, sem qualquer intenção retórica, portanto, a barbárie e a canalhice, e o desprezo que tantas vezes ele manifestou em relação aos doentes, aos negros, aos pobres, às mulheres, aos gays, mostram isso sobejamente. Culminando no crime maior de todos de atentar contra a democracia, o bem maior de 3 mil anos de civilização no Ocidente.

Mas Bolsonaro não agiu sozinho. Ele precisou, não nos esqueçamos jamais, que toda a mídia corporativa o blindasse em 2018, apresentando um ladrão contumaz como bastião da honestidade e da antipolítica. As “rachadinhas” históricas de Bolsonaro subiram de nível na Presidência, e ele aprendeu a fazer rachadinhas com sheiks árabes, que ficaram tão contentes em comprar refinarias a preço de banana que inundaram ele e sua esposa em joias. Este é e sempre foi o único projeto político de Bolsonaro: roubar na mão grande. Um canalha medíocre.


Mas a maior ameaça de Bolsonaro é o seu talento de mobilizar a vulnerabilidade dos humilhados e ofendidos por uma ordem social que não compreendem, contra os melhores interesses desta multidão empobrecida. Com isso seu governo ofereceu “base popular” à política mais antipopular que existe: o roubo grande da elite financeira que garante lucros estratosféricos para o agronegócio e para os “investidores” americanos que ficam com a parte do leão da riqueza produzida por todos.

Paulo Guedes, a melhor corporificação do espírito estreito e voraz de nossa elite financeira, ofereceu de bandeja a seus amigos da Faria Lima empresas estatais subfaturadas – o espólio histórico de uma elite improdutiva depois de cada golpe de Estado – e ajudou os bancos, mas não o povo sofrido na pandemia. O governo brasileiro se negou e adiou o quanto pode qualquer ajuda a um povo abandonado na pior hora. Foi esta política que a sedução demoníaca de Bolsonaro legitimou nas camadas populares. Este é o real risco de gente como Bolsonaro, que criou uma matilha de oportunistas dispostos a confundir deliberadamente o público. Não são os militares que tramaram os golpes o nosso real inimigo, embora também o sejam, já que eles, como o próprio Bolsonaro, são instrumentos e “paus mandados” da elite que saqueia todo mundo. É apenas por conta delas que temos gente como Bolsonaro perturbando vidas e ceifando trajetórias pelo descaso ou violência.

A prisão de Bolsonaro nos devia lembrar do nosso real inimigo: uma elite que existe apenas para organizar o saque da própria população em nome das elites metropolitanas e cobrar o seu pedágio pelo trabalho sujo. Segundo seu próprio dono, o BTG pactual, o maior banco de investimentos do país, tem 19 americanos dentre seus 20 maiores clientes. Precisamos de mais alguma informação para saber em benefício de quem se dá o saque de nossa gente? Por conta disso, o Estadão e todos os jornais da elite protestaram contra Trump e sua interferência aqui. Afinal, se os EUA passarem a mandar diretamente, qual a função social da elite nativa? Essa é a canalha que nos governa há 500 anos.


Refletir sobre a prisão de Bolsonaro significa, para mim, ou deveria significar, possibilitar que o povo brasileiro saiba quem é seu real inimigo. Posto que, até hoje, ninguém contou isso para ele. Sem isso, os novos “Bolsonaros” irão bater na nossa porta. Aliás, já estão batendo."

Escritor, pesquisador e professor universitário. Autor de mais de 30 livros dentre eles os bestsellers “A elite do Atraso”, “A classe média no espelho”, “A ralé brasileira” e “Como o racismo criou o Brasil”. Doutor em sociologia pela universidade Heidelberg, Alemanha, e pós doutor em filosofia e psicanálise pela New School for Social Research, Nova Iorque, EUA.

segunda-feira, 14 de julho de 2025

LIVRO: AnGeLa DaViS

Angela Davis

Livro: Mulheres, cultura e política ...

Nessa compilação de discursos e artigos, a ativista política Angela Davis - autora de Mulheres, raça e classe, publicado com estrondoso sucesso pela Boitempo - apresenta um balanço de sua luta por uma mudança social progressista. Dividida em três eixos temáticos, "Sobre as mulheres e a busca por igualdade e paz", "Sobre questões internacionais" e "Sobre educação e cultura", a obra aborda as mudanças políticas e sociais pelas quais o mundo passou nas últimas décadas em relação à igualdade racial, sexual e econômica.

A autora traz dados históricos e estatísticos detalhados sobre as condições das mulheres, da classe trabalhadora e da população negra nos Estados Unidos durante o governo Reagan, mostrando como a política adotada naquela administração operou para enfraquecer esses grupos sociais. Mostra, ainda, as influências das políticas norte-americanas em países da América Central, da África e do Oriente Médio, destacando o impacto que tiveram para fortalecer um movimento econômico mundial de concentração de renda e enfraquecimento das lutas sociais em vários países do mundo. Ao mesmo tempo, ela faz reflexões importantes sobre a resistência representada pelos movimentos sociais e sobre o potencial de conscientização e contestação da educação e das artes, em especial a pintura, a fotografia e o blues. Por meio dessa reflexão, Davis argumenta que a convergência dos diversos grupos, em diferentes países, em torno de interesses comuns é essencial para a construção de um mundo menos desigual.

Editora: Boitempo Editorial
Ano de publicação: 1989
Artes fotográfias do livro e produção: Gabriel Mesquita

Breve biografia de Angela Davis

Angela nasceu no estado do Alabama, um dos mais racistas do sul dos Estados Unidos, e desde cedo conviveu com humilhações de cunho racial em sua cidade. Leitora voraz quando criança, aos 14 anos participou de um intercâmbio colegial, que oferecia bolsas de estudo para estudantes negros sulistas em escolas integradas do norte do país, o que a levou a estudar no Greenwich Village, em Nova York, onde travou conhecimento com o comunismo e o socialismo teórico marxista, sendo recrutada para uma organização comunista de jovens estudantes.

Na década de 1960, Angela tornou-se militante do partido e participante ativa dos movimentos negros e feministas que sacudiam a sociedade norte-americana da época, primeiro como filiada da SNCC de Stokely Carmichael e depois de movimentos e organizações políticas como o Black Power e os Panteras Negras.

Em 18 de agosto de 1970, Angela Davis tornou-se a terceira mulher a integrar a Lista dos Dez Fugitivos Mais Procurados do FBI, ao ser acusada de conspiração, sequestro e homicídio, por causa de uma suposta ligação com uma tentativa de fuga do tribunal do Palácio de Justiça do Condado de Marin, em São Francisco.

Durante o verão daquele ano, Angela estava envolvida nos esforços dos Panteras Negras para conquistar o apoio da sociedade a três militantes presos, George Jackson, Fleeta Drumgo e John Clutchette, conhecidos como os “Irmãos Soledad”, por terem sido enviados à Prisão de Soledad, em Monterey.


Angela lecionou por 17 anos no Departamento de História da Consciência na prestigiada Universidade da Califórnia-Santa Cruz. Recebeu o título de professora emérita da Universidade da Califórnia e se aposentou em 2008. Após sua aposentadoria continuou sua rotina de palestras e cursos em diversas universidades e centros culturais por todo o mundo. Em 2019 passou a integrar o National Women's Hall of Fame dos Estados Unidos.