Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
Mostrando postagens com marcador Intelectual. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Intelectual. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Heroínas do Brasil: Antonieta de Barros


Antonieta de Barros
' mil faces de uma liderança histórica pioneira '

Em memória dos 125 anos de nascimento de Antonieta de Barros, saiba mais detalhes sobre a trajetória, as lições e o legado da professora e jornalista, que foi a primeira parlamentar negra eleita em Santa Catarina

Mais do que uma pessoa à frente de seu tempo, uma liderança que apontava horizontes para a estruturar e construir o futuro do Brasil. Esta descrição sobre Antonieta de Barros (1901-1952) ajuda a compreender a magnitude de sua trajetória, mas passa longe de fazê-lo de modo pleno.

Dizer que Antonieta de Barros foi professora, oradora, parlamentar, militante da área educacional e ensaísta não dá a dimensão do quão grande foram a sua vida e obra. Falar que ela entrou para a história brasileira por ser considerada a primeira mulher negra de Santa Catarina eleita deputada em 1934, nas eleições realizadas imediatamente após as mulheres terem conquistado o direito ao voto no Brasil, em 1932, induz ao risco de limitá-la a um determinado período histórico.

Constatar que ela foi isso tudo e muito mais ainda está aquém do seu tamanho real. Podemos dizer, sem dúvida, que a liderança foi - e continua a ser - uma daquelas figuras maiores do que a vida. Isso sem contar que conhecer a sua trajetória ajuda apresentar contrapontos importantes contra tentativas de apagamento e de revisionismo histórico sobre a presença negra em Santa Catarina.

“Sua trajetória nos ensina a olhar a sociedade brasileira sobre vários aspectos que fogem ao senso comum: mostra que, apesar da autoimagem e da imagem que a região Sul construiu, não há apenas brancos e eurodescendentes na região”, explica Surya Aaronovich Pombo de Barros, professora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), pós-doutoranda no Instituto Caro y Cuervo (Bogotá, Colômbia) e bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

A docente destaca também que a sua trajetória ensina também que, “a despeito de uma ideia recorrente de que ‘pessoas negras’ estiveram apartados do universo letrado e escolar, as pesquisas das duas últimas décadas demonstram que uma parte da resistência negra foi feita pela via da educação formal.”

Superação de barreiras históricas e sociais

“Não havia processos que levassem as pessoas a ter mobilidade social. Havia privilégios: fazer parte de determinado grupo, classe social ou etnia. Então, quando ela chega à Escola Normal, ela já está rompendo com algumas barreiras. Não [significa] que não houvesse pessoas negras antes: por meio da biografia dela e dos estudos sobre ela e a irmã conhecer as outras pessoas negras.”

Esta fala de Jeruse Romão, professora escritora, militante do movimento negro e biógrafa de Antonieta de Barros e da irmã, Leonor de Barros (1904-1974), ajuda a perceber a dimensão das diversas barreiras presentes nas trajetórias de pessoas negras à época. Outro ponto diz respeito ao apagamento histórico que, por meio de dinâmicas diversas, permearam a época em que a intelectual atuou e encontram ecos nos dias atuais.

A análise que Jeruse Romão faz sobre a liderança educacional e política, que reverberou nas obras de sua autoria ‘Antonieta de Barros: Professora, escritora, jornalista, primeira deputada catarinense e negra no Brasil’ (2021) e ‘Antonieta de Barros: Discursos, entrevistas e outros textos’ (2023) mostra que o caminho trilhado por ela teve participações definitivas dos passos que sua mãe, Catarina de Barros, e sua irmã, Leonor de Barros, deram.

Aqui entra, mais uma vez, a resistência à tendência ao apagamento histórico: enquanto Catarina, a mãe, trabalhou como lavadeira para possibilitar o desenvolvimento educacional das filhas - nas primeiras décadas após a abolição da escravatura, em 1888, vale dizer -, o trabalho de Leonor, que também cursou a Escola Normal e se tornou professora, foi fundamental para Antonieta de Barros prosseguir com o propósito de democratizar e universalizar o acesso à educação.

Nesse contexto, para manter-se em Florianópolis, as duas irmãs abrem, em 1921, a escola Curso Particular Antonieta de Barros, que funcionou até a década de 1960.

Pela democratização no acesso a espaços educacionais e decisórios

A carreira parlamentar de Antonieta de Barros teve como marca incontestável a defesa da valorização e do acesso à educação. Basta dizer que a instituição de 15 de outubro como o Dia do Professor em Santa Catarina, em 1948 - e que se tornaria uma data nacional em 1963 -, foi uma pequena parte do trabalho que ela realizou dentro dessa pauta.

Temas que hoje são recorrentes no debate sobre Educação e sociedade já estavam presentes na atuação legislativa dela há quase um século. “É admirável e ao mesmo tempo perturbador notar que na primeira metade do século XX ela já defendia temas ainda urgentes como concurso público para magistério e o cargo de direção de escolas. Idem a importância da igualdade de salário entre professores e professoras; a relevância da educação de adultos; a necessidade de organização da categoria docente; a importância da aproximação entre crianças pobres e livros”, destaca Surya Aaronovich Pombo de Barros.

Nesse sentido, a atuação de Antonieta de Barros em defesa tem caráter interseccional com pautas como gênero, raça, infância, entre outros. Outros pontos passam pela valorização da docência e dos saberes prévios de estudantes, dentro da chave da democratização do acesso ao ensino.

“Antonieta foi da Comissão da Educação e da comissão que tratou do plano de carreira do funcionário público. O que vi [obra de] escrevendo, estudando e biografando foi uma mulher que está no grupo de protagonistas brasileiros e brasileiras, que entendiam a educação como um instrumento de transformação social. Algumas vezes ela me lembra muito Paulo Freire. Quer dizer: ele me lembra, pois ela veio antes”, reforça Jeruse Romão.

Ao considerar-se que a História pode rimar, os debates atuais sobre temas como permanência no Ensino Superior encontram correspondência com o acesso a estágios em nível básico para populações de grupos vulnerabilizados - de prevalência negra e periférica. Assim, Antonieta de Barros foi autora de requerimento para estabelecer o funcionamento de aulas noturnas para jovens e filhas e filhos de pessoas trabalhadoras.

Outros tópicos passaram também pela concessão de bolsas de estudos e pela oferta de merenda escolar:

“Percebe-se que ela [Antonieta de Barros] tinha uma ótica muito fina sobre a estrutura e o funcionamento da educação pública. Não era apenas sobre a sala de aula, mas também políticas educacionais, estrutura e funcionamento da escola.” (Jeruse Romão)

O poder da palavra e a vida pública como sacerdócio

Outra faceta da polivalente trajetória de Antonieta de Barros passou pelo jornalismo, uma vez que ela começou a escrever aos 23 anos textos publicados em veículos de Santa Catarina e assinando-os sob o pseudônimo Maria da Ilha, por meio do qual publicou o livro ‘Farrapos da Ilha’, em 1937.

“O nome dela não foi de resistência pela trajetória, mas sim pela ala conservadora masculina e feminina de Florianópolis que não concordava de jeito nenhum com a participação das mulheres na política, com uma ala machista que não concordava e com outra racista também, que não concordava com que as pessoas negras tivessem visibilidade. Ela enfrentou todas essas camadas pela educação e não recuou”, narra a biógrafa da intelectual.

Ao mesmo tempo em que ela usava sua coluna como canal pontual para a abordagem veemente da pauta racial, a sua atuação jornalística teve abordagem mais ampla. “Tendo a chamá-la de uma negra na imprensa”, ressalta Jeruse Romão, ao destacar o estilo de escrita da intelectual que flerta também com a verve literária. “Antonieta de Barros criou, junto com outros negros que tiveram a ideia, e compõe o Centro Catarinense de Letras, movimento de quem foi rejeitado pela Academia Catarinense de Letras, que não aceitava negros e mulheres.”

Como consequência, o afinco ao qual se dedicava a todas as áreas profissionais de sua vida a fez assumir o trabalho como se fosse sacerdócio. Isso refletia-se no fato de nem ela, tampouco Leonor de Barros, participarem de eventos comemorativos. “Elas não gostavam de exposição social e não iam a eventos públicos - apenas iam a eventos cívicos e eventos profissionais. Elas eram dadas a retirarem-se da cidade em época de férias para ir a internatos, internatos de freira e lugares isolados”, comenta a biógrafa.

Preservação da memória

Apesar da história de Antonieta de Barros ser digna da primeira prateleira de ícones da história do Brasil, o seu nome foi inserido no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria somente em 2023. Esse fato demonstra, por si só, que a sua trajetória não recebeu o devido reconhecimento por quase um século.

Pode-se considerar, então, que o reconhecimento à vida e obra da intelectual faz parte de um movimento de reparação histórica. Para se ter uma ideia, em 2024 o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), do Ministério da Educação (MEC), lançou a plataforma Antonieta de Barros, espaço que tem como objetivo reunir dados sobre investimentos, execução e monitoramento de programas e ações desenvolvidos pelo departamento.

Todavia, o legado e a memória de Antonieta de Barros estão sob constante disputa. Sua trajetória mostra, independentemente de forças políticas que tentem instrumentalizar ou cooptar a sua imagem, que o seu legado estará ligado às lutas pela universalização do acesso à educação, em especial para populações em situação de vulnerabilidade e com histórico de exclusão sociorracial. “Tenho certeza absoluta de que ela teria se colocado a favor do direito das pessoas de estarem na escola”, relata Jeruse Romão.

A memória da intelectual tem endereço reservado para a sua preservação. A saber, o prédio da antiga Escola Antonieta de Barros, situada em Florianópolis, será a sede de um museu dedicado à sua trajetória, assim como do Centro de Cultura, Memória e Arte Negra Catarinense local. Todavia, essa articulação veio acompanhada de muita luta. “Queremos consolidar o Museu Antonieta de Barros e entregá-lo para a cidade, pois ela é uma das mais importantes filhas de Florianópolis”, detalha a biógrafa da intelectual.

Combate ao revisionismo e respeito ao legado

Em tempos nos quais segmentos reacionários tentam normalizar pautas que visam eliminar ações afirmativas e retirar direitos voltados à promoção da equidade racial, como as cotas étnico-raciais, assim como o descalabro em forma do debate sobre mulheres poderem ou não votar, as histórias de ícones como Antonieta de Barros revelam-se fundamentais.

Episódios com esse teor são lembretes de que conquistas estarão sob permanente disputa e, diante disso, precisam ser defendidas, preservadas e protegidas também quando se trata de leis. Isso vale também para tópicos como a preservação mecanismos com foco na promoção da paridade numérica e de forças para candidaturas de parlamentares mulheres e negros.

“Estes são temas que pareciam já resolvidos, mas cujo retrocesso parece estar no horizonte próximo”, reforça Surya Aaronovich Pombo de Barros. Desse modo, é fundamental haver organização política para barrar proposições com esse teor. E os faróis históricos já estão no nosso horizonte. “Conhecer a trajetória de pessoas como Antonieta de Barros pode ser parte do antídoto para esse tipo de projeto.”

Assim, a sua vida e obra é fundamental para estudantes e pessoas pesquisadoras, assim como para qualquer pessoa que se interesse em aprofundar em discussões e reflexões sobre história, educação, gênero e raça no Brasil. “Seu legado está em sua própria trajetória pessoal e nas pautas que defendeu como intelectual pública, política e educadora, que ainda são urgentes e objetos de disputa sobre que sociedade desejamos ser”, pondera a professora da UFPB.

Por fim, outra lição que Antonieta de Barros deixa é sobre a sua trajetória não ser um fato isolado, por mais extraordinária e inspiradora que tenha sido. Sua mãe, Catarina, e sua irmã, Leonor, foram as suas bases e caminharam ao seu lado. Figuras históricas, como Almerinda Silva Gama (1899-1992), Coema Hemetério dos Santos (1888-?), Izolina Machado (1889-1931), Adelia de França (1904-1981), Laudelina de Campos Melo (1904-1991), Conceição Soares Lopes (1905-1990), Virgínia Bicudo (1910-2003), entre muitas outras, mostraram que a luta por direitos raciais e de gênero apenas obteve êxito graças a sonhos e esforços coletivos.

“Não é apenas sobre Antonieta de Barros, [o poeta] Cruz e Sousa ou Gustavo Lacerda, um dos fundadores da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), que é um homem negro de Santa Catarina. Ao puxar-se a história de Antonieta, ela não vem sozinha: vêm ela e uma legião de pretos e pretas que construíram e estruturaram a história de Santa Catarina”, completa Jeruse Romão. E a construção e a estruturação nesse contexto podem ser estendidas também para a história do Brasil.

Escrito por:
Amauri Eugênio Jr.
31 de Julho de 2026