Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
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sábado, 17 de janeiro de 2026

LiTeRaTuRa: Guesa Errante

"Um brasileiro entendeu nossas questões como "latinos" americanos bem antes de inúmeros outros autores, Joaquim de Sousa Andrade, o Sousândrade, um brasileiro que se preocupou e escreveu sobre a América explorada, numa época em que os contatos entre Brasil e a América Hispânica eram muito raros e voláteis. Sousândrade com sua obra incrível precoce de precursora ideia, de que a América se definia pelas diferenças internas, pela mutabilidade, pela capacidade de dialogar e enxergar o outro. Portanto, era uma américa que deveria ter sido batizada de, Transamérica"

Texto: Prof. Dr. Júlio Pimentel
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Livro: Guesa Errante

Autor: Joaquim de Sousa Andrade (Sousândrade)

Editora: Valer

Sinopse: Guesa Errante é um poema narrativo em que o autor resgata uma lenda quíchua que narra o sacrifício de um adolescente, no qual utiliza recursos expressivos, como a criação de neologismos e metáforas vertiginosas. É proprietário de uma das mais originais e instigantes obras do Romantismo brasileiro.

Reflexão: Quem lê o futuro se condena ao esquecimento. Joaquim de Sousa Andrade (1833-1902), ou Sousândrade, dizia-se decepcionado por saber que seria lido 50 anos depois. Ele se referia à sua obra maior, O Guesa, poema épico de 13 cantos e 176 estrofes, cujo protagonista é um ser errante, em travessia pelo continente americano - seu destino é ser sacrificado por especuladores em Nova York. Apesar da importância, o livro só foi editado em edição fac-similar, de pequena tiragem. Esta é a primeira, desde o fim do século 19, edição integral, com a tipologia da época e sem a reprodução em fac-símile, com prefácio do poeta Augusto de Campos, com o seu irmão, Haroldo de Campos, escreveu Re-Visão de Sousândrade, e resgataram a obra do poeta maranhense nos anos 1960. 

Os grandes méritos de O Guesa residem, em grande parte, nas inovações estéticas do poema, especialmente nos episódios epigramáticos que Haroldo e eu denominamos Tatuturema e O Inferno de Wall Street. Uma das primeiras edições parciais do poema, publicada em 1877, em Nova York, onde o poeta residiu por vários anos, já traz essas sequências, nas quais ele usa recursos inusitados. 

Colagens de eventos colhidos nos jornais The New York Herald e The Sun, neologismos como 'sobre-rum-nadam' ou 'fossilpetrifique' e a diversidade tipográfica dão um aspecto incomum a esses epigramas dialogados. Mas não são apenas essas inovações, presentes em outros versos, que lhe conferem particular interesse. Trata-se de um poema épico com uma visão transamericana atípica: o personagem principal, o 'guesa', sem-lar ou errante, extraído da mitologia dos antigos músicas, índios colombianos, era um menino sacrificado em homenagem a Bochica, o Deus do Sol. Assumindo alegoricamente a sua persona, Sousândrade percorre vários países sul e centroamericanos e termina sacrificado pelos especuladores da Bolsa de Nova York.