Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Políticas públicas: Assassinos da Cultura

A gloriosa vingança contra os assassinos da cultura.

A arte brasileira sobreviveu às trevas que porta-vozes das políticas extremistas desejam retomar.

Protesto contra o cancelamento da exposição, 'Queermuseu'.

Revisra Liberta

O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro. O título do faroeste nacional dirigido pelo baiano Glauber Rocha – de Vitória da Conquista para o mundo, com sua ópera em cordel – encaixa direitinho no episódio de blasfêmia do pastor Silas Malafaia contra Wagner Moura.

Depois do triunfo do filme brasileiro O Agente Secreto no Globo de Ouro, no domingo passado, o agitador político da extrema direita xingou o artista de cretino. O líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo desafinou, no seu falsete característico, em defesa de Jair Bolsonaro, definido pelo ator como um ex-presidente fascista.

Malafaia puxou o coro dos descontentes com a premiação de O Agente Secreto nos EUA. O exército bolsonarista seguiu, nas redes sociais, nos rastros do ódio do pregador. Vivemos Dias de Ira – agora, citando outro filmaço das antigas, o “western spaghetti” com Lee Van Cleef e Giuliano Gemma.

Leitor da Bíblia, o pastor sabe que a ira, nesse caso, repousa no íntimo dos tolos, como registra o livro do Eclesiastes. A desesperada pregação, porém, revela o inconformismo dos fascistas tropicais – religiosos ou não-praticantes – com a evidência de que não assassinaram a cultura brasileira como premeditaram.

A cultura, aqui tratamos no sentido das produções artísticas, foi alvejada no período de 2018 a 2022, mas seguiu viva (e se bolindo), mesmo sob ataque permanente dos clubes de tiro.
Safra vingadora

O cinema, por causa do cartaz internacional do momento, é o alvo principal dos representantes da extrema direita. O ódio, porém, alcança a literatura (nas censuras e proibições a livros como O Avesso da Pele, de Jéferson Tenório), a música, o teatro e as artes plásticas. Nada escapa.

De forma mais organizada, esse tipo de ataque começou ainda na pré-campanha eleitoral de Jair Bolsonaro, em 2017, quando o MBL, ala juvenil extremista, atacou a exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, no Santander Cultural, em Porto Alegre. As autoridades gaúchas referendaram o vandalismo praticado pelo movimento de jovens fascistas contra obras relevantes de Adriana Varejão, Cândido Portinari, Lygia Clark e Leonilson, entre outros.

No governo bolsonarista, a assombração ganhou ares de nazismo. Na época, o secretário nacional de Cultura, Roberto Alvim, copiou, em pronunciamento, trechos de um discurso do ministro da Propaganda de Adolf Hitler, Joseph Goebbels.

Por ter sobrevivido a toda essa má sorte, a arte brasileira do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho pratica sua dourada vingança com O Agente Secreto, em nome dos sufocados do período de trevas, que Malafaia & Cia. desejam retomar.

Os prêmios para o ator baiano Wagner Moura e o de melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro são apenas os troféus mais reluzentes de uma safra vingadora, que larga com o fenômeno Ainda Estou Aqui e conta, agora, com mais dois cineastas recifenses de sucesso: Gabriel Mascaro e Marianna Brennand.

Mascaro dirigiu O Último Azul (com Rodrigo Santoro) e ganhou o Urso de Prata, o grande prêmio do Festival de Berlim, em 2025. Marianna foi premiada em Cannes, Veneza e concorre ao Goya da Espanha, em fevereiro.

O pastor Silas Malafaia, porta-voz da extrema direita, ainda terá muitos motivos para seus espetaculares falsetes do ódio e do ressentimento. Que venha o Oscar.

Xico Sá
Escritor e jornalista, faz parte da equipe de apresentadores do ICL Notícias. Com passagem por diversas redações e emissoras de tv, ganhou os prêmios Esso, Folha, Abril e Comunique-se. Participou de programas como Notícias MTV, Cartão Verde (Cultura), Redação Sportv, Papo de Segunda (GNT) e Amor & Sexo (Globo). É autor de Big Jato (Companhia das Letras) e A Falta (Planeta), entre outros livros. O colunista nasceu no Crato, na região do Cariri cearense, e iniciou sua trajetória profissional no Recife.