O resgate da figura do pai
A figura do pai amoroso, e não autoritário.
Cabe a ele ajudar que filhos e filhas amadureçam e se façam autônomos e livres.
Todo segundo domingo do mês de agosto celebra-se o Dia dos Pais. Constatamos, no entanto, que uma onda de crises que assolam a sociedade (pelo menos, a ocidental) não poupou a figura paterna. A justa crítica das feministas ao patriarcado e ao machismo e o estabelecimento científico da existência de uma era matriarcal, há 20 mil anos, caracterizada por uma profunda integração com a natureza e por uma intensa espiritualidade, ajudaram a pôr em xeque a pretensa primazia do homem e do pai. As reflexões das mulheres sobre sua própria identidade e a expressiva presença delas em todos os âmbitos da sociedade, junto com a crítica ao poderio patriarcal, aprofundaram a crise da representação do pai.
A complexa divisão do trabalho nas sociedades modernas dilacerou, em parte, os laços familiares, afetando especialmente a figura do pai. Este vai ao trabalho e, não raro, nem tempo tem para marcar presença junto à esposa e aos filhos e filhas. Por estas razões, alguns estudiosos falam do eclipse da figura do pai. Um autor alemão, A. Mitscherlich, escreveu um discutido livro: Rumo a Uma Sociedade Sem Pai (1963). Passa-se do pai ao grupo de amigos. A tradição psicanalítica de S. Freud, C. G. Jung e de outros deu centralidade à função do pai no desenvolvimento psicológico de filhos e filhas.
Diria que as mulheres, depois de tantos embates, definiram mais adequadamente sua identidade. Ao passo que os homens estão em busca de sua identidade num mundo tremendamente modificado e acelerado. Há uma saudade pela volta do pai amoroso e de sua função. Ela foi expressa há séculos na Odisseia, de Homero, quando Telêmaco, filho de Ulisses, diz: ”Se aquilo que os mortais mais desejam pudesse ser conseguido num abrir e fechar de olhos, a primeira coisa que eu quereria seria a volta do pai”. Estimo que há uma saudade da figura do pai não patriarcal, mas amoroso, e o que ele representa no desenvolvimento dos filhos.
Saudade da casa paterna
Por isso, mesmo com as mudanças havidas, é decisivo resgatar a figura do pai. Ele é imprescindível para um processo de individuação dos filhos e das filhas bem realizado. A ausência do pai pode produzir consequências graves.
Não sei qual é a situação em termos numéricos em nosso país. Tive acesso a estatísticas oficiais recentes dos EUA que referem os seguintes dados: 90% dos filhos fugidos de casa ou sem moradia fixa eram de famílias sem pai. Setenta por cento da criminalidade juvenil provinha de famílias onde o pai era ausente. Oitenta e cinco por cento dos jovens em prisões cresceram em famílias sem pai. Sessenta e três por cento de jovens suicidas tinham pais ausentes. Tais dados me reportam a um inspirador estudo de C. G. Jung, de 1949: A Importância do Pai no Destino do Indivíduo, e também ao de S. Freud, de 1924, A Dissolução do Complexo de Édipo.
Curiosamente, o cristianismo mostra a comovedora volta do pai na parábola do filho pródigo. Aqui invertem-se os papéis. O filho que saiu de casa e levou uma vida dissoluta sente saudade da casa paterna. Então, é o pai que volta ao filho saudoso, corre ao seu encontro, o enche de abraços e beijos e lhe prepara uma grande banquete, porque “este filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado”(Lucas 15,24). É a figura do pai amoroso, e não autoritário.
Para resgatar a figura do pai, se faz importante distinguir entre os modelos culturais de pai e a função permanente da figura do pai. Os modelos variam consoante os tempos e as culturas: o pai patriarcal, autoritário, amoroso, participante, companheiro e amigo. Uma é a figura do pai centralizador na cultura muçulmana, cercado de mulheres (poligamia); outra é a do pai na cultura ocidental monogâmica; e assim nas diferente espaços culturais.
A função do pai constitui estrutura permanente, imprescindível para o complexo processo de individuação da pessoa. Em todos os modelos, age esta estrutura permanente do pai, mas sem se exaurir em nenhum deles. A crise dos modelos libera esta estrutura sempre presente, chamada também do princípio paterno para novos modelos adequados ao nosso tempo.
Concentremo-nos nesta estrutura permanente do pai. A figura do pai é responsável pela primeira e necessária ruptura da intimidade mãe-filho/a e pela introdução do filho/a no mundo transpessoal, dos irmãos/irmãs, dos avós, dos parentes, dos amigos da família, numa palavra, nos muitos da sociedade.
Nesse mundo dos muitos, vigem ordem, disciplina, autoridade e limites. Os pais têm que trabalhar, realizar projetos, prover a família e exercer sua profissão. Tudo isso exige coragem, mostrar segurança e disposição para os sacrifícios necessários.
Por isso, mesmo com as mudanças havidas, é decisivo resgatar a figura do pai. Ele é imprescindível para um processo de individuação dos filhos e das filhas bem realizado. A ausência do pai pode produzir consequências graves.
Não sei qual é a situação em termos numéricos em nosso país. Tive acesso a estatísticas oficiais recentes dos EUA que referem os seguintes dados: 90% dos filhos fugidos de casa ou sem moradia fixa eram de famílias sem pai. Setenta por cento da criminalidade juvenil provinha de famílias onde o pai era ausente. Oitenta e cinco por cento dos jovens em prisões cresceram em famílias sem pai. Sessenta e três por cento de jovens suicidas tinham pais ausentes. Tais dados me reportam a um inspirador estudo de C. G. Jung, de 1949: A Importância do Pai no Destino do Indivíduo, e também ao de S. Freud, de 1924, A Dissolução do Complexo de Édipo.
Curiosamente, o cristianismo mostra a comovedora volta do pai na parábola do filho pródigo. Aqui invertem-se os papéis. O filho que saiu de casa e levou uma vida dissoluta sente saudade da casa paterna. Então, é o pai que volta ao filho saudoso, corre ao seu encontro, o enche de abraços e beijos e lhe prepara uma grande banquete, porque “este filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado”(Lucas 15,24). É a figura do pai amoroso, e não autoritário.
Para resgatar a figura do pai, se faz importante distinguir entre os modelos culturais de pai e a função permanente da figura do pai. Os modelos variam consoante os tempos e as culturas: o pai patriarcal, autoritário, amoroso, participante, companheiro e amigo. Uma é a figura do pai centralizador na cultura muçulmana, cercado de mulheres (poligamia); outra é a do pai na cultura ocidental monogâmica; e assim nas diferente espaços culturais.
A função do pai constitui estrutura permanente, imprescindível para o complexo processo de individuação da pessoa. Em todos os modelos, age esta estrutura permanente do pai, mas sem se exaurir em nenhum deles. A crise dos modelos libera esta estrutura sempre presente, chamada também do princípio paterno para novos modelos adequados ao nosso tempo.
Concentremo-nos nesta estrutura permanente do pai. A figura do pai é responsável pela primeira e necessária ruptura da intimidade mãe-filho/a e pela introdução do filho/a no mundo transpessoal, dos irmãos/irmãs, dos avós, dos parentes, dos amigos da família, numa palavra, nos muitos da sociedade.
Nesse mundo dos muitos, vigem ordem, disciplina, autoridade e limites. Os pais têm que trabalhar, realizar projetos, prover a família e exercer sua profissão. Tudo isso exige coragem, mostrar segurança e disposição para os sacrifícios necessários.
Ganhos e perdas
Ora, o pai é a concretização destas atitudes. Ele é a ponte para o mundo transpessoal e social. Nessa travessia, a criança se orienta pelo pai-herói arquetípico, que tudo sabe, tudo pode e tudo faz. Se faltar essa referência, a criança pode se sentir insegura, perdida e sem iniciativa.
Pertence à figura do pai fazer compreender a diferença entre o mundo dos poucos, da família, e o mundo dos muitos, da sociedade. Não há só aconchego, especialmente junto à mãe, mas também o trabalho do pai. Não há só ternura, mas também conflitos sociais. Não apenas ganhos, mas também perdas.
Há programas de entretenimento da televisão que exacerbam o desejo, fazendo crer que só o céu é o limite. É a ilusão do desejo. Cabe ao pai mostrar que não é bem assim e que em tudo há limite. Todos somos incompletos e podemos nos frustrar. E até dar-se conta de que há a morte de parentes ou de amigos queridos.
Operar esta verdadeira pedagogia desconfortável mas vital é atender ao chamado da função permanente do pai. Sem ela o pai está prejudicando seu filho/filha, talvez de forma duradoura. Uma figura de pai bem realizada, constitui a base para a criança ter uma imagem boa de Deus-Pai de bondade.
A sociedade moderna – com as tevês, os celulares, os tablets e todo tipo de programas virtuais – faz concorrência com o pai e lhe dificulta cumprir sua função permanente.
Mas nunca faltam figuras concretas de pais que conhecemos, que se imunizaram da impregnação patriarcal, que enfrentam obstáculos e vivem dignamente, trabalham duro, cumprem seus deveres de pais, mostram responsabilidade e determinação. Participam das tarefas domésticas.
Desta forma, cumprem a função permanente da figura do pai, função indispensável para que seus filhos e filhas amadureçam o seu eu e, sem perplexidades e traumatismos, se façam autônomos e livres. Até serem pais e mães de si mesmos. É o que este Dia dos Pais nos faz refletir.
Matéria:
Ora, o pai é a concretização destas atitudes. Ele é a ponte para o mundo transpessoal e social. Nessa travessia, a criança se orienta pelo pai-herói arquetípico, que tudo sabe, tudo pode e tudo faz. Se faltar essa referência, a criança pode se sentir insegura, perdida e sem iniciativa.
Pertence à figura do pai fazer compreender a diferença entre o mundo dos poucos, da família, e o mundo dos muitos, da sociedade. Não há só aconchego, especialmente junto à mãe, mas também o trabalho do pai. Não há só ternura, mas também conflitos sociais. Não apenas ganhos, mas também perdas.
Há programas de entretenimento da televisão que exacerbam o desejo, fazendo crer que só o céu é o limite. É a ilusão do desejo. Cabe ao pai mostrar que não é bem assim e que em tudo há limite. Todos somos incompletos e podemos nos frustrar. E até dar-se conta de que há a morte de parentes ou de amigos queridos.
Operar esta verdadeira pedagogia desconfortável mas vital é atender ao chamado da função permanente do pai. Sem ela o pai está prejudicando seu filho/filha, talvez de forma duradoura. Uma figura de pai bem realizada, constitui a base para a criança ter uma imagem boa de Deus-Pai de bondade.
A sociedade moderna – com as tevês, os celulares, os tablets e todo tipo de programas virtuais – faz concorrência com o pai e lhe dificulta cumprir sua função permanente.
Mas nunca faltam figuras concretas de pais que conhecemos, que se imunizaram da impregnação patriarcal, que enfrentam obstáculos e vivem dignamente, trabalham duro, cumprem seus deveres de pais, mostram responsabilidade e determinação. Participam das tarefas domésticas.
Desta forma, cumprem a função permanente da figura do pai, função indispensável para que seus filhos e filhas amadureçam o seu eu e, sem perplexidades e traumatismos, se façam autônomos e livres. Até serem pais e mães de si mesmos. É o que este Dia dos Pais nos faz refletir.
Matéria:
por - Leonardo Boff
@RevistaLiberta
15 ago 2026
Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.
15 ago 2026
Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.

Nenhum comentário:
Postar um comentário