Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
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terça-feira, 13 de outubro de 2026

Tom Zé


TOM ZÉ
' o cientista da música brasileira '

Pequenos detalhes sempre mexeram com a cabeça de Antonio José Santana Martins, nascido em 11 de outubro de 1936, em Irará, interior da Bahia, a 120 quilômetros de Salvador: Como ensinar a irmã mais nova a andar de bicicleta descrevendo cada movimento conjunto do mecanismo? Como é que sinais viram letras e essas letras geram significados? A curiosidade sempre fez parte da vida de Tom Zé: tudo remoía seu pensamento, o mundo propunha problemas e alumbramentos.
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História em Cronologia Artística

Aprendeu a gostar de música ainda pequeno, ouvindo Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, samba-de-roda e os grandes cantores do rádio. Numa gaitinha, descobriu a maravilha de converter sopro em som e conseguiu tirar algumas poucas notas de Asa branca. Aos 17 anos, descobriu o violão e sua vida mudou. Ainda na adolescência, descobriu Os sertões, de Euclides da Cunha, que lhe mostrou com uma amplitude nova o que eram ele e a gente do Nordeste do Brasil, assumindo uma importância definitiva no seu pensamento.

Logo depois a música se tornou mais central em sua vida e ele compôs uma canção para o filme Jana e Joel, enquanto ainda morava em Irará. Em 1961 Tom foi trabalhar numa loja de presentes aberta pela família, mas por influência de sua tia Gilka, esposa do tio e deputado Fernando Santana, mudou-se para Salvador para se iniciar profissionalmente como músico. Logo depois tornou-se diretor de música do CPC (Centro Popular de Cultura), onde ficou até 1964. 

Aos 26 anos, em 1962, passou em primeiro lugar no vestibular da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia. Teve o privilégio de ser aluno da nata da vanguarda musical européia, como H. J. Koellreutter e Ernst Widmer. Na universidade, foi um dos membros fundadores do Grupo de Compositores da Bahia (música erudita). Ainda em 1962, o jornalista Orlando Senna apresentou-o a Caetano Veloso.

Em 1964 participou do show Nós, por exemplo e Nova bossa-velha & velha bossa-nova, com Caetano, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia, entre outros, que foram a semente do grupo tropicalista. Com o sucesso das apresentações, os artistas foram convidados para criar outro show no Teatro de Arena de São Paulo, intitulado Arena canta Bahia.

O ano era 1965. Tom Zé veio com Caetano para São Paulo, chegando em 11 de agosto. Apesar do êxito dos músicos baianos no eixo Rio-São Paulo, Tom Zé quis terminar seus cursos na UFBA; afinal, ganhara uma bolsa de estudos na universidade, ao pretender deixá-la por falta de recursos. Voltou para Salvador e continuou a estudar, trabalhando também como jornalista no Jornal da Bahia. Só em 1968 viria definitivamente para São Paulo.

Em 1967, depois de se formar, foi professor de Contraponto e Harmonia na própria Escola de Música e violoncelista da Orquestra Sinfônica e da Orquestra de Estudantes da universidade. Em 1968, em São Paulo, Tom Zé foi levado por Caetano a Guilherme Araújo, empresário do chamado “grupo baiano”. Guilherme sugeriu que ele, ainda conhecido pelo apelido de infância Toinzé, adotasse o nome artístico de Tom Zé. Nesse ano, o artista venceu o 4o. Festival de Música Popular Brasileira com a canção São São Paulo meu amor, ganhando ainda o prêmio de melhor letra com 2 001, parceria com Rita Lee que recebeu a interpretação dos Mutantes. 

Ainda em 68 os músicos baianos lançaram Tropicália – Panis et circensis, disco provocador, que pôs em questão a MPB. Tom participou com a faixa Parque industrial, uma crítica aos meios de comunicação de massa. Para fechar o grande ano, Tom Zé lançou seu primeiro disco epônimo, subtitulado Grande liqüidação, composto entre abril e junho. Entre os destaques, Profissão de ladrão, Catecismo, creme dental e eu, Parque industrial, Não buzine, que eu estou paquerando. Os títulos revelam o conteúdo de reflexão sobre a vida urbana, sobre a acelerada transformação de costumes na vida brasileira. 

Em 69, com Gal, Tom Zé apresentou o show O som livre de Tom Zé e Gal Costa, em São Paulo e no Rio de Janeiro.O Tropicalismo permitiu que Tom Zé levasse para o movimento sua forma de compor, sua ruptura de padrões, que juntavam o folclore riquíssimo do sertão baiano, um certo primitivismo atemporal e uma elaboração extremamente avançada, à frente de seu tempo. “Procuro fazer a antimúsica, porque se é pra fazer o que já está feito…”, dizia ele então e e diz até hoje. Isso tornou sua produção difícil de classificar, os rótulos não se colam a ela de maneira precisa, propõe problemas críticos e de conceituação.

Seu quarto disco, Todos os olhos, de 1973, comprova essa dificuldade de classificação e mostra o que Tom Zé buscava. Sem ter como enquadrar sua música, as emissoras de rádio se afastaram e levaram Tom Zé ao esquecimento por parte do grande público. Pelos próximos 17 anos sobreviveu fazendo shows em universidades pelo Brasil. Em 1975, trabalhou como ator e cantor na peça Rocky horror show, dirigida por Rubens Correia, no Teatro da Praia (Rio de Janeiro). Lançou ainda, no final da década de 70, os discos Estudando o samba(76) e Correio da Estação do Brás (78). Trabalhou alguns meses na agência publicitária DPZ.

Em 1978, em pleno ostracismo, deu um grande passo artístico, colocando sobre o palco do Teatro da Fundação Getúlio Vargas, num show memorável, os instrumentos que construiu, como o hertzé, o enceroscópio e o buzinório. O primeiro, o hertzé, antecipou o que seria, em concepção geral, o sampler.

Vende casa para desenvolver instrumentos experimentais, numa evolução musical que se estendeu por anos. Em 1984, lança Nave Maria (RGE), ponto de partida para novos caminhos musicais posteriores.

Quando Tom Zé se preparava para deixar a carreira musical, por dificuldade de sobrevivência, o músico David Byrne, de passagem pelo Rio de Janeiro, descobriu o disco Estudando o samba e, ao fundar o selo Luaka Bop em Nova York, teve Tom Zé como seu primeiro contratado. O cd The best of Tom Zé foi listado, em seu lançamento, entre os melhores discos do ano de 1990, pelo jornal The New York Times. 

Em 99 a revista Rolling stone o colocou entre os melhores discos da década. A renomada companhia de dança brasileira, o Grupo Corpo, tem dois brilhantes trabalhos de Tom Zé entre suas trilhas sonoras especialmente compostas: Parabelo (parceria com José Miguel Wisnik, 1997) e Santagustin (parceria com Gilberto Assis, 2001). Com defeito de fabricação, cd de 1998, projetou o compositor também como performer numa turnê americana. As turnês européias confirmavam autor e repertório como alvo de interesse do público e da grande crítica internacional. O cd recebeu remixes de artistas como Sean Lennon, Tortoise e Stereo Lab.

Em 2000 veio Jogos de armar, da Trama, primeiro lançamento por uma gravadora brasileira depois de mais de 20 anos. Nele estão registrados, finalmente, seus instrumentos experimentais e ousadias formais que o colocam mais uma vez como desafio à criatividade musical de seu tempo. Enceradeiras e cantos de lavadeiras nordestinas, expressões verbais contundentes e sonoridades remetendo a Cage e música medieval, recursos costurados numa força brasileira explosiva. Próximos cds: Imprensa Cantada, expressando o artista chama de jornalismo cantado, quando os acontecimentos do presente são o motor das composições. 

No próximo disco, uma opereta popular, Estudando o Pagode* – Segregamulher e Amor, as relações entre homem e mulher tomam a frente, sob a forma de duetos/duelos rítmicos e provocativos. O disco Danç-Êh-Sá – Dança dos Herdeiros do Sacrifício tem como tema rebeliões e levantes das populações negras e indígenas do Brasil, não muito destacados pela história oficial. Tom Zé “fala” desses acontecimentos num disco eminentemente musical, fortemente rítmico, cujas vocalizações são formadas unicamente por onomatopéias e sonoridades verbais, sem recorrer a versos explícitos. “Somos um país negro, somos herdeiros do trabalho e da cultura dessa raça que nos formou”, diz Tom Zé, falando sobre o Brasil. O cd foi escolhido, numa votação popular, como o melhor de MPB em 2007. 

Em 2008, lançado Estudando a Bossa, participações de Fernanda Takai, Arnaldo Antunes e outros artistas, pensamento musical de um tropicalista admirador da bossa nova. Em 2009, Pirulito da Ciência, cd e dvd ao vivo cuidadosamente elaborados por Charles Gavin (produtor, ex-Titãs), reunindo canções expressivas da carreira de Tom Zé.

Em 2010, a Luaka Bop (New York) lança a caixa Studies of Tom Zé – Explaining things so I can confuse you”, lps e cds agrupados pela aprovação da crítica internacional. Em 2012, Tropicália Lixo Lógico, apoio do projeto Natura Musical, define musicalmente o Tropicalismo. Participação de Emicida, Mallu Magalhães; Tribunal do Feicebuqui lançado em 2013, formato discográfico pouco usual, importantes participações.

Em 2014, Vira lata na Via Láctea, primeira parceria em canção de Tom Zé e Caetano Veloso. O artista compara o disco a templos românicos, em que pluralidade de ângulos se casa, musicalmente, à pluralidade de enfoques musicais das canções. 2015: nos E.U.A., site Pitchfork designa Nave Maria como marco musical dos anos 80. Em 2016, lançado Canções eróticas de ninar, que ganha o Prêmio de Música Popular Brasleira. No mesmo ano, Tom Zé lança, com parceria do desenhista Elifas Andreato (que prefere essa qualificação, recusando a de designer), o disco para crianças Sem você não A. Estimulante para a participação e a acuidade infantil, como se comprova no show do disco apresentado no Sesc Pinheiros. 


Ainda em 2016: Prêmio de melhor show da década em Portugal. Festivais WOMAD (Chile) e MIMO (Portugal). Olimpíada encerrada com Xique-Xique, pelo Grupo Corpo. Lança o disco Canções eróticas de ninar. 2017: Prêmio Faz a diferença, Música – O Globo. Exposição Tom Zé 80 anos (completados em 2016), em Salvador e Petrópolis. Prêmio música brasileira: melhor disco (Canções eróticas de ninar) e melhor canção (Descaração familiar). Lança disco infantil Sem você não A, parceria com Elifas Andreato. 

Em 2018 Tom Zé vai aos E.U.A. para conferências sobre seu trabalho, nas New York e Brown University. Exposição Tom Zé 80 anos – São Paulo. Conferências nos E.U.A., na New York University e na Brown University, sobre seu trabalho musical. Em 2019 destacam-se o Moers Festival de Vanguarda (Alemanha). Itália, lançamento da biografia Tom Zé – l’ultimo tropicalista, de Pietro Scaramuzzo. Japão, apresentações em Tóquio e no Frue Festival, em Shizuoka. Ovacionado com entusiasmo pela habitualmente comedida plateia japonesa, que o saudou calorosamente, não poupando troca de abraços não habitual no país. 

Marcante vivência artística e humana. Ressalte-se, por oportuno, ser Tom Zé o compositor que, segundo o pesquisador Assis Ângelo, mais canções compôs para São Paulo, cidade onde vive há décadas. No livro “Bertolt Brecht – Poesia” – compilação e tradução de André Vallias, a página 63 menciona Tom Zé como “o mais brechtiano dos tropicalistas”, exemplificando com sua canção “Tô”.


Tom Zé: Jesus, Floresta Amazônica

Tom Zé
' Jesus, Floresta Amazônica '

A ideia da canção em que Jesus Cristo, em uma segunda encarnação, renasce como Floresta Amazônica, passa também, de raspão, por um incidente curioso. Felipe Hirsch foi comigo à direção do Sesc, quando Danilo a exercia. Em alguns segundos, brevíssimo tempo, comentei com Danilo que queria fazer uma canção na qual Cristo escolhe renascer como floresta. Numa segunda encarnação. 

Casualmente, naquele momento Danilo estava sozinho na mesa, mas a maneira como ele olhou para os lados, foi como se me dissesse: “Você tem que guardar essa ideia em profundo segredo, até lançar a música”. Só agora, passados 3 anos, depois dos problemas da pandemia, eu consegui juntar forças para compor a canção com esse assunto. Está aqui, lançamos agora. Portanto esta canção, Jesus, Floresta Amazônica, pode ser considerada também uma homenagem ao saudoso Danilo, o mentor, através do Sesc, de uma metamorfose ampla na nossa cultura, como afirma Washington Olivetto. - Assinado: Tom Zé.

 Ficha Técnica

Mixagem: Tom Zé e Daniel Maia 
Masterização: Daniel Maia 
Tom Zé: voz 
Daniel Maia: violões e guitarras 
Cristina Carneiro: teclados 
Felipe Alves: baixo 
Fabio Alves: bateria e percussão 
Andreia Dias, Luanda Lemos, Jarbas Mariz e Daniel Maia: vocais


Letra

Salvar a humanidade Com riso ou com sacrifício Bate com majestade No peito de Jesus Cristo. Raio de forte clarão Subiu pela Sua testa Na segunda encarnação Voltará como floresta. Ele trouxe a biomimética A floresta que tem ética Que de ouro enche a maleta Sem destruir o planeta E ainda será uma modesta poupança Com umas moedas na gaveta Se livra da morte na sarjeta. 

Ôi, ôi Jesus 
Ôi, ôi amém 
Ôi, ôi, ah ah amém. 

Ôi, ôi Jesus 
Ôi, ôi amém 
Ôi, ôi, ah ah amém. 

Foi por demais precioso O cabedal que Ele trouxe Quando Jesus piedoso Na Amazônia encarnou-se. Da Amazônia coitada Não ficaria nem pista Tão longe de Deus Tão perto da onda vigarista Mas o Papa Francisco Gritou o nome de Cristo: Temos tempo pra salvar Então vamos todos lutar. 

Quando Jesus milagriza Entorta o espaço-tempo De madrugada já pisca Rascunho do testamento. O estilo de vida ocidental É como o diabo gosta O rico só quer o lucro A riqueza sobre tudo Se você quer respirar O ar sem o CO2 Lute com uis! e ois! Nunca deixe pra depois. 

Quando Ele se manifesta O amor já me sequestra Na alegria da floresta A oração vira festa. Agora a mineração Que faz de tudo um deserto Destrói a casa do índio Saúde vira um inferno Com mercúrio mata o peixe Comida que Deus nos deu Se a gente não lutar Nem Cristo pode salvar.

terça-feira, 5 de maio de 2026

MPBrasileira: Discos do Brasil - Um riquíssimo catálogo da música brasileira!

DISCOS DO BRASIL
' Um site com a mesma riqueza da música brasileira. '

Uma discografia Brasileira por Maria Luiza Kfouri, 'Mana'.

Você é muito bem-vindo ao site Discos do Brasil.

Antes de começar a navegá-lo, é preciso que você saiba que esta Discografia é baseada em minha discoteca particular, que comecei a formar em 1965, aos 11 anos de idade, fascinada diante da movimentação musical que eu acompanhava pela televisão e pelos diversos espetáculos a que era levada em São Paulo.

Aqui você vai encontrar as discografias completas de muitos artistas surgidos com a Bossa Nova ou depois dela – como, por exemplo, as de João Gilberto, Tom Jobim, Elis Regina, Chico Buarque, Caetano Veloso, Edu Lobo, Gilberto Gil, Baden Powell, Maria Bethânia, Paulinho da Viola – e, ainda, as de Dorival Caymmi, Noel Rosa e Cartola. Outros grandes nomes de todos os tempos da música brasileira estão aqui, mesmo que suas discografias não se apresentem completas.

Tenha sempre em mente que este trabalho não traz “A” discografia do Brasil e, sim, “UMA” discografia brasileira com um recorte muito pessoal.

Além dos títulos dos discos, dos anos em que foram lançados, das músicas que os compõem e de seus autores, esta discografia tem como grande diferencial o fato de listar os músicos acompanhantes, as faixas em que tocam e cada um dos instrumentos que estão tocando.

Nos casos em que a ficha técnica não especifica a participação do músico por faixa, dediquei-me ao lento e meticuloso trabalho de ouvir cada uma delas para identificar todos eles (nos discos em que isso acontece sempre há uma observação). Quanto aos arranjadores, também estão relacionados por disco – quando seus nomes aparecem na ficha técnica – e por faixa – quando a ficha traz essa especificação.


O site permite uma navegação simples, possibilitando o acesso às informações pelo título do disco, ou pelos nomes do intérprete, da música, do compositor, do arranjador, do músico e, até, por alguma participação especial que o disco tenha. É possível, também, conhecer as parcerias entre os compositores


Você pode, ainda, ouvir as músicas por 30 segundos. E por que somente 30 segundos? Em respeito aos direitos dos autores, dos cantores e dos músicos. Uma seta aparece ao lado do nome da música e, ao clicar nela, você ouve um trecho da faixa.

Este site estará em permanente construção, pois será constantemente atualizado com os lançamentos e também com aqueles discos que, por qualquer impossibilidade, ainda não estejam aqui.

Discos do Brasil entrou na rede em maio de 2005, com pouco mais de 4 mil discos catalogados. A partir de fevereiro de 2010, o site passou a contar com mais de 6 mil discos, 1.866 intérpretes principais, 44.652 músicas, 16.049 músicos, 2.537 arranjadores e 10.233 compositores registrados. Em dezembro de 2020, são 7.482 discos, 2.424 intérpretes principais, 56.017 músicas, 53.428 músicos, 3.321 arranjadores e 12.028 compositores registrados. E o trabalho continua.

Espero que você o aprove e que, por meio dele, possa aprofundar seus conhecimentos sobre a grande música que esse país produz.
(Maria Luiza Kfouri)
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Sobre a autora:
Nascida em São Paulo, quatro anos antes da Bossa Nova, Maria Luiza Kfouri é jornalista e musicóloga.

Foi coordenadora musical da Rádio Gazeta FM (SP) em 1988, ano em que a emissora recebeu – da Associação Paulista dos Críticos de Artes (APCA) – o prêmio de melhor programação musical. Entre 1989 e 1995, foi diretora da Rádio Cultura AM de São Paulo, onde co-dirigiu e co-produziu as séries “Noel Rosa, as Histórias e os Sons de uma Época” (1991); “Elis. Instrumento: Voz. Uma Travessia em 6 Tempos” (1992) – prêmio APCA; “Vinícius. Poesia, Música e Paixão” (1993) – prêmio APCA; “Caymmi por Ele Mesmo” (1994) – prêmio APCA.

Maria Luiza é autora da “Cronologia” e “Discografia” que estão na segunda parte do livro “Furacão Elis”, lançado originalmente em 1985.

Em 2004 escreveu os capítulos “Breve Histórico do Violão” e “Grandes Mestres” do livro “Violões do Brasil”, projeto organizado por Myriam Taubkin que envolve, ainda, um CD duplo e um DVD.

Em 2005 escreveu o capítulo “História”, do livro “Um Sopro de Brasil”, projeto também organizado por Myriam Taubkin.

Em 2020, continua a atualizar constantemente o site, escreve sobre música brasileira e, devido à quarentena imposta pela pandemia do coronavírus, participa de inúmeras “lives”.

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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

MPB: Bossa Nova

A história da Bossa Nova

A Bossa Nova é um gênero musical que surgiu no Brasil no contexto da industrialização vivida no governo de Juscelino Kubitschek.

A Bossa Nova é um gênero musical brasileiro que surgiu no final da década de 1950 e que possui influências do samba e do jazz estadunidense. 

Criada por João Gilberto, a Bossa Nova marca uma ruptura com o estilo, som e atitude da música brasileira tocada nas rádios até aquele momento.


Origem da Bossa Nova

A Bossa Nova surgiu em 1958, no Rio de Janeiro, sob liderança de João Gilberto, um músico nascido na Bahia, mas que durante toda a década de 1950 buscou novas experiências musicais no Rio de Janeiro.

Até o início da Bossa Nova, a música brasileira dos anos de 1930 era caracterizada pelos excessos. Grandes arranjos instrumentais acompanhavam grandes interpretações vocais, obedecendo um estilo operístico.

A persona dos cantores dessa época também era uma forte característica. Os cantores possuíam uma imagem exuberante, com trajes glamourosos e postura teatral em cima e fora dos palcos. Todo esse glamour criava um afastamento simbólico e físico entre os artistas e o público.

João Gilberto considerava esse contexto musical melodramático e inadequado para os novos tempos do país e do mundo. Dessa forma, começou uma busca experimental por um estilo que fosse adequado para o Brasil e o mundo daquela época.

Sobre o contexto, é importante ressaltar o momento político-econômico em que o Brasil estava inserido na década de 1950. Enquanto nação, vivenciavam-se os processos de urbanização e industrialização do governo de Juscelino Kubitchek, e sendo a arte uma representação e expressão de sua época, a Bossa Nova estava atrelada a aquele momento.

Se até então o exagero era o padrão, a Bossa Nova propôs o contrário: a simplicidade. Nesse movimento, João Gilberto se uniu a Tom Jobim, Newton Mendonça, Carlos Lyra, Vinicius de Moraes e Nara Leão na criação da Bossa Nova.

Características da Bossa Nova

A principal característica da Bossa Nova era a simplicidade. Com uma releitura do samba tradicional, a Bossa Nova proposta por João Gilberto trouxe uma forma mais intimista de fazer música.

Fazendo substituição das grandes orquestras por violão, piano, percussão e baixo, agora a voz se coloca de maneira pequena, sem grandes exibições de potência vocal e mantendo um diálogo com os instrumentos da música.

As músicas inaugurais da Bossa Nova são Desafinado, de 1958, e Samba de uma nota só, de 1960. Ambas são de Tom Jobim e Newton Mendonça. As canções ganharam novo tom quando interpretadas por João Gilberto, que deu então forma para a Bossa Nova.

Chega de Saudade, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, é outra música que quando interpretada por João Gilberto ganhou um novo tom de estilo, substituindo orquestra por voz e violão.

Tom Jobim e Bossa Nova

Apesar de ter tido uma formação erudita, foi na música popular onde Tom Jobim se encontrou artisticamente. Cantor, compositor, pianista, violonista e maestro, Tom Jobim teve um importante papel na ascensão da Bossa Nova no Brasil e no mundo.

Enquanto João Gilberto trouxe o ritmo e a batida, Tom Jobim trouxe uma harmonia um pouco mais requintada ao movimento. Sua participação na Bossa Nova foi imortalizada em composições como Garota de Ipanema (1962), Eu sei que vou te amar (1958), Águas de março (1972), Pela luz dos olhos teus (1977), entre outras.

Por que a Bossa Nova acabou?

Com o Golpe Militar de 1964, a música brasileira passou por mais uma transformação. Novamente refletindo seu tempo, a arte saiu das composições leves e arranjos simples da Bossa Nova para trazer temas sociais para suas letras e performances artísticas.

Nesse sentido, marca-se o “fim cronológico” da Bossa Nova em 1966 e o surgimento da MPB (Música Popular Brasileira).

Entretanto, o fim do movimento não significou o fim da produção artística e musical da Bossa Nova. Águas de março, de Tom Jobim, surgiu quase uma década depois da ditadura musical, por exemplo.

Bossa Nova x MPB

Entender a diferença entre os movimentos musicais é entender a necessidade política e artística em que ambos estavam inseridos. Se a Bossa Nova surgiu na zona sul do Rio de Janeiro em um momento de industrialização do Brasil, a MPB emergiu como uma resposta inteligente, irônica e de resistência ao golpe militar.

A música que marcou a transição foi Arrastão, composta por Vinícius de Moraes e Edu Lobo. A canção foi cantada por Elis Regina em 1965, no Festival de Música Popular Brasileira. A Banda, de Chico Buarque, e Disparada, de Geraldo Vandré, foram canções apresentadas na edição seguinte do festival e também marcaram o movimento de transição.

A partir de então, surgiram diversos nomes da MPB em todo o Brasil. Na Bahia, Maria Bethânia, Caetano Veloso e Gal Costa; no Pará, Fafá de Belém; de Minas Gerais, Clara Nunes; e assim por diante.

Influência internacional da Bossa Nova

A Bossa Nova extrapolou as fronteiras geográficas do Brasil. Talvez pela influência do jazz estadunidense, o gênero brasileiro foi reconhecido e bem-aceito por parte da comunidade artística internacional.

Garota de Ipanema, por exemplo, é a canção brasileira mais famosa no mundo inteiro. Em 2005, a composição de Tom Jobim e Vinicius de Moraes foi considerada pela Biblioteca do Congresso norte-americano uma das 50 grandes obras musicais da humanidade.

A canção foi regravada por diversos nomes da música internacional, como Frank Sinatra, que fez a versão em inglês, The Girl from Ipanema, do clássico brasileiro. Anos depois, a canção ganhou um cover da cantora britânica Amy Winehouse, sendo colocada como parte de seu álbum póstumo.

Apesar dos exemplos acima serem voltados para artistas do jazz, a influência da Bossa Nova também rompeu a barreira dos gêneros. Em 2021, a cantora Anitta utilizou sample de Garota de Ipanema para criar a música Girl from Rio, de seu projeto internacional.

Outra referência à Bossa Nova está na música Billie Bossa Nova, de Billie Eilish, uma cantora estadunidense. A canção em inglês traz em sua construção harmônica apenas voz e violão, com batidas em homenagem ao gênero brasileiro acompanhadas por uma interpretação vocal simples e concisa. O nome da canção deixa clara a alusão ao gênero em que foi baseada.


Alguns artistas

João Gilberto, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Nara Leão, Carlos Lyra, Roberto Menescal, Baden Powell, Maysa, Edu Lobo, Johnny Alf, João Donato e Chico Buarque.


quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

MPB: TIM MAIA

Tim Maia

' Patrono do Funk e Soul Music brasileiro '


Sebastão Rodrigues Maia nasceu no dia 28 de setembro de 1942, na Rua Afonso Pena 24, coração do tradicionalíssimo bairro da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro. Por volta dos sete anos, já compunha suas primeiras músicas.

Formou em 1956 o seu primeiro conjunto musical, Os Tijucanos do Ritmo que faziam o circuito das paróquias cariocas com certa influencia de artistas como Trio Los Pancho, Sonora Matancera e Perez Prado. O conjunto não durou por muito tempo após uma discussão e quebra de um violão, mas seu pai um admirador apostou no menino precoce, dando-o como incentivo outro instrumento. Em 1957 forma o grupo Sputniks.
Rumo à América

Antes de completar dezessete anos, viajou para os EUA criando o conjunto “The Ideals” gravando a música New Love, de sua autoria. Com um grave semelhante ao de Barry White, contaminado pela sonoridade dos “The Isley Brothers”, sua jornada americana terminou na América do Norte sendo forçado a retornar ao seu país de origem.
O Caminho para o Sucesso

Em 1968, produziu o disco “A Onda É o Boogaloo”, de Eduardo Araújo. Pioneiro, Tim foi o grande responsável por trazer a sonoridade da soul music para a Jovem Guarda. Mas a grande virada veio mesmo quando o já consagrado Roberto Carlos gravou uma canção de sua autoria, “Não Vou Ficar”, para o álbum Roberto Carlos (1969). 

A canção que também fez parte da trilha sonora do filme Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-rosa, foi um grande sucesso e ajudou a abrir várias portas para que Tim pudesse partir enfim, para o seu primeiro trabalho solo, um compacto lançado pela CBS em 1968, que trazia duas músicas de sua autoria chamadas “Meu País” e “Sentimento”.

Sua carreira no Brasil se consolidou a partir de 1969, quando gravou um compacto simples pela Fermata com “These Are the Songs” (regravada no ano seguinte por Elis Regina em duo com ele e incluída no álbum “Em Pleno Verão”, de Elis) e “What Do You Want to Bet”.

A partir daí, o nome de Tim Maia ganhou enorme projeção entre músicos e executivos da indústria fonográfica.



Programa: Tim Maia

O Funk de Tim Maia

l Programa l
l O Som do Vinil l
l Álbum - Tim Maia (1970) l

O temperamento explosivo escondia o sacerdócio de Tim Maia com a música. No programa, Charles Gavin desvela o processo criativo do cantor e compositor - sempre em busca de um "som arenoso, estrelado" - com a ajuda de Roberto Menescal, André Midani e Nelson Motta, amigo e biógrafo de Tim.




terça-feira, 25 de novembro de 2025

MPB: Francisco, el Hombre

Francisco, el Hombre

Maravilhosamente latinos ...


Sebastián Piracés-Ugarte está empolgado com o resultado depois de meses no estúdio. O vocalista da banda méxico/brasileira, "Francisco, el Hombre", vislumbra o disco de estreia da banda e não tem meias-palavras para determinar as intenções do trabalho: “Foda-se o que fizemos antes. Vamos enterrar La Pachanga! É agora que começa”. Sebastián se refere ao novo EP que apresentou o quinteto ao público como uma das bandas mais animadas e contagiantes do cenário independente.


Com seis faixas, La Pachanga! destacou principalmente as origens do Francisco, el Hombre: uma banda multicultural, formada por dois mexicanos (os irmãos Sebastián e Mateo) e três brasileiros (Andrei Kozyre , Juliana Strassacapa e Rafael Gomes). O grupo, estabelecido em Campinas (SP), firmou-se tocando nas ruas, transmitindo a energia e a liberdade de estar na estrada, e incorporando o nome do lendário músico viajante popularizado no clássico livro Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez. 

Um contratempo trouxe a banda às manchetes num episódio de assalto que sofreram na cidade argentina de Mendoza, no começo de 2015. Na ocasião, eles estavam viajando pela América Latina fazendo uma turnê e tiveram todos seus  pertences e equipamentos roubados.

Como disse Sebastián, a banda está trazendo novas sonoridade  se esforçando para deixar o passado para trás: “La Pachanga! pinta essa imagem de que somos uma banda bonitinha, dançante, quase inofensiva, sabe? E estamos longe disso. Na verdade, somos muito mais que isso.” Gravado no estúdio Navegantes, em São Paulo, o primeiro disco cheio do Francisco, el Hombre traz produção de Zé Nigro e tem como referências sonoras Metá Metá e Nação Zumbi, além da constante música latina. Explorando a pluralidade de todos os integrantes da banda, eles destacam o contexto da sociedade em suas letras. Som intenso, agressivo, furioso e triste, mas sempre com muita dança e descontração.

As músicas do trabalho foram quase todas feitas nos dois meses antes de a banda entrar em estúdio e refletem o turbulento momento político brasileiro (uma das faixas, com participação de Liniker, se chama “Bolsonada”). “Em vez de tentar dar uma cara atemporal, decidimos encarar o agora. E política faz parte de quem somos, mas no La Pachanga! isso ficou escondido”, explica o vocalista. 

| SOM NO SEBO |


Canal: 

Depois de 12 anos de intensa trajetória musical, os talentosos Mateo e Sebastián Piracés-Ugarte, Ju Strassacapa, Andrei Kozyreff e Helena Papini decidiram dar uma pausa nas atividades de banda para explorar novas possibilidades individuais. Em meio a essa transição, "O som no sebo" se destaca como o último registro audiovisual do grupo, capturando a essência única de sua música. 

Conhecido por mesclar ritmos latinos e letras com forte apelo político, o quinteto encanta o público com sua energia ao vivo e consegue unir admiradores de língua portuguesa e espanhola. Sua presença em grandes festivais, como Lollapalooza e Rock in Rio, consolidou ainda mais sua reputação no cenário musical. Em 2017, Francisco, el Hombre foi indicado ao Grammy Latino pela canção "Triste, Louca ou Má", mostrando a força de sua mensagem e criação artística. Assim como o personagem Francisco, uma figura do folclore colombiano que dá nome à banda, esperamos que esses cinco viajantes do som trilhem caminhos impressionantes e, em breve retornem para nos presentear com novas canções! 

Setlist: 
- Hoje é Segunda-Feira 
- O tempo é sua morada 
- Loucura 
- Arrasta 

Músicos: 
Sebastián Piracés-Ugarte – vocal, percussão e violão 
Juliana Strassacapa – vocal e percussão 
Helena Papini – baixo
Mateo Piracés-Ugarte – vocal e violão 
Andrei Martinez Kozyreff – guitarra 

Enquanto aguardamos os projetos individuais, conheça os trabalhos da banda !! 

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

MPB: JARDS MACALÉ

Jards Macalé
O ‘anjo torto’ da MPB

Nascido no Rio de Janeiro em 1943, Jards Anet da Silva iniciou sua trajetória musical na década de 1960. Sua primeira composição chegou ao público em 1964, gravada por Elizeth Cardoso. Macalé transitou em sua carreira por bossa nova, rock, blues, samba e choro, sempre com seu timbre característico e um violão de forte influência erudita. 


História e carreira artística:

Desafinar o coro dos contentes parece ter sido tarefa que o carioca Jards Macalé assumiu para si. Quando pedimos a delicadeza, ele nos traz o ruído; quando o esperamos delirante, lá vem ele reverente, sempre como se dissesse: Eu só faço o que quero — aliás, título de sua biografia escrita por Fred Coelho.

Esse artista desorienta quem observa a cultura a partir de categorias como “gêneros”, “movimentos”, “nichos”. Senão, vejamos: bastaria dizer que ele foi aluno de Guerra-Peixe, Peter Dauelsberg, Turíbio Santos e Esther Scliar para que se pensasse que estamos falando de um erudito. Mas se lembrássemos que ele foi violonista do Grupo Opinião, que compôs com Vinícius de Moraes e que Elizeth Cardoso, Nara Leão e Clara Nunes gravaram canções suas, talvez nos parecesse correto situá-lo entre os nacionalistas de esquerda da MPB que vicejou entre bossa nova e tropicália.

Acontece que o apartamento de sua família no Rio, onde se hospedava Maria Bethânia, recém-chegada da Bahia e então produzida por ele, passou a ser frequentado por Caetano Veloso, Gal Costa, Hélio Oiticica e Torquato Neto pouco antes da eclosão do movimento que mudaria os rumos da cultura brasileira. Então Macalé, participante daqueles debates, teria sido um tropicalista?

Aqui mais uma vez ele nos desconcerta, pois seu happening tropicalista (a interpretação de Gotham City, parceria com Capinam, no IV FIC da TV Globo, com arranjo explosivo de Rogério Duprat) aconteceu em 1969, quando o movimento já chegara ao fim e Caetano e Gilberto Gil partiam para o exílio em Londres. O público retribuiu a provocação de Macalé com uma das maiores vaias da história dos festivais. Talvez aquele evento tenha sido o marco inaugural daquilo que alguns passaram a chamar de “pós-tropicalismo”.

Nessa fase, entre 69 e 72, o músico grava seu primeiro compacto simples, elabora com o guitarrista Lanny Gordin os arranjos de base do disco Legal de Gal (que pouco depois transformaria “Vapor Barato” de Macalé e Waly Salomão num hino hippie, regravado décadas depois pelo Rappa), produz o show Meu nome é Gal, dirige em Londres Transa, um dos álbuns mais importantes da carreira de Caetano, e lança seu primeiro LP, Jards Macalé.

Artífice, ao lado de Lanny e do baterista Tutty Moreno, de uma linguagem que, calcada em seu violão crispado, hibridiza lamento, rock, sussurro, guturalidade, blues e samba-canção; parceiro de Capinam, Torquato e Waly (com quem, após o sucesso do “Vapor”, criaria a “linha de morbeza romântica”), frequentador assíduo e emblemático do Posto 9 da Praia de Ipanema (o point dos desbundados naqueles verões), Macalé se tornou um dos maiores nomes da contracultura brasileira. Acontece que ele parece também alargar o conceito de contracultura.

Seus trabalhos subsequentes, Aprender a Nadar (1974) e Contrastes (1977), reafirmando a pegada vanguardista, começam a arriscar uma revisão do passado de nossa música popular (com releituras de Ismael Silva, Miguel Gustavo, Herivelto Martins, Paulo da Portela etc.) e nos fornecem mais uma peça do quebra-cabeça de sua persona: o malandro sambista, que vai excursionar com o rei do samba de breque Moreira da Silva e na década de 80 surge com Quatro Batutas e um Coringa, em que interpreta Paulinho da Viola, Nelson Cavaquinho, Lupicínio Rodrigues e Geraldo Pereira.

A desenvoltura de seu trânsito entre as diversas tribos da MPB já ficara patente no ano mais truculento da ditadura (1973), quando foi o organizador do espetáculo O Banquete dos Mendigos em celebração da Declaração Universal dos Direitos Humanos, realizado no MAM. Macalé reuniu, entre outros, Gal, Paulinho, Chico Buarque, Milton Nascimento, Edu Lobo e Raul Seixas. O álbum duplo resultante do espetáculo, gravado clandestinamente, só foi liberado pelos militares em 1979 quando o organizador do Banquete, sempre anárquico, presenteou o General Golbery com um exemplar.

Episódios como o “lançamento” de Aprender a Nadar sob o vão central da Ponte Rio-Niterói (em referência indireta às ameaças de afogamento que sofria de um agente da repressão), o hábito de fazer shows em presídios e sanatórios, a detenção sob acusação de pornografia durante excursão com Morengueira, as demonstrações de incompatibilidade com o comercialismo das gravadoras e a visita performática ao então presidente Figueiredo no hospital acabaram rendendo ao compositor o epíteto de “maldito”, veementemente negado (“maldito é a…!”).

Filho de uma época em que os diversos campos artísticos dialogavam assiduamente, Macalé desenvolveu também uma relação profunda com o cinema. Ele não apenas participou da criação das trilhas sonoras dos clássicos Macunaíma de Joaquim Pedro de Andrade, O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro de Glauber Rocha e Amuleto de Ogum de Nelson Pereira dos Santos, como atuou nesse último e em Tenda dos Milagres (do mesmo diretor). Mais tarde voltaria a atuar em curtas-metragens e no longa Big Jato de Cláudio Assis, além de ser o mote dos documentários Jards, um morcego na porta principal de Marcos Abujamra e João Pimentel e Jards de Eryc Rocha.

Depois de jogar xadrez na Sala Cecília Meirelles com John Cage (!!!), cantar com Jackson do Pandeiro, dividir projetos com Naná Vasconcelos (o álbum Let’s Play That), com Guinga, Zé Renato e Moacyr Luz (o show/DVD Dobrando a Carioca) e com vários artistas da cena recentíssima da canção brasileira (Juçara Marçal, Ava Rocha, Kiko Dinucci, Tim Bernardes e outros que surgem em Besta Fera, de 2019), Macalé amplia ainda mais o rol de seus parceiros, dividindo pela primeira vez um trabalho com o lendário pianista e compositor João Donato: Síntese do Lance – lançado por nossa gravadora Rocinante. Esse “encontro de dois iconoclastas de estirpe”, segundo a definição do crítico Tárik de Souza, foi indicado ao Grammy Latino na categoria de Melhor Álbum de Música Popular Brasileira de 2022.

Seguindo o embalo, uma de nossas próximas empreitadas será o disco “Mascarada”, em que Jards Macalé e o trio do pandeirista Sergio Krakowski nos oferecem interpretações “free líricas” de sambas de Zé Keti.

E o público sempre poderá revistar outros tantos macalés — tortos, soltos, loucos.

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Homenagem

“Macalé que nos deixou no dia de hoje, deixa um legado de liberdade artística e experimentação sonora, com colaborações marcantes com Gal Costa, Moreira da Silva, Nara Leão e Tom Zé”.

Profundo pesar pelo falecimento de Jards Macalé, artista fundamental para a música brasileira e figura incontornável da vanguarda cultural do país. Cantor, compositor, instrumentista e inquieto criador, Macalé construiu uma obra marcada pela liberdade, pela experimentação e pela recusa às convenções — qualidades que o tornaram referência para diversas gerações.

Ao longo de mais de cinco décadas de trajetória, transitou por gêneros, linguagens e movimentos, colaborou com alguns dos maiores nomes da cultura nacional e deu ao público canções que atravessaram o tempo, sempre preservando sua integridade estética e sua postura crítica. Sua contribuição para a arte brasileira segue como patrimônio imaterial, vivo e inspirador.

Neste momento de tristeza, o Ministério da Cultura se solidariza com familiares, amigos, parceiros de criação e admiradores de Jards Macalé, reafirmando o reconhecimento e a importância de sua obra para a história cultural do Brasil.”


terça-feira, 28 de outubro de 2025

SHOW: SEU JORGE

Seu Jorge

Festival - João Rock
2025

Mega show do mega Seu Jorge, entregando tudo no Palco Brasil!


Músicas: 00:00 Mina do Condomínio 05:29 Sim Mais 10:00 Sábado À Noite 14:00 Batuque 16:50 Gente Boa Se Atrai 20:54 Carolina 27:09 Pessoal Particular 31:35 Shock 35:44 Quem Não Quer Sou Eu 41:09 Amiga da Minha Mulher 45:09 Alma de Guerreiro 49:18 Burguesinha.


quarta-feira, 22 de outubro de 2025

MPB: Jadsa

Jadsa
Olho de Vidro - 2021

Jadsa Castro, conhecida apenas como Jadsa, é uma cantora, compositora, produtora musical e guitarrista brasileira. 

Em 2015 lançou seu primeiro trabalho de estúdio, "Godê", seguido por outro EP, "TAXIDERMIA vol.1", em 2020.

Olho de Vidro (2021). “A primeira vez que eu escutei essa faixa eu falei […] ‘eu tenho uma voz minha, mas eu tenho uma voz da minha consciência também’. Eu acho que Itamar brincava muito com essa coisa dele e com o que está sendo dito e o que não é dito”, analisa.

A artista explica que conheceu o trabalho de Itamar Assumpção em 2015, quando ainda vivia em Salvador e tocava na Banda Monstra. “Minha mãe que me indicou. Falou: ‘Estou entendendo que você está com um movimento ‘meio assim’, acho que você vai gostar de ouvir Itamar Assumpção. Já escutou?’ Eu falei ‘não, minha mãe’. Ela: ‘Pesquisa’. Aí eu pesquisei Itamar, entrei nessa viagem”, lembra.


Radicada em São Paulo desde 2018, Jadsa diz que o contato com o universo de Itamar foi porta de entrada para outras referências da vanguarda paulistana. “Eu acho que é isso mesmo da identificação, da homenagem que eu precisava fazer para Itamar por ter me mostrado esse caminho e por ter me dado força pra correr atrás do meu disco e por ter me dado uma assinatura ali, do tipo ‘tem isso aqui, tem esse modo de fazer’. Me ensinou, me professou assim”, reflete.


Para ela, o impacto do artista vai além das questões técnicas. “Falar de Itamar é muito do meu sentimento, eu não tenho o que ficar falando dele tecnicamente e coisas assim. É surreal, mas eu acho que ele mexeu comigo no meu sentimento, na minha composição e na minha cabeça. Ele virou uma chave na minha cabeça que é isso: começar a enxergar de outro jeito, começar a fazer de outra forma e estar incomodado para fazer”.


Zélia Duncan: Marina Sena & Mari Jasca

Marina Sena & Mari Jasca

O futuro promissor da música brasileira, 
com a benção de Zélia Duncan!

Programa Por Acaso: 
Vozes que Transformam a Música Brasileira

Marina Sena e Mari Jasca se encontram pela primeira vez para compartilhar histórias, inspirações e trajetórias únicas. Entre conversas sobre arte, mercado musical e empreendedorismo, as artistas apresentam versões exclusivas de seus sucessos, como Por supuesto e Ladeira do Castro. Um encontro musical inesquecível, gravado na Pinacoteca de São Paulo, que celebra a força, a autenticidade e a diversidade da música brasileira.


Mari Jasca
Mari Jasca

Com raízes argentinas, vivência nas ruas e nas noites cariocas, Mari Jasca é uma das vozes mais singulares da nova cena independente brasileira. Cantora, compositora, atriz, artista circense e produtora, ela constrói sua trajetória a partir da mistura — entre gêneros musicais, linguagens artísticas e territórios afetivos.

Seu primeiro disco solo, Disparada, lançado no final de 2024, passou por palcos como o Sesc Belenzinho (SP), Teatro Ipanema (RJ) e a feira gastronômica de Búzios (RJ), ultrapassando os 210 mil plays nas primeiras semanas no Spotify. No trabalho, ela une forró, pop, milonga, flamenco, jazz e ritmos latinos com beats modernos, sintetizadores e grooves dançantes — tudo isso atravessado por letras que falam de coragem, desejo e liberdade.

Marina Sena
Marina Sena

É uma cantora e compositora brasileira nascida em Taiobeiras, Minas Gerais. Com sua mistura única de MPB, pop e influências regionais, ganhou destaque nacional após o sucesso de “Por Supuesto”, que viralizou nas plataformas digitais. 

Seu primeiro álbum a revelou no cenário musical, e o Vício Inerente, segundo álbum da carreira, reafirmou seu talento com hits carregados de personalidade, acompanhado por uma turnê de diversos shows lotados por todo o Brasil.

domingo, 14 de setembro de 2025

Hermeto Pascoal

Jazz Fusion Brasileiro

Flora Purim/Hermeto Pascoal 

Open Your Eyes, You Can Fly 

(The Midnight Special, 1976)

Janis Ian introduz uma rara apresentação de Flora Purim no programa "The Midnight Special", exibido em 23 de abril de 1976 pela NBC. 

Banda:
Vocalista: Flora Purim
Flauta: Hermeto Pascoal 
Percussão: Airto Moreira 
Guitarra: David Amaro 
Teclados: Hugo Fattoruso 
Bateria: Jorge Fattoruso 
Baixo: Ringo Thielmann 
Vocais: Bonnie Bowden