Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

EDUCAÇÃO: Dia dos Professores

15 de Outubro

Dia dos Professores

Educação e Escolaridade

O Brasil precisa promover o encontro entre a escola e a educação como tarefa de afirmação da vida e invenção soberana do mundo.


Na semana da efeméride do “dia dos professores”, é justo lembrar da sentença sucinta de Darcy Ribeiro: a crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto. Ainda que concorde, ouso ser um pouco mais preciso que o mestre. Não é exatamente a educação que vive uma crise meticulosamente projetada; e sim a escola como instituição educativa.

Educação é um fazer constante e cotidiano, expresso nas artimanhas de se experimentar o mundo em qualquer canto: ruas, praças, feiras, universidades, quadras de escolas de samba, botequins, igrejas, terreiros, campos de futebol, florestas, livrarias, bailes, museus, festas populares etc

Não existe escola democrática sem a ideia de negociação permanente e o princípio de que não há detentores do monopólio do saber, da inteligência, da beleza estética ou da verdade. As sociedades contemporâneas são complexas e heterogêneas. A escola, por isso mesmo, deve pensar permanentemente o dissenso criativo e o convívio entre diferentes com direitos correlatos. E para isso, precisa discutir, debater e fomentar ideias.

Charles Taylor dizia que um indivíduo e um grupo de pessoas podem sofrer um dano irreparável se a gente ou a sociedade que os rodeiam lhes mostram como reflexo, uma imagem degradante, limitada e depreciada sobre eles. Frantz Fanon falava do racismo simbólico, que desqualifica saberes dos subalternos e incute a noção da inferioridade de suas culturas como verdade indiscutível.

Nada é pior para trabalhar a diversidade que o modelo de escola determinista, individualista e privatista: aquele que destaca mais o que a pessoa não sabe do que aquilo que ela é capaz de saber e ornamenta isso com o discurso da neutralidade, como se ela fosse possível. Esse modelo é especialista em destroçar a estima dos educandos e realizar a tarefa da degradação dos corpos. É a escola como fábrica de gentes doentes e desencantadas.

A escola como instituição não pode ser estruturalmente seletiva e inimiga da diversidade. Apesar disso, continuamos (com bravas exceções) nos baseando na avaliação de resultados (e não na avaliação de processos) sobre critérios supostamente objetivos – provas e testes convencionais, por exemplo. Esse modelo esconde a não aceitação da diversidade ao usar critérios fechados para avaliar diferentes.

O modelo educacional exclusivamente centrado na sala de aula é uma instituição falida (a sala de aula, de novo com exceções, é um espaço estruturado para domesticar e controlar os corpos), o processo de aprendizagem tem que dialogar com a rua, o ensino baseado em avaliações convencionais fracassou, o excesso de conteúdo é um disparate, os currículos normativos produziram conhecimentos vazios e a imposição do cânone ocidental na educação brasileira – como recorte quase exclusivo do saber – é fomentadora de preconceito, intolerância, violência e dor contra os que não se enquadram no padrão uniforme que o cânone preconiza como modelo a ser seguido.

A cereja do bolo do ataque à escola no Brasil é uma excrescência que avançou nos últimos anos resumida no bordão “escola sem partido”; lema vazio que desqualifica professoras e professores e, sobretudo, alunas e alunos, imaginando que eles sejam marionetes no processo de aprendizagem. A turma da escola sem partido é aquela que vê a educação – um campo de experiências inventivas de libertação dos mundos pela cultura – como um espaço de adestramento para o mercado e produção em larga escala de pessoas adoentadas.

Como, entretanto, promover o encontro entre a escolaridade e a educação em um contexto de precarização, sob todos os aspectos, do magistério? Temos políticas públicas efetivamente interessadas na valorização da educação, da escola, das professoras e professores e de todos os profissionais envolvidos no ambiente escolar?

É o desafio que está colocado. Não concebo missão mais urgente para a construção de um país justo, fraterno e plural: o Brasil precisa promover o encontro entre a escola e a educação como tarefa de afirmação da vida e invenção soberana do mundo.

Plataforma Instituto Conhecimento Liberta

Luiz Antonio Simas
Professor de história, educador popular, escritor, poeta e compositor. Tem mais de 30 livros publicados sobre as culturas populares do Brasil. Foi finalista do Prêmio Jabuti em quatro ocasiões e ganhador do mesmo prêmio na categoria Livro do Ano de 2016, em parceria com Nei Lopes, pelo Dicionário da história social do samba (Civilização Brasileira, 2015). Suas canções foram gravadas por artistas como Maria Rita, Marcelo D2, Rita Benneditto, Douglas Germano, Moyseis Marques, Lúcio Sanfillippo e Fabiana Cozza.


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