Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

A perseguição a Paulo Freire


O Golpe Militar de 1964 e a Perseguição a Paulo Freire

Fim da Experiência de Alfabetização de Brasília e do PNA

A experiência de Brasília, como um projeto-piloto de alfabetização de adultos a ser disseminado para o restante do país, foi subitamente interrompida pelo golpe de Estado que instaurou a ditadura militar no Brasil, a partir de 31 de março de 1964. As atividades educativas e culturais desenvolvidas pelo referido projeto, no segundo semestre de 1963 e com expansão iniciada em março de 1964, foram tachadas de subversivas e ficaram impedidas de funcionar, diante da presença ostensiva das forças armadas no centro do poder e das ameaças à ordem democrática.

O golpe de Estado, que resultou na mais extensa das ditaduras militares da América Latina, instaurou, no país e em Brasília, um clima de arbitrariedade e opressão. A ditadura, que buscava eliminar o projeto de nação comprometido com os menos favorecidos e com a soberania nacional, atingiu, rapidamente, o grandioso Plano Nacional de Alfabetização (PNA), criado pelo presidente João Goulart, em 21 de janeiro de 1964. Por força do Decreto n.º 53.886, de 14 de abril de 1964, o governo militar revogou o Decreto n.º 53.465, que havia instituído o PNA há menos de três meses e determinou a recolha, pelo Departamento Nacional de Educação, de todo acervo e recursos utilizados na execução do Programa.

O vendaval que assolou o país espalhou, apreendeu e destruiu a maior parte dos registros e materiais utilizados por Paulo Freire e seus colaboradores, no projeto-piloto de alfabetização de Brasília, assim como nas experiências que o antecederam e nas atividades realizadas no âmbito do PNA. Em Brasília, já no dia seguinte ao golpe, iniciou-se a recolha do material didático utilizado nos círculos de cultura, inclusive nas residências dos supervisores e coordenadores do projeto, segundo depoimento da professora Renée Simas. Instalou-se um sentimento de medo nas comunidades beneficiadas pelo projeto, o que, muitas vezes, levou à destruição do material pelos próprios alfabetizandos e demais envolvidos.

Simultaneamente, teve início a perseguição a Paulo Freire. No dia do golpe, ele e Elza, sua esposa, encontravam-se em Brasília e, em meio a fortes tensões, foram acolhidos por um amigo, em seu apartamento. Curiosamente, tratava-se do então deputado federal da UDN, Luiz Bronzeado, seu ex-colega no curso de Direito, em Recife. Apesar de ser um parlamentar da situação, prevaleceu, em sua atitude, a amizade que mantinha com Paulo Freire desde a juventude. O casal permaneceu nesse local, em segurança, até o dia 13 de maio, quando viajou para o Recife.

Nessa data, que estava prevista para a solenidade de inauguração do PNA pelo presidente João Goulart, o Ministério da Educação divulgava, pela imprensa, um levantamento do material usado na campanha de alfabetização, com o arrolamento de um vasto equipamento fotográfico, avaliado em vários milhões de cruzeiros e publicações consideradas de caráter subversivo pelos gestores do regime militar. A volta à sua cidade natal acarretou a Paulo Freire novos transtornos, sendo submetido a interrogatórios e inquéritos administrativos e policiais militares. Acusado de subversivo, foi preso no dia 16 de junho, permanecendo nessa condição por 75 dias, em um quartel de Olinda, PE.

As medidas repressivas da ditadura militar também atingiram promotores e executores do projeto-piloto de alfabetização de Brasília. Como informam pesquisas realizadas na página “Memórias Reveladas”, do Arquivo Nacional, muitos inquéritos policiais militares tiveram de ser respondidos por pessoas envolvidas na experiência, desde os que ocuparam cargos no MEC até alfabetizadores que atuaram nos círculos de cultura.

Diante das circunstâncias e do risco de ser preso novamente, o educador foi convencido pelos amigos a deixar o país. Aos 43 anos, pai de cinco filhos e com uma carreira promissora, ele se viu obrigado a pedir asilo à Embaixada da Bolívia. Concedido o asilo, viajou para lá sozinho, no mês de setembro, e a família uniu-se a ele meses mais tarde.

Após uma rápida estada na Bolívia, Paulo Freire embarcou, em novembro de 1964, para o Chile a fim de trabalhar no Instituto de “Capacitación y Investigación de la Reforma Agraria” (Icira), no qual permaneceu até 1969. No Chile, havia, então, um clima favorável ao educador para desenvolver as suas teses. Vale lembrar que, naquele país, ele escreveu dois de seus livros mais conhecidos: Educação como Prática da Liberdade (1965) e Pedagogia do Oprimido (1968).

Em 1969, aceitou convite para lecionar nos Estados Unidos e passou a residir com a família em Cambridge, Massachusetts, onde atuou, durante 11 meses, como professor visitante da Universidade de Harvard.

Em 1970, a convite do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), mudou-se com a família para Genebra, Suíça, onde permaneceu até 1980, exercendo a função de consultor educacional na instituição. Durante a sua permanência no cargo, percorreu mais de trinta países, nos cinco continentes, levando os seus ensinamentos para orientar experiências educacionais, com destaque aos países africanos de língua portuguesa.

Paulo Freire e Elza viveram no exílio durante longo período, que perdurou 16 anos. Apesar da imensa saudade de sua terra e de sua gente, o educador encontrou motivação para perseguir seus ideais educacionais e contribuir para o desenvolvimento das comunidades nos países em que atuou. Acrescente-se ainda que, na sua peregrinação pelo mundo, Paulo Freire pôde consolidar e ampliar o seu conhecimento e difundir os paradigmas de uma educação transformadora e emancipadora.

No entanto, a ausência forçada do Brasil representou um retrocesso das políticas públicas, que visavam a erradicação do analfabetismo e a formação de uma consciência cidadã.

No seu retorno ao país, o educador marcará, em diversos momentos, a sua presença na capital federal, contribuindo em pautas relevantes para a educação brasiliense.

Escola Viva: Paulo Freire

Escola Viva
O Método Paulo Freire e a Leitura do Mundo
( Entrevista para o programa TV Cultura )

Em uma definição clássica, o termo “método” é entendido como o processo racional utilizado para chegar-se a determinado fim. Em se tratando do método criado por Paulo Freire, o percurso a ser trilhado decorre de construção e aperfeiçoamento constantes, tendo em vista atender a finalidade a que se destina: alfabetizar pessoas trabalhadoras adultas, sem escolarização, de modo a capacitá-las a fazer a leitura do mundo, buscando uma tomada de consciência da realidade, para transformá-la.

A pedagogia freiriana não se resume a processos metodológicos que conduzam simplesmente à leitura e à escrita da palavra, dada a compreensão de que esses conhecimentos são os recursos necessários para fazer a leitura do mundo. Nesta concepção, o método nega a mera repetição alienada e alienante de frases, palavras e sílabas, ao propor aos alfabetizandos “ler o mundo” e “ler a palavra”; leituras, aliás, indissociáveis, como enfatiza Paulo Freire. Com essa finalidade, ele propõe uma educação problematizadora, de caráter crítico reflexivo, de desvelamento da realidade, que se desenvolve por meio de diálogo, no decorrer do qual o aprendiz vai descobrindo o mecanismo da formação das palavras escritas.

O trabalho pedagógico, concebido de acordo com tais referenciais, sustenta-se pela dimensão cultural, de cunho antropológico, que vai muito além de proporcionar uma simples leitura desprovida de sentido para o alfabetizando, na medida em que adentra o seu universo existencial. A premissa é de que o homem, como criador de cultura, ao tomar consciência de sua realidade, torna-se sujeito, capaz de, por meio de ação política, contribuir para a sua transformação. As reflexões de Paulo Freire são esclarecedoras da sua opção pelo conceito antropológico de cultura. Como se evidencia na fala do educador, a natureza exprime o que é dado ao homem; a cultura, o que é por ele feito.

Por agregar, aos ensinamentos da leitura e da escrita, estratégias pedagógicas direcionadas ao desenvolvimento da consciência crítica e participação política dos alfabetizados, o método Paulo Freire é considerado revolucionário. Além de alfabetizar, conscientizar e politizar, o método traz evidências de ampla e profunda compreensão da educação, razão pela qual lhe é atribuído caráter universal, que o tornou mundialmente conhecido e adotado em vários países. A interrupção das experiências freirianas no Brasil, pelo golpe militar de 1964, levou o educador a peregrinar pelos quatro continentes, durante o longo período em que esteve exilado de seu país, firmando-se como um dos maiores educadores do século XX.


segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Política & Educação: Paulo Freire

Política & Educação
( Paulo Freire )

Palestra Política e Educação, proferida por Paulo Freire no auditório do Centro de Formação Profissional do Banco do Brasil - DESED - Brasília - Distrito Federal, em 1993. Gravação dirigida e editada pelo diretor Maurício Pinheiro. O Mestre e Educador Paulo Freire sempre acreditou e defendeu que a educação é um ato político que não pode ser dissociado da pedagogia. Ele definiu esta narrativa como um princípio principal da pedagogia crítica. Onde professores e alunos devem estar cientes das "políticas" que cercam a educação. É isso que demonstra nessa sua famosa palestra.



quarta-feira, 15 de outubro de 2025

EDUCAÇÃO: Dia dos Professores

15 de Outubro

Dia dos Professores

Educação e Escolaridade

O Brasil precisa promover o encontro entre a escola e a educação como tarefa de afirmação da vida e invenção soberana do mundo.


Na semana da efeméride do “dia dos professores”, é justo lembrar da sentença sucinta de Darcy Ribeiro: a crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto. Ainda que concorde, ouso ser um pouco mais preciso que o mestre. Não é exatamente a educação que vive uma crise meticulosamente projetada; e sim a escola como instituição educativa.

Educação é um fazer constante e cotidiano, expresso nas artimanhas de se experimentar o mundo em qualquer canto: ruas, praças, feiras, universidades, quadras de escolas de samba, botequins, igrejas, terreiros, campos de futebol, florestas, livrarias, bailes, museus, festas populares etc

Não existe escola democrática sem a ideia de negociação permanente e o princípio de que não há detentores do monopólio do saber, da inteligência, da beleza estética ou da verdade. As sociedades contemporâneas são complexas e heterogêneas. A escola, por isso mesmo, deve pensar permanentemente o dissenso criativo e o convívio entre diferentes com direitos correlatos. E para isso, precisa discutir, debater e fomentar ideias.

Charles Taylor dizia que um indivíduo e um grupo de pessoas podem sofrer um dano irreparável se a gente ou a sociedade que os rodeiam lhes mostram como reflexo, uma imagem degradante, limitada e depreciada sobre eles. Frantz Fanon falava do racismo simbólico, que desqualifica saberes dos subalternos e incute a noção da inferioridade de suas culturas como verdade indiscutível.

Nada é pior para trabalhar a diversidade que o modelo de escola determinista, individualista e privatista: aquele que destaca mais o que a pessoa não sabe do que aquilo que ela é capaz de saber e ornamenta isso com o discurso da neutralidade, como se ela fosse possível. Esse modelo é especialista em destroçar a estima dos educandos e realizar a tarefa da degradação dos corpos. É a escola como fábrica de gentes doentes e desencantadas.

A escola como instituição não pode ser estruturalmente seletiva e inimiga da diversidade. Apesar disso, continuamos (com bravas exceções) nos baseando na avaliação de resultados (e não na avaliação de processos) sobre critérios supostamente objetivos – provas e testes convencionais, por exemplo. Esse modelo esconde a não aceitação da diversidade ao usar critérios fechados para avaliar diferentes.

O modelo educacional exclusivamente centrado na sala de aula é uma instituição falida (a sala de aula, de novo com exceções, é um espaço estruturado para domesticar e controlar os corpos), o processo de aprendizagem tem que dialogar com a rua, o ensino baseado em avaliações convencionais fracassou, o excesso de conteúdo é um disparate, os currículos normativos produziram conhecimentos vazios e a imposição do cânone ocidental na educação brasileira – como recorte quase exclusivo do saber – é fomentadora de preconceito, intolerância, violência e dor contra os que não se enquadram no padrão uniforme que o cânone preconiza como modelo a ser seguido.

A cereja do bolo do ataque à escola no Brasil é uma excrescência que avançou nos últimos anos resumida no bordão “escola sem partido”; lema vazio que desqualifica professoras e professores e, sobretudo, alunas e alunos, imaginando que eles sejam marionetes no processo de aprendizagem. A turma da escola sem partido é aquela que vê a educação – um campo de experiências inventivas de libertação dos mundos pela cultura – como um espaço de adestramento para o mercado e produção em larga escala de pessoas adoentadas.

Como, entretanto, promover o encontro entre a escolaridade e a educação em um contexto de precarização, sob todos os aspectos, do magistério? Temos políticas públicas efetivamente interessadas na valorização da educação, da escola, das professoras e professores e de todos os profissionais envolvidos no ambiente escolar?

É o desafio que está colocado. Não concebo missão mais urgente para a construção de um país justo, fraterno e plural: o Brasil precisa promover o encontro entre a escola e a educação como tarefa de afirmação da vida e invenção soberana do mundo.

Plataforma Instituto Conhecimento Liberta

Luiz Antonio Simas
Professor de história, educador popular, escritor, poeta e compositor. Tem mais de 30 livros publicados sobre as culturas populares do Brasil. Foi finalista do Prêmio Jabuti em quatro ocasiões e ganhador do mesmo prêmio na categoria Livro do Ano de 2016, em parceria com Nei Lopes, pelo Dicionário da história social do samba (Civilização Brasileira, 2015). Suas canções foram gravadas por artistas como Maria Rita, Marcelo D2, Rita Benneditto, Douglas Germano, Moyseis Marques, Lúcio Sanfillippo e Fabiana Cozza.


quarta-feira, 17 de setembro de 2025

HiStÓrIaS Do BrAsIl: Paulo Freire

Paulo Freire
| Documentário: Paulo Freire 100 Anos |

Paulo Freire foi professor das universidades de Harvard, nos Estados Unidos, e Cambridge, na Inglaterra, e teve mais de 40 títulos de doutor honoris causa em universidades como Oxford, na Inglaterra, e Coimbra, em Portugal. "Paulo Freire, 100 Anos" traz os principais estudiosos da obra do educador para explicar a sua importância e, ao mesmo tempo, os motivos dele estar sendo vítima de tantos ataques extremistas.

"Não me imitem, me refaçam"
(Paulo Freire)

Na semana em que se comemorou os cem anos de nascimento do patrono da educação brasileira, Paulo Freire, a TV Cultura exibe um documentário inédito sobre o educador, produzido pelo departamento de jornalismo da emissora. 
Apresentada pelo jornalista e diretor Leão Serva. O livro Pedagogia do Oprimido é um marco na obra de Paulo Freire, um grande pensador brasileiro das ciências humanas e um dos mais reconhecidos em todo o planeta.