Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

DiScOs InCrÍvEiS: Muddy Waters

Willie Dixon: baixo acústico, Buddy Guy: violão e Muddy Waters: voz e violão.

Muddy Waters
"Folk Singer"

' Um íntimo álbum de blues gravado em 1964 '

Esse é o clássico álbum acústico de um artista de blues famoso por seu trabalho com guitarra elétrica. Em 1964, a Chess, gravadora de Waters, estava preocupada com o boom do folk e como isso poderia impactar as vendas de discos. Então, eles fizeram com que Waters gravasse um álbum de blues acústico, dando-lhe um nome enganoso, talvez para ludibriar compradores de discos desatentos.

Waters, originário do Condado de Issaquena, Mississippi, liderou a eletrificação do blues em Chicago, que definiu o tom (e o padrão) para o rock e o blues durante o meio século seguinte. A breve história do blues começa no sul rural dos Estados Unidos, com artistas usando a voz e algum tipo de instrumento de corda. A partir da década de 1940, alguns desses músicos eventualmente se dirigiram para o norte, para Chicago, onde continuaram a tocar, mas precisavam de instrumentos elétricos para serem ouvidos em meio ao barulho da multidão.

O álbum é uma prova da perspicácia contínua da indústria fonográfica. No mesmo mês em que Folk Singer foi lançado, os Rolling Stones lançaram seu álbum de estreia. Não só o nome da banda é uma referência a uma canção de Waters, como esse álbum de estreia incluía a música "I Just Want to Make Love to You", também de Waters. Assim, enquanto a Invasão Britânica estava prestes a explodir o rock e o pop, impulsionada por artistas de blues elétrico como Waters, Leonard e Phil Chess, donos da Chess Records, estavam preocupados com o folk. Basta dizer que, em retrospectiva, eles perderam uma grande oportunidade e interpretaram mal o futuro da música (embora imagine os últimos 50 anos do pop se Joan Baez estivesse no comando, como os irmãos Chess previram).

O álbum Folk Singer contava não apenas com o próprio Waters, mas também com Willie Dixon no contrabaixo e Buddy Guy na guitarra. Dixon era uma lenda do blues, autor de inúmeras canções famosas, incluindo a já mencionada "I Just Want to Make Love to You". Ele também tocou com todos os grandes nomes do blues. Dixon não era apenas a alma do blues, ele era o seu coração pulsante. A lenda do blues, Guy, tinha apenas 28 anos, sendo praticamente um desconhecido na época. Era uma banda incrível.

Por melhor que a banda fosse, o álbum resiste ao teste do tempo devido à forma como Waters e Dixon abordaram o conceito do álbum. Dixon nasceu em Vicksburg, Mississippi, e, assim como Waters, cresceu tocando blues acústico. Grande parte dessa música do Delta nunca foi gravada e as gravações existentes eram de qualidade precária. Alan Lomax, que registrou muitas dessas apresentações para a Biblioteca do Congresso — incluindo um jovem Waters — trabalhava em campo usando os equipamentos da época, que, infelizmente, não eram dos melhores.

Assim, Waters e Dixon recriaram esse tipo de som country blues, usando técnicas de gravação contemporâneas e adicionando bateria (a bateria sublime de Clifton James, para ser exato). O resultado uniu brilhantemente o blues do Delta e o blues elétrico de Chicago, criando algo atemporal que permanece relevante até hoje.

Waters demonstra suas intenções com a primeira faixa, "My Home Is in the Delta", uma composição original. Um solo de slide guitar solitário inicia a música, com um riff que lembra Robert Johnson, antes da entrada da bateria de James e do baixo de Dixon. A voz de Waters logo surge, soando divina. Sua voz é profunda como um cânion e é possível ouvir cada sutileza de suas cordas vocais. Ele canta com calma, o oposto de muitas canções do Delta, que frequentemente pareciam ter um quê de mania. O slide guitar de Guy é melódico, mas com uma crueza country. Em conjunto, isso resume por que o álbum é atemporal. Waters e Dixon reinventam a música de sua juventude para os tempos modernos, numa fusão perfeita do antigo e do novo.

Mas o álbum não é apenas o que havia de mais moderno no início dos anos 60; ele poderia ser lançado hoje e continuaria atual. "Good Morning Little School Girl", um clássico do blues gravado por artistas como John Lee Hooker, Chuck Berry e Grateful Dead, soa nítido e sofisticado aqui. A bateria e a guitarra se encaixam perfeitamente, criando um groove singular, enquanto a voz imponente de Waters canta suavemente sobre tudo. O andamento é perfeito, oscilando entre um galope e um ritmo lento, e não há uma nota extra sequer. Está anos à frente de grande parte da música do início dos anos 60, que ou parecia superproduzida ou espartana demais.

O crítico da Rolling Stone, JD Considine, chamou a reedição de Folk Singer de "maravilhosamente íntima" em 1994. Íntimo é a palavra perfeita para descrever o álbum. Você consegue ouvir todos os instrumentos perfeitamente, como se estivesse na sala com a banda. Você consegue ouvir a voz de Waters claramente, porque ele não precisa se esforçar para ser ouvido em meio aos instrumentos elétricos. De certa forma, Folk Singer é o antídoto perfeito para os desafios que inicialmente levaram artistas como Waters a usar amplificadores. Eles precisavam ser ouvidos, e gravar dessa maneira permitiu que Waters fosse ouvido sem a necessidade de amplificação.

A grande questão sobre Folk Singer é se é um álbum perfeito ou se é a lente através da qual a perfeição do blues é vista. Todo álbum de blues acústico é, em certa medida, julgado em comparação com Folk Singer. Ele definiu o gênero imediatamente, mesmo que não o tenha inventado. A maioria das pessoas que talvez não conheçam o blues provavelmente pensa no som de Folk Singer — a bateria relaxada, o slide guitar acústico, o baixo pulsante — como a essência do blues. Mas a perfeição também vem das performances. Waters, Guy e Dixon formam um time de estrelas, assim como Otis Spann, que toca piano e gaita em algumas faixas. Assim como O Poderoso Chefão é o padrão pelo qual todas as histórias da máfia são julgadas, Folk Singer se destaca igualmente para o blues, do conceito à execução.

Folk Singer não é o típico trabalho de Muddy Waters, mas ainda assim é um álbum importante. Enquanto os adolescentes britânicos se empolgavam com a música elétrica de Waters, Folk Singer os levava de volta ao blues do Delta. Claro, nem todos precisavam de indicações (o adolescente Eric Clapton já era um fã fervoroso de Robert Johnson), mas Folk Singer serviu como uma ótima transição para um passado não tão distante. Ainda bem que os irmãos Chess tinham tão pouco conhecimento de cultura popular.

1. "My Home Is in the Delta" - Waters 3:58
2. "Long Distance" - Waters 3:30
3. "My Captain" - Willie Dixon 5:10
4. "Good Morning Little Schoolgirl" - Sonny Boy Williamson 3:12
5. "You Gonna Need My Help" - Waters 3:09
6. "Cold Weather Blues" - Waters 4:40
7. "Big Leg Woman" - John Temple 3:25
8. "Country Boy" - Waters 3:26
9. "Feel Like Going Home" - Waters 3:52


segunda-feira, 7 de julho de 2025

Muddy Waters


Muddy Waters
' as águas lamacentas do mississippi '

McKinley Morganfield nasceu provavelmente em 4 de abril de 1913, no condado de Issaquena, estado do Mississipi, EUA. A data é incerta devido ao apagamento histórico e da negligência institucional dos registros da população negra devido às leis (jim crown) de segregação racial.

Resgatando esse gigante da música, pode-se dizer que a cena pós-guerra blueseira de Chicago, sem a magnífica contribuição de Muddy Waters, é absolutamente inimaginável. Dos anos 40 em frente, ele eloquentemente definiu um estilo agressivo, arrogante, calcado na música do Delta, com seus vocais declamatórios e penetrante ataque de "slide guitar". De fato, Waters foi um produto do fértil Delta do rio Mississippi. Nascido McKinley Morganfield, em Rolling Fork, ele cresceu perto de Clarksdale, na fazenda Stovall.
Seu ídolo era o poderoso Son House, um patriarca do Delta cujo trabalho golpeado de slide e intensidade intimidante Waters iria emular no futuro, ao seu próprio estilo. O pesquisador Alan Lomax viajou por aquela região em agosto de 1941 a trabalho pela Biblioteca do Congresso Americano, em busca de novos talentos e na tentativa de realizar gravações de campo. Ao descobrir Morganfield, Lomax deve ter percebido imediatamente que havia esbarrado em alguém muito especial. 

Com seu equipamento portátil, Lomax capturou para a posteridade uma hipnotizante versão de "I be's Troubled" (que se tornaria um grande sucesso quando regravada, anos depois, para a Chess, renomeada para "I Can't Be Satisfield"). Lomax retornaria, no verão seguinte, para registrar também sua perícia no "bottleneck" e gravar faixas com os "Son Simms Four" (uma banda de cordas a qual Waters pertencia). O apelido vinha de sua bravura em tocar pelo Delta, mas ele só ganharia destaque em 1943 ao migrar para as luzes de Chicago.
O produtor Lester Melrose acompanharia Waters num registro para a Columbia, mas as melodias urbanas daquelas faixas não impressionariam ninguém na hierarquia do selo e ficariam arquivadas por décadas. O pianista Sunnyland Slim teria um papel importante na decolagem da carreira de Waters. Ele convidaria-o para participar de uma sessão de gravação em 1947 que registraria a faixa "Johnson Machine Gun". Waters, que trabalhava de dia numa firma de persianas, teria que mentir ao seu chefe, alegando a morte de um primo, para só assim participar desta oportunidade de ouro. Ao final da sessão, Waters havia cantado 2 faixas ("Little Anna Mae" e "Gypsy Woman", esta se tornaria sua estreia no selo Aristocrat, em 78 rotações).
Logo depois, ele reuniria uma banda tão coesa e viciante no palco que passaria a ser conhecido como "The Headhunters": Little Walter (que revolucionaria o papel da harmônica dentro do blues de Chicago), Jimmy Rogers (um guitarrista-base sensacional) e "Baby Face" Leroy Foster (capaz de tocar bateria e guitarra). Além disto, todos sabiam cantar poderosamente. Em 1951, Waters começou a aparecer nas paradas de R&B ("Louisiana Blues", "Long Distance Call", "Honey Bee", 'Still A Fool"). "Rollin' Stone", outra faixa desta época, não alcançaria sucesso, mas forneceria nome a uma nascente banda do rock inglês. Em 1952, viria o sucesso com "She Moves Me". Em 1953, "Mad Love" traria o piano de Otis Spann, que ancoraria a banda de Waters pelos 16 anos seguintes.
Só havia um problema em se ter uma banda tão boa: a marca registrada de Waters, o slide, ficaria ausente em muitas destas gravações para a Chess. Willie Dixon, o grande baixista, passou a tocar com Waters e a lhe fornecer composições especialmente escritas para ele: "I'm Your Hoochie Coochie Man", "Just Make Love To Me" e "I'm Ready", todas grandes sucessos em 1954. Quando seu colega de gravadora Bo Diddley pegou emprestado a batida de Waters para a sua "I'm A Man", em 1955, ele devolveu na mesma moeda e fez "Mannish Boy" outro grande sucesso. "Sugar Sweet" seria outro destaque daquele ano.
Em 1956, novos hits: "Trouble No More", "Forty Days & Forty Nights" e "Don't Go No Farther", entretanto o crescimento do Rock & Roll rapidamente ofuscava o brilho das estrelas do blues. A Chess passou a se dedicar aos modernos sons de Chuck Berry, Bo Diddley, The Moonglows e The Flamingos. Ironicamente, havia sido Waters quem trouxera Berry para a Chess. E assim, só haveria mais uma faixa a escalar as paradas: "Close To You", em 1958, ainda que a qualidade da produção de Waters para a Chess permanecesse sensacional em pérolas como "Walking Thru The Park" (numa linha bem próxima do estilo rock) e "She's Nineteen Years Old". Este, ainda, seria o ano em que Waters faria sua primeira visita à Inglaterra onde sua guitarra eletrificada deixaria sedados os britânicos acostumados à música folk caseira de Big Bill Broonzy. Talvez, para amenizar, Waters tenha pago tributo num sólido LP com material de Broonzy, em 1959. "Got My Mojo Working" originalmente havia sido gravada em 1956 sem qualquer sucesso.
Mas quando a banda pisou no palco do Newport Jazz Festival, em 1960, e detonou uma versão eletricamente supercarregada, com James Cotton (harmônica) e Spann colocando um ritmo totalmente novo, ela tornar-se-ia instantaneamente um clássico. À medida que a década de 60 evoluia, os discos de Waters para a Chess passariam a soar algo cansados. Em 1962, colocando vocais numa faixa instrumental de Earl Hooker, "You Shook Me", Waters acertaria a direção, tanto que o Led Zeppelin, anos depois, ficaria tão fascinado que a recriaria.
Durante o renascimento do "Folk Blues", Waters voltaria ao estilo no LP "Folk Singer", no qual receberia o soberbo apoio do jovem guitarrista Buddy Guy, com Dixon no baixo e Clifton James na bateria. Ao longo desta década, sua banda mudaria muito mas sempre mantendo a qualidade. Em 1964, Waters gravaria suas 2 últimas joias para a Chess: "The Same Thing" e "You Can't Lose What You Never Had". Infelizmente, quase tudo que registraria depois seria esquecível, com destaque negativo para a horrível aventura pela psicodelia, em "Electric Mud", de 1968. Parcialmente salvando este período de baixa, há o projeto "Fathers And Sons" (de 1969), também para a Chess, junto com Spann, Paul Butterfield e Mike Bloomfield numa espécie de celebração do legítimo blues de Chicago.

Então, após um período de muitas turnês mundiais, mas de gravações de pequeno destaque, Waters ressuscitou-se em estúdio pela ajuda de um de seus discípulos, o guitarrista Johnny Winter. "Hard Again", gravado pela Blue Sky (uma subsidiária da Columbia) é um reencontro do grande Waters rugindo como um leão, assessorado por Pinetop Perkins (piano), Willie Smith (bateria), Bob Margolin (guitarras), os 3 de sua banda de turnês, mais James Cotton e Winter (guitarras incendiárias). Os 3 álbuns seguintes manteriam o ótimo nível. Por ocasião de sua morte, em 1983, o lugar de Muddy Waters na história do Blues (e da música popular do século 20) já estava eternamente assegurado. Mas o gênero que ele carregou ao longo dos anos, o blues de Chicago, nunca se recuperaria de tamanha perda.